Segunda-feira, 18 de Junho de 2007
         Campo Maior é um dos concelhos do Alentejo de mais escasso território. Possuiu apenas duas aldeias: Degolados e Ouguela. Quanto à primeira, o futuro parece garantido pois regista uma certa dinâmica de crescimento. Sendo das duas a menos antiga, é sede de freguesia, localiza-se perto da estrada de ligação ao vizinho concelho de Arronches a que pertenceu até 6 de Dezembro de 1926, e constitui ponto de passagem do tráfego que se dirige para Portalegre, a sede do distrito. A proximidade das instalações fabris da empresa Delta tem favorecido o crescimento da sua população e a renovação do seu casco urbano.
            Mas Ouguela definha numa lenta agonia que se arrasta há mais de um século. Perdida num recanto do território português bem junto à fronteira com a Espanha, desempenhou ao longo dos séculos uma importante função militar na prevenção e na defesa de invasões do país, por esta região tão permeável à passagem de exércitos até finais do século XVIII. Na fortaleza de Ouguela começava a linha que defendia o corredor das terras banhadas pelo Xévora, Caia e Guadiana, e que integrava as praças militares de Campo Maior, Elvas, Juromenha e Olivença.
            Quando a evolução da arte da guerra ditou o fim das praças militares, Ouguela que nunca foi um grande povoado, viu-se condenada a uma inexorável decadência. Em finais do século XIX esteve quase a desaparecer.
Esse desaparecimento foi evitado pelo súbito interesse de um filantropo que se interessou vivamente pelo destino do pequeno povoado e resolveu aplicar os seus vastos recursos financeiros e a sua grande influência política em favor de Ouguela e dos seus habitantes. Chamava-se Carlos Ramiro Coutinho, era licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, reconhecido como um dos mais notáveis advogados de Lisboa, deputado que dera nas vista pelo brilho da sua oratória no parlamento e pelo vanguardismo social das suas ideias, íntimo da família real e de relação próxima com o rei D. Luís. Pelo casamento adquirira o título de Barão de Barcelinhos e, mais tarde, devido à sua acção humanitária, o de Visconde de Ouguela.
O texto que a seguir transcrevo dá, com toda a exactidão, notícia da sua acção em prol desta pequena aldeia do concelho de Campo Maior.
           
