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NOTÍCIAS ANTIGAS DE CAMPO MAIOR (1)

por Francisco Galego, em 17.08.19

ASSASSÍNIO HORROROSO – Diz-nos o nosso correspondente em Campo Maior, Manuel da Gama Lobo:

         O reverendo padre José António Saquette não faltava um só dia a cumprir os actos religiosos, na colegiada em que serviu por mais de cinquenta anos. Faltando, pois, a comparecer na igreja nos dias 11 e 12 do corrente, os sacerdotes, seus colegas, admiraram-se e, por isso, foram à porta dele que acharam fechada. Em seguida, recorreram à autoridade competente para que judicialmente se lhe abrisse a porta.

         Encontraram um cadáver sentado numa cadeira, junto a uma mesa. Na acção de estar ceando, estava o padre Saquette barbaramente assassinado, com dezassete feridas feitas com vários instrumentos uma que tinha na testa, demonstrava que tinha sido feita com um machado.

         O padre não tinha criado, nem criada. Vivia só, tinha fama de ter dinheiro e, além do seu, era depositário de algum de diversas contrarias a que pertencia. E era também depositário de adornos de imagens, todos de prata e de valor.

         As autoridades têm feito as pesquisas possíveis para serem descobertos os assassinos. Campo Maior está aterrado, pois os roubos têm sido frequentes, sendo preciso estabelecer-se uma ronda nocturna, a quem pagam alguns proprietários e que alguma coisa tem evitado, mas não tudo, como se está vendo...

         Mais adiante, quase no fim do noticiário, sob o título Homicida: Há dias entraram nas cadeias desta cidade de Elvas, três individuos de Campo Maior, acusados de terem assassinado o padre Saquete daquela vila. Um deles era regedor de uma das freguesias de Campo Maior.

         Quiseramos que o processo corresse com brevidade e ver punidos com o rigor das leis os perpetradores de tão atrós delito. Os castigos produzem tanto maior efeito quanto mais recente foi o crime que os justifica.

..................................................................

Nota. Esta notícia foi publicada no número 9, pág. 4, do primeiro jornal publicado em Elvas, - A Voz do Alemtejo -, no dia 15 de Fevereiro de 1860.

Mais adiante, o mesmo jornal, no nº 348 de 5 de Junho de 1864, pág. 3, noticía que após uma sessão que, tendo começado às 9 horas da manhã do dia 1, só terminou por volta  das 9 horas do dia 2 , dando, por unanimidade, como provado o crime  particado pelos três réus. O juis proferiu a sentença.  Foram condenados à pena capital, executada na praça  de Campo Maior.

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publicado às 10:00


EM QUE IRÃO TORNAR-SE AS FESTAS?

por Francisco Galego, em 08.08.19

AS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS NA VILA DE CAMPO MAIOR

Vila de dimensão média, muito isolada no interior de um território, Campo Maior, passou por fases extensas de grande isolamento que a marcaram de um ponto de vista cultural.

Encostada junto ao limite que é a fronteira com a Espanha - que a separou pela língua e que lhe definiu as limitações dos contactos -, principalmente em tempos de poucas e, por vezes, bastantes difíceis condições de comunicação -, desenvolveu formas próprias de viver e de conviver que definiram modos próprios de comportamentos sociais.

Ora, as manifestaçõe culturais que nascem numa sociedade, reflectem o seu modo de existir. E, logicamente, as fases que marcam os períodos da sua evolução, expressam-se pelas características linguísticas e pelos comportamentos sociais.

Em finais do século XIX, com o desenvolvimento das actividades agrícolas, começou a emergir uma nova estrutura social, a dos artístas, ligada às profissões artesanais que asseguravam a construção e manutenção dos equipamentos agrícolas: carpinteiros, ferreiros, albardeiros, ferradores, caldeireiros... E, os elementos destas novas profissões, vão ter tal influência que originaram uma festa  que passou a ser designada como a festa dos artistas. Por semelhante razão, quando nelas se envolveu todo o povo, integrado na ornamentação das ruas, passaram a ser designadas como as festas do povo. 

E agora em que já não podemos garantir as agregações dos moradores da mesma rua que levavam à formação das "comunidades de vizinhos" que assumiam a sua ornamentação sempre que se realizavam as festas?  

Parece-me pertinente  colocar a questão:

Se agora, a sociedade local está organizada  de nova maneira, tornando-se pouco possíveis  os serviços dos artesãos, por serem muito reduzidos os que poderiam desempenhar os trabalhos que lhes eram próprios, e se a própria população mudou de forma acentuada o conjunto das suas necessidades, que feição irão tomar as manifestações de celebração colectiva na vila de Campo Maior?

