Quinta-feira, 04 de Setembro de 2014

A Comunidade Europeia Vai Ser um Logro.

 

 As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir.

Natália Correia, citada por Fernando Dacosta in 'O Botequim da Liberdade'

 

 

NOTA: Natália Correia morreu, aos 69 anos, em Lisboa, em 16 de Março de 1993



publicado por Francisco Galego às 09:05
Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Textos do escritor campomaiorense João Dubraz, publicados no jornal

A DEMOCRACIA PACÍFICA, há 148 anos.

 

Nº 10                          6ª, 14/12/866

Elvas 13 de Dezembro

 

Ninguém pode duvidar de que à testa do governo se encontram as primeiras inteligências do país; talvez com poucas excepções. Mas, o que ninguém duvida também, é – do que pela experiência tem mostrado já, da parte dos cavalheiros que compõem o ministério – a sua incapacidade para levarem a efeito as teorias brilhantes e sedutoras com que nos extasiam. O país está farto de teorias e de rapaziadas, porque na verdade não se pode dar outro nome a certas medidas a que o governo tem dado uma importância que, nem mesmo em teoria, a podiam e deviam ter. (…).

Que são as portarias do Sr. Martens Ferrão senão puros partos de imaginação em que só acredita alguém que não tenha a menor prática dos negócios públicos!

 

Nº 20                          2ª, 18/2/867

 

Editorial

Elvas, 17 de Fevereiro

(…) “Economias! Reformas! O deficit a crescer perigosamente e as reformas a abrir um largo abismo no fosso da perdição.

(…) Onde está o programa dos vossos festins reformadores, onde estão essas largas economias com que devíeis melhorar o estado precário da fazenda pública, onde está a felicidade do povo, ao qual vos apresentastes quais outros Messias?

            Falemos sério. A existência do partido fusionista, ou reformador ou das economias ou como lhe queira chamar, é um cartel de desafio arremessado aos brios do país.

            Respeitadores severos dos poderes constitucionais, não podemos ver a sangue frio, como a ambição e o vício de governar, podem comprometer o manto em que se envolvem e o trono, atrás do qual se escondem.”

 



publicado por Francisco Galego às 09:32
Terça-feira, 30 de Julho de 2013

(REPOSTO A PEDIDO DE LEITORES E APROVEITANDO PARA MUDAR O TÍTULO...)

Porque em tudo tem de haver momentos de interrupção para descanso, vou fazer uma pausa neste “Além Caia”.

Desejo a todos os que isto lerem, as melhores férias que puderem ter dadas as circunstâncias tão pouco tranquilizantes e propícias em que estamos a viver.


No passado dia 13, pelas 18.30h, fomos assistir à apresentação da recandidatura do Ricardo Pinheiro à Presidência da Câmara Municipal de Campo Maior. Eu a Júlia tínhamos sido convidados, com lugar reservado para assistir à sessão.

Quando estava ali, naquela cadeira, esperando pelos discursos que estavam programados, reparei que na fila à minha frente estava o Arménio, amigo de uma amizade que se começou a construir há quase 35 anos e que eu estava ali para assistir à recandidatura de um dos meus mais recentes amigos, um jovem engenheiro que conheço apenas desde os últimos quatro anos. Comecei então a lembrar como, nós os três, estamos relacionados com o acontecimento que agora ali nos juntava.

 

Há quatro anos atrás, já estivéramos numa sessão semelhante. Nessa altura estava a Júlia, também ela, candidata à Assembleia Municipal, para o mandato que agora vai terminar, tendo renunciado à possibilidade de se recandidatar.

Acho que faz bem. Sai com a consciência plena de ter cumprido exemplarmente com um desempenho de excelência e, por isso mesmo, algo esgotante. Mas, na verdade, nem ela nem eu sentimos gosto no exercício dos cargos políticos com tudo o que eles implicam e sem apreço pelas vantagens que alguns conseguem tirar dessa circunstância. 

 

O Ricardo é um exemplo acabado do gosto inato pela acção política. É ver como ele “cresceu” durante os quatro anos do seu primeiro mandato como presidente da Câmara Municipal de Campo Maior. É notável o prazer e a realização pessoal que ele retira deste seu modo que, felizmente não tem mudado, de entender a política como serviço público. E nota-se que o assume em plena consciência e com toda a integridade. Aliás, esse sentimento revela-se quando ele afirma que ainda não se considera um político mas, mais propriamente como alguém que foi escolhido para ser um gestor dos assuntos que implicam o bem comum e a realização do que lhe parece ser o interesse público. Sem o explicitar claramente, faz, à sua maneira, a distinção entre POLÍTICA e politiquice.  

Que os deuses lhe conservem este carácter de integridade ética e de consciência cívica e social que até agora tem mantido, com todo o rigor e com meridiana clareza.

 

Ouvindo-o ontem fui levado a recordar factos em que me vi envolvido há quatro anos atrás.

O Arménio Toscano tinha-me já falado da sua decisão de se candidatar à Presidência da Câmara. Fiquei contente por saber que se tratava de um sonho acalentado por ele desde há muitos anos. Tinha a convicção que ele poderia ganhar e desejava-o, não apenas por amizade, mas porque considerava, como coisa muito urgente e necessária, que Campo Maior devia libertar-se da gestão ruinosa, populista, degradante e demagógica que se instalara na vila, havia já mais de uma década.

Prometi-lhe de imediato toda a colaboração e ajuda que fosse necessária e que estivesse dentro das minhas competências e capacidades.

 

Passado algum tempo e com o arranque da campanha eleitoral já próximo, o Arménio comunicou-me que tinha tido um sério aviso de problemas cardiovasculares que o colocavam em risco de vida e que os médicos desaconselhavam vivamente que ele persistisse no projecto político em que estava à beira de se envolver. Percebi que a situação era mesmo grave quando me comunicou que ia renunciar a tudo para evitar agravar de forma irremediável as suas condições de saúde.

Sabia da importância que para ele assumiria o desempenho de tão ambicionado cargo. Por isso, esta situação deixou-me bastante penalizado. Era o fim do sonho de um amigo, mas era também o fim de um projecto sobre o qual eu tinha esperançosa expectativa.

No meu entender, não me parecia que houvesse alguém com capacidade para o substituir com igual vantagem.

De certo modo desinteressei-me do assunto, não porque o desvalorizasse mas porque, analisando racionalmente a questão, entendi que não havia possibilidade de lhe dar solução.

 

Passado algum tempo que não sei quantificar com precisão, estando nós a terminar o nosso almoço em casa, recebi um telefonema de João Manuel Nabeiro que me disse ter uma enorme urgência em nos falar, pedindo que fossemos almoçar com ele. Disse-lhe da dificuldade de corresponder ao convite, mas ele contrapôs que podíamos ir tomar um café e que, enquanto ele almoçava, podia expor-nos o que queria conversar connosco.

Claro que o inesperado da situação nos deixou curiosos e anuímos em fazer o que ele sugeria.

Logo que nos falou da situação em que a desistência do Arménio colocava o PS, á beira do processo de candidatura à autarquia, foi fácil abreviar explicações, dado que nós estávamos já conhecedores desse problema. Resumindo, ele queria que o ajudássemos a encontrar resposta a uma pregunta que se coloca com tal frequência e com tão grande premência aos que se embrenham no processo politico que um dos maiores políticos do século XX – Lenine – a deu como título a uma das suas obras mais significativas: QUE FAZER?

Francamente confesso que fiquei de tal modo sem saber como responder a tal questão, que lhe pedi que fosse comendo enquanto eu usaria esse tempo para poder pensar.

Comecei por explicar-lhe que, o facto de ter vivido tanto tempo fora de Campo Maior, me deixava pouco seguro de poder encontrar resposta adequada para o problema que me colocava. Mas que, dadas as circunstâncias, havia uma coisa que não poderia deixar de ser feita:

- Tinham de “IR A JOGO”.

 

Perante a perplexidade que lhe li na expressão, continuei a explicitar o que pretendia dizer: dada a situação difícil em que, a nível local, se colocava de momento o PS, este, sob pena de correr o risco de se “apagar” da cena política durante um tempo, provavelmente bastante longo, teria de se apresentar com candidatos próprios, mesmo que fosse para perder.

A pergunta que se seguiu foi: Pois sim! … Mas, com que “cabeça de lista”?

 

Eu sabia das dificuldades em que o partido ficara por ter estado tanto tempo dominado por aqueles que, servindo-se dele – dos seus símbolos e das suas estruturas organizativas – tinham aliciado ou afastado os quadros mais significativos do antigo PS local. Além disso, tinham instalado uma maneira de conceber e exercer a acção política que urgia combater e aniquilar. Entendia que era essa a finalidade mais urgente da lista que agora se pretendia apresentar a uma eleição. Tanto mais que se partia em situação de desvantagem, com uma expectativa muito desfavorável, contra adversários que estavam muito implantados, pois dominavam há muito tempo o poder político a nível local. 

Logo a questão do “COM QUEM À CABEÇA? ” tornava-se central dada a sua importância simbólica.

 

Ocorreu-me de repente uma ideia que atirei timidamente para a conversa:

“Mas, se a vossa família tem, nas vossas empresas, o que de melhor existe neste concelho, em termos de “capital humano” e de “massa crítica”, porque não procurar um jovem que pareça competente, convindo mesmo que não tenha experiência política?

Assim, ainda que não ganhe desta vez, ficará treinado e motivado para adquirir saber e experiência para poder vencer numa próxima eleição. Com a vantagem de não estar corrompido ou formatado para uma maneira pouco recomendável de fazer política”.

