Terça-feira, 10 de Junho de 2014

A MINHA INFÂNCIA

 

Nasci no ano de 1891 – ano da gloriosa revolução de 31 de Janeiro[1] – e daí, talvez, o fatalismo de republicano que anda ligado à minha individualidade.

Em 1898-1899 era meu pai assinante da “Revista Republicana” e agente de venda do jornal socialista “A Voz do Operário”. Certo dia, meu pai foi chamado à presença de um político que exercia então as funções de administrador do concelho[2], o qual o instou para que abandonasse aquelas publicações, acrescentando logo que, se não fosse atendido, se veria forçado a aplicar-lhe a lei de 13 de Fevereiro (deportação para Timor, nada menos) visto ter recebido muitas reclamações dos seus partidários contra a propaganda revolucionária que resultava da divulgação das doutrinas preconizadas nas mesmas publicações! …

Por essa altura, comecei eu a soletrar jornais republicanos e, foi nessa leitura e na educação liberal de meu pai, que o meu espírito se formou para a combatividade política que sempre me tem caracterizado e para a defesa dos princípios democráticos que são a razão de ser da nossa existência.

Já na escola primária eu sentia em volta de mim despeitos e invejas, pela consideração que me dispensavam e pelas boas referências que me faziam os meus professores e amigos, senhores Francisco Manuel Pereira, hoje professor da Escola Primária Superior de Portalegre, e António Florindo da Rosa Cordeiro, professor do ensino primário nesta vila, os quais muito apreciavam a minha aplicação ao estudo[3]. Aos dez anos, fui aprovado com distinção no exame do segundo grau de instrução primária. Dos meus condiscípulos, uns mais felizes do que eu, por serem filhos de ricos proprietário ou de operários remediados, puderam seguir os seus estudos em escolas secundárias; outros, que eram filhos de operários pobres, puderam também ingressar no liceu por terem amigos que os subsidiassem.

Meu pai não tinha outro rendimento além do seu pobre salário, com que provia às necessidades do casal. Tivera onze filhos do matrimónio: faleceram cinco, ficaram seis[4]. Eu era o mais velho. Como não tive ninguém que por mim se interessasse, não pude continuar os meus estudos.

Eu não era robusto e, por isso, meu pai desejava dar-me uma profissão adequada à fraca constituição do meu organismo, uma profissão onde não corresse tanto risco como na sua e que desse algumas garantias de futuro – ambição legítima de todos os bons pais. Encarreirei pois para o comércio, em que me ocupei três anos. Do meu comportamento podem ainda hoje dizê-lo os meus antigos patrões e amigos, senhores José Ramos, de Campo Maior, Francisco Jorge da Palma, de Elvas e Joaquim Lopes Pires, de Portalegre[5].

 



[1] A Revolução do 31 de Janeiro de 1891 foi a primeira tentativa de implantação da República. Deu-se no Porto e fracassou devido à má coordenação das tropas que tinham aderido ao movimento. Mas desencadeou um processo revolucionário que culminou no 5 de Outubro de 1910.

[2] Tratava-se de Cristóvão de Albuquerque Barata, chefe local do Partido Progressista e pai do Visconde de Olivã, Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça. (Nota do autor do texto)

[3] Foi também meu professor António Rosado Pimpão, cuja escola frequentei apenas dois ou três meses. O professor Pereira deixou-me preparado para o exame do 2º grau no fim do ano lectivo de 1900; leccionou-me o Pimpão até tomar conta da escola o Cordeiro que me levou a exame em 1901. (Nota do autor do texto).

[4] João Maria da Encarnação, Maria José; José; Maria do Carmo (falecida em 1927) e Eulália.

[5] Estive na Casa Ramos de Setembro de 1901 a Agosto de 1903; na Casa Palma, de Elvas, de Setembro de 1903 a Junho de 1904. da qual passei à Casa Pires, de Portalegre, onde me conservei até ao Natal de 1904. Regressei então a Campo Maior, abandonando o comércio e começando a aprendizagem do ofício de pedreiro.



publicado por Francisco Galego às 18:41
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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