Domingo, 24 de Abril de 2016

 

No Alentejo, devido às características do seu clima, o abastecimento de àgua, é factor determinante para o estabelecimento e crescimento das povoações.

Campo Maior, praça de guerra até meados do século XIX, foi com Ouguela, Elvas, Juromenha e Olivença, uma das principais defesas do corredor do Xévora-Caia, por onde se fizeram as maiores tentativas de invasão do nosso território a partir do país vizinho, desde meados do século XVII até meados do séc. XIX.

A sua função militar determinou fortemente o crescimento do casco urbano da vila. Confinada no cerco das muralhas, viu, durante séculos, limitado o seu crescimento e, mesmo, definido o tipo de utilização dos seus campos, uma vez que, por razões de estratégia militar, as terras que rodeavam a povoação não deviam ser arborizadas. Predominava, por isso, o campo aberto, servindo de plantio de hortas  e de searas para abastecimento das pessoas  e de pastos para os rebanhos de animais.

Em épocas de relações pacíficas com a Espanha, como no período que vai desde o século XIV, ao século XVII, abrandadas as preocupações defensivas, a vila tinha podido crescer para além das muralhas medievais.

Esse crescimento foi então determinado por um outro factor: a existência de fontes que garantissem o abastecimento de água à população.

Durante o período atrás referido, a vila cresceu ao encontro das grandes nascentes de água. Assim, desenvolveu-se uma área de crescimento em direcção à Fonte S. Pedro, a nordeste do núcleo medieval, outra em direcção à Fonte Nova, a noroeste, uma terceira em direcção à área da Fonte das Negras, a leste.

As fontes são, portanto, um dos factores do crescimento do núcleo urbano. Nesses pontos se localizam as mais antigas e persistentes nascentes de água do concelho.

Algumas dessas fontes eram servidas por duas grandes linhas de abastecimento, testemunhadas pelas "arcas de àgua" que ainda existem, no caminho para Degolados e no sector onde agora foi construido o Centro Escolar de Campo Maior e que antes eram designado  como o Alto do Carrascal.

Na agora construida rotunda entre o Centro Cultural e o Centro Escolar, existia uma "arca d'àgua" que numa placa de mármore, aposta numa das suas faces, tinha a inscrição de que foi possível transcrever:

POR OCASIÃO DA ESTERILIDADE DE 1895 

A CAMARA MUNICIPAL FEZ ESTA OBRA

PARA AUGMENTAR O VOLUME D'ÁGUA

POTAVEL (...)

 

Noutra "arca d´água" que fica no caminho para Degolados, está uma inscrição de que foi possível transcrever:

    EM 1827 REGENDO EM NOME DEL´REI O SR. D. PEDRO IV,

A SERENÍSSIMA INFANTA D.ISABEL MARIA,

MANDOU A CAMARA DE CAMPO MAIOR FAZER ESTA OBRA

SENDO PRESIDENTE ... JOSÉ ALEXANDRO DE MENDES

E VEREADORES FRANCISCO MANUEL PIRES COTÃO,

FERNANDO DE SOUSA MIGUEINS,

SEBASTIÃO DO REGO GALVÃO

PROCURADOR DOMINGO LOPES SERRA

ESCRIVÃO ANTÓNIO DENTES DE MATOS

 

A Fonte de S. Pedro, provavelmente a mais antiga, é alimentada por um outro manancial. Este local foi habitado desde os mais remotos tempos. Têm aparecido, com abundância, vestígios de ocupação romana, no espaço que a rodeia. Perto da fonte, localiza-se o mais antigo dos locais de culto de Campo Maior: a Ermida de S. Pedro. Este templo assenta sobre vestígios de um templo romano e constituiria um ponto de apoio aos viajantes. sendo designado como Ad Septem Aras, era o ponto de encontro das estradas que se dirigiam para Emerita Augusta (Mérida), grande urbe romana. A estrada que daqui partia para Mérida, passaria pela ponte romana de que há vestígios, junto da Ermida da Enxara.

Também a desaparecida Fonte do Concelho, bem como a Fonte das Negras que a substituiu, teriam  origem noutro manancial. (Será que o antigo nome Rua de Nantio (derivado de "menantio") terá a ver com uma nascente de água?)

Estas fontes ficaram exteriores à vila quando, , por razões de estratégia militar, a vila teve de ser defendida após a Restauração de 1640. Na eminência de ataques pelo exército espanhol, a vila foi dotada de novas muralhas e de um conjunto de baluartes (entre eles o que se chamava "Baluarte da Fonte do Concelho", frente ás tardicionalmente chamadas Rua da Fonte Cima e Rua da Fonte de Baixo)).

Devido  á construção da fortaleza, deu-se uma contracção do casco urbano que provocou o desaparecimento de bairros que se tinham estendido nas três direcções atrás referidas. Desapareceu também o antigo Convento de São Francisco, localizado no actual Campo da Feira.

Mas, as fontes persistiram até à actualidade. Essas fontes exteriores estão localizadas nos pontos principais de acesso à vila e vão desempenhar uma tríplice função que definiu a sua estrutura muito particular pois são, simultaneamente, fontes de abastecimento de água potável; são bebedouros para os animais e tanques para a lavagem das roupas.

Por outro lado, prevenindo a possibilidade de cercos demorados, a vila teve de se dotar de outras fontes, internas às muralhas, que assegurassem o abastecimento normal de água. Por isso, essas fontes internas eram mais simples porque desempenhavam apenas essa função. Na actualidade, estas fontes têm um mero carácter decorativo, pois o sistema de abastecimento de água ao domicílio tornou-as desnecessárias.

 


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publicado por Francisco Galego às 08:25
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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