Sábado, 14 de Novembro de 2009

Ainclusão de cinco mulheres neste governo. Só o governo de Durão Barroso com quatro ministras se lhe aproximou. Ou seja, é o governo que, à partida, tem maior número de mulheres: Dulce Pássaro, no Ambiente; Helena André, no Trabalho e Segurança Social; Ana Jorge, na Saúde; Isabel Alçada, na Educação; Gabriela Canavilhas, na Cultura.

Que poderemos esperar desta política no feminino a desenvolver pelo novo governo?

Partindo da habitual classificação dos elementos do governo entre “técnicos” e “políticos”, tenderíamos a colocar a actual ministra do Ambiente entre os primeiros, uma vez que esta, pela sua formação académica de engenheira química especializada em técnicas de tratamento de resíduos comuns e industriais, não tem um currículo relevante no desempenho de cargos políticos. Embora esta tenha desenvolvido quase toda a sua carreira decorreu no desempenho de cargos ligados á administração central, fê-lo em áreas como a gestão dos recursos hídricos e do tratamento de resíduos. Agora, como responsável pela política ambiental, terá, entre outras questões próprias do seu ministério, de garantir o cumprimento dos objectivos traçados pela União Europeia no que respeita à reciclagem dos resíduos, assegurar o cumprimento dos limites impostos às emissões de gases com efeito de estufa e desenvolver esforços para colmatar a actual falta de recursos para financiar uma defesa eficaz das áreas protegidas.

Quanto à ministra do Trabalho e Segurança Social, Helena André, a sua formação académica em Línguas e Literaturas Modernas parecia apontar para uma carreira diferente da acção como sindicalista da UGT que a levou ao cargo que até agora desempenhava em Bruxelas, de secretária-geral adjunta da Confederação Europeia de Sindicatos. Militante socialista, muito próxima de Vieira da Silva, seu antecessor neste ministério, é considerada muito competente, dialogante e pragmática a negociar, mas firme e rigorosa a decidir. A mais hercúlea das suas tarefas vai ser a de travar o crescimento galopante do desemprego, evitar a deslocalização das empresas estabelecidas no nosso território, assegurar os direitos dos trabalhadores e procurar desenvolver uma requalificação dos recursos humanos, dotando-os da capacidade de se adaptarem à mudança e à inovação.

Ana Jorge que transita do anterior governo como ministra da Saúde não constitui novidade, nem há expectativas sobre a sua actuação que se traduzirá na continuidade do trabalho governativo que tem vindo a desenvolver.

Isabel Alçada, educadora e escritora de reconhecido sucesso na literatura juvenil é, de todas as ministras, a que parece ter de enfrentar uma herança mais pesada pois que assume uma área em que o conflito tinha atingido um ponto que parecia sem retorno no que respeita à gestão política da Educação. Atenuar o conflito com os professores, resultante da revisão do Estatuto da Carreira Docente e do Sistema de Avaliação dos Professores, vai exigir à nova ministra uma grande capacidade de diálogo e de moderação. À partida parece ter o perfil indicado para a necessária pacificação no sector da educação.

O Ministério da Cultura foi, no anterior governo, dotado de tão escassos recursos que, praticamente, o anterior ministro se viu condenado a uma quase inacção: era difícil fazer mais, dispondo de tão pouco. Como o próprio José Sócrates já se declarou incomodado e arrependido pela anterior situação, espera-se que agora, à actual ministra, mulher da cultura como pianista e gestora cultural de méritos reconhecidos, sejam dadas condições mais favoráveis ao desenvolvimento de uma verdadeira política cultural.


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publicado por Francisco Galego às 09:00
Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Não surpreendeu a divergência de objectivos, no que respeita aos discursos do Presidente da República e do Primeiro-ministro, na tomada de posse do novo governo. Sabida a divergência que mantêm em relação a algumas questões importantes, não surpreende que, enquanto Cavaco Silva sublinhou como aspectos prioritários o desemprego, o endividamento externo e o desequilíbrio das contas públicas, o que aponta para a necessidade de investimentos que propiciem a competitividade e a produtividade das empresas e para um prudente recuo nas grandes obras públicas como o TGV, Sócrates tenha sublinhado a necessidade de combate à crise, promovendo como primeira prioridade o crescimento da economia e o combate ao desemprego. O Primeiro-ministro reafirmou também a necessidade de continuar a apostar nas energias renováveis e na extensão da escolaridade até ao 12º ano, como factores estruturantes da modernização da economia e condição de uma maior justiça social.

