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DA LEITURA DA BÍBLIA EM PORTUGAL ...

por Francisco Galego, em 18.11.18

O português João Ferreira de Almeida, para fazer a 1ª tradução da Bíblia em português, teve de sair do país, morrendo em 1691 no Extremo Oriente. Essa tradução só foi publicada, fora de Portugal, em meados do século XVIII, reinando D. José.

Só no final do século XVIII, foi publicada a primeira versão da Bíblia para ser lida em Portugal. E só na 2ª metade do século XX, o Novo Testamento, traduzido do grego, foi traduzido em Portugal.

 

Objectivos principais declarados por Frederico Lourenço, autor do mais recente projecto de tradução da Bilblia para português:

 

1 - Dar a conhecer o texto bíblico de forma não-eclesiástica, não--doutrinária, não-confessional, não-apologética e não-teológica;

2 - Privilegiar uma base cripto-histórica para a sua leitura, recorrendo a textos originais tanto em grego, como em latim, como em hebraico.

 3 -  Tomar em consideração que, em Portugal, devido à Inquisição, a leitura da Bíblia era apenas acessível a muito poucos e apenas na versão latina de S. Jerónimo, sendo interdita em qualquer outra língua.

 

 

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publicado às 12:30


UM CASO DE TEMPOS PASSADOS...

por Francisco Galego, em 14.11.18

Com a Revolução Liberal de 1820, o Estado começou a redefinir-se em termos jurídicos e políticos, o que tinha como consequência a necessidade de romper com uma tradição que, em muitos aspectos, tornava indistintos os poderes e o âmbito de intervenção da Igreja e do Estado.

O processo de clarificação e separação arrastou-se por muito tempo e levantou muitas resistências e contestações devido à longa tradição que misturava os comportamentos ditados pelas prescrições religiosas, com os deveres e os direitos que deviam ser estabelecidos e regulamentados pelo Estado.

Assim acontecia com a legitimação dos laços de matrimónio. Durante bastante tempo, tanto a sacralização, como o registo dos casamentos, estavam entregues aos párocos, pertencendo-lhes procederem ao acto cerimonial de consagração e ao registo oficial da união que legitimava os casamentos.

Em Portugal, só a partir de 1865 se deu inicio ao processo que levaria à separação do casamento religioso e do casamento civil.

Esta breve introdução serve para melhor compreensão do facto que a seguir se relata:

Durante a recolha de informações destinadas à elaboração das obras que eu viria a publicar sobre a vida e a obra do notável campomaiorense que foi João Dubraz, encontrei, no nº 92 do jornal elevense A Democracia Pacífica, publicado em 23 de Agosto de 1868, com destaque na sua 1ª página, a seguinte notícia:

         Dia 13 do corrente, julgamento em Elvas de uma causa de sevícias, em que era autora Ana do Carmo Cunha Serra e réu seu marido Joaquim Caetano Cerejo. “Foi este o primeiro julgamento de tal espécie na comarca, segundo o novíssimo processo”...

Estas simples linhas encerravam o suficiente para causar em mim grande surpresa e um elevado interesse, pois nelas se referia o nome do meu biografado - João Dubraz - que, para além de notável escritor e historiador de Campo Maior,  conseguira, pelo seu próprio esforço, adquirir os conhecimetos jurídicos necessários para se constituir, como advogado provisional, reconhecido na comarca de Elvas, defendendo e fazendo valer os direitos de uma mulher, sendo este  o primeiro pedido de divórcio apresentado a juizo nesta comarca.  

Mas, para mim era ainda mais surpreendente que, como autora do processo, encontrasse o nome de Ana do Carmo Cunha Serra, denunciando o comportamento de seu marido e reivindicando a anulação do casamento, com base na brutalidade do seu comportamento desregrado, por vezes violento, devido ao inveterado vício do alcoolismo.

Quem tente avaliar o que seriam os hábitos preconceituosos, extremamente severos e censórios da população de uma vila rural, isolada no extemo fronteiriço do Alto Alentejo, em pleno séc. XIX, poderá intuir quanta coragem terá tido esta mulher para tomar tal decisão. Repare-se que esta decisão, além da censura social,  implicava  também que, no dizer do tempo, ficasse mal falada. E, devido à mentalidade da época, pior que tudo isso, seria que a sua morte e funeral não poderiam contar com a presença de um sacerdote, pois que, não sendo o divórcio aceite pela Igreja, significava a excomunhão de quem o cometesse.

