Terça-feira, 03 de Novembro de 2009

 

O património é a herança que nós recebemos e que colectivamente usamos por pertencermos ao povo em que nos inserimos.
Integra todos os elementos culturais de um povo que permanecem ao longo do tempo.
O que nós partilhamos, de facto, é o que constitui a base da cultura que construímos e de que usufruímos em comum.
Só numa concepção muito restritiva de património, ele se resume às pedras e às obras de arte antigas, aos monumentos e aos símbolos do passado.
 
O património de um povo integra:
  • - O território com tudo o que o constitui
  • - As paisagens urbanas e rurais
  • - O ambiente em todos os seus elementos e dimensões
  • - As populações com todas as suas dinâmicas sociais e culturais
 
O património integra as manifestações culturais testemunhadas por:
  • Os edifícios, desde os mais monumentais aos de mais humilde expressão arquitectónica
  • As tradições orais e escritas
  • A literatura nas suas manifestações mais populares e nas mais eruditas
  • A arte, a religião e todas as coisas que são manifestações espirituais do nosso povo
Este é que, no meu entender, deve ser o conceito de património.
 
POLÍTICAS PATRIMONIAIS
 
À volta da questão do património local, uma gestão correctamente orientada por objectivos claros, deve sempre definir três linhas estratégicas de orientação:
  1. A conservação e a restauração física dos documentos, monumentos, tradições e memória colectiva
  2. O aprofundamento do seu conhecimento através da investigação, do seu interesse histórico e cultural
  3. A divulgação adequada dos valores patrimoniais do concelho, através de uma séria e contínua formação dos agentes dessa divulgação: guias, investigadores, zeladores e arquivistas.
Só mediante estes vectores poderão ser definidas as políticas a seguir no que respeita ao património e essas políticas devem girar em torno de três pólos:
1.      Valorização do património existente
2.      Aproveitamento turístico como factor de atracção e de desenvolvimento cultural e económico
3.      Envolvimento da população na preservação e na compreensão do valor histórico, cultural e social do património existente.

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publicado por Francisco Galego às 00:00
Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

 

Campo Maior no século XVI. Desenho de Duarte D'Armas

 

A história que vamos contar passou-se há cerca de 500 anos. Reinava em Portugal o rei D. Manuel I.
            Campo Maior era uma povoação bastante pequena, com nove ruas dentro do castelo e mais algumas do lado de fora das muralhas. Teria aproximadamente dois mil habitantes, ou seja, quatro vezes menos do que possui actualmente.  
            Ora, a certa altura, declarou-se uma grande epidemia de peste. As pessoas ficavam doentes e, passado pouco tempo, morriam. Naquele tempo, nas terras pequenas, não havia médicos, nem medicamentos. As poucas condições de higiene e a deficiente alimentação, faziam que qualquer doença provocasse a morte rápida de muitas pessoas, mas principalmente das crianças e dos velhos que eram os mais fracos.
            As pessoas pensavam que as pestes eram um castigo de Deus. Por isso, faziam missas nas igrejas, rezavam e imploravam o perdão dos seus pecados para se verem livres da doença.
            Vendo que as suas preces não eram atendidas, pensando que o ar estava empestado pela doença, os moradores de Campo Maior que ainda não tinham sido atingidos pela peste, resolveram sair da vila. Escolheram um lugar no meio dos campos e aí construíram casas de paredes de barro e cobertas de ramos e folhas, a que se dá o nome de choças. Ainda hoje esse lugar é chamado pelos campomaiorenses como sendo o lugar das Choças.
            Ficaram nesse lugar muito tempo com medo de que, se voltassem às suas casas na vila, pudessem ser apanhados pela peste.
            Mas, um belo dia, no ano de 1520, um homem chamado Gonçalo Rodrigues andava a trabalhar na sua horta e, sentindo-se cansado, sentou-se à sombra duma árvore a descansar. De repente, apareceu-lhe uma figura rodeada de uma grande luz. Assustado, o bom homem exclamou: “Quem sois vós senhor? Que luz é esta que não parece ser coisa deste mundo?” Ao que, numa voz forte e calma a figura respondeu: “Não temas Gonçalo! Eu sou João Baptista. Não vês como está o teu povo? Vai dizer à tua gente que podem voltar às suas casas. Os vossos sacrifícios e sofrimentos despertaram a compaixão de Deus Nosso Senhor. Não haverá mais peste. Mas, em memória da graça que por Deus vos foi concedida, quero que façam na vossa terra uma igreja em meu nome e devoção.”
            O bom do Gonçalo nem queria acreditar no que lhe tinha acontecido. Foi logo ter com a sua gente e contou-lhes a extraordinária aparição que tivera. Desde logo, todos decidiram fazer a igreja em honra de São João Baptista.
                   
Brasão antigo de Campo Maior               Azulejo junto da capela da aparição

 

Ermida de S. Joãozinho. Inaugurada em finais do século XIX.

 

 

 

 

Igreja de S. João. Desenho assinado por Vítor Rosa em1985.



publicado por Francisco Galego às 11:38
Terça-feira, 10 de Abril de 2007
 

            A  comemoração da Páscoa, tradição multicentenária, sofreu na minha terra mudanças significativas ao longo dos últimos cinquenta anos. Pouco sobreviveu do que ainda recordo dos meus tempos de infância. Nesse tempo, o essencial da comemoração da Páscoa passava mais pelas manifestações de culto, sobretudo as várias procissões que se realizavam: a do Senhor dos Passos, a de Nossa Senhora das Dores, a de Domingo de Ramos e a do Senhor Morto.

Lembro-me do costume de se cobrirem de ramos e flores as calçadas das ruas frente aos Passos, do esmero com que cada Passo era ornamentado, havendo até um certo despique para cada um ser o mais bonito e da peregrinação que as famílias faziam na visitação das Igrejas e dos Passos que estavam ornamentados e iluminados a preceito.

Também recordo o costume de não se consumir qualquer espécie de carnes em todas as Sextas-feiras da Quaresma. 

 Nessa época as procissões eram espectaculares. Sobretudo a do Senhor dos Passos que incluía o Encontro no Terreiro. A imagem do Senhor, carregando a pesada cruz, percorria a via-sacra da visitação dos Passos. Regressando pelo Terreiro, encontrava-se com as imagens de São João Evangelista e de Nossa Senhora das Dores que, saindo da Matriz e descendo pela Rua Estreita, tinham vindo ao seu encontro. Começava então o sermão perante as três imagens santas reunidas a meio do largo. Este era feito por pregador de renome convidado especificamente para esse efeito. Alguns desses pregadores atingiam uma tal efeito dramático com as suas prédicas que conseguiam comover profundamente a audiência que os escutava em profundo silêncio. Havia os que eram precedidos de tal fama que, quando se sabia que vinham, atraíam tal assistência que, o acanhado espaço do Terreiro não dava para conter tanta gente. A prédica era proferida a partir de uma janela da casa da família Carrilho.  

            Para a rapaziada, a comemoração da Páscoa começava verdadeiramente no Sábado de Aleluia. Começavam por se juntarem no Largo da Matriz, cada um munido dos chocalhos que podiam ter recolhido para o efeito. Esperava-se com impaciência que os sinos da igreja anunciassem a Ressurreição. Partia-se então, qual revoada de passarada louca, percorrendo as ruas da vila para chocalhar furiosamente em frente às casas das lojas até que o comerciante, que já estava previamente preparado, lançava sobre aquele bando ávido, as mais diversas guloseimas em que predominavam os rebuçados, as amêndoas e os confeitos. Os adultos divertiam-se a verem as autênticas batalhas que se travavam entre eles tratando cada qual de recolher o maior número de doces possível.

            Mas a festa acontecia verdadeiramente no Domingo de Páscoa. A maioria das pessoas vestiam os seus trajes domingueiros e iam em passeio até à Ermida de São Joãozinho comer o folar. A banda dava concerto, improvisavam-se bailes, namoriscava-se. Havia famílias que iam até às quintas e às hortas. Enfim, se o tempo era favorável, aproveitava-se para um passeio no campo. Mas, a festa da Páscoa era em grande parte também uma festa de sabores: o ensopado e o assado de borrego, o arroz de miúdos, os bolos amassados, os merengues, as broinhas, faziam as delícias de crianças e adultos.

            Infelizmente eram tempos de grandes dificuldades para grande parte das famílias. Tempo de tremendas guerras, tempo de grandes misérias. Nem todos tinham acesso a tais iguarias. Mas, cada um, de acordo com as suas posses, procurava ter “rancho melhorado” e, ainda que pouco, o borrego era a base dos comeres nesta celebração.

 

            Nos anos 50 do século passado, as coisas começaram a mudar. A emigração, tanto interna como para o estrangeiro, provocou grandes mudanças na sociedade campomaiorense. Foi por essa altura que se começou a generalizar o hábito das famílias se deslocaram para junto dos rios para, em conjunto, celebrarem a Páscoa. Primeiramente em grupos pequenos, partiam em carroças no Domingo de Páscoa ainda quando o sol mal começara a raiar e regressavam ao cair da tarde. Quem tinha familiares num monte ou num moinho à beira-rio podia arriscar-se a permanências de mais de um dia. Mas o tempo era ainda muito incerto e não havia os recursos “campistas” que existem hoje para se acampar em qualquer lugar. Além disso, as pessoas, nesse tempo, gostavam ainda de guardar recato e, por isso, escolhiam lugares onde pudessem estar com alguma privacidade. Assim, o mais normal era que fossem muitos os lugares para onde as famílias se deslocavam para celebrar a Páscoa.

            Lembro-me de a Ermida de Nossa Senhora da Enxara ser um lugar ermo, abandonado e em tal estado de degradação que as suas dependências serviam para recolha de gado. Depois começou a ser escolhida por grupos de homens que aí se juntavam para acamaradarem em alegre convívio. Lentamente começaram a aparecer as famílias até que, por volta dos anos 60, se transformou no lugar de romaria que é nos dias correntes.

