Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015
  1. O Recomeço das Festas que deixaram de ser “Festas dos artistas” e passaram a ser “Festa do povo”

 

 

O recomeço das “Festas” deu-se quando a sociedade reencontrou alguma estabilidade.

Ao contrário do que acontecia no país, os ventos pareciam voltar a soprar de feição para os campomaiorenses. Do ponto de vista económico, a vila inicia um período de desenvolvimento. De novo volta a parecer que Campo Maior constitui um caso de excepção, pois esta situação parece não poder generalizar-se. Perto, na vizinha Elvas, a população revolta-se com a subida do preço do pão, o que parece indicar graves dificuldades económicas.

Em Campo Maior, a vida comunitária reanima-se. Regressa de novo a vontade de voltar às Festas em Honra de São João Baptista que, desde 1909 não se realizavam. As festas voltam em força, recuperando o modelo tradicional conforme foi noticiado pelo recém-criado jornal – O Campomaiorense. Vão-se realizar três anos seguidos, no total de cinco vezes nos anos vinte: 1921; 1922; 1923; 1927; 1928.

É na segunda década do século XX, que a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas dos Artistas, para Festas do povo significando que passara a ser toda a população que se envolvia na sua realização.

A tradição foi reatada desenvolvendo-se segundo o projecto que se iria manter durante o século XX: A ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna, um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as alvoradas, os concertos pelas bandas locais ou convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais elas têm sofrido muitas interrupções, ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

            As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas e flores. Por isso, estas festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de condições económicas favoráveis.  

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 08:46
Segunda-feira, 09 de Fevereiro de 2015

           

  1. O MODELO DAS FESTAS NAS SUAS ORIGENS

 

 

Correio Elvense, Ano IX, nº843 de 10 de Setembro de 1898, p.2

Eis o programa dos grandiosos festejos que se hão-de realizar na vila de Campo Maior, em honra de S. João Baptista, nos dias abaixo designados:

Dia 10

Grandes ornamentações por todas as ruas e largos, tudo transformado em jardins por diferentes gostos.

Às 3 horas da tarde, Grande arraial no sítio de São Joãozinho, extra-muros da vila, tocando a filarmónica União, composta de elementos das duas filarmónicas desta vila, escolhidas peças dos seu vasto repertório.

Às 10 horas da noite arraial e iluminação à veneziana em todas as ruas e junto da Igreja de São João, tocando a filarmónica União até à meia noite, terminando com um balão confeccionado pelo Sr. Manuel das Chagas Pachão.

Dia 11

Às 6 da manhã alvorada por música em diferentes pontos da vila.

Às 11 horas, festa na Igreja de S. João Baptista, em que toma parte a reputada orquestra Campomaiorense, dirigida pelo Exmo. Sr. José Gonçalves Niza. Ao Evangelho subirá à tribuna sagrada o distinto orador, reverendo padre José Vitorino Alves Captivo.

Às 5 horas da tarde sairá a procissão, que percorrerá as ruas do costume, saindo a imagem de S. João com a sua irmandade e as do Santíssimo, S. Pedro, S. Sebastião, etc.

Às 9 horas da noite, iluminação em todas as ruas e largos, arraial, fogos de artifício, bailes populares e música na Avenida às portas de S. Pedro. O fogo é confeccionado pelo pirotécnico, David Nunes e Silva, da Sertã, que tanto agradou nos centenários Antonino e de Vasco da Gama, terminando com um balão confeccionado pelo mesmo pirotécnico.

Dia 12

Às 6 horas da manhã, alvorada por música na praça D. Luís 1º.

Às 11 horas, entrada do gado e embolação.

Às 3 horas da tarde grande tourada ao uso da terra. Gado bravíssimo, escolhido das manadas do abastado lavrador do concelho de Arronches, Exmo. Sr. António Pereira Claro.

Às 9 horas da noite, brilhante iluminação em toda a vila e na Avenida às Portas de S. Pedro, fogos-de-artifício de grande novidade, do mesmo pirotécnico da noite anterior, danças populares e música. Findou o fogo com um balão confeccionado pelo mesmo pirotécnico.

Dia 13

ÀS 11 horas, entrada do gado e embolação.

Às 3 horas da tarde, grande tourada; gado bravíssimo escolhido das manadas do abastado lavrador do concelho de Arronches, Exmo. Sr. Manuel Pereira Nunes.

Às 9 horas da noite, grande marcha aux flambeuax, dirigida pelos Ex.mos. Srs. José Augusto Leitão e Joaquim Manuel de Sousa Bexiga, indo à frente a comissão promotora dos festejos, seguida pelas classes artísticas campomaiorenses, percorrendo todas as ruas da vila, com a filarmónica União, dirigida pelo maestro Exmo. Sr. José Francisco Soares – em sinal de reconhecimento às pessoas que auxiliaram a comissão com os seus donativos. Terminam os festejos com um balão, confeccionado pelo Sr. Manuel das Chagas Pachão, e que subirá ao ar na Praça de D. Luís I.

 

 



publicado por Francisco Galego às 08:42
Quarta-feira, 04 de Fevereiro de 2015
  1. O Arranque inicial das Festas dos Artistas

 

 

Em 1893, foi um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, que resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptista que, mais uma vez, tinham deixado de se fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “artistas” por terem uma “arte” ou ofício não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante da população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas.

Nesta modalidade, as “Festas” realizaram-se nos anos de 1893, 1894, 1895, 1896, 1897, 1898, 1902, 1904 e 1909.

As famílias mais dotadas de posses começaram a decorar as salas de rés-do-chão, com janelas que abriam para serem admiradas pelo que passeavam pelas ruas nos dias de festa que ocupavam um fim-de-semana.

As famílias mais modestas punham vasos de plantas ao longo das frontarias. Todos, na medida das suas posses, procuravam iluminar as frontarias das casas e as janelas com lamparinas e candeias, pois que a iluminação pública era ou inexistente ou insuficiente.

Havia bailes com descantes e desafios, nos largos e nos cruzamentos das ruas. As touradas à vara-larga, era o principal acto de animação.

Neste período começou o hábito de ornamentar os largos com mastros que eram enfeitados com ramos de verdura, com bandeirolas de papel e com balões de papel iluminados.

As festas foram ganhando dimensão e prestígio, começando mesmo a atrair populações de terras próximas, principalmente de Elvas. As Festas de Campo Maior começavam tornar-se um fenómeno de cultura popular e lugar de romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

Este primeiro ciclo acabou porque acontecimentos com muito impacto social e política, alteraram o viver habitual da população. O primeiro foi a Implantação da República em 5 de Outubro de 1910, um importante facto a nível interno que mudou o regime político e desencadeou um período de sucessivos confrontos na sociedade portuguesa. Esta instabilidade interna foi agravada com a eclosão da 1ª Grande Guerra que durou de 1914 a 1918 e deixou marcas muito graves por mais alguns anos. Entre 1909 e 1921, as “Festas” não se realizaram.



publicado por Francisco Galego às 08:39
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015
  1. AS REMOTAS ORIGENS – Festas em Honra de S. João Baptista

           

 

Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Sobre as Festas de Campo Maior, as fontes mais antigas apontam para uma origem ligada ao culto de São João Baptista, o santo patrono que figurava no seu antigo brasão. Todos os anos, no dia 28 de Outubro, realizava-se uma missa solene seguida de uma procissão em honra de São João Baptista. Esta data celebrava o fim do Sítio de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como, as tropas espanholas sitiantes, tinham inesperadamente retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João Baptista, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que, nesse dia, se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.

Esta tradição foi mantida, mas com interrupções mais ou menos longas em períodos de grandes crises como a Guerra Peninsular, no início do século XIX, a Revolução Liberalista de 1820 e as guerras civis entre absolutistas e liberalistas que se sucederam até meados desse século. Quase no final do século, com a pacificação da sociedade portuguesa, a tradição foi retomada. Mas, devido à instabilidade meteorológica do mês de Outubro, as Festas foram recuadas para o mês de Setembro.

 



publicado por Francisco Galego às 17:36
Terça-feira, 14 de Outubro de 2014

A sua evolução

 

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais elas têm sofrido muitas interrupções ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

            As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas e, mais tarde, flores. Por isso, estas festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de condições económicas favoráveis.          

            Desde o recomeço em 1893, decorridos que são mais de 100 anos, as festas realizaram-se 36 vezes. Nos primeiros cinquenta anos, mantiveram-se com uma expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

            Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com crescente projecção para lá da fronteira, aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela emigração e pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações. As Festas do Povo de Campo Maior foram-se tornando um fenómeno de cultura popular, lugar de grande romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

 No ano de 2011, verificou a sua última realização que foi a 36ª realização destas Festas. A vila de Campo Maior, nesse final de Agosto, decidiu de novo transfigurar-se como se renascesse num turbilhão de formas e de cores. Da noite para o dia, tudo se transfigurou. Os tectos de cordões de flores protegeram as ruas do esbraseamento do Sol. Cada rua procurou encontrar uma maneira de se cobrir de ornamentos. Por todos os recantos apareceu a magia das flores e das ramagens. Rosas, cravos, tulipas e uma miríade de outras flores, feitas com tal perfeição que chegam a confundir-nos mais parecendo flores naturais e não flores de papel. Perante tamanha beleza, tornar-se-á inevitável o espanto causado por uma obra colectivamente realizada. Seremos levados a pensar como terá sido possível gerar este sortilégio, trazido através do tempo por sucessivas gerações de campomaiorenses. Até quando poderá subsistir tanta magia se vivemos tempos de tão escassos valores e de tão rasteiro pragmatismo?

Provavelmente as Festas do Povo de Campo Maior terão o destino de todos os milagres: existirão até que existam em Campo Maior, mulheres e homens capazes de acreditar que estes milagres podem acontecer. Como todos os fenómenos sociais, as Festas de Campo Maior, para garantirem a sua sobrevivência, vão de ter de evoluir adaptando-se às novas condições da sociedade campomaiorense.



publicado por Francisco Galego às 09:30
Sábado, 11 de Outubro de 2014

REMOTAS ORIGENS

 

Trata-se de uma festa popular que inicialmente tinha um carácter estritamente local e que remonta ao século XVIII.

Foi evoluindo desde uma fase, em que era penas uma celebração religiosa para comemorar um pretenso milagre e daí foi evoluindo para uma festa pagã, até se tornar numa evento de dimensão que vai para além dos limites da povoação onde nasceu e para além das fronteiras de Portugal. Originalmente eram designadas como Festas em Honra de São João Baptista.

