Quinta-feira, 01 de Outubro de 2009

           Estamos em plena época das vindimas. De manhã cedo encontro grupos de trabalhadores que esperam, junto à Avenida, o transporte que os leve até aos campos em que vão trabalhar. Quase todos são imigrantes. Pelo linguajar, são dos países do Leste da Europa. Trabalhadores naturais de Campo Maior, em trabalhos agrícolas, tornaram-se muito raros.

 

            No concelho de Campo há uma extensa área de cultivo da vinha e uma grande adega que se dedica à produção de vinhos de qualidade elevada, apetrechada com os mais evoluídos recursos e equipamentos. Mas há também um número considerável de pequenas adegas (a que, de tão pequenas, poderíamos chamar “adegas de garagem”), onde por métodos artesanais e segundo processos tradicionais, se fabricam vinhos que, em alguns casos, conseguem ter uma interessante qualidade.
            Noutros tempos, quando em Campo Maior predominava uma economia basicamente agrícola, a produção vinícola tinha uma certa importância, produzindo a terra tanto vinho que dava amplamente para exportar. Associada à produção do vinho, uma outra actividade dava fama aos artesãos de Campo Maior: o fabrico dos grandes potes ou talhas onde se produzia e guardava o vinho. Em certas famílias a arte do fabrico dos potes passava de pais para filhos, por várias gerações.
Nas linhas que seguem vou tentar dar breves notícias sobre as culturas da vinha e do vinho no concelho de Campo Maior, em tempos passados.
Em meados de século XX (1948), o Alentejo produzia apenas uma pequena parte dos vinhos de Portugal: em 8.176.000 hectolitros, fornecia 61 mil; a Estremadura e o Ribatejo, forneciam 3. 234.000; as Beiras 2. 185.000; o norte produzia quase dois terços do total. Só a Vidigueira e Vila de Frades se destacavam pela qualidade e quantidade do vinho que produziam.
Nem sempre assim terá sido, pois que documentos antigos referem a viticultura e a produção dos vinhos como uma actividade económica muito importante no Alto Alentejo.
Tomando como referência uma “Notícia de 1758”, as produções do azeite e do vinho ocupavam lugar de destaque na economia da região em volta de Portalegre. Essas produções são referidas com grande destaque enquanto a produção de cereais era pouco referida. As vereações de Portalegre revelam que os viticultores constituíam um grupo activo, uma verdadeira corporação com tal influência que, em 1800 conseguiram mesmo que fosse interditada a importação de vinhos para proteger o consumo do vinho de produção local.
Ao que parece, em meados do século XVIII a situação começara a mudar. O cura de Santa Maria Madalena refere que Elvas, Olivença, Cabeço de Vide, Fronteira e Campo Maior, localidades que antes importavam, tinham começado a produzir.
Aliás, o cura de Campo Maior na mesma “notícia de 1758” assinalava a importância da vinha na economia local: muito trigo, cevada, grão, muito vinho e de boa qualidade. Portanto, Campo Maior pode, a justo título, ser considerado como um dos concelhos vitícolas do distrito de Portalegre, nos séculos XVIII e XIX.
O desenvolvimento da vinha em Campo Maior está testemunhado num decreto de 12 de Agosto de 1819 que, em resposta a uma petição dos habitantes deste concelho, foi decidido que “os proprietários de vinhas e os vinhateiros da vila de Campo Maior tendo exposto que a viticultura ocupava um destaque considerável na vida da vila, e não apenas pela qualidade do vinho que produziam, a ponto de esta ter provocado a plantação de vinhas cada vez mais numerosas nas terras incultas e cobertas de matos, mas porque esta tão interessante actividade comercial estava actualmente ameaçada de ruína pela livre entrada de milhares de carregamentos de uvas que desde há anos têm vindo para esta vila doutras localidades fronteiriças, com origem em Espanha…”. Este texto mostra com clareza a importância da viticultura local, confirmada quarenta anos depois pelo redactor anónimo da memória da Academia que tão bem conhecia a região de Campo Maior, quando se queixava do progresso da vinha no Alentejo, dando como exemplo o caso de Santa Eulália, grande aldeia a Oeste de Campo Maior, onde a produção de aguardente tinha aumentado monstruosamente nos últimos vinte e cinco anos. Ora, o consumo desregrado desta bebida estava a provocar uma grande dissolução dos costumes. Houve insistente pedidos de medidas que atacassem o progresso da embriaguês entre os camponeses que os afastava dos usos e costumes de antigamente e que os atraía para as tabernas afastando-os dos trabalhos nos campos.
 Há referências documentais a que na aldeia de Santa Eulália se vendia muito vinho para a cidade de Elvas.
Borba já era então um afamado centro vinhateiro, sendo mesmo considerado um dos mais importantes do Alentejo desde o século XIII.
Por volta de 1820, existia nesta região do Alentejo uma grande pressão das terras para que fosse estabelecida uma situação de relego sobre o vinho para evitar que a importação de vinhos de fora prejudicasse a venda dos vinhos da terra. O relego consistia numa disposição legal que vinha da Idade Média e se destinava a garantir que não fossem importados vinhos de fora enquanto não fossem vendidos os vinhos da terra. Ao longo do século XIX foi aumentando a área de cultivo da vinha tanto mais que, nas pequenas propriedades se estabeleceu o hábito de associar a olival e a vinha intervalando as fileiras do olival com as do bacelo.
Estamos actualmente a assistir a um novo período de expansão das vinhas no nosso concelho.
 