 

Pareceu-me uma maneira muito adequada para iniciar um projecto novo e uma nova maneira de intervir na vida política local. Havia ainda a vantagem de se tornar difícil para os adversários atacar alguém que, não tendo passado político, não tinha pontos fracos conhecidos que contra ele pudessem ser usados. Por outro lado ainda, parecer-lhes-ia a situação tão frágil que nem precisariam de se empenhar muito para vencerem com grande vantagem.

 

Pareceu-me que o meu interlocutor tinha ficado entre hesitante e perplexo. Contudo, iria apresentar a minha sugestão. Com surpresa minha, passados poucos dias comunicou-me que seu pai achara interessante a sugestão e que já tinha mesmo um nome que correspondia àquilo que estava em questão. Disse-me o nome de um jovem engenheiro – Ricardo Pinheiro – que eu não conhecia e que por isso me abstive de comentar.

Achei a situação interessante e resolvi acompanhar o processo que, a nível político, se foi tornando um dos casos mais estimulantes em que, quase sem dar por isso, acabei por me achar envolvido.

 

Porque sei que, muitas vezes, não são os que plantaram as árvores os que lhes vêm colher os frutos, devo referir de passagem que foi também João Manuel Nabeiro quem teve a ideia e tomou a iniciativa de convidar a Júlia para liderar o grupo de candidatos do PS à Assembleia Municipal. Segundo os resultados obtidos na votação, poderia ter sido eleita para presidir à mesma assembleia, não fora a inesperada e desleal falha de um dos eleitos ao compromisso previamente assumido.

 

Foi assim que, há quatro anos atrás, no mesmo local onde estávamos reunidos para assistir à apresentação de um jovem que alguns não conheciam e muitos nem acreditavam que pudesse ter sucesso no projecto a que se aventurava, pois que, embora fosse grande a vontade de mudança, a expectativa de sucesso não era muito segura.

E essa fragilidade da nossa expectativa reflectia-se na própria maneira como a sessão de apresentação do candidato fora configurada.

A nível do partido socialista, vieram algumas figuras com algum relevo a nível regional. Mas um figurão da política, a nível regional e nacional, fez questão de nunca acertar no nome do candidato que estava a apresentar, chamando-lhe vários nomes de árvores sem nunca acertar no “pinheiro” que era a árvore certa para o designar. Isto que foi parodiado pela maioria da assistência, tinha efectivamente a intenção de sublinhar a fraqueza do candidato, um jovem de quem não se podia esperar muito pois, de tão desconhecido e inesperado, nem sequer se conseguia fixar-lhe o nome.

Na época também me foi dito que o responsável por uma empresa contratada para dar apoio à candidatura dizia aos seus colaboradores que não valia a pena empenharem-se a fundo porque o caso “Campo Maior” estava condenado à partida a ser “caso perdido”.

Não foi assim pois que, ainda que com grande dificuldade, o jovem engenheiro ganhou ao veterano, sabidão e matreiro, que era considerado o outro candidato.

 

Agora, passados quatro anos, as coisas mudaram de tal modo que o jovem candidato sem estatuto para se lhe fixar o nome, tornou-se um sério candidato que mereceu a presença de uma importante personalidade como a Presidente Nacional do Partido Socialista, Dra. Maria de Belém, por ter sido impossível ao secretário-geral do partido estar presente, por estar envolvido na urgência de resolução da crise que o país atravessa. Mereceu também ter sido entusiasticamente elogiado pelo deputado Pedro Marques que representa, pelo PS, este distrito no Parlamento e que fez questão de sublinhar que considerava o Ricardo Pinheiro um caso notável de sucesso na condução da política a nível autárquico.

Sic transit gloria mundi. Maneira erudita de dizer, em latim, que passam muito depressa certas certezas e vaidades mundanas.

Hoje podemos dar como certo que todos os que assistiram a esta sessão saberão de cor o nome do candidato Ricardo Pinheiro. Mas serão muito poucos os que ainda se lembrarão do nome do deputado que, há quatro anos, não conseguiu sequer fixar o nome do candidato que veio apresentar.

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 09:05
Quinta-feira, 04 de Fevereiro de 2010

Se atentarmos bem nas práticas de muitos dos que fazem da actividade política a sua principal ocupação, acabamos por entender que é a ausência de uma noção clara destes três conceitos, ou um deficiente e degenerado modo de os entender que está na base das suas atitudes, comportamentos e maneiras de conduzir a gestão que desenvolvem em consequência dos cargos de que estão empossados.

Basta consultar um bom dicionário para podermos entender que, sendo conceitos essenciais para a prática política, eles estão completamente ausentes do pensamento e das práticas de alguma gente que tem grande peso na tomada de decisões. Tratando-se de decisões de grande responsabilidade social, elas são geradoras de importantes e, por vezes, trágicas consequências.

Alguns, não tendo qualquer noção do que sejam a estratégia, o planeamento e a táctica, ignorando ou desprezando a necessidade de definirem e orientarem com rigor as suas decisões, limitam-se a agir empiricamente, decidem em cada caso concreto como mais lhes convém, ou como melhor lhes parece, sem cuidarem da responsabilidade social implícita na sua função de governantes. O que resulta da acção destes desgovernados é uma sequência de actos sem lei nem norte, decisões tomadas sem definir com clareza as finalidades, acções iniciadas sem planeamento prévio, nem cálculo dos recursos disponíveis a utilizar. Vão ao sabor das circunstâncias, tacteando ao acaso da improvisação, muitas vezes sem sequer remediar os erros que vão cometendo. Como resultado, desperdiçam recursos, gastam tempo, perdem oportunidades e não só não resolvem como, por vezes, agravam os problemas.

No extremo oposto há também os que planeiam até ao ínfimo pormenor, descrevendo com minúcia todos os passos e cada gesto a executar. Mas, porque o fazem sem terem definido uma estratégia, partem para a acção sem uma consciência clara das razões porque agem, nem dos objectivos que devem atingir. O tempo, o esforço e os meios gastos para planear esgotam a capacidade para bem agir. Nestas condições torna-se difícil alcançar o pleno sucesso.

Em contrapartida, outros arvoram-se em grandes tácticos recorrendo a manigâncias mais ou menos astutas para obterem benefício próprio, ou para satisfazerem a sua insana vontade de poder. Recorrem a truques e trafulhices, julgando estar a executar hábeis tácticas e a desenvolver inteligentes projectos. Na realidade o que eles fazem nada tem a ver com a Política, se entendermos a Política como a capacidade de determinar com rigor as necessidades reais e como a arte de escolher as melhores soluções atendendo às condições de que se dispõe, num determinado momento e em determinadas circunstâncias. No fundo a Política deve ser a ciência e a arte de fazer o melhor dentro do que é possível ser feito.



publicado por Francisco Galego às 09:00
Segunda-feira, 01 de Fevereiro de 2010

Os conceitos de estratégia, planeamento e táctica tiveram a sua origem no domínio militar, mas foram passando para outros domínios como o político e o empresarial, sendo tomados em consideração sempre que se trata de tomar decisões de forma a garantir o máximo de eficácia com o mínimo de esforço e despendendo o menor gasto de recursos.

Estes conceitos foram explicitados por grandes pensadores como Maquiavel (1469-1527), escritor e politico italiano que desempenhou cargos importantes ao serviço de Florença, sua cidade natal. Na sua obra, A Arte da Guerra, publicada em 1521, explicitou a doutrina de que, durante a guerra, tinha de haver uma relação muito íntima entre a acção militar e as finalidades da política. Frederico II, o Grande, rei da Prússia entre 1740 e 1786, grande estadista, homem de grande cultura e chefe militar eminente, considerava a guerra como um assunto do Estado e, por isso, exigia um rigor matemático na definição das estratégias e tácticas militares que garantissem que, com o mínimo de recursos e de esforços, se obtivessem os melhores resultados. Napoleão Bonaparte introduziu na estratégia militar o conceito de planeamento em larga escala e em amplos espaços, para a preparação das suas campanhas militares. Carl von Clausewitz (1780-1831), oficial do exército prussiano, membro de estado-maior e director da Academia de Guerra, na sua obra Da Guerra publicada postumamente entre 1832 e 1834, baseado nos estudos que fez sobre as campanhas napoleónicas, explicitou a ideia de que a estratégia ocupava o nível mais elevado da direcção militar e, por isso, tinha de ser delineada em conjugação com a política.

O conceito, hoje mais ou menos consensualizado, de estratégia define-a como uma metodologia científica, uma maneira bem estruturada para elaborar projectos ou planos de acção, tendo em consideração os recursos de que se dispõe para se poderem atingir certos objectivos que se destinam a concretizar os fins em vista. Trata-se, portanto, de um saber que permite estruturar uma actividade para conseguir realizar qualquer projecto ou intenção com vista a atingir determinados objectivos convergentes para uma finalidade.

Intimamente ligado ao conceito de estratégia foram-se explicitando os conceitos de planeamento e de táctica.

O planeamento consiste em elaborar uma antevisão da acção que pressupõe o traçar de um projecto geral que fixe os objectivos, considere os recursos necessários e os disponíveis, calendarize as etapas e o tempo de execução.