A beleza do lugar, a facilidade do acesso para o crescente número de automóveis que foram surgindo, a recuperação de antigos actos de culto religioso, o aperfeiçoamento dos recursos para acampamentos, tudo se conjugou para que tão rapidamente se tornasse na maior romaria em que actualmente participam os campomaiorenses.

As autoridades locais, entendendo as mudanças operadas na sociedade, fizeram a oportuna mudança do feriado municipal de 28 de Outubro, data anterior em celebração de um acontecimento que já não tinha qualquer significado para os campomaiorenses, para a segunda-feira depois do Domingo de Páscoa, criando assim a possibilidade de uma curtas férias neste fim-de-semana alongado no início da Primavera. Escolha acertada pois que, além do mais, permite aos que vivem fora da vila da sua origem, virem participar nesta celebração com os seus familiares.

            Com alguma surpresa fui assistindo a esta grande celebração pagã em que transformou a Festa da Enxara. Espero que o termo “pagã” não provoque surpresa ou revolta porque, é evidente para qualquer pessoa de claro juízo que, apesar do período e do nome do lugar em que a festa se realiza, as questões religiosas funcionam apenas como mero pretexto. Embora a festa comece e acabe com procissões, é claro que esses actos de culto têm uma função simbólica mais cerimonial do que religiosa.

A Enxara cresceu tanto que sufocou completamente a romaria ao São Mateus em que participavam massivamente os campomaiorenses. Se a Feira de Elvas foi a grande celebração dos campomaiorenses nos tempos passados em que esta vila era habitada por uma comunidade essencialmente rural, a Páscoa é a celebração desta nova comunidade de gente urbana em que se tornou Campo Maior.

Confesso que recordo com alguma saudade os tempos de outrora. Mas, porque tenho de tentar ser lúcido e racionalizar as mudanças, tenho de compreender que elas decorreram de um processo de transformação para uma sociedade melhor porque mais justa, mais igualitária e propiciadora de melhores condições de vida para um maior número de pessoas.

Felizmente vão longe os tempos da sociedade elitista e segregadora em que tive de crescer. Seria insuportável voltar a assistir ao inaceitável espectáculo da miséria e da opressão em que decorreram a minha infância e a minha juventude.

Mas há aspectos na massificação em que decorre actualmente a celebração da Páscoa que não despertam o meu entusiasmo. Só com muito esforço consigo suportar a, para mim, infernal barulheira dos altos ruídos produzidos pelas aparelhagens dos carrocéis e tendas de negócios vários que rodeiam a simpática Ermida de Nossa Senhora da Enxara. Mas tenho que aceitar que, geralmente, o que se ganha em quantidade implica que haja algumas perdas quanto à qualidade. E, ninguém me obriga a celebrar a Páscoa na Enxara. Há ainda muitos lugares à beira-rio onde poderei estar a meu gosto celebrando o que eu quiser, com quem quiser e à minha maneira.

Que direito tenho de censurar um acontecimento que tanto prazer e contentamento provoca nos meus conterrâneos?



publicado por Francisco Galego às 13:40
Terça-feira, 03 de Abril de 2007
I – Fantasias e realidades sobre as suas origens
           
Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Como para quase todas as realizações levadas a cabo colectivamente pelo povo, estas festas tiveram a sua génese ao longo de um período largo de tempo. Estas manifestações de cultura popular deixam poucos testemunhos, tornando-se, quase sempre, muito difícil reconstituir a maneira como nasceram e como foram evoluindo.
Mas o povo, quando não sabe inventa. Não por má fé ou censurável intenção, mas porque é próprio do homem buscar explicação para as coisas que lhe despertam interesse ou curiosidade.
As Festas do Povo de Campo Maior têm sido explicadas de muitas maneiras e sempre de modo mais ou menos fantasiado. Segundo alguns, teriam nascido numa determinada rua, a Rua Nova, e ligadas a uma determinada actividade dum grupo, o dos contrabandistas.
Nenhum documento ou facto conhecido, pode confirmar semelhante afirmação. É certo que o contrabando foi sempre uma actividade importante em Campo Maior, como é natural numa terra de fronteira. Mas é também um facto comprovado que os contrabandistas, em anos em que os negócios lhes calhavam mais a jeito, tinham por hábito festejar organizando um desfile e o arraial em honra de São Joãozinho que tomavam como protector e padroeiro das suas arriscadas actividades. Mas estas festas faziam-se em Junho pelo São João e nada tiveram a ver com outras festas que, a partir dos finais do século XIX, se começaram a realizar em Setembro.
Estas festas de Setembro começaram a fazer-se no ano de 1893. Apresentaram-se como Festas em Honra de São João Baptista, dizendo-se que eram o reatar de uma tradição que vinha de tempos antigos. De facto, antes havia o costume institucionalizado de se fazer uma missa solene e uma procissão em 28 de Outubro, em honra de São João Baptista, em que participavam as autoridades municipais que assumiam a organização e despesas de uma festa com iluminação nocturna das ruas, as quais tinham sido decoradas com ramos para que passasse a procissão com a imagem do Santo Padroeiro de Campo Maior.
È, portanto, em volta do culto de São João Baptista que se constituiu uma antiga tradição que consistia na realização de uma festa no dia 28 de Outubro, apesar do calendário litúrgico consagra esta data a um outro santo – São Simão.
Esta data celebrava o fim do Sítio de Campo Maior de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como as tropas sitiantes tinham retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que nesse dia se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.
Aqui está a explicação de se fazerem festas em honra de São João em dia de São Simão, tanto mais que, em Campo Maior, desde tempos imemoriais, também se comemorava o São João, do dia 23 para 24 de Junho que, pelo calendário litúrgico, lhe é consagrado, com arraial no sítio de São Joãozinho, no recinto onde existe uma capela assinalando o local onde o santo aparecera a um habitante de Campo Maior, no distante século XVI, quando terminava o reinado de D. Manuel e começava o de D. João III.
 
II – As festas dos artistas
            Em 1893, um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, resolveram reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João que tinham deixado de se fazer havia cerca de quarenta anos, ou seja, desde meados do século XIX.
Desde logo, traçaram o projecto de ornamentação das ruas e da sua iluminação nocturna, ao mesmo tempo que elaboravam um programa do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as arvoradas e os concertos pelas bandas locais ou as convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo de artifício.
            Embora se tratasse de reatar as festas antigas, a festa foi mudada de 28 de Outubro para início de Setembro, parecendo que o motivo desta mudança se poderá justificar por diversos factores entre os quais terão maior peso, as incertezas do clima atreito a ventanias e chuvadas nos finais de Outubro e a ser um tempo em que as actividades do campo, nomeadamente as vindimas, se desenvolvem a partir de meados de Setembro.
            Organizadas pelos estratos da população que não estavam ligados ao trabalho agrícola, as festas desde o seu início foram designadas pelo povo como as Festas dos Artistas. Mas o seu nome oficial, aquele por que são designadas nos programas e nos artigos e notícias dos jornais é o de Festas em Honra de São João Baptista.
Este será o seu nome oficial até ao ano de 1922. João Ruivo, no jornal O Campomaiorense, utiliza pela primeira vez a designação Festas do Povo que nunca mais foi abandonada. As festas não tiveram qualquer outra designação. A tentativa de as associarem pelo nome aos contrabandistas só apareceu nos anos oitenta do século vinte e resulta de um equívoco sem qualquer fundamento.
 
III – Inícios modestos, destino de fama e de longa duração
 
            Outra fantasia que se criou acerca das Festas do Povo, foi a de que teriam desde sempre sido programadas para uma periodicidade de quatro anos. Nada mais destituído de fundamento real. Por um lado, as festas começaram por se realizar todos os anos. Depois, os acasos da política ou da boa ou má sorte da população, fez com que conhecessem períodos mais ou menos longos de interrupção. Essas interrupções foram por vezes tão dilatadas no tempo que as festas chegaram a ser dadas por extintas. A seguir à Implantação da República, em 1910, estiveram sem se realizar pelo período de 12 anos. Quando do fim do salazarismo-marcelismo estiveram sem se fazer por um período de dez anos.
            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer.
            Muitos julgam que as festas tiveram sempre este modelo de ornamentação de ruas que agora as caracteriza. Nada mais longe da realidade. As festas começaram de forma muito modesta. No início não se distinguiam das festas que se realizavam em muitas outras localidades. Havia o hábito no Alentejo de decorar e refrescar o ambiente nos dias de festa decorando os espaços públicos com ramos, sobretudo os espaços onde decorriam as actividades festivas. Daí a designação de enramação para o acto de decorar as ruas e largos, recorrendo a ramos de murta, de buxo e de rosmaninho e, devido à falta de sistemas eficazes ou inexistentes de iluminação pública, as populações utilizavam os seus próprios recursos e criatividade para vencer as trevas da noite em dias de festa.
            Em Campo Maior, começou-se pelo costume de cada um enfeitar a parte da rua fronteira à sua casa e de decorar e expor as partes da habitação viradas ao exterior, apresentando-as assim à vista de quem se passeava pelas ruas nos dias de festa.
            Esta atitude que no começo era de iniciativa particular, foi dando origem a uma colaboração cada vez mais intensificada entre aos vizinhos de cada rua, até que os projectos pessoais deram origem ao projecto comunitário.
            As Festas de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas.
            Mas as festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer porque a população dispunha de condições económicas favoráveis. A isto não poderia ser alheia a sua localização de fronteira e a facilidade com que nesta região se desenvolviam actividades de contrabando. Tratando-se de uma prática ilícita, ela pesava fortemente na economia local por ser muito lucrativa. Todas as oscilações que se verificavam, quer na parte de Portugal, quer na parte de Espanha, afectavam de uma maneira ou de outra a comunidade campomaiorense. Algumas das interrupções das festas são explicáveis por essas oscilações.
           
IV – Que presente e que futuro para as festas de Campo Maior?
 
