Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2015

O Campomaiorense, Ano III, Nº 62, 30 de Outubro de 1923

As festas do Povo

    As Festas do Povo tiveram este ano um brilhantismo desusado. Cerca de 5.000 pessoas aclamaram os briosos aviadores militares que visitaram a vila por ocasião das festas.

A grande falta de espaço com que lutamos neste número do nosso jornal não nos permite fazer uma descrição minuciosa das festas, por isso nos limitaremos a fixar em pequenas notas as impressões que colhemos na nossa missão de repórter.

O programa das festas inseria uma pequena crónica de um nosso camarada de redacção e foi um belo pretexto para o comércio e a indústria locais, anunciarem os seus produtos.

Intercalavam-se no texto alguns clichés da vila que, por banalizados, já se não deviam aproveitar. É certo que a Comissão não pode adquirir novas fotogravuras por falta de verba, embora tivesse mandado tirar fotografias de sítios ainda inéditos em gravura.

Os programas foram primorosamente executados na Tipografia Popular de Elvas.

Fraca concorrência à festa religiosa do primeiro dia. Orou o reverendo Dr. Costa Gomes. A Capela da Orquestra da Academia dos Amadores de Música agradou.

À tarde, a procissão teve numeroso acompanhamento. Pelas janelas muitas senhoras e algumas caras bonitas a porem uma nota galante no cortejo.

Realizaram-se três touradas à vara larga, sendo a última a benefício da Misericórdia. A improvisada praça, sempre à cunha. A faena com pouco interesse. Pouco entusiasmo nos diestros. Gado fraco, gratuitamente cedido pelos lavradores Srs. António Sousa da Gama, irmãos Tenório Rente, João Serra, João Minas, Francisco Corado Júnior e Dr. Pereira Agrela. Algum bicho mais teso que apareceu, não tinha com quem se defrontar, pois tudo fugia a sete pés… Apenas uma boa pega, na segunda tourada, em honra do aviadores, que brindaram o forcado com 50 escudos, tendo este recebido mais uns 200 escudos duma quete que se abriu na praça.

Na segunda tourada deu-se um desastre que podia ter tido lamentáveis consequências. Em determinado momento, para melhor verem o que se passava no redondel, toda a gente que se encontrava num camarote, junto ao curro, se amontoou à frente, dando em resultado partir-se uma trave, que cedeu ao peso e abateu o telhado, caindo ao solo os espectadores que ali se encontravam, homens, mulheres e algumas crianças, tudo enrodilhado, o que provocou grande pânico. Felizmente, só duas crianças ficaram feridas sem gravidade. O maior charivari foi depois feito pelo povoléu que discutiu acaloradamente o incidente, tendo havido ainda um esboço de conflito com a força da Guarda Republicana que policiava o local, mas tudo serenou por fim. No entanto, a diversão terminou um pouco precipitadamente.

Quase todas as ruas se achavam ornamentadas a capricho. Merecem especial referência o Largo do Terreiro e as ruas do Pedroso, Major Talaya, Visconde de Seabra, Vasco Romão e Miguel Bombarda. Das surpresas, a destacar: o moinho do hábil artífice Sr. Peguinho e um avião dos Srs. Humberto Pires e Serafim Sobrinho.

Os arraiais no Jardim Público, foram muito concorridos. O local achava-se primorosamente iluminado a electricidade e numa disposição artística, o que se deve à perícia do hábil electricista Sr. Norberto Corado. O fogo de artifício, regular.

A Banda União Artística de Castelo de Vide foi, como sempre, muito apreciada. Os concertos que deu, deixaram a melhor impressão no público conhecedor.

O torneio de tiro aos pombos, que estava anunciado, não se realizou por dificuldades que surgiram à última hora.

O trânsito na fronteira esteve livre durante os dias de festa, mas poucos espanhóis vieram assistir a elas.

 

A nota mais animada das festas, foi a vinda de dois aviões do Grupo de Esquadrilhas de Aviação República, da Amadora, cuja chegada estava anunciada, no programa, para o primeiro dia das festas, tendo sido, à última hora, marcada para o segundo dia, por motivo dos mesmos aviões terem de inaugurar um campo de aviação, em Vila Real de Santo António.

Manhã cedo, as estradas que conduzem ao Rossio de S. Pedro, onde se devia fazer a aterragem, ofereciam um aspecto curioso. Quase toda a população da vila e os forasteiros, afluíram aquele local para gozar o emocionante espectáculo da chegada dos aparelhos que, pela primeira vez, nos visitaram. A aterragem estava marcada para as 9 horas. A essa hora, encontravam-se já no Rossio cerca de 5.000 pessoas.

