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AS DÉCIMAS E OUTROS VERSOS DE DIZER ( I )

por Francisco Galego, em 06.01.14

Estes versos, feitos para serem declamados, podem ter um ritmo e uma métrica diferentes e caracterizam-se pelo encadeado dos versos em função do tema escolhido como nuclear de cada poema.

A preocupação central destas com posições poéticas, é essencialmente narrativa. Em muitas delas predomina a ironia. Outras são mais descritivas, tendo frequentemente um intenção moralizante.

Quanto à estrutura formal, nas “décimas” aparece primeiro uma quadra a que se chama mote. Seguem-se depois quatro estrofes de dez versos (daí o nome décimas). Cada uma dessas estrofes ou décimas, acaba com o verso que, pela mesma ordem, aparece na quadra de mote. Assim, o primeiro verso do mote é o último da primeira décima, e o último verso do mote terá de ser o último verso da última décima.

No mote a rima é do tipo a,b,c,b ou a,b,a,b. Nas décimas o esquema de rima é o a,b,b,a,a,c,c,d,d,c

 

               Mote

 

A mulher com quem eu casei,

Sempre viveu farta e cheia;

Mandava-a temperar a açorda,

Com as “cordalhas” da candeia.

 

                       I

Não via a cor ao dinheiro,

Com isso era estimada,

Muitas vezes era escovada,

C’uma escova de marmeleiro.

Isto é que é o verdadeiro,

Mentiras nunca as direi,

Uma saia lhe comprei,

Ao fim de casado dez anos.

Vendeu tripas aos milhanos,

A mulher com quem casei.

 

                   

                     II

Um ano matei-lhe um porquinho,

Que não pesava uma grama,

Para comer teve fama,

Ainda lhe sobrou toucinho.

Comia muita carne e bebia muito vinho,

Quando chegava em casa alheia,

Se pedia uma boa ceia,

Em recompensa dava-lhe um tombo,

De água nos olhos e lenha no lombo,

Viveu sempre farta e cheia.

 

                      III

Uma vez chamava-lhe filha,

Outra vezes era “canorsa”,

A cama era de palhoça,

Levantava-a com uma forquilha.

Como ninguém ela brilha,

Isso posso eu afirmar,

Fome nunca a deixei passar,

Mas sempre desviada da fartura,

Com a sombra da gordura,

Mandava-a temperar o jantar.

 

                      IV

Era uma boa sujeita,

Disso poso eu dar sinais,

Do que via comer às mais,

Ficava ela satisfeita.

Era de barriga estreita,

Escassa como uma centopeia,

Não enchia tripa e meia,

Era uma louva-a-deus de gorda,

Mandava-lhe temperar a açorda,

Com as “cordalhas” da candeia.

 

                           ( Declamado por: José Francisco Toureiro Rúbio)

 

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publicado às 08:03



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