            Em 111 anos e contando com o último em que se realizaram, ouseja, o de 2004, as festas realizaram-se 33 vezes. Nos primeiros cinquenta anos da sua existência, mantiveram-se com um expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.
            Depois da segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com alguma projecção mesmo para lá da fronteira.
            Aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações, torna-se um fenómeno significativo da massificada cultura popular, lugar de grande romaria apesar de não estar ligado a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.
            O desenvolvimento da economia local, mais uma vez devido ao efeito de fronteira com a torrefacção de cafés, constituiu a base de sustentação. A criatividade da população radicada numa tradição secular, criou o milagre destas festas que, apesar de muito copiadas, ainda não foram igualadas.
            Mas, como irão sobreviver as Festas se são tantas as mudanças e tão profundas as transformações que se estão a verificar?
 Como todos os fenómenos humanos, as Festas de Campo Maior vão de ter de evoluir adaptando-se a novas condições para garantirem a sua sobrevivência. Nota-se, neste tempo que vivemos, uma procura ainda imprecisa de novas soluções. Serão as mais adequadas?
            Do acerto das soluções e dos caminhos que se escolherem depende o seu direito a perdurar ou a sentença da sua extinção. A lei findamental que gere a vida e a história não deixa lugar para os inadaptados.
            Será que há futuro para as Festas do Povo? O tempo o dirá.


publicado por Francisco Galego às 18:05
Sexta-feira, 30 de Março de 2007

As Festas do Povo de Campo Maior têm as suas origens mais antigas no culto a S. João Baptista, constituído padroeiro de Campo Maior desde o século XVI. As comemorações em honra do Precursor de Cristo, remontam ao século XVIII. Começaram a fazer-se como forma de agradecer ao santo ter salvo Campo Maior nas aflições de um cerco por tropas invasoras que estavam na eminência de tomar de assalto a povoação, no contexto da Guerra de Sucessão de Espanha.

Na forma que até hoje têm revestido, começaram a fazer-se no ano de 1893. Desde então, até hoje, realizaram-se 32 vezes, com grande irregularidade, segundo os caprichos da fortuna e os acasos da política. Por várias vezes, os períodos de interrupção foram tão longos que parecia que esta tradição se ia para sempre perder. Mas, quando tudo parecia irremediavelmente esquecido, elas voltavam.

As Festas do Povo foram-se adaptando às transformações sofridas pela sociedade. Mas sempre crescendo em criatividade, em grandeza e em fama. A notoriedade alcançada há muito passou para além do espaço regional e das fronteiras de Portugal.

Sendo sempre incerta a sua continuidade, procurou-se com este livro deixar um testemunho, tão completo quanto possível, da sua evolução.

GALEGO, Francisco Pereira (2004). Campo Maior. As Festas do Povo, das origens à actualidade. Lisboa: Livros Horizonte.

 



publicado por Francisco Galego às 15:45

O "Cantar e bailar as saias" constitui uma manifestação de cultura popular que, por tradição, remonta a tempos muito recuados e que, segundo investigadores que ao seu estudo se têm dedicado, se identifica com as populações do Alto Alentejo.

Em Campo Maior, as "saias" mantêm-se, ainda hoje, como a sua mais viva expressão de cultura popular.

Este livro procura inventariar a prática e criação contínua da população do concelho de Campo Maior, neste domínio, recuperar e preservar a memória ainda presente nas gerações mais antigas e explicitar as fases da evolução que o cantar de saias foi conhecendo ao longo do tempo. Nele se consubstancia a recolha, tão extensiva quanto foi possível, do que ainda sobrevive desta expressão cultural.

Este livro é também uma homenagem à criatividade de um povo de camponeses que, num passado não muito distante, desenvolveu interessantes formas de cultura popular em Campo Maior.

GALEGO, Francisco Pereira (2006). Campo Maior - Cantar e Bailar as Saias. Lisboa: Livros Horizonte.

 



publicado por Francisco Galego às 15:31
           
Nasci aqui, em Campo Maior, vila raiana do Alto Alentejo, em plena Grande Guerra: a segunda, a de 1939 a 1945. Um conflito que envolveu homens de quase todas as nações e de todos os continentes. Pouco antes, do outro lado da fronteira, fora feito o ensaio geral, com a Guerra Civil de Espanha de 1936 a 1939. Ainda assisti aos efeitos tremendos dessa luta fratricida que dilacerou o povo espanhol, deixando um rasto de miséria que perdurou por muitos anos.
            Comecei a tomar consciência das coisas da vida quando a vida era, de facto, muito difícil. Como tive a sorte de não ser dos menos afortunados, não sofri a tormentosa miséria em que vi crescer alguns dos meus companheiros. Tenho consciência plena de que, uma coisa é suportar a carência de quase todas as coisas necessárias a uma vida minimamente decente, outra é ter apenas de ver o sofrimento que essa carência impõe aos que a têm de sofrer.
            A guerra é sempre um facto terrível. Mas esta, que estava em curso quando nasci, além dos aspectos tremendos de que se revestiu, teve a suprema importância de significar uma ruptura radical na evolução das sociedades humanas. Claro que as coisas não mudaram logo no tempo da guerra, tanto mais que não tivemos dela uma vivência directa. Mas os efeitos que ela implicou, desencadearam um processo acelerado de mudanças que não mais parou até aos dias de hoje.
            O mundo mudou tanto no espaço de meio século que os homens e mulheres da geração a que eu pertenço, quando recordam o mundo da sua infância, constatam que esse mundo não existe mais. Meu pai nasceu e viveu num mundo muito semelhante àquele em que se pai e seu avô tinham vivido. Brincaram nos mesmos espaços e praticaram os mesmos jogos. Os jogos que eu próprio ainda conheci. Mas os meus filhos não tiveram já qualquer contacto com os jogos e brincadeiras que animaram a minha infância.
            Nascido numa vila alentejana no início da última década da primeira metade do século vinte, o mundo da minha meninice era um mundo essencialmente rural. A população vivia, na sua quase totalidade, da agricultura e ocupava-se essencialmente no trabalho dos campos. A vila, embora tivesse rompido em vários sítios a cerca de muralhas a que a constrangera a sua função de praça de guerra, pouco tinha crescido nos últimos dois séculos. Todos se conheciam e, sobre cada um de nós, todos tinham amplas referências, bem como das famílias a que pertencíamos.
            Por toda a vila as carroças e os apetrechos da agricultura eram uma presença constante. As carroças puxadas por burros ou por muares começavam a soar de manhã bem cedo ao saírem para os campos. Os automóveis contavam-se pelos dedos de uma só mão. Tractores, debulhadoras e outras máquinas agrícolas começaram a chegar já eu estava no fim da escola primária. Os candeeiros a petróleo eram a única fonte de luz da maior parte das casas. A electricidade era de fraca qualidade e muito atreita a avarias que por vezes deixavam a vila na mais negra escuridão durante dias seguidos; por vezes, semanas e meses.
            Não falo de tudo isto por saudosismo. É uma tolice e uma grande hipocrisia falar dos “velhos tempos” como se dos bons tempos se tratasse. Os bons tempos são os do presente e os melhores tempos são provavelmente os do futuro que ainda estão para vir.
            Por gosto e por vocação fiz do estudo e do ensino da História o meu modo de vida. Mas o conhecimento da História não fez de mim um saudosista. Não choro o tempo que passou, nem exalto as suas “virtudes” perdidas. Eu sinto apenas uma imensa pena de já não poder viver o tempo que há-de vir pois tenho a convicção que ele será melhor do que o tempo que agora vivo. Parece-me ser esta a melhor e mais atilada maneira de entender as coisas importantes da vida.
            É importante compreender o passado, pois o seu conhecimento ajuda-nos a entender como e porquê as coisas evoluíram num certo sentido. Mas a contemplação do passado tem qualquer coisa de mórbido que não nos deixa apreciar o lado bom da vida que nos cabe viver.
            Todas as épocas tiveram os seus problemas e em todas elas isso foi motivo para alguns fazerem o choradinho de que “no meu tempo é que era bom”. O melhor e maior castigo que se lhes podia dar era fazê-los voltar a viver nesse tempo que só era bom porque é um tempo já passado.
            Por muito que por vezes nos pareça que não, o mundo vai evoluindo no sentido do seu progressivo aperfeiçoamento.
            Tenho consciência dos problemas que, neste momento, preocupam e atormentam os meus filhos. As dificuldades que vivem e, sobretudo, as dificuldades que vêem os outros viverem. Mas se me ponho a comparar as minhas recordações com as suas vivências, acabamos por chegar à conclusão de que talvez as coisas não sejam tão más como, nos “bons velhos tempos”, foram.
 
 
 
 