Se a estratégia define o que fazer tendo em vista as intenções e o planeamento define como desenvolver a acção para realizar o que se pretende, a táctica consiste em usar da melhor maneira os recursos, recorrer aos métodos mais adequados e mais eficazes para desenvolver a acção planeada. A táctica diz respeito ao como fazer, à maneira de proceder, aos modos de agir a que devemos recorrer para ultrapassar obstáculos, resolver situações que se nos colocam quando temos de desenvolver uma acção.



publicado por Francisco Galego às 12:32
Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Por um lado, torna-se evidente a dificuldade que o governo tem tido, para se adaptar à sua nova condição de ter de governar sem dispor do apoio de uma maioria absoluta no Parlamento. Por outro lado, o ataque desenfreado ao governo no Parlamento a que temos assistido, pode levar-nos a pensar que os deputados da oposição se julgam mandatados pelo voto popular para acabarem com a maioria obtida pelo partido que formou o governo após as eleições.

Ora, na verdade, o único mandato claramente conferido pelo eleitorado foi que o governo que, em resultado da eleição, foi constituído e empossado, deveria governar por um mandato de quatro anos, embora sem maioria absoluta, a menos que no Parlamento se constituísse uma nova maioria que sustentasse novo governo, ou que fosse dissolvido o Parlamento para que houvesse novo acto eleitoral.

Ora, a situação a que se assiste parece levar à suposição de que a oposição se constituiu como nova maioria e que, por isso, entende que deve governar sem fazer cair o governo. Ora, não é esta a situação real. De facto, o que acontece, em termos parlamentares é que se, por um lado temos um partido que, por ter vencido as eleições, obteve a maioria dos deputados, por outro lado, existe uma oposição fragmentada que se tem unido para formar uma força destrutiva capaz de obstruir actos, propostas e projectos do governo, mas que não tem capacidade para apresentar medidas e propostas legislativas capazes de constituírem uma alternativa de governo que enfrente e resolva a situação crítica que o país enfrenta. Em consequência, a sua acção resulta mais no agravamento do que na resolução dos nossos problemas. Não são auspiciosas as condições políticas em que o país se encontra neste final de ano e final da primeira década do século XXI.

 



publicado por Francisco Galego às 09:00
Domingo, 13 de Dezembro de 2009

Terça-feira dia 1 de Dezembro de 2009, após muitas hesitações e variadas controvérsias, entrou em vigor o Tratado de Lisboa, tratado reformador da União Europeia que integra os vinte e sete países que, há quase dois anos o assinaram em Lisboa. O novo tratado, entre muitas outras mudanças importantes, reforça os poderes do Parlamento Europeu e garante uma maior democraticidade no interior da União. Os eurodeputados passam a poder decidir conjuntamente com os ministros nacionais sobre a política agrícola comum e estão em igualdade em questões de justiça, assuntos internos, pescas, política comercial e no uso dos fundos estruturais. Lança também as bases de uma política comum de energia. A Europa fica dotada de um contrato que liga por normas mais democráticas, e que se espera que sejam mais eficazes, cerca de 500 milhões de pessoas vivendo em 27 estados diferentes.

 



publicado por Francisco Galego às 00:18
Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

A Cimeira Ibero-Americana que se reuniu no Estoril foi a 19ª que se realizou sem que sejam muito evidentes os resultados alcançados ao longo dos últimos vinte anos.

O subcontinente sul-americano continua a parecer mais um arquipélago de países separados por um mar de razões e de diferenças inconciliáveis.

A fraca realidade das intenções e das decisões, continua dar lugar à retórica das declarações. Na verdade, a data da sua realização não terá sido nada favorável a grandes entendimentos e conciliações.

 



publicado por Francisco Galego às 09:15
Quarta-feira, 09 de Dezembro de 2009

Freitas do Amaral, com a autoridade que se lhe reconhece, concedeu uma extensa entrevista a um jornal diário de grande circulação. Entre outras coisas, afirma que o Presidente da República anda mal aconselhado, opina que o mais alto magistrado da nação devia falar ao país sobre a crise da justiça, a corrupção e o desemprego. Perante esta afirmação não podemos deixar de pensar que o Presidente parece, não só mal aconselhado, mas também não muito avisado. Quando deixa que, em seu nome, se levante a suspeição de que poderia estar a ser escutado, com a agravante de o ónus de tal acção poder recair sobre o primeiro-ministro, sendo agora sabido que, de facto, era este que tinha estado sob escuta, não parece uma maneira muito avisada de agir. Para não dizer que é eticamente muito discutível, tanto mais que, não puniu os que se comprometeram nesse processo, não os repreendendo ou sancionando. E, o que é mais grave, por ter vindo, a posteriori, como agora se viu, a promover o seu principal responsável. A um Presidente da República exige-se que, além da atenção aos grandes problemas da nação, apresente rigor, justiça e isenção em todos os actos da sua vida pública e em todas as suas decisões.



publicado por Francisco Galego às 00:11
Domingo, 06 de Dezembro de 2009

O tema da corrupção arrasta-se. Não sabemos por quanto tempo esta “carcaça” irá alimentar a sanha devorista dos abutres que vivem dos constantes escândalos que eles alimentam e de que alimentam a sua sórdida maneira de entenderem este jogo de aparências que vai ocupando o espaço que devia ser reservado à análise e compreensão da nossa vida política.

Como pode este primeiro-ministro suportar a carga de tantas acusações, calúnias, difamações e atentados contra o seu bom-nome e carácter? A acreditar em tudo o que já se disse e em tudo o que ainda se vai dizendo, o homem é um incorrigível corrupto, um conspirador tenebroso, um mentiroso compulsivo, um prepotente que esmaga tudo e todos os que se lhe atravessam no caminho. Além disso, compromete-se em associações mais que duvidosas para obter vantagens, usando processos de duvidosa legitimidade. Ele corrompe e deixa-se corromper. Ele manda espiar, escutar e vigiar os adversários, mesmo os que ocupam os mais altos cargos do Estado.

Só não se entende como pôde passar por tudo isto sem que, até hoje, tenha sofrido as devidas consequências. Pois que nunca foi constituído arguido, nem se descobriram provas concretas de que tenha prevaricado. Das duas, uma: ou o homem é tão poderoso que ninguém lhe consegue tocar, ou, neste país, não há justiça capaz de funcionar em termos minimamente aceitáveis.

Mas, se o homem é tão poderoso assim, porque não consegue ele silenciar os seus detractores? Porque não sufoca os jornais e televisões que constantemente o atacam? Porque lhes consente a liberdade de o atacarem continuamente perante a opinião pública? Se ele pôde mandar acabar com um telejornal que o incomodava, se consegue pressionar tanto os jornais que estes se sentem sufocados, porque há ainda tanto escândalo e tanta acusação à volta da sua pessoa? Afinal quem conspira contra quem, neste país que parece estar a afundar-se numa tempestade constante de suspeições?

Titula um jornal: “Sete gestores públicos ganham mais que o primeiro-ministro”. Apetece perguntar: Como é que ainda há quem se disponha a suportar o peso de ser primeiro-ministro, em semelhantes condições?

 



publicado por Francisco Galego às 21:09
Sábado, 28 de Novembro de 2009

A acção dos corruptos, quando associada ao poder político, é talvez uma das formas mais gravosa de corrupção pois que, usando o poder de que foram investidos, submetem os que estão na sua dependência à prática de actos ilícitos, sob ameaça de represálias ou em troca de benefícios. A corrupção ligada ao poder político premeia o crime, persegue os mais cumpridores, os mais competentes e mais zelosos, beneficiando os que se prontificam a consentir na violação da legalidade para eles próprios beneficiarem da mesma corrupção. A corrupção ligada à política inverte os valores, anula os bons princípios, viola as regras, instala a desordem, provoca a desmotivação, desmobiliza o empenhamento, premeia as incompetências e anula as boas vontades.

A corrupção não denunciada, não sujeita a julgamento, consentida em total impunidade, alastra rapidamente como epidemia corrompendo rapidamente sectores cada vez mais alargados da sociedade. Isto porque o povo que devia ser o principal elemento de vigilância, denúncia e repressão da corrupção, passa a consenti-la, havendo cada vez mais gente disposta a aceitá-la como fatalidade. Perante a complacência generalizada, a corrupção tende a instalar-se como se de coisa normal se tratasse.  

 

 



publicado por Francisco Galego às 09:00
Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

A corrupção parece estar a alastrar monstruosamente, perante a complacência conformada das populações. Em certos casos há mesmo mais do que complacência: há uma verdadeira cumplicidade. Se não, como explicar a votação massiva em políticos acusados e condenados pelos tribunais por actos de corrupção? Como explicar que a população, ou parte significativa dela, vote num autarca que mostra sinais exteriores de riqueza reveladores de uma acumulação de património que não possuía antes do desempenho dos cargos políticos e que não poderia ser adquirido com os seus legítimos vencimentos? Como explicar que se vote em políticos que favorecem descaradamente alguns em prejuízo dos interesses legítimos de todos os outros?

Infelizmente tudo nos leva a concluir que a corrupção não é uma característica dos políticos mas que se está a tornar num fenómeno que vai corroendo as estruturas da nossa sociedade. Vemos tratados publicamente como heróis indivíduos que deviam ser ostracizados e penalizados devido ao carácter criminoso da sua acção no desempenho dos cargos políticos. Esses que impunes se pavoneiam, alardeando uma esperteza que não passa de descaramento e indecorosa falta de princípios, deviam estar a responder pelas suas malévolas acções e não a receber o apoio dos seus concidadãos.

 



publicado por Francisco Galego às 09:00
Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Não é apenas por ser ilegal que a corrupção deve ser entendida como um acto censurável. É que a corrupção pressupõe sempre uma degradação ou deterioração dos valores morais e dos bons costumes, pois que a vantagem que alguém consegue para si, resulta em prejuízo de outros. A corrupção está quase sempre associada, pelas suas consequências sociais, à usurpação e ao furto. Trata-se, em última instância de um roubo perpetrado contra a sociedade, contra o Estado, contra a comunidade, ou contra particulares, pois que desvia em benefício próprio aquilo que devia ser usado em benefício de todos ou de outros. 

