Terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Os habitantes desta parte de Portugal que, por conveniências administrativas, constitui hoje a «Província do Alto Alentejo», foram, desde tempos remotos, muito dados às artes plásticas e industriais. Região onde a matéria-prima não escasseava – mármores e barros em especial - não admira que a abundância lhes despertasse inclinações e vontade de traduzirem objectivamente as suas idealizações e concepções estéticas, em ordem não só à recreação do espírito, mas também à utilização das suas criações na vida prática e doméstica.

    Foram, sobretudo, os trabalhos de cerâmica que, entre o povo, mais se generalizaram, visto as argilas aluminosas[1] [figulinas[2] e margas[3]] estarem ao alcance de todos, serem de mais fácil exploração e servirem à feitura de objectos decorativos, que nos encantam pela beleza e harmonia das formas [estatuetas, imagens, jarras, azulejos, baixos relevos, etc.], assim como à confecção de artefactos de reconhecida utilidade prática em usos domésticos e industriais, tais como: bilhas, pichéis[4], azadas, potes, louça variada, telhas e tijolos.

    Tudo leva a crer que o aperfeiçoamento da arte da olaria só começou nos primórdios do século XVII, assinalando-se depois esse aperfeiçoamento nas faianças e nos azulejos de Estremoz, nas cantarinhas de Nisa, nas bilhas de Viana, etc.

    Há conhecimento de ter existido uma fábrica de cerâmica em Estremoz, a da Viúva Antunes, de que parece haver peças datadas de 1770, segundo nos diz Joaquim de Vasconcellos, em “A Cerâmica Portuguesa e a sua Aplicação Decorativa”. No Museu Municipal desta cidade podem ver-se algumas peças de perfeito vidrado e de interessante colorido que se atribuem àquela fábrica: pratos, travessas, terrinas, um gomil[5] e uma cantarinha, esta com a marca Viúva Antunes, não oferecendo, por isso dúvidas da sua proveniência.

    Desta Fábrica podem ter saído os azulejos que se vêem nos lambriz[6] de alguns edifícios locais. Mas há quem pretenda ter existido outra fábrica pelo facto de se guardar no referido Museu um painel, provindo de uma fonte na horta junto à Ermida dos Mártires, no qual se representa «Nossa Senhora do Carmo a entregar o escapulário[7] a São Simão Stock, que foi o primeiro geral da Ordem dos Carmelitas», tendo inferiormente a legenda “Ecce Salutis”, a marca “Fabrica de Frei Luiz Pernarcho”, e datado 1779.

    Ignoramos se existe algum documento que confirme esta suposição. Em nossa humilde opinião, o termo Fabrica, que se lê no painel, pode querer significar que o desenho, a traça, a pintura, se deve ao aludido padre, por quanto nos parece que a função de fabricante ou industrial era incompatível com o voto de humildade, de pobreza e de renúncia dos bens terrenos, que se exigia aos religiosos professos.

    Também temos noticia de que já nas primeiras décadas do século XIV, se faziam pucarinhos e moringues de Estremoz[8], que iam à mesa da Rainha Santa Isabel, ganhando celebridade em terras de Espanha, Itália e França, onde as classes ricas pagavam por alto preço essas graciosas peças de cerâmica alentejana.

    Nas primeiras centúrias da nossa nacionalidade a olaria circunscrevia-se ainda ao fabrico de louça grosseira, vasilhame, telhas e tijolos para a construção de habitações, fabrico que deve ter sido ensinado aos aborígenes pelos romanos e mais tarde pelos árabes, quando vieram estabelecer-se na Península Ibérica, como se deduz pelo grande número de objectos que tem sido encontrados nas escavações de diversas estações arqueológicas disseminadas pelos termos de Évora, Montemor, Estremoz, Vila Viçosa, Elvas, Marvão e outras terras de Alentejo, de que podem ver-se alguns exemplares nos museus regionais e da capital [temos visto: púcaros, candeias, e fragmentos de tijolos, etc.].

    Há anos foi achado numa escavação nas proximidades do Monte de Santa Vitória, por detrás da quinta denominada da Rainha ou de São João, arredores de Campo Maior, um dollium[9] do período lusitano - romano, que oferecemos ao museu municipal de Elvas, exemplar muito bem conservado. Só conhecemos outro semelhante que existe no Museu Etnológico de Belém.

    Estas vasilhas foram, talvez, as ascendentes genealógicas dos potes ou talhas mouriscas, que se vêem em todas as adegas do sul do país e cujo fabrico constitui uma indústria típica e secular da rica e linda vila fronteiriça de Campo Maior e da Aldeia do Mato, no concelho de Reguengos. Curiosas e características, as talhas alentejanas, de barro grosseiro, a que o tempo dá um tom escuro, chegam a ser de altura superior a de um homem normal e o seu bojo avantajado e monumental chega a conter mais de cem almudes, ou seja dois mil litros de precioso vinho. [Na adega do Sr. João Garcia Augusto, em Estremoz, existe uma com a capacidade de cento e treze almudes!].

    Assim, impressionaram por tal forma o iminente escritor Júlio Dantas que, ao vê-las pela primeira vez numa sombria adega de Évora, lhe fizeram escrever numa das suas brilhantes crónicas para o «Comércio do Porto que “no jogo das sombras flutuantes da subterrânea adega, lhe deram a impressão de figuras mociças e ventrudas[10] de silenos[11] aguentando nos ombros uma pesada arquitrave».

    O fabrico destas interessantes vasilhas não é privilégio da Aldeia do Mato, como supõe o ilustre académico, talvez por desconhecer que também se fazem em Campo Maior, que as exporta desde tempos longínquos para grande parte do Alentejo, e não só para esta província, como para algumas terras da Beira Baixa, do Ribatejo e até para a Estremadura Espanhola.

    Velhas pois de séculos, diferenciam-se as de Campo Maior das de Aldeia do Mato pela euritmia[12] das primeiras que nos oferecem uma silhueta mais esbelta, sobretudo nos mais recentes modelos, a que o artífice, intuitivamente e sem conhecer a arte romana, vai imprimindo formas clássicas e elegantes que fazem lembrar as ânforas milenárias. Diferenciam - se também pelo facto das últimas ostentarem na garganta a data fabrico e as curiosas siglas dos desconhecidos artífices que as modelaram em suas mãos hábeis, enquanto que as que de Campo Maior exibem os nomes completos dos vários oleiros através dos quais, por tradição de família, se tem transmitido, através dos séculos, o uso desta profissão e que são: - os Centenos, os Pereiras, os Mouratos , e, quiçá, outros que desconhecemos. Dá-se também a circunstância das desta ultima localidade se fabricarem com maior capacidade do que as de Aldeia do Mato, devido à melhor qualidade dos seus barros, desconhecida pelos mestres aldeiamatenses.

    E pena, realmente, que as de Campo Maior não tenham sido também datadas; e, para subsídio de investigações futuras e melhor documentação campomaiorense, lembrar aos nossos conterrâneos que é conveniente gravar nas talhas, além dos nomes, a data do fabrico [basta só o ano] e o nome da nossa histórica e progressiva vila, que foi agora alvo de uma grande honra: É que, na Exposição Internacional de Paris, do corrente ano, por iniciativa louvável do Secretariado da Propaganda de Portugal, Campo Maior mostrará aos muitos milhares de visitantes da Exposição – a par da graciosidade dos moringues e bonecos de Estremoz, dos caprichosos empedrados das cantarinhas de Nisa, e da elegância das bilhas de Viana - as formidáveis talhas saídas das suas oficinas, que deverão assombrar pela novidade e pelas suas descomunais proporções.

  

    Foi este facto muito agradável ao nosso estranhado bairrismo, que nos sugeriu o singelo e despretensioso artiguelho que hoje damos à publicidade e que estamos prontos a rectificar se alguém aparecer a esclarecer-nos sobre as deficiências com que topamos na sua elaboração.

 

 

Texto publicado por João Ruivo em “Arquivo Transtagano”, Ano V, Nº 1 de 15 de Maio de 1938                                                                               

 



[1] Dizem-se aluminosas por conterem alúmen, ou partículas que brilham

[2] Diz-se figulino o barro macio e fácil de amassar.

[3] As margas são argilas calcárias.

[4] O pichel é uma pequena vasilha ou cântaro para vinho.

[5] O gomil é um jarro para água, bojudo e de boca estreita.

[6] O lambril é a parte inferior de uma parede.

[7] Tiras de pano que os sacerdotes e outros religiosos usam sobre os hábitos.

[8] Refere-se aos tradicional barril de Estremoz e que em Espanha é chamado porrón.

[9] Vasilha grande onde os romanos guardavam o vinho.

[10] Figuras maciças e bojudas.

[11] Monstros gigantescos, metade homem e metade bodes.

[12] Harmonia, equilíbrio de proporções da diversas partes.



publicado por Francisco Galego às 09:06
Domingo, 25 de Setembro de 2011

Feira d’Elvas, Feira d’Elvas,

Feira d’Elvas da cidade;

Quem me dera estar bailando,

No Senhor da Piedade.

 

Daqui p’ra cidade d’Elvas,

São três léguas, nada mais;

Ai que estrada tão comprida,

Tão seguida dos meus ais.

 

Daqui pr’a cidade d’Elvas,

Tudo é caminho chão;

Tudo são cravos e rosas,

Dispostos p’la minha mão.

 

Já Elvas não é cidade,

Nem vila lhe chamarão;

Já os Arcos d’Amoreira,

Deram consigo no chão

 

Belos Arcos d’Amoreira

Foram feitos sem ventura;

Por baixo estrada real,

Caminho pr’a sepultura

 

Também neste, como nos outros tipos de cantigas de “saias”, não podiam faltar as cantigas de escarnecer:

 

Eu hei-de ir à Feira d’Elvas,

No carro do João Vieira;

C’uma roda de toucinho

E outra roda de farinheira.

 

Caminho da Feira d’Elvas,

Fica o monte dos Judeus;

Se encontrares o meu rapaz,

Dá-lhe lá recados meus.

 

 

 

 

 

 

                                     

 

           



publicado por Francisco Galego às 19:07
Sábado, 24 de Setembro de 2011

As festas do São Mateus,

São as festas da cidade;

Quem me dera andar bailando,

No Senhor da Piedade.

 

Já perdi o norte à terra,

No caminho da cidade;

Já nem sei p’ra onde fica,

O Senhor da Piedade.

 

Que o Senhor da Piedade,

Tenha por nós compaixão;

E nos dê por caridade,

Um ano farto de pão.

 

O Senhor da Piedade,

Tem vinte e quatro janelas;

Quem me dera ser pombinha,

Para pousar numa delas.

 

Ó Senhor da Piedade,

Na vossa capela o digo;

Já cá não venho outro ano,

Sem trazer o meu marido.

 

Ao Senhor da Piedade,

P’ro ano vou outra vez;

Quero ir agradecer-lhe,

O milagre que me fez.