Esta festa que se tem realizado nos finais de Agosto, princípio de Setembro – não todos ao anos, nem com periodicidade regular – consiste em ornamentar as ruas da povoação como elementos que começaram pelo uso de elementos naturais - folhagens e flores – mas que a partir de inícios do século XX, começou a usar ornamentos em papel, como predomínio das flores. Essa acentuação nas decorações florais acentuou-se de tal modo que hoje o evento é designado muitas vezes como a Festa das Flores.

As festas começaram por se realizar num fim-de-semana, sendo mais tarde alargada a sua duração para uma semana.

As ruas de Campo Maior são completamente cobertas de ornamentações feitas de papel que reproduzem uma grande variedade de flores naturais. O recurso ao papel talvez tenha sido a solução própria dum clima de verões muito quentes e muito secos duma região muito no interior de Portugal. De qualquer modo tornou-se notável que as ruas, de uma povoação de razoável dimensão, se torne por vezes num fantástico jardim em que as flores são o elemento dominante.

 

           

Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. As fontes mais antigas apontam para uma origem ligada ao culto de São João Baptista, o santo patrono que figurava no seu antigo brasão. Todos aos anos no dia 28 de Outubro, realizava-se uma missa solene seguida de uma procissão em honra de São João Baptista, na qual participavam solenemente as autoridades municipais que assumiam a organização e despesas de uma festa popular com iluminação nocturna das ruas, havendo bailaricos e descantes populares. Estranha data para tal celebração pois esse dia era consagrado a um outro santo: era o dia de S. Simão.

Mas, em Campo Maior, esta data celebrava o fim do Sítio de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como, as tropas espanholas sitiantes, tinham inesperadamente retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João Baptista, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que, nesse dia, se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.

Esta tradição foi mantida, mas com interrupções mais ou menos longas em períodos de grandes crises como:

- A Guerra Peninsular, no início do século XIX;

- A Revolução Liberalista de 1820 e as guerras civis que se sucederam até meados

 desse século.

Quase no final do século XIX, com a pacificação da sociedade portuguesa, a tradição foi retomada. Mas, devido à instabilidade meteorológica do mês de Outubro, as Festas foram recuadas para o mês de Setembro.

            Em 1893, um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptistaque tinham deixado de se fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “artistas” por terem uma “arte” ou ofício, não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante da maioria da população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas. Só mais tarde, na segunda década do século XX, a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas do Povo, significando que passara a ser toda a população que se envolvia na sua realização.

Desde que a tradição foi reatada em 1893, os jovens que promoveram as Festas, traçaram-lhe os projectos que se iriam manter durante quase todo o século XX: A ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna, um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as alvoradas, os concertos pelas banda local ou pelas bandas convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.



publicado por Francisco Galego às 09:27
Sábado, 01 de Outubro de 2011

As “Festas do Povo” têm-se desenvolvido ao longo de mais de um século em várias etapas que correspondem a sucessivas adaptações às mudanças políticas e sociológicas por que foram passando o país e vila de Campo Maior. Isto sem falar das suas raízes, mais remotas, no início do século XVIII, em que a “Festa” não passava de uma celebração religiosa em honra de S. João Baptista e que tinha lugar no dia 28 de Outubro de cada ano.

Contudo, foi em 1893 que surgiu o modelo que iniciaria o processo que verdadeiramente originou as “Festas” que conhecemos na actualidade. Nesse ano surgiu o primeiro modelo que iria perdurar até meados do século passado e que consistia fundamentalmente em ornamentar os espaços públicos com ramos, com pequenas lamparinas de azeite, com balões de papel para protecção das velas de cera para iluminar as ruas à noite. Os mais abastados, tinham por hábito ornamentar e iluminar os átrios das suas casas que mostravam, mantendo abertas as portas e as janelas. Alguns artesãos construíam habilidosos engenhos ou interessantes cenários que exibiam nos largos ou em frente às suas casas.

 Neste primeiro modelo, as “Festas” consistiam em missa solene, procissão, mastros enramados, touradas, arruadas e concertos pelas bandas, iluminações nocturnas, cantares e bailes de roda.

Nos anos trinta e quarenta do século XX, começaram a aparecer as ornamentações de papel. Primeiro muito timidamente, consistiam em bandeirolas e franjas a ligar os mastros, mas ainda sem flores de papel.

O modelo a que poderemos chamar “das flores de papel”, só surgiu no início dos anos cinquenta. Concretamente foi nas “Festas” de 1952 e 1953 que apareceram as primeiras ruas que fizeram das flores o elemento principal da sua ornamentação. Os mais velhos lembrar-se-ão das “trapaças”, flores muito simples e singelas que substituíram as franjas e as bandeirolas na formação dos tectos e dos cadeados que substituíram os festões em ramagem de bucho.

Foi nesses anos que começou uma nova evolução que não parou até aos dias actuais.

 



publicado por Francisco Galego às 18:08
Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

Em mais de cem anos as festas realizaram-se 35 vezes. Nos primeiros cinquenta anos da sua existência, mantiveram-se com um expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

            Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com alguma projecção mesmo para lá da fronteira.

            Aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações, tornaram-se um fenómeno significativo da massificada cultura popular, lugar de grande romaria apesar de não estar ligado a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

            O desenvolvimento da economia local, mais uma vez devido ao efeito de fronteira com a torrefacção de cafés, constituiu a base de sustentação. A criatividade da população radicada numa tradição secular, criou o milagre destas festas que, apesar de muito copiadas, ainda não foram igualadas.

            Mas, como irão sobreviver as Festas se são tantas as mudanças e tão profundas as transformações que se estão a verificar?

 Como todos os fenómenos humanos, as Festas de Campo Maior vão de ter de evoluir adaptando-se a novas condições para garantirem a sua sobrevivência. Nota-se, neste tempo que vivemos, uma procura ainda imprecisa de novas soluções. Serão as mais adequadas?

            Do acerto das soluções e dos caminhos que se escolherem dependerá o seu direito a perdurarem ou a sentença da sua extinção. A lei da vida e da história não deixa lugar para as inadaptações.

            É nosso desejo e nossa fé que haja um futuro ainda mais glorioso para as Festas do Povo de Campo Maior.

 

(In, Francisco Pereira Galego, Campo Maior - Cantar e Bailar as Saias
 



publicado por Francisco Galego às 10:29
Quinta-feira, 08 de Setembro de 2011

           

Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Sobre as Festas de Campo Maior, as fontes mais antigas apontam para uma origem ligada ao culto de São João Baptista, o santo patrono que figurava no seu antigo brasão. Todos aos anos no dia 28 de Outubro, realizava-se uma missa solene seguida de uma procissão em honra de São João Baptista, na qual participavam solenemente as autoridades municipais que assumiam a organização e despesas de uma festa popular com iluminação nocturna das ruas, havendo bailaricos e descantes populares. Estranha data para tal celebração pois esse dia era consagrado a um outro santo: era o dia de S. Simão.

Mas, em Campo Maior, esta data celebrava o fim do Sítio de de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como, as tropas espanholas sitiantes, tinham inesperadamente retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João Baptista, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que, nesse dia, se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.

Esta tradição foi mantida, mas com interrupções mais ou menos longas em períodos de grandes crises como a Guerra Peninsular, no início do século XIX, a Revolução Liberalista de 1820 e as guerras civis que se sucederam até meados desse século. Quase no final do século, com a pacificação da sociedade portuguesa, a tradição foi retomada. Mas, devido à instabilidade meteorológica do mês de Outubro, as Festas foram recuadas para o mês de Setembro.

            Em 1893, foi um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, que resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptista que, mais uma vez, tinham deixado de se fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “artistas” por terem uma “arte” ou ofício não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante da população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas. Só mais tarde, na segunda década do século XX, a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas do Povo, significando que passara a ser toda a população que se envolvia na sua realização.

Desde que a tradição foi reatada em 1893, os jovens que promoveram as Festas, traçaram-lhe os projectos que se iriam manter durante quase todo o século XX: ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna, um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as alvoradas, os concertos pelas bandas locais ou convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais elas têm sofrido muitas interrupções ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

            As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas e flores. Por isso, estas festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de condições económicas favoráveis.  

            Desde o recomeço em 1893, decorridos que são 118 anos, as festas realizaram-se 35 vezes. Nos primeiros cinquenta anos, mantiveram-se com uma expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

            Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com crescente projecção para lá da fronteira, aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações. As Festas do Povo de Campo Maior foram-se tornando um fenómeno de cultura popular, lugar de grande romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

 Estamos, neste ano de 2011, perante a 36ª realização destas Festas. A vila de Campo Maior, neste final de Agosto, decidiu de novo transfigurar-se como se renascesse num turbilhão de formas e de cores. De uma noite para o dia, tudo se irá transfigurar. Os tectos de cordões de flores protegerão as ruas do esbraseamento do Sol. Cada rua terá procurado encontrar uma maneira de se cobrir de ornamentos. Por todos os recantos aparecerá a magia das flores e das ramagens. Haverá rosas, cravos, tulipas e uma miríade de outras flores que, pela sua perfeição, chegam a confundir-nos de tão bem dissimulado estar o artifício de serem flores de papel. Perante tamanha beleza, tornar-se-á inevitável o espanto perante uma obra colectivamente realizada. Seremos levados a pensar como terá sido possível gerar este sortilégio, trazido através do tempo por sucessivas gerações de campomaiorenses. Até quando poderá subsistir tanta magia se vivemos tempos de tão escassos valores e de tão rasteiro pragmatismo?

Provavelmente as Festas do Povo de Campo Maior terão o destino de todos os milagres: existirão até que existam em Campo Maior, mulheres e homens capazes de acreditar que estes milagres podem acontecer. Como todos os fenómenos sociais, as Festas de Campo Maior, para garantirem a sua sobrevivência, vão de ter de evoluir adaptando-se às novas condições da sociedade campomaiorense.

 

 

                                                           FRANCISCO PEREIRA GALEGO (In, Programa das Festas de 2011)

 



publicado por Francisco Galego às 12:11
Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

Nos anos 40, a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e a Segunda Grande Guerra (1939-1945), grandes dificuldades, excassez de recursos. As Festas foram muito pobres: paus enramados e tectos em franjas de papel.



publicado por Francisco Galego às 10:59
Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Esta fotografia de início do século XX, ilustra porque se chama "enramação" ao enfeitar das ruas. Caniços e ramos constuituem a ornamentação. Nem flores nem quaisquer outros enfeites de papel. Assim eram as Festas nas suas origens.