publicado por Francisco Galego às 12:00
Sexta-feira, 23 de Março de 2007
Passaram cerca de 140 anos sobre os graves acontecimentos que, durante meses tinham trazido angustiados e revoltados os habitantes de Campo Maior. O governo que, por essa altura, estava constituído em Portugal, decidira efectivar uma reforma administrativa que consistia essencialmente numa acção centralizadora que levava à criação de grandes concelhos e de que resultava o desaparecimento de antigos concelhos como Campo Maior.
Esta decisão provocou grande revolta entre os campomaiorenses que iam perder a sua autonomia municipal, tornando-se apenas numa paróquia civil, ou seja, numa espécie de aldeia de um novo concelho que teria como cabeça a cidade de Elvas.
Não se tratava apenas de uma questão de prestígio, embora isso, só por si, fosse de considerável importância. Tratava-se sobretudo de perder privilégios que eram de grande relevância para os campomaiorenses. Os serviços que, até aí, estavam sedeados na vila, iriam passar para a cidade de Elvas. Isto numa época de tanta dificuldade de transportes por causa das más estradas e das grandes distâncias que só podiam ser vencidas em longas, incómodas e demoradas caminhadas a pé, no dorso dos animais, ou em ronceiras carroças.
Além disso outras questões pesavam nas preocupações dos campomaiorenses. Campo Maior era, nessa altura, uma terra bem administrada. Havia décadas que a câmara estava entregue a um conjunto de homens, de que se destacava o comendador Barata, que muito bem cuidavam da vila sendo muito elogiadas as obras de beneficiação que tinham sido levadas a efeito. Em compensação Elvas, pelo contrário, tinha a fama de estar entregue a péssimos administradores. Daí advinha, entre outras consequências, que existisse uma grande diferença entre os impostos camarários que eram cobrados em Elvas e os que eram cobrados em Campo Maior.
 Acima de tudo havia o sentimento de revolta por verem assim menorizada uma terra de tanto prestígio, tão próspera e de tão notável quanto era Campo Maior. Até porque, naquele tempo, as diferenças entre Elvas e Campo Maior não seriam muito acentuadas.
Mas, no final do ano de1867, a situação começou a mudar. O governo lançou um novo imposto sobre o consumo. A situação já era tão crítica que esta foi a gota que fez transbordar. Os comerciantes de Lisboa, Porto e Braga revoltaram-se. No Porto houve conflitos de grande gravidade. Esta revolta, que ficaria conhecida como a Janeirinha, provocou a queda do governo que apresentou a sua demissão ao rei no dia 31 de Dezembro.
Os jornais noticiaram: “Caiu o ministério Fontes-Ferrão. Propagou-se por todo o país tão fausta notícia com a rapidez da electricidade e, não tem tido limites a alegria do povo. Lição eloquente para orgulhosos.”
Perante uma oposição tão generalizada, era preciso arrepiar caminho para repor a ordem e o equilíbrio político. O novo governo teve de anular as decisões que haviam sido tomadas e que provocavam a revolta das populações. Entre essas medidas, a que mais afectava os campomaiorenses, era a reforma administrativa que determinava a extinção do concelho de Campo Maior. E a notícia tão desejada acabou por chegar.
Para dar uma ideia da alegria com que foi recebida na vila a notícia de que tinha sido anulada esta nefasta decisão, transcrevo o que, a propósito foi publicado no nº 63 de 23 de Janeiro de 1868 do jornal de Elvas Democracia Pacífica:
"Campo Maior, 19 de Janeiro           
            Foi aqui imensamente festejada a dissolução parlamentar: repiques (dos sinos), toques de música, foguetes, vivas e iluminação, tudo enfim superabundou.
Na quinta-feira, 16 pelas 2 horas do dia, o ex-governador civil do distrito de Portalegre telegrafou ao ex-administrador deste concelho para que reassumisse o cargo. Pouco depois o oficial de diligências com o pregoeiro fazia pública a extinção e suspensão das leis que causaram distúrbios no reino. À noite as duas filarmónicas unidas foram tocar pelas ruas e à porta do dito administrador, havendo foguetes e os costumados vivas.
            Na sexta-feira, 17, o regozijo pela chegada da comissão que foi a Lisboa representar a el-rei contra a supressão do concelho, era tal que parecia um povo de loucos. A toda a hora se ouvia o rodar de caleches, de seges, char-à-bancs e de carros que conduziam gente para a estação de Elvas a esperarem a comissão campomaiorense que devia chegar pelas 7 ½ horas da noite como efectivamente chegou. Parecia que se despovoava Campo Maior.
Quando eram 7 horas da noite, mais de 2.000 pessoas enchiam a rua do Ramires, Cantos de Baixo e rua Direita, onde está a casa da sociedade artística, que tinha erguido um grandioso arco triunfal (trabalho do Sr. João Leitão e dos seus oficiais e amigos) tendo em cima um coreto para as duas filarmónicas que, reunidas, são uns quarenta músicos.
Às 7 ½ da noite soube-se que a comissão partia da estação de Elvas para Campo Maior, acompanhada de uma parte do povo, que a tinha ido esperar e que vinha com archotes pela estrada, cuja extensão é de 3 léguas.
Próximo das 8 horas da noite saiu a filarmónica, dirigindo-se a casa do fiscal da câmara, o qual saiu com a bandeira da mesma e acompanhado pelos mais vereadores (menos o Sr. presidente que, por ser membro da comissão vinha com ela), foi colocar-se na frente da música. Aos gritos do povo: - Viva a câmara! Viva o concelho! Viva el-rei! – marcharam todos, seguidos cada vez de mais povo, pelas ruas da Canadinha, Canada, Mouraria de Cima, Mouraria de Baixo, S, João de Deus, S. João Baptista, Terreiro da Estalagem, Paço Misericórdia e Direita, parando à porta da dita sociedade.
Aqui o povo, que nunca cessou de dar vivas, gritou: Ao campo! E lá marchou a câmara, a música e umas 3.000 pessoas, para a Porta de Santa Maria (vulgo Porta da Vila) e daqui pela estrada real até às proximidades da ermida de S. João Baptista, extramuros e a dois 2 Km da povoação.
Não sei descrever quanto presenciei: infinitas luzes de archotes por toda a estrada e montes próximos, as negras nuvens de povo, música, fogueiras nas hortas, foguetes ao ar em todas as direcções correspondendo aos que se ouviam lançados pelo povo que acompanhava a comissão e que já vinha a 3 Km de distância.
Ao chegar a comissão próximo dos elementos da câmara, aquela se apeou e sua caleches, tocando a música um hino dedicado à comissão, composto pela Sr.ª D. Emília Rangel Mattoso dos Santos Rosado, filha do comendador e doutor em medicina, António Maria Rodrigues dos Santos, membro da comissão.
Cessou a música e a câmara entregou o estandarte ao seu presidente, havendo grande ovação e vivas.
O Sr. presidente da câmara e comendador Cristóvão Cardoso d’Albuquerque Barata, com o estandarte da câmara, caminhava á frente da música seguida do povo e na retaguarda as caleches, as seges, etc.
Seriam 11 horas da noite, entrava tudo na vila, dirigindo-se para a Praça Nova pelas ruas Direita, do Ramires e de S. Pedro. Chegados à praça, cessou a música. A câmara, a comissão e muitos cavalheiros subiram as escadas dos paços do concelho e do segundo pátio. O Sr. presidente agradeceu ao povo a honra de o terem nomeado membro da comissão. Seguiu-se o Sr. Dr. Santos que também agradeceu a mesma honra, dando conta ao povo do bom resultado da missão. Seguiu-se o Sr. João Dubraz que, com os seus costumados discursos enérgicos, relatou como se deu princípio, no Grémio, na rua da Canada, aos acontecimentos que Campo Maior tem presenciado, elogiando a comissão que foi a Lisboa e os indivíduos desta vila, residentes na capital, que se associaram a ela, concluindo o discurso em propor ao povo e à câmara, para comemorar os acontecimentos de Campo Maior o seguinte: que a rua da Canada, d’ora avante seja chamada Rua 13 de Dezembro; a rua da Canadinha, seja Rua do Conde d’Ávila; a Praça Nova, seja agora Praça de D. Luís I; o Largo da Carreira, fique sendo o Largo dos Carvajais; a rua do Tenente General, tenha o nome de Rua do Visconde de Seabra; a rua da Cadeia, se denomine para o futuro Calçada do Castelo; ao Terreiro da Estalagem, se dê o nome de hoje em diante de Largo do Barata; e ao Terreiro da Misericórdia, se chame desde já Largo do Barão de Barcelinhos. Tudo foi muito aplaudido pelo povo e pela câmara. (…)
Começou então todo o povo a sair da praça e a música foi para o coreto da sociedade artística (na Rua Direita), a tocar escolhidas peças, bem como nas duas seguintes noites, havendo espontânea iluminação pública. Esquecia-me de dizer que, na segunda noite, foi a filarmónica tocar à porta de todos os cavalheiros da comissão, em sinal de reconhecimento pelos serviços que prestaram.
Permita-se-me dizer que a comissão foi muito obsequia da por muita gente de Lisboa , especialmente pelo Ex.mo Conde d’Ávila, que a recebeu na respectiva sala do ministério do reino; e que, dando a palavra ao Sr. Dr. Santos, o ouviu por espaço de quase uma hora, de pé e com toda a atenção, respondendo que se demorassem uns dias e iriam satisfeitos para suas casas. Sua Ex.ª, despediu-se da comissão apertando a mão a todos.
Nos teatros e em toda a parte se falava da comissão de Campo Maior".
(Assinado: Um professor)
 


publicado por Francisco Galego às 11:00
Sexta-feira, 16 de Março de 2007
Quantos campomaiorenses saberão que esta nossa terra esteve, há quase 140 anos, condenada a tornar-se uma aldeia de um concelho que teria a sua sede municipal na cidade de Elvas?
Desde 9 de Maio de 1866, no governo do país estavam políticos nos quais se depositavam grandes esperanças. Alguns eram ainda bastante jovens e brilhantes e daí as expectativas de grandes mudanças. Entre eles sobressaíam, o Ministro de Reino Martens Ferrão e o Ministro da Fazenda Fontes Pereira de Melo. Mas, por um lado, a crise do país era profunda porque os problemas eram antigos e de carácter estrutural; por outro lado, os jovens governantes, se eram dotados de saber teórico, eram pouco cientes da realidade social e política em que lhes cabia intervir. Na ânsia de tudo mudar, no mais curto prazo possível, acabaram por impor decisões que suscitaram o descontentamento generalizado.
Entre as reformas propostas sobressaíram, pelo choque que provocaram nas populações, a reforma administrativa e a reforma judicial, porque vinham alterar tradições seculares que não foram nem bem explicadas nem bem entendidas. O descontentamento foi-se acumulando, atingindo o seu máximo no final do ano de 1867, quando se pretendeu dar execução às reformas que tinham sido aprovadas pelo parlamento.
Muitas das vilas que se viram privadas da sua autonomia municipal e destituídas dos seus tribunais judiciais, entraram em revolta aberta contra as decisões governamentais. Entre elas estava a vila de Campo Maior. Vejamos como um jornal de Elvas - Democracia Pacífica, Nº 61 de 3ª-feira 31 de Dezembro de 1867- se referiu, pela pena do grande escritor campomaiorense que foi João Dubraz, a esta situação, quando foi conhecido o teor da reforma publicada pelo Decreto de 10 de Dezembro de 1867
 
 “A tão esperada e estudada circunscrição administrativa apareceu afinal. Decretou-se a famosa hecatombe concelhia. As ilusões fagueiras esvaeceram-se como fumo, É feia como a morte a fatal realidade. (…)”
…essa reforma cai como um flagelo sobre as povoações sacrificadas.”
 
