Domingo, 08 de Setembro de 2013

Ontem, 7 de setembro de 2013, a Câmara Municipal de Campo Maior promoveu a realização simultânea de duas cerimónias de carácter cultural.

Uma foi a do descerramento de uma placa com o novo nome atribuido à Bilblioteca, em cumprimento de uma proposta por mim apresentada há algum tempo e aprovada na Assembleia Municipal. Assim, passa a chamar-se BIBLIOTECA MUNICIPAL JOÃO DUBRAZ.

Como tive ocasião de referir, trata-se de uma justa homenagem ao que pode e deve ser considerado o vulto mais notável da cultura campomaiorense.

 A outra cerimónia consistiu na inauguração, na mesma biblioteca, da sala José Manuel Capêlo, poeta e historiador, que viveu e faleceu em Campo Maior e cuja família fez concessão da sua biblioteca pessoal à Biblioteda Municipal João Dubraz.

Na ocasião tive a oportunidade de chamar a atenção para esta notável figura ligada a Campo Maior, fazendo algums considerações que tento reproduzir no escrito que transcrevo:

 

José Manuel Capêlo

 

 

 

 

José Manuel Gomes Gonçalves Capêlo nasceu a 29 de Janeiro de 1946, em Castelo Branco. Faleceu em Campo Maior, numa quinta-feira, em 25 de Fevereiro de 2010.

 

Neste mesmo dia, ao atravessar a avenida, uma buzina tocou. Olhei e vi o Capêlo que me acenava ao volante da sua carrinha amarela. A carrinha, a maneira descuidada como se vestia e a longa e farta barba que lhe cobria o rosto, davam-lhe aquele ar de vendedor de feiras que irónica e intencionalmente cultivava.

Respondi ao aceno. Pensei que já não o via há bastante tempo. Costumava vir duas vezes por semana abastecer-se à vila e telefonava para uma cavaqueira no Jardim, para recordarmos coisas das nossas vidas e confrontarmos opiniões sobre acontecimentos presentes. Mas, ultimamente parecia ter-se encafuado mais no refúgio que construíra em isolamento campestre e que baptizara como a Casa do Templo. Constituíra esta casa como o ermitério onde se isolara.

Passadas umas horas sob este rápido e distante encontro de apenas um aceno, recebi uma chamada de um familiar, vizinho do Zé Manuel Capêlo. Anunciava-me que ele tinha falecido subitamente mesmo à sua frente.

Foi um choque pela violência e gravidade da inesperada notícia. Sabia que andava com problemas de saúde algo preocupantes. Mas, não pensava que pudesse haver um tal desfecho.

 

Fui velá-lo por breves momentos. Acompanhei a cerimónia da incineração em Elvas. Regressei a casa e, abalado, sem reflectir muito, sentei-me frente ao computador. Costumava ler num Blogue a poesia que fora criando ao longo dos anos. Era uma leitura que fazia com muito gosto. Tratava-se de uma preciosa selecção de poemas escolhidos com um notável critério de qualidade. A sua autora era uma amiga ligada por um antigo e devotado afecto ao autor dos poemas. Mas, sendo ela uma artista de elevado engenho e mérito, ilustrava as páginas com imagens muito bem seleccionadas. O conjunto resultava na associação perfeita entre o valor estético das figuras e o interessante conteúdo dos poemas publicados.

Fiquei ali a revisitar os poemas, confirmando a grande inspiração que os gerara. Influenciado por esta leitura escrevi então as seguintes palavras:

 

Aqui, onde vieste lançar as raízes do teu fim de vida...
Aqui, neste Campo Maior,

Onde quiseste que fossem lançadas as cinzas do que foste...
Aqui, onde alguns amigos vieram acenar-te um adeus final...
Aqui te expresso um último desejo:
"Requiescat in pace" Capêlo, tardio e breve amigo.

(27 de Fevereiro de 2010)

 

No domínio da criação literária foi poeta, ficcionista, investigador e editor. Tem colaboração (poesia, recensão crítica, conto e ensaio) dispersa em jornais e revistas, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

 

Publicou uma dozena de livros de poesia e uma imensidade de poemas em várias antologias e revistas

 

Traduzido em várias línguas e países: Brasil, Espanha, França, Inglaterra,

  República Popular da China e USA

 

No blogue (Re)Encontro Inevitável, de Emília Matos e Silva, encontramos uma bela selecção dos seus poemas.

 

No domínio da História fixou-se num tema – Os templários sobre os quais deixou livros que constituem referências inevitáveis para o estudo deste tema:

 

Portugal templário – A Presença Templária em Portugal – Relação e sucessão dos seus Mestres (1124-1314). 1ª edição, Aríon, Lisboa, 2003; 2ª edição, Zéfiro, Lisboa, 2008;

 

Castelo Branco, a Cidade-Capital Templária de Portugal: de 1215 a 1314, Codex Templi, Os Mistérios Templários à Luz da História e da Tradição, Zéfiro, Sintra, 2007.

 

Para divulgar textos seus sobre a temática do Templários, criou um blogue intitulado Mais Encanto que assinava com o pseudónimo de Pedro Alvites, um mestre da Ordem dos Cavaleiros do Templo.

 

Muito interessado no conhecimento dos Templários em Portugal mas sempre numa perspectiva puramente histórica, pois renegava qualquer abordagem do tipo “templarismo”, de carácter mais ou menos cerimonial ou exotérico.

 

Na releitura que fiz da sua poesia, escolhi dois breves poemas que me pareceram ser autodefinidores do seu autor:

 

SE…EM REALIDADE

 

Se eu tivesse tempo de ser tempo
se o tempo tivesse tempo de ser eu
talvez que o tempo fosse mais tempo
e eu tivesse tempo de ser mais eu.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986.

 

SER

 

A razão de ser como sou

deve-se ao facto

de não ser como deveria ser!

 

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983



publicado por Francisco Galego às 17:11
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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