Quinta-feira, 19 de Abril de 2018

PARA TI NESTE DIA 19 DE ABRIL...

 

O nosso viver tende a ser formado por uma sequência, em que o antes foi o ponto de partida do presente e este será a base em que assentará o nosso futuro. Por isso, manda a cautela que se procure ir construindo uma sequência de projectos de vida, pois essa será a forma mais organizada de irmos tecendo o nosso viver.

Nesta perspectiva, torna-se importante a ponderação do nosso passado a fim de bem entendermos o que convém que sejam as nossas acções, para tentarmos garantir alguma segurança em relação ao que, em consequência, queremos que a nossa vida possa vir a ser no tempo futuro. Se o resultado não for o esperado, haverá sempre a consolação de termos tentado e, provavelmente, a capacidade para ponderarmos a melhor maneira de nos adaptarmos às condições que nos foram ditadas pelo imprevisíveis acasos que as constituem.

Mas, claro que existem outras opções. E, cada um de nós, tem a liberdade de fazer outras escolhas, assumindo depois as consequências que daí possam advir.



publicado por Francisco Galego às 10:03
Sábado, 14 de Abril de 2018

Nas casas de João de Aguiar Mexia(1), no Terreiro das Estalagens(2), se tem acomodado o Sr. Infante D. Francisco, as três vezes que tem vindo a esta Praça. Sendo a primeira em segunda-feira, 18 de Dezembro do ano de 1713, a segunda em 14 de Setembro de 1714 e a terceira em 13 do dito mês de Setembro de 1715.(3)

Nestas casas se fez aposentadoria para S. Majestade, que Deus guarde, no ano de 1716. De que não usou porque, vindo no dia 12 de Novembro a esta Praça, voltou no mesmo dia a Elvas, por causa da chuva que sobreveio (4).

João V, vinha acompanhado de seus irmãos, os Senhores Infantes D. Francisco e D. António, todos em coche e, com eles: o Marquês de Marialva, D. Diogo de Noronha, camarista de Sua Majestade; D. Duarte António da Câmara, depois Conde de Aveiras, camarista do Sr. D. Francisco; e Rodrigo de Melo da Silva, depois Conde de S. Lourenço, camarista do Sr. D. António. Acompanhava Sua Majestade, o Duque de Cadaval, D. Nuno Álvares Pereira, Mestre de Campo General junto à sua real pessoa e Governador das Armas da Província de Estremadura, o qual vinha a cavalo.

Governava esta Praça o Brigadeiro Estêvão de Moura e Azevedo, o qual teve ordem por carta do Secretário de Estado, Diogo Mendonça de Corte Real, escrita no dia antecedente, para que não fizesse nenhuma demonstração militar, nem política, porque S. Majestade estava incógnito e assim o ordenava (…)

O governador esperou El-Rei à entrada da porta da Praça com os Coronéis D. Felipe Alarcão de Mascarenhas, do Regimento de Infantaria; Martinho Afonso Mexia, do Regimento de Cavalaria; o Tenente Coronel de Cavalaria João da Rocha de Vasconcelos; o Sargento-Maior de Infantaria, Fernão da Mesquita Barba; o Sargento-Maior da Praça, Francisco da Silveira; e muitos outros oficiais.

Sua Majestade não se deteve e se foi apear à Igreja de S. João Baptista, aonde lhe beijaram as mãos os oficiais referidos e os da Câmara e algumas pessoas particulares. Daí passou a ver o Castelo e, na Praça de Armas estava formado o Regimento de Infantaria.

Subiu El-Rei à Torre Grande e dela viu toda a Praça e o terreno em que foram abertos os ataques para o Sítio do ano de 1712. Daí passou à Igreja Matriz onde foi recebido com Pálio e Te-Deum Laudamus e com mais cerimónias do ritual.

Tornou a entrar no coche e, sem mais demora, voltou a Elvas, desaprovando o dia a resolução de dormir uma ou duas noites nesta Praça, para o que tinha chegado a ela João Xavier a preparar as casas sobreditas, nas quais quis seu dono manifestar o ardente desejo de servir a Sua Majestade, mandando prover a sua ucharia (5) de tudo o que pode permitir o pouco tempo de uma noite e uma manhã.

Mandou S. Majestade dar cem moedas para os soldados da guarnição da Praça.

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In, (Estêvão da Gama, Notícias da Antiguidade, Aumento e Estado Presente da Vila de Campo Maior (...), ( p. 52 e 53)

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(1) Refere-se ao que foi depois chamado Palácio de Olivã, onde agora está instalada a Biblioteca Municipal João Dubraz; a Repartição das Finanças Públicas e o Lagar-Museu do Azeite.

(2) Hoje Largo do Barata. Chamava-se "das Estagens", pela mesma razão porque a actual Rua da Poterna, se chamou "Rua da Estalagem Velha". Pois que,  por estarem situadas perto das entradas da vila, ali estavam as casas onde se acomodavam os visitantes.

(3) Estas visitas tinham como finalidade, acompanhar a reconstrução da vila que ficara muito afectada como consequência da destruição provocada pelo Cerco de 1712.

(4) Nesta época não existia ainda a ponte sobre o Caia, tendo este rio que ser passado a vau, coisa que se tornava impraticável na situação de grandes chuvadas.

(5) Ucharia = despensa provida de bens alimentares e outros, destinados à acomodação dos hóspedes que se recebiam em casa.



publicado por Francisco Galego às 15:03
Segunda-feira, 09 de Abril de 2018

Houve uma urgente necessidade de reforçar a defesa da fronteira do Alentejo, no inicio de 1641, começo da "Guerra da Restauração".

O conde de Vimioso, que assumiu o posto de capitão-general do Alentejo, concentrou os meios de defesa em Elvas, sendo depois substituido por Matias de Albuquerque que devastou algumas terras da Estremadura espanhola, tendo obtido uma importante vitória no lugar de Lobon, perto do Montijo. Esta Batalha do Montijo deu grande ânimo ao exército português, tendo Matias de Albuquerque sido agraciado com o titulo de Conde de Alegrete.

 O conde de Monterrey, fortificado em Badajoz, atacou Campo Maior e Olivença. Campo Maior apesar de dispor de poucos meios, resistiu. O ataque a Olivença foi mais violento  mas resistiu por ter esta vila ter sido prontamente socorrida.

Foi feito um grande esforço para reparar as fortalezas e castelos da raia, alguns dos quais estavam desmantelados.

A guerra recrudesceu em meados de 1648. Elvas tornou- se o alvo privilegiado dos ataques que fizeram perigar a defesa da cidade que sofreu um cerco de três meses: Outubro, Novembro e Dezembro. A peste agravou muito a situação de defesa da cidade, chegando a fazer 300 mortos por dia.

Quando cehegaram reforços, sob o comando do conde Cantanhede, às quais se juntaram as guarnições de Juromenha, Vila Viçosa, Borba, Campo Maior, Arronches e Monforte, foi possível passar ao contra-ataque a fim de impedir que o exército inimigo fosse atacar Lisboa. Obter uma vitória significaria assegurar a independência do reino.

No dia 14 de Janeiro de 1659, deu-se a batalha que constituiu um dos momentos mais altos para a vitória final na Guerra da Restauração: A Batalha das Linhas de Elvas.

Na manhã de dia 15 foi tomado o Forte da Graça. Os catelhanos deixaram mais de 5.000 prisioneiros, muitos mortos, alguns afogados no Caia e no Guadiana. Os outros foram refugiar-se em Badajoz.

  1. Sancho Manuel, devido a esta vitória, recebeu o título de conde de Vila Flor. O relato deste feito foi registado pelo conde da Ericeira.

Contudo, a guerra ainda se reacendeu nos anos de 1663 a 1665, em que se deram as últimas campanhas da Restauração.

Seguidamente começou uma crise política interna, no reinado de D. Afonso VI.

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IN, Joaquim Veríssimo Serrão – HISTÓRIA DE PORTUGAL, Vol. V (1640- 1750) - A RESTAURAÇÃO E A MONARQUIA ABSOLUTA, Ed. Verbo

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publicado por Francisco Galego às 15:03
Sexta-feira, 06 de Abril de 2018

A primeira igreja matriz de Campo Maior, dedicada a Santa Clara, ficava dentro dos muros do primitivo castelo, no local onde agora se situa um armazém que, até ao início do século XX, serviu de salão para festas, bailes, representações teatrais e outros divertimentos. Este edificio ainda conserva na sua fachada a bilheteira que dá testemunho desta utilização.  

O crescimento da vila e da população, entre os séculos XII e XVI, tornou esta igreja demasiado pequena e de difícil acesso, porque localizada fora da nova zona urbana para onde crescera a povoação. Daí a necessidade de ser construida uma nova igreja. A igreja foi dedicada a Nª Sr.ª da Expectação, nome que foi também dado a uma das duas freguesias urbanas que existem em Campo Maior.

Esta nova matriz que o povo durante muito tempo designou como a “Igreja Nova”, foi construida entre 1570 e 1646. No seu patio lateral leste, foi construida a Capela do Calvário, em 1707. Nos meados do séc. XVIII procedeu-se à colocação dos altares, das tribunas, do cadeiral do altar-mor e à pintura do altar do Santíssimo Sacramento.

Em 1766, no mesmo pátio lateral, foi construída a Capela dos Ossos, em memória das mortes provocadas pela explosão do paiol que estava na torre de menagem, por efeito de um raio, durante uma trovoada, em 16 de Setembro de 1732, entre as três e as quatro horas da madrugada. Das cerca de mil habitações que compunham a vila, cerca de 800 ficaram total ou parcialmente destruidas. A própria igreja matriz ficou muito danificada. Igrejas, conventos e edifícios em geral, sofreram os desastrosos efeitos da explosão.

Numa população de cerca de 5.000 habitantes, morreram cerca de 250 pessoas e ficaram feridas cerca de 2.000.

Graças à rápida decisão de D. João V que ordenou que se acudisse com importante socorro, a vila foi restaurada em pouco tempo para que pudesse acolher a população sobrevivente e para garantir a sua função de praça de guerra, defendendo a fronteira de qualquer tentativa de invasão que poderia ocorrer. E a memória de tal possibilidade estava bem presente devido ao cerco sofrido em 1712 que, devido a uma tenaz resistência, tão importante fora para garantia da independência, da paz e da segurança do nosso território.

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Quarta-feira, 04 de Abril de 2018

Depois do cerco de 1801, Campo Maior ficou ocupado pelas tropas francesas. Contudo, esta praça de guerra, pode considerar-se uma das que menos foi sentiu o peso desse domínio. Napoleão julgou os portugueses subjugados porque os viu sofridos. E contou achar da parte da Espanha igual moderação.

No início do ano de 1808, o comando francês teve por mais acertado abandonar a Praça de Campo Maior. À excepção de um Regimento de Suíços que entrou nesta Praça no dia 12 de Março e saiu no dia 13, não mais se viu tropa francesa, o que não foi pequena fortuna. Em consequência deste abandono, os seus armazéns foram espoliados de toda a pólvora, munições e apetrechos de guerra, as armas dos particulares foram guardadas em depósito. O Regimento Nº 20 que constituía a sua guarnição, foi desorganizado e extinto e uma parte dos seus elementos foram mandados para França. Esta extinção foi declarada no dia 14 de Maio de 1808.

Os arquivos, espingardas e mais utensílios militares foram mandados para Elvas. Igual espoliação se verificou quanto ao Hospital Real Militar e ao Assento. Mas a povoação foi deixada em paz.  

