Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

 

Quadras recolhidas por José Leite de Vasconcelos no seu “Cancioneiro Popular Português” ( 5 )

 

Dá-me uma “petinha”[1] d’agua,

Qu’inda hoje não bebi;

Faz da tua boca bica,

Que não tenho nojo de ti.

 

Tua boca me parece,

Um botãozinho de rosa;

Tenho visto bocas lindas,

Mas nenhuma tão formosa.      

 

A nossa amizade amor,

Não tem peso nem medida;

Tu és cravo num andor,

Eu sou rosa numa ermida.

 

Fui ao jardim dos amores,

Colher uma camoesa;

Ganhei o céu em te amar,

Já não quero mais riqueza.

 

Inda que tenha “paixão”[1]

Em te vendo se me tira;

Amor do meu coração,

Hás-de julgar que é mentira.

 

No coração duma pomba,

Nos ares da Primavera;

Quem me dera adivinhar,

A tua intenção qual era.



[1] No sentido de “mal de amor”, sofrimento.



[1] “Petinha” = pinguinha



publicado por Francisco Galego às 09:47
Quarta-feira, 09 de Abril de 2014

Quadras recolhidas por José Leite de Vasconcelos no seu “Cancioneiro Popular Português” ( 4 )

 

Ovelhas não são p’ra mato,

Sabe-o bem o pastor;

Deixam a lã no carrasco,

A “perca” é do lavrador.

 

A “soidade”[1] é uma flor,

Que se cria em qualquer vaso;

Lealdades no amor,

Só se encontram por acaso.

 

A azeitona quando nasce,

Nasce logo redondinha;

Tu também quando nasceste,

Foi logo para seres minha.

 

És meu amor, és meu tudo,

És da minha simpatia;

Tu és a brilhante estrela,

Para mim és luz do dia.

 

Não me namora o teu riso,

Nem a tua formosura;

Namora-me o teu juízo,

Que é o que um homem procura.



[1] “Soidade” = saudade.



publicado por Francisco Galego às 08:44
Quarta-feira, 02 de Abril de 2014

 

Quadras recolhidas por José Leite de Vasconcelos no seu “Cancioneiro Popular Português” ( 3 )

 

 

O meu pai já está deitado,

Minha mãe está-me a chamar;

Eu bem sei o qu’ela quer,

Não me deixa namorar.

 

Não me deixa namorar,

Diz que o tempo já passou;

Coitada já não se lembra,

Que ela também namorou.

 

Que ela também namorou,

Num tempo que já lá vai;

Coitada já não se lembra,

Que namorou o meu pai.

 

 

 

 

Tão triste agora me vejo,

Sem a tua companhia;

Que até já nem me lembro,

Se fui alegre algum dia.

 

Ó meu bem quando casarmos,

Não te quero ver mondar;

Quero que fiques em casa,

Porque te quero estimar.

 

O meu amor é carreiro,

Tem arreatas na mão;

Eu também o trago a ele,

Dentro do meu coração.



publicado por Francisco Galego às 09:39
Quarta-feira, 26 de Março de 2014

Quadras recolhidas por José Leite de Vasconcelos no seu “Cancioneiro Popular Português” ( 2 )

 

 

Eu nunca fui cantador,

 

Nem nos descantes achado;

 

Passo a vida a trabalhar,

 

Trago o meu corpo maçado.[1]

 

 

 

A vida que te darei,

 

Já a podes ir sabendo;

 

Trabalharemos os dois,

 

Assim iremos vivendo.

 

 

 

Nesta vida de ganhão,

 

Nem se pode namorar;

 

De dia ganha-se o pão,

 

A noite é p’ra descansar.

 

 

 

Ó meu bem apaga a luz,

 

Apaga-a vai-te deitar;

 

Já passa da meia-noite,

 

São horas de descansar.

 

 

 

Canta amor, canta comigo,

 

Já qu’outra alegria não temos;

 

Basta termos a certeza,

 

Que nunca nos apartemos.

 



[1]“Massado”= amassado, magoado, cansado.

 



publicado por Francisco Galego às 10:37
Quarta-feira, 19 de Março de 2014

Quadras recolhidas por José Leite de Vasconcelos no seu “Cancioneiro Popular Português”

 

 

Ó belo Campo Maior,

 

Com janelas à francesa;

 

Cantas bem, balhas[1] melhor,

 

Cantigas à camponesa

 

 

 

Ó belo Campo Maior,

 

Distrito de Portalegre;

 

No dia que te não vejo,

 

Já não posso andar alegre.

 

 

 

Raparigas alentejanas,

 

Eu sou de Campo Maior;

 

Tenho a minha fala presa,

 

Não posso cantar melhor.

 

 

 

Vou-me a cantar uma cantiga,

 

Já não canto senão esta;

 

Que o que é pouco bem fica,

 

O que é demais não presta.

 

 

 

Vou-me a dar a despedida,

 

Por hoje não canto mais;

 

Já tenho a garganta seca,

 

Já me doem os queixais.

 



[1] “Balhas” = bailas

 



publicado por Francisco Galego às 09:22
Quarta-feira, 05 de Março de 2014

O “Cancioneiro Popular Português” coligido por J.Leite de Vasconcelos

 

            José Leite de Vasconcelos deixou acumulados em pastas milhares de documentos que foi laboriosamente recolhendo ao longo da sua vida de 83 anos. Viveu entre 1858 e 1941.

            Os seus testamenteiros,  entre os quais se destaca para a missão de dar à estampa grande parte desses documentos, o Professor Orlando Ribeiro que, com a colaboração do professor Viegas Guerreiro, seu colega no Centro de Estudos Geográficos da Faculdade de Letras de Lisboa, irão encarregar a Drª Maria Arminda Zaluar Nunes da coordenação do “Cancioneiro”.

 

            Nesta obra encontram-se as quadras com a indicação precisa da terra em que foram recolhidas.

            No que respeita ao Alentejo, podemos, a partir da correspondência trocada entre J.L. de Vasconcelos e A.T. Pires, deduzir que, na maior parte dos casos, os registos da recolhas efectuadas tenham sido feitos por volta de 1891, ano em que o eminente etnólogo viajou pelo Alto Alentejo, tendo sido visita e hóspede do etnógrafo elvense com quem se correspondia com grande frequência.

 

Neste cancioneiro, estando claramente indicada a sua identificação com Campo Maior, podemos proceder de modo diferente do que foi feito para o “cancioneiro” de Tomás Pires. Neste só podíamos concluir que algumas das cantigas recolhidas na actualidade constavam desse documento. Logo, é legitimo concluir que eram mais antigas do que, à partida poderíamos ter pensado. No “cancioneiro” de J. L. Vasconcelos vamos encontrar cantigas identificadas como sendo de Campo Maior que não constavam da recolha que foi feita para a elaboração deste livro. Poderá isso significar que elas não permaneceram na memória colectiva. Assim, porque um dos objectivos principais deste trabalho consiste na inventariação e na preservação do “cantar e bailar as saias”, houve o cuidado de transcrever as quadras claramente identificadas como tendo sido recolhidas em Campo Maior.