 

 



publicado por Francisco Galego às 09:41
Domingo, 28 de Agosto de 2011

 

Esta fotografia, de finais do Sec. XIX ilustra bem porque chamamos "enramação" ao enfeitar das ruas. Repare-se que não há flores ou quaisquer outras ornamentações de papel.



publicado por Francisco Galego às 10:26
Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

 

 

 

 

 

HOJE É DIA DA "ENRAMAÇÃO"


(nome que indica as origens em

 

que a ornamentação

 

era feita à base de ramos como o

 

buxo e as folhas de palmeira)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AMANHÃ, 27 DE AGOSTO

 

 

 

 COMEÇAM AS

 

 

 

FESTAS DO POVO

 

 

 

 

 

 

 

DE CAMPO MAIOR

 

 

 

 

DE 2011

 

 


QUE SE PROLONGAM

 


 

ATÉ 4 DE SETEMBRO

 


 

 

 

 


 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

 DOS ANOS 70 EM DIANTE...

 

            As Festas do Povo de 1972, foram as últimas que se realizaram antes da restauração da democracia em Portugal. Este foi o ano em que a chuva ia estragando a festa. No segundo dia, quando tudo estava já engalanado, uma inesperada e arreliante chuvada, destruiu parte das ornamentações. Uns anos mais tarde, em 1995, no Linhas de Elvas, Manuel Carvalho descrevia de forma admirável a situação que então se viveu em Campo Maior:

Entre os milhares de pessoas que estavam em Campo Maior naquela tarde do primeiro domingo de Setembro de há 23 anos, é seguro que ninguém pode ter ficado insensível ao que se passou e ao que viu.

A vila tinha ficado bonita como sempre. O trabalho estava fresco, tinha sido terminado na madrugada anterior.

O que se passou por volta das cinco da tarde explica-se numa frase: uma grande trovoada, acompanhada de chuva e vento forte, deitou por terra a maior parte das ornamentações feitas em meses de trabalho.

Campo Maior ficou em silêncio; as pessoas choraram, para dentro, para si. Por certo houve quem se revoltasse. Não faltou quem tivesse encontrado uma explicação acima do natural: que a trovoada desoladora tinha sido à hora a que costumava sair a Procissão. Nos anos anteriores sempre saiu. Em 1972 não. De então para cá nunca mais a Procissão deixou de se formar.

Houve quem ainda tentasse, com flores feitas à pressa ou indo buscar umas sobras, refazer as ruas. Mas as Festas não ficaram como antes.

Num documento enviado à Comissão das Festas, Joaquim Cavaco Malagueira, o director técnico da empresa S.O.S. – TELEVISÃO, que veio fazer a animação sonora das ruas durante as Festas, recordava o temporal que varreu completamente as festas de 1972 em que, depois de no primeiro dia a chuva ter danificado o “paraíso das flores”, os campomaiorenses ainda tiveram forças para erguer novamente as suas ornamentações para novamente as verem destruídas pela chuva inclemente.

Portanto, o povo não se conformou com o destino adverso e de novo veio para a rua para repor a situação. Recuperou o que podia ainda ser aproveitado, refez o que estava irremediavelmente destruído. E a Festa continuou. Dizer que de castigo do céu se tratava porque a procissão não tinha saído, era dar explicações pouco apropriadas, porque não se deve conceber o céu como vingativo e já em 1965 não se tinha feito a procissão - que fora substituída por um cortejo de oferendas a favor da Santa Casa da Misericórdia - e tudo correra a contento.

 Esta edição das Festas de 1972, que decorreu de 3 a 10 de Setembro, seguiu de muito perto o modelo das realizadas nos anos de 1964 e 1965. Desta vez, voltaram as touradas com grandes cartazes, com elencos formados por grandes nomes do toureio a pé e a cavalo. Nos espectáculos de variedades recorreu-se a artistas espanhóis de pouca nomeada e a amadores campomaiorenses para animarem um espectáculo luso-espanhol. Numa das noites, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), apresentou um Espectáculo para Trabalhadores.

 

E, aconteceu Abril...


Durante nove anos o povo não quis saber das suas Festas.  A grande embriaguez da liberdade, os conflitos e a aprendizagem de uma nova forma de conviver, suspenderam por algum tempo a possibilidade de qualquer projecto comunitário.

Durante algum tempo, o Povo não foi inteiro, nem indivisível. Foi plural nas suas crenças, nas suas aspirações, nos seus projectos de convivência social. Com o 25 de Abril, a grande euforia da liberdade finalmente conquistada, fez esquecer qualquer outro projecto dentro de uma sociedade que se lançava num grande e tumultuoso processo de mudança. Foi preciso esperar pelo restabelecimento de um novo equilíbrio social para que as Festas se tornassem de novo desejadas e possíveis.

A reconciliação tardou porque foi difícil conciliar as diferenças. Mas, quando foi possível, as Festas voltaram, elas próprias, a tentarem a necessária adaptação a um novo modelo de comunidade.

 

 

ANOS 80 – O “GIGANTISMO” DAS FESTAS

 

As primeiras Festas pós – 25 de Abril, foram as Festas do Povo de 1982 As Festas decorreram de 5 a 12 de Setembro, tendo sido 92 as ruas engalanadas.

Este ano de 1982, foi o ano da reconciliação na comunidade campomaiorense. Aceites mutuamente as diferenças e o direito de todos à opinião e à divergência, tornava-se de novo possível a colaboração em projectos em que todos participassem.

A partir daí as Festas não pararam de crescer, em qualidade e em fama. Atraindo multidões, e dando a ideia de que iria  finalmente manter alguma regularidade quantos aos anos de realização. Em 1985 e em 1989 houve Festas.

 

Mas, 1992 foi o ano do NÃO. Por mais esforços que se fizessem, não foi possível mobilizar as vontades:

Tentando manter a periodicidade de três em três anos, as Festas chegaram a estar projectadas para o ano de 1992. Manuel Carvalho, no Linhas de Elvas, chamou ao ano de 1992 o Ano do Não. Na sua crónica explica como as coisas se posicionaram:

No Outono de 1991, juntaram-se uns argumentos para chegar ao coração dos campomaiorenses: Que 1992 ia ser um ano muito importante para Espanha com os Jogos Olímpicos de Barcelona, a Capital Europeia da Cultura em Madrid e a Expo em Sevilha; que Campo Maior, ao lado da Espanha, poderia ganhar com esta movimentação ibérica; que as Festas do Povo eram o grande cartaz da vila; que devia haver Festas em 1992.

A tudo isto o Povo virou costas e, porque na altura andava revoltado com a desatenção do governo em relação a Campo Maior em matéria de saúde, deu um rotundo “ Não” às pretensões apresentadas.

Habituados a dizer “Sim” cada vez que um carro de som anunciava Festas, os campomaiorenses deixaram claro: Primeiro o Hospital, depois as Festas.


Em 1994, foi criada a Associação das Festas de Campo Maior, com a finalidade máxima e prioritária de realizar e promover as Festas do Povo. As Festas voltariam a realizar-se em 1995, 1998, 2002, 2004 e, neste ano de 2011 voltam a realizar-se.

           



publicado por Francisco Galego às 08:07
Domingo, 21 de Agosto de 2011

À semelhança do que já acontecera com os programas de 1957 e 1964, também o deste ano de 1965, apresenta uma capa de cuidado arranjo gráfico. A Câmara mandou fazer pequenos desdobráveis em português, castelhano, francês e inglês com informações e indicações de utilidade para os turistas.

Como novidade, em 1965 temos o interesse que as Festas começam a despertar na imprensa. Em 17 de Julho, o semanário A Defesa de Évora num número dedicado às Festas de Campo Maior que, nesse ano se realizariam de 5 a 12 de Setembro, incluía: uma entrevista ao Presidente da Câmara; outra a um locutor da Rádio Estremadura de Badajoz; um artigo em castelhano por António Santander de la Croix, Secretário Técnico do Centro de Iniciativas e Turismo de Badajoz,  publicado pelo diário espanhol Hoy em Setembro de 1964; o texto da comunicação do Vereador Municipal Sr. José Ferreira do Rosário ao 1º Congresso Nacional de Turismo em Lisboa, no qual se refere que a TVE se deslocou a Campo Maior para filmar as Festas de 1965, tendo depois feito a sua transmissão; o anúncio de que a C.P. dos Caminhos de Ferro vai dar a valiosa colaboração às nossas festas estabelecendo um serviço especial de venda de bilhetes a preços reduzidos para a estação de Elvas, das estações e apeadeiros desde Abrantes até Marvão, Beirã até Santa Eulália, Vila Viçosa e ainda as estações de Santa Apolónia em Lisboa, Vila Franca de Xira, Santana, Entroncamento e Barreiro, com validade para ida de 4 a 12 e regresso de 5 a 13 de Setembro…

O transporte dos passageiros que viajem nesses comboios será feito pela empresa de camionagem “Setubalense”… que vai conceder também certas facilidades…

Segundo o Jornal A Defesa, um carro alegórico às Festas do Povo de Campo Maior, participou em missão de propaganda das Festas, na batalha das flores realizada em Badajoz em 29 de Junho, dia de São Pedro. O carro ia decorado com motivos alusivos à ornamentação das ruas e o objectivo era aliciar os espanhóis a visitarem as Festas em Setembro.

O mesmo semanário dá-nos conta de que, a convite da Comissão das Festas do Povo, se deslocou a Campo Maior no dia 7 de Julho uma comitiva do país vizinho constituída pelo Delegado Provincial de Informação e Turismo, o Director de Hoy, o Secretário Provincial de Informação e Turismo, o Secretário Técnico do Centro de Iniciativas e Turismo de Badajoz, o correspondente da TVE e redactor gráfico de Hoy e um locutor da Rádio Estremadura, para apreciarem os preparativos das Festas do Povo deste ano.

O jornal O Século de 16 de Julho publicou uma notícia anunciando a realização das Festas e fez também, em Setembro, uma extensa reportagem sobre as Festas. Nesta se refere que houve uma recepção na Câmara Municipal aos representantes da imprensa escrita, da rádio e da RTP, tendo sido recebidos pelo Presidente, o Vice-Presidente, os dois vereadores Srs. José Ferreira do Rosário e Manuel Carrilho e dos membros da Comissão Organizadora das Festas: José Cipriano Mourato Saragoça (Pres.), Arménio Vitorino Costal, João Miguel Pereira Júnior, Manuel Veríssimo Cacheiro Cunha, João Lourenço Silvério, Manuel António Marchã, Marciano Leonardo Bicho, Artur Farto Rodrigues, Agnelo Ferreira Topa, João Paulo Favita Roque, Manuel de Almeida Nanita, António Gil Ferrão de Almeida Carrapato, José da Conceição Colim Tomatas e Manuel Santana Gaspar.

O Linhas de Elvas de 18 de Setembro, titulava: As Festas do Povo tiveram inusitado brilho. Continuando: Terminaram no passado domingo as tradicionais Festas do Povo que atingiram uma projecção excepcional. Referiram-se também de forma muito encomiástica às Festas, os jornais de expansão nacional Diário de Notícias e Comércio do Porto. A emissora Nacional deu grande relevo às Festas em vários dos seus programas.

