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UM POEMA...

por Francisco Galego, em 21.01.19

A boa poesia é sempre “obra de arte”, mesmo quando, intencionalmente, se apresenta como sendo um aligeirado modo de brincar com as palavras, as frases e os sentimentos...  

 

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

 

 MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

 

 

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publicado às 17:19


MUDAM-SE OS TEMPOS MUDAM-SE AS NECESSIDADES...

por Francisco Galego, em 14.01.19

Neste nosso tempo de constantes e frequentes mutações, a todos os níveis e em todos os sectores de actividade das nossas comunidades, deveríamos ter uma atenção especial e mais adequada, no que respeita à preparação das novas gerações. E essa necessidade deveria ser incumbência prioritária dos sistemas educativos.

Mas, salvo raras excepções, as escolas parecem tender a configurarem-se mais pela repetida preservação e conservação de antiquados métodos e desajustados projectos, do que a procurarem soluções que respondam a novas condições. Em grande parte dos casos as escolas de hoje continuam a organizarem-se do mesmo modo, prosseguindo da mesma maneira e com os mesmos objectivos que orientavam as escolas em meados do século passado. Esta tendência conservadora gera uma conflituosa relação entre o que a escola faz e o que as comunidades necessitam que seja feito, de acordo com as condições actuais do nosso modo de vida.

É demasiado evidente, para que possa ser ignorado, o desfasamento e a inadequação que se vai tornando cada vez mais evidente entre a atitude da escola e as reais necessidades em capital humano, com uma boa e sólida preparação inicial, para que cada um possa estar apto para se adaptar a novas tarefas e funções, bem como a novos equipamentos e na aquisição de novos conhecimentos.

A escola do passado, voltada prioritariamente para a instrução, deve ter hoje uma função mais voltada para uma formação que dote as novas gerações das capacidades para uma rápida e adequada adaptação a novas situações  que se lhes venham a deparar, nas empresas ou nas instituições em que irão desenvolver a sua actividade. Se os nossos avôs e os nossos pais tinham uma grande probalilidade de exercer, durante toda a sua vida profissional activa, a mesma profissão e do mesmo modo como os seus pais a tinham exercido, é pouco provável que assim irá  acontecer no que respeita à vida profissional dos nossos filhos.

Bem aventurados sejam os que lutam contra a maré negra dos que persistem em preservar métodos ultrapassados que conservam defeitos, em vez de procurarem novas soluções.

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publicado às 11:08

Aos que se colocam numa postura mais racionalista, custa muito entender que as ditas “massas populares”, por vezes tão carentes, quanto mal esclarecidas, tendam a acolher as propostas que “iluminados lideres” lhes apresentam como fáceis e seguros modos de encontrarem, rápida e eficaz, solução  para os seus problemas.

Daí a  dificuldade em compreendermos certos “movimentos sociais” que estão a proliferar neste nosso tempo, sendo nitido que neles a razão conta quase nada, face ao perdominante peso das convicções, quase sempre muito pouco e muito mal fundamentadas.

No fundo temos explicações que muitos não entendem, porque os menos esclarecidos, tendem mais a formularem as suas opiniões com base naquilo que são levados a acreditarem, do que naquilo que concluiriam se aceitassem analisar os factos baseados numa razão fundamentada em argumentos comprovados e  claras explicações.

Ou seja, na realidade, as massas populares entre um pensamento fundamentado e um confuso conjunto de convicções, na sua grande maioria tendem mais a colocar-se do lado da fezada, do eu acho que, do que a basearem-se em conhecimentos adquiridos por uma eslarecida  razão.

Por mais que os intectuais honestos procurem explicar, estarão sempre em desvantagem, perante os parladores eficazes - os de palavra fácil - e que, sem qualquer limite ou constrangimento, prometem e convencem com base em miraculosas justificações.

A denúncia destes casos,  devia ser tomada como missão, para denúncia desses mestres em propaganda, cujo saber consiste apenas em encontrarem a maneira mais hábil de convencerem, para melhor manipularem. São eficazes na medida em que conseguem encaminhar as massas para que estas  construam a base em que eles possam assentar o seu próprio poder.

Torna-se muito difícil a tarefa dos que pretendem iluminar as consciências, para beneficio das condições de vida dos mais desfavorecidos, se  outros cuidam de os conduzirem, não no sentido  que mais  os favoreça, mas com o fim de alcançarem os seus desígnios  e para que se concretizem os interesses que melhor sirvam as suas ambições.