 

Ao Senhor da Piedade,

Quero este ano lá ir;

Eu não lhe vou levar nada,

E nada lhe vou pedir.

 

Zanguei-me com meu amor,

Já se acabou a amizade;

À noite cantei melhor,

No Senhor da Piedade.

 

O Senhor da Piedade,

Não está em casa foi fora;

Foi visitar os enfermos,

Que estão na última hora.

 

O Senhor da Piedade,

Tem uma prenda de valia;

Uma fonte de repuxo,

Com pedra de cantaria.

 

No Senhor da Piedade,

Muita coisa lá se faz;

Uns arranjam rapariga,

Outras ficam sem rapaz.

 



publicado por Francisco Galego às 18:57
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

A feira de São Mateus, atraindo gente de todo o Alto Alentejo, tornou-se ponto de encontro das populações que ali acorriam. Por esta razão, as “saias”, cantadas e dançadas por toda esta região no século XIX, tinham ali o seu ponto nuclear de trocas e de irradiação. Em cada terra iam-se preparando ao longo do ano as cantigas e as toadas ou modas que se iriam exibir no São Mateus. Em contrapartida, quando regressavam às suas terras, levavam consigo os sons e as palavras que tinham ouvido nos bailes da romaria.

 

O São Mateus tinha tal efeito mobilizador sobre as gentes de Campo Maior que mesmo os que a Elvas não se podiam deslocar, o celebravam com bailes e arruadas pelas ruas da vila, nos dias da sua celebração.

 

Se não fores ao São Mateus,

Havemos de combinar;

P’ra andarmos aqui na vila,

A noite toda a balhar.

 

Os campomaiorenses tornavam-se notados quer pelo número dos que acorriam à Feira do São Mateus, quer pela qualidade das suas intervenções nos bailes de roda em que se cantavam e dançavam as “saias”, como está documentado nas seguintes quadras:

 

Se eu for ao São Mateus,

Irei balhar c’o meu par;

Mulher que se sabe amada,

Está mais disposta a cantar.

 

Eu quero ir ao São Mateus,

Só para te ouvir cantar;

Não vou lá com outro fim,

Estou velho p’ra namorar.

 

As festas do São Mateus,

São as festas da cidade;

Quem me dera andar bailando,

No Senhor da Piedade.

 

Eu hei-de ir ao São Mateus,

P’ro ano se Deus quiser;

Este ano fui menina,

Pró ano volto mulher.

 

A Feira de São Mateus,

É feira de arraiais,

Eu não tenho rapariga,

Divirto-me com as dos mais.

 

Arraiais de São Mateus,

Vão ganhões e vão malteses;

Adeus, meu amor adeus,

Até d’hoje a doze meses.

 

São Mateus é romaria,

Como outra não há outra igual;

Fica à frente de todas,

Neste nosso Portugal.

 

Eu vou sempre ao São Mateus,

E nunca deixarei de ir;

Ainda que lá dos céus,

Estejam pedras a cair.

 

Meu bem vem cantar comigo.

Na Feira do São Mateus;

Cantigas de amor sentido,

São como preces aos céus.

 



publicado por Francisco Galego às 18:25
Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Noutros tempos este grande acontecimento anual, dava lugar a um intenso convívio pois, os que vinham de fora, deslocavam-se em carroças ditas de canudo por serem cobertas por uma protecção de forma cilíndrica, formada por uma estrutura de cana, coberta de uma tela de pano encerado, que protegia os passageiros da chuva e do sol. Com essas carroças, autênticos antepassados das actuais tendas e roulottes, formava-se um vasto acampamento no qual permaneciam, em alegre convívio, pessoas das mais variadas proveniências, algumas por cerca de uma semana. Aí se cozinhava e comia, aí se dormia e aí se cantava e dançava, sobretudo nas madrugadas, pois os bailes só podiam funcionar bem depois quando se acalmava a barafunda da feira e se calava a algazarra dos tendeiros e das potentes aparelhagens sonoras dos circos e carrosséis.

O São Mateus de Elvas era até meados do século passado, uma das maiores festividades que os campomaiorenses celebravam. Poupava-se durante meses para se pode ir até à Fêra d’Elvas por volta de 20 de Setembro.

Só os mais pobres, por falta de recursos, e os que cumpriam resguardo por luto ou por doença, ficavam. As carroças partiam uns dias antes ajoujadas de gente, de galinhas, de cabazes de comidas e de doçarias confeccionadas para a ocasião. Quem mais depressa chegasse, melhor lugar podia escolher para acampar nos olivais em volta do parque em que estaria montada a feira.

 Havia anos, principalmente os mais favoráveis para a agricultura e em que o clima em Setembro era ainda favorável, que Campo Maior quase se despovoava nos dias do São Mateus. Quem não podia ir de carroça, em caravana, ia a pé. Uma manta chegava para aconchego. Quanto ao resto, desde que houvesse dinheiro para a pinga e para o petisco, já se passava a contento.

Procuravam, os de cada terra, ficar juntos para melhor conviverem. Aliás, a feira era o pretexto para o que mais importava: o convívio que se ia gozar durante os dias que a feira durava. O São Mateus servia de pretexto para as parcas férias de que os menos ricos e os remediados podiam desfrutar.

Armados os acampamentos, gozava-se do descanso, da boa comida, da alegre convivência que a ocasião propiciava. De dia dormia-se muito e até tarde, por força de alguns excessos de bebida e porque as noites se prolongavam até de madrugada.

            As noites eram para a maioria destes romeiros o melhor que a festa propiciava. Formavam-se grandes bailes de roda animados pelo cantar e dançar das “saias”. Havia disputas assanhadas, muitas vezes entre grupos de terras diferentes. Surgiam a “modas novas”. Quadras engenhosamente elaboradas ao longo do ano encontravam ali o terreiro adequado para a sua pública exibição.

Arranjavam-se e desfaziam-se namoros. De vez em quando, uma ou outra rixa ensombrava a convivência por razões de exacerbado bairrismo, por melindres, ou por imponderadas ofensas à honra ou à dignidade dos presentes.

 

 



publicado por Francisco Galego às 18:15
Domingo, 18 de Setembro de 2011

Tempos houve em que cada povoação tinha as suas próprias festas e romarias. Mas, algumas delas, por motivos religiosos, ou pelo brilho das suas realizações, atraíam gente de outras terras, tornando-se famosas como locais de trocas, de diversão e de peregrinação.

No Alto Alentejo, sobressaía entre todas a Feira de São Mateus, em Elvas. A Feira de São Mateus remonta ao século XVI pois, segundo os investigadores, terá começado a funcionar entre 1525 e 1574. Cerca de duzentos anos mais tarde, veio associar-se-lhe uma peregrinação que, a partir de 1737, se começou a fazer no sítio onde se construiu o santuário do Senhor Jesus da Piedade. Tanto a feira como a romaria ganharam grande importância entre as gentes do Alto Alentejo, tanto mais que a sua realização, coincidindo com o equinócio do Outono, marcava o período em que se dava por encerrado um ano agrícola e se começavam a tomar as disposições para o arranque do ano agrícola que se ia seguir.

As pessoas, em grande parte as que estavam mais ligadas ao trabalho nos campos – aproveitando a romaria pela devoção, e a Feira de São Mateus por ser local de trocas muito necessárias às actividades agrícolas –, deslocavam-se a Elvas para aí permanecerem durante os três dias que durava o evento. Os transportes eram, nesses tempos, difíceis e lentos. Em volta do terreno da feira, formavam-se grandes acampamentos de gente vinda de quase todas as terras desta região.

Para além da grande diversidade de gentes que acorria a este evento, alguns vindo de terras bem distantes, é interessante constatar que, entre essas terras, tomavam relevo as gentes de Olivença, o que indica que eram ainda muito fortes os laços culturais que ligavam os oliventinos a Portugal.

A Feira de São Mateus em Elvas e a Romaria ao Senhor da Piedade tiveram o seu período de maior esplendor entre meados do século XIX e meados do Século XX.



publicado por Francisco Galego às 17:57
Domingo, 17 de Outubro de 2010

 

O Jornal de Notícias, Nº 37 de 15 de Novembro de 1928, na sua página 4, noticiava:

 

A empresa Ramos & Valente instalou num casão do Assento Militar um salão cinematográfico, tendo, para isso, efectuado ali algumas obras de adaptação.

A nova casa de espectáculos compõe-se de: sala para o público dividida em duas classes de lugares (geral e superior) com um pequeno palco para variedades; vestíbulo com bufete, bengaleiro e retretes com autoclismo, para senhoras e cavalheiros; casa de aparelhos, motor, depósitos de água, etc.

A inauguração teve lugar no dia 1 de Novembro do corrente ano, a benefício da Misericórdia, tendo o produto líquido sido de 573$00.

A casa estava à cunha e, se bem que se trate de uma instalação provisória e modesta, é de esperar que continue sendo muito frequentada, por não haver em Campo Maior qualquer outra diversão para entreter os longos serões de inverno.

O programa do espectáculo inaugural é que foi infeliz: duas fitas do mesmo género policial, tanto do agrado dos americanos, com muitas mortes, muitas correrias, muitas cenas de murro, trambolhões, etc., etc., pelo que no público das cadeiras se notava visível aborrecimento.

Aconselhamos a empresa a precaver-se contra os fornecedores que vão sempre impingindo gato por lebre.

Os programas mais atraentes e que ao público mais agradam, são aqueles em que se entremeiam filmes de arte, documentários e actualidades de carácter instrutivo, com pequenas farsas e comédias ligeiras, de fins meramente recreativos.

Outra coisa notamos também, para o que chamamos a atenção da empresa e da autoridade administrativa: na sala fumava-se à vontade, tornando a atmosfera pesada, o que não dispôs bem as senhoras que lá se encontravam. Cremos que está ainda em vigor o regulamento que proíbe que se fume nas casas de espectáculo e a polícia, a quem a empresa paga, não deve fechar os olhos.

Para terminar, felicitamos os nossos amigos Srs. Ramos e Valente e fazemos votos para que o público saiba corresponder à sua iniciativa que representa alguma coisa de importante no nosso meio, onde o capital raras vezes acorre a financiar empresas desta natureza.

 




publicado por Francisco Galego às 17:06
Quinta-feira, 01 de Outubro de 2009

           Estamos em plena época das vindimas. De manhã cedo encontro grupos de trabalhadores que esperam, junto à Avenida, o transporte que os leve até aos campos em que vão trabalhar. Quase todos são imigrantes. Pelo linguajar, são dos países do Leste da Europa. Trabalhadores naturais de Campo Maior, em trabalhos agrícolas, tornaram-se muito raros.