 
 


publicado por Francisco Galego às 17:39
Sexta-feira, 07 de Dezembro de 2007
Cap. VI – Da Villa de Campo Mayor (p. 366 a 368)
 
Campo Maior foi povoação de 1.200 vizinhos. Hoje, por causa das guerras com Castela, acha-se com 850 , com casas muito nobres e limpas, cujos apelidos são Vaz, Galvão, Mexia e Sequeira, que a vieram povoar.
Foi ganha aos mouros na era de 1219, pela família dos Peres naturais de Badajoz; estes deram a vila à fábrica da Igreja de Santa Maria do Castelo, sendo bispo de Badajoz D. Pedro Peres, que lhe deu por armas Nª Sr.ª e um cordeiro com um circulo à roda que diz: Sigillum Capituli Pacensis.
Depois, no reinado de D. Dinis que lhe fez o castelo na parte mais alta do terreno para o lado de Elvas, havendo controvérsia entre os moradores sobre o lugar para onde haviam de estender a povoação, ajustaram que para o maior campo, de que resultou ter por nome Campo Maior.
Tem uma freguesia da invocação de Nª Srª da Expectação, que se edificou no tempo de D. Sebastião de Matos, bispo de Elvas, com um prior e dois vigários para administração dos sacramentos e rezarem em coro com os outros beneficiados: são benefícios simples e muito ténues.
Tem um convento da invocação de Santo António, de frades franciscanos, que vivem no castelo desta vila enquanto se acaba o convento que se lhes funda por ordem do sereníssimo rei D. Pedro II. Servem-se os padres da Igreja que antigamente foi matriz desta vila, a qual foi deixada pelos clérigos no ano de1645, sendo dela prior Fernando Gil Castelo. A primeira fundação deste convento foi junto às casas para o lado das Poças e que foi mandado derrubar por causa das guerras com Castela.
Tem outro convento de frades de São João de Deus, com título de Hospital del-Rey, onde se curam os soldados e mais gente de guerra da guarnição da Praça.
Tem Casa da Misericórdia com seu hospital.
Tem três ermidas (pois as mais estão extintas):
- uma de São João Baptista, em que o Santo é muito venerado pelos muitos milagres que Deus Nosso Senhor faz por sua intercepção;
- outra do Mártir S. Sebastião, imagem muito selecta e de singular beleza;
- a de S. Pedro que fica fora dos muros e na qual está o Santo pintado na parede com tal perspectiva que parece olhar para todas as direcções. Segundo a tradição, estando feita a ermida, entram nela dois forasteiro e, depois, quando se ausentaram, os naturais acharam a imagem pintada em fresco com dois cardeais ao lado. Esta pintura ainda hoje existe.
Foram baptizados na pia da antiga matriz desta vila o Beato Amadeu que instituiu a Ordem dos Amadeus em Itália (o seu nome secular fora João de Menezes e Silva, filho segundo de Ayres Gomes da Silva, alcaide de Campo Maior e Ouguela) e D. Isabel de Menezes, filha de D. Pedro de Menezes, Conde de Viana e primeiro Capitão de Ceuta e irmão de D. Diogo da Silva, primeiro Conde de Portalegre.
D. Beatriz da Silva, que instituiu a Ordem da Conceição em Castela foi irmã do dito João Menezes da Silva e filha de seus pais os quais passaram a Castela com a rainha D. Isabel, filha do Infante D. João, quando foi casar com El-rei D. João II de Castela.
Foi também natural desta vila o bispo Martinho Afonso Mexia que nela tem muitos sobrinhos e dilatada família; foi primeiro bispo de Viseu e depois de Coimbra e Vice-rei deste reino.
É esta vila muito abundante de trigo, cevada e legumes, com muitos montes no termo onde vivem os lavradores.
Dista da cidade de Elvas três léguas para Norte, meia légua do Rio Caia que nasce na Serra de São Mamede, junto ao Rio do Sete, termo da vila de Marvão e que corre pelo meio dos soutos de Alegrete e junto de Arronches, vindo a servir de linha de divisão entre esta vila de Campo maior e a cidade de Elvas. Com as águas do Caia regam-se muitas hortas e pomares e moem muitos moinhos. É rio de muitas pedras e, por essa razão, o peixe que cria é tido como sendo melhor que os dos outros rios.
Entre as muitas hortas que tem esta vila, é muito nomeada a Horta de São João Baptista pelo aparecimento que nela fez o santo a Gonçalo Rodrigues, homem virtuoso e pelo milagre que com ele usou em lhe tirara um lobinho que tinha na cabeça e passar-lho para o pé esquerdo, a fim de convencer os moradores a voltarem às suas casas de que se tinham retirado por causa da peste, a qual já tinha cessado como lhe afirmara São João Baptista.
P. ANTÓNIO CARVALHO DA COSTA, COROGRAFIA PORTUGUEZA E DESCRIPÇAM TOPOGRAFICA DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAl ... Braga, 2ª ed.1868, 1ª ed. 1706 - 1712


publicado por Francisco Galego às 18:14
Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Caminhando para N.E. de Campo Maior uma légua, é o forte ou praça e vila de Ouguela, cujo terreno circunvizinho é descoberto e pouco montuoso.

As águas minerais desta vila, são únicas do seu género em Portugal.

Segundo a tradição, a sua primitiva origem é à distância de uns 300 passos da Atalaia e S. Pedro, de onde corre para o forte contíguo à igreja e por baixo desta e da muralha, sai e continua por um aqueduto, junto à fonte. Nesta corre por duas bicas de ferro, nas quais a soma total de água é de dois anéis no Inverno, sendo metade e às vezes menos, no Verão.

