Domingo, 25 de Maio de 2014

1. Campo Maior – Terra Fronteiriça

Breves notas sobre História, Arte e Turismo em Campo Maior

 

                Uma terrível explosão do armazém da pólvora e das munições provocada por violenta tempestade num dia de Setembro do ano de 1732[1], causou a lamentável destruição de quase tudo quanto a Leal e Valorosa vila possuía de mais notável em matéria de arte e arqueologia e que vinha desde os primórdios da sua integração na nacionalidade portuguesa até aquele fatídico dia. Além de algumas torres, entre elas a torre de menagem que servia de paiol, panos da muralha e do castelejo, ou seja, a parte mais antiga da fortificação medieval, mais tarde ampliada por uma nova cinta de muralhas no tempo de D. Afonso III[2], cuja pedra de armas se pode ver ainda encimando uma das portas do lado poente, tudo ficou destruído até aos alicerces. Do mesmo modo, todo o casario da primitiva vila medieval ficou destruído e com ele os solares de famílias nobres com os seus portais e fenestras de ogiva, bem como as grades dos balcões, do género dos que se vêem na parte antiga de outras povoações como Marvão, Castelo de Vide, Estremoz, Monsaraz e Albuquerque.

                Desapareceu igualmente a igreja romano-gótica, ou talvez gótica de Santa Maria do Castelo, primitiva matriz e, como é de crer, todo o precioso recheio e tudo quanto de interesse e de valor deveria existir na igreja, bem como no palácio do governador e nos antigos solares, em mobiliário, tapeçarias, peças de arte, etc. Esta parte mais antiga da vila nunca foi reedificada, atulhando-se o recinto, com os materiais dos escombros, até à altura do caminho da ronda, formando-se assim a esplanada que chegou até aos nossos dias.

                Fora do recinto fortificado já existiam, à data da explosão, algumas ruas com casas de moradia e solares como os dos Teles da Silva, Teles de Meneses, Vaz, Barreiros, Galvões, Mexias e de outros nobres, assim como os Paços do Concelho, todos de construção que se presume posteriores aos séculos XIV e XV. Toda esta parte da vila sofreu graves estragos e grandes mudanças com as obras de reparação que decerto lhe alteraram a traça primitiva. Por isso, nada resta dos estilos da época anterior, a não ser um portal gótico que parece ter sobrevivido do antigo Domus Municipalis, transformado em açougue após a horrorosa catástrofe na qual perderam a vida alguns milhares de habitantes da vila que, já então, era populosa. Ruíram algumas centenas de casas, segundo os relatos da época.

                Iniciada no último quartel do século XVI, a actual Igreja Matriz, dedicada a Nossa Senhora da Expectação, de majestosa e robusta fábrica, crê-se ser obra do famoso mestre de pedraria do Cardeal-Rei D. Henrique, Manuel Pires, que foi também o construtor ou, pelo menos, o autor dos planos das igrejas barrocas de Évora, Estremoz e de outras terras do Alentejo. Esta obra continuada já sob a dominação filipina, só veio a conclui-se após a Restauração, em meados do século XVII. As primitivas cúpulas em forma de pirâmides quadrangulares terão sido substituídas pelas que se vêem hoje, em forma de calote esférica, por aquelas terem sido destruídas pelas pedras resultantes da explosão da torre do castelo, em 1732, bem como as abóbadas do coro e das naves que ruíram em parte.

                Contíguas ao imponente templo, oferece-se à curiosidade do visitante, a capela do Calvário, com um monumental altar e uma outra toda revestida de ossos humanos, no género da de Évora, mas mais artística se bem que menos espaçosa, ostentando, como aquela, a legenda: NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS.

                A original e curiosa igreja barroca de S. João Baptista, bastante rica nos mármores que revestem a fachada e todo o seu interior até à cornija, é também posterior à explosão, portanto, do século XVIII.

                São estes os monumentos mais representativos que a vila mostra aos visitantes. Não devemos esquecer a famosa janela renascentista que ostenta orgulhosamente a torre norte do castelo, salva do desastre e que não hesitamos em atribuir ao egrégio artista normando Nicolas Chanterene, ou de desenho seu e executada por um dos seus discípulos. Trata-se, provavelmente, de uma obra da época de D. João III, século XVI, e não da época de D. Manuel como, a meu ver, erradamente se tem afirmado.

                E não deixaremos também de mencionar, como digna de ser vista e admirada, uma bem trabalhada grade de ferro forjado que se vê numa casa denominada da “Mitra”, na Rua da Canada, de nítida influência espanhola, que pode ser considerada um dos especímenes mais artísticos e aprimorados do seu género, no Alentejo, só tendo pares nas de Portalegre, Marvão e Borba ou em algumas bastante semelhantes que já vimos em terras da “Extremadura” e da Andaluzia.

                Convém ainda referir a pitoresca e bucólica “Quinta da Rainha”, hoje na posse do nosso conterrâneo e amigo José Estrela da Mata e de sua esposa D. Maria Rasquilha Corado da Mata que a transformaram num acolhedor e atraente ninho de arte que nos deleita o espírito, naquele remansoso vale de São Joãozinho, com os seus jardins à Le Nôtre[3], com cascata, ruas ensombradas de buxo, engrinaldadas de roseiral e trepadeiras, lago e jogos de água, horta e pomar bem cuidado. O vetusto solar, com o seu torreão de ameias e merlões, leva-me a atribuir a sua fundação ao século XVI, em que um grande número de casas solarengas ostentava torres ameiadas ao modo de fortaleza. As suas fachadas foram modificadas posteriormente. A do lado norte foi acrescentada com imponente escadaria de feição setecentista que dá majestade ao amplo pátio embelezado com graciosa fonte que ostenta uma escultura em mármore representando um Neptuno de razoável execução.

João Ruivo, Lisboa, Agosto de 1961



[1] Foi na madrugada de uma terça-feira, dia 16 de Setembro de 1732

[2] O autor quereria dizer, D. João III

[3] André Le Nôtre (1613-1700): Arquitecto francês, no reinado de Luís XIV, autor dos monumentais jardins de Versalhes e das Tulherias.



publicado por Francisco Galego às 16:42
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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