Quinta-feira, 01 de Outubro de 2009

           Estamos em plena época das vindimas. De manhã cedo encontro grupos de trabalhadores que esperam, junto à Avenida, o transporte que os leve até aos campos em que vão trabalhar. Quase todos são imigrantes. Pelo linguajar, são dos países do Leste da Europa. Trabalhadores naturais de Campo Maior, em trabalhos agrícolas, tornaram-se muito raros.

 

            No concelho de Campo há uma extensa área de cultivo da vinha e uma grande adega que se dedica à produção de vinhos de qualidade elevada, apetrechada com os mais evoluídos recursos e equipamentos. Mas há também um número considerável de pequenas adegas (a que, de tão pequenas, poderíamos chamar “adegas de garagem”), onde por métodos artesanais e segundo processos tradicionais, se fabricam vinhos que, em alguns casos, conseguem ter uma interessante qualidade.
            Noutros tempos, quando em Campo Maior predominava uma economia basicamente agrícola, a produção vinícola tinha uma certa importância, produzindo a terra tanto vinho que dava amplamente para exportar. Associada à produção do vinho, uma outra actividade dava fama aos artesãos de Campo Maior: o fabrico dos grandes potes ou talhas onde se produzia e guardava o vinho. Em certas famílias a arte do fabrico dos potes passava de pais para filhos, por várias gerações.
Nas linhas que seguem vou tentar dar breves notícias sobre as culturas da vinha e do vinho no concelho de Campo Maior, em tempos passados.
Em meados de século XX (1948), o Alentejo produzia apenas uma pequena parte dos vinhos de Portugal: em 8.176.000 hectolitros, fornecia 61 mil; a Estremadura e o Ribatejo, forneciam 3. 234.000; as Beiras 2. 185.000; o norte produzia quase dois terços do total. Só a Vidigueira e Vila de Frades se destacavam pela qualidade e quantidade do vinho que produziam.
Nem sempre assim terá sido, pois que documentos antigos referem a viticultura e a produção dos vinhos como uma actividade económica muito importante no Alto Alentejo.
Tomando como referência uma “Notícia de 1758”, as produções do azeite e do vinho ocupavam lugar de destaque na economia da região em volta de Portalegre. Essas produções são referidas com grande destaque enquanto a produção de cereais era pouco referida. As vereações de Portalegre revelam que os viticultores constituíam um grupo activo, uma verdadeira corporação com tal influência que, em 1800 conseguiram mesmo que fosse interditada a importação de vinhos para proteger o consumo do vinho de produção local.
Ao que parece, em meados do século XVIII a situação começara a mudar. O cura de Santa Maria Madalena refere que Elvas, Olivença, Cabeço de Vide, Fronteira e Campo Maior, localidades que antes importavam, tinham começado a produzir.
Aliás, o cura de Campo Maior na mesma “notícia de 1758” assinalava a importância da vinha na economia local: muito trigo, cevada, grão, muito vinho e de boa qualidade. Portanto, Campo Maior pode, a justo título, ser considerado como um dos concelhos vitícolas do distrito de Portalegre, nos séculos XVIII e XIX.
O desenvolvimento da vinha em Campo Maior está testemunhado num decreto de 12 de Agosto de 1819 que, em resposta a uma petição dos habitantes deste concelho, foi decidido que “os proprietários de vinhas e os vinhateiros da vila de Campo Maior tendo exposto que a viticultura ocupava um destaque considerável na vida da vila, e não apenas pela qualidade do vinho que produziam, a ponto de esta ter provocado a plantação de vinhas cada vez mais numerosas nas terras incultas e cobertas de matos, mas porque esta tão interessante actividade comercial estava actualmente ameaçada de ruína pela livre entrada de milhares de carregamentos de uvas que desde há anos têm vindo para esta vila doutras localidades fronteiriças, com origem em Espanha…”. Este texto mostra com clareza a importância da viticultura local, confirmada quarenta anos depois pelo redactor anónimo da memória da Academia que tão bem conhecia a região de Campo Maior, quando se queixava do progresso da vinha no Alentejo, dando como exemplo o caso de Santa Eulália, grande aldeia a Oeste de Campo Maior, onde a produção de aguardente tinha aumentado monstruosamente nos últimos vinte e cinco anos. Ora, o consumo desregrado desta bebida estava a provocar uma grande dissolução dos costumes. Houve insistente pedidos de medidas que atacassem o progresso da embriaguês entre os camponeses que os afastava dos usos e costumes de antigamente e que os atraía para as tabernas afastando-os dos trabalhos nos campos.
 Há referências documentais a que na aldeia de Santa Eulália se vendia muito vinho para a cidade de Elvas.
Borba já era então um afamado centro vinhateiro, sendo mesmo considerado um dos mais importantes do Alentejo desde o século XIII.
Por volta de 1820, existia nesta região do Alentejo uma grande pressão das terras para que fosse estabelecida uma situação de relego sobre o vinho para evitar que a importação de vinhos de fora prejudicasse a venda dos vinhos da terra. O relego consistia numa disposição legal que vinha da Idade Média e se destinava a garantir que não fossem importados vinhos de fora enquanto não fossem vendidos os vinhos da terra. Ao longo do século XIX foi aumentando a área de cultivo da vinha tanto mais que, nas pequenas propriedades se estabeleceu o hábito de associar a olival e a vinha intervalando as fileiras do olival com as do bacelo.
Estamos actualmente a assistir a um novo período de expansão das vinhas no nosso concelho.
 
 
 


publicado por Francisco Galego às 17:39
Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
Em Campo Maior, em meados do século vinte, os assalariados rurais reuniam-se ao ar livre nos Cantos de Baixo quando o tempo o permitia e frequentavam a sede da música no Assento, ou a da Casa do Povo; os comerciantes, os oficiais e os mestres dos ofícios, bem como os pequenos e médios proprietários, eram presença habitual na Sociedade da Praça que, aliás, fazia cuidadosa selecção na admissão de novos associados; acima destas e no vértice da pirâmide social, o Grémio ou Sociedade dos Ricos era o “santo dos santos” só acessível a uma elite muito restrita porque muito seleccionada.
Um pouco mais tarde, por razões clubistas, tinham aparecido alguns centros de convívio mais interclassistas como a sede do Sporting Clube Campomaiorense e a Casa do Benfica.
Como locais de convívio masculino, para os trabalhadores rurais, havia também muitas tabernas espalhadas por quase todas as zonas da vila.
Café, propriamente dito, apenas o desaparecido Café Central ou Café Guitano, com uma extraordinária organização ao encontro da estratificação que caracterizava a sociedade campomaiorense nesse tempo: numa primeira sala encontrávamos um clima perfeito de taberna, tanto no que respeitava ao mobiliário como no tipo de serviço que aí se dispensava aos clientes; na parte central uma zona constituída por duas salas – a do bilhar e a das mesas para se tomar café e cavaquear; depois seguia-se uma espécie de reservado para os clientes de categoria que não apreciavam o convívio generalizado com a outra gente. Num canto desta última sala, ficavam as mesas que funcionavam como restaurante.
 