 



 



publicado por Francisco Galego às 08:11
Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Os Cancioneiros coligidos e publicados por António Tomás Pires

 

No número 128 de 22 de Junho de 1881, o jornal elvense “A Sentinella da Fronteira” começou a publicar o folhetim “Poesia Popular Portuguesa – Cantos Populares do Alentejo – recolhidos da tradição oral por António Thomás Pires”. A sua publicação foi interrompida quando já iam publicadas 950 cantigas. A publicação recomeçou no número 230 de 14 de Junho de1883, mantendo-se até ao último número do jornal, o nº 590, que se publicou em 30 de Outubro de 1891, sendo que a última quadra publicada tinha o número 3.224. Como a numeração teve alguns saltos, não terá sido tão elevado o número das que foram publicadas. Terão, contudo, sido publicadas mais de duas mil. Publicaram-se ainda mais quadras noutro jornal – O Elvense – em 1885, no Folhetim “Miscellanea Folk-lorica”, entre os números 470 e 480.

A partir das quadras publicadas nestes jornais, foi possível identificar, ainda que sem grande rigor, cerca de duas centenas de “cantigas” que foram cantadas às “saias” em Campo Maior. O que de modo nenhum permitirá afirmar que tenham sido, todas elas, produzidas pela gente de Campo Maior. Os contactos que regularmente se faziam, principalmente no São Mateus, promoviam as trocas de que resultava que cada um levasse, de regresso à sua terra, as cantigas que mais o tinham impressionado.

Mas a identificação dessas cantigas com o cantar as “saias” em Campo Maior, permite a conclusão segura sobre a sua antiguidade. Por outro lado, foi possível recordar com rigor a memória de algumas delas que já estavam de facto esquecidas.

Nesta publicação, A. T. Pires não faz qualquer referência ao local onde cada quadra terá sido recolhida.

Mais tarde, os “Cantos Populares Portugueses” seriam reunidos em 4 volumes, tendo sido o 1º e o 2º publicados em 1902 , o 3º em 1909 e o 4º em 1910. Estes quatro volumes contêm 10.600 quadras, recolhidas por todo o país. Em cada quadra está a indicação da província em que foi recolhida, mas não há indicação da povoação em que tal terá sido efectuado.

 



 



publicado por Francisco Galego às 08:06
Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014

“As saias são modas coreográficas do Alto Alentejo. Cantam-se ao despique durante as fainas agrícolas (apanha da azeitona, p. ex.) ou cantam-se e dançam-se no dia de S. João, em que aparecem as Saias novas, ou em festas colectivas, a exemplo das Festas do Povo, de Campo Maior.

         Acompanham-se com uma pandeireta, que executa agilmente o ritmo e conduz a dança; uma voz feminina entoa o canto, de que nada de particular se pode assinalar do ponto de vista melódico.

         As saias de Campo Maior denunciam, no dizer de F. Lopes Graça, ‘ com as suas coplas e o seu acompanhamento instrumental, do tipo de seguidilha, […] uma marcada influência espanhola.’ ”

( Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça – “Cancioneiro popular português”, p. 324)

 

 “SAIAS – A moda das saias é uma dança popular bailada principalmente pela gente do Alto Alentejo mas também bailada em algumas regiões do Ribatejo, da Beira Baixa, da Beira Litoral, da Estremadura, da Beira Alta e do Douro Litoral, Contudo, repetimos, é mais característica do Alto Alentejo e das terras interiores da Beira litoral e do Ribatejo – precisamente daquela região que outrora pertenceu à Estremadura (Tomar, Pombal, Ansião, Figueiró dos Vinhos, Chão de Couce, Avelar, etc.). é uma dança sincopada e, às vezes, com marcador.

         O ritmo típico das saias é o binário; no Alto Alentejo o binário composto (6/8); no Douro Litoral, as saias têm um ritmo nortenho – binário simples (2/4).

         Há quem pretenda aparentar as saias com a dança espanhola da Andaluzia conhecida pelo nome de “saeta”, porém nada de comum parecem ter, pois as saias são uma dança profana, de divertimento, ao passo que a “saeta” é uma dança acompanhada de canto litúrgico e só bailada como ritual das procissões.

         A moda das saias tem vários aspectos, por isso há várias modalidades de saias:

         a)  Velhas – As antigas, em forma de valsa-mazurca;
         b)  Novas – As actuais, em forma de valsa campestre;

c)  Aiadas – Aquelas em que o marcador grita um “ai” no estribilho, a indicar a volta;

d) Puladinhas   (ou Pulado);

e) Com estribilho

 

As saias são modas acompanhadas de canto. Por isso, as saias são só para cantar ou para cantar e bailar. Quando cantadas possuem uma letra sem requebro. Quando só cantadas, durante o trabalho, as saias estão para a gente do Alto Alentejo como o tope está para a gente do Baixo Alentejo.

Nas saias, os estilos e modas (a música) bem como os pontos (a letra) são volantes e os seus ritmos, às vezes, variam, chegando a haver, na mesma região, várias saias de estilo e moda diferentes; algumas vezes, o mesmo ponto serve vários estilos, mas o mais vulgar é o mesmo estilo ser cantado com vários pontos.

Já no século XVII se dançavam as saias e parece que, então, elas se bailavam um pouco à maneira andaluza; tal modalidade arcaica ainda hoje se encontra em Escalos-de-Baixo.

É no Alto Alentejo, bailadas ao som de pandeiro e, às vezes, de pandeiro e adufe, que as saias são mais castiças.

(Tomaz Ribas – Danças do Povo Português, Ministério da Educação Nacional, Lisboa, 1ª ed. , 1961, pp.100-101)



publicado por Francisco Galego às 08:32
Sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Vejamos primeiramente algumas definições, chamando  a atençãopara a pluradidade de referências que, ao longo do tempo, lhes foram sendo feitas. Em segundo lugar, constatemos que as saias foram, no passado, uma forma de cultura popular muito genuina e altamante criativa mas que actualmente estão em declínio, reduzindo-se a uma repetição de conjuntos restritos de quadras, sempre as mesmas  e que as próprias melodias foram alteradas, acelerando-lhes o ritmo, para as adaptarem a um gosto mais citadino que pouco tem a ver com as "modas" que em tempos passados, eram constantemente renovadas pelos camponeses que as iam inventando.

 

             Saias – Dança tradicional portuguesa típica do Alto Alentejo.

(“Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea”, Academia das Ciências de Lisboa, ed. Verbo, Lisboa, 2001, p. 3306)

 

            Saias – Canção popular acompanhada de dança do Alto Alentejo.

(“Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, ed. Círculo de Leitores, Lisboa 2003, p. 3231).

 

            Saias – Dança popular portuguesa, em especial no Alto Alentejo.

(“Dicionário da Língua Portuguesa”, de J. Almeida e Costa e A. Sampaio Melo, Porto Editora, 6ª ed. 1985, p. 1479)

 

            Saias – Dança popular em Elvas e Campo Maior

In:

(“Grande Dicionário da Língua Portuguesa”, de António Morais Silva, Editorial Confluência, Lisboa, 1956)

(“Dicionário da Língua Portuguesa”, de Cândido Figueiredo, Bertrand Editora, 33ª ed., Venda Nova, 1973, p. 963)

(“Grande Dicionário da Língua Portuguesa”, de Cândido Figueiredo, Bertrand Editora, Venda Nova, 1996, p. 2260)

(“Lello Universal”, Porto, 1986)

 

 

            Saias – Canção dançada, popular, localizada no Alto Alentejo, cuja fisionomia melódico-rítmica tem a particularidade de alternar compasso a compasso o seis por oito com o ternário. Existe na Andaluzia e em Cuba uma canção popular que oferece a mesma característica – é a guajira.