Neste sentido, a corrupção torna-se, por natureza, o contrário do que se deve entender por política. Repare-se que este termo deriva da palavra grega “polis” que, à letra, tem o significado de cidade, mas que, na verdade, para os gregos, designava o que hoje designamos por Estado. Daí deriva que o político deva ser alguém que coloca a sua capacidade, competência e disponibilidade ao serviço do Estado. Assim sendo, a corrupção é a negação da política pois que quem, no exercício de um cargo político a pratica, desvia o que deve ser da comunidade ou do Estado, em seu próprio benefício. Logo, o que pratica acto de corrupção deve ser impedido de desempenhar funções políticas e deve ser punido pela ilegalidade das acções desenvolvidas contra os interesses colectivos que lhe competia defender.

Agora começam a causar escândalo os casos como este “Face Oculta” que tanto ocupa a opinião pública nos dias correntes. Bom seria que este caso que merece tamanho destaque fosse caso de excepção. Porém, se nos pomos a analisar a situação em toda a sua gravidade, começamos a crer que se vai tornando regra aquilo que é publicitado como se fosse pouco usual na nossa sociedade. É que este caso do âmbito da política nacional, leva-nos a pensar nos inúmeros casos que vão proliferando a nível da política local.

 



publicado por Francisco Galego às 09:00
Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

 

Foi constituídoe empossado um novo governo para Portugal. Será que teremos novas condições de governabilidade, tão necessárias à resolução dos gravíssimos problemas que o país enfrenta neste momento?
   Em declarações recentes, José Sócrates tem vindo a expressar mágoa e ressentimento por ter sido atacado, constante e persistentemente, ao longo da passada magistratura. Sindicatos, partidos da oposição, órgãos de comunicação social, formaram uma frente de contestação, usando quase sempre o ataque pessoal contra o seu carácter, honestidade, clareza e lisura de processos e intenções.
Apesar destes ataques sistemáticos, manteve o apoio do povo português e, ainda que com algum desgaste em termos de resultados, a ele cabe dirigir o governo do país, na próxima legislatura. Será que os ataques vão persistir até conseguirem finalmente alcançar o objectivo que falharam no último acto eleitoral, sendo certo que só o conseguirão mediante um grande agravamento da situação interna de Portugal?
Político bem preparado e determinado na consecução dos seus objectivos, José Sócrates tem vindo a traçar as linhas mestras da sua actuação para o futuro próximo, como primeiro-ministro. Segundo as suas declarações mais recentes, no governo minoritário que lhe cabe dirigir, terá de dar prioridade ao combate à recessão económica pois, sem recuperação da economia, não será possível vencer a crise e alcançar a estabilidade social. Claro que, sem maioria absoluta, terá de proceder a uma negociação constante com as outras forças sociais e políticas, procurando os consensos necessários para alcançar as metas traçadas para vencer a crise.
Mas, tudo isto terá de ser feito sem perder de vista que o PS, partido mais votado, se apresentou ao eleitorado com um programa que não poderá, de modo nenhum, deixar de ser tomado como ponto essencial de referência. Tanto mais que, o segundo partido mais votado, o PSD, fiel às crenças neoliberais dos seus actuais dirigentes, baseadas nas virtudes auto-reguladoras da economia de mercado, com intervenção mínima do Estado, contestou ao longo da campanha eleitoral que, para assegurar a retoma e conseguir a estabilidade, se recorresse aos grandes investimentos pelo sector público, como via mais consistente para vencer a fase mais depressiva do ciclo de crise económica. Este partido passou quase a toda a campanha eleitoral a clamar contra o deficit, enquanto o PS sempre deixou claro que as condições actuais do país ditavam a necessidade de deixar em suspenso a questão do equilíbrio das contas públicas para uma fase posterior, quando o crescimento económico já estiver assegurado. Isto na condição de ter um grande cuidado para evitar perigosas derrapagens que poderiam colocar em risco as finanças do país no médio prazo.
Em conclusão: esta situação económica muito complexa e muito difícil, exige de todos uma congregação de esforços e uma grande capacidade de diálogo para gerar consensos, de forma a criar as condições que permitam ultrapassar as dificuldades que o país enfrenta na actual conjuntura.


publicado por Francisco Galego às 09:00
Domingo, 25 de Outubro de 2009

 

Tornou-se corriqueiro dizer mal dos partidos: que são todos iguais; que o que querem é o “tacho”; que são todos uns oportunistas desonestos; que se estão nas tintas para a justiça e para o bem-estar das pessoas. Mas, tomando em consideração algumas situações que se passaram nas últimas eleições, parece que os cidadãos votantes são bem mais merecedores de censura quando votam e elegem determinados autarcas. Senão vejamos: em Oeiras, Isaltino Morais foi eleito, embora condenado pelos tribunais; algo de semelhante aconteceu com Valentim Loureiro, em Gondomar; o mesmo teria acontecido com Ferreira Torres, em Marco de Canaveses e com Fátima Felgueiras, embora desta vez os povos destas terras tenham sacudido o jugo e encontrado forças para se libertarem destas figuras que tão má fama têm dado às populações que os elegeram.
Contudo, estas quatro personagens, tinham sido repudiadas pelos partidos (PSD; CDS; PS) e continuaram a ser votadas pelos eleitores. Por incrível que pareça, há quem despreze pessoas notáveis e de comportamento exemplar, homens e mulheres que se dedicam de alma e coração à causa pública, para apoiarem gente que se distingue por acções e comportamentos mais do que censuráveis. A democracia tem, por vezes, destas contradições. O remédio é continuar a lutar e a esclarecer para que deixem de acontecer situações destas e haja correcções como as que se verificaram agora no Marco e em Felgueiras.
 


publicado por Francisco Galego às 09:00
Domingo, 18 de Outubro de 2009

 

Nunca gostei de convencer, de influenciar ou de doutrinar as outras pessoas. Creio que foi esta faceta da minha personalidade que me encaminhou para a minha inclinação profissional tornando-me professor. A minha grande preocupação foi a de ajudar os outros a saberem pensar. Mas a pensar criticamente, ou seja, a fundamentarem aquilo que pensam em bases sólidas que dêem razão a conclusões e argumentos que permitam desenvolver planos de acção úteis, exequíveis, dirigidos à resolução de problemas concretos e ao preenchimento de carências e necessidades reais.
Tenho uma visão ética da política e isso implica que a conceba como uma missão que alguém assume com o objectivo de se colocar ao serviço dos outros. Por isso, o que mais me repugna na política é a propaganda manhosa, a campanha intencionalmente feita de mentiras, calúnias boatos e deturpações da verdade. Numa palavra, a política como projecto pessoal de alguém que procura nela apenas maneira de se beneficiar e sair dela a ganhar, ainda que isso implique passar por cima de tudo e de todos, ignorando razões e princípios de ordem moral.
Ao longo da minha vida, embora nem sempre o tenha conseguido, sempre procurei não assumir cargos. Mas, sempre que cedi a pressões para que me envolvesse, acabei por me censurar e chegar à conclusão que há de facto coisas que nem faço bem, nem me dá gosto fazer.
 Há contudo situações políticas tão fora dos parâmetros da ética que eu não resisto ao apelo de nelas me envolver para tentar ajudar a que as coisas regressem à sua forma justa, certa e normal. Foi o que agora fiz e não me arrependo de o ter feito.
 


publicado por Francisco Galego às 09:00
Domingo, 30 de Agosto de 2009

 

Felizmente vai crescendo o número dos que entendem que na nossa democracia há um excesso de representatividade e um enorme défice de participação. É sobretudo a nível do poder local que começam a surgir projectos políticos que pretendem governar congregando vontades e capacidades através da intervenção dos cidadãos.
Provavelmente as pessoas não estarão fartas da política, mas apenas de uma certa forma de exercício do poder político. Se não, vejamos: o que torna tão desesperantemente censurável a acção de certos políticos? Não é agirem sem terem como base da sua acção um sólido e consistente plano de ideias? Não é a sua obstinação em ignorarem deliberadamente os que se preocupam em reflectir sobre as condições de vida das populações e as suas necessidades? Há algo de mais reprovável e de maior pobreza política que exercer o poder apenas para satisfazer impulsos, interesses e apetências pessoais ou de grupos de influência?
Os homens com responsabilidades de governação, são tanto mais fiáveis quanto maior é a sua disposição para atenderem à opinião daqueles que se propõem governar. Até porque governar deve ser sempre uma forma de servir e nunca uma forma de servir-se.
Provavelmente, na conjuntura actual, a grande questão política não será tanto a da escolha entre esta ou aquela pessoa ou facção, mas a de avaliar os projectos que são apresentados pelos que se propõem ser escolhidos por nós para governarem através do processo democrático das eleições.
 


publicado por Francisco Galego às 18:19
Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

 