Quase sem saberem um do outro, os dois povos entraram em efervescência e se inflamaram. No dia 30 de Maio de 1808, deram-se os primeiros sinais de revolta em Badajoz os quais tiveram depois reflexos em Campo Maior.

Francisco Cesário Rodrigues Moacho, boticário e Luís José Xara, sem outra ocupação para além de um pequeno tráfico contingente sendo, portanto, ambos de condição humilde e medíocre fortuna, resolveram aproveitar a oportunidade da ocasião para restituir à sua Pátria a liberdade perdida. A estes juntou-se Francisco Pedro Xavier da Costa, que antes da desactivação da Praça era secretário do extinto Regimento Nº 20, da guarnição de Campo Maior e, sabendo que antigos militares estavam dispostos a passar a Espanha para assegurarem a sua subsistência combatendo ao lado dos espanhóis contra os franceses, resolveu ir com Cesário de jornada até Badajoz, em 8 de Junho. O primeiro procurava serviço como militar. O segundo procurou o comissário do Governo Supremo de Sevilha para lhe expor um plano que foi atendido com interesse sendo-lhe sido prometido que uma decisão seria tomada no praso de oito dias.

À conspiração associou-se em Campo Maior, o mercador Manuel António Gonçalves Niza que põs a sua casa à disposição para nela se reunirem.

Assim se deu começo ao processo que se veio a desenvolver em Campo Maior que, desde o início, teve a concordância e o apoio do General Galluzo que assegurava as ligações à Junta de Badajoz.

As tropas espanholas, designadas para ajudarem Campo Maior, eram comandadas por Nicolau Moreno de Monroy e consistiam num batalhão de cerca de 700 voluntários de Valença a que se juntou no dia seguinte um esquadrão do Regimento de Maria Luísa.

Guiadas por Luís Xara chegaram à Porta de São Pedro na madrugada de 2 de Julho de 1808, tendo-lhe sido franqueado o acesso à vila. Foram presos os responsáveis militares da vila. Quando o povo se começou a aperceber do que se estava a passar, começaram a surgir manifestações de apoio de uns e de desagrado de outros conforme era a sua afeição.

O comandante das tropas espanholas fez uma proclamação ao povo de Campo Maior. Foi constituída uma Junta do Governo Provisional de Campo Maior.

Cesário quis entregar as chaves da Praça ao Coronel Diogo Pereira da Gama do comandante de extinto Regimento Nº 20, mas este não as quis aceitar e daí resultou que o comando militar da Vila ficou entregue a Nicolau Moreno de Monroy. Este instalou o seu quartel general nas casas de D. José Carvajal.

A 4 de Julho procedeu-se à aclamação solene de Sua Alteza Real, o principie D. João. Foi rezada missa, tendo-se procedido à bênção das bandeiras de Espanha e de Portugal que foram levadas em procissão até ao castelo, ficando ali expostas lado a lado. Mas, a situação era perigosa, pois a vila estava desarmada, a praça com duas brechas, os armazéns sem munições e o inimigo fortemente armado e estacionado em Elvas.

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 Fonte: João Mariano de Nª Sr.ª do Carmo Fonseca -  Relação abreviada dos factos mais recomendáveis da revolução de Campo Maior em 1808, 1813.  

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:03
Segunda-feira, 02 de Abril de 2018

 

         Na manhã do dia 20 de Maio de 1801 apareceu, sobre as alturas da Cabeça Aguda, a 4ª Divisão do exército espanhol… que, assenhoreando-se logo da campanha, formou o sítio da praça. E, tendo-se esta de antemão preparado para fazer uma defesa porfiada, se rendeu por capitulação no dia 6 de Junho com inexplicável mágoa dos habitantes que desejavam o prolongamento da resistência, chegando muitos ao ponto de representar ao governador, que então era Matias José Dias Azedo, que desistisse da rendição e continuasse na defesa. Os egoístas e os fracos, que sempre os há e que por toda a parte se encontrarão, temeram. Azedo sossegou os ânimos e cedeu às circunstâncias. Talvez porque o estado das coisas pedisse isso mesmo, pois dependia de Campo Maior a tranquilidade do Alentejo e do reino. Pois que, enquanto esta praça resistisse, as hostilidades não cessavam nem se ultimava a negociação da paz em Badajoz.

            A obstinação que Azedo tinha mostrado nos 18 dias que durou o cerco e o bombardeamento da vila, tinha azedado de tal modo os espanhóis que estes chegaram a passar a ordem de multiplicarem as baterias e se avivar o fogo para arrasarem a fortaleza. E não podia deixar de ser assim porque os franceses, que estavam aliados aos espanhóis, já começavam a mostrar descontentamento pela demora de se obter a rendição desta pequena praça de guerra.

            A praça rendeu-se com efeito em 6 de Junho mas a guarnição militar ganhou o direito a todas as honras militares. A povoação tinha sido atingida por 8.342 balas de canhão, 257 bombas e 1.217 granadas.

            Assinada a paz, foi a vila evacuada pelas tropas espanholas no dia 22 de Novembro de 1801.

            Não se descuidaram os habitantes de reparar as ruínas provocadas pelo bombardeamento; as suas casas estavam em breve habitáveis. Mas a reparação não foi geral. Mais de 10 anos depois ainda se viam sinais de destruição na Igreja Matriz, no Convento de São Francisco, nas Casas da Câmara e em alguns outros edifícios.

            As fortificações não foram prontamente reparadas, nem era de esperar que tão depressa o fossem, porque, devido ao parecer dos inspectores que as vistoriaram, estava resolvido abandonar esta praça de guerra por falta de condições de defesa.

Campo Maior foi desguarnecido de artilharia. As suas duas portas ficaram sem pontes levadiças, as suas muralhas ficaram arruinadas tendo ficado quase destruído o Forte do Príncipe e derrubados dois grandes pedaços de muro entre os baluartes de São Francisco e de Santa Rosa e outro no lado ocidental do baluarte de São Sebastião.

 

 

In, Frei João Mariano de Nª Sª do Carmo Fonseca - Memória Histórica da Junta de Campo Maior. 1813

 

 



publicado por Francisco Galego às 17:20
Quinta-feira, 29 de Março de 2018

É Campo Maior uma das praças mais importantes da Província do Alentejo, fronteira de Badajoz, sem que entre uma e outra haja rio ou serra que possam impedir as operações de cavalaria. Faz também fronteira  com Albuquerque que é a segunda Praça da Província da Estremadura. 

(...) É esta Vila fortificada ao moderno, como uma das praças principais das fronteiras. O seu recinto é formado pelo Baluarte de S. João (1) e o de Santa Cruz, entre os quais o fosso que lhes corresponde é cheio de água. À sua parte maior, que é a que envolve o Baluarte de S. João, chamam o Lago; à parte mais pequena,  a que envolve o Baluarte de Santa Cruz, chamam o Laguinho. Têm as suas águas, muita tenca e excelentes pardelhas (2). Conservam-se todo o ano com abundância de água que recebem dos ribeiros da Fonte Nova e do Laguinho. Ao Baluarte de S. Cruz segue-se uma cortina muito extensa e, no remate dela, fica-lhe, a cavaleiro (3), o meio baluarte a que chamam do Curral dos Coelhos. A este segue-se o que se chama Baluarte de Lisboa. Entre este e o Baluarte de S. Sebastião está a Porta da Vila, a que chamam de Porta de Santa Maria. Segue-se o Baluarte da Boa Vista, a que se segue o Meio Baluarte de Santa Rosa, que está a ser restaurado;  a ele seguem-se, o Baluarte de São Francisco, o Baluarte da Fonte do Concelho e o Baluarte do Picha Torta (4), cuja cortina fecha a Praça no Baluarte de S. João e, nessa cortina, está situada a porta principal  da vila, a que chamam Porta de S. Pedro (5).

Tem excelentes fossos, bastantes esplanadas, estradas encobertas e, em algumas partes, contra-escarpas.Tem seis revelins, dois fortes, o principal chama-se Forte de S. João (6) e fica para a parte do nascente, o outro chamado  Forte do Cachimbo , fica mais para a parte do meio-dia (7).

Esta fortificação principiou-a D. João IV, tendo-a continuado a Rainha D. Luísa, El-Rei D. Afonso VI, El-Rei D. Pedro II e El-Rei D. João V, que Deus guarde.

Mas, sem embargo de não estar acabada e ter muitas imperfeições, resistiu ao Sítio que lhe moveram os castelhanos em 27 de Setembro de 1712, governando aquele exército o Marquês de Bay e as nossas armas Pedro de Mascarenhas e sendo governador da Praça, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo.”

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(In, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, Notícias da Antiguidade, Aumento e Estado Presente da Vila de Campo Maior, (pág.s 79 e 80).

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(1) Vulgarmente designado como "Cavaleiro".

(2) Os peixes costumam garantir a limpeza das águas. Mas, segundo testemunhos da época, estes peixes eram pescados e usados na alimentação pela população. Daí terá resultado uma continuada redução, provavelmente até à extinção.

(3) Sobreposto ou sotoposto.

(4) Este baluarte,aparecia assim nomeado nas plantas militares. Mas, porque esta designação deixou de ser apropriada, numa linguagem socialmente aceitável, passou a ser designado como Baluarte do Príncipe, em homenagem ao futuro D. João VI que, devido à instabilidade mental da rainha D. Maria I, sua mãe, era ele quem efectivamente, reinava em Portugal.  Este baluarte ocupava o espaço do quadrilátero irregular hoje confinado pela Avenida da Liberdade (lados N. e N.E.), pela Estrada Militar (lado S.) e pelo terreno ocupado pela Creche da Santa Casa da Misericórdia. Este espaço está agora  ocupado por prédios de habitação, por garagens e por armazéns. Da estrutura militar primitiva, restam apenas um pano de muralha, no lado virado a N. e outro confinando com o terreno onde está a Creche.  Ligava-se por uma cortina de muralha rodeada de fosso, orientada para S.E, com o baluarte da Fonte do Concelho e por outra cortina, com o Baluarte de S. João (dito a Cavaleiro), na direcção N.W.

(5) Por ter sido construída mais tardiamente, a chamada "Porta de S. Pedro" foi,  durante muito tempo, designada como  a "Porta Nova". Passou a ser o  principal acesso à vila, quando foi aberta uma nova ligação  à estrada para a cidade de Elvas que passava pela Fonte Nova, donde deriva também a estrada para Portalegre, passando por Degolados e Arronches.

(6) Era vulgarmente designado como "Forte das Pesetas". Foi depois demolido porque, devido à sua colocação e disposição, em caso de "sítio" constituiria uma posição perigosa, se ocupada pela artilharia das forças sitiantes.

(7) Ou seja, perto da estrada que, saindo pela porta de Santa Maria, faz a ligação à estrada para Elvas.


publicado por Francisco Galego às 15:12
Sábado, 24 de Março de 2018

Vejamos, numa listagem sucinta, os factos mais importantes da acção militar do Major Talaya, como comandante da praça de guerra de Campo Maior, durante o memorável Cerco de 1811:

 

Em 8 de Março, começou o cerco à fortaleza de Campo Maior pelo exército francês comandado pelo marechal Mortier que permanecia em Badajoz. Este mandou Girad cercar a vila que, organizado o cerco, intimou o Major Talaya, seu comandante, a render-se. Talaya recebeu os emissários, rodeado de artilheiros, milicianos, ordenanças e reformados do extinto regimento 20, mas fê-los comparecer fardados de oficiais de vários corpos para parecer que Talaya comandava uma numerosa guarnição.