Esta organização dos centros de convívio numa vila como Campo Maior, sociedade fundamentalmente agrícola e com características bastante arcaicas, parecerá hoje inacreditável para as novas gerações. Mas estava irremediavelmente de acordo com as condições de vida desse tempo.
Depois, embora tudo parecesse continuar na mesma, uma vez que a situação política de ditadura persistia, tudo começou a mudar. Começou com o incontível fluxo migratório que arrastou para as grandes cidades e para a Europa uma tal massa de gente que nada poderia, a partir daí, permanecer como tinha sido. Os pobres tornaram-se menos e menos pobres. Com isso, os ricos começaram a cair do seu pedestal. A agricultura, com a mecanização, sofreu tão profundas mudanças que muitos não conseguiram sobreviver-lhes, vendo-se obrigados a mudarem por completo o seu modo de vida. Parecia que tudo se desmoronava tal era o impulso de mudança provocado pela nova situação.
Foi todo um estilo de vida que desapareceu. Nestas condições, tornava-se inevitável que muitas das organizações e associações desaparecessem porque tinham nascido para outro modelo de sociedade.
Diz-se que as fontes, em períodos de grandes secas, antes de secarem por completo, deitam um jorro mais forte parecendo que vão renascer. De certo modo foi isso que aconteceu com as antigas “sociedades” e locais de convívio. No início dos anos 60, quando elas já tinham entrado numa acentuada decadência prenunciando o seu fim, a televisão começara a transmissão regular de programas para todas as regiões do país. Os equipamentos e os aparelhos receptores eram caros. As associações e clubes aproveitaram para os instalar e, organizando espaços para assistência aos programas, atraíram de novo as massas associativas que garantissem a sua subsistência.
Foi sol de pouca dura. A facilidade na aquisição desses equipamentos pelas famílias ditou o fim irremediável dessas agremiações. Delas nada mais resta na vila raiana de Campo Maior.
 


publicado por Francisco Galego às 15:46
Terça-feira, 10 de Abril de 2007
 

            A  comemoração da Páscoa, tradição multicentenária, sofreu na minha terra mudanças significativas ao longo dos últimos cinquenta anos. Pouco sobreviveu do que ainda recordo dos meus tempos de infância. Nesse tempo, o essencial da comemoração da Páscoa passava mais pelas manifestações de culto, sobretudo as várias procissões que se realizavam: a do Senhor dos Passos, a de Nossa Senhora das Dores, a de Domingo de Ramos e a do Senhor Morto.

Lembro-me do costume de se cobrirem de ramos e flores as calçadas das ruas frente aos Passos, do esmero com que cada Passo era ornamentado, havendo até um certo despique para cada um ser o mais bonito e da peregrinação que as famílias faziam na visitação das Igrejas e dos Passos que estavam ornamentados e iluminados a preceito.

Também recordo o costume de não se consumir qualquer espécie de carnes em todas as Sextas-feiras da Quaresma. 

 Nessa época as procissões eram espectaculares. Sobretudo a do Senhor dos Passos que incluía o Encontro no Terreiro. A imagem do Senhor, carregando a pesada cruz, percorria a via-sacra da visitação dos Passos. Regressando pelo Terreiro, encontrava-se com as imagens de São João Evangelista e de Nossa Senhora das Dores que, saindo da Matriz e descendo pela Rua Estreita, tinham vindo ao seu encontro. Começava então o sermão perante as três imagens santas reunidas a meio do largo. Este era feito por pregador de renome convidado especificamente para esse efeito. Alguns desses pregadores atingiam uma tal efeito dramático com as suas prédicas que conseguiam comover profundamente a audiência que os escutava em profundo silêncio. Havia os que eram precedidos de tal fama que, quando se sabia que vinham, atraíam tal assistência que, o acanhado espaço do Terreiro não dava para conter tanta gente. A prédica era proferida a partir de uma janela da casa da família Carrilho.  

            Para a rapaziada, a comemoração da Páscoa começava verdadeiramente no Sábado de Aleluia. Começavam por se juntarem no Largo da Matriz, cada um munido dos chocalhos que podiam ter recolhido para o efeito. Esperava-se com impaciência que os sinos da igreja anunciassem a Ressurreição. Partia-se então, qual revoada de passarada louca, percorrendo as ruas da vila para chocalhar furiosamente em frente às casas das lojas até que o comerciante, que já estava previamente preparado, lançava sobre aquele bando ávido, as mais diversas guloseimas em que predominavam os rebuçados, as amêndoas e os confeitos. Os adultos divertiam-se a verem as autênticas batalhas que se travavam entre eles tratando cada qual de recolher o maior número de doces possível.

            Mas a festa acontecia verdadeiramente no Domingo de Páscoa. A maioria das pessoas vestiam os seus trajes domingueiros e iam em passeio até à Ermida de São Joãozinho comer o folar. A banda dava concerto, improvisavam-se bailes, namoriscava-se. Havia famílias que iam até às quintas e às hortas. Enfim, se o tempo era favorável, aproveitava-se para um passeio no campo. Mas, a festa da Páscoa era em grande parte também uma festa de sabores: o ensopado e o assado de borrego, o arroz de miúdos, os bolos amassados, os merengues, as broinhas, faziam as delícias de crianças e adultos.

            Infelizmente eram tempos de grandes dificuldades para grande parte das famílias. Tempo de tremendas guerras, tempo de grandes misérias. Nem todos tinham acesso a tais iguarias. Mas, cada um, de acordo com as suas posses, procurava ter “rancho melhorado” e, ainda que pouco, o borrego era a base dos comeres nesta celebração.

 

            Nos anos 50 do século passado, as coisas começaram a mudar. A emigração, tanto interna como para o estrangeiro, provocou grandes mudanças na sociedade campomaiorense. Foi por essa altura que se começou a generalizar o hábito das famílias se deslocaram para junto dos rios para, em conjunto, celebrarem a Páscoa. Primeiramente em grupos pequenos, partiam em carroças no Domingo de Páscoa ainda quando o sol mal começara a raiar e regressavam ao cair da tarde. Quem tinha familiares num monte ou num moinho à beira-rio podia arriscar-se a permanências de mais de um dia. Mas o tempo era ainda muito incerto e não havia os recursos “campistas” que existem hoje para se acampar em qualquer lugar. Além disso, as pessoas, nesse tempo, gostavam ainda de guardar recato e, por isso, escolhiam lugares onde pudessem estar com alguma privacidade. Assim, o mais normal era que fossem muitos os lugares para onde as famílias se deslocavam para celebrar a Páscoa.

            Lembro-me de a Ermida de Nossa Senhora da Enxara ser um lugar ermo, abandonado e em tal estado de degradação que as suas dependências serviam para recolha de gado. Depois começou a ser escolhida por grupos de homens que aí se juntavam para acamaradarem em alegre convívio. Lentamente começaram a aparecer as famílias até que, por volta dos anos 60, se transformou no lugar de romaria que é nos dias correntes.

A beleza do lugar, a facilidade do acesso para o crescente número de automóveis que foram surgindo, a recuperação de antigos actos de culto religioso, o aperfeiçoamento dos recursos para acampamentos, tudo se conjugou para que tão rapidamente se tornasse na maior romaria em que actualmente participam os campomaiorenses.

As autoridades locais, entendendo as mudanças operadas na sociedade, fizeram a oportuna mudança do feriado municipal de 28 de Outubro, data anterior em celebração de um acontecimento que já não tinha qualquer significado para os campomaiorenses, para a segunda-feira depois do Domingo de Páscoa, criando assim a possibilidade de uma curtas férias neste fim-de-semana alongado no início da Primavera. Escolha acertada pois que, além do mais, permite aos que vivem fora da vila da sua origem, virem participar nesta celebração com os seus familiares.