Portugal é ainda um país profundamente marcado por uma dura ditadura que sufocou durante quase meio século as tentativas de real desenvolvimento. Os pouco mais de trinta anos de situação democrática não bastam para apagar por completo os estigmas de tão dominadora e duradoira situação de opressão.
Por outro lado, o mundo em geral passa por uma fase de contínua e alucinante série de transformações. Todas as épocas de transformações profundas são naturalmente épocas de crise: há um mundo que vai desaparecendo para dar lugar a uma nova etapa da civilização. Como conviver com estes tempos de tanta incerteza e de tanta instabilidade?
A tendência mais natural é para desistir, deixar de se interessar, deixar correr. Mas nenhum mal se cura depressa e bem deixando apenas o correr tempo. Compreende-se que o espectáculo dado pelos certos representantes políticos, seja de facto muito desanimador. Mas desistir de participar não será a melhor forma de contribuir para que se mantenham as situações que provocam o nosso desagrado?
Claro que dói verificar que muitos dos que desenvolvem e exercem o poder político, a todos os níveis da governação, parecem muito mais empenhados em abocanhar o máximo de poder, ignorando o interesse público, a vontade e bem-estar daqueles que os elegeram como representantes para que governassem segundo o melhor bem comum possível. É verdade que, causa desencanto constatar-se que, em vez de se unirem na busca do bem público, se consomem em questiúnculas e lutas de facções. Por vezes, essas lutas desenvolvem-se dentro de um mesmo partido, havendo também os que, cegos, surdos e mudos ao crescente e perigoso desinteresse das populações pela causa da democracia, pensam que assim conseguem instalar mais facilmente a arbitrariedade do seu poder pessoal. Ora, para bemdecidir, é preciso decidir com a participação e segundo o interesse das populações.


publicado por Francisco Galego às 18:15
Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

 

Os partidos políticos são indispensáveis a um normal funcionamento do sistema democrático. Mas a democracia não deve limitar-se à acção política desenvolvida pelas organizações partidárias por mais que elas se identifiquem com a vontade dos que, através do voto, delegam nos partidos o seu poder de decisão.
Os partidos legalmente constituídos reúnem, em si, um máximo de representatividade mas, na maioria dos casos, desenvolvem a sua acção política recorrendo a um mínimo de participação cívica. Todas as acções são tomadas e desenvolvidas através de complexos aparelhos organizativos, sem praticamente recorrerem à consulta da vontade popular.
Uma democracia em que a vontade popular apenas se expressa através do voto para escolher os seus representantes, os quais vão exercer o poder através da estrutura do Estado, é uma democracia muito limitada.
Ao contrário do que muitos pensam, a democracia não pode ser entendida apenas como um regime político. A democracia é, acima de tudo, um grau de civilização que os povos e as sociedades humanas só podem alcançar quando atingem um determinado estádio de evolução. O poder concentrado em absoluto nas mãos de um chefe ou de uma elite minoritária, só subsiste em povos de fraco nível de desenvolvimento ou fortemente deprimidos por profundas crises sociais. Daí que, todos os ditadores tanto invistam na manutenção do subdesenvolvimento dos povos que pretendem dominar. Daí resulta também que o grau de democracia de que um país, um estado, ou um povo pode desfrutar, num dado momento, depende da capacidade que esse povo tem para a participação na tomada de decisões que dizem respeito a todas as comunidades que integram esse povo, estado ou nação.


publicado por Francisco Galego às 18:13
Sábado, 15 de Agosto de 2009

 

Permitam que coloque a seguinte questão:

Imaginemos um patrício nosso que, pelos acasos e necessidades da sua vida, foi obrigado a viver noutra terra e noutra comunidade nos arredores de Lisboa ou noutro país distantede de Portugal. Esse nosso patrício para aí levou a sua família, tendo-se os filhos e os netos enraizado na terra de acolhimento perdendo os laços que os ligavam a Campo Maior. Agora que a velhice se aproxima, gostará, por ventura, de regressar à sua terra natal. Mas, gostaria também que os seus filhos e netos o viessem visitar com alguma regularidade. Pois bem! Que poderá Campo Maior oferecer de diferente e aliciante que atraia as novas gerações para fazerem uma visita mais regular e mais prolongada?

Se tivéssemos o mar e as atraentes praias das terras do litoral, bastaria fazer muito pouco para os convencer a virem e a por aqui ficarem em tempo de férias. Mas, o que é que nós, aqui neste interior seco e árido, lhes poderemos oferecer?

Não temos praias é certo. Mas possuímos um riquíssimo património histórico e cultural que bastaria ser bem mostrado e explicado para atrair a atenção e o interesse de quem nos visitar.

Em Campo Maior há (ainda) vestígios de uma história militar que provam quanto esta terra foi importante para a defesa e manutenção desta identidade nacional que continuamos a venerar sob o nome de Portugal. Temos é de nos preparar para saber mostrar e explicar esses vestígios de um passado a todos os títulos significativo e motivo de orgulho justificado. Teremos, portanto, que ter uma política de conservação e dinamização desse património.

Mas o património cultural de Campo Maior não consiste apenas nos muros que restam do passado. Campo Maior não é apenas mais uma  uma terra. É, principalmente, uma terra habitada por um povo que tem uma história e uma cultura muito próprias e com aspectos bem importantes.

As Festas do Povo são a prova maior do poder de atracção que têm as manifestações duma legítima cultura local. Mas as festas não são a única realização própria da cultura campomaiorense. O “cantar e bailar as saias” constituiu, uma extraordinária manifestação da cultura campomaiorense. Infelizmente, a falta de cuidado que se está a verificar com a sua conservação e divulgação, faz com que esteja tão ameaçada de desaparecer da nossa memória colectiva como estão as muralhas das nossas fortificações que vão caindo sem que se recorra aos meios necessários para as salvar.

Sendo Campo Maior a única terra onde ainda há o hábito de cantar e bailar as saias, havendo tantos milhares de campomaiorenses a viver longe de Campo Maior, porque não se organiza um verdadeiro Festival de saias? Não um espectáculo de palco como se tem feito, mas uma autêntica animação das ruas e das praças como devem ser “as saias”. Um evento carregado de originalidade e interesse que sirva de pretexto para que os nossos emigrantes se sintam motivados e compensados ao visitarem a sua terra. Tenho a certeza de que muitos deles teriam tanto orgulho em mostrar esta manifestação cultural aos seus descendentes e aos visitantes como têm de ver e mostrar as Festas do Povo de Campo Maior. Só que o Festival das “saias” teria a vantagem de poder ser anual. E, acreditem: podia ser feito com muito menos despesa e muito maior retorno do que se obtém com o que se vem fazendo nos últimos anos.

Já agora permitam que coloque ainda uma outra questão: havendo já em Campo Maior serviços destinados ao apoio ao turismo, porque não desenvolvê-los de modo a dotá-los da capacidade de planificarem, programarem, promoverem e acompanharem visitas guiadas aos locais com interesse para a compreensão do passado de Campo Maior?



publicado por Francisco Galego às 16:29
Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

 

Noutros tempos, a maioria dos campomaiorenses nasciam viviam e morriam em Campo Maior. Muitos nem de cá chegavam a sair ao longo de toda a sua vida. Era difícil viajar, tão difícil que só uma minoria de privilegiados o poderia fazer.
Por outro lado, Campo Maior constituía uma comunidade essencialmente rural: uma população na sua maioria muito pobre, vivendo, na quase totalidade, do trabalho nos campos e dos rendimentos que a terra propiciava; uma comunidade rural que tinha hábitos e comportamentos muito ligados ao seu estilo de vida. Era próprio das comunidades rurais a pouca tendência para as inovações. As mudanças aconteciam a um ritmo tão lento que os hábitos passavam de geração para geração.
A partir de meados do século passado, com o fim da Segunda Grande Guerra, as coisas começaram a mudar a um ritmo tão alucinante que quase não temos tempo para assimilar as mudanças  o que se vão verificando ao longo das nossas vidas.
Com estas mudanças, todas as tradições e actos culturais que definiam e caracterizavam as povoações tendem a ser esquecidas à medida que se instala uma uniformizada e massificada forma de comportamento que apaga todas as diferenças e descaracteriza completamente os grupos humanos. Isso até se verifica nessas esquisitas manifestações que têm por hábito classificar como festivais de folclore.
Devemos deixar que esta forte tendência arrase e lance no esquecimento todos os vestígios da cultura dos nossos antepassados? Nada podemos e nada devemos fazer para preservar um património cultural para que os nossos descendentes que vivem lá por fora possam dele tomar conhecimento?


publicado por Francisco Galego às 16:06
Quarta-feira, 05 de Agosto de 2009

 

Com a aproximação do Verão, estâo de novo a regressar, de visita à sua terra, muitos dos campomaiorenses que fazem a sua vida em terras mais ou menos distantes. Trá-los a saudade e a necessidade de reverem os seus e os locais onde cresceram e viveram parte da sua existência.
Noutras terras, a recepção aos emigrantes é programada e organizada com a preocupação de lhes propiciar o melhor acolhimento e estadia possível. Aqui, em Campo Maior, não se tem verificado tal preocupação. Sendo a nossa terra pobre de eventos de carácter tradicional, torna-se fácil perceber que não seja muito aliciante, para os que cá vêm, fazer por aqui grandes estadias. A não ser nos anos em que se realizam as Festas do Povo.
Claro que um evento da dimensão que estas festas atingiram não pode ser realizado com grande frequência. Mas temos de compreender que com um clima tão pouco convidativo como o das grandes calmarias de Julho e Agosto e com uma total ausência de momentos de animação, se torne muito improvável que os visitantes se disponham a permanecer nesta terra por muito tempo.
Noutros tempos, Campo Maior, como quase todas as outras terras, tinha um calendário organizado de momentos festivos: a Páscoa, a romaria à Senhora de Bótoa em Badajoz, o São João, a Feira de Santa Maria em Agosto, a romaria do Senhor Jesus da Piedade pelo São Mateus em Elvas. À excepção da Páscoa que se renovou com a grande romaria da Senhora da Enxara, todas as outras festividades têm definhado, tendo-se tornado algumas delas  quase insignificantes, enquanto outras  outras praticamente desapareceram.
Claro que isto tem uma explicação: É que, não sendo estas mudanças culpa de ninguém, tiveram como causa as profundas alterações que se deram nas condições básicas da vida.


publicado por Francisco Galego às 12:45
Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

 Vivemos hoje numa sociedade de informação. Tudo que aconteça em qualquer parte que seja do mundo, chega rapidamente ao nosso conhecimento. E o volume desses factos que diariamente até nós chegam é de tal ordem que nos assusta. Sabemos o que se está a passar numa cidade tão longínqua como São Paulo no Brasil. Se a  rádio, a televisão e os jornais nos dão a impressão de uma grande metrópole, com a dimensão de uma das maiores cidades do Brasil e do mundo, estar a ser desestabilizada por bandos organizados de marginais, naturalmente que isto nos assusta e somos naturalmente levados a pensar: O mundo está perdido! No meu tempo não era assim!