Depois, seguiram-se sete anos em que as festas não se realizaram.

 



publicado por Francisco Galego às 09:55
Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

 

            Sobre as Festas de 1964, o Linhas de Elvas da primeira semana de Setembro, escrevia: Não há dúvida de que só uma grande força de vontade e um acrisolado amor à sua terra, levou os campomaiorenses a pensarem na realização das Festas do Povo, numa altura de certo modo difícil para todos.

            Por este motivo e, ainda que com sacrifício, não devemos negar-lhes a nossa colaboração, pela coragem e bairrismo que demonstraram, ao meterem ombros a uma iniciativa de tal amplitude.

            As festas de 1964 tiveram como iniciativa mais em destaque, a organização de grandes espectáculos capazes de interessarem e atraírem os vizinhos do lado de lá da fronteira. Pela primeira vez, o dia 7, Domingo, principal dia das festas, era dedicado á Espanha.

            Mantendo o esquema tradicional houve as festas de igreja, com Missa Solene e Procissão com as Imagens dos Padroeiros, alvoradas e arruadas com bandas de música e morteiros, bailes e descantes populares, concertos no Jardim Público. O programa oficial das festas privilegiou as touradas que começaram com duas grandes corridas nos dias da Feira de Agosto e continuaram com mais uma em cada um dos três primeiros dias das Festas. Mas, nestas touradas, o antigo sistema tradicional à vara larga, desapareceu para dar lugar à apresentação de alguns dos mais famosos toureiros da época em Portugal e Espanha, como os cavaleiros D. José de Atayde, José Maldonado Cortes e Frederico Cunha, os espadas José Trincheira, José Manuel Pinto e Sérgio Gozano, os forcados do Grupo de Amadores de Évora e dos Amadores Académicos de Lisboa.

            Nos espectáculos de variedades actuaram algumas das figuras destacadas do cançonetismo nacional e artistas vindos de Espanha. Para cada um destes espectáculos foram criados cartazes para afixação em paredes, atractivos, de boa qualidade e em quantidade que indica serem destinados a divulgação fora de Campo Maior.

            Pela primeira vez, um dos dias, precisamente o Domingo, dia principal das festas, foi programado como Dia dedicado a Espanha tendo, por isso, o espectáculo de variedades sido organizado com artistas espanhóis. O facto de a representação oficiosa espanhola ter incluído personalidades como o Governador da Província da Estremadura, o Alcaide de Badajoz, o Delegado Provincial de Turismo e um enviado da Televisão Espanhola, mostra que o objectivo terá sido atingido.

As Festas começavam a sua expansão para além área tradicional que se limitava aos concelhos de Campo Maior e Elvas com esporádicas influências nas áreas de Arronches, Portalegre, Castelo de Vide, Estremoz e Évora.

            No programa oficial, à imagem do que já tinha acontecido em 1957, nota-se a importância crescente da publicidade, com a cada vez maior presença de empresas de torrefacção de cafés, e um número considerável de empresas de fora, nomeadamente, Elvas, Portalegre e Lisboa.

            No relatório final apresentado pela Comissão de Festas, as receitas foram no valor aproximado de 173 contos, sendo a despesa no valor aproximado de 170 contos. Logo, a expectativa de lucro que deveria beneficiar a construção do edifício para o Colégio de S. João, saiu gorada. A Comissão entende por isso, dever chamar a atenção para aspectos negativos a corrigir no futuro. Por exemplo, atendendo à falta de um recinto próprio… as corridas de toiros são de dispensar em futuras festas dado serem um espectáculo muito caro e porque, nas presentes condições, a construção da praça provisória obriga ao dispêndio de alguma dezenas de contos, bastando para tanto dizer que o prejuízo atingiu uma verba de cerca de 18 contos.

Como aspectos positivos, as Festas do Povo de 1964 atingiram uma projecção tal que é necessária uma ajuda maior, muito maior, para o bom povo da nossa terra se sinta amparado materialmente… Pensa a comissão que nas próximas Festas será de toda a conveniência ser a Câmara Municipal a organizar os programas em seu nome, visto desta forma poder-se evitar grande parte dos encargos com impostos de que a edilidade deve estar isenta. Nas ruas da vila foi notória a falta de música que, além de alegrar o ambiente, desse aos doentes uma ideia do que se passava em toda a povoação. Julga-se pois indispensável uma rede de altifalantes bem distribuídos e ligados a uma cabine de som.

            Destaque-se o facto de, nestas Festas de 1964, se terem ornamentado 56 ruas e que foram as últimas a realizar-se com a duração de quatro dias. Na ornamentação das ruas ainda se recorreu bastante ao revestimento dos paus e das cordas com verdura de buxo, mas é o papel, em formas cada vez mais elaboradas e criativas, que constitui o grande espectáculo das Festas.

             Alguns órgãos de informação em Espanha como a TVE, o jornal diário Hoy e a revista Digame que se publica em Madrid, referiram-se a estas Festas do Povo, mas a imprensa nacional praticamente não lhes fez referência.

 



publicado por Francisco Galego às 10:40
Sábado, 06 de Agosto de 2011

 

            Sobre as Festas de 1964, o Linhas de Elvas da primeira semana de Setembro, escrevia: Não há dúvida de que só uma grande força de vontade e um acrisolado amor à sua terra, levou os campomaiorenses a pensarem na realização das Festas do Povo, numa altura de certo modo difícil para todos.

            Por este motivo e, ainda que com sacrifício, não devemos negar-lhes a nossa colaboração, pela coragem e bairrismo que demonstraram, ao meterem ombros a uma iniciativa de tal amplitude.

            As festas de 1964 tiveram como iniciativa mais em destaque, a organização de grandes espectáculos capazes de interessarem e atraírem os vizinhos do lado de lá da fronteira. Pela primeira vez, o dia 7, Domingo, principal dia das festas, era dedicado á Espanha.

            Mantendo o esquema tradicional houve as festas de igreja, com Missa Solene e Procissão com as Imagens dos Padroeiros, alvoradas e arruadas com bandas de música e morteiros, bailes e descantes populares, concertos no Jardim Público. O programa oficial das festas privilegiou as touradas que começaram com duas grandes corridas nos dias da Feira de Agosto e continuaram com mais uma em cada um dos três primeiros dias das Festas. Mas, nestas touradas, o antigo sistema tradicional à vara larga, desapareceu para dar lugar à apresentação de alguns dos mais famosos toureiros da época em Portugal e Espanha, como os cavaleiros D. José de Atayde, José Maldonado Cortes e Frederico Cunha, os espadas José Trincheira, José Manuel Pinto e Sérgio Gozano, os forcados do Grupo de Amadores de Évora e dos Amadores Académicos de Lisboa.

            Nos espectáculos de variedades actuaram algumas das figuras destacadas do cançonetismo nacional e artistas vindos de Espanha. Para cada um destes espectáculos foram criados cartazes para afixação em paredes, atractivos, de boa qualidade e em quantidade que indica serem destinados a divulgação fora de Campo Maior.

            Pela primeira vez, um dos dias, precisamente o Domingo, dia principal das festas, foi programado como Dia dedicado a Espanha tendo, por isso, o espectáculo de variedades sido organizado com artistas espanhóis. O facto de a representação oficiosa espanhola ter incluído personalidades como o Governador da Província da Estremadura, o Alcaide de Badajoz, o Delegado Provincial de Turismo e um enviado da Televisão Espanhola, mostra que o objectivo terá sido atingido. As Festas começavam a sua expansão para além área tradicional que se limitava aos concelhos de Campo Maior e Elvas com esporádicas influências nas áreas de Arronches, Portalegre, Castelo de Vide, Estremoz e Évora.

            No programa oficial, à imagem do que já tinha acontecido em 1957, nota-se a importância crescente da publicidade, com a cada vez maior presença de empresas de torrefacção de cafés, e um número considerável de empresas de fora, nomeadamente, Elvas, Portalegre e Lisboa.

            No relatório final apresentado pela Comissão de Festas, as receitas foram no valor aproximado de 173 contos, sendo a despesa no valor aproximado de 170 contos. Logo, a expectativa de lucro que deveria beneficiar a construção do edifício para o Colégio de S. João, saiu gorada. A Comissão entende por isso, dever chamar a atenção para aspectos negativos a corrigir no futuro. Por exemplo, atendendo à falta de um recinto próprio… as corridas de toiros são de dispensar em futuras festas dado serem um espectáculo muito caro e porque, nas presentes condições, a construção da praça provisória obriga ao dispêndio de alguma dezenas de contos, bastando para tanto dizer que o prejuízo atingiu uma verba de cerca de 18 contos.



publicado por Francisco Galego às 18:34
Segunda-feira, 01 de Agosto de 2011

AS FESTAS NOS ANOS 60

 

            Uma nova  tempestade política se levantou contra o regime salazarista com o movimento de descolonização posto em marcha por todo o Mundo. Em 1961, começou a contestação aberta em todas as parcelas do Império Português. A guerra colonial então desencadeada, causou profundas mudanças nas estruturas sociais, económicas e políticas do país.

            Assim, na viragem para os anos sessenta, começou o processo de transformações que iriam ditar o fim do chamado Estado Novo. Portugal, regularmente censurado pelas suas políticas em todas as instâncias internacionais, estava cada vez mais condenado ao isolamento. A proclamação do orgulhosamente sós de Salazar, era mais um grito de desespero do que a afirmação da força de uma convicção.

            No início dos anos sessenta, as coisas em Campo Maior pareciam correr de feição. Apesar duma guerra colonial que alastrara a várias frentes exigindo cada vez mais efectivos militares e da crescente instabilidade interna com a crescente oposição ao regime ditatorial, a forte e atenta acção da censura ajudava a criar a ilusão de que tudo corria normalmente. A guerra estava longe e dela sabia-se muito pouco, quase nada. O povo despolitizado e desinformado, ignorava a situação real em que o país se encontrava.

            Em Campo Maior, na década de sessenta, decorreram as obras da barragem do Caia que foi inaugurada em 1967. Durante algum tempo, o problema endémico do desemprego ficou mitigado. As obras ajudaram a manter uma certa melhoria a nível salarial. A indústria de torrefacção de cafés estava em franco desenvolvimento. A emigração massiva ajudara a aliviar a permanente e endémica situação de desemprego. Do ponto de vista social e económico, a situação em Campo Maior, podia ser considerada bastante favorável. Talvez isso ajude a justificara razão por que as festas se tenham realizado dois anos seguidos: 1964 e 1965.




publicado por Francisco Galego às 13:20
Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

No decurso dos anos cinquenta, Portugal conheceu uma importante transformação. Chegava ao fim a ideia de um Portugal país essencialmente agrícola e, com os planos de fomento, o país lançava-se numa política de desenvolvimento industrial que provocou a deslocação de grandes massas de população para as cinturas industriais de Lisboa e do Porto.