Podemos também notar sem surpresa que, os seus discursos, coincidiram na reafirmação clara da necessidade de um relacionamento baseado numa cooperação institucional e estratégica entre a Presidência e o Governo.

Entre as principais surpresas do actual governo, podemos talvez apontar a integração de várias personalidades que eram pouco conhecidas e nada esperadas pela generalidade das pessoas, bem como o facto de sete dos seus dezasseis ministros não serem filiados no Partido Socialista. Isto confere-lhe um carácter bastante diversificado, numa conjuntura que apontaria para a necessidade de constituição de um governo politicamente mais homogéneo. Mas, por outro lado, revela a preocupação que terá havido com a necessidade de garantir a competência técnica e a capacidade de decisão de ministros que têm de enfrentar situações que exigem soluções urgentes e acertadas em condições de alguma instabilidade.


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publicado por Francisco Galego às 17:38
Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

 

José Sócrates, agora indigitado como primeiro-ministro, vai ter de formar governo em condições muito diferentes das que tinha no começo da anterior legislatura. A situação actual é bastante menos sólida do que aquela em que se encontrava em 2005 pois já não dispõe de maioria absoluta e saiu da eleição de 27 de Setembro passado com menos de cerca de meio milhão de votos, o que determinou que o seu partido passasse a dispor no parlamento de menos 25 deputados.
Há quatro anos e meio, Sócrates saía duma eleição coroado pela auréola dos grandes vencedores. Agora está desgastado por uma crise que colocou tremendos entraves ao desenvolvimento de projectos, obrigou a acudir a urgentes necessidades, a resolver grandes problemas sociais e fez desandar a economia para índices bastantes gravosos.
Sendo agora pouco provável que o governo se possa fundar numa coligação, terá de ser um governo minoritário. À partida, trata-se de uma situação que exigirá uma constante procura de equilíbrios. Mas não há razão para se concluir que terá de ser um governo que coloque o país à beira da ingovernabilidade.
Há experiências anteriores que provam que, pelo contrário, um governo minoritário pode não ser um governo fraco. Veja-se por exemplo o primeiro governo que teve como primeiro-ministro Cavaco Silva. Este foi constituído com base numa situação ainda menos consistente do que aquela de que, neste momento, pode dispor José Sócrates, uma vez que, enquanto este obteve 36,5 % dos votos e aquele tinha apenas obtido menos de 30% dos sufrágios. Repare-se que muitos consideram que o governo então constituído pelo actual presidente da República, foi um dos bons governos que Portugal teve depois do 25 de Abril.
Poderemos ver a actual situação pela seguinte perspectiva: se é verdade que é agora mais frágil a base de sustentação do governo, também não é muito sólida a situação dos grupos parlamentares constituídos pelos partidos da oposição. Repare-se que, tanto à esquerda como à direita, não existem condições para se constituírem alianças que levem à queda do governo, pois não é muito credível que se coliguem todos para conseguirem esse objectivo. A esquerda (PS, BE, CDU) dispondo de 127 deputados, constitui uma maioria folgada de mais 11 votos do que os necessários. Assim sendo, dificilmente se concebe que CDU e BE se disponham a facilitar o acesso dos partidos da direita ao governo, sem sofrerem forte contestação pelas suas bases de apoio. Basta ver como funcionaram as alianças e apoios nas votações na Assembleia da República ao longo da anterior legislatura para constatarmos que muito dificilmente se chegará a tal situação.
Há que ver também que a actual conjuntura impõe aos partidos da oposição uma adaptação estratégica que poderá vir a favorecer a vida do próximo governo minoritário de Portugal. Como já não poderão adoptar a posição de estarem todos, ainda que não coligados, nem em consonância, em oposição frontal a um governo de maioria, como estavam na anterior legislatura, isto deixa a sua liberdade de acção bastante condicionada.
Tendo o governo de procurar apoios pontuais para fazer aprovar as suas medidas e iniciativas legislativas, cada um deles vai sentir-se obrigado a apoiar aquelas que são concordantes com os seus programas políticos, negociando o seu apoio com as necessárias adaptações. Se o não fizerem, arriscam-se à censura dos seus próprios eleitores, pois o governo poderá sempre acusá-los e constituir-se como vítima, demitindo-se para provocar novas eleições retirando daí vantagens eleitorais. Foi assim, grosso modo, que Cavaco Silva terá chegado à maioria absoluta.
Os que passam o tempo a afirmar que o governo poderá não cumprir integralmente o seu mandato, esquecem-se de acrescentar que existe uma forte probabilidade de isso acontecer porque o próprio partido do governo terá todo o interesse em antecipar novas eleições. Tudo depende do grau de apoio que suscitar a sua acção governativa. Ou seja, um governo minoritário está, no fundo, apenas limitado quanto à possibilidade de levar a efeito grandes reformas, pois elas suscitam sempre grandes resistências corporativas daqueles que, com elas, sentem ameaçados os seus privilégios.