Provavelmente era ainda muito pior. Só que os nossos avós viviam num mundo em que a informação era muito escassa. Mal sabiam o que se passava nas vizinhas cidades de Portalegre ou de Elvas, quanto mais do que se passava no Brasil. Eles não ouviam rádio, coisa apenas acessível aos muito endinheirados. A televisão não existia. E, a maior parte deles, não poderiam ler os jornais porque … nem sequer sabiam ler.

Os jovens de hoje já nasceram num mundo diferente. A informação faz parte integrante do seu modo de viver. E se há jovens que se perdem nos descaminhos da vida, isso também acontecia nos tempos antigos, com a agravante de que os nossos  avós não tiveram tantas oportunidades como aquelas que estão a ser dadas aos nossos filhos e netos.

A grande maioria dos que nasceram em Campo Maior no tempo dos nossos avós tiveram apenas como oportunidade de vida, sem alternativa nem escolha, arrastarem-se numa vida de esforçado trabalho nos campos, com muito pouco conforto e com a presença constante de carências que hoje nem conseguimos imaginar.

Por mais que os problemas nos atormentem, mantenhamos a confiança num futuro melhor e na capacidade das novas gerações que irão construir esse futuro.

 

Post scriptum: Foi hoje a enterrar o Dr. Santos, um dos mais notáveis "João Semana" que me foi dado conhecer. Estava disponível 24 horas por dia, fosse para quem fosse, independentemente dos meios de fortuna ou da importância social e política dos que o solicitavam. Aos pobres nada levava. É sabido por muitos que, em muitos casos, até tirava do seu magro pecúlio para ajudar os que muito necessitavam.

Chegou a Campo Maior tinha eu nascido há pouco tempo e, até aos meus 30 anos, ele foi o médico que eu gostava de ouvir em todas as questões de saúde que se me deparavam. O meu filho mais velho ainda foi assistido por ele, nas suas breves permanências em Campo Maior.

Este algarvio de nascimento, tornou-se mais campomaiorense de coração que boa parte dos campomaiorenses. Não sei outra maneira mais directa de o homenagear que dizer dele esta frase simples: "Chegou a Campo Maior há mais de 60 anos, muito pobre, e partiu hoje a enterrar no cemitério da terra da sua adopção, tão pobre como chegou".

Não era apenas disponível, era também de um elevado nível de competência. Aos seus conhecimentos de clínico e à sua larga experiência, associava uma especial intuição para perceber as razões psicológicas que, em muitos casos, estavam por detrás dos males físicos de que os pacientes se queixavam.

Gostava muito de o ouvir dissertar sobre a sua vida de médico, o entranhado amor aos pais e a outra paixão da sua vida que eram os touros e as touradas, único vício que o levava a percorrer quilómetros em procura de uma boa faena.

Que repouse em paz, este grande (de corpo e de alma) homem e médico que, embora da idade de meu pai, eu sempre entendi como um grande amigo, capaz de mostrar ternura ralhando, quando entendia que eu não me portava a preceito, como ele desejava.

 

Requiescat in pace, grande amigo deste povo.

 



publicado por Francisco Galego às 20:09
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

 

Haverá efectivamente fortes razões para as críticas que se levantam ao processo de avaliação dos juízes? Em primeiro lugar é notório que os resultados agora publicados apresentam uma distribuição anormal centrada nas altas classificações, isto se se atender às constantes reclamações que se levantam quanto à acção do sistema judicial. Pois é difícil de aceitar que, funcionado este com tantas e tão graves deficiências, possam os juízes alcançar patamares tão elevados de classificação na avaliação profissional que lhes foi feita.
Aliás, a comprovar que as coisas não estão bem neste domínio, temos as palavras proferidas por Alberto Costa, ministro da Justiça, em Março de 2008, ao garantir que a avaliação dos juízes iria tornar-se uma realidade. Terá sido cumprida esta promessa?
Desde logo, a aceitação pacífica destes resultados pelos avaliados levanta alguma desconfiança. Estamos habituados a que, sempre que se toca na avaliação dos grupos profissionais do serviço público e se procura conferi-lhe alguma eficácia, se levantem logo fortes contestações a essas tentativas de mudança. Veja-se ao caso dos professores.
De facto, algumas associações profissionais e organizações sindicais têm dificuldade em aceitar novas propostas de avaliação, desencadeando frequentemente manifestações de contestação de carácter acentuadamente corporativo. Ora, todo o exercício profissional com fortes incidências e consequências de carácter social deve prestar contas sobre a qualidade dos serviços que está obrigado a prestar. E isso deve ser feito com transparência e rigor sob pena de se estarem a criar situações de tal arbitrariedade que todos os desmandos e abusos possam ser cometidos sem que ninguém seja responsabilizado por aquilo que faz ou pelos desmandos que comete.
Nesta perspectiva, parece perfeitamente natural que apareçam reacções como a dos advogados e procuradores a criticar a avaliação dos juízes. Ou não fossem eles um dos primeiros sectores da população a sentir as consequências da acção dos magistrados quando estes presidem ao julgamento dos processos apresentados nos tribunais.
Apontam estes profissionais como factores impeditivos de uma verdadeira avaliação dos juízes, entre outros factores os seguintes: a ausência de código deontológico que evite desvios e proteja os próprios juízes dos subjectivismos das acções de inspecção e avaliação da sua actividade; o não existir uma segunda instância a que se possa recorrer em caso de não concordância com a classificação; a necessidade de maior transparência para que não subsista a ideia de que os juízes avaliadores são demasiado benevolentes para com os juízes avaliados, acontecendo que certos magistrados, ainda que muito irresponsáveis na maneira como desenvolvem a sua actividade, são praticamente intocáveis.
Por tudo isto fica a ideia de que há muitas coisas que não vão bem no que respeita ao funcionamento da Justiça em Portugal.
 


publicado por Francisco Galego às 16:23
Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

 

Numa entrevista à televisão o primeiro-ministro anunciou o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos
            Há países desenvolvidos que têm, expressos na lei como obrigatórios, apenas 9 anos de escolaridade: a Itália, Áustria e a Suíça, por exemplo. Esta situação só aparentemente poderá surpreender, pois que, se as leis se destinam a determinar o que, por interesse ou necessidade pública, deve ser feito ou reprimido, para quê cuidar de regulamentar o que, por si mesmo, funciona na perfeição? Se um país, devido ao elevado desenvolvimento económico e cultural da sua população, já pratica uma escolaridade suficientemente prolongada, que necessidade há de se fazerem leis a imporem o seu prolongamento?
            Mais difícil de entender será o caso de países pouco desenvolvidos que têm, nas leis expressa uma obrigatoriedade de 11 ou 12 anos de escolaridade, sendo visível o seu baixo nível de desenvolvimento, como a Moldávia, a Arménia, os Barbados, as Bahamas, o Togo, o Butão, a Guatemala e alguns mais. O que de facto acontece é que a  lei expressa a necessidade de mudança, mas a sua concretização é algo muito diferente.
            Em Portugal, neste campo, temos enfermado de um certo voluntarismo reformista que nos tem tornado rápidos a legislar mas muito lentos a executar. Decretámos muito cedo a escolaridade obrigatória: logo na 1ª metade do século XIX. Mas arrastámos elevados níveis de absentismo, de abandono e de insucesso escolar quase até à actualidade, estando ainda estes problemas por resolver completamente. De facto, só tornámos a escolaridade efectivamente obrigatória, após o 25 de Abril.
            Nos finais da década de 80 do século XX, foi instituída uma escolaridade obrigatória de nove anos que foi muito deficientemente executada, com níveis preocupantes de insucesso e de abandono escolar. Porquê? Pela situação deficitária da educação ao longo de várias décadas. O país sofreu de falta de recursos materiais (escolas e equipamentos), de recursos técnicos (didácticos e de apoio à aprendizagem) e de recursos humanos (professores, especialistas e pessoal de apoio à educação), sendo que, muitos destes, ou não tinham formação adequada, ou eram pouco ou mal preparados. Só ultimamente temos assistido a esforços empenhados para suprir essas deficiências.
            A situação foi-se arrastando porque também não havia grande pressão da população para que se efectuassem melhorias na educação devido à fragilidade económica e às carências culturais muito acentuadas das famílias. Por outro lado, a falta de sequência dos projectos políticos sobre a educação tem originado que, em vez de um processo contínuo e coerente, se tem caminhado por saltos, tendo uns como objectivo o desenvolvimento e outros a regressão. Referindo tempos mais recuados, veja-se a diferença entre as reformas educativas preconizadas pelo liberalismo no século XIX e pela 1ª República nas duas primeiras décadas do século XX, quando se chegou a planear o alargamento da escolaridade obrigatória para seis anos, com a radical redução, no tempo do Estado Novo, para apenas três anos de escolaridade obrigatória e, mesmo essa com total desleixo em relação ao insucesso e o abandono precoce da escola.
            Outros países conseguiram a plena alfabetização na viragem do século XIX para o século XX. Nós, só nos aproximámos dessa meta na segunda metade do século XX. Estarão aí algumas das mais importantes causas do nosso tardio desenvolvimento em quase todos os domínios e dos atrasos estruturais que, ainda hoje, afectam a sociedade portuguesa.