Em 1951, morreu o presidente Carmona, tendo-lhe sucedido na chefia do Estado, o General Craveiro Lopes. Os tempos de unidade dentro da orgânica do Estado Novo tinham terminado, pois as relações de Salazar com o novo Presidente da República, conheceram vários momentos de grande atrito.

Em 1958, o regime foi submetido a uma dura prova com a candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Só à custa de uma acirrada resistência, recorrendo a todos os processos para garantir a sobrevivência política, Salazar conseguiu manter o controlo da situação, fazendo eleger o Almirante Américo Tomás como presidente.

Mas, logo outra tempestade política se levantou com o movimento de descolonização posto em marcha por todo o Mundo. Em 1961, começou a contestação aberta em todas as parcelas do Império Português. A guerra colonial então desencadeada, causou profundas mudanças nas estruturas sociais, económicas e políticas do país.

Assim, na viragem para os anos sessenta, começou o processo de transformações que iriam ditar o fim do salazarismo. Portugal, regularmente censurado pelas suas políticas em todas as instâncias internacionais, estava cada vez mais condenado ao isolamento. A proclamação do orgulhosamente sós de Salazar, era mais um grito de desespero de causa do que a afirmação da força de uma convicção.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 361, 5 de Outubro de 1957

As Festas do Povo

                  

Extintos os últimos ecos das Festas do Povo que este ano foram promovidas e levadas a efeito a favor da Misericórdia, cabe ao provedor uma palavra de agradecimento à Comissão Executiva das Festas e de redobrada gratidão aos colaboradores espontâneos – que tantos foram – a par do louvor merecido ao grande Festeiro que foi o povo.

As Festas do Povo que, como se sabe, eram chamadas Festas dos Artistas, são feitas em honra do padroeiro da terra e eram assim designadas por se incumbirem da sua realização as Corporações das Artes e Ofícios e ficarem a cargo de comissões saídas da classe dos artistas.

É preciso dizer que, em Campo Maior, como no conceito popular, artista não é apenas o homem que se distingue pela sua habilidade, pelo seu génio ou pela sua arte. Artista é o operário de construção civil, o sapateiro, o alfaiate, o barbeiro e outros mais que poderíamos acrescentar agora, como o maquinista, o motorista, o mecânico, isto é, os profissionais nascidos com o aparecimento da máquina (…)

Mas o povo começou, desde o início das festas a reclamar o seu quinhão e foi ele que acabou por ser o único e verdadeiro artista.

Foi por isso mesmo que, em hora feliz, alguém se lembrou de proclamar que as Festas dos Artistas passavam a ser as Festas do Povo.

Era o povo que ornamentava as ruas, que decorava os largos, que concebia os arranjos pitorescos ou ingénuos de todos os recantos. Era ele que apresentava engenhos curiosos, fazendo brotar a água como força motriz para accionar minúsculas máquinas.

Recordo-me de ter visto graciosos comboios entrando ou saindo de pequenos túneis, engenhosas azenhas, curiosos moinhos de ventos, tudo com os seus figurantes próprios, dando às ruas, além do grandioso aspecto das decorações, o pormenor por vezes infantil, mas sempre artístico, que tanto prendia a curiosidade das crianças e a natural atenção das pessoas adultas. (…)

 

Pelo Dr. Francisco Tello da Gama



publicado por Francisco Galego às 19:32
Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

               As Festas, neste ano de 1957, deram um salto qualitativo no que respeita aos espectáculos programados: as corridas de touros deixaram de se realizar segundo o modelo tradicional à vara larga, dando lugar a espectáculos tauromáquicos com toureiros, forcados e cavaleiros profissionais. Antes e durante as Festas, começava a cuidar-se de organizar diversões que atraíssem os forasteiros, publicitando-as ao mesmo tempo que se recolhiam receitas para a sua realização. Nota-se que a dimensão das Festas crescia de tal modo que, a maneira tradicional de recolher fundos com peditório entre a população, já não era suficiente para fazer frente aos pesados encargos que estas comportavam.

Tudo isto indicia as grandes mudanças socioeconómicas que se estavam a operar na comunidade campomaiorense. A pujança alcançada pelas Festas pode ser explicada por estas transformações. Talvez devamos ainda juntar-lhe uma outra mudança sociológica, já antes referida e que se iria acentuar a partir dos finais dos anos cinquenta: a saída massiva de gente em migração para os grandes centros urbanos, principalmente para a cintura industrial da Grande Lisboa e a emigração para os países em processo rápido de crescimento económico. Essas tendências que tanto se iriam acentuar ao longo dos anos sessenta, marcaram profundamente a vida em Campo Maior. Estas modificações foram naturalmente determinantes para a transformação de uma pequena festa de carácter meramente local, num acontecimento que acabou por alcançar a dimensão de que desfruta nos tempos actuais.

            Podemos justamente considerar 1957 como o ponto de partida e o momento de viragem, de toda essa importante e significativa transformação. Porém, novos e importantes acontecimentos iriam determinar um novo período de interrupção. Desta vez , as Festas, ficaram por mais seis anos sem realização.

 

 

LINHAS DE ELVAS, nº 359, 14 de Setembro de 1957

As Festas do Povo registaram a afluência de milhares de forasteiros


               As Festas do Povo de Campo Maior que terminaram em 11 do corrente, atingiram este ano um brilhantismo raro e registaram a afluência de milhares de forasteiros.

               Torna-se difícil descrever com rigor absoluto o que foi essa extraordinária concorrência e, mais difícil ainda, transcrever as exclamações de justificada surpresa e admiração, a cada passo ouvidas da boca dos visitantes.

               Efectivamente, o aspecto da vila era um sonho. As ruas profusas e artisticamente ornamentadas, constituíram um motivo de atracção inigualável e original. Diremos mesmo que, a ornamentação das ruas de Campo Maior constituiu o mais sensacional número do programa e o seu cartaz mais vivo, mais colorido, mais gritante e aliciador. Trazidos por este cartaz, vieram a Campo Maior muitos milhares de forasteiros e das expressões proferidas e por nós ouvidas, uma delas se tornou axiomática: Isto é único no país!

               Estas exclamações ouvidas a cada passo não são um exagero. São a expressão fiel de quem recebeu a mais bela e surpreendente novidade. Com efeito, o que aconteceu nas Festas do Povo de Campo Maior, é único no país.

               Não se descreve. Não se transmite por maior que seja o nosso desejo e o génio criador do repórter. É preciso ver. É preciso viver as horas de sonho que o povo de todas as ruas de Campo Maior sabe criar para sua glória e para alegria e satisfação dos visitantes.

               A tradição destas festas manteve-se este ano no seu melhor nível e o povo da minha terra, o povo bom de Campo Maior, tem jus a que lhe tributemos nestas colunas todo o nosso apreço (…)

               Dos números do programa a cargo das comissões constituídas, também é justo que se diga terem sido criteriosamente elaborados e escolhidos. Ranchos folclóricos, fogo-de-artifício (podia ter sido mais e melhor), corridas de touros (que se devem ao espírito inovador de João Vitorino Paio), cortejo de oferendas, festividades religiosas, bandas de música, Serão para Trabalhadores pela Emissora Nacional (deficiente e extraordinariamente caro para a sua curta duração), bailes, etc., etc.

 

Por Marciano Ribeiro Cipriano



publicado por Francisco Galego às 19:22
Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

Mais uma vez uma interrupção por três anos vem colocar o problema da falta de regularidade na realização das Festas. Quando regressam em 1957, talvez porque ainda estavam muito presentes os problemas e as críticas levantados em 1953 e que apontavam para a grande falta de publicitação das Festas, a preocupação com este aspecto leva a que, desde muito cedo, tenham começado as iniciativas para desenvolver actividades que permitissem angariar os fundos necessários e motivar as pessoas para as Festas que se iam realizar.

            Devemos ainda notar que, nos anos cinquenta, se começa a prestar maior atenção ao canto e à dança nos bailes populares, antes referidos como descantes, cantigas ao desafio, despiques, “balhos” ou “balhes” de roda e que agora passam a ser referidos como as “saias”, destacando-se como uma genuína manifestação de cultura popular das gentes de Campo Maior.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 358, 7 de Setembro de 1957


Linhas de Elvas em Campo Maior

 

Conforme já temos anunciado, iniciam-se amanhã e prolongam-se até 11 do corrente, as tradicionais Festas do Povo de Campo Maior.

Quando o nosso jornal começar a circular nas ruas de Campo Maior, toda a vila estará em plena festa. As suas ruas, primorosamente ornamentadas, oferecerão o aspecto de um belo e viçoso parque, alvorada de sonho que a intuição artística do povo criou e na qual põe toda a sua alegria e mocidade.

São festas diferentes de todas, as festas de Campo Maior. Nelas transparece uma capacidade de realização e de graça que encanta e que se grava de forma indelével na nossa alma.

Para completa elucidação dos nossos leitores, e em homenagem à gente da nossa terra, a seguir se transcreve na íntegra o programa geral das festas.

 

Dia 8

Às 7 horas – Inauguração das Festas, repique de sino e salva de 21 tiros. Alvorada pela Banda da Academia Musical e Recreativa de Sacavém e pela Banda Municipal de Campo Maior.

Às 8 horas – Missa solenizada com cânticos e orquestra na igreja de S. João Baptista.

Às 10 horas – Procissão com a imagem de S. João Baptista para a igreja matriz, abrilhantada pela Banda da Academia Musical e Recreativa de Sacavém.

Às 11 horas – Missa solene e sermão pregado pelo ilustre orador sagrado Cónego Dr. Felipe Mendeiros, Reitor do Seminário de Évora. O coro de vozes é acompanhado a harmónio e a orquestra sob a direcção do distinto professor de música do Seminário de Vila Viçosa.

Dia 9

Às 7 horas – Alvorada pela Banda Municipal de Campo Maior.

Às 8 horas – Chegada da Banda Municipal de Estremoz que percorrerá as ruas da vila.

Às 18 horas – Corrida de touros abrilhantada pelas bandas de Estremoz e Campo Maior.

Às 22 horas – Espectáculo na Praça da República apresentando pela Emissora Nacional, no qual actuarão os melhores artistas da rádio.

Dia 10

Às 8 horas – Arruada pela Banda Municipal de Estremoz.

Às 18 horas – Corrida de touros abrilhantada pela Banda Municipal de Estremoz.

Às 22 horas – Concerto no jardim público pela Banda Municipal de Estremoz.

Às 0,55 horas – Grandioso baile na esplanada do jardim público, abrilhantado por uma das mais categorizadas orquestras do país.

Dia 11

Às 8 horas – Arruada pela Banda Municipal de Estremoz.