A nova circunscrição civil, reduzindo a sete os concelhos do distrito de Portalegre, conservou somente dos antigos: Alter do Chão; Avis; Castelo de Vide; Elvas; Monforte; Niza; Portalegre.
Ao de Elvas tiraram Santa Eulália e Barbacena e juntaram-lhe o de Campo Maior.
O que causou mais geral espanto foi a reconstrução do de Monforte… a agregação da paróquia civil de Santa Eulália ao concelho de Monforte é uma aberração de todos os princípios razoáveis…”
Campo Maior, mau grado ou bom grado do governo, tem mais de 1.500 fogos na sua população...
 
Para termos uma ideia da injustiça desta situação imposta aos campomaiorenses, compare-se a dimensão de outras vilas do Alto Alentejo que eram mantidas como concelhos autónomos, pela nova legislação, tomando a que cada fogo correspondia em média a 4 habitantes: Castelo de Vide,1.400; Alter do Chão, 749; Avis, 869; Monforte, 972; Niza, 1.176 fogos.
Daí que o autor do artigo continuasse:
 
...os seis mil cidadãos de Campo Maiorforam espoliados das suas economias e granjeios de sete séculos em favor de Elvas que bem pouco terá para si quanto mais para repartircom os que agora lhe foram agregados.
Era já duro e bem duro que se extinguisse o concelho de Campo Maior no distrito onde se conservam os de Castelo de Vide, de Niza, de Avis e de Monforte. Mas recusar-se-lhe o regime municipal? Negar-se município próprio à vila que no Alentejo tem mais pessoal?
Ora, ou regime municipal serve para estes e outros casos excepcionais ou é na lei um pleonasmo. Se não é excrescência inútil, dê-se a quem o deve ter para não oprimir quem deve ser independente.
 
Mais adiante, noutra página do mesmo jornal, noticiava-se:
 
Grande meeting em Campo Maior – Domingo, 15 de Dezembro de 1867, como consequência da nova lei da administração civil aprovada em 10 de Dezembro de 1867.
Em Campo Maior houve um meeting na Praça Nova em consequência da anexação daquele concelho a Elvas. Nomeou-se uma comissão composta de 50 indivíduos para representarem ao rei em nome do povo, pedindo o regime municipal para Campo Maior. A extinta câmara dispôs tudo em ordem de modo que não foi alterada a tranquilidade pública.
O povo estava indignado chegando a ouvir-se gritos como: queime-se o arquivo, que é propriedade nossa e não dos elvenses!
Para cima de oitocentos cidadãos ocuparam o grande salão dos paços da extinta câmara, a sala de audiências judiciais, as escadas e mais proximidades do edifício. Falaram, em sentido pacífico diferentes cavalheiros da localidade e a assembleia dissolveu-se depois de adoptar algumas resoluções de resistência legal, tendo uma grande comissão delegada assinado, em nome da assembleia, uma representação a el-rei.
Eis o que se diz nessa representação:
Senhor, - Campo Maior está de luto.
Seis mil cidadãos de todas as condições e estados, acabam de comissionar os cinquenta cidadãos,seus conterrâneos, abaixo assinados, para virem expressar ante o trono de vossa majestade um sentimento que não tem nome, nem espécie na linguagem dos homens; porque é ao mesmo tempo um gemido e um rugido; um acto de energia e um arranco de desânimo.
Ainda ontem, real senhor, Campo Maior era uma vila das mais florescentes do reino; mais populosa do que grande número das cidades que se ufanam dos seus títulos, tão rica e laboriosa como as que primam de activas e opulentas. E vai decairfatalmente do seu estado presente e das suas esperanças, derrubada por um simples rasgo de pena.
Que crime tinha feito esta boa e pacífica povoação? Porque desmereceram tanto os descendentes dos guerreiros de 1712, 1801 e 1811? Porque se eleva Castelo de Vide, Niza, Avis e Monforte, quanto se abate Campo Maior? Que actos de degradação rebaixam esta nobre vila do nível de Almeida, de Aldeia Galega, de Portel e de Gavião?
Mas, ao rei não se fazem perguntas, posto que a queixa seja libérrima na sua forma. Os ministros de vossa majestade não podiam errar e é de crer que tantas mágoas, tão grande desespero, só tenham por causa um lapso, uma inadvertência, um descuido de revisão.
Em toda a circunscrição administrativa não há uma única vila, com as condições de Campo Maior, que não seja sede de concelho. Das quatro a que se concedeu o regime municipal, nenhuma pode sofrer comparação com Campo Maior que dele foi privada.
Por estes fundamentos pois, os abaixo assinados, usando os poderes que lhes foram concedidos pelo grande meeting de hoje, pedem a vossa majestade que na folha oficial seja rectificada a omissão que, sem dúvida, houve sobre a concessão do regime municipal, visto que, não só foi proposto pela junta geral, mas até se anunciou em Campo Maior, a toda a população, que fora concedido, por assim ter sido declaradopor um alto funcionário do estado.   
 
Mas, a vila de Campo Maior, que configurou o seu descontentamento por atitudes de grande ordem e legalidade, não era a única vila a manifestar a sua indignação contra os arbítrios criados por esta reforma.
Houve protestos contra a nova lei da administração nos seguintes concelhos, tendo havido motins de alguma violência em alguns deles: Lourinhã, Belém, Castro Marim(motins muito graves), Alcoutim, Almeida, Gavião, Póvoa de Lanhoso, Cabeceiras de Basto, Olhão, Coruche, Alvito, Vidigueira, Almodôvar, Mangualde, Sátão, Penalva do Castelo, etc.
No dia 29 do corrente, houve eleições para a escolha dos representantes das várias localidades na gestão da câmara do reestruturado e ampliado novo concelho de Elvas. Mas, na assembleia de voto de Campo Maior não houve eleição em consequência dos eleitores não quererem votar.
O ano de 1867 acabava com tempo seco mas muito frio e com uma profunda amargura, provocada por um sentimento de grande injustiça, no coração dos campomaiorenses.
Voltaremos a este assunto para relatarmos como acabou por se resolver a situação.


publicado por Francisco Galego às 16:41
Quarta-feira, 14 de Março de 2007

Frontaria do Palácio Visconde de Olivã
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O actual Palácio Olivã, é certamente uma das mais nobres casas e provavelmente a mais antiga construção de Campo Maior, por ser uma das que conseguiu sobreviver à grande tragédia de 1732, em que, do rebentamento do paiol da pólvora resultou a quase total destruição do casario desta vila raiana.
            Na sua Galeria de Figuras, publicada nos anos 50 do século passado, João Pessoa escreve sobre D. Manuel de Menezes, natural de Campo Maior, cronista-mor do reino e com uma carreira começada ao lado do Prior do Crato e que terminou com a prestação de honrosos serviços no Oriente já sob o governo dos Filipes, o seguinte:
 
Encontrava-se no seu paço de Campo Maior, então cercado de vasta quinta (hoje ,Casa do Barata), preocupado com o estudo e afastado das lides oficiais, quando em 1625, o nomearam General da Armada, para comandar a esquadra de vinte e seis navios guarnecidos por 24.000 homens, com a qual foi restaurar a cidade da Baía, usurpada pelos holandeses.
 
Este texto permite tiara algumas ilações importantes sobre o actua Palácio Olivã:
- Tendo os Menezes ocupado a função de governadores de Campo Maior, daí resulta que a sua residência fosse referida como o paço;
- Assim sendo, o nome da rua onde o palácio se localiza, não adveio de nela se localizar um passo processional, mas de ter sido a rua da residência do governador.
 
Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, governador de Campo Maior no século XVIII, refere-se a mesmo palácio do seguinte modo:
(Estas casas) são de D. João de Aguilar Mexia, no Terreiro das Estalagens, com oito janelas e outras tantas baixas. Tem dentro uma horta com muitas árvores, uma fonte com a mesma água que vem à que tem nas fontes públicas o Povo. Nelas se tem acomodado o Sr. Infante D. Francisco (irmão de D. João V), as três vezes que tem vindo a esta praça. Nestas mesmas casas se fez aposentadoria para S. Majestade (D. João V), que Deus guarde, o ano de 1716, de que não usou, porque vindo no dia doze de Novembro a esta praça voltou no mesmo a Elvas, por causa da chuva que sobreveio.
- Por este texto se pode concluir que, no início do Século XVIII, o palácio seria, senão a mais nobre, uma das mais nobres casas de Campo Maior.
 