 

            No concelho de Campo há uma extensa área de cultivo da vinha e uma grande adega que se dedica à produção de vinhos de qualidade elevada, apetrechada com os mais evoluídos recursos e equipamentos. Mas há também um número considerável de pequenas adegas (a que, de tão pequenas, poderíamos chamar “adegas de garagem”), onde por métodos artesanais e segundo processos tradicionais, se fabricam vinhos que, em alguns casos, conseguem ter uma interessante qualidade.
            Noutros tempos, quando em Campo Maior predominava uma economia basicamente agrícola, a produção vinícola tinha uma certa importância, produzindo a terra tanto vinho que dava amplamente para exportar. Associada à produção do vinho, uma outra actividade dava fama aos artesãos de Campo Maior: o fabrico dos grandes potes ou talhas onde se produzia e guardava o vinho. Em certas famílias a arte do fabrico dos potes passava de pais para filhos, por várias gerações.
Nas linhas que seguem vou tentar dar breves notícias sobre as culturas da vinha e do vinho no concelho de Campo Maior, em tempos passados.
Em meados de século XX (1948), o Alentejo produzia apenas uma pequena parte dos vinhos de Portugal: em 8.176.000 hectolitros, fornecia 61 mil; a Estremadura e o Ribatejo, forneciam 3. 234.000; as Beiras 2. 185.000; o norte produzia quase dois terços do total. Só a Vidigueira e Vila de Frades se destacavam pela qualidade e quantidade do vinho que produziam.
Nem sempre assim terá sido, pois que documentos antigos referem a viticultura e a produção dos vinhos como uma actividade económica muito importante no Alto Alentejo.
Tomando como referência uma “Notícia de 1758”, as produções do azeite e do vinho ocupavam lugar de destaque na economia da região em volta de Portalegre. Essas produções são referidas com grande destaque enquanto a produção de cereais era pouco referida. As vereações de Portalegre revelam que os viticultores constituíam um grupo activo, uma verdadeira corporação com tal influência que, em 1800 conseguiram mesmo que fosse interditada a importação de vinhos para proteger o consumo do vinho de produção local.
Ao que parece, em meados do século XVIII a situação começara a mudar. O cura de Santa Maria Madalena refere que Elvas, Olivença, Cabeço de Vide, Fronteira e Campo Maior, localidades que antes importavam, tinham começado a produzir.
Aliás, o cura de Campo Maior na mesma “notícia de 1758” assinalava a importância da vinha na economia local: muito trigo, cevada, grão, muito vinho e de boa qualidade. Portanto, Campo Maior pode, a justo título, ser considerado como um dos concelhos vitícolas do distrito de Portalegre, nos séculos XVIII e XIX.
O desenvolvimento da vinha em Campo Maior está testemunhado num decreto de 12 de Agosto de 1819 que, em resposta a uma petição dos habitantes deste concelho, foi decidido que “os proprietários de vinhas e os vinhateiros da vila de Campo Maior tendo exposto que a viticultura ocupava um destaque considerável na vida da vila, e não apenas pela qualidade do vinho que produziam, a ponto de esta ter provocado a plantação de vinhas cada vez mais numerosas nas terras incultas e cobertas de matos, mas porque esta tão interessante actividade comercial estava actualmente ameaçada de ruína pela livre entrada de milhares de carregamentos de uvas que desde há anos têm vindo para esta vila doutras localidades fronteiriças, com origem em Espanha…”. Este texto mostra com clareza a importância da viticultura local, confirmada quarenta anos depois pelo redactor anónimo da memória da Academia que tão bem conhecia a região de Campo Maior, quando se queixava do progresso da vinha no Alentejo, dando como exemplo o caso de Santa Eulália, grande aldeia a Oeste de Campo Maior, onde a produção de aguardente tinha aumentado monstruosamente nos últimos vinte e cinco anos. Ora, o consumo desregrado desta bebida estava a provocar uma grande dissolução dos costumes. Houve insistente pedidos de medidas que atacassem o progresso da embriaguês entre os camponeses que os afastava dos usos e costumes de antigamente e que os atraía para as tabernas afastando-os dos trabalhos nos campos.
 Há referências documentais a que na aldeia de Santa Eulália se vendia muito vinho para a cidade de Elvas.
Borba já era então um afamado centro vinhateiro, sendo mesmo considerado um dos mais importantes do Alentejo desde o século XIII.
Por volta de 1820, existia nesta região do Alentejo uma grande pressão das terras para que fosse estabelecida uma situação de relego sobre o vinho para evitar que a importação de vinhos de fora prejudicasse a venda dos vinhos da terra. O relego consistia numa disposição legal que vinha da Idade Média e se destinava a garantir que não fossem importados vinhos de fora enquanto não fossem vendidos os vinhos da terra. Ao longo do século XIX foi aumentando a área de cultivo da vinha tanto mais que, nas pequenas propriedades se estabeleceu o hábito de associar a olival e a vinha intervalando as fileiras do olival com as do bacelo.
Estamos actualmente a assistir a um novo período de expansão das vinhas no nosso concelho.
 
 
 


publicado por Francisco Galego às 17:39
Segunda-feira, 16 de Março de 2009

 

            Corria o ano de 2004. Eu pusera em marcha o projecto de me reinstalar em Campo Maior, pois aproximava-se o fim da minha vida profissional com a chegada do momento da aposentação. Por isso vinha a Campo Maior com bastante frequência e começava a preparar a minha reintegração na vida local.
            Acabadas recentemente as obras do novo edifício, José Pedro Caldeirão, presidente da CURPI, convidou-me para visitar as novas instalações. Durante a visita mostrou-me uma estrutura esquisita, formada por três dependências abobadadas, que funcionavam como cave e armazém e se situavam abaixo do nível da rua. Aliás, essas abóbadas ultrapassavam a terreno do próprio edifício, pois se situavam concretamente debaixo do piso da rua que corre paralela à fachada. Perguntava-me ele se eu saberia dizer que construção seria aquela, pois que já vinha de tempos bastante recuados. Fiquei um bocado perplexo não descortinando explicação plausível que pudesse ser dada.
            Por essa altura, trabalhava como arqueóloga em Campo Maior, a Dr.ª Ana Carvalho Dias com a qual costuma trocar impressões sobre factos históricos e vestígios arqueológicos da vila, a qual me deu conta das suas buscas para tentar determinar a localização da desaparecida Porta de São S. Pedro, acesso principal da vila até finais do século XIX.
            Não consigo explicar como mas, um certo dia tive a intuição que me permitiu dar explicação às ditas abóbadas que servem de armazém à CURPI: aquilo era, nem mais nem menos do que o pontão que servia de acesso à demolida Porta de S. Pedro, ultrapassando o fosso, noutros tempos cheio de água, que rodeava por aquele lado a fortaleza, formando a denominada Lagoinha que comunicava com a Lagoa ou Alagoa, situada junto das muralhas, do lado do Ribeirinho.
            Posteriores investigações permitiram confirmar esta hipótese de localização da porta e até encontrar, a sua representação. Esta que a seguir se reproduz, num desenho concebido, com muita propriedade e exactidão pela D. Umbelina da Mata que teve a amabilidade de, a meu pedido, o executar a partir duma gravura encontrada nos arquivos militares:
 

 

 

 

 

Na passada semana, encontrando-me eu nas Instalações da CURPI, onde funciona a Academia de Cultura e Aprendizagem – Universidade Sénior de Campo Maior, recebi a visita do Dr. José Carvalho, jovem arqueólogo que supervisiona as escavações para instalação das tubagens destinadas ao abastecimento de gás à vila, devido ao facto de esta decorrerem em zonas que podem ter relação com vestígios de valor patrimonial e histórico. Queria falar comigo para se esclarecer sobre o significado de certas estruturas que começavam a aparecer nas valas que estavam a ser abertas na rua adjacente ao edifício da CURPI. Essas escavações que foram conduzidas com todo o zelo e cuidado, permitiram confirmar a hipótese, anteriormente formulada, sobre a localização da demolida Porta de São Pedro. Lá estavam, exactamente no local previsto, os claros indícios dos alicerces da cortina que ladeava a porta e que unia o Baluarte do Príncipe ao Baluarte de São João, este também conhecido pela designação de Cavaleiro.
            Assim, confirmada a localização espacial da Porta de S. Pedro, acrescento o seguinte extracto das actas da Câmara Municipal de Campo Maior, que permite fazer a localização temporal da sua demolição:
 
11 de Outubro de 1902
 
            Ofício do capitão de engenharia, chefe da 4ª Secção em Elvas, rogando à Câmara se digne dizer-lhe quem a autorizou a se apear o arco das Portas de S. Pedro, a fim de poder responder a uma nota que recebeu da Inspecção de Engenharia.
            …O presidente informou que já havia respondido a este ofício de harmonia com a decisão tomada pela Câmara, que depois de ter ouvido dois peritos, mandou apear aquele arco visto que estava a desabar e com o trânsito impedido o que era motivo de justa reclamação.

 

 

A Porta de S. Pedro ou da Carreira, localizava-se ao fundo desta rua, entre o edifício da Escola e casa que, do lado direito, faz esquina com a rua de acesso ao Cavaleiro.



publicado por Francisco Galego às 20:19
Sábado, 06 de Setembro de 2008

 

           
 
Manifestei, por várias vezes, que uma das minhas principais intenções é a de levar até aos leitores o conhecimento de textos deste escritor campomaiorense que, para além de outras razões igualmente importantes, constituem preciosos documentos sobre o passado de Campo Maior.
Desta vez trago ao vosso conhecimento um texto que João Dubraz publicou na página 2 do nº 208 do jornal elvense A Democracia, em 14 de Setembro de 1876.
Este texto, não assinado, é o primeiro de uma série de artigos em que o autor sob o título de Carteira de um Viajante – Campo Maior, ficciona uma viagem com partida de Elvas tendo como destino a vila de Campo Maior. Neste primeiro artigo, é feita uma pormenorizada descrição dos arredores da cidade de Elvas. Um observador colocado no Forte da Graça, descreve o horizonte que se desdobra em seu redor. O que ele vai descrevendo é mais do que a vista pode alcançar: é o que o observador sabe que lá existe, mesmo além do alcance da sua visão. Mais do que observação, trata-se de uma descrição em cada lugar é nomeado, localizado e caracterizado com toda a precisão. No fundo, um guia ou roteiro que se coloca à disposição de quem queira obter conhecimento vasto e seguro desta região.
 Aqui fica o texto com uma sugestão: experimente o leitor subir ao Forte da Graça, de preferência equipado com binóculos e em dia de clara visão e ponha-se a observar seguindo as orientações do texto. Terá assim uma dupla lição, pois poderá perceber como as coisas eram há cento e cinquenta anos e quais foram as mudanças que, desde então se verificaram de Elvas.
Mas, ainda que não se disponha a fazer este passeio, o texto apresenta uma espantosa descrição que pode dar uma ideia interessante dos arredores desta cidade.
Ao contrário do que costumo fazer, hoje publico o texto com pequenas actualizações, ou seja, quase como o autor o escreveu e publicou.
 