Em 9 de Março, foi posto cerco à Praça por uma força de 4 a 5 mil sitiantes. Talaya dispunha de menos de 500 homens armados. Mas, porque sabia que Beresford estava a caminho, na esperança de ser socorrido, procurou resistir.  

Em 10 de Março, a cidade de Badajoz foi conquistada pelas forças francesas de Soult.

Em 13 de Março, Soult iniciou o regresso à Andaluzia com uma parte das forças que tinham estado concentradas em torno de Badajoz.

Em 16 de Março, deu-se o combate da Foz de Arouce, vencido o qual, Wellington obrigou o exército francês a continuar a retirada.

Em 20 de Março, Talaya negociou a rendição, na condição de só se efectuar se, até às 2 horas da tarde do dia 22, não fosse socorrido.

Talaya só tinha pólvora para mais um dia e os milicianos de Portalegre não queriam continuar a lutar. Contudo, com esta negociação ganhou a resistência por mais dois dias.

Em 22 de Março saiu, com honras militares, às 2 horas da tarde, com 30 artilheiros e alguns milicianos.

Em 24 de Março, entraram os franceses.

Em 25 de Março, os franceses retiraram à pressa devido à chegada de Beresford.

Em 3 de Abril, deu-se o combate de Sabugal, em que Wellington bateu Reynier e obrigou Massena a abandonar Portugal.

Em 5 de Abril, o exército francês comandado por Massena atravessou a fronteira entre Portugal e Espanha, em Aldeia do Bispo.

(Acabou assim a 3.ª Invasão de Portugal pelos franceses) 

Efectivamente, a acção do Major Talaya como comandante durante o Cerco de Campo Maior de 1811 foi, sobretudo muito notável, tendo em conta as dificílimas condições em que teve de actuar, devido à excassez de recursos. A Praça estava muito mal guarnecida de tropas, de munições, de equipamentos militares e de mantimentos, pois apenas dispunha de:

            -  45 artilheiros, com um equipamento constituido por:

            -  30 peças de artilharia;

            -  2 obuses, morteiros, pequenas quantidades de balas e de pólvora;

            -  230 homens de um regimento de milícias de Portalegre;

            -  300 ordenanças da vila, mas só havia armas para 100;

Em quase todas as referências à acção do Major Talya, como comandante durante o cerco de Campo Maior, sobressaem as que testemunham a maneira como ele procurou suprir as grandes dificuldades que tinha, tanto ao nível dos recursos humanos, como dos meios militares, para assegurar a defesa da Praça.

Recorrendo a uma estratégia fundada em inteligentes, prudentes e astutas tácticas, conseguiu iludir as dificuldades para ganhar a dilatação do prazo, até ao inevitável momento da rendição.

Simulou ter mais gente do que aquela de que realmente dispunha. Escondeu os pontos fracos de defesa. Iludiu dificuldades de resposta. Aparentou possibilidades que, na verdade, não existiam.

Recorrendo a uma estratégia de simulação, conseguiu ocultar a gravidade da situação que tinha de gerir. Com uma aparente serenidade evitou que se tornasse evidente a gravidade da situação que teve de enfrentar.

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NOTA: Como mera hipótese, consideremos que o Major Talaya, dados os tão fracos recursos de que dispunha (em homens, armas e munições), se tivesse desde logo rendido como antes tinha feito o governador de Olivença. Nesse caso, Campo Maior faria agora parte do terrotório português? Ou aí reside a razão de, até hoje, o  nome do Major Talaya constar na designação de uma das principais ruas desta vila que, devido à sua defesa em 1811, inclui no seu brasão as palavras:

LEALDADE E VALOR e

LEAL e VALOROSA VILA DE CAMPO MAIOR?

 



publicado por Francisco Galego às 10:49
Segunda-feira, 19 de Março de 2018

José Joaquim Talaya, nascido em Lisboa, na Freguesia da Ajuda, em 16 de Dezembro de 1757, pertencia a uma família de militares, muito prestigiada nas várias academias que, nesse tempo, constituíam os centros culturais e de convívio dos mais ilustrados.

Tendo já obtido a promoção em capitão, ligou-se pelo casamento a outra família de militares, a dos Silva Villar, casando, em 31 de Janeiro de 1799, com D. Rosa Clara Maria, filha legítima de um capitão e irmã de oficiais que se distinguiram como soldados das forças liberalistas, tal como os quatro filhos resultantes desse casamento, que também adoptaram a luta pela implantação e defesa do Liberalismo.

Tendo iniciado a sua carreia militar como oficial de infantaria, Talaya passou, depois dos estudos necessários, para a especialidade de engenheiraria militar.

Nomeado administrador da Real Fábrica da Pólvora em Barcarena, cargo que desempenhou durante alguns anos, em 29 de Abril de 1793 foi distinguido com a Ordem de S. Bento de Aviz, pela “distinção, zelo, honra, aplicação e actividade” com que desempenhou as suas funções.

Em 21 de Junho de 1800 foi promovido a sargento-mor.

 Dez anos depois, o Major Talaya iria distinguir-se como comandante militar, numa situação muito difícil, como comandante militar da praça-de-guerra de Campo Maior.

Os antecedentes:

Devido à recusa de Portugal romper a sua aliança com os ingleses, em 28 de Fevereiro de 1801, a Espanha e a França declararam guerra a Portugal. As hostilidades começaram com a invasão do Alto Alentejo. As praças de guerra estavam muito pouco preparadas para a iminência do ataque.

A praça-de-guerra de Campo Maior sofrera um cerco em 1801. O exército português tinha-se estrategicamente retirado para lá do Tejo. Não havia, portanto, qualquer possibilidade de a praça ser socorrida.  Como quase todas as outras, esta praça de guerra dispunha de uma guarnição muito reduzida e estava muito mal armada. Tinha, interinamente, como comandante, o coronel de engenheiros Matias José Dias Azedo, que aí fora colocado para reparação das fortificações. No Alto Alentejo, só Elvas não foi ocupada.

Sabia-se que estava em Badajoz, numa delegação negociando a paz, estava um ministro português. 

Foi negociado o Tratado de Badajoz, assinado em 6 de Junho de 1801. Mas as tropas espanholas só abandonaram a praça de guerra de Campo Maior, no dia 22 de Novembro de 1801. Devido aos bombardeamentos e à acção dos soldados, franceses e espanhóis que a ocuparam quase meio ano, tanto a vila, como as estruturas da sua fortaleza, sofreram forte destruição.

 

Em 1810, o engenheiro militar Talaya, foi enviado para Campo Maior por William Beresford que organizara e comandava o exército portiguês, com o encargo de proceder à reparação das fortificações, fazendo executar os projectos elaborados pelo engenheiro militar Matias José Dias Azedo, seu antecessor, bem como outras obras que entendesse necessárias para colocar a praça em melhores condições de resistência.

Por essa altura, tendo falecido o governador da praça, o sargento-mor Talaya, teve de assumir o cargo de governador, à semelhança do que ocorrera com Dias Azedo, em 1801.

No início de 1811, começou a 3ª invasão francesa comandada por Massena.

Em 11 de Março de 1811, tropas francesas, comandadas por Soult, tomaram Badajoz. Soult deu indicações a Mortier para que tomasse Campo Maior.

Esta praça, além de uma guarnição muito escassa e com fraca preparação militar, estava muito mal provida de munições, pois tinha sido despojada após a sua rendição no cerco de 1801.

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Texto elaborado com “notas de leitura” das seguintes obras:

- Cláudio de Chaby - EXCERTOS HISTORICOS E COLLECÇÃO DE DOCUMENTOS RELATIVOS À GUERRA DENOMINADA DA PENÍNSULA E ÀS ANTERIORES DE 1801 E DO ROUSSILLON E CATALUNHA. Imprensa Nacional, 1863.

- O CÊRCO DE CAMPO MAIOR EM 1811- Comissão do 1º Centenário da Guerra Peninsular 1811-1911. Lisboa, Imprensa Nacional, 1911.

- Luís Couceiro da Costa - MEMÓRIAS MILITARES DE CAMPO MAIOR. Editor – António Torres de Carvalho, Elvas, 1912.

- UMA CELEBRAÇÃO MAIOR EM CAMPO MAIOR – O CERCO DE 1811. Campo Maior, 2011. Elab. por Francisco Pereira Galego. Ed. Município de Campo Maior, 26 de Março de 2011.

- Francisco Pereira Galego - CAMPO MAIOR NA OBRA DE JOÃO DUBRAZ - VOL. I - MEMÓRIAS HISTÓRICAS DE CAMPO MAIOR – Ed. Município de Campo Maior, 2017.          

 

 



publicado por Francisco Galego às 11:23
Quarta-feira, 14 de Março de 2018

Em 1810, o engenheiro militar Talaya, foi enviado para Campo Maior por William Beresford que organizara e comandava o exército portiguês, com o encargo de proceder à reparação das fortificações, fazendo executar os projectos elaborados pelo engenheiro militar Matias José Dias Azedo, seu antecessor, bem como outras obras que entendesse necessárias para colocar a praça em melhores condições de resistir  qualquer ataque ou cerco, pois a Europa estava então no período das guerras desencadeadas pelos exércitos de Napoléão Bonaparte .

Por essa altura, tendo falecido o governador da praça, o sargento-mor Talaya que era engenheiro militar encarregado de restaurar as fortificações, teve de assumir o cargo de governador, à semelhança do que ocorrera com Dias Azedo, em 1801.

 

No início de 1811, começou a 3ª invasão francesa comandada por Massena.

Em 11 de Março de 1811, tropas francesas comandadas por Soult, tomaram Badajoz. Este deu indicações a Mortier para que tomasse Campo Maior.

 

A praça além de uma guarnição muito escassa e com fraca preparação militar, estava muito mal provida de munições, pois tinha sido despojada pelas tropas francesas e espanholas que a ocuparam, após a sua rendição no cerco de 1801.

 

Efectivamente, a acção do Major Talaya como comandante durante o Cerco de Campo Maior de 1811, iria ser sobretudo muito notável, tendo em conta as dificílimas condições em que teve de actuar, devido à excassez de recursos. A Praça estava muito mal guarnecida de tropas, de munições, de equipamentos militares e de mantimentos, pois apenas dispunha de:

            - 45 artilheiros, com um equipamento constituido por: 

           - 30 peças deartilharia; 2 obuses, morteiros, pequenas quantidades de

              balas e de pólvora;

            - 230 homens de um regimento de milícias de Portalegre; 

            - 300 ordenanças da vila, mas só havia armas para 100.

 

O escritor e historiador João Dubraz, que nasceu em Campo Maior em 1818, ainda conheceu muitos dos que tinham testemunhado directamente os acontecimemtos ocorridos durante o Cerco de 1811. Na sua obra publicada em 1869, descreveu assim as condições da rendição que reflectem os resultados da acção do Major Talaya, como governador da Praça de Guerra de Campo Maior, numa situação de extrema dificuldade. Elas justificam a maneira como, o Major Talaya, ainda é celebrado como figura maior da História de Campo Maior:

 

Insistir por mais tempo na defesa era temeridade. Tinham escasseado as munições; algumas peças de artilharia estavam apeadas; um dia mais de resistência teria feito cair a praça por si mesma, isto ainda supondo que não fosse entrada. Mas tinha sido preciso ocultar a fraqueza e nunca se mostrou.

 

(...) Eis o texto oficial da capitulação, tão honrosa quanto o apuro das circunstâncias o permitia.