No século XIX o actual Palácio Olivã foi adquirido por um tal José Vitorino Machado, natural de Olivença. O qual, através do comércio conseguiu enriquecer, tornando-se grande proprietário e chegando mesmo a ocupar cargos elevados na administração local. Foi este senhor que adquiriu o Palácio dos Menezes (Casa do Barata), no qual viveu como nobre embora fosse apenas um abastado plebeu. Casou com uma senhora elvense muito mais nova, que foi sua herdeira universal.
Esta senhora casou depois, em segundas núpcias, com Cristóvão Cardoso de Albuquerque Barata, oriundo de Paredes de Coura, sargento de brigadas que serviu na guarnição de Elvas e, depois, na de Campo Maior.
Foi durante muito tempo chefe do Partido Progressista, sucessivamente investido no cargo de Administrador do Concelho.
Apreciado pelos seus actos como político viu, em Janeiro de 1868, o seu nome dado ao largo onde se situa o palácio de sua residência, que passou a chamar-se Largo do Barata. Devido à sua benevolência com os mais humildes, veio a ser agraciado como Comendador da Ordem de Cristo. Seu filho, Cristóvão Cardoso Cabral Coutinho de Albuquerque Barata que fez carreira, primeiro como advogado, depois na magistratura atingindo o cargo de Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, foi agraciado com o título de Visconde de Olivã.
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Porta de acesso ao palácio, ostentando o brasão do Visconde de Olivã
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A estes dois ilustres campomaiorenses se deve a restauração e conservação do palácio nos finais do século XIX e primeira metade do século XX.
Actualmente, o palácio, que tem estado a ser restaurado pela Câmara Municipal de Campo Maior, está ocupado por vários serviços: Biblioteca Municipal, Repartição de Finanças e Museu do Azeite, para o qual se aproveitaram as instalações do lagar de azeite que existia no palácio.
Os seus jardins, visitáveis pelo público, beneficiaram também de importante restauração.
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                                               Fonte no jardim do palácio
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Vista do jardim e do portal que dá acesso ao pomar
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Vista parcial do pomar
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Prquena capela no fundo do pomar


publicado por Francisco Galego às 14:51
Terça-feira, 13 de Março de 2007
Campo Maior, praça de guerra até meados do século XIX, foi com Ouguela, Elvas, Juromenha e Olivença, uma das principais defesas do corredor do Xévora-Caia, por onde se fizeram as maiores tentativas de invasão do nosso território a partir do país vizinho.
A sua função militar determinou fortemente o crescimento do casco urbano da vila. Confinada no cerco das muralhas, viu, durante séculos, limitado o seu crescimento e, mesmo, definido o tipo de utilização dos seus campos, uma vez que, por razões de estratégia militar, as terras que rodeavam a povoação não deviam ser arborizadas. Predominava, por isso, o campo aberto, servindo de plantio a searas e de pasto aos rebanhos de gado ovino.
Porém, em épocas de relações pacíficas com a Espanha, como no período que vai desde o século XIV, ao século XVII, abrandadas as preocupações defensivas, a vila pôde crescer para além das muralhas.
Esse crescimento foi então determinado por um outro factor: a existência de fontes que garantissem o abastecimento de água à população.
Durante o período atrás referido, a vila cresceu ao encontro das grandes nascentes de água. Assim, desenvolveu-se uma área de crescimento em direcção à Fonte S. Pedro, a nordeste do núcleo medieval, outra em direcção à Fonte Nova, a noroeste, uma terceira em direcção à área da Fonte das Negras, a leste.
As fontes, são, portanto, um dos factores do crescimento do núcleo urbano. Nesses pontos se localizam as mais antigas e persistentes nascentes de água do concelho.
A Fonte de S. Pedro, provavelmente a mais antiga, é local habitado desde os mais remotos tempos. Vestígios de ocupação romana, têm aparecido com abundância no espaço que a rodeia. Perto da fonte, localiza-se o mais antigo dos locais de culto de Campo Maior: a Ermida de S. Pedro. Este templo assenta sobre vestígios de um templo romano.
Estas fontes ficaram exteriores à vila quando, mais uma vez, por razões de estratégia militar, a vila teve de ser defendida após a Restauração de 1640. Na eminência de ataques pelo exército espanhol, a vila foi dotada de novas muralhas e de um conjunto de baluartes. Devido a isso, deu-se uma contracção do casco urbano que provocou o desaparecimento de bairros que se tinham estendido nas três direcções atrás referidas.
Mas, as fontes persistiram até à actualidade. Essas fontes exteriores estão localizadas nos pontos principais de acesso à vila e vão desempenhar uma tríplice função que definiu a sua estrutura muito particular: são simultaneamente fontes de abastecimento de água potável; são bebedouros para os animais e tanques para a lavagem das roupas.
Por outro lado, prevenindo a possibilidade de cercos demorados, a vila teve de se dotar de outras fontes, internas às muralhas, que assegurassem o abastecimento normal de água. Por isso, essas fontes internas eram mais simples porque desempenhavam apenas essa função. Na actualidade, estas fontes têm um mero carácter decorativo, pois o sistema de abastecimento de água ao domicílio tornou-as desnecessárias.


publicado por Francisco Galego às 18:06
Tudo indica que seja a mais antiga das fontes de Campo Maior.
É constituída por uma tríplice estrutura de acordo com as funções a que se destinava: fonte, bebedouro e tanque.
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Fonte de S. Pedro
Em primeiro plano, o tanque para lavar roupa, seguindo-se o bebedouro e a fonte.
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Localizada numa importante saída de Campo Maior, perto do local onde se ramificam os caminhos que dão acesso a Ouguela e às terras mais férteis do concelho.
Fica situada à entrada de um vasto terreno plano que antigamente se chamava “a defesa de S. Pedro”: este terreno, propriedade do município, tinha funções importantíssimas para a comunidade agrícola que habitou Campo Maior até meados do século XX. Aí se localizava uma área importante de cultivo de cereais, a qual servia também de pastoreio comunitário para os gados, em aproveitamento dos restolhos, e de rossio onde se faziam as eiras. A função de pastoreio comunitário está bem testemunhada na existência de um bebedouro de muros baixos destinado ao gado ovino, o qual fica a pouca distância da Fonte de S. Pedro, e é alimentado pelo mesmo nascente.
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Fonte do Rossio, vendo-se os bebedouros para animais de tracção e gado ovino
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A Fonte de S. Pedro foi sempre de tal importância para a população de Campo Maior que, quando se projectou a construção do cemitério no terreno murado adjacente à Ermida de S. Pedro, o povo protestou, temendo a contaminação das águas. A Câmara, devido à pertinência da razão invocada, mudou o local do cemitério para o sítio onde, até hoje, se localiza.


publicado por Francisco Galego às 18:00
Nenhum documento nos elucida sobre a razão deste nome. Será que, noutro tempo, foi a fonte destinada ao abastecimento de água feito por escravas negras?
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Fonte das Negras
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A fonte, na sua localização actual, é bastante recente, pois está datada de 1936. Mas, ela é muito mais antiga pois que assim se designam os terrenos em volta em documentos que referem a existência nesse local do convento de Santo António, de monges da Ordem de S. Francisco e que teve de ser demolido para se construírem as muralhas em 1645. A fonte primitiva estaria numa das paredes exteriores desse convento. A mesma nascente abastecia a comunidade religiosa que o habitava.
Embora a sua estrutura indique apenas a função de abastecimento de água para beber, o tanque de recepção das suas bicas é amplo para servir também de bebedouro aos animais de tracção. Mas, como a água que escorria deste bebedouro era utilizada para abastecer os tanquinhos onde as mulheres lavavam roupa, também esta fonte exterior desempenhava uma tríplice função.  


publicado por Francisco Galego às 17:57
Esta fonte só está localizada no sítio actual desde 1936, pois que, antes de ser derrubada a cortina de muralha seiscentista que ligava o baluarte de S. Francisco ao meio baluarte de Santa Rosa, esta fonte não existia. A sua função era desempenhada por uma outra que lhe fica muito próxima: a Fonte de S. Francisco.
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Fonte do Chafariz ou da Abertura
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Tal como a Fonte das Negras, apresenta um tanque de recepção das bicas de grande dimensão, pois desempenhava também a função de bebedouro para os animais de tracção. Aliás, o nome de chafariz indica claramente essa função.
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Fonte do Chafariz ou da Abertura - Painel de azulejos
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O seu frontispício é decorado por interessante painel de azulejos representando uma cena campestre, onde figura o típico carro canudo, meio de transporte muito utilizado até meados do século XX.


publicado por Francisco Galego às 17:52
A fonte actual tem um efeito meramente decorativo.
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Fonte de S. Francisco
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Foi deslocada para o seu local actual, nos anos 30 do século passado.
A data que ostenta, 1766, é a da sua construção inicial, mas foi transferida quando da demolição da cortina de muralha seiscentista que ligava o baluarte de S. Francisco ao meio baluarte de Santa Rosa.
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Pormenor da Fonte de S. Francisco

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Antes ficava defronte da actual Rua de S. Francisco e fazia parte de uma estrutura que compreendia: um bebedouro (chafariz) que ficava um pouco mais abaixo; um tanque de lavagem. Naquele tempo, este tanque ficava num largo, por isso mesmo chamado largo do chafariz, no sítio que agora é ocupado por um edifício que já foi lagar de azeite e é agora uma oficina.



publicado por Francisco Galego às 17:48
A fonte actual, datada de 1936, nada tem a ver com a fonte primitiva que ficava no centro do largo chamado dos Cantos de Baixo. A antiga fonte foi desmontada e retirada do local para permitir a circulação dos autocarros da carreira que tinham de dar a volta da Rua de Ramires, para a Rua da Misericórdia, para terem acesso ao Terreiro, onde se situava a central.
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Antiga Fonte dos Cantos de Baixo
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Este largo desempenhou durante séculos uma função social importantíssima pois que era aí que os homens que trabalhavam nos campos como jornaleiros se juntavam ao fim do dia para conviverem e era aí que se dirigiam ao começo do dia à procura de contratos de trabalho.
Para as mulheres, a fonte, devido à sua localização muito central, no centro histórico da vila, era além de local de abastecimento de água, também um ponto de encontro, de convívio e de circulação de informações sobre a vida local. Alimentada por uma abundante nascente, raramente secava.
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Actual Fonte dos Cantos de Baixo
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Provavelmente, a sua nascente localizava-se um pouco mais a norte, mais ou menos na actual Rua General Magalhães, antes designada de Rua de Nantio, corruptela de Menantio. Esta palavra denuncia a existência de um nascente de água. O termo menantio é da mesma raiz que manancial, ou seja, sítio de onde a água emana.
É bem provável que esta nascente abastecesse também a fonte desaparecida que existiria na confluência das ruas chamadas Fonte de Cima e Fonte de Baixo e que estaria localizada no sítio ocupado pelo baluarte que, significativamente se chamava, Baluarte da Fonte do Concelho.
A fonte primitiva foi desmantelada, esteve durante muitos anos guardada, sendo finalmente reconstruída na Praça Velha, na proximidade do castelo.
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A antiga fonte, na Praça Velha