            “Não se há-de arrepender, em verdade, alguém que não passe indiferente às belezas que o cercam se, procurando distracções e encantos à vista, ascender ao alto da serra de Nossa Senhora da Graça, entrar na fortaleza e, depois de ver o que ali há digno de ser visto, sair de novo, quando o Sol esteja a hora e meia do seu ocaso e percorrer as fortificações armado de um binóculo, por dentro da estrada coberta, se lhe for possível, ou pela vereda que serpeia em torno da fortaleza, se por outro modo não puderem encurtar o passeio. Há-de extasiar-se por mais de uma vez diante dos magníficos panoramas que a natureza desdobra, desde o olivedo que se lhe atapeta aos pés, até aos extremos longínquos do horizonte.
            Os plainos extensos da fronteira do reino, em que se destaca Badajoz, com a sua ponte de cantaria, o velho castelo, Santo Agostinho, a torre da Sé, o quartel de S. Francisco, ficando-lhe de fora, a uma banda, o forte de S. Cristóvão e a estação do caminho-de-ferro, como jardim no meio daquela aridez. E, a outra banda, o forte de S. Roque. Sobre o fundo, aquém da escarpada serra Machiel que parece desafiar novos titãs a escalar o céu, quatro povoações pequenas como que fazendo o cortejo à capital da Extremadura. Desde a ponte de Badajoz, o Guadiana, desenrolando as águas como fita de prata, reflectindo o raios do Sol. Mais além, um extenso ramo de vinhas, interrompido apenas na sua verdura por centenares de casais. Mais aquém o pão dourado pelo sol de Julho, as quintas pitorescas das duas albufeiras e os montes alvejando, como flocos de neve, espalhados por vales e cabeços.
            Ao longe, as serras de Albuera, testemunhas de uma das maiores batalhas que se têm ferido na Península. Valverde agrupado em torno da sua igreja.
            A serra de Olor, que serviu, até à entrada deste século, para traçar os limites de além Guadiana nesta parte, em cujos cabeços se eleva corpulenta a Torre de Almendral.
            Aquém da serra, Olivença, meio escondida por detrás de uma ruga do terreno, como que envergonhada de se ter naturalizado estrangeira e uma das aldeias que seguiram a mesma sorte de Olivença, obedecendo hoje à soberania de Afonso XII.
            São estes os pontos capitais do quadro mais pitoresco que a natureza e o homem têm produzido nestes arredores. Aqui, toda a atenção do observador se fixa na cidade de Elvas, encimada pelo seu castelo torreado, em que se observam, como espécimen arqueológico, as diferentes fases da arquitectura militar, desde as quadrelas de taipa do tempo dos mouros, até às torres de granito d’El Rei D. João II e, servindo-lhe de pedestal, a fortificação abaluartada d’El Rei D. João IV.
            Interpõe-se, dividindo Elvas do forte em que o observador está colocado, a ribeira do Ceto, em que, por meio de basto e vário arvoredo, sobressaem, uns após outros, os inúmeros casais prolongando-se, em ambas as margens, por cerca de dois quilómetros. Da direita da cidade parte, vencendo a profundeza dos vales em grandiosa arcaria, o aqueduto da Amoreira que vai perder-se na espessura dos olivais, deixando à sua esquerda a Piedade com a sua beleza e, à direita, S. Francisco com os seus ciprestes funerais. Por trás do aqueduto descobrem-se as duas eminências conhecidas por serra do Falcato e serra da Fortaleza. Uma escurecida de mato, outra escalvada e nua. Entre ambas, lá muito ao longe, confundindo-se quase no azul de um diáfano horizonte, o castelo de Monsaraz em alto monte, domina uma planície extensíssima. E as ruínas de Juromenha Velha, com alguma casaria de Juromenha Nova, parece que descansam na serra da Fortaleza, na sua vertente esquerda.
            Então, começa a encurtar-se o horizonte pelos altos do Rego e de Vila Boim, serra do Bispo e Assomada, sobressaindo do meio de um bosque de olivedo e azinhal, as aldeias do risonho Varche, a sua igreja de S. Brás, S. Lourenço das Vinhas, a Aldeia da Calçadinha e, muito próxima, a ermida de S. Jorge, o padrão das Linhas de Elvas e a aldeia do Vedor, nascida no século passado aquando da fundação do forte, em torno do qual o observador vai descrevendo uma circunferência quase perfeita.
            Sucede-se, a menos de tiro de canhão, a serra da Malefa, pedregosa, inóspita, em cuja esplanada, entre rochedos pode ver ainda hoje quem a ela for, os sinais de uma das plataformas em que o general Galluzo colocou a sua artilharia assestada contra o forte da Graça em 1808.
            Percorrendo a vista para a direita, deparam-se-nos as quintas de S. João, a das Longas, a de Rio Torto que ficam a uns seis a oito quilómetros. Mais além, a aldeia de Santa Eulália e, no horizonte, abrangendo uma larga linha recortada, Portalegre com as torres altas da sua sé, ao pé do pico da Senhora da Penha e a alta serra de S. Mamede, uma das mais elevadas do Alentejo, prolongando-se ininterruptamente até à de Albuquerque, num píncaro da qual se pendura esta povoação. Por último, a aldeia de Degolados e Campo Maior de que apenas se pode distinguir, a descoberto, a igreja de S. João a um extremo e, S. Francisco e S. Sebastião a outro, com os campanários da Matriz ao meio e, por trás as torres enegrecidas do castelo da vila.
            Do ponto em que está assentado Campo Maior, ao que o observador tomou por ponto de partida, encontra-se ainda afogueada pelos últimos raios de luz que o sol dardeja ao extinguir-se no horizonte, a ampla extensão das Fontainhas, sobre a via férrea de Leste e o pitoresco montinho das Choças, cercado de algum arvoredo, que o faz assemelhar a um jardim no meio da herdades.”


publicado por Francisco Galego às 18:18
Quinta-feira, 04 de Setembro de 2008

 

Tenho vindo, por consecutivas tentativas, a procurar dar uma amostra, necessariamente modesta, do valor literário e documental da obra de João Dubraz, escritor Campomaiorense do século XIX. Porém, julgo também de algum interesse dar a conhecer alguns aspectos mais significativos da vida do escritor.
Tenho a consciência plena de que este tema despertará muito fraco interesse, para grande parte dos leitores deste jornal. Mas, como, em contrapartida, alguns me têm manifestado entusiasmo pelas crónicas que tenho vindo a publicar, sinto-me na obrigação de corresponder aos que me dizem que gostavam de saber um pouco mais sobre esta questão.
Saber mais sobre o homem, torna-se bastante difícil porque, por um lado, ele foi muito parco a falar de si e da sua família; por outro, no seu tempo havia muito pouco quem pudesse escrever sobre um indivíduo que, ainda para mais, tendia a criticar os usos e costumes dos seus contemporâneos, na esperança utópica de assim contribuir para que eles se tornassem mais reflexivos, melhorassem os seus comportamentos cívicos, e as suas atitudes sociais.
No que respeita à sua família, tenho recolhido algumas informações de que já dei conta na crónica anterior. Muito recentemente, o Dr. Rui Vieira, correspondendo com amizade a um meu pedido, desencantou no Arquivo Distrital de Portalegre, um documento do cartório notarial de Campo Maior, Caixa 22, Livro 20, folhas 4 vº - 6, uma escritura de composição e partilha amigável que entre si fazem João Francisco Dubraz, sua mulher Ana Cândida Félix Dubraz, António Francisco Dubraz e Ana Rita Dubraz, todos de maior idade, moradores desta vila de Campo Maior, cuja partilha fazem dos bens do casal de seus falecidos pais Francisco Gonçalves Braz e Isabel Teodora de Vidal.
Por esta escritura ficamos a saber que João Dubraz tinha um irmão e uma irmã, ao que parece, ambos solteiros, devido a não serem acompanhados de cônjuges no referido acto. Podemos, mais uma vez, constatar que o nome Dubraz que adoptou como escritor, se tornou patrónimo de toda a família porque, mesmo o pai, que aqui ainda aparece referido como Francisco Gonçalves Brás, mais tarde, como já sabemos, aparece referido como Francisco Gonçalves Dubraz no assento de óbito do escritor.
Podemos também notar que as origens de João Dubraz foram relativamente modestas. Filho de um comerciante que amealhou alguns bens de fortuna, a mãe, bem como uma sua irmã, como ele próprio testemunhou nas suas Memórias …, não sabiam ler nem escrever. O facto de a mãe, ao contrário da mulher de Dubraz que já se situava noutra posição social, não ter adoptado o nome do marido, aponta também para uma condição relativamente modesta ou de fraco reconhecimento social.
A escritura está datada de 22 de Março de 1862, permitindo calcular que a morte do pai teria acontecido algum tempo antes, pois que, pela leitura da Memórias Contemporâneas, sabemos que sua mãe morrera em 15 de Agosto de 1858. A assinatura da dita escritura decorreu na residência de João Dubraz, na Rua da Misericórdia, onde seus sogros tinham residido e tiveram estabelecimento de comércio.
            Os bens patrimoniais referidos na escritura são:
João Francisco Dubraz, com assentimento de seus irmãos, toma posse plena e absoluta das três propriedades seguintes que eram de seus pais:
- uma morada de casas sita no Largo da Misericórdia (Terreiro) … compreende um pavimento térreo e dois andares superiores;
- um farrageal de oito alqueires de terra, ou seja, oito mil setecentos e doze centiares, sito em Vale de Elvas;
- um farrageal de cinco alqueires de terra, ou seja, cinco mil quatrocentos e quarenta e cinco centiares, junto às terras ditas do Forte (local do actual estádio de futebol) ;
Ana Rita Dubraz aceita de seus irmãos, como legítima paterna e materna, toda a mobília e roupas de casa de seus pais e seis sortes de terra na Defesa de S. Pedro;
António Francisco Dubraz toma a seu cargo todas as dividas do casal de seus falecidos pais, sustentará como seus que são doravante todos os compromissos, direitos e acções que pertenciam aos três herdeiros … para amortizar as aludidas dividas e liquidar a sua herança paterna e materna, os restantes bens móveis e imóveis do casal que ficam desde já sua propriedade. Obriga-se também a libertar, dentro de um prazo razoável, as propriedades que couberam a João Francisco Dubraz, as quais estão hipotecadas por dívidas que, segundo as condições deste contrato, ele António Francisco Dubraz aceita e reconhece como suas.
 
