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PARA A MEMÓRIA HISTÓRICA DE OUGUELA

por Francisco Galego, em 09.10.07

                                                Bela cidade d’Ouguela,

                                      Dá vistas p’ra Lapagueira;

                                      Mal empregada cidade,

                                      Estar em tão alta ladeira.

 

            Por uma natural tendência para a mitificação, a tradição popular local refere-se a Ouguela como tendo sido terra de antigas e consideráveis grandezas. Ora, muito provavelmente, Ouguela nunca terá sido terra de grande dimensão. Foi certamente vila fortificada de grande importância militar na defesa duma zona da fronteira difícil de defender das ambições dos nossos vizinhos, tão inquietos até certa altura da história do nosso país.

            De uma forma mais ponderada podemos tentar compreender o passado de Ouguela da seguinte maneira: Em tempos recuados, quando as terras, mesmo as mais notáveis cidades, não tinham grandes dimensões, não se dava tanto pela pequenez das terras pequenas como era Ouguela. Mas, à medida que, pelo desenvolvimento da arte da guerra, os castelos deixaram de ser importantes para a defesa do território, houve povoações que se viram condenadas a um inevitável empobrecimento, arrastando-se numa difícil luta pela sobrevivência. Apesar de tudo, Ouguela não teve o destino de muitas outras povoações que desapareceram completamente. Algumas delas não deixaram vestígios, nem grande memória.

            Para que o mesmo não venha a acontecer com Ouguela, resolvi recolher a informação possível sobre esta antiga vila, hoje tão esquecida quanto reduzida em gente e em dimensão. Venho agora tentar dar conta dos dados que, sobre esta questão, consegui em tão pouco tempo reunir.

           

Na obra Portugal Antigo e Moderno – Diccionario geográfico, estatistico, chorographico, heraldico, arqueológico, histórico, biographico, e etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias, publicada em 1874 por Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal, podemos encontrar uma interessante e pormenorizada descrição de Ouguela feita há cerca de 130 anos.

Segundo o autor desta obra, Ouguela é povoação muito antiga e, segundo vários escritores, teria sido povoado romano com o nome de Budua e, mais tarde, repovoada pelos godos que a teriam baptizado de Niguella, designação que terá dado origem ao actual nome de Ouguela.

Um correspondente em Campo Maior do jornal A Voz do Alemtejo, em 1865, afirmava que Ouguela teria sido cedida por Afonso X, o Sábio, como dote de sua filha D. Beatriz, quando esta casou com o El-rei de Portugal D. Afonso IV, o Bravo. Tudo está errado nesta afirmação: as datas e as personagens.

Segundo o texto bem informado de Pinho Leal que estamos a seguir, Ouguela situada a nordeste de Campo Maior, frente à povoação espanhola de Albuquerque, terá passado à posse de Portugal ao mesmo tempo que Campo Maior e Olivença, em virtude do Tratado de Alcanizes, no reinado de D. Dinis, em 1297.

Era povoado cercado de muralhas e defendido por um castelo mas, porque as suas defesas e casas estivessem arruinadas, D. Dinis terá mandado reedificá-las, dando ao povoado o foro de vila com privilégios semelhantes aos da cidade de Évora, como consta em carta expedida de Lisboa, datada de 5 de Janeiro de 1298. (Livro 2º das Doações do rei D. Dinis, Folha 6 verso, col. 2ª, § 3º).

Em 1512, Ouguela recebeu foral novo de D. Manuel I (Livro dos foraes novos do Alemtejo, folha 65 verso, col. 2ª).

Em 1536, D. João III confirmou os privilégios de Ouguela por uma sentença de foral datada de Lisboa, 10 de Novembro. (Livro das sentenças a favor da coroa, folha 24, col. 2ª).

 

 

Segundo o Diccionário Chorographico de Portugal Continental e Insular de Américo Costa, publicado em 1934, No Cadastro da população do reino ou Numeramento de 1527, é dito que: “Achou-se na vila de Ouguela dentro da cerca e arrabalde 144 fogos, achou-se no termo da dita vila 19, o que soma 163 fogos o que corresponderia a uma população de cerca de 600 habitantes. (A população de Campo Maior era quatro vezes mais numerosa que a de Ouguela).