 



publicado por Francisco Galego às 17:38
É uma fonte interior às muralhas seiscentistas mas, por estar localizada numa entrada importante da vila, apresentava a dupla função de fonte e de bebedouro para os animais. Mas o tanque destinado a esta última função foi recentemente demolido.
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Antiga fonte do Largo do Barata, vendo-se a fonte e o bebedouro dos animais
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A fonte propriamente dita que ainda se encontra no mesmo local, mas associada a uma estrutura muito recente de carácter meramente decorativo.
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Fonte do Largo do Barata. Estado actual



publicado por Francisco Galego às 17:33
É a mais recente das fontes de Campo Maior. Está datada de 1954. Contudo, é bem provável que perto deste local tenha existido uma outra fonte, associada ao extinto e desaparecido convento de S. João de Deus, que abrigava o hospital militar de Campo Maior, nos séculos XVII e XVIII.
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Fonte do Largo da Casa do Povo
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Ainda hoje é visível uma fonte no pátio de acesso à casa que ocupa parte do terreno que pertencia ao convento e que fica entre as ruas de S. João, Santa Cruz, Visconde de Seabra e Vasco Sardinha.


publicado por Francisco Galego às 17:30
Das três fontes exteriores que rodeiam Campo Maior, será provavelmente, a de construção mais recente. Daí a razão do nome. Temos, contudo, de relativizar o seu carácter de novidade, pois que, já em documentos do século XVIII, aparece designado o ribeiro que lhe está adjacente como o Ribeiro da Fonte Nova, o qual tinha a interessante função de abastecer a lagoa que então existia entre os baluartes de S. João e de Santa Cruz.
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Fonte Nova
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Nesta fonte, a tríplice função está bem testemunhada: existe uma estrutura que é a fonte propriamente dita, abastecida por um cano que vem de uma distância de cerca de um quilómetro no caminho de Degolados, sendo visíveis ainda as arcas de água;da fonte, a água escorre para um grande bebedouro destinado aos animais; deste a água era encaminhada para os tanques de lavagem de roupa que hoje estão cobertos por uma construção.
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Fonte Nova - Bebedouro dos animais


publicado por Francisco Galego às 17:26
Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007
Quando escrevo este texto é Quarta-feira de Cinzas. Terminou o Carnaval. Guardadas as máscaras e os trajes exibidos pelas figuras grotescas do Entrudo, a vida vai agora voltar à normalidade.
            Aqui em, Campo Maior, o Carnaval decorreu com alguma animação, mas sem as grandes manifestações de festa que eram os Carnavais de outros tempos.
 Os desfiles que percorreram as ruas foram interessantes e animados. O de sexta-feira, dedicado às escolas do concelho, teve a função pedagógica de levar as crianças a participar na criação e preservação das tradições culturais da comunidade a que pertencem. O de sábado, para os adultos, foi bastante animado e participado. De acordo com a sociedade democrática em que vivemos, perdeu por completo o carácter elitista que tinha em meados do século passado.
            Por razões que se podem facilmente entender, o Carnaval campomaiorense que, por tradição e por natureza tem um carácter muito “caseiro”, começa cedo e cedo acaba. Evita assim entrar em concorrência desigual com manifestações semelhantes em terras vizinhas, as quais, com Carnavais mais apelativos, reservam o Domingo Gordo e Terça-feira de Entrudo para as suas realizações.
            As manifestações carnavalescas no tempo da minha juventude aqui, em Campo Maior, tinham como já referi na minha colaboração anterior neste jornal, as marcas do tempo que então se vivia no nosso país e que se traduziam numa profunda estratificação social baseada no poder económico e político e na importância social que esse poder conferia às pessoas. Daí que entre o Carnaval das elites e o Entrudo dos pobres, existisse uma completa separação. Contudo, noutros tempos bastante anteriores, o Carnaval tinha tido um fulgor e intensidade muito maior. Vejamos como o primeiro jornal que se publicou em Campo Maior, o “Campomaiorense” descreveu o Carnaval de há oitenta anos:
            “A época carnavalesca teve este ano um brilho desusado e que há muitos anos não tinha nesta vila … Fez-se uso dos saudosos pós pretos, malagueta queimada, talos de couve, águas sujas lançadas das janelas sobre os transeuntes, …esguichos e enfarruscadas…arremessaram-se ovos de cinza e até ovos de verdade…
No domingo e na terça-feira de Carnaval houve festivas batalhas de flores no corso elegante da Canada, onde uma enorme fila de algumas dezenas de coches, landaus, berlindas e cadeirinhas, volteavam para baixo e para cima num rodopio de carrossel. Deram viva nota os carros da elite feminina que se esmerou nas ornamentações a capricho e na confecção das toiletes garridas das senhorinhas. As crianças participaram como cúpidos, pierrots e pequenas fadinhas, animando o ambiente com a sua inocente alegria e as suas estridentes risadas.
Muitos caros artisticamente ornamentados, participaram neste cortejo, brincando-se muito por toda a parte, dos carros para as janelas e das janelas para rua, travando uma autêntica batalha de papelinhos, tremoços, violetas, rebuçados e bombons.
 Pelas ruas, mascarados sem conta, luzidias cavalgadas, paródias, cegadas.
Bailes em quantidade. Os que se realizaram em casa dos Srs. Viscondes de Olivã primaram pela distinção. Houve também bailes nas casas do Sr. Barbas, do Sr. José Ramos e na do Sr. João Martins Leitão, nos quais se dançou e cantou até altas horas da madrugada.
Os bailes no Teatro do Castelo foram espampanantes de entusiasmo e os concursos de máscaras provocaram grande entusiasmo. Dançou-se o foxtrot, o two-step, o jazz-band, bem como danças regionais e nacionais.
No Grémio brincou-se, riu-se e dançou-se. Disseram-se frases de espírito e esboçaram-se alguns namoros. Várias senhoras da nossa melhor sociedade cantaram árias e canções para deleite dos que as puderam escutar.
Quando o baile terminou – 8 da manhã! – já o sol doirado e brilhante se espraiava alegre e contente pelas ruas da vila.
Para em tudo ser completo, o Carnaval terminou no enterro do Entrudo com a sua imponência macabra e tétrica, como se pode ajuizar pelas centenas de fantasmas envoltos em lençóis brancos, formando duas longas filas, conduzindo tocheiros acesos, numa guinchadeira de pranto infernal…
Atrás o esquife funerário seguido pela banda que executava com muito sentimento e profunda mágoa a marcha fúnebre de Chopin…
De vez em quando o cortejo parava para ser entoada a magistral oração do bacalhau a pataco por um sumo-sacerdote de voz de cana rachada.
Acabou-se o Carnaval. O Entrudo ficou morto e enterrado. Que descanse em paz até ao novo ano.”
Este texto reporta-se aos anos de 1923 e 1924. Portanto, a uma época em que a nível político existia ainda um regime democrático, mas em que começavam a germinar as sementes da situação de crise que iria culminar, três anos depois, numa ditadura de cerca de meio século de duração. Já se antevê a tendência para que uma elite se afirme como grupo dominante na sociedade portuguesa.
Hoje, perdeu-se a tradição de fazer que o Carnaval, chegada a terça-feira, desse ainda um ar da sua graça com uma cerimónia muito solene, mas muito chocarreira, promovendo a sua despedida com o Enterro do Entrudo, também designado como Enterro de Bacalhau.
Depois do Carnaval, a Quaresma. Depois dos excessos e dos exageros de todas as formas, vem um tempo de sossego e de contenção. É desta alternância que se faz a vida dos homens e se organiza a vida em sociedade.
Contudo, à mocidade embalada pelos dias de folia, custava-lhe a despedida do Carnaval. Procurava a todo o custo prolongá-lo evitando mergulhar no período de abstinência que se ia seguir até à Páscoa. Assim, no primeiro domingo da Quaresma, faziam-se nas sociedades recreativas, bailes muito concorridos, os bailes da pinhata.
Esta parece ser uma tradição que se constituiu por influência de Espanha, se nos reportarmos a uma notícia publicada num jornal de Elvas, o Transtagano, de 24 de Fevereiro de 1861, onde se escreveu que este é o nome que tem o baile de máscaras que, no reino vizinho, pelo menos em Badajoz, costuma ter lugar no primeiro domingo de Quaresma. A dar fé neste documento, nessa época a tradição dos bailes da pinhata ainda não estava implantada em Portugal.
E, pronto! Foi-se o Carnaval. Esta crónica que vai ser lida quando o Carnaval já estará morto, enterrado e esquecido, será como que a nossa crónica da pinhata. Até ao próximo ano não voltaremos a falar do Carnaval.