A minha surpresa deu lugar a um certo orgulho: Tratava-se  da minha trisavó pelo lado paterno. Minha avó, por vezes referia com orgulho este acto da mulher de quem herdara o nome, pois também ela se chamou Ana do Carmo Serra. E eu acrescento que, além do nome, lhe herdou também o temperamento e o carácter, pois sempre foi uma mulher de uma  grande lucidez e de determinada coragem.

 

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publicado às 00:09

“No dia 25 de Maio notava-se nos habitantes da populosa vila de Campo Maior um extraordinário movimento, dirigindo-se muita gente para a rua de S. Pedro, pela qual se estendia o fio eléctrico que, saindo da estação, colocada num bonito edifício do Sr. Epifânio Lopes da Mata, seguia pela rua das Poças em direcção à muralha, depois ao convento de S. Francisco a encontrar o outro fio, indo daqui a outro ponto da muralha e em direcção a Elvas (três léguas de Campo Maior).

            Ao Sr. Director Garcia que desejava concluir a linha nesse dia 25, ao soldar-se os dois fios, às três horas e meia do dia, lhe participaram que o fio se achava quebrado ao rio Caia (a 4 Kilómetros da vila); deu logo as devidas ordens para que se reparasse a linha o mais breve possível, conseguindo que às nove horas funcionasse o telégrafo.

No dia seguinte, 26 de Maio, abriu-se ao público a estação.

 

(In, A DEMOCRACIA PACÍFICA, nº 36, Elvas, 6 de Junho de 1867)

 

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publicado às 09:23


NO ANTIGAMENTE... UMA VIAGEM EM PORTUGAL EM 1866.

por Francisco Galego, em 04.11.18

Por Hans Christian Andersen (1805-1875): escritor e poeta dinamarquês de histórias infantis, peças de teatro, canções patrióticas, contos, histórias, e, principalmente, contos de fadas, pelos quais é mundialmente conhecido. É interessante realçar o modo como o autor, homem muito viajado, comparou Espanha com Portugal.

- Vindo de Madrid, aonde chegara em 1863, viajando três noites e três dias em diligência, chegou a Mérida. Aí começava o caminho de ferro que ligava a Lisboa, pela fronteira de Elvas-Badajoz.

Acentuou bastante o aspecto miserável de Espanha comparando-o com o que depois encontrou em Portugal: “Aqui haviam chegado também, como uma brisa, as comodidades dos tempos modernos de Inglaterra, ou do restante mundo civilizado... estávamos, pois no meio da civilização.

Descreve as terras em volta, desde Lisboa até Sintra. Desenha gráfica e literariamente, o Aqueduto das Águas Livres e evoca a monstruosidade do bandido Diogo Alves (o Pancadas, nascido na Galiza em 1810 e último condenado à morte da História de Portugal, em 1841) que lançava as suas vítimas do alto para o abismo, pelos meados dos anos cinquenta do séc. XIX.

Em Lisboa, não encontrou a desorganização e a sujidade de que lhe tinham falado; isso seria coisa de há trinta anos. As casas eram bem cuidadas, as ruas largas e limpas, havendo nelas vida e movimento. Nelas circulam os cabriolés, mas também pesados carros de bois, vacas que os leiteiros ordenham na rua. As esquinas das ruas ostentavam grandes cartazes de teatro. As óperas e operetas eram apresentadas no “Circo Price”. O belo Teatro de D. Maria II, ornado de colunas, no topo de uma praça com um elegante pavimento em moisaco, era o mais frequentado. Esta praça ligava-se, pela larga Rua do Ouro, à Praça do Comércio que se abre de um lado para a margem do Tejo. O centro da cidade é rodeado por colinas. Numa praça em sítio mais alto, está a estátua de Camões que vai agora ser apeada para ser substituida por uma nova que está a ser esculpida.

Um passeio público, no meio da cidade, é longo e estreito, ladeado por árvores em flor e, à noite, é iluminado para os concertos.

