Domingo, 15 de Junho de 2014

 A MINHA JUVENTUDE

Dos Regeneradores e progressistas

Aos Republicanos históricos e neo-republicanos

 

 

                Uns meses antes da proclamação da República, vieram a Campo Maior fazer uma conferência de propaganda republicana os Srs. Dr.s João Camoesas e Henrique Caldeira Queirós[1]. A conferência realizou-se num armazém do negociante Sr. António Félix de Almeida, criatura que tinha a simpatia dos liberais do concelho, pelo gesto com que pouco antes se assinalara de não consentir que suas filhas frequentassem o colégio das Irmãs da Imaculada Conceição, instalado no palácio Camaride[2].

                O administrador do concelho era, nessa altura, o Sr. José Corte Real Mascarenhas[3], antigo chefe da secção fiscal e abastado proprietário, filiado no Partido Regenerador. Recordo-me de ter ouvido contar – eu não pudera assistir à conferência por estar ausente – que o Sr. Mascarenhas interrompera o discurso do Dr. Caldeira Queirós e proibira-o de continuar no uso da palavra. Mais tarde li, em O Intransigente[4], um artigo em que o Dr. Queirós atacava vigorosamente o administrador do concelho de Campo Maior pela sua atitude na conferência.

                Contava eu 19 anos quando se implantou o novo regime em 1910. Eram já conhecidos como republicanos e constituíam o pequeno núcleo da localidade: os comerciantes João Alberto Gameiro, José Matos dos Santos e José António Mendes; o farmacêutico Francisco da Rosa Correia; o proprietário Manuel do Nascimento Curado, além de outros que, por simples questões de família ou de amizade pessoal, acompanhavam ainda os antigos chefes dos partidos monárquicos locais.

                A ideia republicana frutificara também entre o operariado à frente do qual andavam os irmãos Ruivos (meu pai Pedro Daniel e meus tios), João Pereira Mourato, João Ensina, Emílio Mota, Francisco Bastos, Luís Bastos Leitão e António Rijo. Contava já também com bastantes adeptos entre os trabalhadores rurais e os paneiros que tinham como orientadores homens de rija têmpera e fé inquebrantável, como Francisco Lajes, Laurentino Sardinha, João Nora, Francisco Martins de Matos, Manuel Cabeções Hortas e outros cujos nomes não me ocorrem.

                A Guarda Fiscal aderira com entusiasmo mercê da propaganda activa do sargento Cabanas, dos cabos Ismael e Marques, dos soldados Pacheco, Garcia, Botica, Ferrão, Ruas, Cipriano e outros, que demonstraram pela ideia republicana uma dedicação bem digna de louvor.

                No dia 6 de Outubro de 1910, apresentou-se em Campo Maior o Sr. Dr. Manuel Gonçalves Pinheiro, médico e lavrador em Santa Eulália que, na qualidade de delegado do comité republicano de Elvas, se dirigiu aos Paços do Concelho, acompanhado dos republicanos que já citei e de muito povo, para se fazer a proclamação da República e içar-se a bandeira verde-rubra, visto que, por deficiência de organização e de ligação com aquele comité, se não praticara esse acto no dia anterior.

                Havia poucos meses que o Sr. Dr. José Garcia Regala tinha assumido a chefia do Partido Regenerador, vaga por falecimento de seu pai. Mas, como se dissesse que nos tempos de estudante manifestara simpatia pela ideia republicana, o Dr. Pinheiro, seu antigo condiscípulo, convidou-o a aderir e entregou-lhe, naquele memorável dia, a chefia do Partido Republicano, o que fez de acordo com o núcleo dos antigos republicanos, esperançados na mocidade e na fama de liberal de que gozava o Dr. José Regala. Passou pois o Dr. Regala de chefe do Partido Regenerador a chefe do Partido Republicano, tendo assumido também o cargo de administrador do concelho que estava ainda a ser desempenhado por seu cunhado Corte Real Mascarenhas o qual, não obstante, deu também logo a sua adesão à República…

                Dizia-se que o Sr. Visconde de Olivã, Juiz de Direito e chefe distrital do Partido Progressista, dadas as suas relações com alguns dos vultos eminentes do antigo Partido Republicano Português, ia aderir ao novo regime, adesão que seria vista com agrado por parte dos antigos republicanos, principalmente pelos das camadas populares que tinham grande simpatia por aquele magistrado. Porém, os antigos regeneradores anteciparam-se e aderiram em massa para firmarem posições e manterem o predomínio político dentro do novo regime, com receio de que esse predomínio viesse a cair nas mãos dos seus adversários do antigo Partido Progressista. Foram então os novos aderentes em romaria a casa do velho republicano João Gameiro, para se inscreverem no registo político. Alguns dos antigos republicanos inscreveram-se também, mas como mera formalidade para efeitos de organização do cadastro partidário visto que os seus nomes já constavam dos registos de Elvas e Portalegre.

 

João Ruivo



[1] Trata-se de dois notáveis republicanos do distrito de Portalegre que vieram a desempenhar importantes funções políticas após a implantação da República. O médico elvense Dr. João Camoesas, chegou a ser ministro da Instrução, tendo elaborado uma notável reforma do ensino que não chegou a ser implementada por queda do governo. O Dr. Queirós era um advogado de Portalegre. O Dr. Pinheiro de Santa Eulália era o pai do Dr. Arménio Pinheiro que casou em Campo Maior onde exerceu medicina e avô de João Manuel Pinheiro.

[2] Na verdade, trata-se do palácio dos Carvajais que tinha sido herdado pela condessa de Camaride. O palácio Camaride era aquele onde hoje está instalada a Casa do Povo de Campo Maior.

[3] Este senhor, natural do Algarve, era genro do falecido chefe local do Partido Regenerador, Dr. José Maria da Fonseca Regala. Este Mascarenhas, conhecido pelo anexim de “alferes de galão branco”, era um antigo sargento, nomeado chefe da secção fiscal e, já depois de reformado, promovido a capitão pelo governo da República, por ter sido abrangido nas malhas de uma lei votada para beneficiar um antigo republicano, participante na Revolta do 31 de Janeiro (1891), vítima de perseguições.

Foi este Mascarenhas administrador do concelho já durante a ditadura militar, quem, por ordem do Dr. Gama, propôs a nomeação de Diogo Mexia Caiola, para secretário da administração, por morte do secretário Francisco Maria da Silva, preterindo João Ruivo, o que o obrigou a recorrer para o Tribunal da Relação de Coimbra que deu provimento ao recurso. Estes factos ocorreram nos anos de 1927-1928. (Nota do autor do texto).

[4] Jornal republicano que se publicou em Portalegre entre 1908 e 1915.



publicado por Francisco Galego às 17:25
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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