Terça-feira, 24 de Junho de 2014

Este texto é a primeira crónica conhecida de um jogo de futebol, envolvendo uma equipa de Campo Maior.

Foi escrita por João Ruivo que participou no jogo como captain do “5 de Outubro” e fez a sua reportagem para o jornal de Elvas O Leste, sendo publicada no Nº 25 de 20/2/1916, p. 3 e 4.

Este “5 de Outubro” foi criado em 1915. João Ruivo foi um dos seus fundadores, tendo redigido os seus estatutos.

Antes já tinham sido formados dois grupos para a prática do futebol em Campo Maior: o “Lusitano Sporting Club” e o “Grupo Sportivo Campomaiorense”. Ambos se dissolveram quando se organizou o “Club 5 de Outubro”. Devido à Guerra de 1914-1918, que mobilizou boa parte dos seus jogadores, a sua actividade cessou em 1916. Todos os clubes que, depois, existiram em Campo Maior, incluindo o Sporting Clube Campomaiorense, tiveram importante intervenção de João Ruivo, na sua fundação.

 

 

“O 1º grupo do 5 de Outubro jogou, no passado Domingo, em Campo Maior, um desafio com a União. Estava uma tarde primaveril, motivo porque a assistência foi numerosa, principalmente de senhoras que animavam o campo com a sua graça juvenil, obrigando os jogadores a distraírem-se.

                Às 15 horas, feito o sinal pelo juiz de Campo, (Loureiro), deram entrada no campo os dois grupos compostos dos seguintes jogadores:

U.D.E. – Adelino Gonçalves; Mário Gonçalves; José Rodrigues (Captain); J. Lopes; F. Braz; M. Florêncio; Caldeira; Carvalho; Pereira e Caldas.

C. D. 5 Out. – Mourato; José Ruivo; Guitano; Saragoça; João Ruivo (Captain.); Garcia; Botica; Sérgio e Alberto Mourato.

                Da União faltou Terrinca; e do 5d’Outubro faltaram Serafim e Ensina. Daí talvez ter a União marcado na primeira parte 3 bolas, sendo duas por corner kick, muito bem marcadas por Braz. Adelino defendeu bem a rede destacando-se ao defender galhardamente um penalty. Os backs Rodrigues e Gonçalves, igualmente bem.

                Dos restantes jogadores da União não nos ocuparemos detalhadamente pois não podemos apreciar devidamente o seu jogo. Todavia, vimos que jogaram com algum método, passando muito bem a bola.

                O C. D. 5. Out. mostrou-se ainda pouco conhecedor das passagens, chutando com muita força, dando em resultado entregarem a bola constantemente aos adversários e limitando-se à defesa quase todo o jogo, pois fizeram poucas e mal rematadas avançadas.

Na segunda parte, quiçá por entrarem nos seus lugares os jogadores que haviam faltado à primeira, jogou-se com mais calor, defendendo melhor o C. D. 5. Out. pelo que não se marcou nenhuma bola, contribuindo também para isso o facto de o half-centro Braz do U.D.E. ter abandonado o campo por motivos estranhos ao desafio. Aparte este pequeno incidente, o desafio decorreu no meio do maior entusiasmo, jogou-se com a máxima correcção de parte a parte. Findo o desafio vitoriaram-se os dois grupos com os “Hurrahs!” do estilo, indo em seguida abancar no restaurante Gavião Branco onde lhes foi servido um lanche pela direcção do C.D.5.Out.

                Às 20 horas retiraram-se para Elvas os jogadores da União que se mostraram penhorados pela maneira como foram recebidos pelos seus camaradas de Campo Maior. E assim terminou um dia que marca mais uma vitória para o desporto em terras alentejanas. Brevemente irá o C.D.5.O. a essa cidade jogar com a União para desforrar-se da lição-derrota …

Bom seria que os senhores jogadores do 5 d’Outubro se convencessem de que a disciplina é a base da “Association” e que, em vez de andarem a flirtar pelas calles, se lembrassem dos seus compromissos e obrigações, para evitar casos como o de Domingo.

                E viva o futebol!

                J. R. (João Ruivo)



publicado por Francisco Galego às 18:41
Segunda-feira, 02 de Junho de 2014

.JOÃO FRANCISCO DUBRAZ

 

                Nasceu em Campo Maior, em Janeiro de 1818 e faleceu na mesma vila no dia 23 de Setembro de 1895, contando, portanto, 77 anos de idade.

                Filho de pais humildes, não pode frequentar academias e, só com grandes dificuldades e à força de trabalho e de perseverança, conseguiu cultivar o seu espírito talhado para grandes voos.

                Dotado de vigorosa inteligência e com uma grande ânsia de saber, abandonou o comércio a que primeiramente se dedicara, para seguir a carreira das armas que também veio a abandonar, habilitando-se depois para o magistério que exerceu até à data do seu falecimento.

                Regeu na sua terra natal, as disciplinas de português, francês e latim, em que era muito versado, parecendo ter estudado também o grego.