Campo Maior, 21 de Fevereiro de 2007     

Região em Notícias de Campo Maior     2 de Março de 2007



publicado por Francisco Galego às 10:33
Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007
Estamos numa época do ano em que, no meu tempo de infância, as gentes do campo chamavam, segundo uma designação mais antiga, de Entrudo e que a gente que se tinha por mais ilustrada designava por Carnaval.
Por vezes, nos jornais do século XIX que actualmente me entretenho a investigar, encontro referências ao Carnaval de outros tempos, em Campo Maior. São, geralmente, referências a um Carnaval “bem comportado”, de gente séria que não cometia desmandos e que desdenhava e censurava “as grosseiras e violentas diversões das gentes rudes do campo, sem sentido das medidas e sem educação”. Por exemplo:
 No domingo gordo inauguraram-se nesta vila os bailes públicos de máscaras. O primeiro teve lugar no teatro (do castelo), levado a efeito pela Sociedade Artística, auxiliada por alguns não artistas, os quais, em comissão mista, tomaram a direcção do espectáculo. O teatro estava ornado sem luxo, mas com asseio e bom gosto e manteve-se em toda a noite na mais rigorosa decência. À entrada do salão de baile (plateia superior), cada máscara dizia o seu nome ao presidente da comissão.
A filarmónica artística, vestida uniformemente, deu começo ao espectáculo com uma sinfonia: levantado o pano, um artista, moço de merecimento moral e intelectual, entrou em cena com os emblemas que representam o tempo e figurou as quatro estações do ano…com versos alusivos.
Depois começou o baile que durou até às 2 horas da noite. Nos intervalos houve quadros vivos…
“No terceiro dia de Entrudo teve lugar o segundo baile de máscaras. Foi brilhante, foi até esplêndido e houve um grande concurso de espectadores. Desta vez, o número de Máscaras não baixou de sessenta: apareceram costumes variados e de bom gosto e houve muita animação. O ardor dos dançadores chegou a ser por vezes frenético … o movimento e alegria foram constantes…
À comissão que dirigiu os espectáculos, todos os louvores são devidos: nunca os houve em Campo Maior com mais ordem…” (In A Voz do Alentejo, 1866).
Muito raramente aparecem referências às outras manifestações do outro Carnaval, o Entrudo rude e violento, principalmente à celebração da “5ª- feira das comadres”, pela gente mais ligada ao trabalho nos campos e que eu ainda presenciei, em toda a sua pujança, nos tempos da minha infância.
Nesse tempo, quando se começavam a ouvir os estrondos do rebentar das bombas e os gritos chistosos com que a rapaziada perseguia as vítimas das impertinentes partidas, sabíamos que o Entrudo tinha começado.
Os “largalos” consistiam em rabos dos animais esfolados, trapos ou escritos com frases como Sou burro, Fujam que marro, que os brincalhões se entretinham a pregar nas costas dos incautos que eram escolhidos para vítimas. A tarefa de pregar estes objectos nas costas das pessoas sem que estas o pressentissem, exigia descaramento, astúcia, rapidez e perícia. Depois, o desgraçado a que se pregava a partida, ia passando pelas ruas sob a chufa dos gozadores divertidos que gritavam, “Lárga-lo!... Lárga-lo!” evitando que este percebesse que era o alvo desta gozação.
O rapazio adorava o perigoso jogo do lançar de bombas e de fazer rabear os busca-pés, com que procuravam assustar as pessoas. E não apenas nas ruas. O hábito que nesse tempo havia de manter abertas as portas das casas, dava azo a que os mais violentos deitassem esses objectos para dentro das casas o que dava origem a grandes sustos e alaridos. Os gritos das mulheres assustadas e as correrias dos malandros que procuravam fugir sem serem identificados, punham as ruas em alvoroço.
De noite formavam-se as trupes de mascarados que percorriam as ruas metendo-se com quem por eles passava. Caraças, mascarilhas, pinturas e óculos serviam para esconder a identidade, permitindo atitudes que não se assumiam de cara descoberta. Os homens e as mulheres aproveitavam para se travestirem envergando roupas velhas e grotescas, disfarçando a voz, aproveitando este período de maior liberalidade de comportamentos que não eram admitidos em situações normais de convivência em sociedade, como o hábito de mascarrar e de enfarinhar que permitia um contacto físico entre os sexos que estava de todo vedado nas condições normais do resto do ano. Por vezes, esses bandos de foliões entravam de rompante pelas casas, sendo recebidos em alarido pelos moradores e pelos vizinhos que acorriam a participar na festança. Se a trupe ia acompanhada de tocadores, podia mesmo improvisar-se uma bailarada.
 Mandava o decoro que se respeitassem as pessoas e as casas dos que, por razões de doença ou de morte, estivessem em situação de resguardo ou de luto. Aliás, exigia o decoro que essas pessoas se mantivessem o mais distantes possível das manifestações do Entrudo.
Os dias grandes do Entrudo mais ligado à cultura camponesa eram a 5ª- feira das Comadres e a 5ª- feira dos Compadres. Na das Comadres, os homens organizavam-se em bandos para a chocalhada: cobertos de capas oleadas e fazendo soar grandes chocalhos e mangas, iam pelas ruas provocando as mulheres que respondiam ao desfio lançando sobre eles baldes de água, nem sempre limpa, cinza, pó de carvão, farelos e serradura e outras coisas menos próprias que não convém designar. Agrupadas em certas casas, as mulheres colocavam à janela estandartes de panos coloridos, enfeitados com vistosas fitas e outros ornamentos, desafiando os homens a que os tentassem alcançar. Iniciava-se então uma feroz contenda em que os que estavam em baixo procuravam a todo o custo subir para alcançar o apetecido troféu e as que estavam em cima tudo faziam para impedir que tal objectivo fosse concretizado.
Na 5ª-feira dos Compadres o estandarte era substituído por um espantalho e de novo se desencadeava a contenda.
Realizavam-se muitos bailes no Entrudo. Os rurais – jornaleiros, criados e criadas de servir – frequentavam os da “sociedade da música” que, por estar ladrilhada com lajes de xisto negro que largava um pó que se agrava à roupa, era, por graça, designada pelo nome de “casinha do picom” ou por “bailes do assento” devido á localização da sociedade.
Os bailes da “sociedade da praça” eram reservados a uma espécie de classe média que incluía os comerciantes e os homens dos ofícios – ferreiros e ferradores, carpinteiros de “finos” e de “obra grossa”, comerciantes e caixeiros, pedreiros (alvanéus), paneiros e alfaiates, sapateiros, correeiros e albardeiros – enfim, todos os que tinham profissão não relacionada com o trabalho no campo ou que cultivassem apenas terras por sua própria conta, ou seja, os pequenos e médios proprietários.
Por volta de meados do século passado, foi mantido o hábito de se organizarem as Marchas de Entrudo, com algumas semelhanças com as actuais marchas populares – como as de Lisboa - só que com um aspecto mais chocarreiro, de acordo com o carácter carnavalesco da quadra. Deram muito nas vistas algumas marchas organizadas e ensaiadas pelo Carrasco e pela parceria constituída pelo sapateiro Joaquim d’Elvas e pelo, sacristão da Matriz, António Bajé. Estas distinguiam-se pelo brilho dos figurinos, pela perfeição das danças coreografadas e pelo cuidado que punham nas músicas e cantares ensaiados para o efeito. Os dois elementos da parceria referida esforçavam-se sempre por se apresentarem travestidos da forma mais gloriosa que lhes fosse possível, compondo extraordinárias personagens de rainhas, fadas ou princesas, pois, além da marcha que iam cantado e dançando, paravam nos cruzamentos das ruas e nas praças para representarem pequenos entremezes como, por exemplo, a extraordinária saga da “Princesa Magalona”.
Numa sociedade profundamente estratificada como a que nesse tempo habitava Campo Maior, nem no Entrudo eram concebíveis misturas das “pessoas comuns” com as “famílias notáveis”. Estas faziam, à sua maneira, o seu Carnaval: organizavam as suas trupes para irem de casa em casa animar as pessoas do seu “meio”.Os seus bailes eram reservados e realizavam-se em casas particulares – os assaltos -, ou no Grémio, sociedade recreativa muito selectiva, designada por “a sociedade dos ricos”.
Esta “elite social”, durante alguns anos organizou uma espécie de corso local, um cortejo ou desfile que o povo designava por “a batalha das flores” e que consistia em as famílias do “círculo dos importantes” desfilarem ao longo da rua da Canada, em charretes ou noutro tipo de trens de tracção animal, travando uma amável “batalha” de pequenos saquinhos de farinha, grão, feijão, farelo, serpentinas, papelinhos, entre os que circulavam e os que assistiam na rua ou nas janelas. Ao povo cabia o papel de assistir e de se deslumbrar com o brilho dos trajes de dominós, damas antigas, arlequins e columbinas, envergados pelos figurantes.
Hoje, tudo está mais igual. A sociedade está seguramente mais justa e isso é mesmo muito importante. Mas custa um pouco a aceitar que a vida se tenha tornado muito mais interessante.
Campo Maior, 7 de Fevereiro de 2007
(Publicado em Região em Notícias de Campo Maior, 16 de Fevereiro de 2007)


publicado por Francisco Galego às 14:46
O Transtagano (1860 – 1863) -  Nº 192,  Elvas - Domingo, 2 de Março de 1862
 
            “O Carnaval, pelo menos aquele que se mostra nas ruas e praças, vai definhando cada vez mais…
            Com efeito, aquele buliçoso Entrudo doutras épocas não muito distantes, fugiu de nós espavorido e despeitado pela seriedade dos tempos de agora.
            O que é feito das orgias saturnais que deleitavam os menos escrupulosos?
            Aonde foram refugiar-se esses brinquedos selvagens, não raramente causadores de gravíssimos desgostos, no meio do geral delírio que desvairava as cabeças dos mais circunspectos?
            A brutal laranjada, os ovos arremessados de longe, a água derramada em profusão sobre corpos agitados pelo reboliço da ocasião, deixaram de figurar no catálogo das diversões populares nesses dia de febril loucura em que o ciúme dos maridos, a rigidez dos pais e a gravidade das mães, tinha de fechar os olhos a milhares de atrevimentos, a excessos de licenciosidade que, na véspera, ou dois dias depois, fulminariam com todo o rigor da mais austera moral e castigariam com o brio de quem preza o seu decoro e o da sua família.
            Vendo banidos esses usos grotescos e imorais, não hesitamos em render homenagem à civilização que, pintando-os em toda a sua hediondez, tem chamado gradualmente o nosso povo a melhor caminho.
Hoje não se toleram certas demasias que a boa razão condena. Cada qual procura divertir-se sem descer da sua dignidade, nem permitir que se falte aos deveres da decência e da boa cortesia. As ruidosas bacanais das ruas ficaram reduzidas á aparição de máscaras inofensivas que a polícia vigia cautelosa.
As perigosas e indecentes assaltadas em que, o decoro das famílias e não poucas vezes o pudor, eram atrozmente ofendidos, cederam o lugar a pacíficas reuniões aonde não são esquecidos os ditames da moral e da boa educação. As cidades de maior vulto recreiam-se com os bailes de máscaras e com as representações de peças mágicas ou burlescas, que mantenham o bom humor e a hilariedade. Nas terras de menor vulto, as assembleias ou círculos recreativos, proporcionam às famílias uma distracção honesta e amena em que não se conhece o bulício da época senão por algumas atitudes de maior jovialidade e pela chuva de papelinhos cortados que cobrem as salas.” (RCM – 17/2/07)     


publicado por Francisco Galego às 14:44
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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