Sexta-feira, 04 de Julho de 2014

     

 

                Que saudades não tenho desses bons tempos em que eu, todo pimpão, blusa de riscado aos quadradinhos, calção pelo joelho, botinas cardadas e cabeça ao léu, ia, com os outros garotos da Rua Direita, assistir, entre curioso e tímido, à trezena[1] de Santo António que se fazia no convento de S. Francisco!

                Lá em cima, no coro, mestre Soares fazia gemer no órgão roufenho o acompanhamento da ladainha cantada em coro por mestre Vieira a fazer de baixo, Manuel Mota de barítono, Manuel Vaz de contralto em falsete e o meu compadre Calado Branco a fazer brilhar nos solos a sua apreciada voz tenorina.

                As imagens dos altares desapareciam numa floresta de cravos e açucenas rescendentes de aromas subtis e que mãos crentes e devotas lá iam depor todos os dias, acabadinhos de colher, a sangrarem ainda nos caules mutilados.

                No dia de hoje, pelas ruas da vila, era a festa pagã de um povo contente e feliz, a saltar as enormes fogueiras de alecrim e rosmaninho.

                O rapazio buliçoso e endiabrado, deitando as bombas de dez réis, os estalinhos triangulares, os fósforos de cores, as bichas-de-rabear que, em ziguezagues fosforescentes, enfiavam pelas portas e janelas floridas, desorganizando momentaneamente os bailaricos de roda e assustando as moças que soltavam gritinhos de medo…

                Depois vinham as sortes: as alcachofras espinhosas; a leitura da sina nos papelinhos encarnados, amarelos e verdes; os cinco réis que se atiravam às fogueiras e a bacia de água que se lançava à rua para se descobrir um noivo…

                E as camponesas, em requebros dolentes, a cuidarem:

 

                              Santo António à minha porta,

                               Não sei que lhe hei-de dar…

                               Um vasinho de açucenas

                               Para pôr no seu altar.

 

                E tudo era rir e chalacear até alta madrugada, quando, já extenuados da folgança, todos se recolhiam a penates.

                Hoje o bom Santo António, brejeirote – que partia os cântaros às raparigas e que depois lhos inteirava – já não diverte ninguém. Já não tem trezena, nem órgão, nem cravos e açucenas…

                Como certos políticos que perdem a simpatia das multidões, que os abandonam depois de os terem adorado como ídolos, assim o santinho taumaturgo parece ter perdido o seu antigo prestígio sobre os devotos que para ali o deixaram triste, abandonado, roído de saudades, naquela solidão do convento, tendo apenas a mimá-lo as gracinhas do seu Menino Jesus que parece sorrir-lhe num gesto gaiato, carinhoso e brincalhão, consolando-o do abandono dos seus fiéis…

                Padre Santo António! Que saudades não tenho desses bons tempos em que eu ia, entre curioso e tímido, ouvir a tua trezena e o órgão roufenho do mestre Soares!

Rui de Castro[2]

 



[1] Devoção ou rezas durante os treze dias que antecedem o dia dedicado ao culto de um santo.

[2] Este texto, assinado com o pseudónimo Rui de Castro, foi publicado por João Ruivo no Notícias de Campo Maior de 13/6/1926, p. 2

 



publicado por Francisco Galego às 11:32
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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