Como grandes vultos da cultura portuguesa, Andersen refere: Gil Vicente, Camões, António Ferreira, Bocage, Herculano; Garrett, António Feliciano de Castilho.  

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publicado às 16:05


TERRAMOTO DE LISBOA (1755) ... Há 263 anos

por Francisco Galego, em 01.11.18

Na manhã de 1 de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, um violento terramoto fez-se sentir com grande incidência em Lisboa, mas também em muitas outras terras, como Setúbal e no Algarve. Na capital, local onde atingiu maior intensidade - grau 9 na escala de Ritcher -, foi acompanhado por um maremoto (Tsunami) com ondas que parecem ter chegado aos 20 metros, cujo efeito chegou até às costas dos Estados Unidos da América.

O terramoto e o marenoto que varreu o Terreiro do Paço, seguidos de um gigantesco incêndio que durou 6 dias, completaram o cenário de destruição de toda a Baixa de Lisboa. Este trágico acontecimento foi tema de vasta literatura que se desenvolveu um pouco por toda a Europa e de que é exemplo o poema de Voltaire Le Désastre de Lisbonne (1756).

Lisboa já havia sentido muitos terramotos. Existem refências a oito no século XIV, cinco no século XVI - incluindo o de 1531 que destruiu 1.500 casas, e o de 1597 que destruiu três ruas. No século XVIII foram mencionados os terramotos de 1724 e 1750. Este último precisamente no dia da morte de D. João V, mas ambos de consequências menores.
Em 1755, ruíram importantes edifícios, como o Teatro da Ópera, o Palácio do duque de Cadaval, o Palácio Real e o Arquivo da Torre do Tombo, cujos documentos foram salvos, o mesmo não acontecendo com as bibliotecas dos Dominicanos e dos Franciscanos. Ao todo, terão sido destruídos cerca de 10.000 edifícios e terão morrido entre 12.000 a 15.000 pessoas, ou talvez muito mais. Estudos modernos indicam que numa cidade com 275.000 habitantes poderiam ter morrido entre 70 a 90.000 pessoas.
O sismo fez-se sentir na manhã de 1 de Novembro, dia que coincide com o feriado do Dia de Todos-os-Santos. O epicentro não é conhecido com exactidão, pois que  diversos sismólogos propõem, para sua localização, pontos distanciados, alguns por centenas de quilómetros. No entanto, todos convergem para um epicentro no mar, entre 150 a 500 km a sudoeste de Lisboa.

Com os vários desmoronamentos, os sobreviventes procuraram refúgio na zona portuária e assistiram ao recuo das águas, revelando o fundo do mar cheio de destroços de navios e de cargas perdidas. Poucos minutos depois, um maremoto de grandes proporções, que actualmente se supõe ter atingido 20 metros de altura, fez submergir o porto e o centro da cidade. Nas áreas que não foram afectadas pelo tsunami, o fogo logo alastrou, tendo os incêndios durado pelo menos 5 dias.

Lisboa não foi a única cidade portuguesa afectada pela catástrofe. Todo o sul de Portugal, sobretudo o Algarve, foi atingido e a destruição foi generalizada. Além da destruição causada pelo sismo, o tsunami que se seguiu, destruiu fortalezas costeiras e habitações no Algarve, registando-se ondas com cerca de 30 metros de altura. As ondas de choque do sismo foram sentidas por toda a Europa e no norte da África. Cidades marroquinas como Fez e Meknès sofreram danos e consideráveis perdas de vida. Ainda não há muito tempo que, numa visita guiada na cidade de Salamanca, a guia que orientava a visita, chamou a atenção para uma racha numa das torres da catedral. Em Campo Maior não são conhecidos quaisquer efeitos, mas há referência a que a igreja de Ouguela terá sofrido graves danos em consequência das ondas  de choque  que ali chegaram.

Os maremotos originados pela movimentação tectónica varreram locais desde o norte de África - como Safim e Agadir - até ao norte da Europa, nomeadamente até à Finlândia.  Afectaram os Açores e a Madeira e locais tão longínquos como Antígua, Martinica e Barbados. Diversos locais em torno do golfo de Cádis foram inundados. O nível das águas subiu repentinamente em Gibraltar. As ondas chegaram até Sevilha através do rio Guadalquivir e chegaram também a Huelva e a Ceuta.