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publicado por Francisco Galego às 09:00
Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

 

Quando eu leccionava História a turmas do 12º segundo ano, tinha de conduzir os alunos à análise das questões raciais no mundo com incidência especial no que se estava a passar, desde meados do século XX, nos Estados Unidos da América (USA). Relacionando certos factos e tendência, costumava dizer-lhes que me parecia evidente e inevitável que, dentro de poucos anos, um americano negro iria chegar à presidência. Eu dizia negro porque, partindo do princípio que as palavras têm um significado, este só pode variar se mudarmos a intencionalidade com que as utilizamos. Como eu nunca tive preconceitos racistas, negro designa apenas o tom da pele e nada mais do que isso. Tal termo nunca teve para mim e julgo que jamais terá qualquer intenção pejorativa. Não tenho portanto que cuidar de usar termos ditos “politicamente correctos”. Deixo-os para aqueles que, efectivamente, os usam mais com uma intenção de politiqueira conveniência, do que com uma preocupação de bem-intencionada correcção. Esses que usem termos como “afro-americano” e outros do mesmo jaez.
            O meu vaticínio, aliás fácil de antecipar para quem estudasse um pouco a evolução daquela sociedade nas últimas décadas, está concretizado: Um descendente de africanos conseguiu ser eleito presidente da nação considerada como a mais poderosa do mundo. A luta começou de modo mais aceso e decidido nos anos 50 do século passado, com a conquista dos direitos mais elementares como o de os negros poderem sentar-se nos mesmos lugares que os brancos nos transportes públicos, de frequentarem as mesmas escolas, as mesmas igrejas, de terem acesso aos mesmos espaços públicos e empregos, o direito de poderem votar e de serem candidatos aos mesmos cargos, enfim a tudo o que a constituição democrática americana, a mais antiga do mundo, teoricamente lhes concedia, mas que a realidade prática do dia-a-dia lhes negava.
            Essa luta atingiu agora um ponto culminante quando Obama foi eleito presidente para assumir a mais alta magistratura do país que é o seu, de pleno direito, que é a sua pátria, a sua terra, o seu povo, a sua nação.
            É nestas alturas que os Estados Unidos da América justificam o título, que por direito lhes pertence, de serem o estado democrático mais antigo do mundo moderno e aquele onde os direitos cívicos estão há mais tempo consignados na sua lei fundamental que é a Constituição. Isto apesar de todos os desvios, atropelos e distorções porque tenham passado e continuem a passar, ao longo da sua história.
            Basta constatar o oceano de esperanças e de vontades que se reuniu à volta da sua candidatura para se ter uma ideia da importância que se consubstancia no acto da sua eleição. Alguns já lhe chamaram Presidente-Messias, significando apropriadamente esse mar de esperança e o atingir de uma meta que realiza a justa aspiração de várias gerações que se comprometeram até ao âmago na luta pelos seus direitos enquanto cidadãos.
            Pesado fardo assenta sobre os ombros do cidadão Barak Obama. Mas, independentemente do que possa vir a realizar e a conseguir, a América já atingiu uma vitória que nada nem ninguém lhe poderá, a partir de agora, negar: a existência de uma real igualdade de oportunidades para todos os seus cidadãos, apesar de todos os preconceitos, conflitos e contradições que atravessam a sociedade americana. Obama, um “afro-americano”, como gostam de dizer os “politicamente correctos”, conseguiu o direito de ocupar um dos cargos que conferem maior poder e influência em todo o planeta. E, isto constituiu, a nível simbólico, um marco de significativa importância histórica.
            Para além desta importância simbólica, a sua eleição representa muito mais do que isso para o actual momento que se vive nos Estados Unidos e no Mundo. Ele foi eleito na expectativa de uma mudança real que afaste os problemas que geraram uma das crises mais graves, mais generalizadas e mais preocupantes que o mundo teve de enfrentar nos últimos cinquenta anos.
            Os americanos esperam do governo, que ele irá constituir e liderar, uma mudança substantiva. A falência do capitalismo liberal pouco regulado foi confessadamente reconhecida pelos seus mais importantes mentores. Os estados necessitam de encontrar novos modelos e rápidas soluções sob pena de caminharem para o colapso generalizado das economias e das sociedades. Esta espécie de “capitalismo de casino”, como é muitas vezes designado o modelo que arrastou o mundo para esta crise, exige o regresso a soluções políticas muito atentas às necessidades das populações. Obama foi eleito por encarnar a esperança de um estilo alternativo de governação que, mais atento aos problemas da população americana, seja também mais empenhado nas questões que garantam a paz, a tranquilidade nas relações internacionais, tendo como objectivo a realização das condições que tornem o mundo melhor e mais humanizado.
            Será certamente peso demasiado para colocar sobre os ombros de um único homem, transformado, por força das circunstâncias, no profeta de tantas aspirações, de quem se espera a solução de tantos, tão grandes e tão desencontrados desejos. Mas, enquanto não vem a realidade nua e crua do possível, ele continuará a polarizar todas as esperanças. A sua campanha foi uma imensa caminhada para a esperança bem expressa no “Nós podemos!”, uma esperança que, com a sua vitória, se tornou na certeza do pretérito perfeito “Nós pudemos!”, raiz de uma nova etapa, começo de um futuro que, esperamos, comece a partir de agora.
 