Apesar de não estarem declarados os bens móveis e imóveis que constituíram a herança que coube a António Francisco Dubraz (entre os quais estariam os que integravam o estabelecimento comercial que a família possuía no Terreiro), fica-se com a impressão de que os bens patrimoniais seriam razoavelmente avultados. Contudo, as dívidas e hipotecas referidas, parecem denunciar algumas dificuldades na fase final da existência paterna.
No mesmo Arquivo Distrital de Portalegre encontram-se várias outras escrituras de compra e venda de propriedades, entre elas algumas das que constam da referida escritura de partilha de herança. Nelas recolhemos a informação que o casal João Francisco Dubraz e Ana Félix Dubraz, foi progressivamente alienando vários bens imóveis do seu património familiar. Aliás, referências da fase final da vida do escritor, revelam algumas dificuldades financeiras do casal. O próprio Dubraz, por diversas vezes se declara pobre e tendo como recurso apenas os proventos auferidos com o seu trabalho como professor e como advogado provisional.
            João Dubraz casou em 10 de Outubro de 1847, com 29 anos de idade, com D. Ana Cândida Félix Dubraz, de 24 anos de idade, a qual era viúva de José António dos Santos, grande amigo de João Dubraz e que morrera prematuramente, devido a acidente com arma de fogo. Desse casamento nascera um filho, José António Félix dos Santos que veio a ser advogado muito conceituado em Elvas, onde fixou residência, mas que sempre manteve fortes relações afectivas com Campo Maior. João Dubraz tinha um carinho muito especial por este enteado que criou como se fosse mais um dos seus cinco filhos: Artur Heliodoro Félix Dubraz, que foi oficial do exército e viveu entre 1854 e 1925; Alfredo Constantino Félix Dubraz, que foi bibliotecário municipal em Campo Maior; Alexandre Herculano Félix Dubraz, funcionário público; Amélia Augusta Dubraz; Maria Joana Dubraz. Das filhas, apenas foi possível saber que Amélia Augusta casou com Benedito Cândido de Sousa Araújo, tendo, desse casamento nascido duas filhas: Alice Irene Dubraz de Sousa Araújo e Beatriz Dubraz de Sousa Araújo. Maria Irene casou com José Maria Eugénio de Almeida, 1º conde de Vilalva.
            Sabemos que o patrónimo Dubraz foi criado por João Francisco Gonçalves Brás que, ao tornar-se escritor afrancesou o nome por que era chamado em Campo Maior: João do Brás. Adoptou-o, primeiro, como pseudónimo literário e, depois, como o seu próprio nome. Podemos então supor que, todos os indivíduos que usam o nome Dubraz, poderão ser descendentes deste escritor campomaiorense.
            Fazendo uma pesquisa na Internet, foi possível verificar que existem poucos indivíduos e famílias que tenham incorporado no seu nome, o nome Dubraz e que estes se distribuem por vários pontos de Portugal, do Brasil e de mais dois países da América do Sul.
 


publicado por Francisco Galego às 17:59
Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

                Pretendi, com os dez artigos anteriormente publicados, esclarecer, na medida do possível, os aspectos essenciais da vida e obra do escritor campomaiorense João Dubraz.

À partida, a tarefa não era fácil devido, por um lado, à falta de informações de que disponho e à falta de rigor de algumas das informações que pude utilizar. Por outro lado, porque o próprio João Dubraz – que tanto escreveu sobre Campo Maior e sobre tantas personagens da sociedade campomaiorense do seu tempo – foi extremamente parco nas referências sobre si próprio e sobre a sua família.
Entre as fontes disponíveis encontrei a assinatura de João Francisco Gonçalves Braz, em acta da Câmara Municipal de Campo Maior datada de 10 de Setembro de 1836. Numa outra acta, datada de 17 de Agosto de 1837, é referida a graduação, com efeito a partir de 2 de Agosto, de João Francisco Gonçalves Braz, como “capitão da Companhia de Artilharia da Guarda Nacional deste concelho”, estando a acta assinada por João Francisco Gonçalves Braz.
Mas, vinte anos mais tarde, em 9 de Agosto de 1856, começara então, a sua carreira literária o nosso escritor, escrevia-se: deferir o requerimento do actual tesoureiro dos órfãos, José Duarte Ferreira, em que este pede para ser exonerado do dito cargo de tesoureiro, em consequência de servir há mais de 12 anos e se achar já em avançada idade, nomeado para o substituir a João Francisco Dubraz ao qual fará entrega de todos os dinheiros e documentos que existirem em cofre…
Nessa altura, colaborara já em jornais de Lisboa e publicara o seu primeiro livro – Achmet. Por isso, aparece já referido no DICCIONÁRIO BIBLIOGRÁPHICO PORTUGUEZ, Estudos de Innocêncio Francisco da Silva aplicáveis ao Brasil e a Portugal. Lisboa, Imprensa Nacional. 1859. Tomo III, P. 377 e 378:
            João Francisco Dubraz – Comerciante estabelecido durante alguns anos na praça de Campo Maior, e hoje em Lisboa, para onde veio em 1858.
João Pessoa, em CAMPO MAIOR – Galeria de Figuras, explica a mudança de nome da seguinte maneira: “António Francisco Braz (nome que não está de acordo com o que consta no assento de óbito, como adiante veremos), com loja de comércio no Largo do Terreiro, tinha um filho a que os fregueses e amigos chamavam, de maneira carinhosa, o João do Braz, mas seu nome completo sendo João Francisco Gonçalves Braz.
Afastando-se da vida de caixeiro, não desejando a profissão paterna, o jovem, confiando muito na sua pessoa, lançou-se na carreira intelectual, dedicou-se às letras com o nome porque era mais popular na sua terra, mudando, no entanto, a preposição do para du e juntando-a ao apelido; o do Braz deu o pseudónimo Dubraz que adoptou e aos filhos legou como apelido afrancesado.”
Não o legou apenas aos filhos porque, também a mulher e o próprio pai, passaram a ser designados pelo apelido Dubraz.
No Jornal elvense A Voz do Alemtejo, nº 111, de 5 de Abril de 1869, aparece, numa pequena notícia, uma contrafé intimando António Francisco Dubraz da vila de Campo Maior para que entregue ao agente dos legados pios desta comarca a quantidade de dezassete alqueires e meio de trigo ou duzentos quarenta e sete litros e duzentos e dois mililitros, foro imposto num ferragial no sítio das Pias, da mencionada vila, de que ele, Dubraz, é enfiteuta…”
Depois de publicados os dez anteriores artigos, Rui Vieira, quando deles tomou conhecimento, teve o cuidado de me enviar a cópia do documento – que muito agradeço e que a seguir transcrevo – o qual vem trazer importante esclarecimento e rigor no que respeita aos dados biográficos de João Dubraz:
 
ASSENTO DE ÓBITO DE JOÃO FRANCISCO DUBRAZ
Aos vinte e três dias do mês de Setembro do ano de mil oitocentos e noventa e cinco, às dez horas da noite, numas casas da rua da Misericórdia desta freguesia de São João Baptista, concelho de Campo Maior, arquidiocese de Évora, faleceu sem ter recebido os sacramentos da Santa Madre Igreja, um indivíduo de sexo masculino por nome João Francisco Dubraz, de idade de setenta e sete anos, proprietário e casado com Dona Anna Cândida Félix Dubraz, natural desta freguesia, moradora na dita rua da Misericórdia, filho legitimo de Francisco Gonçalves Dubraz, proprietário, natural desta vila, ignora-se a freguesia, e de Isabel Theodora de Vidal, doméstica, ignora-se a naturalidade, o qual fez testamento, deixando filhos, e foi sepultado no cemitério público desta vila. E para constar lavrei em duplicado este assento que assino. Era ut supra. O pároco João Rodrigues Dentes.
 
Com isto a questão não fica encerrada. Melhor será pensar que é o que se pode escrever, no estado actual do nosso conhecimento, esperando que novos dados, revelados por posteriores investigações, possam trazer novas precisões. Repare-se na falta de coincidência entre o nome do pai na contrafé, no assento de óbito e no testemunho de João Pessoa. Como se vê, os registos sobre as pessoa eram, no século XIX, ainda tão pouco rigorosos que davam origem a estas confusões.
            No fundo, mais do que a pessoa, o que, sobretudo, nos interessa é o escritor. Por isso, encerremos este artigo com o que, sobre ele, foi escrito nonº 110 de A Voz do Alemtejo, de 18 de Março de1869:
“O Sr. Dubraz é demasiado conhecido dos nossos leitores. Nas folhas volantes do Transtagano, da Voz do Alemtejo e da Democracia Pacífica têm admirado os dotes do seu espírito, a clareza das suas ideias e a independência altiva, mas sempre nobre, do seu génio. O que nem todos saberão é que este incansável apóstolo das ideias modernas tudo deve aos seus esforços, ao seu estudo, à sua vontade de ferro. Atravessando épocas bastante tristes em que o repouso do espírito e o amor ao estudo eram incompatíveis com os acontecimentos que se sucediam e em que tinha de figurar pelas ideias que já fervilhavam na sua mente, o Sr. Dubraz ficou com a educação literária incompleta e, se não nos enganamos, apenas a instrução primária e alguns princípios de latim coroavam os desvelos de seus estremecidos pais.
Serenada a crise política que ele próprio descreve e na qual teve tão triste parte, pelas perseguições de que foi vítima, era-lhe necessário abraçar uma profissão qualquer. Força das circunstâncias ou talvez alguma predilecção o levaram a escolher a vida comercial. Aí empregava as horas, em que os fregueses o deixavam em paz, a ler e a estudar, porque a actividade febril do seu espírito se não casava facilmente com os ócios que proporciona semelhante modo de vida.
Parece-nos que foi ainda no estabelecimento comercial que escreveu o Achmet, conto de fadas fundado em lendas populares, livro que viu a luz pública em 1852 e que a imprensa acolheu como uma estreia auspiciosa e que nada desdizia dos artigos que por esse tempo o Sr. Dubraz publicava no Pharol de Lisboa.
Mais tarde conheceu que a vida do comércio não era a que melhor quadrava ao seu espírito e, abandonando-a, deixou a terra natal e se dirigiu para Lisboa.
Aqui, os leitores cuidarão que a ambiçãozinha de algum emprego ou nicho inspirou a resolução do Sr. Dubraz. Enganam-se. Foi aperfeiçoar a sua educação intelectual. Persistiu na capital algum tempo e, quando se sentiu com forças, apresentou-se candidato a uma cadeira de francês e latim, a qual obteve sem grande dificuldade atentas as provas do seu concurso.
Actualmente ocupa estas cadeiras em Campo Maior (sua terra natal), com geral agrado dos seus patrícios e não menos satisfação dos seus amigos pelos valiosos serviços que há prestado à mocidade campomaiorense.
E, como o seu espírito laborioso se não satisfaz simplesmente com o labor do magistério, ainda emprega o tempo que este lhe deixa livre em exercer o mister de advogado provisionário. A Elvas tem vindo mais de uma vez, advogar perante o tribunal judicial da comarca e o calor dos seus discursos prova de sobejo que não deixa correr à revelia a causa dos seus clientes.
E agora que satisfizemos o nosso desejo, esboçando alguns traços da sua biografia, falemos do livro que recentemente publicou.
As Recordações dos últimos quarenta anos são, como diz o seu autor, esboços humorísticos, descrições, narrativas históricas e memórias contemporâneas; mas não se julgue, por isso, que o livro é uma espécie de torvelinho histórico, em que os factos se amalgamam sem nexo, nem sistema; pelo contrário, a cronologia é fielmente observada na dedução e, não obstante o picaresco do humor, divisa-se lucidamente o escrúpulo e a fidelidade de quem escreve história em que o narrador tomou parte grande (…)
Em conclusão: o livro do Sr. Dubraz é um grande serviço e, ao passo que merece registar-se na história contemporânea, deve aquele livro, ocupar um lugar distinto nas estantes do estudioso.
Felicitamos o Sr. Dubraz pela importância do seu trabalho, pelos conhecimentos históricos de que dispõe e pelo modo como os expôs.”
 