“O Sr. general de divisão, barão de Girard, comandante do exército do cerco em frente de Campo Maior, sob as ordens do marechal duque de Treviso, (general Mortier) de uma parte e o sr. José Joaquim Talaya, governador da praça, da outra parte, convieram nos artigos seguintes:

1º - A Praça de Campo Maior será entregue às tropas de sua majestade o imperador e rei, amanhã, dia 22 de Março, pelas duas horas da tarde se, durante este tempo, a praça não for socorrida. A guarnição ficará prisioneira de guerra e desfilará pela brecha, depondo as armas sobre a esplanada. Os Srs. oficiais sairão com as suas espadas e equipagens e os soldados com as suas mochilas.

2º - Os oficiais e soldados de milícias e ordenanças poderão retirar-se para suas casas, depois de terem jurado não servir contra os exércitos de sua majestade o imperador e rei e seus aliados.

3º - Os portugueses e espanhóis feridos serão tratados com consideração e, quando estejam restabelecidos, serão sujeitos aos artigos da capitulação.

4º - Os habitantes serão respeitados nas suas pessoas e propriedades e não poderão ser inquietados pelo que fizeram antes de se render a praça.

O S.r governador fica autorizado a voltar para sua casa em contemplação à sua avançada idade e moléstias, depois de dar a sua palavra de honra de não tomar armas contra o exército de sua majestade o imperador e rei e seus aliados.

(Seguem-se as assinaturas do general e do governador).

 

A guarnição desfilou pela brecha, em conformidade com o artigo 1º da capitulação. Mas, a pequena força que saiu dos muros fez crer a Girard que a maior parte ficara dentro e, nessa persuasão, disse para Talaya:

 

            - “Senhor governador, mande sair o resto da guarnição”.

            - “Está aí toda, senhor barão, respondeu aquele”.

 

Girard enfiou e houve-se por afrontado. Os seus oficiais, esses tiraram melhor partido do caso: Riram-se da pilhéria, fazendo diversão com o garbo negativo dos milicianos.

 

No dia 25 os franceses evacuaram precipitadamente a praça porque, tendo passado ao Alentejo o exército anglo-lusitano às ordens de Beresford e entrado a 20 em Portalegre, a 25 estaria o marechal na herdade do Reguengo, dez quilómetros distante da vila.

 



publicado por Francisco Galego às 11:04
Sexta-feira, 09 de Março de 2018

Senhor Presidente:

Revocando(1) ao ponto que me levou a pedir a palavra tenho a honra de paticipar a V.Exa. que vou mandar para a mesa um requerimento de que me fez portador o sr. João Dubraz, digníssimo professor de Latim em Campo Maior (Alemtejo).

Pede este meu amigo e esclarecido professor que, na futura reforma da instrução secundária, ele e os da sua classe, sejam considerados com alguma providência que lhes garanta o futuro e recato das inclemências do presente.(2)

Parecem-me boas as razões que aduz em defesa da sua justiça. Entretanto, como a comissão respectiva é que há-de julgá-la, eu peço a V.Exa que remeta para a comissão esse requerimento e, ouso crer que, à ilustração dos dignos membros que a compõem, não passarão desapercebidos,  os sensatos considerandos do requerente.(3)

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 Testo publicado in, Diário da Câmara dos Senhores Deputados, Lisboa, Sessão do Parlamento de 16 de Fevereiro de 1880. Este texto chegou ao meu conhecimento graças à amabilidade do meu estimável amigo, João Custódio.

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(1) Regressando, ou voltando a ...

(2) Com a sua arguta e esclarecida inteligência, João Dubraz parecia antecipar, de forma premonitória, o que lhe viria a acontecer quinze anos depois: Sendo administrador do concelho de Campo Maior, Cristóvão de Albuquerque Barata, pai de Cristóvão Cardoso Cabral Coutinho de Albuquerque Barata (futuro Visconde de Olivã, que então teria 16 anos), mandou aquele encerrar a sala que cedera a João Dubraz, no edifício dos Paços do Concelho. para aí instalar a sua Aula de Latim, com entrada pela rua Major Talaya. Esta acto pode ser interpretado como represália pelas constantes denúncias que Dubraz fazia nos jornais, dos excessos, das injustiças, das ilegalidades e das arbitrariedades cometidas pelos responsáveias pela administação municipal.

Impedido de exercer a sua profissão em Campo Maior, João Dubraz teve de concorrer a nível nacional, tendo sido colocado em Amarante, no distante Minho. Aí deu o seu último ano de aulas, pois que quando, no fim do ano lectivo, veio de férias a Campo Maior, aqui faleceu, à beira de completar os 75 anos de idade.

3) Não é de estranhar que João Dubraz tenha sido atendido, de forma tão pronta e dedicada nesta sua pretensão, pois que, devido aos livros publicados e às suas colaborações em vários jornais, era bastante conhecido pela intelectualidade de Lisboa, embora  só lá se tivesse deslocado por três vezes e nunca por períodos muito dilatados. Mas tinha aí sinceros amigos que muito o apreciavam. Entre esses distinguia-se o Barão de Barcelinhos, figura notável como escritor, como político e como jurista. O Barão de Barcelinhos,  como o título de Visconde de Ouguela, com que depois foi distinguido indica, tinha fortes ligações a Campo Maior. Ele era um dos que mais divulgava em Lisboa, as obras publicadas por João Dubraz. E foi também um dos que mais acompanhou  João Dubraz na sua luta para que o concelho de Campo Maior não tivesse sido extinto e anexado, como freguesia ao concelho de Elvas, em 1868.

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 16:54
Segunda-feira, 05 de Março de 2018

Como um dos princípios  base da crença cristã, encontramos a doutrina do Livre Arbítrio que, em várias partes da Bíblia, está enunciada, acentuando ser vontade de Deus que os homens orientem as suas acções segundo um correcto e justo comportamento, pois que, se Deus  criou a humanidade dotando-a da capacidade de, segundo a doutrina do Livre Arbitrio  tão claramente expessa por Santo Agostinho –  arcebispo de Hipona que viveu na transição do séc. IV para o séc. V –, o homem tem o poder de escolher entre o bem e o mal, tornando-se, portanto, responsável pelos seus pensamentos e pelas consequências dos seus actos e das suas decisões.

Daí advém que o homem não é presdestinado para as decisões que toma, sendo, portanto,  responsável pelo seu próprio destino. Esta é a base para a compreensão de dois conceitos estruturantes da nossa identidade: a liberdade na tomada das nossas decisões e a responsabilidade de prevermos as consequências que delas possam resultar.

As coisas não acontecem porque Deus quiz, mas porque nós assim as determinámos, por assim termos querido ou ou por não termos tido o cuidado de  fazer que tivessem acontecido de uma outra maneira.

Claro que o acaso existe. Mas, a própria maneira como lidamos com ele depende da nossa vontade, da decisão que tomamos ou da maneira como nos abstemos, não decidindo ou agindo de modo inadequado.

A maneira como assumimos esta responsabilidade é que vai moldando a nossa existência e a nossa personalidade. A consciência disto é tão fundamental que ela devia ser sempre o núcleo central da nossa educação e da nossa formação como pessoas.

A mim, ainda que agnóstico por convicção, não pode deixar de me impressionar fortemente, esta tão preclara doutrina.



publicado por Francisco Galego às 00:02
Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2018

Mais por bom-senso do que por modéstia ou falta de competência, optei por renunciar aos grandes espaços e à ambição dos altos voos – que, na verdade, nunca me seduziram – e vim refugiar-me nesta vila-mátria em que nasci e onde é provável que venha a decorrer esta etapa final do meu viver.

Pareceu-me ser esta a opção ditada pela minha consciência, de acordo com o que agora sou e que resultou da forma como as minhas circunstâncias me foram moldando.

Não se trata de autocomplacência, nem de conformação. Trata-se de uma maneira de aceitar naturalmente aquilo que se foi tornando num modo de ser e de estar.

Cada etapa da vida exige que nos adaptemos, do modo mais inteligente possível, à aceitação daquilo em que nos vamos tornando.

Nota: Porque, por vezes, alguns me chamam a atenção para certos erros ortográficos que, no seu entender, vou cometendo, volto a lembrar que:

...Não aderi ao novo acordo ortográfico, por falta de convicção sobre as virtudes dessa mudança e pelo apego de quem, há mais de setenta anos, está habituado a ler e escrever deste modo a sua língua.

 Mesmo assim, por precaução, peço desculpa por algum erro que tenha escapado. E, sem qualquer hesitação, agradeço que me alertem sempre que isso aconteça.

 



publicado por Francisco Galego às 18:18
Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

O Convento de Santo António de Campo Maior, casa da Ordem dos Frades Menores, foi instituído por iniciativa do padre Frei Jorge de Paiva que alcançou, do papa Alexandre VII, a licença necessária à sua fundação, concedida por um breve de 8 de Março de 1493.

Por este instrumento, foi aquele religioso português autorizado a edificar, in Agrimaioris (Campo Maior), ou em qualquer outro local do Reino de Castela, uma casa da regular observância, directamente submetida à Sé Apostólica, em honra de Santo António de Pádua (1), com igreja, cemitério, claustro, dormitório e tudo o mais que necessário fosse à manutenção da comunidade. O convento passou à Província dos Algarves quando esta foi constituida.
Inicialmente erigido no exterior da cerca muralhada da vila de Campo Maior, o primitivo convento foi demolido e transferido para novo local, em 1645, por razões estratégicas, devido à Guerra da Restauração (1640-1668).
Por essa razão, o bispo de Elvas, D. Manuel da Cunha, por escritura de 16 de Junho de 1646, fez doação à desalojada comunidade do antigo convento, da igreja de Nossa Senhora da Assunção, situada no castelo da mesma vila e que fora a antiga matriz de Campo Maior, para que aí se instalassem provisóriamente, até que se erigisse um novo convento.

 Os franciscanos tomaram posse do templo em 12 de Agosto do mesmo ano e aí se manteve a congregação até 1709, ano em que se transferiu para a sua nova e derradeira casa, junto do baluarte de São Sebastião, onde se conservou, como convento dos frades franciscanos, até à extinção das ordens religiosas masculinas, em 1834.

A Ordem da Imaculda Conceição, só em 1942 estabeleceu, em Campo Maior, no edifício do antigo Convento de Santo António, o Convento das Monjas Concepcionistas de Santa Beatriz,.

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(1) Ou seja, Santo António de Lisboa (1191-1231), onde nasceu. Pádua foi a cidade em que passou grande parte da sua vida, onde morreu e onde foi sepultado.

(2) No local hoje desinado como "Campo da Feira"



publicado por Francisco Galego às 00:05
Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

A aldeia de Campo Maior, foi elevada a vila por foral concedido por Afonso X de Leão e Castela, em 1255.

Este concelho foi integrado na coroa portuguesa em 1297, pelo Tratado de Alcanizes.

Foi-lhe concedido o primeiro foral, cerca do ano de 1300, reinando em Portugal D. Dinis (1279-1325).

D. Manuel I outorgou-lhe foral novo, em 16 de Setembro de 1512.

Ouguela que, pelo referido Tratado de Alcanizes,fora integrada no Reino de Portugal em 1297, adquiriu o estatuto de vila, com câmara municipal, pela concessão de foral, dado em Lisboa, em 5 de Janeiro de 1298. D. Manuel I outorgou-lhe novo foral em 1 de Junho de 1512.

Mas,  este concelho foi extinto por decreto de 31 de Dezembro de 1836, sendo anexado ao concelho de Campo Maio. Em 1842, foi tornada apenas paróquia com o nome de Nª Srª da Graça de Ouguela, sendo depois extinta e agregada, à freguesia de São João Baptista.