            Com alguma surpresa fui assistindo a esta grande celebração pagã em que transformou a Festa da Enxara. Espero que o termo “pagã” não provoque surpresa ou revolta porque, é evidente para qualquer pessoa de claro juízo que, apesar do período e do nome do lugar em que a festa se realiza, as questões religiosas funcionam apenas como mero pretexto. Embora a festa comece e acabe com procissões, é claro que esses actos de culto têm uma função simbólica mais cerimonial do que religiosa.

A Enxara cresceu tanto que sufocou completamente a romaria ao São Mateus em que participavam massivamente os campomaiorenses. Se a Feira de Elvas foi a grande celebração dos campomaiorenses nos tempos passados em que esta vila era habitada por uma comunidade essencialmente rural, a Páscoa é a celebração desta nova comunidade de gente urbana em que se tornou Campo Maior.

Confesso que recordo com alguma saudade os tempos de outrora. Mas, porque tenho de tentar ser lúcido e racionalizar as mudanças, tenho de compreender que elas decorreram de um processo de transformação para uma sociedade melhor porque mais justa, mais igualitária e propiciadora de melhores condições de vida para um maior número de pessoas.

Felizmente vão longe os tempos da sociedade elitista e segregadora em que tive de crescer. Seria insuportável voltar a assistir ao inaceitável espectáculo da miséria e da opressão em que decorreram a minha infância e a minha juventude.

Mas há aspectos na massificação em que decorre actualmente a celebração da Páscoa que não despertam o meu entusiasmo. Só com muito esforço consigo suportar a, para mim, infernal barulheira dos altos ruídos produzidos pelas aparelhagens dos carrocéis e tendas de negócios vários que rodeiam a simpática Ermida de Nossa Senhora da Enxara. Mas tenho que aceitar que, geralmente, o que se ganha em quantidade implica que haja algumas perdas quanto à qualidade. E, ninguém me obriga a celebrar a Páscoa na Enxara. Há ainda muitos lugares à beira-rio onde poderei estar a meu gosto celebrando o que eu quiser, com quem quiser e à minha maneira.

Que direito tenho de censurar um acontecimento que tanto prazer e contentamento provoca nos meus conterrâneos?



publicado por Francisco Galego às 13:40
Terça-feira, 03 de Abril de 2007
I – Fantasias e realidades sobre as suas origens
           
Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Como para quase todas as realizações levadas a cabo colectivamente pelo povo, estas festas tiveram a sua génese ao longo de um período largo de tempo. Estas manifestações de cultura popular deixam poucos testemunhos, tornando-se, quase sempre, muito difícil reconstituir a maneira como nasceram e como foram evoluindo.
Mas o povo, quando não sabe inventa. Não por má fé ou censurável intenção, mas porque é próprio do homem buscar explicação para as coisas que lhe despertam interesse ou curiosidade.
As Festas do Povo de Campo Maior têm sido explicadas de muitas maneiras e sempre de modo mais ou menos fantasiado. Segundo alguns, teriam nascido numa determinada rua, a Rua Nova, e ligadas a uma determinada actividade dum grupo, o dos contrabandistas.
Nenhum documento ou facto conhecido, pode confirmar semelhante afirmação. É certo que o contrabando foi sempre uma actividade importante em Campo Maior, como é natural numa terra de fronteira. Mas é também um facto comprovado que os contrabandistas, em anos em que os negócios lhes calhavam mais a jeito, tinham por hábito festejar organizando um desfile e o arraial em honra de São Joãozinho que tomavam como protector e padroeiro das suas arriscadas actividades. Mas estas festas faziam-se em Junho pelo São João e nada tiveram a ver com outras festas que, a partir dos finais do século XIX, se começaram a realizar em Setembro.
Estas festas de Setembro começaram a fazer-se no ano de 1893. Apresentaram-se como Festas em Honra de São João Baptista, dizendo-se que eram o reatar de uma tradição que vinha de tempos antigos. De facto, antes havia o costume institucionalizado de se fazer uma missa solene e uma procissão em 28 de Outubro, em honra de São João Baptista, em que participavam as autoridades municipais que assumiam a organização e despesas de uma festa com iluminação nocturna das ruas, as quais tinham sido decoradas com ramos para que passasse a procissão com a imagem do Santo Padroeiro de Campo Maior.
È, portanto, em volta do culto de São João Baptista que se constituiu uma antiga tradição que consistia na realização de uma festa no dia 28 de Outubro, apesar do calendário litúrgico consagra esta data a um outro santo – São Simão.
Esta data celebrava o fim do Sítio de Campo Maior de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como as tropas sitiantes tinham retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que nesse dia se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.
Aqui está a explicação de se fazerem festas em honra de São João em dia de São Simão, tanto mais que, em Campo Maior, desde tempos imemoriais, também se comemorava o São João, do dia 23 para 24 de Junho que, pelo calendário litúrgico, lhe é consagrado, com arraial no sítio de São Joãozinho, no recinto onde existe uma capela assinalando o local onde o santo aparecera a um habitante de Campo Maior, no distante século XVI, quando terminava o reinado de D. Manuel e começava o de D. João III.
 
II – As festas dos artistas
            Em 1893, um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, resolveram reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João que tinham deixado de se fazer havia cerca de quarenta anos, ou seja, desde meados do século XIX.
Desde logo, traçaram o projecto de ornamentação das ruas e da sua iluminação nocturna, ao mesmo tempo que elaboravam um programa do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as arvoradas e os concertos pelas bandas locais ou as convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo de artifício.
            Embora se tratasse de reatar as festas antigas, a festa foi mudada de 28 de Outubro para início de Setembro, parecendo que o motivo desta mudança se poderá justificar por diversos factores entre os quais terão maior peso, as incertezas do clima atreito a ventanias e chuvadas nos finais de Outubro e a ser um tempo em que as actividades do campo, nomeadamente as vindimas, se desenvolvem a partir de meados de Setembro.
            Organizadas pelos estratos da população que não estavam ligados ao trabalho agrícola, as festas desde o seu início foram designadas pelo povo como as Festas dos Artistas. Mas o seu nome oficial, aquele por que são designadas nos programas e nos artigos e notícias dos jornais é o de Festas em Honra de São João Baptista.
Este será o seu nome oficial até ao ano de 1922. João Ruivo, no jornal O Campomaiorense, utiliza pela primeira vez a designação Festas do Povo que nunca mais foi abandonada. As festas não tiveram qualquer outra designação. A tentativa de as associarem pelo nome aos contrabandistas só apareceu nos anos oitenta do século vinte e resulta de um equívoco sem qualquer fundamento.
 