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publicado por Francisco Galego às 11:34
Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

 

Sob o título “Mais défice, menos receitas e o mesmo rigor”, o editorial do DN de Sexta-feira 10 de Outubro, explica que “o exercício orçamental em 2009 vai ser muito exigente por parte das administrações públicas”. Em linhas gerais isto deve-se ao facto de os cálculos efectuados para o orçamento de 2009 terem tomado como base uma evolução da economia portuguesa que foi defraudada pelos efeitos da crise financeira que anularam completamente todas previsões efectuadas no início do corrente ano.
Na actual conjuntura, as receitas públicas serão fortemente reduzidas em consequência da quebra das receitas fiscais, haverá um crescimento do défice, uma desaceleração do crescimento económico, uma tendência para o aumento do desemprego, uma maior pressão sobre a Segurança Social.
Assim conclui o referido editorial: “ Tudo o mais são fantasias. As restrições na criação de riqueza impõem-se sempre e exigem do Estado, das regiões autónomas e das autarquias locais, bem como da Segurança Social, em 2009, ainda maior rigor na administração das verbas que os contribuintes lhes vão confiar. Ou seja, zero de bodos eleitoralistas”.
Que efeitos serão espectáveis a nível dos pequenos concelhos? Aí onde o tecido industrial é fraco ou quase inexistente, onde a produção agrícola se arrasta numa lenta e asfixiante agonia, qual será o futuro que espera as suas populações, já tão deprimidas e em processo tão acelerado de redução?
Há situações nas empresas locais de muitas destas povoações que tornam particularmente preocupantes os efeitos que a crise global lhes possa vir a causar. É sabido como alguns dos empresários, fixados nas pequenas terras do interior, tendem, por razões afectivas e filantrópicas, a deixar crescer os investimentos das suas empresas em capital humano, ou seja num alargado recrutamento de pessoal. Se alguns procuram simultaneamente promover também os investimentos no desenvolvimento tecnológico das suas unidades de produção, outros vão-se descuidando aproveitando a mão-de-obra abundante, ainda que pouca qualificada, que têm à sua disposição. Este processo tem ido disfarçando algumas das carências estruturais da economia portuguesa, mas tem sido em boa parte responsável pelo nosso atraso económico. Mas, se por efeito da crise houver uma forte retracção do consumo, como poderão as empresas manter os excessivos gastos que, apesar do nível baixo dos salários, investem em pessoal?
Vejamos também a situação das populações dos concelhos que têm o potencial de empregabilidade concentrado em uma ou duas grandes empresas, as quais, por efeito da crise terão de recorrer ao despedimento em massa. Se a solução for a dos despedimentos em grande número, aí teremos um grave efeito local da crise geral.
Sendo conhecida a deficiente capacidade de muitos dos autarcas das terras mais pequenas, mais isoladas e das zonas mais interiores, qual será o destino que espera as suas populações?
A situação pode vir a tornar-se muito preocupante tanto mais que esses autarcas, habituados ao bambúrrio dos gastos em desinvestimentos de carácter eminentemente eleitoralista, já começaram, há bastante tempo, a preparar-se para as eleições do próximo ano. Os mesmos que desde há muito vêm gastando sem critério e sem qualquer preocupação em desenvolver projectos que acautelem o futuro, em caso de crise.