Os canos das bicas estão carcomidos e rotos, pela passagem da água. E esta é fria e cristalina, sem cheiro algum, mas o seu sabor na fonte é áspero e ácido e custa a sofrer. Porém, perde-o passado algum tempo, de pois de estar em vasos de barro, tornando-se então própria para o uso comum. Mas quase ninguém a bebe porque dizem que faz abalar os dentes e separarem-se as gengivas.

Emprega-se para amassar o pão que fica alvo, leve e saboroso. Não coze legumes nem carne que, ainda que fervam muito tempo, ficam duros, negros e incapazes de se comerem.

Recolhida em vasos de vidro, vê-se sobrenadar uma substância oleosa que, demorando-se, engordura o vidro. Porém, em vasos de barro não deixa, no fundo ou nas paredes internas, depósito algum. Mas exteriormente ficam cobertos de uma matéria branca como se tivessem sido caiados.

O aqueduto que conduz esta água para o chafariz e os que são próximos às bicas, têm de têm de romper-se e com muita dificuldade de dois em dois anos ou, quando muito, de três em três anos, por causa das duríssimas crostas lapidosas que neles se formam, misturadas com limos e ervas aderentes a que aqui dão o nome de raposos”.

Perto desta fonte ou chafariz há outra, dentro e uma horta, onde  mesma água é aproveitada para irrigação e que faz prosperar notavelmente os seus frutos que são mais saborosos do que os criados nos outros sítios próximos que não são regados com esta água.  

(Dr. Francisco Tavares, Instruções e cautelas practicas sobre a natureza, differentes espécies, virtudes em geral e uso legitimo das aguas minerais… Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1810)

 

O Dr. Fonseca Henriques diz no seu Aquilégio, pág. 191, fundando-se no padre Carvalho, que nas Constituições Synodaes do bispado de Elvas, impressas em 1634, falando-se da vila de Ouguela – se refere que – procurando verificar se as suas águas minerais consentiam em si, vivos, peixes ou insectos, ou vermes aquáticos ou anfíbios. Se viu sempre que, tanto os insectos, sanguessugas e vermes, morrem apenas se ditam na água – e os peixes em seu vigor, morrem em menos de meia hora. Vivem porém nela as rãs, mas pequenas e magras, talvez porque respiram o ar atmosférico.

(Francisco da Fonseca Henriques, Aquilégio medicinal, Lisboa, Instituto Geológico e Mineiro, 1998, edição fac-simile da edição de Lisboa Ocidental, na o Officina da Musica, 1726)

 

Julga o Dr. Tavares que esta água é gasosa pelo gás carbónico em excesso, com alguma porção diminuta de carbonato e sulfato de calcário. As incrustações duríssimas formadas nos canos provam a presença de carbonatos e sulfatos calcários (selenites) e talvez sílica misturada. É próprio de todas as águas que abundam em gás carbónico não criarem peixes, nem os consentirem vivos, nem os insectos e vermes, mesmo que sejam aquáticos.

A substância oleosa que se vê nos vidros, pode vir de outros depósitos de minerais. Mas também ser resultado da combinação de hidrogénio com o ácido carbónico e o oxigénio, que forma uma matéria oleosa – a nafta.

O gosto acre e ácido prova a existência do gás carbónico e da nafta que são extremamente voláteis, se evaporam fora da nascente, deixando a água potável. A crosta branca que aparece no exterior dos vasos de barro não é mais do que carbonato e sulfato de cal, filtrados pela matéria porosa do vaso.

Estas águas são aplicadas com vantagem nas debilidades de estômago: vómitos pertinazes delas precedidos, hidropisias, e para a expulsão de vermes intestinais, incluindo a ténia e a solitária.

Pinho Leal - Portugal Antigo e Moderno (p. 309 e 310)

 



publicado por Francisco Galego às 17:48
Quarta-feira, 07 de Novembro de 2007

 

Campo Maior, Setembro de 1897

   Correram bastante animadas as Festas a São João Baptista que, de 4 a 7 do corrente se realizaram na importante e populosa vila de Campo Maior.

   Quase todas as ruas da vila se achavam garridamente enfeitadas e, decerto, foi isto o maior atractivo das festas. Principalmente as ruas da Canada, da Misericórdia, Direita, do Paço, de Menantio, das Pereiras, 13 de Dezembro, Visconde de Seabra, Mouraria de Baixo e de Cima e Largo do Barão de Barcelinhos, ostentavam primorosas ornamentações.

   À noite, com as iluminações, tornaram-se então verdadeiramente fantásticas.

   O fogo de artifício agradou bastante. É pena que seja queimado num sítio onde o seu efeito quase não se pode desfrutar.

   De Elvas foram muitíssimas pessoas a estas festas.

 

Ornamentavam-se cerca de 20 ruas e 4 largos.

A festa começou Sexta-feira com arraial em S. Joãozinho. Nos outros dias missa e procissão, concerto pela banda no coreto da Praça D. Luís, fogo de artifício, lançamento de balões, touradas; bailes na Câmara, nas casas particulares e nas ruas; marcha “aux flambeaux” no último dia para agradecer aos organizadores.

As festas decorreram durante os dias 4,5,6,e 7 de Setembro. Tinham, portanto, a duração de 4 dias. De 1893 até 1898, as festas foram anuais.