( Frederico de Freitas, in “Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura”, Editorial Verbo, Lisboa, 1974, 16º vol., p. 1074)

(Idem, in “Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura”, Lisboa, S. Paulo, 2002)

 

Saias e Balhos – Nome genérico que se dá às danças populares e bailes alentejanos, muitas vezes do tipo das rodas.

(“Enciclopédia Internacional Focus”, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1968, Vol. IV, p. 295)

 

            Saias – Dança popular acompanhada a canto, característica do Alto Alentejo. Na sua linha melódico-rítmica alterna o compasso ternário com o compasso seis por oito, característica que também se encontra na canção popular denominada Guajira.

(“Lexicoteca – Moderna Enciclopédia Universal”, Círculo de Leitores, 1987, Vol. 16, p. 185)

            Saias – Quadras populares, cujo estilo é apropriado a uma dança característica bastante movimentada. – Também assim é conhecida a referida dança em Elvas e Campo Maior. Noutros pontos do Alentejo, em Cabeção por exemplo, chamam saias novas a todas e quaisquer cantigas e modas que apareçam no folclore regional.

         (Saias camponesas, “dança de roda” segundo Cândido de Figueiredo e Tomás Pires).

(J. A. Pombinho Júnior, “Cantigas Populares Alentejanas e seu subsídio para o léxico português”, Edições Marinus, Porto, 1936, pp. 89 e 90)

           

 

 



publicado por Francisco Galego às 08:09
Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Em Campo Maior se colhe,

O alecrim às paveias;

O amor é como o sangue,

Que corre nas nossas veias.[1]

 

Eu hei-de ir p’ra cidade,

Campo Maior m’aborrece;

Que eu tenho lá na cidade,

Quem penas por mim padece.[2]

 

Se fores a Campo Maior,

Trás de lá uma camponesa,

Que saiba cantar as saias

E não tenha a fala presa.[3]

 

Venho de Campo Maior,

Tocando na pandeireta;

Vamos a ver qual de nós,

Namora aquela sujeita.[4]

 

Vila de Campo Maior,

És mais vila do que as mais;

Tens o largo do Terreiro

E o largo dos Carvajais.[5]

 

Velho Largo do Barata,

E Largo dos Carvajais;

Puxaram punhais de prata,

Fizeram golpes mortais.

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, Évora,1957, pág. 58

[2] Idem, ibidem.

[3] Idem, pág. 60, com pequenas diferenças.

[4] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, Évora,1957, pág. 58

[5] Idem, ibidem.



publicado por Francisco Galego às 07:45
Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Bela cidade d’Ouguela

Dá vistas pr’a Lapagueira,

Mal empregada cidade

Estar em tamanha ladeira.[1]

 

Teu castelo tão altivo

Tão rico de tradições,

É monumento afamado

P’ra todas as gerações.

 

Fui à torre do castelo,

P’ra Elvas me pus a olhar;

A ver s’alcanço a moça,

Com quem pretendo casar.

 

Gostava que a minha rua,

Fosse chamada saudade;

Porque a rua onde crescemos,

Lembra a nossa mocidade.

 

Sou filho de gente pobre,

Tenho a minha opinião;

Nascido em Campo Maior,

Baptizado em São João.

 

Nasceste em Campo Maior,

Bem mo disse o coração;

Pelo modo de cantar,

Vê-se logo s’és ou não.

 

Moças de Campo Maior,

São muitas parecem poucas;

São com as flores do campo,

Umas encobrem as outras.[2]

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, pág. 57

[2] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A.T. Pires. Elvas (1902-1910). Pág. 142.



publicado por Francisco Galego às 08:43
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

Adeus rua da Carreira,  

Já por mim não és seguida;

Já se quebraram os laços, 

Em que me tinhas prendida.[1]

                                                       

À entrada desta rua

À saída desta aldeia,

Namorei uns olhos pretos

Às escuras sem candeia.

 

Entre ruas e ruelas

É famosa esta Canada,

Aqui quem manda são elas

Eles já não mandam nada.

 

Bela rua da Canada,

Está cheia d’opiniões;

Só se vêem p’las janelas,

Gaiolas com perdigões.

 

A água da Fonte Nova

Quem a bebe tem virtude,

Eu passei por lá doente

Agora gozo saúde.

 

A Fonte Nova velhinha,

Apesar de tantos anos,

Vai matando a sede a todos,

Desde os ricos aos ciganos.

 

Ó Senhora da Enxara,

Venha cá abaixo à ribeira;

Qu’esta noite estão a dar,

As bogas à cascalheira.

 

A tua fonte no Largo

A igreja de São João,

São duas jóias queridas

Que trago no coração.



[1] Idem, nº 177, Elvas, 5 de Novembro de 1882.



publicado por Francisco Galego às 10:33
Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2013

Já lá se vai o Entrudo

Com as sua mangações,

Agora vem a Quaresma

Com rezas e procissões.



publicado por Francisco Galego às 10:39
Terça-feira, 05 de Fevereiro de 2013

À Igreja da Matriz

Feita de pedra morena,

Dentro dela vão rezar

Dois olhos que me dão pena.

 

Bela Igreja da Matriz,

Belo Largo do Convento,

Ó belo Campo Maior,

Onde está meu pensamento.

 

A Rua do 1º de Maio,

Dia dos trabalhadores,

Tem o nome contrafeito

Pois lá só moram senhores.

 

Com Pelourinho, palácios

E Câmara Municipal,                             

Praça Nova ou da República

Serás sempre a principal.

                                 

Campo Maior teu Jardim

É tão bom como os melhores,

De dia juntam-se os velhos

À noite escondem-se amores.

                                                       

O relógio da Matriz,

Bate as horas pr’ó Convento;

Também meu coração bate,

Horas no teu pensamento.[1]

 

Quem quiser ver maravilhas

Chegue-se a Campo Maior,

Janelas avarandadas

Casas mais lindas que o sol.

 

À entrada da Avenida

 Deu um ai meu coração,

Ajuntaram-se as estrelas

Nublou-se o céu com paixão.



[1] Idem, nº 314, Elvas, 11 de Maio de 1884.



publicado por Francisco Galego às 09:31
Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

A rua da Costanilha,

É custosa de subir,

Os olhos do meu amor,

É que me fazem lá ir.

 

No coração duma pomba,

Nas asas duma andorinha,

Eu fui ver o meu amor,

À rua da Canadinha.

 

A rua do Quebra-costas,

Dá a volta pr’ó castelo,

Nem teu pai nem tua mãe,

Sabem o bem que te quero.

 

Ontem à noite à meia-noite,

À meia-noite seria,

Estava meu amor cantando,

No canto da Mouraria.

 

Eu criei-me na Caleja,

Que é uma rua pobrezinha;

Das outras não tenho inveja,

Não há rua como a minha.

                                                       

Com sangue duma andorinha,

Com a pena dum pavão,

Pus-me a escrever uma carta,

P’ra rua de São João.

 

Eu fui ver a minha amada

À rua de São João,

Parecia uma santinha

Passando na procissão.