Porque, é natural que assim seja. As manifestações culturais, que nascem numa sociedade, tendem a reflectir as fases e a evolução dessa mesma sociedade. Ou seja, tem cabimento colocar a seguinte questão: Como irão evoluir as "festas", aqui, em Campo Maior?

 

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publicado às 14:55


ASSIM, NESTE ESTADO D´ALMA...

por Francisco Galego, em 05.08.19

Do fundo da memória, emergiu esta bela e triste poesia, carregada de uma conformada consolação com este viver sempre o mesmo...

  

Viver sempre também cansa!


O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

(José Gomes Ferreira)- (1900-1985)

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publicado às 10:06


POEMA (11)

por Francisco Galego, em 30.07.19

Como acontece com quase todas as tarefas, escrever sempre também cansa. Por isso, vai-se  impondo a vontade de "fazer umas férias" para descanso. Por isso, volto a publicar este  belo poema, que expressa  claramente o meu "estado de alma", neste momento...

A minha Alma sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha Alma fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai ao café, pede um “bock”,
Lê o "jornal" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao oiro antigo!

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da "Capital"
Pelo o nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual …

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho,

Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra uma porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
P´ra acabar este intermédio,
Lembrou-me de endoidecer:

O que era fácil,

Partindo os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar "Viva a Alemanha"!…

Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade.

Vou deixá-la decidido
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro (19 Maio 1890 - 26 Abril 1916)

BOAS FÉRIAS!

E, ... SE POSSÍVEL, ... APÓS ELAS, ..., BOM REGRESSO ...

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publicado às 15:34


AVALIANDO...

por Francisco Galego, em 24.07.19

Daqui a alguns dias alcançarei a idade de 78 anos.  Com esta idade, o tempo passado foi sendo, tão denso e tão prolongado, que deixou de ser completamente alcançável pela minha, cada vez mais fraca, memória. E, no entanto, ele constitui a parte essencial e integrante da pessoa em que me fui tornando.

Para o bem e para o menos bem, o tempo vivido vai modelando as capacidades e as tendências do nosso carácter. A educação e as aprendizagens que ela propiciou, foram desvendando os caminhos que, as circunstâncias e a linha do tempo, foram revelando.

Viver é este caminhar que consiste em percorrer um destino que se vai tecendo como o nosso viver. Mas, como nem tudo depende apenas de nós, nem sempre aconteceu o que desejaríamos que tivesse acontecido. Porém, tendeu a piorar muito, quando não cuidámos de prevenir para que tudo decorresse segundo o que parecia ser o mais conveniente.

Viver é, em grande parte, o que resulta da interacção entre, as circunstâncias, o querer, o poder e a capacidade de prevenir e de remediar. O âmbito da nossa vida vai-se reduzindo, na medida em que, na nossa memória, se vão cada vez mais desvanecendo os factos que ocorreram no passado do nosso viver.

Esta reflexão não tem qualquer intenção, nem de lamento, nem de despedida. Poderá mais propriamente ser tomada como um balanço de avaliação. Nela não há qualquer lamento, nem tem qualquer carácter de despedida. Se viver é tecer uma vida ao longo do tempo, ela só acaba quando o “tecelão” parar a sua acção de tecer. E eu, por enquanto, não tenho ainda qualquer perspectiva, nem intenção de parar. Até porque esse será o único acontecimento da minha vida que não poderei prever e de que não poderei guardar memória.

Prefiro considerar que se trata mais de uma "avaliação" do caminho percorrido para evitar desvios ou mudanças de rumo. Ou seja: garantir que haja sequência entre o passado, o presente e o futuro. Pois que, não devemos deixar a vida acontecer sem ir avaliando, para que haja coerência no nosso viver.

A avaliação é um excelente guia para o aperfeiçoamento e a definição do nosso comportamento.                                       

Francisco Galego, Campo Maior, Julho de 2019

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publicado às 15:43


POEMA (10)

por Francisco Galego, em 23.07.19

Decidi publicar alguns poemas retirados de obras de autores reconhecidos como notáveis poetas, porque não sei responder com clareza a perguntas como as que assim expresso:

Afinal qual é a essência da poesia?

Amontoar palavras e informações?

Revelar muitos e profundos conhecimentos?