Crê-se que, em Lisboa, de uma população de 275 mil habitantes terão morrido cerca 90 mil. Em Marrocos, cerca de 10 mil foram vitimados. Aproximadamente 85% das construções de Lisboa terão sido destruídas, incluindo palácios famosos, bibliotecas, conventos, igrejas, hospitais e muitas outras importantes estruturas. A isto juntam-se as construções que sofreram poucos danos pelo terramoto, mas que foram destruídas pelo fogo que se seguiu ao abalo sísmico.

A recém construída Casa da Ópera, aberta apenas seis meses antes, foi totalmente consumida pelo fogo. O Palácio Real, que se situava na margem do Tejo, onde hoje existe o Terreiro do Paço, foi destruído pelos abalos sísmicos e pelo tsunami. Dentro, havia uma biblioteca de 70 mil volumes e centenas de obras de arte foram perdidas, incluindo pinturas de Ticiano, Rubens, e Correggio. O precioso Arquivo Real com documentos relativos à exploração oceânica e outros documentos antigos também foi destruido.

O terramoto destruiu também algumas das maiores igrejas de Lisboa, nomeadamente, a Catedral de Santa Maria, as Basílicas de São Paulo, de Santa Catarina, de São Vicente de Fora, e a da Misericórdia. As ruínas do Convento do Carmo que ainda hoje podem ser visitadas no centro da cidade, são testemunho dessa destruição. O túmulo de Nuno Álvares Pereira, que existia nesse convento, perdeu-se também.

O Hospital Real de Todos os Santos foi consumido pelos fogos, tendo centenas de pacientes morrido queimados.

Registos históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo foram perdidos. Foram arrasadas muitas importantes construções, incluindo notáveis  exemplares da arquitectura do período manuelino, em Portugal.

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FONTE: Domingos Amaral - QUANDO LISBOA TREMEU. Leya SA, 3ª ed., Alfragide, 2013

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publicado às 00:03

Campo Maior recebeu a visita do magistrado superior do distrito (…)

            Muitos foguetes anunciaram, na tarde de 26 de Outubro, a chegada do ilustre visitante, que veio de Elvas acompanhado por alguns cavalheiros que o foram esperar ao caminho. Fizeram-lhe as honras da entrada as duas filarmónicas da vila em grande uniforme e, tanto Sua Exª como o Sr. Resende, digno oficial do governo civil, foram hospedados em casa dos S.r.s Carvajais.

No dia 27 ao meio-dia, o chefe do distrito foi aos paços do Concelho, onde a câmara o esperava (…)

O Sr. Governador Civil examinou o arquivo municipal e notou ao digno presidente da câmara a falta dos Anais do Município (…)

Saindo da câmara foi visitar a administração do concelho, a repartição da fazenda, a secretaria dos celeiros comuns de Campo maior e Ouguela, o Hospital, o observatório meteorológico e as escolas. (…)

(Depois visitou o castelo.)

No dia 28 …visitou os templos admirando as formosas capelas da Matriz e a rica construção de S. João Baptista …Depois foi Sua Ex.ª ver a ruína lastimosa que se chama convento de S. João de Deus e opinou pela conveniência de se colocarem ali as aulas públicas, aproveitando-se alguns restos ainda úteis, mas que passados oito a dez anos não seriam já aproveitáveis para coisa alguma.

Sua Exª terminou o seu dia de viajante culto e inteligente observador com uma ida ao cemitério público e a alguns outros edifícios que mereciam ser vistos.

Eis o que uma testemunha ocular pode dizer da visita do Ex.º Sr. Basílio Cabral Teixeira de Queiroz Júnior no ano de 1866.

 

JOÃO DUBRAZ -  (In, DEMOCRACIA PACÍFICA, Nº 4, 4ª-feira , 7/11/1866)

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publicado às 00:05


DO POPULISMO...

por Francisco Galego, em 23.10.18

Neste nosso tempo, vemos-nos frequentemente confrontados com atitudes, acções e manifestações de casos que incluimos no conceito de populismo. Este conceito que, nas suas origens, apontava para uma avaliação positiva das atitudes que como tal eram referidas, são agora cada vez mais frequentes e têm uma avalição cada vez mais pesada e negativa. Em contrapartida, quanto mais negativa, mais atrai a colaboração e o apoio de um maior número de gente.