publicado por Francisco Galego às 17:02
Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

 

Porque tenho plena consciência de que a minha afirmação de que considero João Dubraz “o maior escritor campomaiorense de todos os tempos” pode suscitar alguma desconfiança, dúvida ou incredibilidade, resolvi publicar esta série de crónicas com o objectivo de dotar os meus leitores da capacidade de opinarem a este respeito, de modo fundamentado.
Com as oito crónicas anteriores, procurei dar a conhecer alguns dados biográficos e bibliográficos sobre este autor que tanto continua a contribuir para o conhecimento da História de Campo Maior. Puderam os leitores ficar com uma ideia acerca do Homem e da sua Obra.
Pretendo agora dar a conhecer alguns trechos que considero mais significativos, quer pela sua beleza literária, que pelo seu valor informativo. Começo com este belo texto que retirei da 2ª edição das Recordações dos Últimos Quarenta Anos, páginas 5 a 8, nas quais João Dubraz retrata, com grande elegância de estilo, a vila de Campo Maior como ele, que nela sempre viveu, a descrevia há 140 anos.
Actualizei a ortografia e introduzi algumas notas explicativas que me pareceram poder facilitar a compreensão do texto.
 
Vila antiga e praça de armas, da província do Alentejo, Campo Maior demora três léguas ao norte de Elvas, três ao oeste de Badajoz, três ao sul de Albuquerque e quatro a leste de Arronches.
O terreno onde está assente a povoação é alto ao Sul, baixo a Leste e Oeste, erguendo-se um pouco ao Norte. Sobranceiro a todos os lados da vila, na extremidade sul, eleva-se o castelo, forte, vistoso e imponente. Respectivamente às cercanias a praça é baixa e dominada por muitos cerros[1] a Leste, Norte e Oeste, na distância de mil a dois mil metros, o que constitui a sua defesa difícil e perigosa.
Pelo recenseamento geral[2] verificou-se que a população tem quase seis mil almas, volume importante aglomerado e comprimido num espaço comparativamente pequeno. Portanto, sendo certo que não é a mais extensa das vilas do Alentejo, é decerto a mais populosa, porque nenhuma tem tal número de habitantes dentro de muros.
São edifícios notáveis o Castelo, os muros da Praça[3], a Igreja Matriz, a de São João Baptista, o Depósito de Víveres[4] e os Paços Municipais. Entre as construções particulares sobressaem a casa dos Carvajais, a de Albuquerque Barata, a de João de Mello[5] e outras. Em geral, os prédios da vila, com excepções não raras, são pouco elegantes e o aspecto da povoação, conquanto que as ruas sejam regulares, deixa muito a desejar aos que lhe procuram aumentos.
A vila é abundante de água potável e os campos adjacentes, ainda que um pouco secos, são férteis e bem cultivados. Nota-se porém, durante o Estio, uma zona quase circular que tem de diâmetro alguns milhares de metros, cujo centro é o povoado, onde a vista quase só pousa sobre pés de plantas devastadas pelo ceifeiro. Como contrasta então este terreno árido, queimado pelo sol e pelo fogo, repugnantemente feio e incómodo, com os tapetes luxuriantes de verdura e semeados de papoulas que brotam no Inverno e se alindam na Primavera!
O clima é áspero pela deficiência de arvoredo que só abunda a dois e mais quilómetros dos muros[6]. No Inverno desce o termómetro a uma temperatura bastante baixa, elevando-se no Estio a ponto de se tornar o calor quase insuportável. O Verão é pois ardente e feio, o Outono temperado e agradável e o Inverno muito frio mas com dias tão suavemente deleitosos como os que se podem desejar na Primavera. Esta é irregular, ora fria ora quente, ora ventosa ora húmida, sendo as menos vezes as que se diz lhe serem próprias, isto é, suave e amena. Os belos dias de Campo Maior são quase sempre em Janeiro: nesses dias excepcionais o sol resplende sem deslumbrar e o calor dos seus raios, tépidos e voluptuosos, vem tocar-nos com a sensação castamente perfumada de um beijo de criança.
A gente é laboriosa, apaixonada pelo luxo do trajar, um pouco altaneira e imprevidente, geralmente bondosa e tratável. A educação pública e a polícia carecem todavia de cuidados que se não podem preterir.
Essencialmente agrícola, a povoação alimenta-se da uberdade da terra e só dela. Se a agricultura não constituiu exclusivamente outrora o lavor diário dos campomaiorenses, é hoje, e vai continuar a ser, o mais valioso recurso para que podem apelar. Exporta muito trigo, legumes e azeite e, tendo o cultivo da vinha assumido nos últimos anos proporções inesperadas, as bebidas alcoólicas constituem já um grosso rendimento. Também exporta lã e alguma laranja.
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É pouco notável em antiguidades o concelho de Campo Maior. O recinto ameado do castelo, o muro de uma albufeira romana ou mourisca[7], a capela do Salvador, junto ao Xévora, a Praça de Ouguela e alguns alicerces de procedência duvidosa, são por ventura as únicas antiguidades que podem, por agora, motivar investigações arqueológicas.[8]
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Indústrias novas não se têm criado e apenas se pode dizer que certas necessidades, provenientes do progresso da agricultura, foram remediadas. Nessa consideração tenho a construção de duas fábricas de destilação e alguns lagares de moer azeitona.
Os habitantes de Campo Maior são laboriosos, como já se disse, especialmente os camponeses. Em parte alguma está tão garantido o trabalho braçal e não há país onde a existência da máquina viva e pensante de arrotear a terra seja mais cómoda e segura, enquanto lhe não falecem as forças para o trabalho. Vive, porém, tão descuidosa e imprevidente, que a ideia de futuro não lhe imprime a menor ruga. Lida enquanto pode; depois esmola e esmola sem azedume (observa-se), como quem cumpre um fado, a que não há que resistir nem obstar.
Se um dia essas consciências rebeldes de moços arrogantes, que hão-de tornar-se velhos abatidos, pudessem abrir-se à razão, se cada um desses mancebos de constituição atlética, que porventura reputam eternas as forças da juventude, pudesse ser levado a poupar quarenta réis por semana ou, ao menos, cinco réis por cada dia de trabalho, essa quantia tão pequena bastaria para enriquecer o montepio que lhes assegurasse o pão da velhice.[9]
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Tal é a minha terra. Os que a conhecem não rejeitarão o quadro. Os que apenas ouviram falar dela, se lha pintaram diferente amigos ou inimigos, podem, se me quiserem crer, rectificar os seus juízos.
 
 

 


[1] Cerros = montes ou cabeços. O autor refere-se aos seguintes: Cabeça Gorda, Alto das Queimadas, Cabeça Aguda; Alto de Santa Vitória e Alto do Carrascal.
[2] Os dados demográficos referidos são do primeiro censo da população portuguesa elaborado de acordo com os métodos preconizados pela Estatística, levado a efeito em 1864 e publicado em 1868 com o nome de Estatística Civil. (Dic. Hist. Port., Joel Serrão, Vol. V p. 241)
[3] Praça de guerra ou fortaleza.
[4] O “Assento dos Víveres de Boca” que o povo designa simplesmente por Assento.
[5] Na Rua das Pereiras ou de João Minas.
[6] Por razões de estratégia militar de defesa da praça de guerra, o arvoredo tinha sido eliminado nos terrenos em volta das muralhas e baluartes da povoação.
[7] O autor refere-se à Barragem do Muro, que está hoje bem estudada, sabendo-se que se trata da maior barragem conhecida, construída pelos romanos a sul do Tejo.
[8] Note-se que o autor refere a Capela do Salvador mas não a Ermida da Enxara, nem a ponte romana que lhe fica próxima. Provavelmente porque estariam em ruínas ou porque não fossem visíveis e identificáveis.
[9] De notar as preocupações sociais de João Dubraz numa época em que não existiam ainda quaisquer medidas de previdência social, nem leis definidoras de horários de trabalho ou de protecção dos trabalhadores.
 
 