 

Ora, a poesia,

mesmo um pequeno poema,

dizendo em poucas palavras,

poucas coisas, quase nada,

pode sugerir tanto, tanto,

que consegue produzir,

um imenso sentimento ...

 

Para exemplificar:

 

 

Mário de Sá Carneiro

 

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.
(...)
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
(...)

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
(...)
Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

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publicado às 00:03


POEMA (9)

por Francisco Galego, em 20.07.19

Decidi publicar alguns poemas retirados de obras de autores reconhecidos como notáveis poetas, porque não sei responder com clareza a perguntas como as que assim expresso:

Afinal qual é a essência da poesia?

Amontoar palavras e informações?

Revelar muitos e profundos conhecimentos?

 

Ora, a poesia,

mesmo um pequeno poema,

dizendo em poucas palavras,

poucas coisas, quase nada,

pode sugerir tanto, tanto,

que consegue produzir,

um imenso sentimento ...

 

Para exemplificar:

 

 

Mário de Sá Carneiro (1890 – 1916)

 

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

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publicado às 00:05


POEMA (8)

por Francisco Galego, em 15.07.19

 

Decidi publicar alguns poemas retirados de obras de autores reconhecidos como notáveis poetas, porque não sei responder com clareza a perguntas como as que assim expresso:

Afinal qual é a essência da poesia?

Amontoar palavras e informações?

Revelar muitos e profundos conhecimentos?

 

Ora, a poesia,

mesmo um pequeno poema,

dizendo em poucas palavras,

poucas coisas, quase nada,

pode sugerir tanto, tanto,

que consegue produzir,

um imenso sentimento ...

 

Para exemplificar:

 

São Silveirinha (1972)

 

DE MÃOS ABERTAS

 

Mulher sofrida

arranca essas vestes

carregadas de medos!

 

Deixa que te amainem esse grito

que, aos poucos, te vai estrangulando!

 

Mulher coragem,

embebeda os teus sentidos

até agora adormecidos!

 

Lá fora, tudo é som...

Lá fora, tudo é claridade...

 

Não temas o sol impiedoso

que parece ferir-te os olhos,

até agora vendados!

 

De mãos libertas, avança pelas ruas!

Á tua frente, irão misturar-se sem pudor,

Serpenteantes como rabiscos de lápis de cor!

 

Mulher luz – antes sombra –

Alimenta-te desse trago de vida!

 

As mãos da liberdade

são agora o teu abrigo!

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publicado às 00:07


POEMA (7)

por Francisco Galego, em 10.07.19

 

Decidi publicar alguns poemas retirados de obras de autores reconhecidos como notáveis poetas, porque não sei responder com clareza a perguntas como as que assim expresso:

Afinal qual é a essência da poesia?

Amontoar palavras e informações?

Revelar muitos e profundos conhecimentos?

 

Ora, a poesia,

mesmo um pequeno poema,

dizendo em poucas palavras,

poucas coisas, quase nada,

pode sugerir tanto, tanto,

que consegue produzir,

um imenso sentimento ...

 

Para exemplificar:

 

São Silveirinha (1972)

 

MARCHA

 

QUE NINGUÉM

NOS TENTE TRAVAR O SONHO!

O alento que nos impulsiona.

 

QUE NÃO NOS CALEM A VOZ!

O arco dos nossos anseios.

 

QUE NÃO NOS APRISIONEM A ALMA!

A nossa força motriz.

 

QUE MÃO NENHUMA SUFOQUE O NOSSO GRITO!

O escape da nossa inquietude.

 

QUE NENHUMA CORRENTE DE FERRO

NOS IMPEÇA O CAMINHAR!

O nosso passo é firme, inabalável.

 

SOMOS DONOS DA NOSSA VONTADE

E COMANDAMOS O NOSSO DESTINO!

 

 

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publicado às 08:40


POEMA (6)

por Francisco Galego, em 05.07.19

 

Decidi publicar alguns poemas retirados de obras de autores reconhecidos como notáveis poetas, porque não sei responder com clareza a perguntas como as que assim expresso:

Afinal qual é a essência da poesia?

Amontoar palavras e informações?

Revelar muitos e profundos conhecimentos?

 

Ora, a poesia,

mesmo um pequeno poema,

dizendo em poucas palavras,

poucas coisas, quase nada,

pode sugerir tanto, tanto,

que consegue produzir,

um imenso sentimento ...

 

Para exemplificar:

 

Fernando Pessoa (188-1935)

 

NEVOEIRO

 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

 Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer -

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoreiro ...

 

É a Hora!

 

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publicado às 00:02


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