Em 1867, houve uma tentativa de extinguir o Concelho de Campo Maior e de o incorporar no concelho de Elvas. Mas, devido à luta desencadeada por muitos concelhos contra essa tentativa de reforma administrativa,  foi esta anulada no ano seguinte.

Em 1895 a freguesia de Degolados foi anexada no concelho de Campo Maior. Mas, por reclamação do concelho de Arronches, ao qual sempre tinha pertencido, em 1898 foi nele reintegrada. Por vontade expressa da sua população, voltou a ser anexada a Campo Maior, em 1926.

O concelho de Campo Maior é, desde então, constituído pela Freguesia de São João Baptista, que integra a aldeia de Ouguela , pela Freguesia de Nossa Senhora da Expectação e pela Freguesia de  Degolados.



publicado por Francisco Galego às 11:24
Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

 

Segundo palavras textuais do Dr. Ayres Varella no “Teatro de Antiguidades de Elvas”,  escrito pelos anos de 1644 a 1655:

O castelo de Campo Maior é obra muito antiga e muito forte tanto por razão do sítio como pelas torres e muralhas. Foi fabricado pelos mouros e reparado por El-rei D. Dinis que levantou a maior torre que nele há e, por essa razão, quiseram alguns atribuir-lhe a honra de edificador.

Os romanos lhe deram o nome com muita propriedade porque daquele sítio se descobre o maior campo que há por aquele distrito.

(p. 29)

(É muito incerta a fundação do castelo pelos "mouros", porque não há provas documentais seguras que a sustentem)

            

            Diz o mesmo autor que junto do castelo havia duas aldeias da jurisdição de Badajoz e que a mais populosa se chamava Joannes, ou por ser Bartholomeu Joannes a principal pessoa da aldeia, ou porque a água que para ela vinha era do Campo de Valada que pertencia ao mesmo Bartholomeu Joannes. E a outra aldeia se chamava dos Luzios, que seria perto do castelo, mas da qual não há qualquer notícia.

            Segundo Ayres Varella, o sítio da aldeia de Bartholomeu Joannes seria a um quarto de légua do castelo, para os lados de Arronches, junto da herdade chamada de Valada, num local onde,  no século XVII, ainda existia uma fonte com esse nome, um arco de alvenaria e ruínas de casas.

             Apesar de não existirem documentos que o afirmem explicitamente, muitos indícios apontam para que o castelo de Campo Maior tenha sido construido no reinado de D. Dinis, para protecção da fronteira definida pelo Tratado de Alcanises, em 1297. Claro que o castelo atraía a população espalhada pelos campos, servindo de abrigo e  garantindo a sua defesa em situações de guerra.

              Há também grande probabilidade de a denominação de "Campo Maior"  (em latim, campus major) poder ter sido atribuida pelos romanos, pois eles assim designavam os campos abertos, planos, favoráveis à implantação de culturas como os cerais, os olivais e as vinhas, logo, bons para a fixação de agregados populacionais.

               A força militar dos seus exércitos , garantia de tal modo a Pax Romana, que as populações se podiam dispersar pelos campos em unidades de residência e de produçáo chamadas Villae as quais, segundo alguns autores, terão dado origem às unidades hoje designadas como herdades e montes.  Porém, com a desagregação do Império Romano,  novas invasões geraram a insegurança que levou à construção de zonas fortificadas e defendidas por castelos, ao abrigo das quais se podiam garantir condições de defesa das populações, agregadas em aldeias, vilas e cidades.        

           

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sábado, 10 de Fevereiro de 2018

Segundo a acta da sessão da CMCM, de 10 de Junho de 1882, foi tomada a resolução de levar a efeito a criação duma biblioteca, por proposta dos cidadãos Dr. José Maria da Fonseca Regala e João Francisco Dubraz, sendo este nomeado seu conservador nessa mesma sessão. À sala de leitura foi dado o nome do Marquês de Pombal por, nesse ano, se comemorar o centenário da sua morte.

(...) Sempre muito devotado às questões culturais e à valorização de Campo Maior, João Dubraz convocou para o dia 9 de Julho de 1882, uma reunião para a constituição da comissão instaladora da Biblioteca Municipal de Campo Maior, na qual participaram algumas das mais proeminentes figuras da sociedade campomaiorense desse tempo.

Em reunião de 9 de Agosto do mesmo ano, por proposta de João Dubraz, todos os presentes concordaram que se iniciasse uma campanha de angariação de livros através do envio de uma circular, da qual foram impressos 350 exemplares que foram enviados a várias entidades. Foi também sugerido que se enviasse uma “respeitosa carta à Exa. Sra. D. Maria Rita Freire de Andrade Carvajal” pedindo-lhe que cedesse os livros existentes no palácio do Largo dos Carvajais, que seriam um generoso donativo e que vieram a constituir um importante núcleo para a constituição da biblioteca. Desencadeou-se também uma campanha para angariação de donativos de livros. O próprio João Dubraz, em seu nome e no dos seus quatro filhos, fez um donativo de mais de uma centena de volumes.

Nos primeiros anos, a Biblioteca esteve instalada no edifício da Câmara, numa sala do primeiro andar. Mais tarde, foi instalada no mesmo edifício, mas na Rua Major Talaya, no rés-do-chão, na porta abaixo daquela  onde foi o posto da PSP, na sala ao lado, onde João Dubraz dava aulas e que tinha na porta a inscrição Aula de Latim a qual foi depois substituída pela de Biblioteca Municipal.

João Francisco Dubraz foi o primeiro a exercer o cargo de bibliotecário que passou para seu filho Alfredo Constantino Félix Dubraz e, falecido este em 1918, o cargo passou para sua viúva D. Guilhermina Velez Dubraz.

 

() Estas considerações serviram para fundamentar a razão para que esta Assembleia e os membros da Câmara Municipal considerassem a possibilidade de atribuírem à Biblioteca Municipal de Campo Maior o nome de Biblioteca Municipal João Dubraz e fundamentaram esta sugestão nas seguintes razões:

- Por ser costume adoptado por muitas câmaras municipais, atribuírem às suas bibliotecas, os nomes de destacadas figuras da cultura local;

- Porque João Dubraz, além de ter sido um dos elementos que mais contribuíram para a fundação duma biblioteca municipal em Campo Maior, ser efectivamente um dos nomes de maior relevo da cultura campomaiorense, como professor, como jornalista e por ser, provavelmente, um dos mais importantes escritores da nossa terra.”

 



publicado por Francisco Galego às 10:15
Segunda-feira, 05 de Fevereiro de 2018

Ao longo da História da Cidade de Elvas e  da Vila de Campo Maior, grandes nomes se destacaram na reconstrução da memória dos seus antepassados. Mas dois são fundamentais e determinantes quando se fala de História Local nestas duas comunidades: referimo-nos a Vitorino de Almada e a João Dubraz. Para além do seu interesse pela História, estes dois grandes vultos possuíam também, uma verdadeira paixão pelo jornalismo.

O primeiro, de uma geração sequente à do segundo, era natural de Elvas, onde nasceu em 21-10-1845 e foi, sem dúvida, um dos mais importante historiadores desta cidade. O segundo, nascido em Campo Maior, em 21-01-1818, destacou-se não só como um dos mais importantes colaboradores na imprensa periódica de Elvas, mas também como cronista do seu tempo, como agente político e como historiador da sua terra.

Todavia, as formas de participação que ambos tiveram na imprensa  local, foram marcadas pelas suas formações, pelos tempos em que viveram, e pelas suas actividades profissionais. Vitorino de Almada, tendo vivido num tempo de certo apaziguamneto e sendo capitão do exército e oriundo de uma família ligada à carreira das armas, evitava tomar partido nos combates políticos  que, na segunda metade do século XIX, se  verificavam entre as facções rivais. João Dubraz, de uma geração anterior, na primeira parte da sua vida assumiu-se, como um empenhado activista político. Esteve preso em Elvas, em 1847, durante cinco meses, devido à sua participação num acto revolucionário ocorrido na conjuntura  da “Maria da Fonte” e da “Patuleia”. Era então, um defensor empenhado de um liberalismo radical e manteve-se sempre um fervoroso partidário do regime repúblicano.

Mas, em ambos, das suas obras devem sobretudo destacar-se  as que resultaram do seu empenho na descoberta e na preservação, da memória  histórica das comunidades em que estavam inseridos.          

No caso de J. Dubraz, destaca-se a obra «Recordações dos Últimos Quarenta Anos” de que, coisa rara naquele tempo, se publicaram duas edições: uma primeira em 1868, que se esgotou rapidamente, logo seguida de uma  segunda edição, em 1869. Trata-se, sem dúvida, duma importante memória descritiva da vila de Campo Maior, desde as suas origens até final do séc. XIX, com particular destaque para  a conjuntura das guerras peninsulares e para os factos e acções durante o período de implatação do Liberalismo na vila de Campo Maior. Como jornalista, deixou ampla e diversicada coloboração em quase todos os jornais que, no seu tempo, se publicaram em Elvas e em alguns dos que se publicavam em Lisboa.

No que respeita à sua actividade como colaborador nos jornais, o mesmo caminho seguiu Vitorino de Almada. Uma parte considerável da sua obra foi também publicada em artigos em jornais como o Elvense, o Gil Fernandes e o Correio Elvense, de que foi  redactor principal. Mas não pode deixar de se referir a obra que publicou de 1888 a 1895 - "Elementos para um dicionário de geografia e história portuguesa" - pois  trata dos factos mais notáveis, relativos ao concelho de Elvas e aos extintos concelhos de Barbacena, Vila Boim e Vila Fernando. Merecem também particular destaque:  "O manuscrito de Afonso da Gama Palha", sobre um facto militar durante a Guerra da Sucessão em Espanha, (Elvas, 1876); o estudo biográfico "Francisco de Pala Santa Clara", (Elvas, 1888);  "Os quartéis- mestres", (Elvas,1890).

Eis, de forma abreviada, apenas algumas notas sobre dois vultos com obras de referência na historiografia portuguesa, no que respeita à História Local: Uma referida à cidade de Elvas e outra, uma memória sobre a vila de Campo Maior, ambas localizadas na zona raiana do Alto Alentejo.

(Primeira versão escrita em 11 de Setembro de 2016)

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Terça-feira, 30 de Janeiro de 2018

ACHMET

No capítulo 1º a acção é localiza na zona de fronteira ainda em disputa entre cristãos e mouros, os campos entre Ielch (Elvas) e Badajoz.

É apresentada a personagem Achmet, sobrinho do mui alto e poderoso Abdallah, emir de Badajoz e primo do emir de Sevilha.

A acção começa por uma caçada aos javalis e aos gamos que, como por artes mágicas, é interrompida por uma súbita tempestade que leva os companheiros de volta a Badajoz, separando-os de Achmet que é levado até um local à beira de um lago do qual se levanta um mágico alcazar mourisco, donde sobe uma música divinal e um hino entoado por lindas fadas que incitam o jovem donzel a ir ao seu encontro.

Surge perante ele uma angélica beldade: a rainha das fadas, Ulina.

O lago é referido como Lago do Muro “situado nos verdes campos que agora pertencem a Campo Maior” e que receberam o nome de terras do Muro”.

O jovem mouro é arrancado ao mundo real e entra num mundo mágico: - um magnífico castelo enterrado no interior do Lago do Muro. Aí a rainha das fadas abre para o jovem príncipe a “visão do futuro”. Perante os olhos do jovem mouro passam os episódios mais relevantes da conquista do sul de Portugal pelos cristãos e da expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica.