publicado por Francisco Galego às 19:06
Quinta-feira, 03 de Abril de 2008
 
Costa Cabral, governou o país, com mão de ferro e com forte apoio da rainha, desde o golpe constitucionalista de 27 de Janeiro de 1842 até ao início de 1846.
A grave crise económica que o país atravessava, agravou-se em 1845 com o mau ano agrícola que aumentou as dificuldades que a população suportava. Do ponto de vista político, os excessos do autoritarismo do governo congregaram na oposição um vasto sector político que colhia o apoio de miguelistas, progressistas e até mesmo cabralistas dissidentes, que não aceitavam a forma prepotente de governo imposta pelo de governo de Costa Cabral que, nesse mesmo, ano fora agraciado pela rainha D. Maria II com o título de conde de Tomar.
As revoltas populares levaram à queda do governo em 18 de Maio de 1846 e Costa Cabral teve de se exilar em Madrid.
Em Campo Maior dera-se o golpe militar de 24 de Março, em consequência do qual, João Dubraz fora constituído como administrador do concelho.
Mas a situação política manteve-se instável. O governo do duque de Palmela foi de curta duração porque, a 6 de Outubro de 1846,um golpe de Estado – a Emboscada – organizado do exílio em Madrid por Costa Cabral, dirigido por Saldanha, com o apoio da rainha, provocou a queda do governo de Palmela e a constituição de novo governo de cariz ainda mais autoritário e centralizador do que os anteriores governos cabralistas.
A situação política tornou-se insustentável e as forças de oposição juntaram-se de novo numa resistência determinada contra o cabralismo. Setembristas, miguelistas e cartistas dissidentes uniram-se na formação das juntas revolucionárias que culminaram na revolta da Patuleia (Outubro a Junho de 1847).
Mas, as potências estrangeiras acudiram em socorro do partido apoiado pela rainha. Esta intervenção determinou a derrota dos revoltados que, pela Convenção de Gramido (29 de Junho de 1847), consagraram a vitória do governo. Foram realizadas eleições em Agosto que deram a vitória ao partido de Saldanha e Costa Cabral
Em Junho de 1849 Costa Cabral regressou ao do país, assumindo a chefia do governo até ao golpe político militar da Regeneração em Abril de 1851.
Em Campo Maior viviam-se apaixonadamente estes acontecimentos.
 Logo a seguir à Emboscada, João Dubraz que fora de imediato destituído como administrador do concelho, foi preso e conduzido para Elvas: Às dez horas da manhã do dia 17 de Outubro de 1846, escrevia no meu quarto de dormir uma longa carta, quando repentinamente entrou meu pai e me disse pálido de comoção: É bem feito! Aí vêm prender-te!
Em baixo esperavam-no um oficial de diligências e três soldados. Outros tantos soldados esperavam com Epifânio Lopes da Mata, no Largo do Terreiro. Seguiram ambos presos até à casa do administrador do concelho, Vitorino, na Rua Direita, o qual lhes leu um ofício expedido de Estremoz, que ordenava a prisão de ambos e a sua condução a Elvas. Foram de seguida transportados para cadeia civil, tendo sido conduzidos pelo itinerário que desse maior exposição, a fim de que fossem publicamente expostos e humilhados: Rua Direita acima, Rua Nova, quartéis do castelo e Barreira. Foram prevenidos de que ao meio-dia partiriam para o Forte da Graça.
Pouco antes da hora marcada desceram da cadeia para a Praça Velha, onde estava formada a tropa. Saíram da vila pela “Estrada Velha”, a que partia da Porta da Vila. Os dois prisioneiros seguiam a pé enquadrados pelos soldados, os quais tiveram gestos e comportamentos tão estranhos que os dois prisioneiros se puseram de sobreaviso. Numa paragem de meia hora que fizeram junto ao Caia, dois soldados começaram a simular uma luta de baionetas, à laia de diversão. Mas a brincadeira foi-se tornando uma crescente provocação directa aos prisioneiros.
João Dubraz, com muita coragem e sangue frio, tinha conseguido conquistar a boa vontade do sargento, do oficial, bem como a de sua esposa que acompanhava o destacamento e mesmo a simpatia dos outros soldados. Isto valeu-lhes a pronta intervenção que acabou com a perigosa situação que lhes poderia ter custado a vida.
O sargento viria a confidenciar depois aos dois prisioneiros, que um mal intencionado, no castelo, antes da partida de Campo Maior, dera vinho misturado com pólvora aos soldados e mandara carregar com balas dezoito espingardas…
 Acabaram por não ir parar ao Forte da Graça mas à cadeia civil na qual entraram às sete horas da noite, no quarto de Nª Senhora do antigo Palácio dos Condes de S. Lourenço, onde iriam ficar pelo período de quase meio ano.
A situação no país continuava caótica. Na província do Alentejo só Elvas, Campo Maior e Estremoz obedeciam ao governo de Lisboa. Em Campo Maior, segundo as notícias que chegavam à prisão de Elvas, a situação era cada dia mais anárquica, pois o desmando autoritário dos novos governadores - o militar Abreu e o administrativo Vitorino – com a sua prepotência, punham tudo e todos em questão.
A situação geral era de guerra civil: a maior parte do território, estava com os patuléas e obedecia à junta do Porto. Contudo, todas as tentativas de confronto militar tinham resultado em vitórias do partido favorável ao governo e à rainha. Só em Março de 1847 foi possível às hostes revolucionárias, lançar uma vigorosa ofensiva contra as forças realistas.
A mudança da conjuntura política tornou possível estabelecer o plano de fuga que João Dubraz adiara enquanto entendera que a situação não era favorável aos seus intentos. Sabendo que os inimigos jamais o libertariam, porque isso equivaleria à confissão da sua estúpida tirania, achou que era chegado o momento de se libertar da opressão em que os tinham mantido por cinco longos meses.
A fuga teve lugar em 16 de Março de 1847. Estiveram escondidos em Elvas até 21 de Março, saíram disfarçados de valadeiros para passarem às Portas de Olivença, fortemente vigiadas. A primeira metade do mês de Março de 1847 fora fria e chuvosa; a terra estava encharcada e, a cada instante tínhamos que atravessar pântanos, onde nos atascávamos até ao joelho. Epifânio marchava com dificuldade devido a uma enfermidade que sofrera na cadeia e que o debilitava. Seguiram caminho pela freguesia da Ventosa, passaram perto de Santa Eulália, parando na Herdade de Almeida do lavrador colono Rasquilha que os ajudou com roupas, guias e cavalgaduras, seguiram pela margem direita do Caia até Arronches onde chegaram ao meio-dia de 22 de Março…
Pouco depois da sua chegada, tendo a cavalaria estacionada em Arronches saído para se apoderar de farinha nos moinhos do Xévora, no regresso, com os carros carregados do saque, tiveram um confronto com a cavalaria de Campo Maior. Neste combate, perto de Degolados, a 24 de Março de 1847, os cartistas de Campo Maior portaram-se muito mal. Assustados pela carga dos soldados da junta, fugiram em debandada largando as armas. Foram facilmente vencidos, apesar de serem em número de cento e sessenta e os contrários apenas noventa e sofreram pesadas baixas: cinco mortos, dezoito feridos e muitos ficaram prisioneiros em Arronches.
A Convenção de Gramido impôs a amnistia a todos os implicados nos acontecimentos dos últimos dois anos. Mas, em Campo Maior, os progressistas continuaram a ser considerados como uma espécie de partido fora da lei.
João Dubraz chegara então aos 29 anos e meio de idade.


publicado por Francisco Galego às 17:02
Terça-feira, 18 de Março de 2008
Na continuação da tentativa de traçar o seu perfil biográfico,  volto à  figura desse grande escritor campomaiorense que assinava os seus escritos com o nome afrancesado de João Dubraz.
Nascido em Campo Maior, filho de António Francisco Braz, comerciante com loja no Terreiro, hoje Largo Barão de Barcelinhos, e de sua esposa Maria Gonçalves.
Embora sejam muito escassas as referências que nas suas obras fez a aspectos da sua vida familiar, há uma bem interessante sob o seu nascimento que, ao mesmo tempo que fornece algumas informações, nos permite apreciar a beleza e valor literário da sua escrita:
“…é hoje, dia de S. Sebastião, 20 de Janeiro…. Desde pequeno ouvi dizer sempre que, neste dia, no ano de 1818, depois da meia-noite, viera eu ao mundo. A tal respeito levantava-se às vezes entre mim e a minha pobre mãe uma questão grave: pretendia ela que, tendo eu nascido na noite do dia 20, nascera ainda no dia de S. Sebastião. Não queria contar os dias senão de sol a sol. Eu sorria-me. Conhecia-lhe o fraco de uma certa parcialidade a favor do mártir santo e, tão mal a ocultava ela que dizia muitas vezes: Apesar de muito devota de S. João Baptista, por minha vontade chamavas-te Sebastião, para que o santo te livrasse de bexigas. Posso dizer pois que, por um triz não fiquei Sebastião e, não obstante, bexigoso… Minha mãe, ah! Não existe desde o nefasto 15 de Agosto de 1858. Os meus primeiros anos são apenas recordações suaves, que começam a cobrir-se da névoa que precede a nossa transformação física.”
(Dubraz “Recordações...”`, 2ª edição, p. 33)
 
            Quase nada se sabe da sua infância. Apenas que aos dez anos já sabia ler e escrever, sinal de que teria frequentado as aulas que nessa altura eram ministradas na vila, embora não tenhamos referências sobre o tipo de mestres que as terão leccionado.
            Em 1835, com 17 anos de idade alistou-se, como voluntário, na Guarda Nacional de Infantaria de Campo Maior, tendo recebido as divisas de graduado no posto de anspeçada.
Numa outra referência feita na página 58 da mesma obra, dá-nos a indicação de ter estado em Lisboa. Decorria ao ano de 1836, João Dubraz tinha 18 anos, mas nada informa quanto à duração e às finalidades da viagem. Refere que foi ele quem trouxe para Campo Maior a notícia de que estava eminente a revolução que viria a eclodir no mês seguinte e que ficou conhecida como “o Setembrismo”, movimento liberalista radical a que João Dubraz aderiu apaixonadamente:
A vinte de Agosto cheguei a Campo Maior vindo de Lisboa; havia nessa noite teatro, ou antes, cantavam lá umas espanholas proximamente chegadas à vila. Dirigi-me logo ao castelo para encontrar os meus amigos, que me rodearam, como é costume nas terras de província quando alguém vem de fora, em tempo de excitação pública. Disse que em Lisboa se esperava que a 24 houvesse uma manifestação no Porto a favor da Constituição de 1820 e que a Guarda Nacional estava resolvida (asseverava-se) a secundar o grito do Porto. Estas notícias causaram certo entusiasmo, as plateias pediram que fosse tocado o hino de 1820… (Dubraz “Recordações...”`, 2ª edição, p. 58)

TEATRO DO CASTELO
No ano seguinte, com 19 anos, começou a sua actividade política. Como ele próprio diz, a política tornou-se a sua paixão e exclusiva ocupação:
            “Desde 1837 até ao presente, não houve acontecimento político em Campo Maior do qual me não coubesse alguma parte, directa ou indirecta…” (Idem, p. 34)
Numa acta de reunião da Câmara Municipal de Campo Maior datada de 17 de Agosto de 1837, consta que João Francisco Gonçalves Braz, (note-se que ainda usava o nome de baptismo), se tornou furriel da Companhia da Guarda Nacional deste concelho, que se encontrava em formação, tendo esta graduação efeito a partir de 2 de Agosto.
Mas a situação política agravava-se. Havia sinais de uma crescente revolta e indícios de preparação de golpes de Estado. O Setembrismo estava em risco de queda do seu governo.
Em Julho de 1837 rebentou a sublevação militar conhecida por Revolta dos Marechais … O governo mandou pôr a Praça (Campo Maior) em estado de guerra e, não havendo suficiente número de artilheiros, lembrou-se não sei quem da formação de uma secção de guarda nacional de artilharia para reforçar os soldados de linha... com vinte e um voluntários saídos de infantaria. Eu fui um desses artilheiros improvisados e obtive dos meus camaradas o galão de anspeçada. (Idem, p. 62)
 
Seguiu-se um período de grande confusão. Os Cartistas (liberalistas moderados) ganhavam terreno a nível eleitoral e a nível de apoio das populações.
Por outro lado, surgiram guerrilhas armadas que espalhavam a insegurança, atacando as povoações. Algumas aproximaram-se dos termos de Elvas e Campo Maior.
João Dubraz envolveu-se muito na busca e perseguição dos grupos de guerrilha, na condição de elemento da Guarda Nacional. Por esta acção a Guarda Nacional foi louvada por portaria do ministério do reino de 10 de Abril de 1839. Por portaria do ministério do reino de 14 de Junho do mesmo ano, foi a secção de artilharia louvada e João Dubraz eleito capitão.
Mas a feição setembrista da artilharia tornava-a suspeita e era considerada perigosa pelos adversários. Começava a desenhar-se a transição política do Setembrismo moderado para a restauração do Cartismo.
Em Junho de 1840, sendo ministro do reino Rodrigo da Fonseca, a artilharia foi dissolvida, passando os seus membros para a infantaria, menos João Dubraz que passou para a cavalaria. A guarda nacional tinha os dias contados. A Revolta de Costa Cabral lavrou-lhe a sentença de morte. O setembrismo foi derrotado e João Dubraz deixou de ser militar e passou para a oposição ao novo regime que saiu da revolução vitoriosa.
 A Carta de 1826 foi restaurada em 1842. Começava uma nova época que viria a ficar conhecida como o Cabralismo, pois que Costa Cabral, futuro conde de Tomar, foi a sua figura de proa.
João Dubraz, com a idade de 24 anos, era um jovem que começara a entrar na sua idade adulta.
 