 

Igreja de São João,

Tem dois vasos d’assucena;

Lá irei p’ra ver as moças,

A saírem da novena.



publicado por Francisco Galego às 08:12
Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Lá por fora, em terras distantes, recordava-se a terra que se deixara.

A emigração era uma dor que o tempo iria atenuando. Mas, agora que estava tão próximo do tempo em que se abalara, acudiam à mente e ao sentimento tantas recordações.... Por isso, cantavam-se as ruas, os sítios e os recantos onde se vivera, brincara e convivera, durante a infância e a mocidade:

 

Campo Maior teu jardim,

É tão bom como os melhores,

Quer de dia quer de noite,

Nele passeiam amores.

 

Vila de Campo Maior,

Tua beleza é tamanha,

Que até tens o rio Caia,

Bem encostadinho à Espanha.

 

Ruinha de Santo António,

Sempre dela gostarei.

É uma rua pequenina,

Mas foi lá que me criei;               

 

Sou soldado d’acavalo,

À porta da vila entrei,

Fui rua Direita abaixo,

Nem para o Convento olhei.

 

Ó bela rua Direita,

Entrada das espanholas;

Toca-me essa pandeireta,

Repenica as castanholas.

                               

Na rua da Soalheira,

Não se pode namorar;

De dia, velhas à porta,

De noite, cães a ladrar.[1]

                                                       

Olha lá, ó linguareira,

Que andas a remoer?

Da rua da Soalheira,

Ninguém tem nada a dizer.



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 333, Elvas, 12 de Agosto de 1884,  mas com o 1º verso mudado: Na rua do Espírito Santo

 



publicado por Francisco Galego às 07:04
Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

Já Elvas se está queixando

Que não tem moças formosas,

Cheguem-se a Campo Maior

Que até as silvas dão rosas.         

 

Ó belo Campo Maior

Não és vila nem cidade,

És uma capela d’ouro

Onde brilha a mocidade.

 

Campo Maior minha terra

Terra d’encantos sem par,

Teus cantos e teus recantos

São difíceis d’igualar.

 

Ó belo Campo Maior,

Tudo à roda são “calitros”;[1]

Se tu me quisesses bem,

Não te fiavas em ditos.

 

Ó belo Campo Maior,

És comparado com França;

O adro de São João,

Tem gradarias em lança.[2]

 

Moças de Campo Maior,

Vão bailar par’o castelo;

Todas levam na cabeça,

O seu lencinho amarelo.[3] 

 

Ó Campo Maior das flores,

Onde tenho a minha amada;

Se não logro ver seus olhos,

Minha sorte é desgraçada.[4]



[1] Calitros = eucaliptos

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 420, Elvas, 14 Março de 1886.

[3]  Idem, nº 423, Elvas, 4 de Abril de 1886.

[4] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, p. 56

 



publicado por Francisco Galego às 16:56
Segunda-feira, 07 de Janeiro de 2013

 

Elvas porque é cidade,

Vila Boim por nobreza,

Vila de Campo Maior,

Onde está minh’ alma presa.

 

Camponesa, camponesa,

Eu sou de Campo Maior;

Tenho a minha fala presa,

Não posso cantar melhor.[1]

 

Adeus Monte da Defesa,

Tão branquinho e posto ao sol;

Minha mãe é camponesa,

Eu sou de Campo Maior.[2]

 

Nossa fala alentejana

Não a podemos negar;

Toda a gente nos conhece

Pelo modo de cantar.

 

Tenho um amor na cidade,

Outro em Vila Boim,

Outro em Campo Maior,

Esse é que me mata a mim.

 

Aldeia de Santa Eulália

E Povo de São Vicente,

Mas é em Campo Maior,

Que eu tenho a minha gente.

 

Eu venho de muito longe

A passar a Montemor;

Minha fala não conhecem,

Eu sou de Campo Maior.

 

Fui a Espanha fui espanhol,

Fui a França fui francês,

Cheguei a Campo Maior,

Agora sou camponês.



 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, pág. 58

[2] Idem, nº 496, Elvas, 27 de Setembro de 1887, recolha de A. T. Pires, com pequenas diferenças.



publicado por Francisco Galego às 19:08
Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

Antes, no duro trabalho dos campos, os camponeses expressavam o seu desespero e a dureza da sua vida, usando muitas vezes a ironia para disfarçarem a revolta pelas condições do seu modo de viver. Mas cantavam também o amor, namorando enquanto "balhavam", nos bailes dos domingos, dos dias santos, nas festas e nas romarias.

Agora, as condições tinham mudado radicalmente as suas vidas. Lá de longe, as cantigas antigas que vinham à mente eram as que falavam da terra que ficara tão distante. E outras novas, carregadas de saudade, eram inventadas.

 

 

Vila de Campo Maior,

Bela vila amuralhada;

Nela está meu pensamento,

Nela vive a minha amada.[1]

                                                       

Ó belo Campo Maior,

Terra de moças morenas,

Uma delas são ingratas,

Outras delas são tiranas.[2]

 

 

Campo Maior é sol-posto,

Barbacena é lua cheia,

Oh! Bela cidade d’Elvas,

Onde o meu amor passeia.[3]

 

Oh! Belo Campo Maior,

Bem podias ter colégio,

A água da Fonte Nova,

Tem fama no Alentejo.

 

Se queres sentir alegria,

Chega-te a Campo Maior;

Lindas fontes d’água fria,

Caras mais lindas que o sol.[4]

                                                       

Ó belo Campo Maior,

Terra de moças formosas,

És ainda mais bonito,

Cheio de cravos e rosas.

 

Ó belo Campo Maior,

Fronteira com Badajoz;

Ó terra maravilhosa,

Orgulho de todos nós.



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 154, Elvas, 21 de Setembro de 1882.

[2] Idem, nº 231,  Elvas,17 de Junho de 1883.

[3] Idem, nº 166, Elvas, 2 de Novembro de 1882. Repare-se que, esta cantiga e as assinaladas nas notas 1 e 2 constituem excepção, pois que, pelo tema, são mais propriamente cantigas de bem-querer, do que cantigas de saudade por Campo Maior. Todas as outras cantigas deste tema, são de construção bem mais recente, ou seja, da 2ª metade do século XX.

[4] Idem, nº 345, Elvas, 6 de Novembro de 1884, segundo recolha de A. T. Pires, com algumas diferenças.



publicado por Francisco Galego às 18:53
Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012

As minhas desculpas pelo interregno. Mas certas tarefas deixam marcas. Por outro lado, às vezes o melhor é parar para retomar folgo.

Enfim... cá estamos de novo para continuar. e vamos retomar com AS SAIAS, a maior e mais antiga expressão cultural dos campomaiorenses que luta hoje com muita dificuldade para não cair em total esquecimento e que tão mal tratadas são, de facto, hoje.

Tratemos pois de as divulgar tal como elas foram no seu tempo de apogeu.

 

Devido à mecanização da agricultura e ao surto industrial nas grandes cidades do litoral, a partir de inícios dos anos cinquenta do século passado, verificou-se um êxodo massivo das populações rurais para os grandes centros urbanos.

O desemprego frequente dos que se ocupavam nos trabalhos agrícolas que sempre fora uma das causas da constante situação de miséria dos assalariados agrícolas – sempre dependentes das condições do clima e do carácter sazonal do trabalho nos campos – tornou-se uma realidade dramaticamente presente, a partir da mecanização da agricultura, afectando não apenas os assalariados mas também os pequenos e médios agricultores. Estes, não tendo capacidade para adquirirem equipamentos de custos elevados, viram-se coagidos a vender as suas terras aos grandes proprietários.