Às 10 horas – Classificação das ruas ornamentadas.

Às 17 horas – Grandiosa gincana de automóveis no Estádio Capitão César Correia, onde se procederá à distribuição dos prémios atribuídos às ruas primeiras classificadas.

Às 22 horas – Espectáculo na Praça da República, onde se exibirá o famoso Rancho Folclórico da Casa do Povo de Casa Branca que rivaliza com o já conhecido Rancho da Casa do Povo da Vila do Cano.

Às 0 horas – Largada de um balão e encerramento das festas.

 



publicado por Francisco Galego às 19:16
Sexta-feira, 08 de Julho de 2011

 

LINHAS DE ELVAS, nº 157, 10 de Outubro de 1953

Festas Passadas


   (…) estas Festas do Povo – e não dos artistas – fizeram reviver em mim o já distante ano de 1927, conhecido pelo ano das Festas Grandes e a que eu tive o prazer de pertencer; que esforço, que dinamismo, que vontade pelo melhor, onde a Comissão e o Povo se irmanaram de tal forma que, aquela marcha nocturna na noite de 12 de Setembro de 1927, em que tomaram parte duas bandas de música, foi qualquer coisa que electrizou o povo e, quando nos cumprimentos ao presidente da Câmara e à casa solarenga dos Viscondes de Olivã, onde, na residência do primeiro se encontravam convidados pela Comissão das Festas, o Ministro Alves Pedrosa, o Comandante da Região Militar, o Governador Civil do Distrito e mais entidades oficiais; e, na segunda, as autoridades eclesiásticas com o Arcebispo de Évora, são momentos inesquecíveis.

   Quero relembrar entre tantos actos festivos, aquele solene Te Deum na igreja matriz, a que não faltou o elemento católico do distrito, aqueles concertos na velha Avenida, aquela inauguração do coreto feito pelo povo, que ali trabalhou e que agora viu transformado em” coreto de relva” (coisa que não se vê na mais recôndita aldeia do país). Aquelas orquestras organizadas pelas bandas e que até altas horas divertiam o povo que dançava, expandindo o prazer e a alegria pelas suas Festas.

   Tudo isto… vem a propósito da completa ausência de números e atracções mas, como poderia o nosso Norberto, com o seu dinamismo, com a sua vontade, com a sua experiência de velho festeiro, fazer em tão pouco tempo e com ausência completa de numerário, algo que se visse?

   Festas passadas – festas novas e mãos à obra e que durante um ano se faça a devida propaganda, que se leve ao conhecimento do Secretariado da Propaganda e Cultura Popular, que as Festas do Povo de Campo Maior precisam do seu auxílio e do seu amparo, para que se tornem conhecidas da maioria do país como as mais lindas festas, os mais lindos trabalhos que, sem artifício mas com simplicidade, sabem fazer as mulheres da mais linda terra do Alentejo. Que à Comissão do novo ano não falte coragem, não falte vigor e, sobretudo, auxílio dos que podem, com as autoridades oficiais no primeiro plano e com a vontade inquebrável do bom povo desta Leal e Valorosa Vila, saibamos todos, homens e mulheres, fazer o que se não tem feito – tornar conhecida a terra e o povo dos nosso maiores.

   Que as Festas do Povo sejam o elo entre as várias classes e que, no novo ano, se irmanem no enfeite e trabalho…

 



publicado por Francisco Galego às 19:05
Domingo, 03 de Julho de 2011

 

João Pedro Ruivo, então a residir na cidade de Évora onde atingira o topo da carreia de Tesoureiro (de 1ª classe) da Fazenda Pública, veio assitir às Festas do Povo que ele tanto adorava e que tanto divulgara com os seus escritos em vários jornais. Nesse ano no dia 11 de Janeiro, na mesma cidade, falecera seu pai, Pedro Daniel da Encarnação Ruivo, com 93 anos de idade, a quem Campo Maior tanto ficou devendo pelas obras que deixou e pela sua actividade em prol do prestígio e da cultura da sua terra.

É de notar a maneira como João Ruivo compreendeu que as Festas do Povo de Campo Maior se estavam a tornar um acontecimento que estravasava cada vez mais os limites do concelho e atraía um crescente número de forasteiros. Repare-se também como ele realça a originalidade desta Festas e o facto de elas resultarem do trabalho colectivo da sua população. Claro que outros eram os tempos, os recursos e as condições. Naturalmente que as Festas teriam de ir mudando, adaptando-se às mudanças que se iam verificando no modo de vida da população.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 155, 19 de Setembro de 1953


Campo Maior e as suas Festas do Povo


   Mais uma vez a branca e linda vila de Campo Maior realizou as suas Festas do Povo, outrora denominadas “dos Artistas” – que com verdade se podem considerar as mais típicas e características da região transtagana.

   Como num conto de fadas, nos primeiros dias deste Setembro das vindimas – e bem farto é o termo em vinhas de boa casta -, quase todas as ruas da vila surgem engalanadas em fantasmagórica apoteose, oferecendo o aspecto de um jardim das mil e uma noites que deslumbra os muitos forasteiros idos de várias terras do país para admirarem as tão afamadas festas que de ano para ano conquistam maior número de simpatizantes.

   É que estas festas possuem uma originalidade e um pitoresco que lhe marcam um lugar especial entre as que se fazem em outras localidades, nas quais apenas se ornamentam habitualmente os recintos restritos dos arraiais: adros, rossios, campos das feiras, parques, etc., o que não se dá naquele rico e progressivo burgo fronteiriço.

   Aí, a par da Comissão Central, constituem-se subcomissões em cada rua, em cada beco, em cada travessa, para angariarem fundos destinados às despesas a fazer com a ornamentação das mesmas. Depois, os pequenos e os grandes proprietários vizinhos, oferecem seus carros e criados para a condução da murta e materiais e emprestam madeiras para postes e mastros, escadas, cordas, ferramentas, etc. E com o produto das quotizações, compra-se fio, papel de cores, cola, balões, e alugam-se lâmpadas e tudo o mais necessário para que as decorações resultem brilhantes, pois os moradores vibram de fervorosa emulação bairrista e porfiam em apresentar o melhor e mais aprimorado trabalho numa exuberante e magnífica manifestação de vontade, numa admirável demonstração de arte popular que sai espontânea e viva da imaginação daquela gente simples e ingénua que “sente a cor tal qual a vê e lhe entra na alma”.

   Por isso, dois meses antes do grande dia para todos tão desejado, rapazes e raparigas, velhos e novos, reunindo-se aos serões nas casas térreas da rua, nas adegas, nas cocheiras e nos pátios, formam planos, elaboram projectos, esboçam desenhos, cada qual expondo sua ideia consoante lhe permite a sua intuição e sensibilidade estética. E discute-se, ornamenta-se, delibera-se, em longos serões que, por vezes, vão até alta madrugada, com sacrifício voluntário do repouso tão preciso aos que trabalham; recortam-se os papéis e dobram-se e desdobram-se nas formas mais engenhosas, para se transformarem em grinaldas e cadeados, em festões e bandeirinhas e em galhardetes e franjas; armam-se os lustres de arame, esparragueiras e pirliteiro; pintam-se os painéis alusivos e suas legendas, umas de sentido patriótico ou religioso, outras de sentido irónico ou amoroso; enramam-se os mastros e o cordame; levantam-se os arcos alegóricos e os pórticos; constroem-se os altares e os engenhos e as cascatas ou jogos de água que põem no conjunto uma nota de frescura e dispõem-se todas aquelas pequenas maravilhas que irão metamorfosear as ruas em caprichosos túneis de verdura, gritantes de colorido e de beleza emotiva.

   E todo o recheio das casas remediadas, como o das modestas casas de gente humilde, sai às vezes também para decorar as paredes alvinitentes das frontarias, em curiosa exibição de excepcional interesse folclórico: as faianças coloridas, os cobres, o estanho, o vermelho das frescas cantarinhas e moringues, os alforges mouriscos e as mantas alentejanas, as colchas e almofadas bordadas à lareira, no Inverno, para o bragal de noivado das moças casadoiras.

   E todo este mágico cenário mais ressalta quando, à noite, as abóbadas e tectos multicolores se iluminam profusamente de lâmpadas eléctricas e balões venezianos e a gente moça – quando não um ou outro par já entradote nos anos, que pretende relembrar seus bons tempos – exibe suas danças e cantares a que esbeltas e graciosas camponesas, estuantes de alegria e de entusiasmo, dão uma nota garrida e álacre no colorido dos seus trajes, no timbre de seus garganteados, no meneio de seus lindos corpos, no curioso sotaque de suas falas decididas, na melodia das típicas “saias”, acompanhadas pelo ritmo frenético de pandeiretas e adufes e no encanto de suas cantigas ao desafio e de despique, em que a veia poética da boa gente camponesa nos dá a garra dos seus sentimentos em quadras singelas de amor, de saudade, de ternura e de despeito ou de ciúme, traduzindo às vezes o seu ardoroso bairrismo e o seu orgulho, de mistura com zombeteira ironia, como esta:

                                     

                                       Já Elvas não vale nada;

                                      Badajoz vale um vintém;

                                      Campo Maior mil cruzados,

                                      P’las mocinhas que lá tem.


                                                                         João Ruivo



publicado por Francisco Galego às 18:30
Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

As Festas nos anos 50 (4)

 

Na continuação do texto anterior, Marciano Cipriano continua a relatar com riqueza de pormenores o que se passou durante as Festas deste ano de 1953. Repare-se contudo que, não se limita a fazer o elogio "bacoco" de o que foi realizado. Vai mais além, fazendo uma análise critica do que foi feito, com a intenção pedagógica de apontar o que está mal, para que possa ser corrigido, ou de propor que se tente mudar o que possa ser melhorado. É nestas atitudes que podemos observar o carácter, a inteligência e a seriedade de propósitos que este homem colocava em tudo o que publicava.

 

 

LINHAS DE ELVAS, nº 154, 12 de Setembro de 1953


Notícias de Campo Maior – As tradicionais Festas do Povo


Não há efeito sem causa…


(…) No que se refere à propaganda das festas, lacuna por demais evidente e clamorosa, é de lamentar que nunca se tivessem convidado os representantes da imprensa a assistirem a algumas das reuniões – e elas foram tantas! – que lhes fornecessem os elementos que os habilitassem a cumprir a sua missão.

   - Missão estimável e que não trazia quaisquer encargos para a organização.

   Tal comportamento trouxe, como era natural, o alheamento compreensível dos representantes dos jornais.

   Além do mais, a sua presença estimularia os organizadores dos festejos, posto que podiam sentir-se amparados por uma colaboração desinteressada e útil…

   Que o programa não este à altura do esforço admirável do povo que ornamentou e transformou em fantástica visão de sonho e beleza as ruas da vila? Não restam dúvidas a ninguém. Nós fomos os primeiros a lamentá-lo. Mas, concluir-se daí e empiricamente que poderia haver o propósito de colocar mal a nossa terra, é atitude que não corroboramos por nos parecer um excesso que a paixão ditou.