publicado por Francisco Galego às 09:00
Terça-feira, 12 de Maio de 2009

 

 A crise veio dar relevo de escândalo aos salários dos altos quadros, gestores e administradores das grandes empresas
               Cada administrador executivo de dez das maiores empresas portuguesas cotadas na Bolsa, terá recebido no ano de 2008, um salário médio de cerca de oitocentos e onze mil euros. Ou seja, 136 vezes mais do que o que aufere num ano uma pessoa com o salário mínimo nacional. Um português com salário mensal de mil euros precisaria de duas vidas para conseguir um rendimento igual ao que cada uma desses gestores recebe num ano.
O sistema chegou a tal situação que hoje os que mais lucram e que mais poderes têm sobre as empresas não são os seus proprietários e accionistas, mas aqueles que eles contrataram para as dirigirem. Porque são esses administradores e gestores que tomam todas as decisões, incluindo as dos salários que a si próprios se atribuem. São detentores de tal poder que, na maior parte dos casos, se comportam como se estivessem acima de quaisquer regras ou princípios de ética.
O caso da AIG, que recebeu 173 milhões de dólares do governo dos Estados Unidos para fazer face à situação de insolvência em que se encontrava devido à crise, é paradigmático deste tipo de comportamento: tendo recebido, em consequência das medidas de apoio ao relançamento da economia, esses 173 milhões, os responsáveis pela gestão apressaram-se a atribuir a si próprios, benefícios salariais que absorveram 165 milhões, ou seja, a maior parte, sem qualquer preocupação de viabilização da companhia seguradora. Isto, se tivesse sido permitido pelo governo, consistiria na incrível situação de ser o dinheiro dos contribuintes que iria recompensar os que eram os principais responsáveis pela má gestão e pelos maus resultados obtidos. Bela maneira de premiar a incompetência.
Como evitar práticas tão abusivas quanto ofensivas do bom senso e lesivas de qualquer conceito de justiça social? Através de medidas que cortem estas insaciáveis ambições, como fez o presidente Obama que determinou impostos a cobrar sobre esses benefícios salariais os quais fizeram regressar uma grande parte dessa verba aos cofres do Estado.
Por cá tem havido uma certa contenção, havendo mesmo grandes empresas que têm anunciado reduções ou congelamentos dos vencimentos dos seus altos quadros de gestão e administração. Mesmo assim, existem situações que não deixam de causar escândalo, dada a conjuntura de crise que se vive e a abissal diferença entre esses vencimentos e a situação dramática em que vive uma grande parte da população. O próprio Presidente da República chamou a atenção para o problema.
 


publicado por Francisco Galego às 18:26
Terça-feira, 14 de Abril de 2009

 

As grandes obras são intemporais. Elas antecipam os factos, as situações, os sentimentos, fazendo com que a sua leitura se torne pertinente, útil e esclarecedora, mesmo que já vários séculos tenham passado sobre o tempo em que foram produzidas. A riqueza do seu conteúdo ajuda-nos a compreender a realidade do nosso viver. A certeza das suas análises, conduz o nosso pensamento para uma compreensão iluminada das questões. A frase justa, exacta, precisa, torna simples expressar aquilo que de facto pretendemos dizer ou escrever:
 
Uma das coisas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os governantes, é dos pecados do tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se havia de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque logo o que se havia de fazer já.
Tão delicadas quanto isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento.
O governante que não fez grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado; a fazenda (os bens) pode restituir-se, a fama, ainda que mal, também se restitui. Mas o tempo não tem restituição alguma.
(Padre António Vieira, século XVII)
 
Partindo deste texto constatem quanto prejudicam as populações os governantes que adiam, protelam, esquecem e deixam de fazer o que estava prometido ao povo, porque apenas agem segundo aquilo que é o seu próprio interesse.


publicado por Francisco Galego às 17:34
Sábado, 04 de Abril de 2009

 

A qualidade da gestão que se pratica em qualquer órgão político que resulte de eleição dita democrática, devia avaliar-se pela confrontação entre o conteúdo dos programas com que os que ocupam esses órgãos se apresentaram ao eleitorado e o trabalho efectivamente realizado por essa gestão.
Por um lado, para que isso se tornasse prática corrente, seria necessário que o mesmo eleitorado entendesse que esses programas não deveriam ser considerados letra morta, um conjunto de bonitas promessas que nunca houve qualquer intenção de cumprir, até porque ninguém as vai ler, pois são apenas um enfeite formal para cumprir a lei, sem que tenha havido um compromisso sério de que viria a ser posto em prática.
Por outro lado, se tal não acontece, a maior culpa cabe ao estado de permissividade a que chegámos, pois, após 35 anos de regime dito democrático, ninguém cuida de verificar se existe coerência entre o que se proclamou como programa e o que foi realizado. Aqueles a quem cabe exercer o poder de fiscalizar e reprimir o abuso de práticas ilegítimas, deviam agir para evitarem a lassitude de comportamentos que se instalou no exercício da administração pública, penalizando a falta aos compromissos assumidos pelos que se fazem eleger para os cargos políticos, responsabilizando-os pelos danos que pudessem ter provocado com a sua negligência.
Nós, os cidadãos que procuramos viver em respeito pela legalidade democrática temos o direito de exigir mais coerência, mais empenho e maior clareza da parte dos que devem zelar pelo bem das comunidades e do Estado, denunciando os que cuidam apenas de agir segundo o seu próprio interesse e o das cortes que sempre rodeiam aqueles que se tornam poderosos.
Quem entende que a democracia deve ser o exercício não controlado do poder político, quem entende que o povo só serve para legitimar a sua ascensão ou conservação no poder, não ama, não defende, nem garante a persistência e a continuidade da democracia.
Quase todas as democracias que falharam na Europa e no Mundo, foram vítimas da permissividade excessiva e do fraco controlo e fiscalização sobre os detentores dos cargos políticos. Não há democracia no meio da impunidade que permite que ninguém tenha de prestar contas perante ninguém. Poderá existir um simulacro formal a que alguns chamam democracia, mas a democracia real só por milagre pode sobreviver a certas confusões que estão mais a caminho de uma ditadura exercida a vários níveis por certas minorias que se instalam, sobretudo no poder local. Neste a participação democrática está a tornar-se cada vez mais escassa, pois há comunidades regidas por sistemas de influências que permitem que o poder seja exercido em nome do povo mas não em benefício do povo.
Estas situações que, do ponto de vista formal, se apresentam como democráticas, quase nada têm a ver com a democracia. São situações que se vão degradando pelo exercício incontrolado do poder e, mais tarde ou mais cedo, acabam por dar lugar àquilo que apregoaram não ser, mas que efectivamente sempre foram: Oligarquias, ou seja, situações em que o poder de decisão está nas mãos de uma minoria e é exercido em favor dessa minoria.
Façam um esforço e apelem aos vossos conhecimentos sobre o passado dos povos: poderão constatar que as ditaduras mais duradouras e que com maior despotismo exerceram o poder, se instalaram devido aos vícios e desmazelos das democracias. O mais grave é que isso aconteceu em situações de profundas crises económicas e sociais, com alguma semelhança com a que agora vivemos. Assim aconteceu na Itália, em Portugal, na Espanha e na Alemanha na primeira metade do século vinte.
O mais triste é verificar que os que menos cuidaram da liberdade e do poder de participação de que dispunham, foram os que mais violentamente acabaram por sentir os efeitos perversos dessas ditaduras.
Não há democracia sem participação e nós estamos a assistir a uma preocupante distanciação dos portugueses em relação aos seus direitos e deveres políticos. Predomina uma acomodação, um deixa andar, um desinteresse que não prenuncia grandes coisas para o nosso futuro como cidadãos, como elementos de uma nação livre e de uma comunidade onde se possa viver em liberdade.
A contestação desta situação não admite dúvidas: Estamos numa fase de preocupante declínio democrático, pois estamos a desistir do nosso direito/dever de participação nas decisões que a todos nós dizem respeito. Cada vez desistimos mais dos autênticos valores da democracia, sem entendermos que estamos a desistir da nossa dignidade de homens livres.
Entrámos num ano que vai ser fértil em actos eleitorais. Estejam atentos a certos comportamentos que se vão tornando habituais. Vejam como os partidos aparecem a apoiar candidatos ao poder local sem cuidarem de averiguar do seu comportamento à frente da gestão das autarquias. Apenas vão cuidar de que saber se eles garantem o ganho para assim engrossarem os resultados eleitorais do partido que os apoia. Ora, em muitos casos, este critério de escolha é perfeitamente imoral e nada tem a ver com um verdadeiro comportamento democrático.
Quem, como eu, andar por aí a visitar aldeias, vilas e cidades do interior poderá constatar como as sacrossantas eleições conseguem realizar o “milagre da multiplicação das obras”. Há obras em curso para todos os gostos. Pela maneira como estão a ser levadas a cabo percebe-se o seu verdadeiro objectivo. A desgraça está em que quem estiver bem atento perceberá claramente que essas obras são feitas sacrificando programas, delapidando orçamentos, violando planos, atentando contra princípios e valores e atropelando processos legais que deviam ser respeitados. O pior de tudo é constatarmos que essas obras se destinam mais a manipular as consciências dos eleitores do que a resolver os verdadeiros problemas das populações.
Na Constituição da República Portuguesa está escrito que “todos os titulares de cargos políticos são politicamente responsáveis pelas acções e omissões que pratiquem no exercício das suas funções.” Porque será que são tão raros os políticos que foram obrigados a prestar contas pelos actos que praticaram e, sobretudo, pelos que deixaram por praticar?