O Padre Carvalho da Costa na sua Corografia Portugueza e Descriçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal de 1707, atribuiu à Freguesia de Nª Sª da Graça de Ouguela 250 fogos, o que fazia de Ouguela, com cerca de um milhar de habitantes, uma povoação de razoáveis dimensões no final do século XVII, início do século XVIII; Oliveira Freire em 1755 achou que nela ainda existiriam 187 fogos.

Até ao século XVIII, Ouguela serviu de guarda avançada da linha defensiva constituída por Olivença, Juromenha, Elvas e Campo Maior. Mas nunca foi terra de grande casario nem de numerosa população: Algumas moradias dentro do castelo e duas ruas de casas no arrabalde que, ainda hoje, ficam fora do recinto muralhado. Parte da sua população seria constituída pelos elementos da sua guarnição militar.

Depois, com a perda da importância militar, Ouguela entrou num inexorável declínio: em 1864, teria cerca de 350 habitantes. Hoje terá apenas algumas dezenas.

Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues na sua obra Portugal _ Diccionario Histórico, Biographico, Bibliographico; Heraldico; Chorographico, Numismatico e Artistico, publicado em 1906, faz ampla referência às Águas minerais de Ouguela.

Segundo se afirma nesta obra, estas águas foram apresentadas na Exposição Universal de Paris de 1867, com as seguintes referências:

Nascente mineral de Ouguela – Está situada perto de um forte e da igreja de uma pequena aldeia de seu nome Ouguela…

É a única água mineral, entre as que foram examinadas em Portugal continental, que possui uma quantidade considerável de nitratos.

Já em 1810 o Dr. Francisco Tavares, médico de D. Maria I, na sua obra Instruções e cautelas práticas…referia o seguinte:

As águas minerais desta vila (Ouguela), são únicas em Portugal.

Segundo a tradição, a sua primeira origem é à distância de uns 300 passos da Atalaia de S. Pedro, de onde corre para o forte contíguo à igreja e por baixo desta e da muralha sai e continua por 10 ou 12 passos, por um aqueduto, junto à fonte. Nesta corre por duas bicas de ferro nas quais a soma total da água anda por dois anéis no Inverno, sendo metade, às vezes menos, no Verão.

Os canos das bicas estão carcomidos e rotos pela passagem da água.

É esta fria e cristalina, sem cheiro algum, mas o seu sabor na fonte é áspero e ácido e custa a sofrer; porém, perde-o passado algum tempo depois de estar em vasos de barro, tornando-se então própria para o uso comum; mas quase ninguém a bebe porque dizem que faz abalar os dentes e separarem-se as gengivas.

Emprega-se para amassar o pão, que fica alvo, leve e saboroso.

Não cose legumes nem carne pois que, ainda que fervam muito tempo, ficam duros, negros e incapazes de comer-se.

Esta água é gasosa pelo gás ácido carbónico em excesso, com alguma porção de carbonato e sulfato calcário.

É próprio de todas as águas que abundam em gás carbónico, não criarem peixes, nem os consentirem vivos; nem os insectos e vermes, mesmo que sejam aquáticos.

A substância que se forma nas vasilhas de vidro, pode vir de outros depósitos de minerais, mas também pode ser resultado da combinação do hidrogénio com o ácido carbónico e o oxigénio que forma uma matéria oleosa – a nafta…

Estas águas são aplicadas com vantagem nas debilidades de estômago, vómitos, hidropisias e para expulsão de vermes intestinais, incluindo a ténia ou bicha-solitária.

Terá sido desta água, considerada única no seu género em Portugal, que o Sr. Barão de Barcelinhos, em 1865, mandou recolher amostras para as fazer analisar pelo Dr. Agostinho Vicente Lourenço que depois de rigorosas análises a terá feito apresentar na exposição em Paris no ano de 1867?

Que terá sido feito desta fonte donde brotava esta água de poderes medicinais tão maravilhosos?

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publicado às 14:45



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