Culpa de quem esta preocupante situação? Da pouca preparação das populações, presas fáceis de oportunismos e golpismos de todos os feitios e intenções? Da falta de formação, consciência social e cívica de muitos dos que ocupam cargos na administração local? Sim, de tudo isso. Mas, porque a acção fiscalizadora dos órgãos autárquicos não funciona em muitos casos, falta também uma acção coordenadora do Estado efectuando com frequência regular e eficaz, acções de fiscalização e avaliação da actuação do poder local. Há situações de escandalosa suspeição e de mais do que duvidosa legalidade que há muito deveriam estar a ser investigadas. As autarquias estão apinhadas de funcionários e sofrem de uma atroz incapacidade de decisão para elaborarem projectos e tomarem decisões; uma parte significativa dos seus orçamentos desaparece num voraz despesismo destinado a acções de discutível utilidade pública e de objectivos dificilmente consensualizáveis.
Em certas terras do “interior profundo”, como os políticos demagogos gostam de dizer, se já é preocupante estarmos na eminência de uma crise de que ainda não conhecemos com o necessário rigor as causas, as dimensões e os efeitos que poderá vir a provocar, torna-se angustiante a certeza de que estamos terrivelmente mal preparados e capacitados para a enfrentar e procurar soluções para a minorar. Não sabemos como, não temos com quem, nem confiamos naqueles que nos deviam liderar. Perante uma situação tão complexa torna-se tragicamente evidente como foram errados os caminhos por onde se foram perdendo as oportunidades falhadas do nosso poder local.
Admito e desejo que venham a ser encontradas soluções que evitem o rebentamento desta crise financeira global de efeitos previsivelmente tão catastróficos. É tempo de despertar para a verdade evidente de que a política é assunto demasiado sério, que exige muita preparação de quem se disponibiliza para assumir as responsabilidades inerentes ao exercício dos cargos que ela implica.
 

 


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publicado por Francisco Galego às 18:47
Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

 

Ao longo dos trinta e seis anos em que assumi perante mim a missão de me tornar um educador, evitei a todo o custo dispersar o meu tempo, esforço e energias em qualquer outra actividade que me desviasse do rumo que tinha traçado para a minha vida. Só o imperioso dever cívico imposto pelas circunstâncias me fez abrir esporádicas excepções.

Recebi com grande entusiasmo a democracia que veio coroar uma expectativa, por vezes desesperada, de longos e sofridos anos. Logo que entendi que o processo estava consolidado voltei-me de novo para a exclusividade da minha missão.

Agora que essa minha missão chegou ao fim, passei a ter mais tempo e maior disponibilidade para observar e pensar os processos sociais que se iam desenvolvendo à minha volta.

O meu sentimento tem-se inclinado cada vez mais para a percepção de que estamos a viver tempos difíceis, tão difíceis e complexos quanto parece certo que não estão a ser usadas as soluções mais adequadas para os resolver.