As ornamentações eram muito simples. Cada um armava a “testada” da sua casa. Havia

Tronos e Capelinhas armadas a S. João,  arcos triunfais e uma gruta. Numa casa à Rua das Poças havia uma gaiola com um gato, um coelho e 2 rolas).

Pelas ruas, ao longo das frontarias das casas, vasos com plantas naturais e flores. Podiam-se contar mais de 500 vasos.

Quanto à iluminação, “O vento excessivo não autorizou a iluminação que ficou adiada para hoje”. Mais de 10.000 balões à veneziana; lamparinas feitas de casca de melão, laranja, melancia e ovos.

“Pelas ruas andavam mais de 5.000 pessoas, quase não se podia transitar; Houve diminuto número de forasteiros”.

“Mestre Garrifo estabeleceu na rua da Carreira desta vila uma sucursal do seu hotel.”

Dados recolhidos em:

Correio Elvense, Ano VIII, nº791, 4ª-feira, 8 de Setembro de 1897, p.2

 



publicado por Francisco Galego às 17:24
Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
Em Campo Maior, em meados do século vinte, os assalariados rurais reuniam-se ao ar livre nos Cantos de Baixo quando o tempo o permitia e frequentavam a sede da música no Assento, ou a da Casa do Povo; os comerciantes, os oficiais e os mestres dos ofícios, bem como os pequenos e médios proprietários, eram presença habitual na Sociedade da Praça que, aliás, fazia cuidadosa selecção na admissão de novos associados; acima destas e no vértice da pirâmide social, o Grémio ou Sociedade dos Ricos era o “santo dos santos” só acessível a uma elite muito restrita porque muito seleccionada.
Um pouco mais tarde, por razões clubistas, tinham aparecido alguns centros de convívio mais interclassistas como a sede do Sporting Clube Campomaiorense e a Casa do Benfica.
Como locais de convívio masculino, para os trabalhadores rurais, havia também muitas tabernas espalhadas por quase todas as zonas da vila.
Café, propriamente dito, apenas o desaparecido Café Central ou Café Guitano, com uma extraordinária organização ao encontro da estratificação que caracterizava a sociedade campomaiorense nesse tempo: numa primeira sala encontrávamos um clima perfeito de taberna, tanto no que respeitava ao mobiliário como no tipo de serviço que aí se dispensava aos clientes; na parte central uma zona constituída por duas salas – a do bilhar e a das mesas para se tomar café e cavaquear; depois seguia-se uma espécie de reservado para os clientes de categoria que não apreciavam o convívio generalizado com a outra gente. Num canto desta última sala, ficavam as mesas que funcionavam como restaurante.
 
Esta organização dos centros de convívio numa vila como Campo Maior, sociedade fundamentalmente agrícola e com características bastante arcaicas, parecerá hoje inacreditável para as novas gerações. Mas estava irremediavelmente de acordo com as condições de vida desse tempo.
Depois, embora tudo parecesse continuar na mesma, uma vez que a situação política de ditadura persistia, tudo começou a mudar. Começou com o incontível fluxo migratório que arrastou para as grandes cidades e para a Europa uma tal massa de gente que nada poderia, a partir daí, permanecer como tinha sido. Os pobres tornaram-se menos e menos pobres. Com isso, os ricos começaram a cair do seu pedestal. A agricultura, com a mecanização, sofreu tão profundas mudanças que muitos não conseguiram sobreviver-lhes, vendo-se obrigados a mudarem por completo o seu modo de vida. Parecia que tudo se desmoronava tal era o impulso de mudança provocado pela nova situação.
Foi todo um estilo de vida que desapareceu. Nestas condições, tornava-se inevitável que muitas das organizações e associações desaparecessem porque tinham nascido para outro modelo de sociedade.
Diz-se que as fontes, em períodos de grandes secas, antes de secarem por completo, deitam um jorro mais forte parecendo que vão renascer. De certo modo foi isso que aconteceu com as antigas “sociedades” e locais de convívio. No início dos anos 60, quando elas já tinham entrado numa acentuada decadência prenunciando o seu fim, a televisão começara a transmissão regular de programas para todas as regiões do país. Os equipamentos e os aparelhos receptores eram caros. As associações e clubes aproveitaram para os instalar e, organizando espaços para assistência aos programas, atraíram de novo as massas associativas que garantissem a sua subsistência.
Foi sol de pouca dura. A facilidade na aquisição desses equipamentos pelas famílias ditou o fim irremediável dessas agremiações. Delas nada mais resta na vila raiana de Campo Maior.
 