III – Inícios modestos, destino de fama e de longa duração
 
            Outra fantasia que se criou acerca das Festas do Povo, foi a de que teriam desde sempre sido programadas para uma periodicidade de quatro anos. Nada mais destituído de fundamento real. Por um lado, as festas começaram por se realizar todos os anos. Depois, os acasos da política ou da boa ou má sorte da população, fez com que conhecessem períodos mais ou menos longos de interrupção. Essas interrupções foram por vezes tão dilatadas no tempo que as festas chegaram a ser dadas por extintas. A seguir à Implantação da República, em 1910, estiveram sem se realizar pelo período de 12 anos. Quando do fim do salazarismo-marcelismo estiveram sem se fazer por um período de dez anos.
            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer.
            Muitos julgam que as festas tiveram sempre este modelo de ornamentação de ruas que agora as caracteriza. Nada mais longe da realidade. As festas começaram de forma muito modesta. No início não se distinguiam das festas que se realizavam em muitas outras localidades. Havia o hábito no Alentejo de decorar e refrescar o ambiente nos dias de festa decorando os espaços públicos com ramos, sobretudo os espaços onde decorriam as actividades festivas. Daí a designação de enramação para o acto de decorar as ruas e largos, recorrendo a ramos de murta, de buxo e de rosmaninho e, devido à falta de sistemas eficazes ou inexistentes de iluminação pública, as populações utilizavam os seus próprios recursos e criatividade para vencer as trevas da noite em dias de festa.
            Em Campo Maior, começou-se pelo costume de cada um enfeitar a parte da rua fronteira à sua casa e de decorar e expor as partes da habitação viradas ao exterior, apresentando-as assim à vista de quem se passeava pelas ruas nos dias de festa.
            Esta atitude que no começo era de iniciativa particular, foi dando origem a uma colaboração cada vez mais intensificada entre aos vizinhos de cada rua, até que os projectos pessoais deram origem ao projecto comunitário.
            As Festas de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas.
            Mas as festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer porque a população dispunha de condições económicas favoráveis. A isto não poderia ser alheia a sua localização de fronteira e a facilidade com que nesta região se desenvolviam actividades de contrabando. Tratando-se de uma prática ilícita, ela pesava fortemente na economia local por ser muito lucrativa. Todas as oscilações que se verificavam, quer na parte de Portugal, quer na parte de Espanha, afectavam de uma maneira ou de outra a comunidade campomaiorense. Algumas das interrupções das festas são explicáveis por essas oscilações.
           
IV – Que presente e que futuro para as festas de Campo Maior?
 
            Em 111 anos e contando com o último em que se realizaram, ouseja, o de 2004, as festas realizaram-se 33 vezes. Nos primeiros cinquenta anos da sua existência, mantiveram-se com um expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.
            Depois da segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com alguma projecção mesmo para lá da fronteira.
            Aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações, torna-se um fenómeno significativo da massificada cultura popular, lugar de grande romaria apesar de não estar ligado a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.
            O desenvolvimento da economia local, mais uma vez devido ao efeito de fronteira com a torrefacção de cafés, constituiu a base de sustentação. A criatividade da população radicada numa tradição secular, criou o milagre destas festas que, apesar de muito copiadas, ainda não foram igualadas.
            Mas, como irão sobreviver as Festas se são tantas as mudanças e tão profundas as transformações que se estão a verificar?
 Como todos os fenómenos humanos, as Festas de Campo Maior vão de ter de evoluir adaptando-se a novas condições para garantirem a sua sobrevivência. Nota-se, neste tempo que vivemos, uma procura ainda imprecisa de novas soluções. Serão as mais adequadas?
            Do acerto das soluções e dos caminhos que se escolherem depende o seu direito a perdurar ou a sentença da sua extinção. A lei findamental que gere a vida e a história não deixa lugar para os inadaptados.
            Será que há futuro para as Festas do Povo? O tempo o dirá.


publicado por Francisco Galego às 18:05
Sexta-feira, 30 de Março de 2007

As Festas do Povo de Campo Maior têm as suas origens mais antigas no culto a S. João Baptista, constituído padroeiro de Campo Maior desde o século XVI. As comemorações em honra do Precursor de Cristo, remontam ao século XVIII. Começaram a fazer-se como forma de agradecer ao santo ter salvo Campo Maior nas aflições de um cerco por tropas invasoras que estavam na eminência de tomar de assalto a povoação, no contexto da Guerra de Sucessão de Espanha.

Na forma que até hoje têm revestido, começaram a fazer-se no ano de 1893. Desde então, até hoje, realizaram-se 32 vezes, com grande irregularidade, segundo os caprichos da fortuna e os acasos da política. Por várias vezes, os períodos de interrupção foram tão longos que parecia que esta tradição se ia para sempre perder. Mas, quando tudo parecia irremediavelmente esquecido, elas voltavam.

As Festas do Povo foram-se adaptando às transformações sofridas pela sociedade. Mas sempre crescendo em criatividade, em grandeza e em fama. A notoriedade alcançada há muito passou para além do espaço regional e das fronteiras de Portugal.

Sendo sempre incerta a sua continuidade, procurou-se com este livro deixar um testemunho, tão completo quanto possível, da sua evolução.

GALEGO, Francisco Pereira (2004). Campo Maior. As Festas do Povo, das origens à actualidade. Lisboa: Livros Horizonte.

 



publicado por Francisco Galego às 15:45

O "Cantar e bailar as saias" constitui uma manifestação de cultura popular que, por tradição, remonta a tempos muito recuados e que, segundo investigadores que ao seu estudo se têm dedicado, se identifica com as populações do Alto Alentejo.

Em Campo Maior, as "saias" mantêm-se, ainda hoje, como a sua mais viva expressão de cultura popular.

Este livro procura inventariar a prática e criação contínua da população do concelho de Campo Maior, neste domínio, recuperar e preservar a memória ainda presente nas gerações mais antigas e explicitar as fases da evolução que o cantar de saias foi conhecendo ao longo do tempo. Nele se consubstancia a recolha, tão extensiva quanto foi possível, do que ainda sobrevive desta expressão cultural.

Este livro é também uma homenagem à criatividade de um povo de camponeses que, num passado não muito distante, desenvolveu interessantes formas de cultura popular em Campo Maior.

GALEGO, Francisco Pereira (2006). Campo Maior - Cantar e Bailar as Saias. Lisboa: Livros Horizonte.

 



