Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Em primeiro lugar, saúdo os que aqui estão presentes, com especial destaque para o ilustre visitante que tanto nos honra com a sua presença. A honra fica acrescida pelo facto de este livro já ter sido antes apresentado, com grande aceitação e sucesso, em locais considerados de grande destaque e importância no que respeita a actos de índole cultural. Por isso, estamos reconhecidos ao seu autor, pela amabilidade que teve ao vir até nós, apresentar esta sua obra que tem sido tão apreciada pelos leitores e tão elogiada pelos comentários da crítica especializada.

 

Em segundo lugar, tenho previamente que confessar, publica e abertamente o seguinte:

Até há muito pouco tempo, desconhecia completamente este autor e as obras que tem vindo a publicar: A ESCRAVA DE CÓRDOVA – publicada em 2008, A PROFECIA DE ISTAMBUL – publicada em 2010 – e O SEGREDO DE COMPOSTELA – publicada neste ano de 2013.

 

Um amigo comum, o Pedro, aqui presente, sabendo à partida que muito me iria agradar com tal lembrança, trouxe-me um livro anunciando-me que aqui seria apresentado. Intitulava-se O SEGREDO DE COMPOSTELA e trazia uma dedicatória do seu autor em que expressava os votos de boa leitura ao redor dos mistérios do nosso passado colectivo.

Tanta amabilidade não podia deixar indiferente o apreciador que eu sou de romances históricos, um género literário em que, como leitor, tenho investido tanto do meu tempo e com tanto tenho ganho, devido ao meu interesse pela História, principalmente sobre a que se refere à nossa terra e às gentes que foram construindo a nossa cultura.

 

O romance histórico tem encontrado entre nós cultores geniais que vão desde Alexandre Herculano e Almeida Garrett, no passado, aos actuais, de que intencionalmente destaco apenas alguns, por serem do meu conhecimento directo e muito do meu apreço, como Fernando Campos, Seomara da Veiga Ferreira, Deana Barroqueiro e João Paulo Oliveira e Costa, a que agora acrescento a grande surpresa que foi descobrir, neste livro, a mestria de Alberto S. Santos, o seu autor. 

 

O romance histórico é um dos géneros literários que mais exige àqueles que, como autores, a ele se dedicam, quando pretendem não fazer uma simples proposta de entretenimento. Sendo fundamentalmente romance de reconstituição de figuras e de temas históricos, exige qualidade descritiva, interesse temático, elegância de linguagem e clareza narrativa. Mas, acima de tudo, porque se apresenta como histórico, assume perante os seus leitores, o compromisso de se fundamentar num conhecimento aprofundado das situações, dos sentimentos e das emoções que se propõe apresentar. Ou seja, no romance histórico, à qualidade literária deve acrescentar-se o conhecimento tão profundo quanto possível, dos temas centrais da narrativa, a fim de que esta ganhe realismo, interesse e credibilidade.

 

Foi tudo isto que eu encontrei ao ler esta obra. Não me importo de manifestar com grande entusiasmo e de uma forma superlativa, que o livro que aqui nos juntou para, neste momento, dele tomarmos conhecimento é, por muitas razões, um romance histórico de muito interesse e de uma extraordinária qualidade.

Trata-se de uma narrativa romanesca muito bem fundamentada num conhecimento profundo dos factos e das circunstâncias que evoca. E, um tal conhecimento, só pode ser adquirido por um apurado estudo histórico, fruto de um grande trabalho de investigação, de informação e de reflexão.

 

Trata-se de uma narrativa que nos suscita a cada passo, uma verdadeira emoção perante situações e sentimentos, referidos de modo tão realista que provocam uma forte impressão. Não tenho qualquer problema em testemunhar que foram muitos os momentos em que, durante a sua leitura, tive de a interromper porque fiquei fortemente emocionado.

 

Não se trata de uma narrativa para nos entreter, mas de uma reconstituição que, ainda que ficcionada, nos faz meditar. A sua leitura alarga o nosso conhecimento sobre a condição humana a qual, embora evoluindo, se conserva muito semelhante no que lhe é essencial, enquanto vai percorrendo e tecendo esse rasto do tempo a que chamamos História.

 

Este livro retrata personagens que, apesar de estarem distantes de nós pelos quase dois mil anos que nos separam, se nos assemelham tanto, no que respeita às suas atitudes, comportamentos e sentimentos que mais parecem ser nossos contemporâneos.