A acção até aqui centrada no príncipe Achmet, suspende-se e somos levados a outro lugar.

O capítulo 2º começa no ano de 1201, reinando em Portugal de D. Sancho I. Nos “verdes plainos da Godinha”, entre as terras da cidade cristã de Elvas e os arredores da muçulmana cidade de Badajoz, numa brilhante cavalgada, damas e cavaleiros assistem a “uma aposta à carreira” de quatro damas. Destacou-se como vencedora a bela D. Ângela, jovem dama de dezassete anos de idade, filha do alcaide de Elvas, que montava um ginete fouveiro, ou seja, ruivo, malhado de branco.

 

O alcaide de Elvas, Fernão de Soisa, falando com os seus companheiros, recorda a sua participação na fatídica tentativa de conquistar Badajoz, de que resultou o desastre e prisão de D. Afonso Henriques.

A certa altura, um dos jovens cavaleiros recita para a cavalgada umas trovas que relatam coisas fantásticas ocorridas com a bela fada Ulina, onde são invocadas velhas lendas que referem o destino do príncipe Achmet, aprisionado no Lago do Muro pela fada Ulina, até que uma dama o fosse libertar.

A récita foi interrompida pelo levantar de umas abetardas dando início à sua caçada com falcões.

Surge um mágico que espanta o corcel da jovem D. Ângela que parte à desfilada e desaparece. Por mais que os companheiros a tivessem procurado, não a conseguiram encontrar.

D. Ângela foi levada pelo corcel até às Terras do Muro, junto do lago, cujas águas desapareceram. Ficou apenas um muro, junto ao qual estava um donzel montando um valente corcel. Logo entre os dois jovens nasceu uma fulgurante paixão. Mas, por artes de um mago inimigo da fada rainha Ulina, a jovem é levada para longe do seu amado.

No capítulo 3º descreve-se a viagem fantástica de Achmet depois de sair do encantado Lago do Muro. Levado pelos ares até à “ilha encantada”, parecendo tratar-se da Ilha da Madeira, onde mais tarde começaria a fantástica aventura das Descobertas. Aí encontra a sua bela Ângela, adormecida. Então ele decide resgatá-la á custa de grandes perigos que vence com portentosas demonstrações de coragem.

No capitulo 4º relata-se o seu regresso às terras donde tinham partido.

No capítulo 5º os dois amantes são levados por Ulina, a rainha das fadas, para o Castelo-do-Amor, sugerindo-se que está edificado no local onde hoje é o castelo de Campo Maior. Aí os dois vão poder entregar-se ao seu profundo amor, condenado pela vontade dos homens, devido à diferença das suas religiões.

No capítulo 6º Judith, a feiticeira judia que vivia numa torre no cimo da Serra de Segóvia, desvendou a Fernando de Soisa, a verdadeira situação de sua filha no Castelo-do-Amor e o modo como a pode libertar do seu amante, o príncipe Achmet, atraindo-o a um torneio para o matar.

No capítulo 7º relata o torneio de que resulta a morte de Achmet, vencido no torneio da Cabeça Aguda. Mas o corpo de Achmet desapareceu.

No Epílogo assistimos à dolorosa solidão de Ângela, encantada no seu Castelo-do-Amor. Parece sugerir-se  aqui a origem da lenda da “moura encantada” que, em tempos idos, os adultos contavam às crianças, na vila de Campo Maior e que João Dubraz terá resolvido publicar para memória futura.

 

 



publicado por Francisco Galego às 10:53
Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2018

CARTAS CAMPOMAIORENSES – ASSOCIAÇÕES POLÍTICAS E RECREATIVAS  – OUTUBRO DE 1883

 

Este mês foi todo consagrado a trabalhos eleitorais e à fundação de sociedades de recreio, oriundas da política e que dela hão-de viver necessariamente. Foi, pois, mês de actividade partidária, de sensata vigilância, de acordos de várias espécies e de resoluções importantes no que diz respeito à vida local das parcialidades.

Sobre as eleições, produziu o mês o abandono da urna pelos progressistas, anunciado com muita antecedência, mas visivelmente sujeito à ordem incerta dos acontecimentos.

Em verdade, estes progressistas de cá, não pecam por inactivos e indolentes. Quando não se movem, é porque não vêem utilidade no movimento.

Faço-lhes essa justiça e louvo-os por isso. Eu gosto dos partidos de acção enérgica e contínua, capazes de manterem inabalável a esperança, ainda mesmo que sendo enganosa. O que lhes dispenso é a intriga reles e a baixa calúnia que, afinal, nada edifica.

De resto, se os progressistas abandonaram o campo eleitoral é porque sentiram adversa a maioria dos eleitores. Está averiguado que as eleições só se ganham com votos (…).

As sociedades criadas de novo, já funcionam. Uma, fundação dos progressistas, dizem-me que se intitula "artística recreativa". A outra, organizada pelos regeneradores, é ainda anónima, mas já alguém me disse ser possível que venha a chamar-se "Sociedade de 4 de Novembro", por ser a sua inauguração nesse dia, depois de encerrado o acto eleitoral.

Assim, pois, ficam existindo na vila três sociedades recreativas de que o velho “Grémio Campomaiorense” é o tronco comum, pois que os principais sócios da nova, ou pertencem ao Grémio, ou dele saíram há mais ou menos tempo.

Oxalá as novinhas resistam ao cansaço e às vicissitudes, como filosoficamente tem resistido a tudo a sociedade mãe, a qual, se viveu vida fácil e descuidosa na Rua 13 de Dezembro, teve de emigrar dali, como Job, para a Mouraria e, se algum tempo depois pôde ver melhorada a sua fortuna na Rua do Visconde de Seabra (1), esteve seis meses, em homizio forçado, na Rua do Paço e, quando por fim tomou pé na praça de D. Luís I (2), foi com ares de fidalgo comprometido com dívidas que tem de fazer vida burguesa, pacata e sem luxo.

Tomem daí o exemplo e lição as novas sociedades, a nenhuma das quais desejo mal, pois sei que elas corrigem os costumes agrestes e são úteis como lugares de reunião

      (1) Actual rua 1º de Maio.

      (2) Actual Praça da República.

 



publicado por Francisco Galego às 17:03
Domingo, 21 de Janeiro de 2018

Vou tentar recomeçar de maneira a ligar esta nossa conversa, a outra que eu fiz, no passado dia 16 de Setembro, ao apresentar uma obra em dois volumes intitulada – Campo Maior na Obra de João Dubraz – porque, efectivamente, este livro que agora apresento, é o último da trilogia dedicada à Vida e Obra de João Dubraz.

Assim sendo, permitam-me que antes recorde uma frase do filósofo e escritor, Jean Jacques Rousseau, que viveu entre os anos de 1712 e 1778.

Escreveu ele que:

A arte de interrogar é bem mais a arte dos mestres do que a dos seus discípulos; pois é preciso ter já aprendido muitas coisas para saber perguntar aquilo que ainda não se sabe.

Aí têm a razão porque eu fui entendendo que, a arte de ensinar consiste principalmente, em adquirir a capacidade de fazer perguntas para, com as respostas adequadas, podermos adquirir os conhecimentos que nos são necessários.  

Assim, voltando a falar de João Dubraz, coloco hoje novas perguntas:

- Quem foi João Dubraz?

- O que fez de notável?

- Que importância teve a sua acção no tempo em que viveu?

- Que valor têm hoje os seus escritos, para melhor conhecermos a História e a Cultura de Campo Maior?

 

Estas perguntas apontam para o objectivo fundamental da obra que agora apresento que o é de:

- Analisar a imensidade de escritos que João Dubraz produziu, para o podermos conhecer, como homem, como cidadão, como intelectual e, ao mesmo tempo, ficarmos a conhecer os factos mais notáveis da História, da Cultura e das condições de vida, em Campo Maior, no século XIX.

Por isso, como o seu título - Vida e Obra de João Dubraz – indica, a obra que agora apresento, tem como primeiro e mais importante objectivo, tentar responder da maneira mais apropriada, mais completa e mais fundamentada que me for possível, a estas e a outras perguntas que possam ser formuladas.

 

Vou, portanto, avaliar a vida e a obra de alguém que fui conhecendo durante muitos anos, ao ler e analisar os muitos textos que ele tinha escrito e publicado e que eu depois, fui descobrindo e divulgando.

 

Devo, porém, confessar que, quanto mais ia aprofundando o meu conhecimento, mais ia crescendo a minha admiração pelo homem que produzira os textos que eu ia lendo.

 

 

 

 

Chamava-se João Dubraz. Era filho de um comerciante com loja aberta no então chamado “Terreirinho”, vulgarmente conhecido como o “Terreiro”, e que, actualmente, tem o nome oficial de Largo Barão de Barcelinhos. Tendo, desde muito novo, aprendido a ler e a escrever, dedicou-se, com tanto empenho à leitura e ao estudo que, atingiu um nivel impressionante de conhecimentos e de importantes informações em várias e vastas áreas do saber.

Nos seus escritos, não fez qualquer referência aos professores que poderá ter tido. Mas, podemos calcular que, naquele tempo, os seus primeiros professores, terão sido frades do Convento de S. Francisco. Naquela época, os que assumiam a função de ministrar o ensino básico às crianças entre os seis e os doze anos de idade, eram designados como “os gramáticos”. É interessante lembrar que, a pequena rua que liga a Rua Direita ao Largo da Misericórdia, era antes chamada a Rua dos Gramáticos.

É, portanto, muito provavel que, o jovem João Gonçalves Brás – pois este era o seu nome de baptismo – tenha feito o essencial da sua aprendizagem, com esses “gramáticos”. A única indicação que temos é a de que, por volta dos dez anos de idade já saberia ler e escrever razoavelmente. Foi o próprio João Dubraz que, nas suas memórias, deixou disso testemunho. Quanto à sua aprendizagem, podemos também considerar a possibilidade de ter recorrido aos ensinamentos de D. Diego Muñoz Torrero ou de algum dos discipulos que este deixara em Campo Maior.

Este sábio bispo espanhol, que esteve exilado nesta vila, entre os anos de 1823 e 1828, para sobreviver, dava aulas de filosofia, de latim e de francês. Ora, na verdade, João Dubraz tinha um razoável conhecimento em todos estes domínios.

  1. Diego Muñoz Torrero era uma das figuras mais notáveis de Espanha. Ainda muito jovem, fora ordenado sacerdote e, pelo seu valor intelectual, adquiriu tal notabilidade que foi convidado a assumir o lugar de professor catedrático de Filosofia na Universidade de Salamanca, tendo sido depois eleito seu reitor.

Mais tarde, fora escolhido para bispo de Guadix, na província de Granada.

Mas, porque era o tempo da Inquisição e a Igreja era então muito repressiva, o papa Pio VII negou-lhe o beneplácito, impedindo-o de assumir a função episcopal. A razão desta atitude explica-se pelo seu empenhado envolvimento na defesa dos ideais liberalistas, por defender a extinção da Inquisição em Espanha e por se ter destacado na elaboração dos princípios fundamentais da chamada “Constituição de Cádiz”, a primeira constituição liberalista espanhola, aprovada em 1812 e que muito influenciou a Constituição Portuguesa de 1820, a nossa primeira constituição liberalista.

Perseguido pelos absolutistas, quando estes tomaram o poder, D. Diego Muñoz Torrero refugiou-se em Portugal para escapar à prisão e à quase certa condenação à pena de morte.