Para toda esta gente, excluída da actividade agrícola, restava a debandada para as cidades.

Este êxodo foi logo seguido, nos anos sessenta, pela sangria demográfica que levou boa parte da população de Campo Maior a emigrar para os países da Europa central. Basta pensarmos no impacto destes fenómenos sobre o modo de vida de uma pequena comunidade, como era nesse tempo Campo Maior, para entendermos as modificações que, naturalmente, teriam de ocorrer.

A nível do “cantar as saias” verificou-se o rareamento das quadras que se cantavam enquanto se cultivavam os campos. Em contrapartida, verificou-se um significativo aumento de quadras de temática bairrista, muito ao gosto e ao encontro dos sentimentos saudosistas dos que estavam afastados da terra que os vira nascer.

Assim, lá longe, onde se vivia, a terra que, por força das voltas que a vida dá, se tivera que deixar, passava a ser imaginada com os encantos que lhe eram acrescentados por uma sofrida saudade.

Cantavam-se assim, de longe, os encantos da vila: 

 

Campo Maior terra linda,

Com’outra não há igual;

Esta terra é a rainha,

Na raia de Portugal.

 

Campo Maior tão velhinho,

Às portas tens um brasão;

Tu recebes com carinho,

A todos sem distinção.

 

Ó belo Campo Maior,

Com muralhas à francesa,

Cada vez canto melhor,

Cantigas à camponesa.[1]

 

Ó belo Campo Maior,

Meu cantinho alentejano;

És no nosso Portugal,

A terra que eu mais amo.

 

Ó belo Campo Maior,

Numa colina pousada;

Com terras de Espanha à vista

Pelos ‘spanhóis cobiçada.

 

Ó belo Campo Maior,

Terra de contrabandistas;

De gente boa e leal,

E das “festas dos artistas”.

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, pág. 56, com algumas diferenças.



publicado por Francisco Galego às 18:27
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2012

A Feira do S. Mateus em Elvas

 

A Feira de São Mateus em Elvas e a Romaria ao Senhor da Piedade tiveram o seu período de maior esplendor entre meados do século XIX e meados do Século XX. O texto que segue retrata com bastante precisão a dimensão deste acontecimento:

 

…Noite fora vai chegando gente dos mais variados locais. Vêm de Campo Maior e de Vila Boim, da Terrugem e de Santa Eulália, de Varche e de São Vicente, de Barbacena e de Vila Fernando. Sobre um talude que domina o Parque da Piedade, onde se efectua a feira, vão-se agrupando os carros, roda contra roda, varais ao alto, as bestas desaparelhadas e presas atrás, tasquinhando a erva. Os canudos das coberturas dos “churriões”, os tejadilhos planos das carrinhas, formam pequenas casas a que não faltam garridas cortinas de chita ou “cretone” formando portas graciosas. Para fora saem as cadeiras de fundo de buínho, os fogareiros de ferro, os tachos de barro, o farnel.

Nédias galinhas ainda vivas, atam-se às rodas dos carros, na mira de engordarem um pouco mais à custa de punhados de cevada que, guardadas ainda estão para matança do último jantar. Na frigideira de ferro estanhado fritam-se os bocados de coelho – o cocho frito – como lhe chamam, e um odor a um tempero esquisito e a saborosa banha de porco exala-se no ar. [1] (…)

“Tradicionalmente, os romeiros acampam, consoante as terras, em sítio determinado: nos olivais ao Norte da Igreja, os de Varche, Vila Boim, Vila Fernando, Santa Eulália, Borba, Vila Viçosa, Estremoz, Évora, Veiros, Alandroal e outros daquelas bandas; no olival da família Vasconcellos, a Sul, os da Ribeira de Anha-loura e aldeias próximas; os de Campo Maior e Badajoz, que dantes (quando a Feira se fazia no Rossio do Calvário) ficavam nas imediações da ermida de Nossa Senhora da Nazaré, distribuem-se presentemente pelo olival do sr. Joaquim Alfredo de Sá e Almeida Júnior, juntamente com os de Olivença, que costumavam acampar no ferragial da horta de S. Paulo; mais abaixo, à entrada da Avenida, é o acampamento dos ciganos, que lêem a “sina” e fazem espantosas transacções de gado; os de Barbacena, Monforte, Vaiamonte e Orada fixam-se pela Tapada da Saúde, uns, e outros pela mata.

         Nalgumas freguesias, como Barbacena, era de ver a chegada dos romeiros de Monforte, Vaiamonte, Alter do Chão e Alpalhão! Vindo em filas, onde imperava a alegria, atingiam aquela povoação ao lusco-fusco do dia 19 e aí pernoitavam, mas ninguém conseguia pregar olho, pois todos cantavam e bailavam na mais franca confraternização. Os habitantes de Barbacena aguardavam sempre, com ansiedade, “as alpalhoeiras”, pois assim designavam essa ruidosa reunião, que só terminava quando lá para as 5 ou 6 da manhã todos se punham novamente em marcha a caminho da Piedade.

         Nos nossos dias, as carreiras das camionetas mataram, em grande parte, estas usanças tão simples, tão puras, tão características, que já só vão sendo recordadas, com saudades infinitas, pelas pessoas mais velhas.

         Contudo, não diminuiu, antes parece que aumentou, a concorrência aos Arraiais e principalmente na noite de 21, a Piedade é um autêntico mar humano. “A Ordem” um pequeno jornal que se publicava em Elvas, Calculou de 20 a 30.000 o número de romeiros no arraial de 1889, e hoje pode aceitar-se como bastante aproximada a última daquelas cifras.[2]

(…)

Pese aos meios de transporte muito mais rápidos, que permitem a quantos os utilizam virem todos os dias ao Arraial e regressarem a suas casas lá para as 2 horas da madrugada, no ano findo ainda se reuniram nas vizinhanças do Parque umas boas centenas dos inconfundíveis “churriões”, o que não nos fez, porém, esquecer que, ( segundo o Correio Elvense, de 19 de Setembro de 1891),em 1891 houve quem contasse o bonito número 2.500![3]



[1] GAMA, (1965), pp. 223 e 224.

[2] GAMA, (1965), pp. 223 e 224.

[3] Idem, pp. 238 e 239



publicado por Francisco Galego às 17:43
Quarta-feira, 01 de Agosto de 2012

Mas um cancioneiro geral do trabalho e das gentes que viviam do trabalho nos campos teria de referir muitas outras tarefas e muitas outras ocupações:

 

( IV )

 

37.

Olha o triste sapateiro,

Está batendo a sola ao sol;

Agachado no tripé,

Passando o fio no cerol.[1]

 

38.

Não há nada mais bonito,

Que um marido lavrador;

Eu hei-de casar contigo,

Hás-de ser o meu amor.

 

39.

Já não há p’raí quem queira,

Acomodar um ganhão;

P’ró alqueive e sementeira,

E p’ra ceifa no Verão.[2]

 

40.

Esta vida de boieiro,

É uma vida arrastada;

Não tem noite nem tem dia,

Nem sesta nem madrugada.[3]

 

41.