Mário Soares, num brilhante artigo publicado no Diário de Notícias no passado 23 de Setembro, chama a atenção para este momento crítico que intitula de “Crise Sistémica” e fá-lo com a propriedade e clareza de ideias que lhe conferem a provecta idade, a sapiência que lhe advém da longa e profícua experiência da vida, dos homens e da sociedade.

De um outro quadrante do espectro político, Maria José Nogueira Pinto, no artigo “País Experimental”, D.N. de 25 de Setembro passado, aborda também a questão desta conjuntura de crise que atravessamos: “Experimentámos todos os estilos e graus de demagogia no exercício da política e o esvaziamento da representatividade e da participação; experimentámos uma cultura aparelhística, a subversão do interesse público e a indiferença crescente dos cidadãos…

É este país que vai, em breve, a votos. Já se ouve a voz dos faltosos pagadores de promessas, disfarçados em vendedores de sonhos, a apregoar a mudança.”

Bem… Se tudo isto é pressentido com esta gravidade a nível do país, ressoa com muito maior clamor quando passamos para o nível do poder local, porque aqui os maus agentes políticos ainda são mais impreparados, o que torna muito mais graves as consequências da sua acção, com efeitos directos sobre as populações.

A este nível, a impreparação dos improvisados políticos e as suas fragilidades culturais, geram um modo de fazer política que podemos apropriadamente designar por populismo anti-elitista porque, para melhor chegar ao apoio das camadas menos preparadas da população, se arvoram em paladinos defensores dos pobres e declarados inimigos das elites, enquanto tudo fazem para garantirem para si e para os seus todos os benefícios dessas elites que tanto apregoam repudiar.

Que fazer perante a trágica situação de termos uma população tão impreparada, tão facilmente manipulável por estes inescrupulosos oportunistas?

Persistir na denúncia constante destas situações, lutar pelo aprofundamento de uma cultura democrática e de uma maior participação cívica dos cidadãos, prosseguir no esforço de dar um novo alento à sociedade fazendo emergir novos líderes capazes de elaborar e pôr em execução projectos que garantam novas soluções políticas que melhorem as condições de vida das populações.

Temos de voltar aos valores éticos que tornem de novo a política uma arte e uma ciência ao serviço do Homem e não a habilidade astuta dos que só pensam em beneficiar-se mediante negociatas escusas, tráficos de influências e práticas de corrupção. Os homens de verdade e de boa vontade devem juntar esforços para pôr fim a estas situações abusivas que estão a tornar cada vez mais insuportável esta nossa forma de viver.

Necessitamos de políticas direccionadas para o desenvolvimento económico, para a garantia da segurança e da estabilidade social, através de maiores e melhores oportunidades para as novas gerações, pois nelas assenta a possibilidade de sustentação das gerações mais idosas que deixam de estar em condições de participarem na produção, para que possam viver de reformas que lhes garantam uma aceitável qualidade de vida na sua velhice. Só com políticos sérios, honestos e competentes, homens e mulheres de sólido carácter, poderemos ter soluções adequadas para os problemas que hoje se deparam às comunidades locais.

Precisamos de começar a suspeitar dos que prometem grandes facilidades, vantagens e constantes diversões. Os tempos que aí vêm são tempos difíceis. Prestem atenção aos que avisam dos perigos que teremos de enfrentar. O nosso sistema social está em crise e as crises só podem ser vencidas com o esforço e os sacrifícios de todos. Atenções aos vendedores de promessas que nunca pagam, porque nunca tiveram a intenção de as pagar as promessas que fizeram.

Os malabaristas da política e os cúmplices que os rodeiam e apoiam, cuidam apenas de assegurar os seus próprios interesses, confundindo o serviço público com os seus negócios privados. Descuidam o desenvolvimento das questões essenciais: emprego, salários, saúde, educação. Gastam os orçamentos dos organismos que governam em obras de fachada e em festanças, enquanto enriquecem escandalosamente à custa do povo.

Não que seja vergonha ser detentor de bens e de riqueza. Todos nós conhecemos pessoas que, ainda que bastante ricos, mostram preocupação com os problemas sociais, empenham-se em resolver os problemas dos mais desfavorecidos, contribuem para o bem-estar dos seus concidadãos. Vergonhosa é a maneira como, através do engano e da corrupção, alguns conseguem beneficiar-se escandalosamente. É contra estes que temos de estar atentos para tentarmos travar a sua nefasta acção.