   À primeira vista e no auge da paixão, assim parece. Mas, serena e objectivamente, nenhum de nós aceita que assim tenha sido e nem mesmo aqueles que assim pensaram, o aceitam hoje.(…)

   Todavia, a crítica tem de fazer-se e não podemos deixar de referir que é realmente desolador obrigar uma banda que nos visita a efectuar os seu concertos na “cave” – como graciosamente lhe chamaram – do nosso formoso Parque que, diga-se de passagem, exibia feérica iluminação fúnebre; como foi igualmente desoladora a pobreza dos números festivos e, mesmo assim, não cumpridos integralmente.

   Quatro corridas de touros à alentejana e um balão que não subiu, é pouco para festas de tão elevado cunho tradicional e que tanto esforço demandam por parte do povo que lhes dá vida, calor e os encantos duma esplendorosa intuição artística!

   Excluído o excelente espectáculo dos artistas da rádio – que não pode dispensar-se em nossos dias, mas que é incaracterístico por não ter qualquer cunho regionalista – o programa das festas foi, praticamente, inexistente.

   É verdade. Mas acreditamos e, sinceramente o afirmamos, que a Comissão das Festas sentiu como nós a angústia e a tristeza dos comentários e exclamações de muitos forasteiros: “Isto é muito lindo!”… “As ruas são um encanto!”… “Isto é único!”… Mas “além disto o que há mais?!”…

   E, então, voltamos ao princípio: não há efeito sem causa e a Comissão das Festas pode ter sido o efeito de uma causa a que não soube estar atenta…

   E como eles, tal qual nós, são amigos da nossa terra é que quisemos apontar-lhes as falhas, não para os condenar unilateralmente, mas para que apontando os deslizes – que nós próprios podíamos cometer em idênticas circunstâncias – possamos contribuir para uma melhor actuação no próximo ano.

   Estas Festas do Povo de Campo Maior podem e devem constituir o nosso melhor cartaz; mas só em boa e leal colaboração poderemos levar o grito álacre desse cartaz através de todos os recantos de Portugal.

   E a crítica construtiva, serena, calma e objectiva é, em nosso entender, o primeiro passo para tão bela jornada.

   Por nossa parte assim o pensamos.

                                                              Marciano Ribeiro Cipriano

 



publicado por Francisco Galego às 16:20
Sábado, 25 de Junho de 2011

As festas nos anos 50 (3)

 

Mais uma vez, a intenção da anualidade das festas, aqui vai ficar testemunhada. As festas vão realizar-se no ano seguinte, no ano de 1953, procurando manter o que se julgava ser a tradição praticável mas que, devido a acontecimentos vários, era constantemente interrompida.

As Festas de 1953 atingiram um brilho inesperado, trazendo à memória dos mais velhos as saudosas Festas Grandes de 1927. É que, tal como estas, as Festas do princípio dos anos cinquenta, deixaram de ser promovidas por instituições e passaram de novo a ser organizadas por uma comissão constituída por artífices, como tinham sido até aos finais dos anos vinte.

 

 

LINHAS DE ELVAS, nº 154, 12 de Setembro de 1953


Notícias de Campo Maior – As tradicionais Festas do Povo


   Como tinha sido anunciado, realizaram-se nesta leal e valorosa vila de Campo Maior, nos dias 6, 7, 8 e 9 de Setembro, as populares Festas dos Artistas, este ano a favor da Cantina Escolar e da Santa Casa da Misericórdia.

   As ruas vistosas e artisticamente arranjadas, diferentes todas, apresentavam-se bonitas, garridas e mereceram dos milhares de pessoas que as visitaram os mais rasgados e merecidos elogios.

   Efectivamente, é de louvar este esforço colectivo de um povo artista, capaz de realizações desta natureza e levadas a cabo, note-se bem, a expensas particulares.

   Merecia Campo Maior das entidades oficiais protecção eficaz, propaganda verdadeira, tanto mais que estas festas são de acentuado cunho popular. Este espectáculo das ruas floridas é único em todo o país e devia ser conhecido de todos os portugueses. Para tanto, é necessário, propaganda em todos os sentidos, bairrismo extreme, programas mais variados e tudo o mais que se puder fazer, para que ao visitante se proporcionem umas festas de sonho.

   No programa das festas estiveram incluídos os seguintes números a que assistiram imensas pessoas: alvoradas e concertos pelas bandas de Campo Maior e Elvas; festividades religiosas em honra de S. João, padroeiro da vila; bailes populares; vistoso fogo-de-artifício e ainda um magnífico espectáculo de variedades, conseguido por Guilherme Ruiz e apresentado na Praça da República, também decorada e ornamentada a primor.

   O vasto e alegre recinto recebeu uma multidão numerosa que foi assistir ao grandioso festival e no qual actuaram os categorizados artistas: Luís Piçarra, Fernanda Peres, Margarida Amaral, Gina Maria, Eduardo Futre, os bailarinos excêntricos Geny e Bel Guerra; Casimiro Ramos e Castro Mota. A locução esteve a cargo de Mimi e Hernâni Muñoz, tendo Guilherme Ruiz, da Comissão das Festas, proferido antes do espectáculo, um caloroso discurso em que evocou as origens remotas das Festas dos Artistas, explicou a sua projecção no campo popular e beneficente e terminou, com muitos aplausos, exortando o povo de Campo Maior para que continue a tradição, apresentando estas maravilhas de cor e beleza que são as ruas de Campo Maior, no Alto Alentejo, nestes primeiros dias de Setembro.

   O trabalho dos artistas agradou completamente (excepção feita à orquestra Odeon) não lhe regateando o público fortes aplausos, não obstante a desagradável espera de uma hora que todos sofreram pelo começo do espectáculo.


Marciano Ribeiro Cipriano



publicado por Francisco Galego às 16:08
Terça-feira, 21 de Junho de 2011

As Festas nos anos 50 (2)

 

O texto que se transcreve é bastante extenso; talvez deamasiado extenso para o que é habitual em blogs. Mas a sua riqueza literária e valor documental, são tão grandes que seria pena cortar nele fosse o que fosse. Por isso vai publicado na íntegra tal como foi publicado pelo seu autor que eu bem conheci e que muito estimei e admirei apesar da grande diferença de idades.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 104, 13 de Setembro de 1952


As Festas do Povo de Campo Maior


Notas de reportagem por Marciano Ribeiro Cipriano:


   Inundados de beleza os olhos, transbordante de encantamento a alma, assim andamos de rua em rua durante os quatro dias que duraram as Festas do Povo da nossa terra.

   Perdidos qual vagabundo em voluntária peregrinação, não nos cansámos de admirar o poder criador de moços e velhos que, embora esgotados pela labuta diária na dura conquista do pão, ainda lograram ânimo para mostrar alegremente como a intuição artística e culto do belo vivem em seus corações, tantas vezes amargurados por mil vicissitudes e desenganos.

   - Admirável este povo da minha terra!

   - Magnífico o seu esforço, numa multiplicação de vontades inquebrantáveis para mostrar a naturais e visitantes, a beleza de sonho das suas festas!

   Chamam-se Festas do Povo, embora originariamente se tivessem designado por Festas dos Artistas [quer dizer, artífices] e nunca uma designação foi dada com tamanha propriedade!

   São, na verdade, as Festas do Povo, porque é o povo, numa manifestação de vontade colectiva, que transforma por completo a vila num encantador jardim das mais variadas e caprichosas tonalidades.

   Cada rua, cada travessa e até cada beco, surgem a nossos olhos qual encantador painel que mão de consagrado artista tivesse trabalhado.

   E a vila surge, assim, na alvorada do primeiro dia de festa, transformada num imenso e encantador parque que mais parece um conto de fadas das mil e uma noites.

   - E, durante quatro dias e quatro noites, toda a vila vibra e se agita, num frenesim constante e aliciador!

   A beleza e encantamento assumem aspectos de grandiosidade e as ruas, numa disputa admirável – sem prémios nem incentivos, note-se bem! – apresentam-se cada qual diferente da vizinha, mas todas elas mostrando ao visitante o poder de uma arte que não teve escola nem mestres, porque é uma intuição admirável e notabilíssima do povo – massa anónima – que guarda sempre em si o sortilégio vivificante das grandes realizações.

   Causa, na verdade, admiração e pasmo ver tanta beleza e arte semeadas por mãos calosas de rapazes e raparigas que, durante mais de três meses consecutivos, laboram pacientemente e até altas horas da madrugada, as florzinhas, lustres, franjas e demais enfeites originais em elegantes recortes de papel a cores.

   São estes moços e moças que, ajudados por outros moradores das ruas, embora com diferentes possibilidade mas como eles simples e compreensivos, quem se ufana de deslumbrar os visitantes, transformando a sua rua num encantador altar de beleza e de espontânea manifestação artística.

   E não se cuide que o custo elevado da ornamentação das ruas recebe qualquer auxílio material de entidades oficiais ou colectividades afins. A cada morador das ruas cabe o seu quinhão nas despesas e cada qual contribui conforme as suas possibilidades.

   Aos mais abonados – e ainda os há, felizmente com alma grande em algumas ruas – cabe naturalmente maior quinhão nessas despesas, mas ao fim e ao cabo sentem-se compensados pela alegria natural que sentem em compartilharem directamente na festa que podemos apontar como modelo da mais salutar fraternidade.

   Nem em todas as ruas acontece assim. Mas isso não ofusca de modo algum o brilho das Festas do Povo de Campo Maior.

   Percorremos as ruas de lés a lés e, por toda a parte, encontramos a mesma salutar demonstração de alegria, o mesmo brilho e o mesmo esplendor, mesmo naquelas ruas que a modéstia dos seus moradores não permitia largos voos.

   As Festas do Povo não se realizavam há perto de dez anos. E aquilo a que assistimos este ano leva-nos a acreditar que a sua realização anual é absolutamente viável e possível.

   Falam por nós o entusiasmo dos que para elas trabalharam; garantem-no, ainda, as expressões de êxtase e de deslumbramento que observamos nas muitas centenas de forasteiros que nos visitaram. Não exageramos nesta afirmação: - ultrapassou em muito a casa do milhar, o número de pessoas que visitaram Campo Maior durante os dias das festas!

   Se atentarmos que foi quase nula a propaganda – limitou-se às notícias que voluntariamente nos lembrámos de dar – tal número de visitantes deve encher-nos de júbilo. Dentre eles, contam-se algumas destacadas personalidades da região e até de Lisboa, importando salientar a presença dos senhores coronel Pereira Coelho, subdirector do Diário de Notícias e Dr. Cayola Zagalo, conservador do Palácio da Ajuda e conservador adjunto do Museu de Arte Antiga, que não esconderam a mais viva admiração pela inédita maravilha que desfilou perante os seus olhos.