publicado por Francisco Galego às 15:31
           
Nasci aqui, em Campo Maior, vila raiana do Alto Alentejo, em plena Grande Guerra: a segunda, a de 1939 a 1945. Um conflito que envolveu homens de quase todas as nações e de todos os continentes. Pouco antes, do outro lado da fronteira, fora feito o ensaio geral, com a Guerra Civil de Espanha de 1936 a 1939. Ainda assisti aos efeitos tremendos dessa luta fratricida que dilacerou o povo espanhol, deixando um rasto de miséria que perdurou por muitos anos.
            Comecei a tomar consciência das coisas da vida quando a vida era, de facto, muito difícil. Como tive a sorte de não ser dos menos afortunados, não sofri a tormentosa miséria em que vi crescer alguns dos meus companheiros. Tenho consciência plena de que, uma coisa é suportar a carência de quase todas as coisas necessárias a uma vida minimamente decente, outra é ter apenas de ver o sofrimento que essa carência impõe aos que a têm de sofrer.
            A guerra é sempre um facto terrível. Mas esta, que estava em curso quando nasci, além dos aspectos tremendos de que se revestiu, teve a suprema importância de significar uma ruptura radical na evolução das sociedades humanas. Claro que as coisas não mudaram logo no tempo da guerra, tanto mais que não tivemos dela uma vivência directa. Mas os efeitos que ela implicou, desencadearam um processo acelerado de mudanças que não mais parou até aos dias de hoje.
            O mundo mudou tanto no espaço de meio século que os homens e mulheres da geração a que eu pertenço, quando recordam o mundo da sua infância, constatam que esse mundo não existe mais. Meu pai nasceu e viveu num mundo muito semelhante àquele em que se pai e seu avô tinham vivido. Brincaram nos mesmos espaços e praticaram os mesmos jogos. Os jogos que eu próprio ainda conheci. Mas os meus filhos não tiveram já qualquer contacto com os jogos e brincadeiras que animaram a minha infância.
            Nascido numa vila alentejana no início da última década da primeira metade do século vinte, o mundo da minha meninice era um mundo essencialmente rural. A população vivia, na sua quase totalidade, da agricultura e ocupava-se essencialmente no trabalho dos campos. A vila, embora tivesse rompido em vários sítios a cerca de muralhas a que a constrangera a sua função de praça de guerra, pouco tinha crescido nos últimos dois séculos. Todos se conheciam e, sobre cada um de nós, todos tinham amplas referências, bem como das famílias a que pertencíamos.
            Por toda a vila as carroças e os apetrechos da agricultura eram uma presença constante. As carroças puxadas por burros ou por muares começavam a soar de manhã bem cedo ao saírem para os campos. Os automóveis contavam-se pelos dedos de uma só mão. Tractores, debulhadoras e outras máquinas agrícolas começaram a chegar já eu estava no fim da escola primária. Os candeeiros a petróleo eram a única fonte de luz da maior parte das casas. A electricidade era de fraca qualidade e muito atreita a avarias que por vezes deixavam a vila na mais negra escuridão durante dias seguidos; por vezes, semanas e meses.
            Não falo de tudo isto por saudosismo. É uma tolice e uma grande hipocrisia falar dos “velhos tempos” como se dos bons tempos se tratasse. Os bons tempos são os do presente e os melhores tempos são provavelmente os do futuro que ainda estão para vir.
            Por gosto e por vocação fiz do estudo e do ensino da História o meu modo de vida. Mas o conhecimento da História não fez de mim um saudosista. Não choro o tempo que passou, nem exalto as suas “virtudes” perdidas. Eu sinto apenas uma imensa pena de já não poder viver o tempo que há-de vir pois tenho a convicção que ele será melhor do que o tempo que agora vivo. Parece-me ser esta a melhor e mais atilada maneira de entender as coisas importantes da vida.
            É importante compreender o passado, pois o seu conhecimento ajuda-nos a entender como e porquê as coisas evoluíram num certo sentido. Mas a contemplação do passado tem qualquer coisa de mórbido que não nos deixa apreciar o lado bom da vida que nos cabe viver.
            Todas as épocas tiveram os seus problemas e em todas elas isso foi motivo para alguns fazerem o choradinho de que “no meu tempo é que era bom”. O melhor e maior castigo que se lhes podia dar era fazê-los voltar a viver nesse tempo que só era bom porque é um tempo já passado.
            Por muito que por vezes nos pareça que não, o mundo vai evoluindo no sentido do seu progressivo aperfeiçoamento.
            Tenho consciência dos problemas que, neste momento, preocupam e atormentam os meus filhos. As dificuldades que vivem e, sobretudo, as dificuldades que vêem os outros viverem. Mas se me ponho a comparar as minhas recordações com as suas vivências, acabamos por chegar à conclusão de que talvez as coisas não sejam tão más como, nos “bons velhos tempos”, foram.
 
 
 
 