publicado por Francisco Galego às 15:46
Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007
             Terá sido no final do anos 80 ou no começo da década seguinte que a Câmara Municipal de Campo Maior, promoveu uma festa de evocação da época medieval. Creio que, entre outros objectivos, pretendia chamar a atenção para o valor patrimonial, histórico e cultural do castelo, então relativamente esquecido e ainda menos aproveitado do que está hoje.
Nessa altura, a iniciativa foi bastante inovadora e teve um impacto muito significativo. Hoje as realizações deste tipo estão de tal modo generalizadas, há tantas povoações que as levam a efeito, que se está a cair numa certa banalização.
Pessoalmente, não as aprecio porque, tendo um discutível valor enquanto reconstituições de carácter histórico, resultam, na maioria dos casos, em simulações de fraca espectacularidade.
Na verdade, quem viu uma viu todas porque, não se baseando numa vivência cultural das populações, são feitas de estereótipos que nada têm a ver com a própria comunidade que as realiza e muitas delas só muito longinquamente poderão ser tomadas como reconstituições aceitáveis da época que pretendem evocar.
Por esta e por outras razões, aprecio mais esta realização que, pela segunda vez, se levou a efeito em Campo Maior.
Aqui, em Campo Maior, realizou-se de 25 de Agosto a 2 de Setembro, um programa de animação cultural que tem o nome de Tradições. Tem como objectivos expressos o reviver e o reavivar a memória das tradições locais.
            No ano passado, estes objectivos foram alcançados através da ornamentação das janelas com flores de papel e da realização de desfiles e espectáculos de carácter etnográfico. Estas actividades suscitaram alguma adesão e contentamento entre a população e entre os que visitaram a vila nessa ocasião.
            No dia em que estou a escrever esta crónica a realização da segunda edição deste evento vai ainda a meio. Neste ano, as Tradições arrancaram num dia de impertinente e inesperada chuva que causou alguma falta de brilho e de animação no desfile do primeiro dia. No segundo dia as condições melhoraram e o cortejo decorreu bastante melhor. Quanto aos espectáculos, aqueles que me foi dado ver deixaram-me a sensação de algum desencanto causado, por um lado, por se tratar de “algo já visto” pois, mais de metade dos grupos folclóricos que nos visitaram eram repetentes, uma vez que já cá tinham estado no ano passado e praticamente nada mudaram, quer quanto a repertório, quer quanto às coreografias; por outro lado, esse desencanto agravou-se em certos casos porque alguns deles se apresentaram mais desfalcados do que seria de esperar, sendo o caso mais extremo o do Rancho Folclórico de Cabeção que tinha uma dúzia de elementos no instrumental e nas vozes para acompanhamento de apenas cinco pares de “bailadores”, sendo que em dois deles as figuras masculinas estavam representadas por rapazinhos na pré-adolescência, e noutro par o elemento masculino era preenchido por uma rapariga com trajo de homem. Enfim, serão dificuldades de recrutamento de elementos capazes. Mas, às vezes, é preferível não aparecer do que aparecer em tais condições.
            Na minha opinião, se outras edições do mesmo evento viessem a acontecer, devia haver maior empenho em mostrar outras opções neste domínio do folclore. Porque o povo gosta, como se comprova pelas assistências que acorrem a este tipo de espectáculos. Mas é preciso corresponder a esse gosto mantendo um certo nível de qualidade.
O povo gosta porque, no fundo, se trata de evocar aspectos muito enraizados na cultura popular:
- As janelas ornamentadas evocam as Festas do Povo que, pela grandiosidade que alcançaram, são cada vez mais difíceis de organizar com alguma regularidade;
- Os cantares dos ranchos folclóricos permitem animar essa extraordinária manifestação de canto e de dança popular tão cultivada pelo povo de Campo Maior que são as Saias;
- Quanto aos desfiles etnográficos, reavivam a memória do modo de viver nesta vila há mais de cinquenta anos, quando a sua população, os nossos avós, eram, na grande maioria, gente ligada ao trabalho no campo, evocando uma cultura camponesa hoje desaparecida, uma cultura de gente com um modo próprio de viver que se manifestava nos hábitos ligados ao seu modo de trabalhar e nas suas maneiras de conviver e de se divertir. Nos desfiles, os figurantes envergam trajes que em tempos idos constituíam o modo de vestir dos camponeses, principalmente as mulheres que tanto orgulho tinham na sua maneira de trajar, vestindo-se de acordo com as tarefas que tinham de desenvolver ao longo do ano. Havia um modo de trajar na apanha da azeitona e outro para “escardar” que era diferente do que se usava para ceifar. Havia também, para além da roupa de trabalhar no campo, o traje de portas – os aventais bordados, as blusas e as saias de chita, que só se vestiam até às portas da vila, quando se ia para o trabalho e, a partir das portas da vila, na volta do trabalho, para regressar a casa.
 
No meu entender, há razão para se levarem a efeito eventos desta natureza para promover alguma animação cultural na vila de Campo Maior. Se não podemos assumir o pesado encargo de enfeitar todos os anos as nossas ruas, ao menos poderemos tentar, anualmente, promover uma festa deste género em que se ornamentem as janelas e até se deviam enfeitar com mastros e bandeirolas os espaços públicos onde ainda se podem balhar as saias. Reconstituam-se os fatos de camponesas que as nossas avós usaram e organizem-se bandos de arruada para percorrerem as ruas cantando as quadras de antigamente ou aquelas que agora quiserem e souberem improvisar.
            Não é imitando o que os outros fazem que podemos despertar o interesse e a aprovação que farão com que outros nos venham visitar. Pensem que o que fez a grandeza das nossas Festas é a sua imensa originalidade e o grande valor artístico que conseguiram alcançar como demonstração legítima de cultura popular.
            Campo Maior precisa de ter actividades culturais próprias que façam vir até nós gentes de outros lugares, porque isso seria útil e bom em vários aspectos.
Todos temos consciência de que, pelo enorme esforço que implicam, as Festas do Povo se não podem fazer senão espaçadamente. Mas um festival de folclore local é bem mais fácil e menos custoso de se fazer. Por outro lado, é uma forma de mostrar e de dizer aos outros como foi e que coisas realizou o povo que somos. Ao mesmo tempo vamos conservando a nossa memória colectiva e mostrando às novas gerações quem eram e como viviam os nossos antepassados.
                                                                                                           


publicado por Francisco Galego às 18:05
Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007
 
Segundo a quase totalidade dos autores que descrevem o Alentejo, o pastoreio e a criação de gados foi, até ao fim do século XVIII, uma actividade agrícola fundamental nesta região. Atendendo à grande extensão dos baldios, à importância dos restolhos que ficavam, após as ceifas, nas terras ocupadas com a cultura dos cereais e às folhas que ficavam anualmente em pousio, devido ao sistema de rotação de culturas, podemos entender quanto o pastoreio devia ser uma actividade de grande importância económica.
Os cereais apresentavam uma grande irregularidade de rendimento pois só propiciavam lucros abundantes nos raros anos de fartas colheitas. Os gados podiam garantir um rendimento mais regular pois que, mesmo nos anos agrícolas mais fracos, os animais podiam alimentar-se nos campos.
 