Triste vida a dum ganhão,

Andar sempre a trabalhar;

Dá-lhe Deus uma doença,

Vai morrer ao hospital.[4]

                                                       

42.

O amor do lavrador,

É que agrada às raparigas;

Boa bota, boa calça

E chapéu preto à rebimba.

 

43.

O meu amor é do campo,

Do campo e sabe lavrar;

Não é paivante da vila,

Que só saiba namorar.[5]

 

44.

O meu amor é do campo,

É do campo é camponês;

Mais vale um amor do campo,

Que da vila dois ou três.[6]

 

45.

A enxada com que cavo,

Meu pai com ela cavou;

O arado com que lavro,

Foi deixas do meu avô.

 

 

 

 

 



[1]Idem, nº 407, Elvas, 10 Dezembro de 1885.

[2] Idem, nº 290, Elvas, 23 de Janeiro de 1884, mas com algumas diferenças.

[3] Idem, nº 437, Elvas, 10 de Julho de 1886.

[4] Idem.

[5] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 140.

[6] Publicada em Cancioneiro Alentejano, por Victor Santos, 1938, p. 43, como tendo sido recolhida no Redondo.



publicado por Francisco Galego às 17:30
Quarta-feira, 25 de Julho de 2012

Mas um cancioneiro geral do trabalho e das gentes que viviam do trabalho nos campos teria de referir muitas outras tarefas e muitas outras ocupações:

 

( III )

 

25.

Alfaiate ou sapateiro,

Isso sim que é bom artista,

Trabalham, ganham dinheiro,

E estão sempre à nossa vista.[1]

 

26.

O ofício d’alvanéu,

É ofício de grandeza;

Trabalham com colher d’aço,

Que a de pau é baixeza.[2]

 

27.

O meu amor é do campo,

É do campo e é quinteiro;

Rega o pé ao laranjal,

A raiz ao limoeiro.[3]

 

 

28.

Sapateiros não são homens,

Alfaiates também não;

Homens são os cavadores,

Que cavam na terra o pão.

 

29.

Mal empregada fui eu,

Ferreiro na tua mão;

Era branca fiz-me negra,

De andar ao pé do carvão.[4]

                                                       

30.

Boieiro vai para os bois,

Que a manhã já vem rompendo;

Não quero que teu amo diga,

Que eu te estive entretendo.[5]

 

31.

Hoje não fui escardar,

P’ra falar ao meu Joaquim;

Não quero que ele abale,

Sem se despedir de mim.

 

32.

Não quero mais ir à escarda,

Não quero mais escardar;

Foi na escarda que ganhei,

Dinheiro p’ra me casar.[6]

 

33.

A vida do almocreve,

É uma vida arriscada;

Ao subir duma ladeira,

Ao cerrar uma carrada.[7]

 

34.

Eu fui lá ao São Mateus,

No ano em que choveu milho;

Encontrei o meu amor,

Fabricante de ladrilho.[8]

 

35.

Não quero amor d’alvanéu,

Que trabalha lá no alto;

Pode cair e morrer,

Vive sempre em sobressalto.[9]

 

36.

Andei desde pequenina,

Pelas casas a servir;

Não tenho nada de meu,

Mais que a roupa de vestir.

 

Olha o triste sapateiro,

Está batendo a sola ao sol;

Agachado no tripé,

Passando o fio no cerol.[10]

 

Não há nada mais bonito,

Que um marido lavrador;

Eu hei-de casar contigo,

Hás-de ser o meu amor.

 

Já não há p’raí quem queira,

Acomodar um ganhão;

P’ró alqueive e sementeira,

E p’ra ceifa no Verão.[11]

 

Esta vida de boieiro,

É uma vida arrastada;

Não tem noite nem tem dia,

Nem sesta nem madrugada.[12]

 

Triste vida a dum ganhão,

Andar sempre a trabalhar;

Dá-lhe Deus uma doença,

Vai morrer ao hospital.[13]

                                                       

 

O amor do lavrador,

É que agrada às raparigas;

Boa bota, boa calça

E chapéu preto à rebimba.

 

O meu amor é do campo,

Do campo e sabe lavrar;

Não é paivante da vila,

Que só saiba namorar.[14]

 

O meu amor é do campo,

É do campo é camponês;

Mais vale um amor do campo,

Que da vila dois ou três.[15]

 

A enxada com que cavo,

Meu pai com ela cavou;

O arado com que lavro,

Foi deixas do meu avô.

 

 

 



[1] Idem, nº 579, Elvas, 25 de Janeiro de 1891.

[2] Idem, nº 286, Elvas, 4 de Janeiro de 1884.

[3] Idem, nº 283, Elvas, 21 de Dezembro de 1883.

[4] Idem, nº 233, Elvas, 24 de Junho de 1883.

[5] Idem, nº 162, Elvas, 19 de Junho de 1882, mas com algumas diferenças.

[6] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 140.

[7] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 425, Elvas, 18 de Abril de 1886.

Publicada também em Cancioneiro Popular, por Jaime Cortesão. Porto, 1914, pág. 84.

[8] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 425, Elvas, 18 de Abril de 1886

[9] Idem, nº 361, Elvas, 23 Fevereiro de 1885.



publicado por Francisco Galego às 17:02
Quarta-feira, 18 de Julho de 2012

Mas um cancioneiro geral do trabalho e das gentes que viviam do trabalho nos campos teria de referir muitas outras tarefas e muitas outras ocupações:

 

( II )

 

13.

À casa que leva a palha,

Logo lhe chamam palheiro;

Eu tenho na minha sina,

De casar com um carreiro.

 

14.

Mesmo ao andar escardando,

Colhendo ervas à mão;

Não deixo de ser briosa,

Como aquelas que o são.

 

15.

Belo Monte da De Castro,

Quem me dera agora lá;

Para ver o meu amor,

De saúde como está.

 

16.

Belo Monte D’Atalaia.

Belo D’Atalaia Monte;

Bela Ribeira de Caia,

Co’a Amoreirinha defronte.

 

17.

Não quero amor de carreiro,

Que tem a vida arriscada;

Quero amor de ganadeiro,

Que vai dormir à malhada.[1]

 

18.

P’ra carregar um carreiro,

Para lavrar um ganhão;

P’ra namorar um padeiro,

Um guarda p’ra mandrião.[2]

                                                       

19.

O meu amor é pastor,

Guarda ovelhas d’alavão[3];

E já tem malhada assente,

Dentro do meu coração.[4]

 

20.

Toda a vida guardei gado,

Eu sempre fui ganadeiro;

Uso safões e cajado,

Uso pelico[5] e caldeiro

 

21.

Contrabandista valente,

Corres campinas e vaes[6];

Com guardas pela frente,

Com pistolas e punhais.[7]

 

22.

Vou lavar roupa à ribeira,

Estendo a roupa a corar;

Nunca chorei por amores,

Como hei-de agora chorar.

 

23.

Canta o cantoneiro na estrada,

Na quinta canta o quinteiro;

Canta a moça bem prendada

E canta o rapaz solteiro.

                                 

O meu amor é caixeiro,

Tem fitas para me dar;

Vale mais que quem não tem,

Nem dinheiro p’ras comprar.[8]

 

Empregados no comércio,

Não têm aceitação,

Pois só sabem encostar,

À gaveta do patrão.[9]

 

24.