 


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publicado por Francisco Galego às 18:24
Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

 

VELHOS TEMPOS – NOVOS TEMPOS
 
            Acontece com gente de todas as idades, mas, com mais frequência, com pessoas de uma idade algo avançada: reagem por preconceito contra "este tempo": “Ao que isto chegou!” Elogiam os tempos passados: “No meu tempo é que era bom!” Como se este tempo em que ainda vivem, não fosse também o seu próprio tempo. Com empolado saudosismo, concentram nesse outro tempo todas as virtudes, vendo no tempo presente o tempo de todos os males e defeitos.
            Tomemos, como exemplo, a violência geradora de insegurança, porque é ela que é, mais frequentemente, considerada como um dos males dos “tempos que correm”. Se as pessoas soubessem um pouco mais dos tempos passados, teriam mais cuidado com as suas lamentações. A violência é uma constante de todos os tempos e, quanto mais recuamos no tempo, maior é a violência que encontramos entre os humanos.
            Tomemos como exemplo o que acontecia no tempo dos nossos pais: Há pouco mais de cinquenta anos, com as ruas mal iluminadas, com o hábito de frequentar as tabernas onde as rixas acabavam, as mais das vezes, à navalhada, com a falta de policiamento que se verificava, principalmente nos povoados mais pequenos, as coisas corriam muito pior. Basta ter um mínimo de conhecimento histórico para o constatar.
            Outra razão de descontentamento e de lamentação com “esta pouca vergonha dos dias que correm” é o que acontece ao nível da política e dos políticos. Mas, há cinquenta anos atrás, como era? Como podem os mais idosos, de boa e justa consciência, achar que dantes era melhor?
            E as prisões arbitrárias, as ameaças contra os mais contestatários que se atreviam a denunciar as arbitrariedades? E a prepotência dos influentes, os únicos que a “lei e a ordem” verdadeiramente protegiam?
            Hoje todos se queixam dos políticos e da política, esquecendo que nos “belos velhos tempos” de outrora o mais inocente reparo ou reclamação podiam ser motivo para incómodos de graves consequências.
            Todos recriminam a política e os comportamentos dos políticos, esquecendo que somos nós, todos nós, que os escolhemos, conferindo-lhes os cargos de que eles usam e abusam, quando se instalam no poder. Sim, somos nós os únicos responsáveis: porque votamos sem critério ou porque não votamos, deixando aos outros a escolha que depois censuramos.
            Claro que é mais fácil dizer que “isto é tudo o mesmo”, que “todos vão para lá para se amanharem”. Quando, na verdade, em todos os tempos, houve bons e maus políticos. O que acontece é que, porque vivemos em democracia, todos eles alcançam o poder pela força do nosso voto. Por isso, temos de ter o cuidado de participar conscientemente na escolha do que nos parecer mais adequado ao interesse público. Se à partida nos abstemos de votar, estamos a ser cúmplices na eleição de maus políticos, porque aqueles que estão na política apenas para com ela se beneficiarem, aproveitam-se disso para se instalarem nos cargos públicos.
            Claro que não é fácil, porque, quanto piores são os políticos, mais tentam seduzir os eleitores com ilusórias esperanças e vãs promessas. Uma parte considerável dos políticos, para melhor se servirem do povo, juram ter como projecto "fazer a vontade do povo". Mas, consideram que o povo é uma massa uniforme e passiva de ignorantes que apenas se contenta com as "cócegas" que lhe façam para se divertir. Pensam eles: mais festinha menos festinha e o povinho fica contente. Assim, arranjam maneira de, por falsas promessas e muitas ilusões, convencer o povo a conceder-lhes o voto que lhes garanta o poder.
             Estes políticos têm uma concepção, "rasca" e oportunista da política. Na maioria dos casos, sendo ignorantes e incompetentes, servem-se da demagogia para manipular os menos esclarecidos. Porque a função básica da política consiste em agir para corresponder às necessidades, ao bem-estar e à segurança do povo. Mesmo que parte desse povo possa não aplaudir algumas das medidas tomadas, o bom político sabe que não governa para obter votos mas para servir o bem comum de todos os que votaram e não apenas dos que o elegeram.