 
“A quase duas léguas desta vila de Campo Maior, existe uma muito pequena vila denominada de Ouguela, cujas faldas são banhadas pelo Brilongo que, um pouco mais abaixo da vila, entra no Xévora e este, no fim dum curso de três léguas, próximo de Badajoz, entra no grande rio Guadiana.
            Nada se sabe quanto à fundação de Ouguela. Apenas se sabe que pertencia a Castela e que, em 1309 (1297), passou ao domínio de Portugal por donativo que El-rei de Castela, Afonso X, o Sábio, fez dela a sua filha D. Beatriz, quando esta casou com o El-rei de Portugal D. Afonso IV, o Bravo.
Esta pequena e amuralhada vila, situada a Norte de Campo Maior, tem sofrido uma tal decadência, que actualmente estão em ruínas quase todos os seus prédios, contando-se em bom estado uns 50 fogos. Os seus habitantes possuíam um logradouro – Defesa de Nª Sª da Enxara – onde tinham seus gados e semeavam suas searas. E, como depois lhes foi dado em sortes, trataram de as ir vendendo, porque o dinheiro não consentia miséria. Mas, assim que as venderam, acabaram por ficar reduzidos à miséria. Esta foi a principal causa da sua decadência.
Na esplanada da vila velha há um arrabalde, devido ao qual se tornou a vila antiga um deserto. Pena que o arrabalde não tenha ficado melhor localizado porque, como Ouguela está situada num grande e elevado cerro, torna-se o arrabalde feio e incómodo, pois é muito prejudicial para quem tem de a ele aceder para transportar os géneros das suas searas.
No centro da parte antiga da vila há um largo que antigamente servia de praça, quando a vila estava regular e militarmente guarnecida. E há uma grande cisterna, para a qual se desce por uns 15 degraus.
Contígua a este largo, está a Igreja de Nossa Senhora da Graça que é um edifício de tosca arquitectura e que tem uns 18 metros de comprimento e 10 de largura.
Pouco distante de Ouguela há uma fonte cuja água se torna medicinal pela propriedade de matar todos os vermes que para dentro dela caem. Para longínquas povoações levam barris e garrafas com esta água. Sua Exª, o Sr. Barão de Barcelinhos, mandou conduzir para Lisboa uma porção desta água para a submeter a uma análise clínica. Veremos se o resultado confirma a opinião pública.
Junto a esta vila de Ouguela há um terreno de cerca de uma légua quadrada, chamado Referta, cujo uso é comum aos habitantes desta vila e aos da vila espanhola de Albuquerque.
Ouguela possuía um grande celeiro comum que, segundo a tradição, foi instituído por abastados lavradores, para estarem prevenidos contra qualquer calamidade em suas searas.
            Hoje, a antiga vila encontra-se em grande decadência.
Mas Ouguela há-de renascer porque o Barão de Barcelinhos se comporta como um filho generoso, magnânimo e poderoso. Sua Exª comprou no termo de Ouguela a herdade da Lapagueira por 20.000$000 réis (vinte contos) e, em seguida, outras mais terras estabelecendo ali uma lavoura, para o que mandou comprar máquinas em França, bem como outra maquinaria para fábricas.
Ouguela deve prosperar. Os trabalhos já estão em grande escala sendo dirigidos por três práticos franceses, sendo um destes de muita instrução, possuindo especialmente grandes conhecimentos de terrenos e plantações.
Consta que Sua Exª dissera aos guardas de suas herdades que não proibissem que os habitantes de Ouguela levassem alguma lenha, que precisassem para o consumo de suas casas. Aos proprietários deste pequeno e pobre povo disse-lhes que comprava todas as fazendas que quisessem vender, sem mais ajuste que o valor dos foros ou rendas de 20 anos. É um bem que os habitantes de Ouguela não devem esquecer porque vendiam suas propriedades, por metade e menos do seu valor aos proprietários de Campo Maior.
O Ex.mº Sr. Barão de Barcelinhos, pela sua inclinação às causas divinas, bem mostra os sentimentos religiosos de que é dotado, provando-o com a oferta de uma banqueta grande e toda dourada, à Igreja de Nª Sr.ª da Graça daquela vila de Ouguela e mandando fazer uma festa com instrumental no dia 10 de Setembro corrente, convidando todo o clero de Campo Maior e muitas outra pessoas, instituindo uma festa anual no dia 8 de Dezembro e oferecendo-se para padrinho de todos os baptizados que se realizem nesse dia. A todas essas festas deve assistir a antiga filarmónica, da qual se dignou ser protector, passando a denominar-se, de ora avante, Filarmónica Barcelinhos. Já ofereceu para ela dois belos clarinetes e um flautim e agora determinou fardá-la e reforma-lhe todos os instrumentos.
Os infelizes de Ouguela têm nele um protector.
Há quem profetize um mau fim para quem dispõe dos seus bens com tanta largueza. A esses o Sr. Barão responde: Afastado actualmente da política militante, sem ambição e sem desejos pessoais, resta-me um único desejo que proclamo bem alto, porque não me envergonha: ser útil à minha pátria …E, quando eu, esquecendo estas e outras semelhantes máximas, pedir qualquer outra coisa aos povos de Ouguela, eles que ma recusem, porque, mesmo procedendo assim me darão uma prova de gratidão.
Sua Exª entende que a riqueza, pequena ou grande, só deve servir para moralizar os povos e educá-los para o trabalho. Por isso, os que a possuem devem-na usar com prudência para consolarem os infelizes.
Que grandeza de alma! Quem assim pensa é digno de todos os elogios. Oxalá os habitantes de Ouguela lhe saibam tributar a devida homenagem.”  
 