 

É esta a grandeza da nossa condição: vamo-nos adaptando às mudanças circunstanciais da nossa existência, mas permanecemos – para o bem mais sublime e para as mais abjectas maldades – fundamentalmente iguais ao que sempre fomos. Talvez porque é próprio da nossa condição e da nossa natureza de pessoas, sermos assim imperfeitos, mas, simultaneamente, emanar de nós, este poder de nos sublimarmos na mais etérea espiritualidade.

Em meu entender, este é o cerne da temática em que assenta a belíssima narrativa que o autor construiu neste livro.

 

Por outro lado, aborda-se nele a descrição de um tempo que, sendo de profunda crise, é também um tempo de gestação de grandes mudanças. Assistimos nele à agonia de um mundo e de um tempo que anunciava o fim próximo do Império Romano e um tempo em que já se anunciava um novo mundo que, tendo como base uma nova filosofia de vida assente no cristianismo, iria lançar as bases do novo milénio a que chamamos Idade Média, a qual constituiu a base de uma nova civilização que foi significativamente chamada de Civilização Europeia, Ocidental e Cristã.

 

É nesta viragem que assenta a essência analítica da narrativa. Centra-se na análise de como uma doutrina se foi afirmando pela aceitação de uma nova esperança e pela convicção de uma nova fé. E, ao mesmo tempo, de forma dramaticamente contraditória, mostra como nela se vão reinstalando os que, sequiosos de poder, começaram desde logo a corromper as novas bases e a subverter os novos princípios, procurando por todos os meios manter as razões que sempre orientaram as suas vidas: a imposição violenta do poder e da ganância; o uso da intriga e o recurso à conspiração e à traição, voltadas agora contra os que persistem em afirmar a pureza das suas convicções.

 

O SEGREDO DE COMPOSTELA, é uma narrativa de fundo histórico que se desenvolve em volta de um enigma que muito tem ocupado alguns historiadores. Mas eu, não pretendo desvendar aqui nem o conteúdo, nem o enredo do livro. Apenas tento, desta maneira simples e superficial, despertar o vosso interesse pela sua leitura.

Acreditem que muito terão a ganhar se decidirem fazê-la. Porque, de facto, sendo um livro grande pela sua dimensão e pelo número das suas páginas, é bem maior do que isso: é uma grande obra com a qual muito se pode aprender, pois nos leva à compreensão de quem eram, como viviam e com que intenções procediam os homens e as mulheres que começaram a erguer as bases da nossa civilização.

 

Queria ainda apenas acentuar um dos aspectos que mais me impressionou na leitura desta obra. Na maioria das obras sobre História, procura-se referir os aspectos que melhor testemunham a evolução, relatando sobretudo as mudanças que se vão operando. Mas, na verdade, o que na vida dos homens muda acaba sempre por ser menor do que aquilo que permanece. Por isso, eu aprecio muito os livros que dão especial importância àquilo que, ao longo do tempo, se vai mantendo, permanecendo, numa vida em contínua transformação.

Este livro, mais do que na evolução da sociedade, foca-se na análise do comportamento humano. Ora este é, por natureza, mais feito de permanências, limitando-se a adaptar-se às mudanças que se vão sucedendo. Por isso, é também um livro que se foca muito no que, para o bem e para o mal, vai permanecendo na natureza dos homens.

Em meu entender, este livro contém uma profunda reflexão sobre uma questão fundamental: a compreensão de que, se o mundo em que vivemos está em constante e rápida mudança, a natureza dos homens se mantem, no que lhe é fundamental, desde a origem dos tempos.

 

Repito: Este livro reporta, de forma romanceada, uma época muito importante para compreendermos a génese da nossa civilização. Trata-se do século IV, ou seja, do tempo em que o Império Romano agoniza, prestes a desaparecer, com a invasão da Europa, no século seguinte, pelos povos ditos bárbaros. Mas, o século IV, é também a época de início dum novo mundo, em que o cristianismo militante dos que seguiam e propagavam a doutrina cristã, sacrificando a própria vida em defesa da sua crença, começou a dar lugar ao cristianismo triunfante, que passou a ser reconhecido como religião oficial do Estado. Então, os cargos eclesiásticos começaram a ser ocupados pelos prepotentes que os utilizaram como instrumentos de repressão e de opressão contra os verdadeiros crentes, que para melhor consolidarem o seu poder, eles acusavam de estarem a renegar e a atacar a verdadeira doutrina.