Alfaiate ou sapateiro,

Isso sim que é bom artista,

Trabalham, ganham dinheiro,

E estão sempre à nossa vista.[10]

 

 


[1] Idem, nº 580, Elvas, 23 de Fevereiro de 1891.

[2] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 130.

[3] Ovelhas paridas, à quais se destinavam os melhores pastos pois produziam leite para fabrico de queijos.

[4] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 130.

[5] Peça de vestuário, espécie de agasalho masculino, fabricada com pele de ovelha.

[6] Vaes  = Vales

[7] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 580, Elvas, 23 de Fevereiro de 1891.

[8] Idem, nº 159, Elvas, 8 de Outubro de 1882.

[9] Idem, nº 235, Elvas, 1 de Julho de 1883.

[10] Idem, nº 579, Elvas, 25 de Janeiro de 1891.



publicado por Francisco Galego às 17:07
Quarta-feira, 11 de Julho de 2012

 

Mas um cancioneiro geral do trabalho e das gentes que viviam do trabalho nos campos teria de referir muitas outras tarefas e muitas outras ocupações:

 

( I )

 1.

As moças deste ranchinho,

Andam sempre numa fona;

Trabalham sempre a cantar,

Na vindima e n’azeitona.

 

2.

Vão à colheita dos grãos,

Não lhes faz mossa o calor;

Vão colhendo e vão cantando,

Cantigas ao seu amor.

 

3.                                                  

O meu amor é carreiro,

Ajuda de maioral;

Quando vem guiando as bestas,

Parece-me um general.

 

4.

O meu amor é carreiro,

Que linda figura faz;

Toda a gente me dizia,

Namora-o que é bom rapaz.

 

5.                                                     

O meu amor é ganhão,

Trabalha a terra vermelha;

P’ra nela semear pão,

Lavra-a com sua parelha.

 

6.

Quem me dera ser ganhão,

Para lavrar no teu peito;

Embora mal te conheça,

Deixava alqueive bem feito.

 

7.

Se queres saber a glória,

Qu’alcança o pobre ganhão,

Vê as mãos cheias de calos,

Do cabo do enxadão.[1]

 

8.

Já não há quem queira dar,

Uma filha a um ganhão;

Estão à espera que venha,

De fora algum pimpão.

 

9.

Já não há quem queira dar,

Uma filha a um soldado;

Pensando que há-de vir,

Das ilhas algum morgado.[2]

 

10.                                                   

Já não há quem queira dar,

Uma filha a um carreiro;

Estão à espera que venha,

Do Brasil um brasileiro.

 

11.

Ando lavrando de noite,

Podendo de dia andar;

Ando fazendo o alqueive,

P’ra se poder semear.[3]

 

12.

Ando lavrando de noite,

Podendo de dia andar;

Ando fazendo o alqueive,

P’ra se poder semear.[4]



[1] Idem, nº 135, Elvas, 16 de Julho de 1882.

[2] Idem, nº 570, Elvas, 11 de Maio de 1890.                               

[3] Idem, nº 580, Elvas, 23 de Fevereiro de 1891.
[4] Idem, nº 570, Elvas, 11 de Maio de 1890.

 



publicado por Francisco Galego às 16:15
Quarta-feira, 27 de Junho de 2012

 

As quadras que a seguir se transcrevem, referem a situação dos trabalhadores no tempo do Estado Novo. Algumas, de forma divertida, outras clamando contra as duras condições de vida dos trabalhadores, referem a situação dramática dos que, nesse tempo de grande miséria, viviam sujeitos à apertada vigilância dos maiorais e manajeiros e sob a permanente ameaça de despedimento pelos patrões, o que significaria a perda do magro e raro salário que ganhavam, a mourejar de sol a sol, no trabalho do campo. Algumas são também clara manifestação de revolta contra as injustiças e as profundas desigualdades sociais:  

 

 

Adeus ó Zé Abanão,

Moiral do Chico Corado,

És chefe da inquisição,[1]

Está o povo desgraçado.

 

Ó meu amor diz-me lá,

Para quê trabalho eu?

Trabalho, mato o meu corpo,

Não tenho nada de meu.[2]

 

É triste nesta labuta,

Não haver contemplação;

O trabalho é do operário,

Os lucros são do patrão.

 

Para o rico andar gozando,

É o pobre quem trabalha;

O suor do pobre é doce,

A paga do rico amarga.

 

No campo da divina luz,

Onde tudo se consome;

Há quem come e não produz,

Há quem produz e não come.

 

Pedi a Deus que me desse,

 Uma vida d’alegria;

Deus então me respondeu,

Trabalha, semeia e cria.

 

O meu vizinho barbeiro,

Passa a vida alegre à porta;

Eu trabalho noite e dia,

Não passo da cepa torta.[3]

 

Homem rico é mandrião,

Faz figura de espantalho;

O pobre sempre a sofrer,

E às vezes nem tem trabalho.

 

Nasci pobre, pobre sou,

Fortuna não me conhece;

Mas enfim, é sorte minha,

Quem mais faz menos merece.[4]

 

Ó rico tira o chapéu,

Vai um enterro a passar;

É o corpo d’um operário,

Que morreu a trabalhar.

 

Ó que triste o meu penar,

Ó que triste o meu viver;

Trabalho de sol a sol,

E nem tenho o que comer.

 

Anda o pobre escravizado,

Toda a vida a trabalhar;

Sem ter direito à reforma,

Quando não puder ganhar.

 

Se o rico comprara a vida,

Ai do pobre, o que seria;

O rico seria eterno,

Só o pobre é que morria.

                                                       

Na cidade de Lisboa,

Quem é rico passa bem,

Assim é na minha terra,

E noutra terra também.[5]

 

Já o sol se vai escondendo,

Vai baixando a escuridão;

É alegria p’ra nós,

Tristeza para o patrão.

 

Sendo tu rico e eu pobre,

Sem mim não podes passar;

Enquanto eu tiver valor,

P’ra ti hei-de trabalhar.

                                                       

Quem vive do seu trabalho,

Nada vale com certeza;

O rico nada valendo,

Já pode mostrar grandeza.

 

Desprezas-me por eu ser pobre,

A pobreza Deus amou;

Não me trocava contigo,

Assim pobre como sou.[6]

 

Ainda hoje não comi,

Coisa que o Senhor criasse;

Mas já vi o meu amor,

Fiquei como se jantasse.[7]



 



[1] Repare-se na conotação da palavra inquisição (repressão, opressão, perseguição), numa terra em que, como Campo Maior, devido à política de D. João II de acolher os judeus expulsos de Espanha nas terras de fronteira em Portugal, conheceu a tenebrosa acção do Tribunal do Santo Ofício, nos séculos XVII e XVIII.

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 135, Elvas, 16 de Julho de 1882, com diferença do 1º verso: Ó minha mãe dos trabalhos,.

[3] Idem, nº 145,  Elvas, 20 de Agosto de 1882.

[4] Idem, nº 137, Elvas, 23 de Julho de 1882.

[5]Idem, nº 427, Elvas, 4 de Maio de 1886.

[6] Idem, nº 139, Elvas, 30 de Julho de 1882, com algumas diferenças.

