Segunda-feira, 10 de Outubro de 2016

O pastoreio dos ovinos implicava o comércio da lã e da sua utilização pelas oficinas locais ou para exportação para terras onde estivesse mais desenvolvida a tecelagem. A associação das searas aos rebanhos de ovelhas existia no Alentejo mesmo ao nível das paisagens, tratando-se sem dúvida de duas actividades complementares por causa da rotação de culturas, da utilização dos baldios e do aproveitamento dos restolhos. 

No Alentejo havia pastores que tomavam de arrendamento as herdades apenas para nelas colocarem os seus rebanhos em pastagem, sem as cultivarem. E isto acontecia tanto para os ovinos como para os porcos. Daí as frequentes queixas contra a existência de grandes extensões de terras que ficavam incultas para nelas se praticar apenas o pastoreio. Além da lã os pastores fabricavam os queijos que conseguiam vender, mesmo para Lisboa, onde eram muito apreciados. No distrito de Portalegre havia grandes rebanhos de ovinos com particular incidência nos concelhos de Campo Maior, Fronteira, Ponte de Sor e Gavião.

Segundo um autor anónimo de Campo Maior que enviou relatório para Lisboa, em 1779, cinco pessoas arrendaram 39 das 54 herdades do concelho, tendo uma delas tomado para si nove dessas herdades, não para as cultivar, mas para nelas colocar os seus rebanhos de ovelhas.

No concelho de Campo Maior, que era considerado um dos mais ricos do Alentejo por nele predominarem os solos argilosos, o cura em resposta a um inquérito feito em 1758, queixava-se da pequenez da sua paróquia que ocupava todo o concelho, o qual, por ser tão pequeno, não teria espaço suficiente para o pastoreio. Por isso se tornava necessário ir procurar pastagens fora do concelho.

Em 1775 terá havido tal polémica neste concelho envolvendo as questões do pastoreio que suscitou um inquérito ordenado pela Corte Suprema do Reino, o qual forneceu preciosas informações sobre a situação local. Essas informações não deixam dúvidas quanto à importância dos criadores de gado no concelho de Campo Maior, no século XVIII.

Num outro documento, o notário do concelho pretendendo classificar os signatários de uma petição favorável à manutenção das pastagens em comum, coloca os criadores de gado e os pastores ao mesmo nível dos lavradores, seareiros e carreteiros. O poder desses criadores e pastores era tal que, em 1757, conseguiram obter a abolição de um regulamento municipal que lhes era hostil porque impedia que, quem não tivesse quatro juntas de bois e não cultivasse uma herdade, pudesse beneficiar do pastoreio nos baldios.

A criação de gado ovino terá alcançado tal extensão, que gente pobre vinha para Campo Maior em busca de fortuna, na expectativa de que, começando como pastores, pudessem vir a tornar-se proprietários de rebanhos e, até mesmo, lavradores. O número de cabeças de gado ovino era de 22.782 em 1775; portanto, muito elevado para um concelho de tão pequeno território. Só assim se compreende o vigor das polémicas em torno das pastagens nos baldios. Em 1788 foi aprovado um regulamento que obrigava os de fora a alugarem uma terra para a poderem aproveitar para pastagem. Trinta anos mais tarde houve reclamações contra os excessos da criação de gados atribuindo-os ao direito de cercar os campos e à obrigação de os gados se deslocarem apenas pelas canadas.

Há notícia de que, boa parte destes gados passava para Espanha em contrabando. O autor anónimo do referido relatório avaliava em 60.000 o número de animais que, de Campo Maior, passavam todos os anos para Castela, declarando que colhera esta cifra junto de um castelhano bem colocado e sublinhando que se tratava de animais de vários espécies e não apenas originárias do Alentejo. Em 16 de Maio de 1796 foi tomada uma resolução com um título bem significativo: Aviso destinado a evitar a passagem de gado do Alentejo para Espanha. Tratava-se, sobretudo, de animais destinados ao fornecimento de carnes de borrego e de porco.

De qualquer modo, todas as informações apontam para que se possa concluir que, em Campo Maior e em geral na região de Elvas, a criação de gado ovino ocupava um lugar notável na economia local.

 



publicado por Francisco Galego às 00:08
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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