publicado por Francisco Galego às 14:41
Segunda-feira, 03 de Março de 2008
O CASTELO MEDIEVAL DE CAMPO MAIOR (Segundo Rui Vieira)
         “Descrever as origens de Campo Maior e do seu castelo de forma fundamentada não é tarefa fácil.
São hoje bastante divergentes e muito inseguras as explicações dos que escreveram sobre os primórdios de Campo Maior e do seu castelo.
Quanto ao castelo, uns atribuem a sua construção primitiva aos romanos, outros aos muçulmanos. Há ainda os que dizem que a fortaleza foi mandada reedificar por D. Dinis sobre as ruínas da construção muçulmana. Outros ainda afirmam que quando Campo Maior ingressou na coroa portuguesa, em 1297, não possuía castelo e que este foi mandado erguer por D. Dinis, em 1310. (…)
(Os documentos de que dispomos) … “permitem-nos afirmar que o castelo que, com a sua torre de menagem e com pequenas alterações, se conservou até 1732, era muito diferente do actual (…)
A fortaleza representada nos desenhos (de Duarte De Armas) de inícios do século XVI era de planta rectangular, ocupava uma área de mais de 6 mil metros, dispunha de sete torres, uma das quais era a de menagem, de configuração quadrangular, com cerca de 100 metros de perímetro. A altura desta torre seria de cerca de 35 metros (…)
A muralha que nos primeiros anos do século XVI cingia a vila, iniciava-se junto ao castelo, no sítio designado Curral dos Coelhos, seguindo pela Praça Velha, provavelmente no alinhamento da fachada dos edifícios que naquela artéria são fronteiros ao castelo, continuando-se pela Rua da Barreira, Bairro Fidalgo, Rua da Soalheira, prolongando-se até à Porta de Santa Maria (actual Porta da Vila).
(…) A aldeia fora das portas estendia-se pelos terrenos onde actualmente se encontram as Ruas do Poço, da Poterna, de Quebra-Costas e pela parte mais alta da actual Rua Direita. Na parte exterior à muralha existiam também duas igrejas (…)


publicado por Francisco Galego às 17:29
Domingo, 02 de Março de 2008
Figueiredo, António Dias da Silva e, (1732)
El-rei D. Dinis, que foi o primeiro a ter a sua possessão, enobreceu-a com o foral de vila e fortificou-a com um vistoso castelo no ano de 1310, o qual, situado em local eminente, … (tinha) seis pequenas torres que acompanhavam uma grande a que chamavam a da homenagem, que tinha de altura pouco mais de 160 palmos (mais ou menos 35 metros) e de circunferência 240 (cerca de 50 metros). No seu interior, além de um grande armazém de munições de guerra, sobrava espaço para um largo caminho que, com suave subida, conduzia a um espaçoso eirado (terraço), donde se descortinava até à distância de muitas léguas. Tinha uma tão forte abóbada toda de cantaria, à prova de bomba e de tal grossura que sobre ela trabalhavam duas peças de artilharia de bom calibre, que nela se conservaram até aos primeiros anos das guerras de 1704. Nessa altura foram experimentadas, tendo os seus tiros provocado tal abalo nas casas que foram descidas para se colocarem noutro local.
Este castelo cercava uma povoação situada num plano, de 1076 fogos em que se contavam 5.743 pessoas. Esta povoação estava guarnecida por uma forte e moderna muralha, defendida por nove baluartes, um orelhão[1] e uma praça baixa. Tem duas portas principais e uma falsa (poterna).
 


[1] Orelhão – Maciço arredondado de alvenaria no ângulo de um bastião de uma fortaleza, onde eram construídas as torres para proteger os canhões.


publicado por Francisco Galego às 17:26
Sábado, 01 de Março de 2008
 
CASTELO E FORTALEZA (Segundo João Mariano do Carmo Fonseca)
 
“…El-Rei D. Dinis reduziu a melhor forma essa tal ou qual fortificação que havia, construindo novos muros, reparando outros antigos, destruindo deles muitos que impediam a execução do plano segundo o qual se fez o castelo na parte mais alta da vila, ficando dentro dela a Igreja de Santa Clara que então era freguesia e se conservou com este mesmo Orago até 1530, em que, por ocasião de se reedificar a Igreja, se mudou para o de Nossa Senhora da Assumpção que teve até 1646, em cujo tempo a nova Igreja , construída no interior da vila começou a servir de paróquia sob o Orago de Nossa Senhora da Expectação.
Também ficaram dentro algumas casas, mas poucas; a maior parte ficou fora.
Foi construída esta nobre fortaleza no ano de 1310.
Desde o reinado de D. Dinis até ao d’El-Rei D. João II não consta que houvesse alteração na forma deste castelo. Porém, este monarca deu-lhe mais extensão, alargando-a para a parte do ocidente e acrescentando-lhe uma grande torre, a que se chamou torre de menagem…
D. João II pôs também novas Armas à vila.
Seguiu-se El-Rei D. Manuel. No seu tempo se fez a grande redução da vila ao estado em que de presente se acha, no que respeita á sua extensão. Para se formarem as muralhas que a cercam em roda, arrasaram-se edifícios e se cortaram ruas. Ainda hoje existem algumas; de outras nem memória há de seus nomes a não ser nas antigas escrituras. Fechada a vila com a nova cerca, ficou com duas portas: uma para Norte, com o nome de S. Pedro; outra para o Ocidente, com o nome de Santa Maria.
Antes havia na vila quatro entradas e em cada uma delas uma grande cruz de mármore. O lugar da primeira era junto à Ermida de S. Pedro. O da segunda junto à Ermida de Santa Maria dos Pastores, que ficava à parte esquerda do rastilho da porta deste nome. Esta Ermida veio a ser derrubada. A terceira estava numa encosta vizinha a esta Ermida. A quarta estava num sítio chamado o Prado.
Permaneceu a praça com esta fortificação todo o tempo que mediou entre El-Rei D. Manuel e El-Rei D. João IV, no governo do qual foi consideravelmente alterada e reduzida ao sistema moderno.


publicado por Francisco Galego às 17:19
Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
O CASTELO E A POVOAÇÃO (Segundo Estêvão da Gama):
 
(…) o castelo e a povoação que nele se desenvolveu foram fundados pelos mouros porque este buscavam os lugares altos para fazerem as suas fortalezas. Com o seu desenvolvimento acabou a povoação de S. Pedro.
 A vila foi restaurada depois pelos Peres de Badajoz no ano de 1219 que a deram ao bispado da cidade para sua fábrica.
O castelo de Campo Maior é obra muito antiga e muito forte tanto pela razão do sítio como pelas torres e muros. Foi fabricado pelos mouros e reparado pelo rei D. Dinis que levantou a maior torre que nele há e, por essa razão, quiseram alguns atribuir-lhe a honra de edificador.
 Os romanos é que lhe deram o nome com muita propriedade porque daquele sítio se descobre o maior campo que há põe aquele distrito.
Logo que El-Rei D. Dinis entrou na posse da vila reparou o castelo, edificou-lhe a torre grande.


publicado por Francisco Galego às 17:03
Domingo, 03 de Fevereiro de 2008
 
PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS LOCAIS
 
 
1368 - Em 15 de Março de 1368 D. Fernando esteve em Campo Maior, passando depois a Elvas e Juromenha.
1379 - D. Fernando confirmou os privilégios do bispo de Badajoz sobre Campo Maior. Até ao fim da primeira dinastia os bispos de Badajoz vão manter interesses em Campo Maior e a tutela da sua Igreja a nível espiritual.
1386 - No final de 1386, só Campo Maior, Ouguela e Olivença se mantinham ao lado de Castela. Repare-se que são as terras que tinham permanecido castelhanas até 1297. Ouguela por este tempo já perdera importância militar. O alcaide de Campo Maior era simultaneamente o alcaide de Ouguela.
1388 - Em 15 de Setembro de 1388, D. João I veio, à frente de um exército, cercar Campo Maior. A vila foi ocupada pela força, em 13 de Outubro, depois de resistir por quatro semanas. A população não só não recebeu com simpatia os portugueses, como correu a refugiar-se no castelo e a participar nas acções de defesa ao lado da guarnição castelhana. O alcaide do castelo de Campo Maior, a 1 de Novembro de 1388, prometeu a capitulação definitiva, caso não fosse socorrido por tropas castelhanas no prazo de trinta dias. Não tendo chegado qualquer reforço, a vila e o castelo foram entregues ao rei de Portugal em 1 de Dezembro de 1388. Só Olivença continuou a resistir, juntamente com Noudar e Mértola, no Alentejo, até ao acordo de tréguas assinado pelos reis de Portugal e Castela em Monção, em 29 de Novembro de 1389.
1392 – Nesta altura foram cortados todos os vínculos, incluindo os eclesiásticos que ligavam Campo Maior e Ouguela a Campo Maior. A partir de 1392 as vilas raianas desta região passaram a constituir uma administração eclesiástica própria.
1396 – Campo Maior tornou-se o centro militar donde partiam as acções contra os castelhanos nesta região da fronteira. Daqui partiu a expedição que na madrugada de 11 de Maio de 1396 cercou e conquistou o castelo de Badajoz.
1420 - Depois da conquista de Ceuta, D. João I pediu ao papa para erguer a igreja dessa praça a bispado. Martinho V, pela bula Romanus Pontifexde 4 de Abril de 1418,encarregou os arcebispos e Braga e de Lisboa de darem provimento a esse desiderato. Em Sintra, em 6 de Setembro de 1420, aqueles prelados deram sentença executória, passando Portugal a contar com mais uma diocese.
         Aproveitando o Cisma que dividiu a cristandade na obediência a mais de um papa, D. João I logrou transferir para o reino a jurisdição de certas terras portuguesas que estavam sob a alçada de dioceses castelhanas. Foi nessa conjuntura que Olivença, Ouguela, Campo Maior e outros lugares próximos, que estavam dependentes do bispado de Badajoz, passaram para a jurisdição da diocese de Ceuta. Outro tanto aconteceu com as ordens militares que aproveitaram para se separarem da dependência que os ligava a mestres localizados em Castela.
 
 
 


publicado por Francisco Galego às 12:29
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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