[7] Idem, nº 433, Elvas, 14 de Junho de 1882.



publicado por Francisco Galego às 09:08
Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

Cancioneiro da Ceifa (III)

 

 

Já acabaram as ceifas,

No campo fica o restolho;

Raparigas não confiem,

Em rapaz que pisca o olho.

 

Ai que calma está caindo,

Em cima dum ceifador;

Quem fora folha de palma,

Que cobrira o meu amor.[1]

 

Não é a ceifa que mata,

Nem são as calmas do Verão;

É a erva unha-gata,

Mais o cardo beija-mão.[2]

 

Esta calma abrasa o mundo,

Quem me dera a fresquidão;

Anda meu amor na ceifa,

Já lhe falta comprensão.[3]

 

Meu amor foi para a ceifa,

Queira Deus que volte cedo;

Abalou deixou-me só,

Metida neste degredo.

                                                       

O meu amor foi p’ra ceifa,

Deus queira que corte um dedo;

Abalou deixou-me só,

Metida neste degredo.[4]

 

O pão seco é que estala,

Quando se lhe mete a foice;

Quem tem má-língua é que fala,

Que tem mau génio dá coice.[5]

 

Abalaste para a ceifa,

P’ra lá de Campo Maior;

Bordei-te um lenço encarnado,

Para limpares o suor.[6]

 

Ceifeira dos olhos pretos,

Senhora dos meus amores;

Entre o trigo e as papoilas,

És a rainha das flores.

 

Por cima se ceifa o pão,

Por baixo fica o restolho;

Menina não s’enamore

De rapaz que empisca o olho.[7]

 

Sou ceifeira trago botas

E também trago mantéu;

E trago uma papoila,

Na fita do meu chapéu.[8]

 

Tudo o que é verde seca,

Em vindo o calor do Verão;

Só as penas reverdecem,

Dentro do meu coração.

 



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 570, Elvas, 11 de Maio de 1890.

[2] Idem, nº 580, Elvas, 23 de Fevereiro de 1891.

[3] Comprensão = vontade, capacidade, força, paciência.

[4] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 281, Elvas, 15 de Dezembro de 1883.

[5] Idem, nº 361, Elvas, 23 de Fevereiro de 1885, com algumas diferenças.

[6] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, p. 59. Aparece também no CancioneiroPopular de Jaime Cortesão, 1914, p.167, na versão:

 

                                               O meu amor foi à ceifa,

                                               P’ra lá de Campo Maior;

                                               Mandei-lhe um lenço encarnado,

                                               Para alimpar o suor.

 

[7] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 358, Elvas, 31 de Janeiro de 1885.

[8] Idem, nº 417, Elvas, 21 Fevereiro de 1886.




publicado por Francisco Galego às 08:52
Domingo, 10 de Junho de 2012

Todos anos, de Maio a Agosto, o Alto Alentejo atraía grandes “maltas de ratinhos” em busca de um ganho suplementar que mitigasse os magros proventos obtidos no amanho das suas terras, a norte. Talvez por isso, as “saias”, este cantar tão ligado aos costumes alentejanos, foi emigrando para outras regiões. É uma das hipóteses a considerar para explicar a disseminação das “saias” por uma área tão alargada que vai desde a vila do Redondo, ocupando toda a zona raiana do Distrito de Portalegre, estendendo-se a uma parte considerável da Beira Baixa, e a algumas terras ribatejanas, chegando mesmo a regiões situadas muito mais a norte.

 

 

Cancioneiro da Ceifa (II)

 

Por baixo desse chapéu,

Se esconde teu lindo rosto;

Não afastes os teus olhos,

Não me dês esse desgosto.

 

Sou ceifeira, sou ceifeira,

Sou ceifeira não renego;

Eu fui a melhor ceifeira,

Que apareceu no Alentejo.

 

Camponesas, camponesas,

Ó, mas que lindas moçoilas;

Andam ceifando searas,

No meio de lindas papoilas.

                                                       

Camponesas, camponesas,

Camponesas d’algum dia;

Deixaram ganhar a ceifa,

Às moças da Freguesia.

 

Ceifeira, linda ceifeira,

Que andas sempre a ceifar;

Debaixo do ardor do sol,

Como brilha o teu olhar.



publicado por Francisco Galego às 08:45
Segunda-feira, 04 de Junho de 2012

As ceifas constituíam outra das tarefas agrícolas que, antes da introdução das máquinas de ceifar e de debulhar, exigiam maior número de trabalhadores. Era um dos períodos do ano em que os assalariados se viam livres do flagelo do desemprego e da fome. O trabalho da ceifa era feito por grandes ranchos de homens e mulheres que, em linha, iam ceifando as grandes searas de trigo. Enquanto o faziam, sob a inclemência do sol abrasador do Verão alentejano, iam cantando para mitigar a rudeza do esforço.

Ora, no século XIX e 1ª metade do século XX, as ceifas eram tarefa que exigia sazonalmente muita mão-de-obra. Tanta que, para realizar todas as ceifas em tempo de evitar que parte dos cereais se perdessem, se tornava necessário o recurso a grandes ranchos de trabalhadores vindo de regiões mais a norte.

 

 

Cancioneiro da Ceifa (I)

 

As papoilas encarnadas,

A brilhar entre os trigais,

São tão lindas, perfumadas,

Com as rosas nos rosais.

                                 

À seara fui buscar,

Com meu suor a riqueza;

A vida pôs-me a ceifar,

Fiquei na maior pobreza.

 

Para o dono da seara,

A minha foice é dourada;

Ceifa trigo e centeio

Ceifa aveia e cevada.

 

Dizem que a folha do trigo,

É maior que a da cevada;

Também a minha amizade,

Ao pé da tua é dobrada.

 

Mas que linda ceifeirinha,

Que cara mais engraçada;

Lenço de chita florida,

A saia muito rodada.



publicado por Francisco Galego às 08:33
Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

NA APANHA DA AZEITONA ( VII )

 

Se a oliveira falasse,

Ela diria o que viu;

Debaixo da sua rama,

Dois amantes encobriu.[1]

                                                       

Não cortes a oliveira,

Nem lhe metas roçadoira;

Dá azeite qu’alumia,

Jesus e Nossa Senhora.[2]

 

Olhem p’ra nossa bandeira,

Tem fitas de papelão,

Viva a nossa manajeira,

Que é uma rosa em botão.[3]

 

Olhem pr’o nosso ranchinho,

Pelo menos a metade;

É para que todos digam,

É rancho da mocidade.

 

Olhem pr’o nosso ranchinho,

Todos postos em fileira,

Parecem cravos e rosas,

Postos numa prateleira.

 

Já se acabou a azeitona,

Até p’ro ano que vem;

Rapazes e raparigas,

Passem todos muito bem.

 

Já se acabou a azeitona,

Já me dói o coração;

Amanhã já fico em casa,

Sem ter dinheiro p’ro pão.

 



[1] Publicada em Cancioneiro Alentejano, por Victor Santos, 1938, p. 62.  

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 579, Elvas, 25 de Janeiro de 1891.

[3] Em Campo Maior, era costume que os ranchos, acabada a apanha da azeitona, entrassem na vila com a sua bandeira ou pendão ornamentado com fitas de várias cores, levando á frente o seu manajeiro e percorressem as ruas cantando e bailando as “saias”, indo apresentar-se com a tarefa cumprida à porta do patrão.



publicado por Francisco Galego às 16:49
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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