São os casos que implicam a exposição e humilhação de acusados, mesmo quando não existe ainda prova confirmada de que existe culpa. São as reacções dos que, armados em justiceiros, inventam, proclamam de longe publicando acusações e comentários, por via directa, ou através de meios de comunicação social, levando-nos a pensar que, ainda que os meios tenham mudado muito, são homens muito iguais aos que encheram os circos romanos para verem os cristãos serem acusados e lançados às feras, ou os que acorriam às praças públicas para assistir à exposição e à morte na fogueira, dos acusados de crimes vários pela Santa Inquisição.

Onde é que, nestes casos de insano populismo, está a racionalidade que o deve distinguir os homanos dos outros animais? Como conciliar essas atitudes com a frequente proclamação de que os homens devem agir de modo virtuoso?

O homem virtuoso deve pensar antes de agir. E agir bem, segundo regras que garantam a justiça e o bem comum da sociedade. Devem ser virtuosos e corajosos dominando os seus impulsos, sem se deixarem dominar pelos seus desejos e censuráveis tendências.

O homem virtuoso deve, por condição, ser um animal social e a vida em sociedade deve ser organizada e mantida segundo as regras constituídas pelo direito, ou seja, pelo sistema normativo que garante o bom funcionamento da sociedade. O direito existe para que a justiça prevaleça.

Atendendo a tudo isto, como explicar o populismo que por aí medra?

Medra porque é o reflexo da cobardia e da ausência de moralidade que revelam os que apoiam certo tipo de manifestações, porque os vilões só mostram coragem quando têm o pau na mão. E porque, tal como as hienas, só mostram ousadia e coragem quando têm a certeza de serem em maior número e mais fortes do que as suas vítimas.

 

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publicado às 00:03

 

Postos à conversa, o assunto acabou para derivar para um artigo, por mim publicado, sob o título A propósito de uma leitura ... sobre as questões das escolas e da educação, começou ele por dizer que tinha grande dificuldade em aceitar algumas das convicções que eu aí tinha expressado.

Perguntando-lhe qual a razão, disse que lhe parecia que eu estava a não considerar as grandes diferenças que os professores hoje têm de enfrentar nas salas de aula, quando exercem a sua profissão. Mas, - contrapus eu -, essa é precisamente a razão dos maus resultados que se constatam actualmente nas questões da educação.

Vou tentar explicitar alguns dos espectos que referi, no texto publicado e que suscitaram a sua desaprovação:

  1. As mudanças sociais, principalmente a fraca competência que se verifica em muitas famílias - sobretudo as mais carenciadas de recursos e de menor nível educativo -  e a necessidade de as escolas assumirem essa função para atenuarem as desigualdades, promovendo a igualdade de oportunidades, através de uma adequada educação escolar das novas gerações.
  2. A escola, tornou-se o elemento fundamental na preparação das novas gerações, devendo estar atenta às mudanças sociais para cumprir, de forma adequada e adaptada, a sua função. Ora, em muitos espectos, a escola apresenta ainda, formas de organização e comportamentos de um modelo escolar que, tendo sido eficaz em tempos passados, são completamente desadequados para as necessidades do tempo presente.
  3. O ensino é hoje entendido como de frequência obrigatória e, cada vez se alarga mais o número de anos da sua frequência, porque cada vez é mais evidente a sua necesidade como forma de uma preparação que evite e previna indesejáveis comportamentos e problemas sociais.
  4. A escola hoje necessária, não é compatível com determinadas práticas. Daí que haja cada vez maior necessidade de, partindo de novos pressupostos, recorrer a novas práticas que, de forma abreviada, não se limitem a um ensino baseado na memorização que tem hoje muito pouca ou nenhuma utilidade. E também  porque, se torna cada vez mais evidente que, uma avaliação dos resultados da educação baseada nas classificações dos alunos, medindo exclusivamnete o insucesso, sem analisar as suas causas, não mede apenas o insucesso dos alunos. Mede  principalmente, o insucesso da escola para dotar os alunos da capacidade e da vontade de adquirirem conhecimetos e competências  que irão ser determinantes das suas condições de vida.
  5. Será que a própria formação dos professores está a ser devidamente orientada para os dotar das competências necessárias ao real e adequado exercício da sua profissão?

