Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

 

Há sessenta anos atrás, a feira de Elvas era ainda um acontecimento importante na vida dos que viviam em Campo Maior. Minha avó materna era de um entusiasmo total pelo São Mateus. Muitos dias antes já ela tinha começado os preparativos: apalavrando os carros para o transporte; comprando os enchidos; confeccionando os bolos; juntando ingredientes e condimentos para preparar as comidas.
Nós éramos dos que partíamos mais cedo e, muitas vezes, éramos também dos que mais tarde regressávamos. Na véspera da partida, começavam-se a juntar as coisas na sala de entrada da casa da minha avó: colchões, mantas, trouxas de roupas, cestos com loiças e outros com comidas, cadeiras desdobráveis, mesas desmontáveis.
            Abalávamos para o São Mateus, em tribo todos metidos nos carros de canudo que nos transportavam caminho da cidade. Com o carro do meu tio e mais dois que se alugavam, fazíamos um luzida caravana que cuidava de abalar cedo para ocupar os lugares que minha avó estrategicamente tinha escolhido como sendo os melhores. Chegados, armávamos o acampamento dispondo os carros à volta do espaço que seria o nosso habitat durante os dias de permanência na feira. Naqueles dias éramos um pouco ciganos.
A feira do São Mateus era o período de férias que anualmente nos eram concedidas. Permanecíamos cerca de oito dias acampados no Sítio da Piedade no meio dos olivais. Os bons negócios faziam-se com calma depois de passado o rebuliço dos três dias oficiais que devia durar a feira. Por isso, depois da feira acabada é que se concretizavam algumas compras como os “peros” ou maçãs cheirosas e doces que vinham do Algarve, as facas, os barros dos louceiros do Redondo e o “peixe-leitão”, uma espécie de cação seco, que se usava para cozinhar saborosas sopas de pão.
Feitas as compras organizava-se o regresso. Cansados dormitávamos ao embalo dos carros sabendo que, no próximo ano, estaríamos de volta àquele local.

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publicado por Francisco Galego às 09:00
Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

 

Segundo os investigadores, a Feira de São Mateus remonta ao século XVI pois terá começado a funcionar entre 1525 e 1574. Cerca de duzentos anos mais tarde, veio associar-se-lhe uma peregrinação que se começou a fazer, a partir de 1737, no sítio onde, para assinalar um milagre, se construiu o santuário do Senhor Jesus da Piedade. Tanto a feira como a romaria ganharam grande importância entre as gentes do Alto Alentejo, tanto mais que a sua realização, coincidindo com o equinócio do Outono, marcava o período em que se dava por encerrado um ano agrícola e se começavam a tomar as disposições para o arranque do ano agrícola que se ia seguir. Alguns lavradores faziam do São Mateus a data de começo e fim dos seus contratos.
As pessoas, em grande parte as que estavam mais ligadas ao trabalho nos campos – aproveitando a romaria pela devoção, e a Feira de São Mateus por ser local de trocas muito necessárias às actividades agrícolas –, deslocavam-se a Elvas para aí permanecerem durante os dias que durava o evento. Os transportes eram, nesses tempos, difíceis e lentos. Em volta do terreno da feira, formavam-se grandes acampamentos de gente vinda de quase todas as terras desta região.
A Feira de São Mateus em Elvas e a Romaria ao Senhor da Piedade tiveram o seu período de maior esplendor entre meados do século XIX e meados do Século XX. No livro – O Senhor Jesus da Piedade de Elvas – publicado em 1965, o elvense Eurico Gama, retratou o ambiente que noutros tempos se vivia pelo São Mateus , na Feira de Elvas:
  Noite fora vai chegando gente dos mais variados locais. Vêm de Campo Maior e de Vila Boim, da Terrugem e de Santa Eulália, de Varche e de São Vicente, de Barbacena e de Vila Fernando. Sobre um talude que domina o Parque da Piedade, onde se efectua a feira, vão-se agrupando os carros, roda contra roda, varais ao alto, as bestas desaparelhadas e presas atrás, tasquinhando a erva. Os canudos das coberturas dos “churriões”, os tejadilhos planos das carrinhas, formam pequenas casas a que não faltam garridas cortinas de chita ou “cretone” formando portas graciosas. Para fora saem as cadeiras de fundo de buínho, os fogareiros de ferro, os tachos de barro, o farnel.
Nédias galinhas ainda vivas, atam-se às rodas dos carros, na mira de engordarem um pouco mais à custa de punhados de cevada que, guardadas ainda estão para matança do último jantar. Na frigideira de ferro estanhado fritam-se os bocados de coelho – o cocho frito – como lhe chamam, e um odor a um tempero esquisito e a saborosa banha de porco exala-se no ar. (…)

 


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publicado por Francisco Galego às 09:00
Terça-feira, 18 de Setembro de 2007
Tempos houve em que cada povoação tinha as suas próprias festas e romarias. No Alto Alentejo, sobressaía entre todas a Feira de São Mateus, em Elvas. O São Mateus de Elvas era até meados do século passado, uma das maiores festividades que os campomaiorenses celebravam. Poupava-se durante meses para se pode ir até à Feira d’Elvas por volta de 20 de Setembro.
Só os mais pobres, por falta de recursos, e os que cumpriam resguardo por luto ou por doença, ficavam. As carroças partiam uns dias antes ajoujadas de gente, de galinhas, de cabazes de comidas e de doçarias confeccionadas para a ocasião. Quem mais depressa chegasse, melhor lugar podia escolher para acampar nos olivais em volta do parque em que estaria montada a feira. Quem não podia ir de carroça, em caravana, ia a pé. Uma manta chegava para aconchego. Quanto ao resto, desde que houvesse dinheiro para a pinga e para o petisco, já se passava a contento.
Armados os acampamentos, gozava-se do descanso, da boa comida, da alegre convivência que a ocasião propiciava. De dia dormia-se muito e até tarde, por força de alguns excessos de bebida e porque as noites se prolongavam até de madrugada.
            As noites eram para a maioria destes romeiros o melhor que a festa propiciava. Formavam-se grandes bailes de roda animados pelo cantar e dançar das “saias”. Havia disputas assanhadas, muitas vezes entre grupos de terras diferentes. Surgiam a “modas novas”. Quadras engenhosamente elaboradas ao longo do ano encontravam ali o terreiro adequado para a sua pública exibição.
O Senhor da Piedade,
Tem vinte e quatro janelas;
Quem me dera ser pombinha,
Para pousar numa delas.
 
As festas do São Mateus,
São as festas da cidade;
Quem me dera andar bailando,
No Senhor da Piedade.
 
Feira d’Elvas, Feira d’Elvas,
Feira d’Elvas da cidade;
Quem me dera estar bailando,
No Senhor da Piedade.
 

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publicado por Francisco Galego às 18:35
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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