            Os bovinos desempenhavam antigamente uma função muito importante pois serviam de animais de tracção dos pesados carros usados para o transporte dos produtos da terra e para puxarem os pesados arados de madeira com pontas de ferro com que se faziam as lavras nos campos.
No decurso do século XIX foram perdendo terreno em favor dos muares, pois os carros de eixo móvel, de tracção por bois, começaram a desaparecer no Alentejo há cerca de duzentos anos, substituídos pelos carros mais leves, de eixo fixo em ferro e rodas de raios, puxados por muares.
Mais tarde, com o fabrico de arados em ferro, mais leves e mais eficazes devido à utilização do sistema da relha e da aiveca, tornou-se possível a utilização de parelhas de muares na lavra dos campos. Os bois foram sendo postos de lado pois eram demasiado lentos para responderam às crescentes necessidades da cultura dos cereais.
Um documento de 1830 descreve deste modo a situação dos transportes em Campo Maior, nesta fase de transição dos bovinos para os muares: “Contam-se nesta vila 80 carros de bestas (mulas, burros, cavalos) e cinquenta carros de bois, mais ou menos. Os carros de bestas pertencem tanto aos lavradores como aos seareiros e aos carreteiros, sendo que estes os usam para com eles fazerem transportes; os carros de bois pertencem aos cultivadores das herdades.” Esta passagem dá a entender que, provavelmente, as bestas ainda não eram utilizadas no trabalho dos campos, mas as “charretes” puxadas por cavalos e os carros puxados por mulas eram de emprego corrente em Campo Maior.
Assim, a grande novidade na agricultura no século XIX foi a generalização do emprego dos muares nos transportes e no trabalho dos campos. O seareiro que antes possuía uma junta de bois, passou a poder possuir uma parelha que lhe produzia em menos tempo muito mais trabalho.
 
O pastoreio dos ovinos implicava o comércio da lã e da sua utilização pelas oficinas locais ou para exportação para terras onde estivesse mais desenvolvida a tecelagem. O comércio da lã, como o comércio do trigo, vão constituir os dois principais factores para o desenvolvimento de actividades de uma economia capitalista na agricultura alentejana.
A associação das searas aos rebanhos de ovelhas existe no Alentejo mesmo ao nível das paisagens, tratando-se sem dúvida de duas actividades complementares por causa da rotação de culturas, da utilização dos baldios e do aproveitamento dos restolhos. 
No Alentejo havia pastores que tomavam de arrendamento as herdades apenas para nelas colocarem os seus rebanhos em pastagem, sem as cultivarem. E isto acontecia tanto para os ovinos como para os porcos. Daí as frequentes queixas contra a existência de grandes extensões de terras que ficavam incultas para nelas se praticar apenas o pastoreio. Além da lã os pastores fabricavam o queijo que conseguiam vender mesmo para Lisboa onde eram muito apreciados. No distrito de Portalegre havia grandes rebanhos de ovinos com particular incidência nos concelhos de Campo Maior, Fronteira, Ponte de Sor e Gavião.
Segundo um autor anónimo de Campo Maior que enviou relatório para Lisboa, em 1779, cinco pessoas arrendaram 39 das 54 herdades do concelho, tendo uma dessas pessoas tomado para si 9 dessas herdades, não para as cultivar, mas para nelas colocar os seus rebanhos de ovelhas.
No concelho de Campo Maior, que era considerado um dos mais ricos do Alentejo, por nele predominarem os solos argilosos, o cura em resposta a um inquérito feito em 1758, queixava-se da pequenez da sua paróquia que ocupava todo o concelho, o qual, por ser tão pequeno, não teria espaço suficiente para o pastoreio. Por isso se tornava necessário ir procurar pastagens fora do concelho.
Em 1775 terá havido uma tal polémica neste concelho envolvendo as questões do pastoreio que suscitou um inquérito ordenado pela Corte Suprema do Reino, o qual forneceu preciosas informações sobre a situação local. Essas informações não deixam dúvidas quanto à importância dos criadores de gado no concelho de Campo Maior, no século XVIII.
Num outro documento, o notário do concelho pretendendo classificar os signatários de uma petição favorável à manutenção das pastagens em comum, coloca os criadores de gado e os pastores ao mesmo nível dos lavradores, seareiros e carreteiros. O poder desse criadores e pastores era tal que, em 1757, conseguiram obter a abolição de um regulamento municipal que lhes era hostil porque impedia que, quem não tivesse quatro juntas de bois e não cultivasse uma herdade, pudesse beneficiar do pastoreio nos baldios.
A criação de gado ovino terá alcançado tal extensão que gente pobre vinha para Campo Maior em busca de fortuna, na expectativa de que, começando como pastores, pudessem vir a tornar-se proprietários de rebanhos e, até mesmo, lavradores. O número de cabeças de gado ovino era de 22.782 em 1775; portanto, muito elevado para um concelho de tão pequeno território. Só assim se compreende o vigor das polémicas em torno das pastagens nos baldios. Em 1788 foi aprovado um regulamento que obrigava os de fora a alugarem uma terra para a poderem aproveitar para pastagem. Trinta anos mais tarde houve reclamações contra os excessos da criação de gados atribuindo-os ao direito de cercar os campos e à obrigação de os gados se deslocarem apenas pelas canadas.
Há notícias de que boa parte destes gados passavam para Espanha em contrabando. O autor anónimo de Campo Maior avaliava em 60.000 o número de animais que passavam todos os anos para Castela, declarando que colhera esta cifra junto de um castelhano bem colocado e sublinhando que se tratava de animais de vários espécies e não apenas originárias do Alentejo. Em 16 de Maio de 1796 foi tomada uma resolução com um título bem significativo: Aviso destinado a evitar a passagem de gado do Alentejo para Espanha. Tratava-se sobretudo de animais destinados ao fornecimento de carnes de borrego e de porco.
De qualquer modo, todas as informações apontam para que se possa concluir que, em Campo Maior e em geral na região de Elvas, a criação de gado ovino ocupava um lugar notável na economia local.
 