publicado por Francisco Galego às 12:00
Sexta-feira, 23 de Março de 2007
Passaram cerca de 140 anos sobre os graves acontecimentos que, durante meses tinham trazido angustiados e revoltados os habitantes de Campo Maior. O governo que, por essa altura, estava constituído em Portugal, decidira efectivar uma reforma administrativa que consistia essencialmente numa acção centralizadora que levava à criação de grandes concelhos e de que resultava o desaparecimento de antigos concelhos como Campo Maior.
Esta decisão provocou grande revolta entre os campomaiorenses que iam perder a sua autonomia municipal, tornando-se apenas numa paróquia civil, ou seja, numa espécie de aldeia de um novo concelho que teria como cabeça a cidade de Elvas.
Não se tratava apenas de uma questão de prestígio, embora isso, só por si, fosse de considerável importância. Tratava-se sobretudo de perder privilégios que eram de grande relevância para os campomaiorenses. Os serviços que, até aí, estavam sedeados na vila, iriam passar para a cidade de Elvas. Isto numa época de tanta dificuldade de transportes por causa das más estradas e das grandes distâncias que só podiam ser vencidas em longas, incómodas e demoradas caminhadas a pé, no dorso dos animais, ou em ronceiras carroças.
Além disso outras questões pesavam nas preocupações dos campomaiorenses. Campo Maior era, nessa altura, uma terra bem administrada. Havia décadas que a câmara estava entregue a um conjunto de homens, de que se destacava o comendador Barata, que muito bem cuidavam da vila sendo muito elogiadas as obras de beneficiação que tinham sido levadas a efeito. Em compensação Elvas, pelo contrário, tinha a fama de estar entregue a péssimos administradores. Daí advinha, entre outras consequências, que existisse uma grande diferença entre os impostos camarários que eram cobrados em Elvas e os que eram cobrados em Campo Maior.
 Acima de tudo havia o sentimento de revolta por verem assim menorizada uma terra de tanto prestígio, tão próspera e de tão notável quanto era Campo Maior. Até porque, naquele tempo, as diferenças entre Elvas e Campo Maior não seriam muito acentuadas.
Mas, no final do ano de1867, a situação começou a mudar. O governo lançou um novo imposto sobre o consumo. A situação já era tão crítica que esta foi a gota que fez transbordar. Os comerciantes de Lisboa, Porto e Braga revoltaram-se. No Porto houve conflitos de grande gravidade. Esta revolta, que ficaria conhecida como a Janeirinha, provocou a queda do governo que apresentou a sua demissão ao rei no dia 31 de Dezembro.
Os jornais noticiaram: “Caiu o ministério Fontes-Ferrão. Propagou-se por todo o país tão fausta notícia com a rapidez da electricidade e, não tem tido limites a alegria do povo. Lição eloquente para orgulhosos.”
Perante uma oposição tão generalizada, era preciso arrepiar caminho para repor a ordem e o equilíbrio político. O novo governo teve de anular as decisões que haviam sido tomadas e que provocavam a revolta das populações. Entre essas medidas, a que mais afectava os campomaiorenses, era a reforma administrativa que determinava a extinção do concelho de Campo Maior. E a notícia tão desejada acabou por chegar.
Para dar uma ideia da alegria com que foi recebida na vila a notícia de que tinha sido anulada esta nefasta decisão, transcrevo o que, a propósito foi publicado no nº 63 de 23 de Janeiro de 1868 do jornal de Elvas Democracia Pacífica:
"Campo Maior, 19 de Janeiro           
            Foi aqui imensamente festejada a dissolução parlamentar: repiques (dos sinos), toques de música, foguetes, vivas e iluminação, tudo enfim superabundou.
Na quinta-feira, 16 pelas 2 horas do dia, o ex-governador civil do distrito de Portalegre telegrafou ao ex-administrador deste concelho para que reassumisse o cargo. Pouco depois o oficial de diligências com o pregoeiro fazia pública a extinção e suspensão das leis que causaram distúrbios no reino. À noite as duas filarmónicas unidas foram tocar pelas ruas e à porta do dito administrador, havendo foguetes e os costumados vivas.
            Na sexta-feira, 17, o regozijo pela chegada da comissão que foi a Lisboa representar a el-rei contra a supressão do concelho, era tal que parecia um povo de loucos. A toda a hora se ouvia o rodar de caleches, de seges, char-à-bancs e de carros que conduziam gente para a estação de Elvas a esperarem a comissão campomaiorense que devia chegar pelas 7 ½ horas da noite como efectivamente chegou. Parecia que se despovoava Campo Maior.
Quando eram 7 horas da noite, mais de 2.000 pessoas enchiam a rua do Ramires, Cantos de Baixo e rua Direita, onde está a casa da sociedade artística, que tinha erguido um grandioso arco triunfal (trabalho do Sr. João Leitão e dos seus oficiais e amigos) tendo em cima um coreto para as duas filarmónicas que, reunidas, são uns quarenta músicos.
Às 7 ½ da noite soube-se que a comissão partia da estação de Elvas para Campo Maior, acompanhada de uma parte do povo, que a tinha ido esperar e que vinha com archotes pela estrada, cuja extensão é de 3 léguas.
Próximo das 8 horas da noite saiu a filarmónica, dirigindo-se a casa do fiscal da câmara, o qual saiu com a bandeira da mesma e acompanhado pelos mais vereadores (menos o Sr. presidente que, por ser membro da comissão vinha com ela), foi colocar-se na frente da música. Aos gritos do povo: - Viva a câmara! Viva o concelho! Viva el-rei! – marcharam todos, seguidos cada vez de mais povo, pelas ruas da Canadinha, Canada, Mouraria de Cima, Mouraria de Baixo, S, João de Deus, S. João Baptista, Terreiro da Estalagem, Paço Misericórdia e Direita, parando à porta da dita sociedade.
Aqui o povo, que nunca cessou de dar vivas, gritou: Ao campo! E lá marchou a câmara, a música e umas 3.000 pessoas, para a Porta de Santa Maria (vulgo Porta da Vila) e daqui pela estrada real até às proximidades da ermida de S. João Baptista, extramuros e a dois 2 Km da povoação.
Não sei descrever quanto presenciei: infinitas luzes de archotes por toda a estrada e montes próximos, as negras nuvens de povo, música, fogueiras nas hortas, foguetes ao ar em todas as direcções correspondendo aos que se ouviam lançados pelo povo que acompanhava a comissão e que já vinha a 3 Km de distância.
Ao chegar a comissão próximo dos elementos da câmara, aquela se apeou e sua caleches, tocando a música um hino dedicado à comissão, composto pela Sr.ª D. Emília Rangel Mattoso dos Santos Rosado, filha do comendador e doutor em medicina, António Maria Rodrigues dos Santos, membro da comissão.
Cessou a música e a câmara entregou o estandarte ao seu presidente, havendo grande ovação e vivas.
O Sr. presidente da câmara e comendador Cristóvão Cardoso d’Albuquerque Barata, com o estandarte da câmara, caminhava á frente da música seguida do povo e na retaguarda as caleches, as seges, etc.
Seriam 11 horas da noite, entrava tudo na vila, dirigindo-se para a Praça Nova pelas ruas Direita, do Ramires e de S. Pedro. Chegados à praça, cessou a música. A câmara, a comissão e muitos cavalheiros subiram as escadas dos paços do concelho e do segundo pátio. O Sr. presidente agradeceu ao povo a honra de o terem nomeado membro da comissão. Seguiu-se o Sr. Dr. Santos que também agradeceu a mesma honra, dando conta ao povo do bom resultado da missão. Seguiu-se o Sr. João Dubraz que, com os seus costumados discursos enérgicos, relatou como se deu princípio, no Grémio, na rua da Canada, aos acontecimentos que Campo Maior tem presenciado, elogiando a comissão que foi a Lisboa e os indivíduos desta vila, residentes na capital, que se associaram a ela, concluindo o discurso em propor ao povo e à câmara, para comemorar os acontecimentos de Campo Maior o seguinte: que a rua da Canada, d’ora avante seja chamada Rua 13 de Dezembro; a rua da Canadinha, seja Rua do Conde d’Ávila; a Praça Nova, seja agora Praça de D. Luís I; o Largo da Carreira, fique sendo o Largo dos Carvajais; a rua do Tenente General, tenha o nome de Rua do Visconde de Seabra; a rua da Cadeia, se denomine para o futuro Calçada do Castelo; ao Terreiro da Estalagem, se dê o nome de hoje em diante de Largo do Barata; e ao Terreiro da Misericórdia, se chame desde já Largo do Barão de Barcelinhos. Tudo foi muito aplaudido pelo povo e pela câmara. (…)
Começou então todo o povo a sair da praça e a música foi para o coreto da sociedade artística (na Rua Direita), a tocar escolhidas peças, bem como nas duas seguintes noites, havendo espontânea iluminação pública. Esquecia-me de dizer que, na segunda noite, foi a filarmónica tocar à porta de todos os cavalheiros da comissão, em sinal de reconhecimento pelos serviços que prestaram.
Permita-se-me dizer que a comissão foi muito obsequia da por muita gente de Lisboa , especialmente pelo Ex.mo Conde d’Ávila, que a recebeu na respectiva sala do ministério do reino; e que, dando a palavra ao Sr. Dr. Santos, o ouviu por espaço de quase uma hora, de pé e com toda a atenção, respondendo que se demorassem uns dias e iriam satisfeitos para suas casas. Sua Ex.ª, despediu-se da comissão apertando a mão a todos.
Nos teatros e em toda a parte se falava da comissão de Campo Maior".
(Assinado: Um professor)
 


publicado por Francisco Galego às 11:00
Sexta-feira, 16 de Março de 2007
Quantos campomaiorenses saberão que esta nossa terra esteve, há quase 140 anos, condenada a tornar-se uma aldeia de um concelho que teria a sua sede municipal na cidade de Elvas?
Desde 9 de Maio de 1866, no governo do país estavam políticos nos quais se depositavam grandes esperanças. Alguns eram ainda bastante jovens e brilhantes e daí as expectativas de grandes mudanças. Entre eles sobressaíam, o Ministro de Reino Martens Ferrão e o Ministro da Fazenda Fontes Pereira de Melo. Mas, por um lado, a crise do país era profunda porque os problemas eram antigos e de carácter estrutural; por outro lado, os jovens governantes, se eram dotados de saber teórico, eram pouco cientes da realidade social e política em que lhes cabia intervir. Na ânsia de tudo mudar, no mais curto prazo possível, acabaram por impor decisões que suscitaram o descontentamento generalizado.
Entre as reformas propostas sobressaíram, pelo choque que provocaram nas populações, a reforma administrativa e a reforma judicial, porque vinham alterar tradições seculares que não foram nem bem explicadas nem bem entendidas. O descontentamento foi-se acumulando, atingindo o seu máximo no final do ano de 1867, quando se pretendeu dar execução às reformas que tinham sido aprovadas pelo parlamento.
Muitas das vilas que se viram privadas da sua autonomia municipal e destituídas dos seus tribunais judiciais, entraram em revolta aberta contra as decisões governamentais. Entre elas estava a vila de Campo Maior. Vejamos como um jornal de Elvas - Democracia Pacífica, Nº 61 de 3ª-feira 31 de Dezembro de 1867- se referiu, pela pena do grande escritor campomaiorense que foi João Dubraz, a esta situação, quando foi conhecido o teor da reforma publicada pelo Decreto de 10 de Dezembro de 1867
 
 “A tão esperada e estudada circunscrição administrativa apareceu afinal. Decretou-se a famosa hecatombe concelhia. As ilusões fagueiras esvaeceram-se como fumo, É feia como a morte a fatal realidade. (…)”
…essa reforma cai como um flagelo sobre as povoações sacrificadas.”
 