 

 

Fixou residência em Campo Maior, terra de fronteira, entre 1823 e 1828, ou seja, até que os absolutistas tomaram o poder, em Portugal, tendo-se D. Miguel proclamado rei absoluto. Começou então um tempo de perseguições que originou uma terrível guerra civil, que durou desde 1828 a 1834.

  1. Diego Muñoz Torrero foi então preso e encarcerado na torre-prisão de S. Julião da Barra, no concelho de Oeiras, junto ao Tejo. Em salas subterrâneas que eram por vezes inundadas pelas águas que chegavam a subir até à cintura dos presos, acumulavam-se pessoas de todas as classes e condições sociais. Aí, devido aos maus tratos sofridos, morreu D. Diego Muñoz Torrero, no ano de 1828, tendo sido sepultado, em campa rasa, num terreno junto à torre que lhe servira de prisão.

Mas, era tal a notabilidade de D. Diego Muñoz Torrero que, quando os liberalistas voltaram ao poder, o governo espanhol reclamou a entrega dos seus restos mortais que foram transferidos para o cemitério de S. Nicolau em Madrid e, mais tarde, em 1912, foram trasladados para o Panteón de Hombres Ilustres, onde estão os restos mortais das figuras mais notáveis de Espanha.

Ora, assim sendo, poderá ter sido, primeiro com o bispo e depois com algum dos seus discipulos, que João Dubraz adquiriu as bases que lhe permitiram ter bons conhecimentos de gramática, conhecer bastante bem o latim e de ler e escrever com desenvoltura o francês.       

        

Talvez por isso, mais tarde, quando começou a escrever e a publicar os seus escritos, afrancesou o nome, adoptando como pseudónimo, o nome de João Dubraz, aproveitando o facto de ser conhecido como o João, filho do Braz.

Mas, na verdade, João Dubraz foi principalmente um verdadeiro autodidata, pois que, pelo seu próprio esforço, conseguiu adquirir um elevado nível de formação cultural.

 

Voltando à crescente admiração que fui sentindo pela obra de João Dubraz, convém esclarecer que, quando quero avaliar alguém, parto sempre do princípio de que não há homens, nem mulheres perfeitos, pois que, em todas as pessoas encontramos qualidades e defeitos. Por isso, quando me proponho fazer a avaliação de uma pessoa, faço-o numa espécie de “balança mental”, comparando os seus defeitos com as suas virtudes.

 

Os resultados configuram-se-me de três maneiras:

- Há casos de acentuado desequilibrio devido ao maior peso dos defeitos;

- Noutros, é maior o peso das virtudes;

- E noutros, fica a balança mais ou menos equilibrada.

 

Vem isto a propósito de tentar explicar a razão porque, durante tantos anos, dediquei tanto do meu tempo a tentar descobrir, analisar e compreender, os documentos criados pelo homem que é a figura central deste livro que aqui apresento hoje.

Não foi tarefa fácil. Mas, porque o que deve ser feito, deve ser bem feito, fui ultrapassando os obstáculos que me foram surgindo. Finalmente, a grande dificuldade foi a opção, tomada por João Dubraz - e por ele rigorosamente cumprida -, de falar muito pouco de si, e quase nada dos elementos da sua família.

Mas, voltando à avaliação que fui fazendo do homem João Dubraz, a “balança” pendeu sempre mais para o lado das virtudes, ficando quase vazio o dos defeitos.

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Essa é uma das razões porque considero que foi importante e muito gratificante o ter-me dedicado ao conhecimento do que foi a sua vida e da obra que nos deixou. Devido a isso, não hesito em afirmar que, considero que João Dubraz foi um homem de um valor excepcional e uma das figuras que mais elevou e divulgou o nome desta “mátria”, ou terra-mãe, onde muitos de nós, os que agora aqui estamos, fomos gerados e criados. E isto é ainda mais importante, se consideramos que João Dubraz viveu num tempo em que não era nada fácil proceder da maneira que escolheu como o seu modo de vida.  

 

Devemos também tomar em consideração que, uma grande parte daquilo que escreveu, se destinava a ser publicado nos jornais que foram existindo na cidade de Elvas, havendo mesmo períodos em que, era quase só ele quem produzia a maior parte dos textos que compunham esses jornais.

Talvez tenha sido essa a razão para que, quando em Campo Maior começaram a perseguí-lo, atacando-o e difamando-o, tenham sido alguns dos mais destacados vultos da cultura elevense – à frente dos quais se colocaram Vitorino d´Almada e António Tomás Pires – que, em textos publicados em Dezembro de 1883, nas páginas do jornal “O Elvense”, vieram em sua defesa, denunciando, a má-fé das calúnias, a falsidade, a ingratidão e a injustiça dos ataques que lhe dirigiam.

Entre outras, estas foram a razões de eu ter concluido que, tomando em consideração o seu valor, seria muito justo que me dedicasse a dar a conhecer os aspectos mais importantes relatados nas obras de João Dubraz que considero um dos nomes mais ilustres da Cultura e da História de Campo Maior.

 

Mas, convém entender claramente que procurei sempre enquadrar este trabalho no domínio da investigação histórica que, como sabemos, cuida apenas de analisar e tentar dar a conhecer os factos e as personagens que pertencem ao passado.

 

Logo, daí resulta que fica excluida qualquer comparação com os que ainda vivem, por mais importantes que possam ter sido, sejam, ou que venham a ser, no desenvolvimento, na divulgação e na notabilidade desta nossa terra. Para aqueles que ainda vivem, o futuro cuidará de que, outros, pertencentes às novas gerações, chegada a sua vez, cumpram a missão de os estudarem e de darem a conhecer o valor das obras que realizaram.

Mas, voltemos, a João Dubraz, pois que é por ele e pela sua obra, que aqui estamos reunidos neste momento. Ele é, sem dúvida, digno de grande destaque, não apenas por aquilo que realizou em vida, mas também pela influência com que, mesmo depois da sua morte, tanto marcou as gerações que se lhe seguiram. Não foi por acaso que, depois dele, se formou uma pequena elite cultural que teve uma importante intervenção nesta vila de Campo Maior, com a criação de filarmónicas, associações recreativas, clubes de futebol e mesmo de dois jornais locais: o Campomaiorense e o Notícias de Campo Maior.

 

Durante anos, fui recolhendo informações. Mas só recentemente, me pude dedicar mais intensamente a este projecto, pois que, na situação de reformado e tendo voltado a residir em Campo Maior, pude dispor de mais tempo e de ter mais fácil acesso a importantes documentos existentes nas bibliotecas e arquivos de Elvas e de Portalegre.

 

Durante um período relativamente extenso, pude aí recolher dados que foram enriquecendo os meus conhecimentos, permitindo-me desenvolver o trabalho em curso e poder elaborar as obras que fui publicando nestes últimos anos.

Convém assinalar que o objectivo principal do livro que agora apresento, foi dar a minha contribuição para que seja assinalado o “Bicentenário” do nascimento de João Dubraz que nasceu em Campo Maior no início da madrugada do dia 21 de Janeiro de 1818, tendo falecido, nesta sua mátria, com 76 anos de idade, em 24 de Setembro de 1895.

 

 

Na obra apresentada no passado mês de Setembro, incluí os escritos publicados por João Dubraz no seu livro intitulado Recordações dos Últimos Quarenta Anos, do qual se esgotaram rapidamente as duas edições publicadas em 1868 e 1869. 

Na primeira parte dessa obra foram referidas as memórias históricas, ou seja, os factos memoráveis da história militar da importante praça de guerra que Campo Maior foi até meados do séc. XIX.

Na segunda parte foi feita a narrativa dos factos em que ele, João Dubraz, participou como militante político, envolvendo-se como combatente voluntário na milícia liberalista e chegando a ser empossado na função de administrador deste concelho.

 

 

Foi devido à sua acção política que, sem acusação, sem culpa provada e sem ter sido julgado, foi mandado para a cadeia civil de Elvas, onde ficou preso durante cinco meses e só recuperou a liberdade graças a ter congeminado um hábil plano de fuga.

 

 

Neste momento, em que aqui estamos a apresentar outro livro que, significativamente, tem o título de VIDA E OBRA DE JOÃO DUBRAZ, temos que mudar o âmbito e a perspectiva desta apresentação, pois que, o livro que agora se apresenta, tem como objectivo fulcral, comemorar o bicentenário do nascimento de João Dubraz. Daí focar-se prioritariamente, na sua vida e na sua obra.

Naturalmente que, em termos de investigação, este volume exigiu um maior número de pesquisas e um tratamento mais demorado das informações encontradas. Muitos dos materiais utilizados na sua elaboração eram completamente desconhecidos ou porque não tinham sido publicados em livro, ou porque não era fácil descobrir os jornais onde João Dubraz os tinha publicado.

Por outro lado, mesmo no que respeita aos livros publicados, verificou-se também que, alguns se perderam completamente, como os Annaes do Municipio de Campo Maior. E outros, nem chegaram a serem publicados, como os intitulados Os dois Carácteres e O Castigo que, como ele complacentemente escreveu, seriam simples obras de juventude.

Ter-se-á também perdido uma obra, referida por João Ruivo, intitulada Subsídios Históricos para a Guerra da Maria da Fonte no Alto Alentejo, a qual teria hoje um grande interesse porque geralmente se considera que esta terrível guerra civil só terá acontecido nas terras do norte de Portugal.

Outras obras, principalmente os escritos políticos, devido ao seu carácter panfletário, tiveram vida efémera e curta divulgação. Mas, mesmo estes, são importantíssimos, se pretendemos conhecer o pensamento de João Dubraz porque, conhecendo-o, ficamos com uma ideia muito interessante sobre a história das ideias na época em que ele viveu.

Por outro lado, uma parte importante da sua vida e da sua obra, está relacionada com o facto de ter exercido, mesmo até à sua morte, uma empenhada acção como professor.

Ora, sendo então ainda muito escassa a produção de livros destinados ao ensino escolar, João Dubraz, em vez de se lamentar, tomou a iniciativa de escrever compêndios para uso dos seus alunos. Estes compêndios constituem hoje preciosos documentos para conhecermos as condições e as preocupações do ensino no seu tempo.

Na verdade, a obra de João Dubraz, é uma riquissíma fonte de abundantes e preciosas informações sobre o tempo em que viveu.

Do mesmo modo, os escritos, publicados nos muitos jornais em que colaborou, fornecem também importantes informações sobre as condições de vida, na sua época.

Mesmo os folhetins, textos de entretenimento por ele publicados nos jornais, podem conter informações interessantes sobre a mentalidade, as preocupações, os usos e costumes e as condições de vida nesse tempo.

Mas, porque não se inibia de denunciar as situações e as atitudes que lhe pareciam inaceitáveis e merecedoras de pública denúncia e condenação, originou que contra ele se tivesse levantado uma violenta reacção que muito o amargurou, pois que, as polémicas que, quase no fim da sua vida o envolveram, descambaram por vezes para atitudes de muito baixo nível. Moveram-lhe tal perseguição que o impediram de dar aulas em Campo Maior o que o obrigou a ter de ir dar aulas para Amarante, no distante Minho, aos 76 anos idade. Os que ele censurava e denunciava pelos comportamentos abusivos e ilicitos que manifestavam no exercício dos cargos públicos, desciam às mentiras mais infames e às insinuações e acusações mais vis, tentando desacreditá-lo. Esses escritos, por vezes bastante abjectos, permitem-nos comprender as condições, as atitudes e os comportamentos da sociedade local, na fase final da sua vida que era também a fase final de uma época em acentuada decadência: a da monarquia liberal.



publicado por Francisco Galego às 20:44
Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

Celebração do

 

BICENTENÁRIO DO NASCIMENTO

 

DE JOÃO DUBRAZ

 

NO PRÓXIMO  Domingo,

 

DIA 21 DE JANEIRO,

 

SERÁ APRESENTADO

 

O III VOL. DA OBRA

 

CAMPO MAIOR NA OBRA DE

 

JOÃO DUBRAZ,

 

SOB O TÍTULO DE "VIDA E OBRA".