 

Como se vê, trata-se de um assunto de tão grande importância que - manda a prudência - deve ser abordado, não em termos de meros palpites e opiniões, porque exige o levantamento de questões, de razões e a aquisição de conhecimentos e de informações que permitam formular concepções e soluções devidamente fundamentadas e adequadas.

 

Francisco Galego, (In “Além Caia”, blog, 19/10/2018)

 

 

 

 

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publicado às 17:03


APENAS COMENTANDO...

por Francisco Galego, em 14.10.18

O que nos distingue nas nossas atitudes sociais que, naturalmente, incluem as nossas atitudes, comportamentos, crenças e opiniões políticas, bipolariza a maneira como nos colocamos em cada momento e perante cada acontecimento.

Vejamos o caso comentado de tantas e tão assanhadas maneiras, em volta da concretizada demissão do ministro da Defesa, Azeredo Lopes.

Uma grande parte dos opinadores rejubila por terem alcançado a sua tão desejada saída de funções. Mas, haverá outros, à frente dos quais se deve colocar o próprio ministro, que terão sentido um enorme alívio por esta tomada de decisão.

Senão, vejamos: O que será que, de facto, está no fundo em questão? Se me permitem, vou expressar a minha simples e, talvez muito ingénua opinião, que consiste em analisar as atitudes e convicções que estão subjacentes a esta questão.

Parecece-me a mim que, analisada numa perspectiva verdadeiramente política, enquanto que, para uns, a nomeação para um cargo de elevada responsabilidade só pode ser encarada como o dever de o assumir, como o exercício responsável de uma missão que exige uma elevada consciência e total competência e capacidade, outros só vêem nessa escolha e nomeação, uma distinção, uma promoção, que confere importância e poder na escala da ascensão social.

Assim, perante a sua anulação, uns sentirão alívio e libertação do pesado fardo de responsabilidades que tinham assumido. Outros, a celebrarão como um sucesso ao encontro do seu íntimo desejo de que não possam ter os outros aquilo que a eles não fora concedido.

Concordo que quase me envergonho de ter tão rasteiras suspeitas sobre certas atitudes. Mas, confesso que é o que consigo ver no alarido produzido por certas criaturas, ao abrigo daquilo que elas arvoram como sendo “luta política”.

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publicado às 16:23

O compêndio é, como se sabe, a ciência sistematizada pelo método mais apto para ser transmitida pelo ensino. Por isso cumpre que o compêndio seja breve e preciso, sem ficar deficiente… Convém que os compêndios se correspondam, sem lacunas e sem obscuridade, ligando-se de modo tal que os primeiros sirvam de começo aos segundos.

 (…) entendemos que o governo, em lugar de abrir concursos para a confecção de compêndios destinados ao ensino das línguas que são professadas na instrução secundária, talvez devesse antes nomear uma comissão de homens de letras capazes de escrever os compêndios precisos, encarregando-lhe a homogeneidade possível nos preceitos, para ficarem bem patentes, nas ideias e nas palavras, os princípios de gramática geral comuns a todas as línguas e libertar-se assim o ensino das antinomias e contradições que o dificultam e confundem com grave prejuízo dos alunos e desvantagem dos próprios professores.

(…) Entende-se que os compêndios assim confeccionados não serão eternos… O governo ordenaria a sua revisão de tempos em tempos, para corresponderem sempre ao estado de adiantamento das ciências. E cremos que muitas vantagens se colheriam da uniformidade proposta, sendo uma delas, aliás importantíssima, facultar livros baratos aos alunos, pois que o governo mandando fazer avultadas edições e vendendo-os pelo preço de custo, evitaria a desordem que se nota nas províncias onde nas aulas públicas se não pode conseguir nunca o estado completo dos livros adoptados para as classes.”

 

João Dubraz – In, DEMOCRACIA PACÍFICA, Nº 17, Elvas, 4ª-feira, 30/1/1867

 

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