A nova circunscrição civil, reduzindo a sete os concelhos do distrito de Portalegre, conservou somente dos antigos: Alter do Chão; Avis; Castelo de Vide; Elvas; Monforte; Niza; Portalegre.
Ao de Elvas tiraram Santa Eulália e Barbacena e juntaram-lhe o de Campo Maior.
O que causou mais geral espanto foi a reconstrução do de Monforte… a agregação da paróquia civil de Santa Eulália ao concelho de Monforte é uma aberração de todos os princípios razoáveis…”
Campo Maior, mau grado ou bom grado do governo, tem mais de 1.500 fogos na sua população...
 
Para termos uma ideia da injustiça desta situação imposta aos campomaiorenses, compare-se a dimensão de outras vilas do Alto Alentejo que eram mantidas como concelhos autónomos, pela nova legislação, tomando a que cada fogo correspondia em média a 4 habitantes: Castelo de Vide,1.400; Alter do Chão, 749; Avis, 869; Monforte, 972; Niza, 1.176 fogos.
Daí que o autor do artigo continuasse:
 
...os seis mil cidadãos de Campo Maiorforam espoliados das suas economias e granjeios de sete séculos em favor de Elvas que bem pouco terá para si quanto mais para repartircom os que agora lhe foram agregados.
Era já duro e bem duro que se extinguisse o concelho de Campo Maior no distrito onde se conservam os de Castelo de Vide, de Niza, de Avis e de Monforte. Mas recusar-se-lhe o regime municipal? Negar-se município próprio à vila que no Alentejo tem mais pessoal?
Ora, ou regime municipal serve para estes e outros casos excepcionais ou é na lei um pleonasmo. Se não é excrescência inútil, dê-se a quem o deve ter para não oprimir quem deve ser independente.
 
Mais adiante, noutra página do mesmo jornal, noticiava-se:
 
Grande meeting em Campo Maior – Domingo, 15 de Dezembro de 1867, como consequência da nova lei da administração civil aprovada em 10 de Dezembro de 1867.
Em Campo Maior houve um meeting na Praça Nova em consequência da anexação daquele concelho a Elvas. Nomeou-se uma comissão composta de 50 indivíduos para representarem ao rei em nome do povo, pedindo o regime municipal para Campo Maior. A extinta câmara dispôs tudo em ordem de modo que não foi alterada a tranquilidade pública.
O povo estava indignado chegando a ouvir-se gritos como: queime-se o arquivo, que é propriedade nossa e não dos elvenses!
Para cima de oitocentos cidadãos ocuparam o grande salão dos paços da extinta câmara, a sala de audiências judiciais, as escadas e mais proximidades do edifício. Falaram, em sentido pacífico diferentes cavalheiros da localidade e a assembleia dissolveu-se depois de adoptar algumas resoluções de resistência legal, tendo uma grande comissão delegada assinado, em nome da assembleia, uma representação a el-rei.
Eis o que se diz nessa representação:
Senhor, - Campo Maior está de luto.
Seis mil cidadãos de todas as condições e estados, acabam de comissionar os cinquenta cidadãos,seus conterrâneos, abaixo assinados, para virem expressar ante o trono de vossa majestade um sentimento que não tem nome, nem espécie na linguagem dos homens; porque é ao mesmo tempo um gemido e um rugido; um acto de energia e um arranco de desânimo.
Ainda ontem, real senhor, Campo Maior era uma vila das mais florescentes do reino; mais populosa do que grande número das cidades que se ufanam dos seus títulos, tão rica e laboriosa como as que primam de activas e opulentas. E vai decairfatalmente do seu estado presente e das suas esperanças, derrubada por um simples rasgo de pena.
Que crime tinha feito esta boa e pacífica povoação? Porque desmereceram tanto os descendentes dos guerreiros de 1712, 1801 e 1811? Porque se eleva Castelo de Vide, Niza, Avis e Monforte, quanto se abate Campo Maior? Que actos de degradação rebaixam esta nobre vila do nível de Almeida, de Aldeia Galega, de Portel e de Gavião?
Mas, ao rei não se fazem perguntas, posto que a queixa seja libérrima na sua forma. Os ministros de vossa majestade não podiam errar e é de crer que tantas mágoas, tão grande desespero, só tenham por causa um lapso, uma inadvertência, um descuido de revisão.
Em toda a circunscrição administrativa não há uma única vila, com as condições de Campo Maior, que não seja sede de concelho. Das quatro a que se concedeu o regime municipal, nenhuma pode sofrer comparação com Campo Maior que dele foi privada.
Por estes fundamentos pois, os abaixo assinados, usando os poderes que lhes foram concedidos pelo grande meeting de hoje, pedem a vossa majestade que na folha oficial seja rectificada a omissão que, sem dúvida, houve sobre a concessão do regime municipal, visto que, não só foi proposto pela junta geral, mas até se anunciou em Campo Maior, a toda a população, que fora concedido, por assim ter sido declaradopor um alto funcionário do estado.   
 
Mas, a vila de Campo Maior, que configurou o seu descontentamento por atitudes de grande ordem e legalidade, não era a única vila a manifestar a sua indignação contra os arbítrios criados por esta reforma.
Houve protestos contra a nova lei da administração nos seguintes concelhos, tendo havido motins de alguma violência em alguns deles: Lourinhã, Belém, Castro Marim(motins muito graves), Alcoutim, Almeida, Gavião, Póvoa de Lanhoso, Cabeceiras de Basto, Olhão, Coruche, Alvito, Vidigueira, Almodôvar, Mangualde, Sátão, Penalva do Castelo, etc.
No dia 29 do corrente, houve eleições para a escolha dos representantes das várias localidades na gestão da câmara do reestruturado e ampliado novo concelho de Elvas. Mas, na assembleia de voto de Campo Maior não houve eleição em consequência dos eleitores não quererem votar.
O ano de 1867 acabava com tempo seco mas muito frio e com uma profunda amargura, provocada por um sentimento de grande injustiça, no coração dos campomaiorenses.
Voltaremos a este assunto para relatarmos como acabou por se resolver a situação.