                Bibliófilo apaixonado, a ele se deve a fundação da Biblioteca Municipal de Campo Maior que dotou, à sua custa, com grande número de volumes que ainda ali se encontram, tendo-lhe conseguido um subsídio da Academia das Ciências, por intermédio do escrito Latino Coelho com quem mantinha relações. Pena é que ninguém lhe tivesse sucedido no grande amor que votava à sua Biblioteca, cujo catálogo pouco aumentou de então para cá e cujas salas deixaram de ser frequentadas há muitos anos. O clássico progresso de caranguejo! …

                Foi um jornalista vigoroso e um polemista de temer; mas, sempre correcto e leal, incapaz de beliscar, ainda que fosse ao de leve, a dignidade e a honra dos seus adversários. A sua colaboração encontra-se dispersa nos jornais da sua época: O Elvense, a Democracia e a Revolução de Setembro, esta última desse grande luminar do jornalismo que foi Rodrigues Sampaio. Fundou também a Sentinela da Fronteira que, um dia em que as circunstâncias mo permitam, procurarei ver se existe arquivado em alguma biblioteca pública ou municipal.

                Como escritor, afirmou também João Francisco Dubraz a sua erudição, o seu espírito investigador e os seus vastos conhecimentos da língua portuguesa e da história local, legando-nos obras de alto valor, de entre as quais destacamos: Achmet (romance de cavalaria), Um Aventureiro Francês (conto), Cinco Finados Ilustres (folheto), Os Dois Caracteres, A República e a Ibéria, Subsídios Históricos para a Guerra da Maria da Fonte no Alto Alentejo e as Recordações dos Últimos Quarenta Anos – o livro mais grato ao coração dos campomaiorenses, valioso subsídio para a história da sua terra que ele amava como um cavaleiro andante ama a sua bem-amada e que nos fornece importantes elementos e dados sobre a vida política local durante o período agitado de 1828 a 1868.

                Como militar, evidenciou a sua bravura e a sua vontade enérgica e decidida, em várias escaramuças e combates pela liberdade, tendo, por isso, alcançado merecidamente o posto de capitão de cavalaria da Guarda Nacional.

                Carácter altivo e independente, tendo inato o sentimento da justiça e da liberdade, não pode deixar de se envolver nos acontecimentos políticos da sua época, nos quais tomou parte activa e desempenhou papel preponderante. Lutou nas falanges constitucionais e setembristas, contra o absolutismo despótico e fanático, declarando-se abertamente republicano e democrata o que, naquela época, constituía um acto de assombrosa audácia.

                A nobreza do seu procedimento, a sua rebeldia espiritual e a intransigência política, valeram-lhe perseguições. Algumas dessas perseguições assinalam-se até ao ridículo: de uma vez, foi chamado à Administração do Conselho e intimado a cortar o bigode, pelo respectivo administrador, o cartista Vitorino António dos Santos, que lhe instaurou um processo por desobediência, visto ter-se recusado a cumprir tão absurda ordem!

                E, aos setenta e seis anos, já quando as forças o abandonavam, ainda os seus inimigos o não poupavam, tendo promovido a sua transferência para Amarante como professor, pelo que, houve de abandonar os seus discípulos e a sua terra natal onde, como bom patriota e bairrista, veio no entanto a falecer.

                Eis esboçada a traços ligeiros, baseados em elementos obtidos com dificuldade, alguns respigados em jornais da época, outros amavelmente fornecidos pela ilustre família do extinto, a biografia do homem que soube honrar a sua terra natal, que se afirmou sempre um nobre exemplo de honradez, de modéstia e de desinteresse, destacando-se pela sua brilhante e viva inteligência, pelo amor ao estudo e ao trabalho que nobilita e pelo afecto à família de que foi chefe exemplar e extremoso.

                Está prestes a passar o quadragésimo aniversário da sua morte.

                Quarenta anos de silêncio e de esquecimento sobre o seu nome, sobre a sua personalidade – como se ela não enchesse uma página da história de Campo Maior!

                Como os homens são ingratos e egoístas para aqueles que melhor e com mais cavalheirismo servem a colectividade e a humanidade!

                Campo Maior tem uma dívida de gratidão em aberto para com um dos seus mais notáveis filhos.

                Apelo, pois, para os homens que dirigem os destinos minha terra, sugerindo-lhe para darem o nome de João Francisco Dubraz – militar, professor e jornalista – a uma das ruas da vila (talvez a Rua da Misericórdia, por terminar no Largo do Barão de Barcelinhos, onde parece ter nascido o nosso ilustre conterrâneo[1] e onde ao certo se sabe que passou a sua infância), já que as circunstâncias não permitem, por ora, que se lhe preste homenagem mais grandiosa.

                Entretanto, aqui fica já, nestas descoloridas linhas, a modesta homenagem que julgo do meu dever prestar ao patrício ilustre, homenagem que tranquiliza a minha consciência pela satisfação do dever cumprido.

J.R.

NOTA: Este texto foi publicado, em destaque de primeira página, no jornal de Estremoz, Brados do Alentejo, nº 242, de 15/9/1935.



[1] De facto nasceu na Rua do Paço, hoje Rua de Olivença.



publicado por Francisco Galego às 18:07
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