A criação de porcos no concelho de Campo Maior, embora importante, não teve tanta relevância como a criação de ovelhas. A mancha de montado nesta região foi sempre escassa, muito inferior à extensão das terras destinadas à produção de cereais.
 
 


publicado por Francisco Galego às 18:44
Segunda-feira, 18 de Junho de 2007
         Campo Maior é um dos concelhos do Alentejo de mais escasso território. Possuiu apenas duas aldeias: Degolados e Ouguela. Quanto à primeira, o futuro parece garantido pois regista uma certa dinâmica de crescimento. Sendo das duas a menos antiga, é sede de freguesia, localiza-se perto da estrada de ligação ao vizinho concelho de Arronches a que pertenceu até 6 de Dezembro de 1926, e constitui ponto de passagem do tráfego que se dirige para Portalegre, a sede do distrito. A proximidade das instalações fabris da empresa Delta tem favorecido o crescimento da sua população e a renovação do seu casco urbano.
            Mas Ouguela definha numa lenta agonia que se arrasta há mais de um século. Perdida num recanto do território português bem junto à fronteira com a Espanha, desempenhou ao longo dos séculos uma importante função militar na prevenção e na defesa de invasões do país, por esta região tão permeável à passagem de exércitos até finais do século XVIII. Na fortaleza de Ouguela começava a linha que defendia o corredor das terras banhadas pelo Xévora, Caia e Guadiana, e que integrava as praças militares de Campo Maior, Elvas, Juromenha e Olivença.
            Quando a evolução da arte da guerra ditou o fim das praças militares, Ouguela que nunca foi um grande povoado, viu-se condenada a uma inexorável decadência. Em finais do século XIX esteve quase a desaparecer.
Esse desaparecimento foi evitado pelo súbito interesse de um filantropo que se interessou vivamente pelo destino do pequeno povoado e resolveu aplicar os seus vastos recursos financeiros e a sua grande influência política em favor de Ouguela e dos seus habitantes. Chamava-se Carlos Ramiro Coutinho, era licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, reconhecido como um dos mais notáveis advogados de Lisboa, deputado que dera nas vista pelo brilho da sua oratória no parlamento e pelo vanguardismo social das suas ideias, íntimo da família real e de relação próxima com o rei D. Luís. Pelo casamento adquirira o título de Barão de Barcelinhos e, mais tarde, devido à sua acção humanitária, o de Visconde de Ouguela.
O texto que a seguir transcrevo dá, com toda a exactidão, notícia da sua acção em prol desta pequena aldeia do concelho de Campo Maior.
           