publicado por Francisco Galego às 20:01
Quarta-feira, 04 de Março de 2009

 

 

 

Todas as previsões apontam para que os indicadores referidos ao desemprego em Portugal não vão parar de crescer ao longo do corrente ano de 2009.
            Os organismos internacionais como a OCDE e a, a nível interno, o Governo e o Banco de Portugal, apontam para números assustadores pois entre os que perderão os seus postos de trabalho e os jovens que não conseguirão entrar no mundo do trabalho, ficarão inactivos, improdutivos e dependentes da assistência social, cerca de mais 100 mil portugueses. E, neste número não estarão todos os portugueses a viver em condições muito difíceis, porque este número inclui apenas os que são oficialmente contabilizados.
            Por outro lado, é preciso ter em consideração que o desemprego não afecta do mesmo modo todos os indivíduos que por ele são atingidos. Pois que, mesmo sem falar no caso dos que, bem almofadados por bens de fortuna, não sentirão os efeitos da sua inactividade, entre os elementos da classe média podemos encontrar grandes diferenças.
            Os jovens incluídos em agregados familiares bem estruturados e dispondo de uma base de rendimentos que, não sendo muito elevada, é pelo menos bastante estável, contarão com a solidariedade dos seus e sentirão de forma mais atenuada os efeitos da crise que os atinge. Mesmo entre jovens casais essa solidariedade familiar funciona em muitos casos, quer na situação extrema de desemprego, quer mesmo para os que, embora empregados, auferem salários reduzidos que os condenam a níveis de vida muito baixos. Aliás, esta é uma das razões porque esta crise afecta muitos mais gente do que aquela que é afectada directamente pelo flagelo do desemprego.
            Há danos colaterais que as estatísticas não analisam mas que têm acentuados reflexos sociais que afectam profundamente a economia, quer a nível do consumo, quer a nível das poupanças e dos investimentos. Na maior parte dos casos, um lugar de trabalho que se perde, que não se consegue, ou que é mal remunerado, afecta muito mais gente que o próprio trabalhador. Afecta o conjunto dos que lhe estão associados por laços de família. Daí o efeito que, globalmente, esta crise está a provocar na nossa sociedade.
            Muito maior do que o “exército dos sem trabalho” é a multidão dos que serão afectados indirectamente pelos efeitos colaterais do desemprego massivo que está a cair sobre a sociedade portuguesa. Daí a preocupação que muitos responsáveis pela governação em muitos países, manifestam com a necessidade de desenvolverem planos de investimentos público que contenham a tendência incontrolada que o sector privado revela para contrair as oportunidades de trabalho.
             
            Mas, se deixarmos de considerar o problema a nível das chamadas classes médias para focarmos a nossa atenção a nível dos sectores mais carenciados da população, verificaremos que aí o efeito da crise é ainda bem mais catastrófico. A esse nível encontramos gente de tão baixos níveis de instrução e formação profissional que, uma vez caídos no desemprego, caem simultaneamente numa situação de exclusão social, condenados a uma marginalização que os arrasta para comportamentos de violência social e actos de criminalidade que provocam a insegurança geral na sociedade.
            Outros assumem atitudes e comportamentos diferentes como os chamados “inactivos disponíveis” que, uma vez desempregados, persistem em continuar a procurar trabalho, que se inscrevem nos centros de emprego para adquirirem o direito aos subsídios.
            Há também os que, por falta de capacidade para assumirem outras funções ou de expectativa de novas oportunidades, assumem uma atitude de total falta de esperança. Completamente desencorajados, deixam de procurar soluções dentro de um quadro social normal. Não procuram novos postos de trabalho e, se inquiridos, respondem que não sabem como procurar trabalho ou que acham que nem vale a pena procurar. 
            Alguns, os chamados “biscateiros” dedicam-se a uma espécie de subemprego que consiste no desempenho quase informal de pequenas tarefas que lhes garante rendimentos mínimos de subsistência que os mantêm nas margens da mendicidade.
            Toda esta gente, que geralmente não consta das estatísticas oficiais, é parte integrante da sociedade e as suas condições de vida acabam por afectar, de vários modos, a estabilidade e a segurança da sociedade global.
            Os países que descuidam este tipo de problemas acabam, mais tarde ou mais cedo, por pagar os efeitos que a exclusão e marginalização dos mais desprotegidos acabam por ter no bem-estar e na segurança dos que pertencem aos grupos mais favorecidos da sociedade.
            Não conceber a sociedade como um todo em que as diversas partes que a integram estão intimamente ligadas e correlacionadas, pode levar a erros de análise política de consequências muito trágicas.
 


publicado por Francisco Galego às 11:11
Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

 

 
As más notícias não param de chegar: mais despedimentos; maior dificuldade de obter créditos; reduções drásticas nos consumos; as economias em recessão; os governos sem soluções e incapazes de desenvolver estratégias porque as situações agravam-se tão rapidamente que nem é possível fazer previsões a médio e a longo prazo.
Os estudiosos destas conjunturas de crise costumam considerar que os grandes conflitos sociais ocorrem quando se cruzam duas situações que se desenvolvem em convergência: Os grupos dominantes perdem o controlo político das sociedades e deixam de poder governar; As populações que já perderam a confiança nos que governam, deixam de suportar as condições de vida que lhes impuseram e recusam-se a aceitar a continuação do sistema tal como ele estava constituído, explodindo em movimentos de contestação que exigem a criação de novas condições.
Quando as coisas chegam a este ponto pode-se chegar a uma conjuntura de tal desencanto e desespero que, ao menor pretexto, pode desencadear-se um processo de revolta descontrolada. Assim sendo, os governos têm de encontrar rapidamente soluções e, no vórtice de uma crise, elas não são fáceis de encontrar.
Na verdade, não devemos cair no exagero alarmista de que estamos à beira do colapso total. Mas o momento que estamos a viver dá motivo para sérias preocupações e urge encontrar soluções para o progressivo agravamento da situação. Assistimos ao empobrecimento de grande parte das famílias. A voz pública reclama que os que provocaram a situação continuam instalados no conforto das suas enormes fortunas, por vezes acumuladas por processos fraudulentos. Estes são claros indícios de quebra de confiança do contrato que mantém a estrutura da sociedade.
Quando as pessoas se sentem encurraladas, quando pressentem que já nada têm a perder e se desvanece a esperança de solução adequada, aí podem dar-se as rupturas que fazem colapsar os esteios das sociedades organizadas.
 
Para além destes grandes vectores de estruturação económica da sociedade, há também uma progressiva degradação que vai minando a coesão social.
Os banqueiros que dantes eram tidos como garantes da honestidade, sigilo e segurança que deve regular as actividades financeiras e a gestão dos bens e dinheiros alheios, passaram a ser vistos como manipuladores desonestos, apropriando-se indevidamente dum poder de decisão que não lhes foi concedido, para obterem ilicitamente lucros pessoais. Por ganância, correm riscos que colocam em perigo a estabilidade financeira dos que neles depositaram confiança. Especulam e desenvolvem esquemas enganosos para se locupletarem com lucros conseguidos com o máximo de rapidez e o mínimo de lisura.
Nos tribunais, destinados a aplicar as leis com justiça e equidade, a coisas descambam tantas vezes para processos de duvidosa isenção, que suscitam uma enorme e por vezes fundada desconfiança.
Ao nível das mais variadas acções profissionais, sobretudo das de maior incidência social, têm vindo a crescer os sinais de descontentamento, insatisfação e degradação dos serviços produzidos.
Multiplicaram-se os serviços de saúde, mas as relações entre os profissionais que neles actuam e os utentes não parecem ter melhorado na mesma progressão. Muitas vezes parece ter acontecido uma lamentável desumanização em que apenas a doença é considerada, esquecendo o que devia merecer a sua maior preocupação. Os médicos têm vindo a refugiar-se cada vez mais no tecnicismo das especializações, esquecendo tantas vezes o doente para cuidar apenas da parte da doença que fica no âmbito da sua especialização.
Os professores aferram-se de tal modo na defesa corporativa dos seus direitos que acabam por cair numa concepção tão funcionária do seu estatuto, que fica quase desvanecido o carácter eminentemente social da sua profissão.
Os jornalistas, em tempos idos arautos da verdade, campeões das liberdades, defensores de direitos e denunciantes de injustiças e duvidosas situações, enfronham-se de tal modo num escarafunchar de escândalos a que chamam investigação, que muitas vezes esquecem a sua função de noticiar e explicar os factos para se tornarem apenas emissores de simples opiniões pessoais.
Para além da situação financeira e da conjuntura económica e talvez como pano de fundo e provável causa, há uma crise mais profunda que consiste na galopante degradação moral em todos os sectores da nossa sociedade. Talvez esteja a chegar o tempo de voltarmos a fazer como, noutro tempo de crise profunda, fez Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América: Um New Deal. Ou seja, perdido este jogo, é tempo de baralhar as cartas, distribuí-las de novo para que um novo jogo possa começar.
  


publicado por Francisco Galego às 12:51
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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