 

O herói em que se centra a narrativa contida neste livro, é um exemplo sublime da eterna luta entre o Bem e o Mal.

Mais do que o objectivo de vencer a todo o custo os que o atacam usando o mal, ele foca o seu pensamento e a sua acção, na preocupação de nunca se desviar da sua missão de agir segundo o supremo bem.

 

Ao ler este livro lembrei-me muitas vezes da frase de um grande romancista que muito contribuiu para a minha formação enquanto pessoa. Leão Tolstoi escreveu: O Mal não pode vencer o Mal. Só o Bem o pode fazer. Demorei tempo a entender o que Tolstoi me queria ensinar e que é tão simples como importante: Pois que, se eu, para vencer o mal que me fazem, respondo com o mal, mesmo que eu vença, será o mal que venceu e não o bem. É esta a lição que o herói deste livro nos dá com a sua luta em defesa do Bem base da sua fé e das suas convicções.

 

 

 

«««««««««««««««««««««««««««««««««««««««

 

 

Assim fica cumprido o meu desafio que consistia em tentar convencer-vos a decidirem-se a ler esta obra notável. Cabe agora a cada um de vós aceitar, ou não, esta posposta que aqui decidi trazer.

Vou terminar com outra confissão: Fiquei com uma grande vontade de ler as outras duas obras que o autor – que hoje nos visita – também escreveu:

 

A ESCRAVA DE CÓRDOVA  e A PROFECIA DE ISTAMBUL.

 

Tentei informar-me sobre estas obras. Lendo-as, quero verificar uma observação que é, ainda, apenas uma simples suposição. Olhando para a trilogia formada pelos livros que este autor já publicou, ressalta-me a ideia de que todos eles fazem parte de um projecto.

Numa primeira análise parece-me que há três aspectos que os interligam, a saber:

 

Em 1º lugar - Nestas três obras, os tempos em que se inscreve a acção, correspondem a épocas de grandes viragens civilizacionais:

 

- A ESCRAVA DE CÓRDOVA, foca-se na viragem da Alta para a Baixa Idade Média, nesse período charneira da era medieval, que é a viragem do século X para o século XI;

 

- A PROFECIA DE ISTAMBUL, foca-se no período de declínio que anuncia o fim da Idade Média, com a emergência do Renascimento na Europa que é o começo de um novo tempo, dito a Idade Moderna;

 

- O SEGREDO DE COMPOSTELA¸ decorre na viragem do século IV para o século V que é o tempo do fim do Império Romano e o período de génese do mundo medieval.

 

Em 2º lugar- Nesta três obras, as questões religiosas têm um grande realce, bem como a vivência religiosa que deve conduzir à tolerância, a uma atitude de profunda caridade e de grande solidariedade;

 

Em 3º lugar - Nestas três obras, a luta do Bem contra o Mal consiste na busca do aperfeiçoamento moral e o amor é o sentimento sublime que une os seres na procura da felicidade.

 

Com a leitura das duas obras que me falta fazer, procurarei confirmar se se tratou apenas de uma mera coincidência, ou se estes aspectos comuns resultaram de uma opção intencional do seu autor. Garanto-vos que, muito em breve, poderei conferir esta minha suposição fazendo essa leitura. 

 

Antes de terminar gostaria de deixar uma proposta:

 

Creio que é a primeira vez que um livro que não foi escrito por um campomaiorense e que não tem como tema Campo Maior, foi aqui apresentado. Por isso, antes de terminar gostava de deixar esta proposta que poderia ser interessante:

Se entre os que estão aqui presentes, houver quem – depois de ler o livro – ache que nos poderíamos voltar a reunir para trocarmos impressões sobre a sua leitura, eu estaria muito interessado em participar nesse pequeno clube de leitores. Seria uma forma simples e útil de introduzirmos alguma animação cultural nas nossas vidas que às vezes se tornam um pouco monótonas.

 

Muito obrigado pela atenção que me dedicaram.

 

 

 Francisco Galego - Centro Cultural – Campo Maior, 29 de Nov. de 2013

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:16



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D