            O que na verdade acontece é que, nos tempos que correm, temos um grande problema: estamos numa época de crise, como são todas as épocas de profunda e rápida transição. Há uma ausência muito grande de valores. Nestas condições, tendem a instalar-se os mais incompetentes, os mais ávidos de protagonismo e dos benefícios que os cargos políticos podem propiciar.
            Não há muito tempo, o Prof. Cavaco Silva, que agora desempenha as funções de Presidente da República, usava uma metáfora muito de acordo com a sua condição de economista. Dizia ele que em tempo de crise a “má moeda” tende a instalar-se, afastando a “boa moeda”, querendo assim significar que o mesmo se verifica com os políticos. Ora, a única maneira de combatermos esta tendência é intervirmos com o nosso voto a fim de evitar a escolha errada que leve o poder para as mãos dos que não nos podem governar com eficácia e com competência. E a melhor maneira de tal conseguir, não é desistir, porque senão instalam-se os que não servem para orientar as questões que a todos dizem respeito, os que agem da pior maneira, que é a de governar em seu próprio proveito e não seguindo o interesse de todos nós.
            Mas, muitas pessoas movem-se por interesses imediatos. Escolhem “politicozinhos” e não verdadeiros “POLITICOS”, com a missão, a vontade e a determinação de servir o povo. Os “politicozinhos” usam a demagogia, que sabem ser a forma mais fácil de manipular as pessoas. Não têm rumo, não têm princípios, nem têm projectos: pretendem servir-se e não servir. Manipulam para conseguir que o povo os eleja, dando-lhes a ilusão que escolhem de livre vontade. Entre as obras boas, porque necessárias, e as que servem apenas para ostentar, escolhem sempre as que garantem os votos. Porque estes demagogos não são movidos pelo bem público, mas apenas pelos seus mesquinhos interesses. Os “politicozinhos” escolhem sempre fazer o que melhor serve o seu principal objectivo: perpetuarem-se no poder. Prometem sem qualquer intenção de cumprir. Mentem, caluniam, difamam, gabando-se de que todos os meios se justificam para atingirem os fins que mais favoreçam os seus interesses e a sua vaidade.
            É esta a causa primeira de todas as inseguranças, a razão da maior parte das desgraças que atormentam a nossa sociedade.
            Como sair disto? Preparando as actuais e as novas gerações para que saibam decidir com discernimento e escolher o que mais lhes convém, em plena liberdade.
            O progresso constrói-se escolhendo os que garantam que se esforçarão por encontrar respostas para os novos problemas, as novas situações e novas realidades que se deparam à nossa sociedade.
             Dizia Lamartine, poeta e político francês do século XIX:
O governo constitucional (democrático) é dos melhores, mas tem de mau o primeiro século, no qual os povos não estão convenientemente educados e, como tal, pouco habilitados para conhecerem os especuladores políticos que pretendem ganhar posição, abusando assim da sua boa fé.
Hoje como ontem. Ora, nós, desse primeiro século que é o pior, cumprimos apenas um terço, pois a nossa democracia tem apenas 34 anos. Temos de apostar, principalmente, na educação, pois, como o outro diz: Povo pouco educado, dá eleitorado facilmente manipulado.
Escreveu Manuel Mª Carrilho no Diário de Notícias de 13/9/2008: “…porque onde não há conhecimento, domina a ignorância. E o cocktail de poder com ignorância – que tem sido frequentemente servido em Portugal – é sempre, como Maquiavel sabiamente sublinhou, o mais fatal de todos, seja qual for a época ou o país em que ocorra.” De facto, o preconceito e a ignorância são a raiz de todos os males. Porque onde não há conhecimento e se instala a ignorância no poder, são sempre tomadas as piores decisões, propagandeadas e justificadas pelas piores razões.
Voltando à questão da “boa e da má moeda”. Existe moeda falsa e moeda de confiança em todos os partidos e em todas as ideologias. Basta apenas estar atento para se escolher o que, em consciência, nos parecer melhor.
                                                                      

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publicado por Francisco Galego às 16:35
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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