Sexta-feira, 10 de Abril de 2015

A "FESTA" NOS ANOS 50  – UM  RECOMEÇO

 

ANO DE 1952

 

LINHAS DE ELVAS, nº 104, 13 de Setembro de 1952

 

As Festas do Povo de Campo Maior

 

Notas de reportagem por Marciano Ribeiro Cipriano:

 

   Inundados de beleza os olhos; transbordante de encantamento a alma, assim andamos de rua em rua durante os quatro dias que duraram as Festas do Povo da nossa terra.

   Perdidos qual vagabundo em voluntária peregrinação, não nos cansámos de admirar o poder criador de moços e velhos que, embora esgotados pela labuta diária na dura conquista do pão, ainda lograram ânimo para mostrar alegremente como a intuição artística e culto do belo vivem em seus corações, tantas vezes amargurados por mil vicissitudes e desenganos.

   - Admirável este povo da minha terra!

   - Magnífico o seu esforço, numa multiplicação de vontades inquebrantáveis para mostrar a naturais e visitantes, a beleza de sonho das suas festas!

   Chamam-se Festas do Povo, embora originariamente se tivessem designado por Festas dos Artistas [quer dizer, artífices] e nunca uma designação foi dada com tamanha propriedade!

   São, na verdade, as Festas do Povo, porque é o povo, numa manifestação de vontade colectiva, que transforma por completo a vila num encantador jardim das mais variadas e caprichosas tonalidades.

   Cada rua, cada travessa e até cada beco, surgem a nossos olhos qual encantador painel que mão de consagrado artista tivesse trabalhado.

   E a vila surge, assim, na alvorada do primeiro dia de festa, transformada num imenso e encantador parque que mais parece um conto de fadas das mil e uma noites.

   - E, durante quatro dias e quatro noites, toda a vila vibra e se agita, num frenesim constante e aliciador!

   A beleza e encantamento assumem aspectos de grandiosidade e as ruas, numa disputa admirável – sem prémios nem incentivos, note-se bem! – apresentam-se cada qual diferente da vizinha, mas todas elas mostrando ao visitante o poder de uma arte que não teve escola nem mestres, porque é uma intuição admirável e notabilíssima do povo – massa anónima – que guarda sempre em si o sortilégio vivificante das grandes realizações.

   Causa, na verdade, admiração e pasmo ver tanta beleza e arte semeadas por mãos calosas de rapazes e raparigas que, durante mais de três meses consecutivos, laboram pacientemente e até altas horas da madrugada, as florzinhas, lustres, franjas e demais enfeites originais em elegantes recortes de papel a cores.

   São estes moços e moças que, ajudados por outros moradores das ruas, embora com diferentes possibilidade mas como eles simples e compreensivos, quem se ufana de deslumbrar os visitantes, transformando a sua rua num encantador altar de beleza e de espontânea manifestação artística.

   E não se cuide que o custo elevado da ornamentação das ruas recebe qualquer auxílio material de entidades oficiais ou colectividades afins. A cada morador das ruas cabe o seu quinhão nas despesas e cada qual contribui conforme as suas possibilidades.

   Aos mais abonados – e ainda os há, felizmente com alma grande em algumas ruas – cabe naturalmente maior quinhão nessas despesas, mas ao fim e ao cabo sentem-se compensados pela alegria natural que sentem em compartilharem directamente na festa que podemos apontar como modelo da mais salutar fraternidade.

   Nem em todas as ruas acontece assim. Mas isso não ofusca de modo algum o brilho das Festas do Povo de Campo Maior.

   Percorremos as ruas de lés a lés e, por toda a parte, encontramos a mesma salutar demonstração de alegria, o mesmo brilho e o mesmo esplendor, mesmo naquelas rua que a modéstia dos seus moradores não permitia largos voos.

   As Festas do Povo não se realizavam há perto de dez anos. E aquilo a que assistimos este ano leva-nos a acreditar que a sua realização anual é absolutamente viável e possível.

   Falam por nós o entusiasmo dos que para elas trabalharam; garantem-no, ainda, as expressões de êxtase e de deslumbramento que observamos nas muitas centenas de forasteiros que nos visitaram. Não exageramos nesta afirmação: - ultrapassou em muito a casa do milhar, o número de pessoas que visitaram Campo Maior durante os dias das festas!

   Se atentarmos que foi quase nula a propaganda – limitou-se às notícias que voluntariamente nos lembramos de dar – tal número de visitantes deve encher-nos de júbilo. Dentre eles contam-se algumas destacadas personalidades da região e até de Lisboa, importando salientar a presença dos senhores coronel Pereira Coelho, subdirector do Diário de Notícias e Dr. Cayola Zagalo, conservador do Palácio da Ajuda e conservador adjunto do Museu de Arte Antiga, que não esconderam a mais viva admiração pela inédita maravilha que desfilou perante os seus olhos.

   Com uma propaganda bem orientada e inteligentemente desenvolvida, as Festas do Povo de Campo Maior podem transformar-se no cartaz vivo e aliciador da nossa terra, convite admirável para que melhor nos conheçam e menos mal nos julguem…

   As Festas do Povo de Campo Maior, designadas originariamente por Festas dos Artistas, como já referimos, realizaram-se pela primeira vez há mais de sessenta anos. Vive ainda, felizmente, um dos seus promotores, o nosso simpático e querido amigo, Sr. José da Gama Piñol que, nos seus enérgicos e admiráveis quase noventa anos nos contou a sua origem e o respeito pela tradição vincadamente regional que, desde início, lhe imprimiram e que jamais se perdeu.

   Com que emocionante alegria e saudosa nostalgia, este nosso respeitável amigo nos contou a origem das festas – que ele considera melhor designadas por Festas do Povo – e como os seus olhos brilharam de alegria por poder assistir, com perfeita saúde física e mental, às típicas e originais Festas do Povo que ele teve o privilégio de iniciar!

   Como se sentia feliz ao revelar-nos a origem das Festas do Povo de Campo Maior que ressurgiram depois de dez anos de intervalo, mercê do esforço deste belo povo e da ideia feliz da comissão promotora, os modestos operários Eduardo Costal, Manuel Vilas e Simão Tomatas, cujos nomes arquivamos com muita satisfação nas colunas do nosso jornal.

   Que o seu nome frutifique para o bom nome e prestígio de Campo Maior, são os nossos votos.

   As festas realizaram-se a benefício da Santa Casa da Misericórdia a comissão promotora foi auxiliada, em alguns pormenores da organização, pelos Srs. Dr. José Henrique Santos, João Minas e João Candeias.

 



publicado por Francisco Galego às 09:39
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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