            Este texto que foi enviado para publicação no jornal de Elvas A Voz do Alemtejo, com a data de 27 de Agosto de 1865, pelo correspondente Rosado Júnior que, nesse tempo, desempenhava as funções de professor primário em Campo Maior. Nele se retrata com toda a clareza a acção do futuro Visconde de Ouguela em defesa da aldeia e da sua população.
            E hoje? Quem acode a Ouguela?
            Numa época em que tantas aldeias estão a ser restauradas para projectos de turismo rural, não há nenhum investidor privado que resolva apostar neste povoado tão privilegiado em termos de paisagem, de tranquilidade e de tanta antiguidade?
            E os campomaiorenses, sobretudo os que têm responsabilidades a nível autárquico? Como podem deixar de acudir à salvaguarda dos únicos vestígios do património militar e de povoamento da época medieval que existem no concelho de Campo Maior?
            Sim, os únicos! Porque Degolados é povoação bastante mais recente e Campo Maior, quase completamente destruída em 1732, quase nada conservou do seu património anterior ao século XVIII. O próprio castelo de Campo Maior é, na sua maior parte, o que resultou da reconstrução mandada fazer por D. João V e, como foi provado por recentes escavações arqueológicas, muito pouco conservou da sua traça original.
            Na verdade, a morte de Ouguela levará a melhor parte do que de mais antigo existe em termos de património no concelho de Campo Maior.
            Por isso e por muitas mais razões que não cabem no espaço limitado deste escrito, É PRECISO SALVAR OUGUELA!
 


publicado por Francisco Galego às 14:08
Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

 

Campo Maior no século XVI. Desenho de Duarte D'Armas

 

A história que vamos contar passou-se há cerca de 500 anos. Reinava em Portugal o rei D. Manuel I.
            Campo Maior era uma povoação bastante pequena, com nove ruas dentro do castelo e mais algumas do lado de fora das muralhas. Teria aproximadamente dois mil habitantes, ou seja, quatro vezes menos do que possui actualmente.  
            Ora, a certa altura, declarou-se uma grande epidemia de peste. As pessoas ficavam doentes e, passado pouco tempo, morriam. Naquele tempo, nas terras pequenas, não havia médicos, nem medicamentos. As poucas condições de higiene e a deficiente alimentação, faziam que qualquer doença provocasse a morte rápida de muitas pessoas, mas principalmente das crianças e dos velhos que eram os mais fracos.
            As pessoas pensavam que as pestes eram um castigo de Deus. Por isso, faziam missas nas igrejas, rezavam e imploravam o perdão dos seus pecados para se verem livres da doença.
            Vendo que as suas preces não eram atendidas, pensando que o ar estava empestado pela doença, os moradores de Campo Maior que ainda não tinham sido atingidos pela peste, resolveram sair da vila. Escolheram um lugar no meio dos campos e aí construíram casas de paredes de barro e cobertas de ramos e folhas, a que se dá o nome de choças. Ainda hoje esse lugar é chamado pelos campomaiorenses como sendo o lugar das Choças.
            Ficaram nesse lugar muito tempo com medo de que, se voltassem às suas casas na vila, pudessem ser apanhados pela peste.
            Mas, um belo dia, no ano de 1520, um homem chamado Gonçalo Rodrigues andava a trabalhar na sua horta e, sentindo-se cansado, sentou-se à sombra duma árvore a descansar. De repente, apareceu-lhe uma figura rodeada de uma grande luz. Assustado, o bom homem exclamou: “Quem sois vós senhor? Que luz é esta que não parece ser coisa deste mundo?” Ao que, numa voz forte e calma a figura respondeu: “Não temas Gonçalo! Eu sou João Baptista. Não vês como está o teu povo? Vai dizer à tua gente que podem voltar às suas casas. Os vossos sacrifícios e sofrimentos despertaram a compaixão de Deus Nosso Senhor. Não haverá mais peste. Mas, em memória da graça que por Deus vos foi concedida, quero que façam na vossa terra uma igreja em meu nome e devoção.”
            O bom do Gonçalo nem queria acreditar no que lhe tinha acontecido. Foi logo ter com a sua gente e contou-lhes a extraordinária aparição que tivera. Desde logo, todos decidiram fazer a igreja em honra de São João Baptista.
                   
Brasão antigo de Campo Maior               Azulejo junto da capela da aparição

 

Ermida de S. Joãozinho. Inaugurada em finais do século XIX.

 

 

 

 

Igreja de S. João. Desenho assinado por Vítor Rosa em1985.



publicado por Francisco Galego às 11:38
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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