   Com uma propaganda bem orientada e inteligentemente desenvolvida, as Festas do Povo de Campo Maior podem transformar-se no cartaz vivo e aliciador da nossa terra, convite admirável para que melhor nos conheçam e menos mal nos julguem…

   As Festas do Povo de Campo Maior, designadas originariamente por Festas dos Artistas, como já referimos, realizaram-se pela primeira vez há mais de sessenta anos. Vive ainda, felizmente, um dos seus promotores, o nosso simpático e querido amigo, Sr. José da Gama Piñol que, nos seus enérgicos e admiráveis quase noventa anos nos contou a sua origem e o respeito pela tradição vincadamente regional que, desde início, lhe imprimiram e que jamais se perdeu.

   Com que emocionante alegria e saudosa nostalgia, este nosso respeitável amigo, nos contou a origem das festas – que ele considera melhor designadas por Festas do Povo – e como os seus olhos brilharam de alegria por poder assistir, com perfeita saúde física e mental, às típicas e originais Festas do Povo que ele teve o privilégio de iniciar!

   Como se sentia feliz ao revelar-nos a origem das Festas do Povo de Campo Maior que ressurgiram depois de dez anos de intervalo, mercê do esforço deste belo povo e da ideia feliz da comissão promotora, os modestos operários Eduardo Costal, Manuel Vilas e Simão Tomatas, cujos nomes arquivamos com muita satisfação nas colunas do nosso jornal.

   Que o seu nome frutifique para o bom nome e prestígio de Campo Maior, são os nossos votos.

   As festas realizaram-se a benefício da Santa Casa da Misericórdia a comissão promotora foi auxiliada, em alguns pormenores da organização, pelos Srs. Dr. José Henrique Santos, João Minas e João Candeias.




publicado por Francisco Galego às 15:29
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

As Festas nos anos 50 (1)

 

A vila que transbordara para fora das muralhas desde o início do século XX conheceu, nos anos cinquenta, um tão grande desenvolvimento que o seu espaço urbano duplicou até ao fim do século XX. Os novos bairros começaram a aderir à dinâmica das festas. Rapidamente, o número de ruas ornamentadas que nunca, até aos anos cinquenta, alcançara a meia centena, atingiu no auge deste desenvolvimento, o número espantoso de mais de uma centena de ruas ornamentadas.

Os espectáculos de variedades passaram a constituir uma parte importante no programa das Festas, passando a recorrer a artistas de projecção nacional. As Festas são planeadas para atraírem cada vez mais a gente de fora que vem de terras cada vez mais distantes. Constituindo como objectivo a sua projecção  a regiões cada vez mais longínquas, as Festas  foram-se tornando progressivamente um acontecimento turístico de relevância.

Por outro lado, havia cada vez mais campomaiorenses deslocados. A grande migração para os centros industriais e o êxodo da emigração pra países além dos Pirenéus, começaram a definir uma nova realidade social:os pequenos centros urbanos tiveram de adaptar-se ao regresso periódico de uma grande massa dos seus naturais que, chegado o Verão, vinham passar as férias acompanhados das suas famílias.

Esta nova conjuntura, no começo dos anos cinquenta,  fez renascer a vontade de realizar as Festas, alargando a sua dimensão e melhorando muito a sua qualidade.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 102, 23 de Agosto de 1952

 

Festas do Povo


   Depois de um intervalo de 10 anos, Campo Maior leva este ano a efeito as suas tradicionais Festas do Povo.

   Únicas no Alentejo, dada a originalidade do seu número mais sensacional: a transformação completa de todas as suas ruas num encantamento e policromo jardim, têm este ano a valorizá-las o concurso dos artistas de variedades da Emissora Nacional, que se apresentam com todo o seu conjunto.

   Parece-nos que é Campo Maior a primeira terra do distrito que tem a honra de ter como hóspedes uma tão numerosa e meritória embaixada artística.

   O programa será radiodifundido e o espectáculo terá lugar no magnífico recinto da Praça da República.

   Oportunamente transmitiremos aos nossos leitores os restantes números de que se compõe o programa das festas do povo de Campo Maior, as quais são organizadas em benefício da Misericórdia e têm o seu início em 6 de Setembro próximo, prolongando-se até 9.

   É de esperar que os organismos oficiais prestem todo o seu auxílio à Comissão das Festas, no sentido de que lhes seja imprimido o maior brilhantismo, pois é bom não esquecer que muitos forasteiros nos visitarão naqueles dias.

   Acreditamos que a hospitalidade campomaiorense estará presente, como é seu hábito.

 

 Marciano Ribeiro Cipriano

 

 

 





publicado por Francisco Galego às 15:00
Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

 

Os Anos 50

 

Para as Festas do Povo de Campo Maior um novo ciclo ia começar. Preparavam-se novas adaptações na continuidade de uma já longa tradição.

 

Em 1950 falava-se novamente de Festas; mas estas só voltariam a realizar-se em 1952, 1953 e 1957. E, quando regressaram, as Festas voltaram para se renovarem, pois nestes anos dão-se algumas inovações a nível das ornamentações e das estruturas de decoração das ruas.

Embora se mantivesse o esquema tradicional, havia uma maior preocupação com a decoração dos “tectos” que deixaram de se limitar às formas tradicionais das franjas, cadeados, lenços e mantilhas, adquirindo uma maior riqueza ornamental. As flores artificiais multiplicaram-se em formas cada vez mais originais e elaboradas, as “entradas” feitas de caniços, deram lugar a estruturas construídas em materiais mais consistentes e com maior apuro decorativo, tornando-se um elemento essencial na ornamentação das ruas.

 A grande cintura de hortas que rodeavam a vila e que garantiam o seu abastecimento em frescos, começou a desaparecer. Assim, as sebes que protegiam as culturas mais mimosas da acção nefasta dos ventos e que forneciam o revestimento de verdura de buxo e murta que tinham, desde a origem das Festas, constituído o material mais usado na decoração das ruas para revestimento dos paus e das cordas, foi-se tornando cada vez mais difícil de obter. O papel tornou-se rei como material base na decoração das ruas.

Cada rua procurava esmerar-se na descoberta de novos elementos: cordas de torcidos, tectos que são autênticos túneis de flores, entradas espectaculares em simbologia e em execução, ruas que reproduzem pomares, roseirais e flores que, de tão bem executadas, competem em graça e requinte com as naturais.

A Festa que fora "dos artistas", transfigurou-se numa espantosa manifestação de um povo artista.

A criatividade campeou de tal  modo por toda a parte que, num desses anos, mesmo numa família muito pobre e muito numerosa, os Piedade tiveram a brilhante ideia de enfeitar a sua pequena rua, tão pequena que é chamada de Caleja, forma castelhana de dizer ruínha, utilizando exclusivamente como material, papel de jornais. O efeito foi espectacular, pela surpresa e pela criatividade de uma pobreza assumida e orgulhosamente ultrapassada de uma forma genial, pela sua originalidade.

 



publicado por Francisco Galego às 20:41
Quinta-feira, 09 de Junho de 2011

ANOS 50  – UM NOVO RECOMEÇO

 

Passados os efeitos mais pesados da guerra, a vida começava a reorganizar-se. O próprio regime, por necessidade de sobreviver, perdera a acirrada combatividade ideológica inicial. A derrota, na Grande Guerra de 1939-1945, das potências que partilhavam de ideologias semelhantes ás que tinham estruturado o Estado Novo, obrigaram-no a adaptar-se a um novo equilíbrio de forças, saído da guerra e ditado pelas potências vencedoras. Nas conferências que entre si realizaram, os vencedores estabeleceram as condições da paz e a nova divisão política da Europa e do Mundo.

Por necessidade de manter as aparências, os governos de Espanha  e de Portugal, tiveram de moderar os seus impulsos ideológicos para se revestirem do carácter de um conservadorismo paternalista, com base no catolicismo tradicional mais conservador.  Contudo, apesar da forte tendência da sua liderança política para o conservadorismo, o país começava a mudar. A nível da rede viária verificaram-se algumas melhorias. Alargou-se o parque automóvel e tornaram-se mais fáceis, mais rápidas e mais confortáveis as deslocações de pessoas e de mercadorias.

Em Campo Maior, depois do constrangimento dos anos da guerra, notava-se a tendência para algum alívio, sobretudo no que respeitava às condições das classes médias. Pelas notícias da época, nota-se algum renascimento da vida associativa local. O Sporting Club Campomaiorense, depois de um período de apagamento, renasce e, sob a orientação de uma nova geração de gente com iniciativa, consegue, no pós-guerra, ascender por várias vezes ao campeonato da 2ª divisão nacional.

As sociedades recreativas reanimaram-se, passando a ser regularmente frequentadas pelos jovens. No início de 1952, nasceu uma nova colectividade, a Casa do Benfica que, nas duas décadas seguintes, irá ter bastante influência na vida recreativa e cultural de Campo Maior.



publicado por Francisco Galego às 20:18
Domingo, 05 de Junho de 2011

Os úlimos anos da década de 40

 

A falta de condições adequadas terá sido o factor determinante para que as Festas de 1944, tenham sido muito modestas, de muito fraca projecção e muito pouco brilho. Talvez por isso, seguir-se-ia um longo período de sete anos em que não se voltaram a realizar.

Registe-se como interessante o facto de, neste ano, se ter regressado à última das festas tradicionais que, desde o século XVIII, se realizavam em Campo Maior: a Procissão de Corpus Christi , que já se não realizava desde a Implantação da República.

Em 1945, terminava a guerra e começava um período que iria marcar profundamente a civilização mundial. A Guerra Fria, o terror das armas nucleares, o mundo sob a tensão constante de um novo conflito que só não se desencadeava porque todos sabiam que desta vez não haveria vencedores, apenas vencidos.

Na vila de Campo Maior, as preocupações eram outras pois a situação era extremente difícil. O abastecimento fazia-se com muita dificuldade. Havia carência de quase tudo. Os bens essenciais mantiveram-se sujetos a racionamento durante mais algum tempo. Os preços eram elevados e os salários muito baixos. O carácter sazonal dos trabalhos agrícolas criava regularmente  períodos de desemprego. A assistência social era praticamente inexistente. A fome era endémica e persistente. Nestas condições quem iria pensar em realizar uma festas que dependiam do trabalho e da vontade do povo?

Havia que esperar que novas e melhores condições de vida fizessem regressar a esperança e a vontade de criar, de novo, realizações colectivas como as Festas do Povo.

 



publicado por Francisco Galego às 19:57
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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