 
“A quase duas léguas desta vila de Campo Maior, existe uma muito pequena vila denominada de Ouguela, cujas faldas são banhadas pelo Brilongo que, um pouco mais abaixo da vila, entra no Xévora e este, no fim dum curso de três léguas, próximo de Badajoz, entra no grande rio Guadiana.
            Nada se sabe quanto à fundação de Ouguela. Apenas se sabe que pertencia a Castela e que, em 1309 (1297), passou ao domínio de Portugal por donativo que El-rei de Castela, Afonso X, o Sábio, fez dela a sua filha D. Beatriz, quando esta casou com o El-rei de Portugal D. Afonso IV, o Bravo.
Esta pequena e amuralhada vila, situada a Norte de Campo Maior, tem sofrido uma tal decadência, que actualmente estão em ruínas quase todos os seus prédios, contando-se em bom estado uns 50 fogos. Os seus habitantes possuíam um logradouro – Defesa de Nª Sª da Enxara – onde tinham seus gados e semeavam suas searas. E, como depois lhes foi dado em sortes, trataram de as ir vendendo, porque o dinheiro não consentia miséria. Mas, assim que as venderam, acabaram por ficar reduzidos à miséria. Esta foi a principal causa da sua decadência.
Na esplanada da vila velha há um arrabalde, devido ao qual se tornou a vila antiga um deserto. Pena que o arrabalde não tenha ficado melhor localizado porque, como Ouguela está situada num grande e elevado cerro, torna-se o arrabalde feio e incómodo, pois é muito prejudicial para quem tem de a ele aceder para transportar os géneros das suas searas.
No centro da parte antiga da vila há um largo que antigamente servia de praça, quando a vila estava regular e militarmente guarnecida. E há uma grande cisterna, para a qual se desce por uns 15 degraus.
Contígua a este largo, está a Igreja de Nossa Senhora da Graça que é um edifício de tosca arquitectura e que tem uns 18 metros de comprimento e 10 de largura.
Pouco distante de Ouguela há uma fonte cuja água se torna medicinal pela propriedade de matar todos os vermes que para dentro dela caem. Para longínquas povoações levam barris e garrafas com esta água. Sua Exª, o Sr. Barão de Barcelinhos, mandou conduzir para Lisboa uma porção desta água para a submeter a uma análise clínica. Veremos se o resultado confirma a opinião pública.
Junto a esta vila de Ouguela há um terreno de cerca de uma légua quadrada, chamado Referta, cujo uso é comum aos habitantes desta vila e aos da vila espanhola de Albuquerque.
Ouguela possuía um grande celeiro comum que, segundo a tradição, foi instituído por abastados lavradores, para estarem prevenidos contra qualquer calamidade em suas searas.
            Hoje, a antiga vila encontra-se em grande decadência.
Mas Ouguela há-de renascer porque o Barão de Barcelinhos se comporta como um filho generoso, magnânimo e poderoso. Sua Exª comprou no termo de Ouguela a herdade da Lapagueira por 20.000$000 réis (vinte contos) e, em seguida, outras mais terras estabelecendo ali uma lavoura, para o que mandou comprar máquinas em França, bem como outra maquinaria para fábricas.
Ouguela deve prosperar. Os trabalhos já estão em grande escala sendo dirigidos por três práticos franceses, sendo um destes de muita instrução, possuindo especialmente grandes conhecimentos de terrenos e plantações.
Consta que Sua Exª dissera aos guardas de suas herdades que não proibissem que os habitantes de Ouguela levassem alguma lenha, que precisassem para o consumo de suas casas. Aos proprietários deste pequeno e pobre povo disse-lhes que comprava todas as fazendas que quisessem vender, sem mais ajuste que o valor dos foros ou rendas de 20 anos. É um bem que os habitantes de Ouguela não devem esquecer porque vendiam suas propriedades, por metade e menos do seu valor aos proprietários de Campo Maior.
O Ex.mº Sr. Barão de Barcelinhos, pela sua inclinação às causas divinas, bem mostra os sentimentos religiosos de que é dotado, provando-o com a oferta de uma banqueta grande e toda dourada, à Igreja de Nª Sr.ª da Graça daquela vila de Ouguela e mandando fazer uma festa com instrumental no dia 10 de Setembro corrente, convidando todo o clero de Campo Maior e muitas outra pessoas, instituindo uma festa anual no dia 8 de Dezembro e oferecendo-se para padrinho de todos os baptizados que se realizem nesse dia. A todas essas festas deve assistir a antiga filarmónica, da qual se dignou ser protector, passando a denominar-se, de ora avante, Filarmónica Barcelinhos. Já ofereceu para ela dois belos clarinetes e um flautim e agora determinou fardá-la e reforma-lhe todos os instrumentos.
Os infelizes de Ouguela têm nele um protector.
Há quem profetize um mau fim para quem dispõe dos seus bens com tanta largueza. A esses o Sr. Barão responde: Afastado actualmente da política militante, sem ambição e sem desejos pessoais, resta-me um único desejo que proclamo bem alto, porque não me envergonha: ser útil à minha pátria …E, quando eu, esquecendo estas e outras semelhantes máximas, pedir qualquer outra coisa aos povos de Ouguela, eles que ma recusem, porque, mesmo procedendo assim me darão uma prova de gratidão.
Sua Exª entende que a riqueza, pequena ou grande, só deve servir para moralizar os povos e educá-los para o trabalho. Por isso, os que a possuem devem-na usar com prudência para consolarem os infelizes.
Que grandeza de alma! Quem assim pensa é digno de todos os elogios. Oxalá os habitantes de Ouguela lhe saibam tributar a devida homenagem.”  
 
            Este texto que foi enviado para publicação no jornal de Elvas A Voz do Alemtejo, com a data de 27 de Agosto de 1865, pelo correspondente Rosado Júnior que, nesse tempo, desempenhava as funções de professor primário em Campo Maior. Nele se retrata com toda a clareza a acção do futuro Visconde de Ouguela em defesa da aldeia e da sua população.
            E hoje? Quem acode a Ouguela?
            Numa época em que tantas aldeias estão a ser restauradas para projectos de turismo rural, não há nenhum investidor privado que resolva apostar neste povoado tão privilegiado em termos de paisagem, de tranquilidade e de tanta antiguidade?
            E os campomaiorenses, sobretudo os que têm responsabilidades a nível autárquico? Como podem deixar de acudir à salvaguarda dos únicos vestígios do património militar e de povoamento da época medieval que existem no concelho de Campo Maior?
            Sim, os únicos! Porque Degolados é povoação bastante mais recente e Campo Maior, quase completamente destruída em 1732, quase nada conservou do seu património anterior ao século XVIII. O próprio castelo de Campo Maior é, na sua maior parte, o que resultou da reconstrução mandada fazer por D. João V e, como foi provado por recentes escavações arqueológicas, muito pouco conservou da sua traça original.
            Na verdade, a morte de Ouguela levará a melhor parte do que de mais antigo existe em termos de património no concelho de Campo Maior.
            Por isso e por muitas mais razões que não cabem no espaço limitado deste escrito, É PRECISO SALVAR OUGUELA!
 


publicado por Francisco Galego às 14:08
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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