 

A APRESENTAÇÃO TERÁ LUGAR NO CENTRO CULTURAL PELAS 17 HORAS.

PARA ESTE ACTO CONVIDAM-SE TODOS  INTERESSADOS EM PARTICIPAREM NESTA HOMENAGEM A UM DOS MAIS NOTÁVEIS REPRESENTANTES DA CULTURA E DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR.



publicado por Francisco Galego às 13:31
Sábado, 13 de Janeiro de 2018

Fiz do estudo e do ensino da História o meu modo de vida, por gosto e por vocação. Mas o interesse pela História não fez de mim um saudosista. Não choro o tempo que passou, nem exalto as suas “virtudes” perdidas. Na verdade, o que eu sinto é uma imensa pena de já não poder viver o tempo que há-de vir, por ser minha convicção que há uma certa probabilidade de vir a ser  mais interessante do que o tempo que vivi e que o tempo que agora vivo. Parece-me ser esta a melhor e a mais atilada maneira de entendermos as coisas que são verdadeiramente importantes na nossa vida.

É importante compreender o passado, pois o seu conhecimento ajuda-nos a entender como e porquê, as coisas evoluiram desta ou daquela maneira. E isso pode evitar que certos erros sejam repetidos. Porém, em meu entender, a contemplação do passado pode ter qualquer coisa de mórbido que não nos deixa apreciar o lado bom da vida que nos coube viver.

Todas as épocas têm os seus problemas. Mas isto não é motivo para se fazer o choradinho de que “no meu tempo é que era bom”. O meu tempo é efectivamente este que estou agora a viver.

Tenho consciência dos problemas que, neste momento, preocupam e atormentam as novas gerações. Mas, também a minha geração se preocupou e preocupa com os problemas que teve e tem de enfrentar, tanto pelas  dificuldades que vivemos, como pelas dificuldades que vemos os outros viverem. Mas se me ponho a comparar as condições da vida nos tempos passados, acabo por chegar à conclusão de que, talvez as condições actuais, não sejam  tão más como foram as desses “bons velhos tempos”.

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

Porque o ANO NOVO deve ser um tempo de avaliação:

 

Segundo Eduardo Lourenço, a cultura é a maneira que, cada civilização, cada povo, cada época, têm de se questionarem a si próprias sobre o que são, para onde caminham e quais os caminhos que devem seguir. Para ele: “A cultura não é a resposta, é a questão”; “A cultura é o diálogo da humanidade consigo própria”. Por isso, “Não há um paradigma. Não há cultura, mas culturas”, porque, nem as perguntas, nem as respostas, são as mesmas. Variam com o tempo, com as circunstâncias e com as situações.

A cultura é um conhecimento que não consiste em saber coisas, mas em dar sentido às coisas. É a capacidade de saber avaliar e de avaliar-se a si mesmo, é o pensamento de que resulta a compreensão.

Onde não houver pensamento não há cultura; há apenas coisas. O sujeito cultural é sempre um sujeito com memória do que foi e que elabora o projecto daquilo em que pretende tornar-se. Ou seja, o sujeito cultural comprende o seu passado e constrói o seu próprio futuro.

Jean Jacques Rousseau colocou a cultura no centro da formação humana. A cultura é um conhecimento que se assimila, que se desenvolve e que se transmite. Por isso, a cultura pressupõe a capacidade de compreender e alarga a capacidade de agir.

Neste sentido podemos designar como contracultura, o que existe para nos distrair da verdadeira cultura. Numa situação de contracultura, o tempo como que pára, instalando-se um presente contínuo, sem passado e sem futuro. Ou seja, deixa de haver memória de si mesmo e deixa de existir projecto de construção do nosso próprio futuro.

 

De certo modo, cada sociedade, ou cada época, pode ser avaliada consoante o modo como se posiciona em relação a estes dois polos: o da cultura e o da contracultura.



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sábado, 06 de Janeiro de 2018

Aqui ao lado, os nossos vizinhos espanhóis comemoram “Los Reyes” que, para eles é o grande dia de troca de presentes. De certo modo, daquilo que nós fazemos no Natal.

 

Natal, Ano Novo, Dia dos Reis. Devem ser dias de boa vontade, dias de fé, de renovação e de esperança.

 

Isto levou-me a pensar que fomos  deixando de ter o consolo dos sentimentos  que alimentavam a nossa esperança. Será este um dos problemas deste desencantado presente? Pensando bem, vive-se sem modelo orientador. Há os que vivem movidos pela ambição. Outros estão conformados, tentando apenas garantirem a melhor maneira de irem sobrevivendo. Os projectos de vida vão dando lugar ao entretenimento. A acomodação conformada vai ocupando o lugar que devia ser o da luta e da persistência.

 

Tenho consciência de que há nisto um pessimismo demasiado radical. Mas, enfim... Trata-se apenas de um desabafo, fruto deste crescente desencanto.



publicado por Francisco Galego às 00:01
Sexta-feira, 05 de Janeiro de 2018

Mudou o ano.
Mas, mudou a vida?
 

Ou a vida,  continua
Sem mudança? ...


Em cada ano

Reganhamos a esperança,

Na mesma ânsia de que tudo mude ...


E, afinal,

O que irá mesmo mudar?



publicado por Francisco Galego às 00:01
Terça-feira, 02 de Janeiro de 2018

Além do calendário gregoriano e coincidindo com ele, subsiste também um calendário que, em tempos passados, era muito tomado em consideração. Tratava-se afinal de ligar cada dia santificando-o por ligação a uma entendidade ou facto relevante do ponto de vista da religião cristã.

Houve mesmo o hábito, respeitado por certas famílias, de atribuir aos recém-nascidos o nome, do santo ou santa, que correspondia ao dia do seu nascimento.

Em Espanha, havia mesmo a tradição de celebrar o que eles designavam como “El dia de su santo” que desconheço se ainda se mantém.  

A título de curiosidade, hoje, dia 2 de Janeiro, é o dia consagrado a dois santos: S. Basílio Magno e S. Gregório Nazianzeno, bispo.

Informações destas, só as podemos encontrar se tivermos o cuidado de adquirir o muito antigo e dantes também muito famoso e tido em consideração, “O Verdadeiro Almanaque BORDA D’ÁGUA”, perito e expedito em todas estas informações.

E mais: Pela módica quantia de 2,20 € (Iva incluído) ainda temos acesso ao Oráculo de Janeiro, à Astrologia e a informações sobre Agricultura, Jardinagem e Animais, tudo conhecimentos importantes para orientarmos as nossas vidas.

Com a consciência do dever cumprido, despeço-me por hoje...

 



publicado por Francisco Galego às 16:03
Segunda-feira, 01 de Janeiro de 2018

Desde que os homens tiveram consciência da ciclicidade da Natureza, procuraram organizar-se sistematizando a forma de preverem e anteciparem as diversas etapas que decorrem no devir a que  chamamos o tempo.

Embora se tratasse de analisar e ordenar uma mesma realidade, foram muito diversas as soluções a que as diversas civilizações foram chegando. Aos sistemas de organização do tempo chamamos os calendários, compostos de horas, dias, semanas, meses, estações, anos ...

No império romano usava-se o "calendário juliano" implantado por Júlio César (100–44 a.C.), que foi adoptado na Europa, até que, em sua substituição, foi  promulgado pelo Papa Gregório XIII (1572–1585), a 24 de Fevereiro do ano 1582, pela bula Inter gravissimas o “calendário gregoriano”. Com a expansão da nossa civilização, dita ocidental e cristã,  expandiu-se pelas diversas regiões do mundo, embora algumas civilizações mantenham, nas celebrações do Novo Ano, ritualidades que remontam às suas tradições religiosas.

No nosso calendário dito “gregoriano”, a celebração do “Ano Novo”, no dia 1º de Janeiro, tem origem num decreto do imperador romano Júlio César publicado no ano 46 A.C. e coincide com o dia que os romanos consagravam a “Janus”, o deus de duas faces contrapostas, simbolizando o princípio e o fim de todas as coisas. Dele derivou o nome de  Janeiro. Trava-se de uma divindade romana de duas faces, uma olhando para o que acabava e outra para o que ia começar, que deu o nome ao mês primeiro do ano (Januarius) porque com ele acabava o ano que findava e começava um Novo Ano.

Mas, a uniformização desta celebração do Ano Novo, só muito mais tarde se verificou, pois que, na Idade Média, em diversos países, outros dias, como o 1 de Março, o 25 de Março, o 1 de Setembro, o 25 de Dezembro, foram considerados início do ano civil. Na Inglaterra e nos seus domínios coloniais, até meados do século XVIII, o ano novo começava em 25 de Março.

Entendido como um recomeço, tendeu a ser celebrado como o reinício, ou a nova etapa, no decurso contínuo das nossas existências.

 

POR ISSO, CUMPRINDO A TRADIÇÃO, AQUI FICAM OS VOTOS DE

 

FELIZ ANO NOVO

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2017

Perguntando a mim próprio que desejos entendo dever formular para o início do Novo Ano, vejo-me confrontado com algo a que não sei como responder.

Com toda a franqueza, confesso que sou pouco de desejos e muito mais dado aos constrangimentos que me provocam os sofrimentos, as angústias e as tremendas carências que rodeiam o nosso viver social.

Como entendo que isso depende muito mais das circunstâncias ditadas pelas acções individuais do que pelo acaso, embora sem grande esperança, vou formular o desejo de que haja mais descernimento, mais consciência, mais atenção e mais empenho em remediar e evitar agravamentos, para que se torne mais fácil e menos triste a vida nas comunidades em que nos inserimos.

Pareceu-me utópico desejar mais e que seria cínico desejar menos do que isto.



publicado por Francisco Galego às 17:25
Terça-feira, 26 de Dezembro de 2017

Começamos a despedirmo-nos deste ano de 2017 que, por múltiplas razões, não nos deixa grande saudade: incêndios; falta de água; atitudes  abaixo de qualquer razão, denotando uma chocante insensiblidade social e política dos que da política têm apenas a crença de que tudo se limita a tudo recorrer para alcançar e deter o poder, para deleite da sua vaidade e satisfação da sua desmedida ambição.

E esta natureza madrasta, com a persistência da calamidade desta seca que ainda mais acentua a acção obtusa e cega das acções humanas?...

Neste “Novo Ano”, precisamos de “Novas Oportunidades” que ponham fim às nossas angústias e apreensões.

Resta-nos perseverar na manutenção de uma esperança que sirva de base a um  recomeço, pois, assim como está, está cada vez mais difícil.

Se é certo que, atrás dos tempos, tempos vêm, que venham melhores tempos que, para estes, já vamos tendo – e, cada vez mais, – menos paciência...

Mantenhamos a esperança de que o bom trabalho realizado pelos que agem de forma politicamente acertada, consiga inspirar a todos a vontade de  proceder de forma justa para bem da comunidade e, não apenas para o benefício de alguns. Mais de que um desejo, isto é a expressão da minha sincera esperança. Que o verdadeiro espírito de Natal, os tenha inspirado  como bom exemplo de verdadeira solidariedade social.

 

Com os meus votos de BOM ANO NOVO

 

 



publicado por Francisco Galego às 10:51
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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