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publicado às 00:02


AINDA SENDO, MAS ...

por Francisco Galego, em 04.01.19

Aqui estou ainda ...

Atento

ao  que  vai acontecendo

Mas sinto já

estar cada vez mais perto

o que inevitávelmente

acontecerá por ser certo

 

Nem me angustio

nem lamento

Deixar de ser

é  lei universal

de todas as coisas

Eterno entendo que seja

apenas o tempo

 

(Francisco Galego)

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NO DIA PRIMEIRO DO ANO...

por Francisco Galego, em 01.01.19

 

Vencidos que são os 365 dias que compuseram este ano civil, religioso e astronómico, enumerado como o 2018 dos que decorreram desde o nascimento de Cristo,

que mais poderei fazer

do que retribuir

os votos de um BOM ANO

a todos os que me expressaram

o mesmo desejo?...

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NOTA: NO JAPÃO COMEÇA HOJE O ANO 2679 DA ERA QUE ELES UTILIZAM.

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publicado às 00:04


ANO NOVO, VIDA NOVA?

por Francisco Galego, em 28.12.18

 

 

Cansados dos dias

Sempre iguais

Que cumprindo vamos

 E o começo de um Novo Ano inventamos

Como se tudo se reiniciasse

Sabendo que de facto

Nada mudamos

Pois que assim somos

À realidade contrapomos a ilusão

E nos consolamos

Na crença do que nos dita

A nossa imaginação

                                                                                           

                          (Francisco Galego)

 

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O NATAL E OS POETAS... (3)

por Francisco Galego, em 25.12.18

Natal

 

Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, — do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos — não uma vez, mas cada —
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, — e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

José Régio, in 'Obra Completa'

 

 

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Provérbio popular: Ande o frio por onde andar, no Natal cá vem parar

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O NATAL E OS POETAS... (4)

por Francisco Galego, em 24.12.18

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
                                       
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga, in 'Antologia Poética'

 

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publicado às 00:01


O NATAL E OS POETAS... (9)

por Francisco Galego, em 23.12.18

Nasce Mais uma Vez

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.
Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Miguel Torga, in 'Diários'

 

Nota: Estudante em Coimbra, aprendi que o poeta e escritor que muito apreciava, sob o pseudónimo de Miguel Torga, era o médico Adolfo Correia da Rocha, com consultório no Largo da Portagem dessa cidade.

 

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O NATAL E OS POETAS... (8)

por Francisco Galego, em 22.12.18

Nasceu um Menino

Nasceu, nasceu um Menino,
Nasceu um Menino mais,
No bercinho pouco fino
Das palhas duns animais!

Que num vil curral por quarto
E entre uns pedregulhos nus,
Teve a santa dor do parto
A Mulher que o deu à luz.

Mas de cada vez, no mundo,
Que mais um ser aparece,
Quem pode descer ao fundo
Do que o Destino nos tece?

À hora em que Este chegava,
Lá para um cerro distante,
Por cada fibra chorava
Una velho cedro gigante.

Chorava porque sabia
Que em seu peito condenado
Aquele Menino, um dia,
Seria crucificado.

Ora cada vez, no mundo,
Que nasce mais um Menino,
Quem pode descer ao fundo
Do que nos tece o Destino?

Já, pelos céus fora, um astro
Descendo sobre o curral,
Abre para sempre um rastro
De alvor sobrenatural.

E o velho cedro, que chora
Porque se julga precito,
Pelos séculos em fora
Será sagrado e bendito.

Que abertos pelos espaços,
No azul sereno e profundo,
Do sangue duns outros braços
Seus braços dão Vida ao mundo.

José Régio, in 'Obra Completa'

 

 

NOTA: Faz hoje  49 anos que faleceu este grande poeta que, nascido em Vila do Conde a 17 de Setembro de 190I, viveu por muitos anos na cidade de Portalegre (nos seus versos designada como "Portalegre cidade do Alto Alentejo cercada") , exercendo a sua profissão de professor liceal. Aí o conheci, ele na condição de professor examinador, eu na de aluno examinado; ele já para o fim da carreira; eu que a minha ainda apenas começava).

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publicado às 00:03


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