publicado por Francisco Galego às 16:41
Sexta-feira, 09 de Março de 2007
Na passada semana, terça-feira, dia 27 do passado mês, o Diário de Notícias ocupava toda a página 20 com o tema das “crianças enjeitadas”. Primeiro com uma notícia proveniente de Itália – A “roda dos enjeitados” regressa em resposta a onda de abandonos de bebés –, depois com uma informação de carácter histórico – Uma prática de séculos pensada para os “bastardos”.
Em Itália, um hospital público nos subúrbios de Roma, estabeleceu um serviço para acolhimento de crianças recém-nascidas abandonadas. Numa dependência criada para o efeito e rodeadas de processos para garantir a discrição e o anonimato, as crianças podem ser deixadas num berço, o qual tem um dispositivo que avisa o pessoal do hospital da sua presença. A partir desse momento, a criança fica totalmente ao cuidado desse pessoal. Ora, isto não passa do retomar de uma instituição criada na Idade Média e que, em muitos países da Europa, sobreviveu até ao século XX.
Desde a aurora das civilizações, existiu o hábito de abandonar crianças. O abandono e o infanticídio existiram mesmo na muito humanista civilização helénica. Na Roma antiga, reconhecia-se ao pater famílias, o direito de enjeitar os filhos, mesmo os legítimos. As crianças “enjeitadas” eram deixadas na columna lactária, onde podiam ser recolhida por casais que as quisessem adoptar ou por quem as pretendesse criar para delas fazerem escravos.
Desde cedo o cristianismo desenvolveu os sentimentos de compaixão e caridade para com os recém-nascidos indesejados. Na Idade Média criou-se o hábito de deixar as crianças nos adros das igrejas ou nas portarias dos conventos. Mas, mesmo assim, muitas crianças eram abandonadas em locais que as colocavam em risco de morrerem de frio, de fome, ou de serem devoradas pelos animais. Começaram a aparecer homens de fé que dedicavam a sua vida à salvação das crianças abandonadas. Eram uma espécie de ermitões que buscavam as crianças para as entregar a instituições que delas cuidassem. Houve mesmo um Papa, Inocêncio III que, no século XII, se dedicou empenhadamente a este problema.
Nos conventos femininos, pela sua particular aptidão para intervirem nesta questão, foi criado um serviço organizado de recolha e assistência às crianças abandonadas. Ficou conhecida pelo nome de roda dos enjeitados ou, simplesmente, a roda. Consistia numa janela aberta para o exterior do convento, onde um cilindro oco, de madeira, girava sobre um eixo e que tinha uma abertura onde as crianças podiam ser deixadas. Bastava tocar uma sineta que estava ao lado, para que a irmã rodeira viesse recolher a criança abandonada.
 
 
 
                            Roda dos Expostos
          Museu Etnográfico González Santana, Olivença
 
Em Portugal, há notícia dos expostos serem entregues ao cuidado dos conventos, desde o início da nacionalidade.
No século XVI, com a criação das misericórdias, são estas instituições de assistência que passam a dedicar-se à acção caritativa da roda dos expostos para utilizar a expressão mais usada em Portugal. Onde não existiam misericórdias, ou onde estas não tivessem capacidade para assumirem este serviço, deviam ser os municípios a encarregar-se de dar solução ao problema.
Em meados do século XIX, com o triunfo do Liberalismo, a questão dos expostos começou a ser posta de maneira muito diferente, acabando por suscitar uma tremenda polémica que transparece na maioria dos jornais da época.
Aconteceu que, precisamente quando eu estava a analisar jornais publicados nos anos 60 do século XIX publicados em Elvas, comecei a deparar com artigos e notícias que versavam sobre esta questão. Simultaneamente estava a ser discutida a questão da intervenção voluntária da gravidez (IVG), com vista à realização do referendo no passado dia 11 de Fevereiro.
Como a questão dos expostos tende a interagir com a questão do aborto, não pude deixar de notar o paralelismo entre as duas questões. Primeiro pelo carácter profundamente polémico que implicam; depois pela maneira como um dos problemas implica o outro; em terceiro lugar pela semelhança dos argumentos utilizados e as posições que estavam a ser tomadas sobre a IVG e os que tinham sido usados no século XIX sobre a questão dos expostos.
Nesse tempo havia os que entendiam que as rodas dos expostos, devido ao seu carácter assistencial e aos imprescindíveis serviços que prestavam à sociedade, deviam ser preservadas, só que a expensas dos serviços do Estado, através das câmaras municipais.
Contrapunham outros que a roda dos expostos era uma instituição própria doutros tempos menos esclarecidos e incompatíveis com o Estado de Direito e com um grau de civilização alcançado pela humanidade. Denunciavam que, sendo os expostos quase sempre o produto de relações ilícitas e a consequência de atitudes imorais, o Estado e a sociedade tudo deviam fazer para as denunciar e obrigar os responsáveis a assumiram os sagrados deveres da sua paternidade.
Foi esta a corrente de opinião que primeiro venceu e as rodas dos expostos foram, por força da lei, condenadas à extinção.
Os efeitos não se fizeram esperar: passado pouco tempo, dispararam tragicamente o número de infanticídios e o número de mulheres que morriam em resultado de abortos mal conseguidos.
Reacendeu-se a polémica. Formou-se um movimento de opinião favorável à reorganização das rodas. Mas porque a sanha dos opositores não abrandava, tentou-se uma conciliação moderadora: as rodas seriam criadas apenas em alguns lugares e funcionariam das nove da manhã às três horas da tarde. Com isto pretendiam alguns levar a que as pessoas, obrigadas a exporem-se publicamente, evitariam recorrer a tal serviço.
No Distrito de Portalegre, só Elvas, Alter do Chão e Portalegre tinham rodas dos expostos.
Os resultados não foram famosos. Para evitar a exposição pública, começaram a aparecer pessoas que, a troco de um pagamento, se disponibilizavam para levar as crianças desde a povoação de origem até aquela onde funcionava a roda. A demora das viagens por péssimos caminhos e as condições inadequadas em que eram transportadas, provocavam a morte de grande número de crianças, sem esquecer os actos criminosos de alguns desses transportadores que, para ganharem mais e com menos esforço, eliminavam as crianças, sabendo que os pais, por quererem manter o anonimato, os não podiam denunciar. Por isso o jornal O Transtagano, de 20 de Maio de 1860, comentava:
Que resultado se pretende tirar da centralização das rodas? Diminuir o número dos nascimentos ilegítimos? Não, porque as causas são outras. A centralização das rodas só diminuiu o número dos nascimentos ilegítimos nas estatísticas porque o número dos infanticídios tem aumentado.
As causas dos nascimentos ilegítimos são o vício, a miséria e a fraqueza do coração humano. …Quando a fome e a desgraça chegam a certo grau…sacrificam-se todos os deveres da honra e do pudor. Quando há homens dispostos a comprar um prazer à custa de um remorso… Não é às pobres mulheres, vítimas da sedução que deveis oprimir com o desprezo e com a vergonha dessa maternidades ilegítimas. O sedutor é o verdadeiro culpado; é que abusa da miséria; é o libertino.
Em tais casos, o fruto do vício, da miséria e das fraquezas do coração deverá ser a vítima expiatória dos seus progenitores?”
As rodas voltaram a funcionar em todas as capitais de concelho. Por testemunhos orais, tenho notícia de que a de Campo Maior funcionava numa casa da Rua de Pedroso. Mas, agora em condições mais humanizadas. As crianças eram entregues a amas que se dispunham a criá-las a troco de um subsídio concedido pela câmara. Mas a instituição roda dos expostos, no meio de tanta polémica,ficara desacreditada. No nosso país, foi declinando a ponto de estar extinta no final do século XIX. Não porque os problemas tivessem sido resolvidos; mas porque, entretanto, surgiram outras instituições de apoio à infância e também por terem mudado algumas das condições da sociedade que determinavam a sua existência.
Evoquei este caso pela importância que pode ter para melhor pensarmos outros factos com muita actualidade. Sobretudo para nos fazer pensar que há certas questões sociais que, pelo seu melindre, não devem ser discutidas em termos ideológicos. Sobretudo quando implicam consequências trágicas para a vida de tanta gente.
Há questões que, mais do que serem acaloradamente discutidas, necessitam de ser, ponderadamente, bem resolvidas.

Campo Maior, 5 de Março de 2007

Região em Notícias de Campo Maior, 9 de Março de 2007   



publicado por Francisco Galego às 15:13
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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