Dava uma nota garrida as mulheres com seus trajes multicolores. O serviço de policiamento era feito por uma força de cavalaria e infantaria da Guarda Republicana. Um ou outro popular lembrava-se, de vez em quando, de dar o grito de alarme e logo, toda aquela mole de gente, se lançava em manifestações de entusiasmo, perscrutando o espaço na direcção do sul, presa da maior ansiedade. Duas águias que pairavam sobre o campo, a enorme altura e que alguém se lembrou de dizer que eram os aeroplanos, mereceram uma estrondosa manifestação… Breve se reconhecia o logro e, em comentários alegres, se ia passando o tempo.

Ao meio dia, como não houvesse notícia dos aviões, a multidão que se aguentara três horas a pé firme, sob um sol ardentíssimo, começou a debandar, desgostosa com o insucesso.

Só depois se soube que o motivo do incidente tinha sido a falta de gasolina, por um telegrama que anunciava a chegada para o dia seguinte, terceiro das festas. A mesma multidão afluiu de novo ao Rossio, mas já um pouco receosa de novo insucesso.

Cerca das 11 horas, quando o desânimo começava já a invadir o público e depois de se repetirem os episódios da véspera, avistaram-se os aviões que vinham dos lados de Badajoz, ouvindo-se distintamente o ruído característico dos motores, num voo sereno e majestoso. Junto da pista foi acesa uma fogueira para servir de guia aos aviadores. O que então se passou quase não sabe a nossa modesta pena descrevê-lo. A enorme massa de povo que, na quase totalidade, pela primeira vez presenciava semelhante espectáculo, rompeu em ruidosas exclamações de alegria, batendo palmas, soltando entusiásticos vivas, as senhoras acenando com os lenços, saudando os denodados tripulantes dos aviões que, a pequena altura, faziam diversas evoluções sobre o campo, como preparação para a aterragem. Esta, fez-se de uma forma magistral, mostrando a perícia dos oficiais pilotos, o que provocou vibrantes aplausos da multidão. Eram 11 horas e 15 minutos. O primeiro aparelho que aterrou foi o Breguet 5, pilotado pelo tenente Sr. Jorge de Ávila, tendo como tripulantes os Srs. capitão Carlos Cabrita e tenente observador Francisco Larcher. O segundo era o Breguet 13, pilotado pelo tenente sr. Sérgio da Silva, tendo como tripulantes os Srs. tenente observador Brandão de Brito e mecânico-chefe Gouveia.

Estes aparelhos foram baptizados em Vila Real de Santo António, respectivamente com os nomes de Tinita e Condestabre II, tendo sido madrinhas duas gentis senhoras da melhor sociedade daquela importante vila algarvia, segundo nos informaram depois os arrojados pilotos.

A primeira pessoa que chegou junto dos aparelhos foi o nosso redactor que abraçou os aviadores, apresentando-lhe os cumprimentos de boas vindas em nome do Campomaiorense, tendo-nos o Sr. tenente Ávila informado que a viagem decorrera magnificamente. Embora o vento nordeste fosse prejudicial à marcha, a etapa Vila Real de Santo António – Campo Maior, fizera-se em 2 horas e 5 minutos.

Na pista, os aviadores receberam os cumprimentos da Comissão das Festas e da Comissão de Recepção, que era composta dos Srs. Dr. Tello da Gama, presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal, Caiola Júnior, administrador do concelho, comandante Cabrita, comandante da secção da Guarda Fiscal, tenente-médico miliciano Dr. Carreiras e João Dores, oficial do registo civil, seguindo todos de carro para a vila, sendo os bravos aviadores alvo das mais sinceras manifestações de simpatia durante o trajecto. À entrada da vila, eram os nossos visitantes aguardados pela Banda de Castelo de Vide e muito povo, repetindo-se as manifestações. Os oficiais aviadores foram alojados numa dependência do rés-do-chão do palácio Camaride, obsequiosamente cedida pelo seu actual proprietário Sr. Dr. Tello da Gama. À tarde, assistiram à tourada, tendo-se repetido as manifestações ao tomarem lugar no camarote da Comissão das Festas. À noite foram os aviadores recebidos no salão nobre da Câmara Municipal, sendo-lhes dadas as boas vindas pelos Srs. Dr. Gama, Caiola, Dores e Dr. Carreiras, usando da palavra para agradecer os Srs. capitão Cabrita e tenentes Ávila e Brito, servindo-se um primoroso copo de água oferecido pelo município e ao qual assistiram alguns vereadores e outras entidades oficiais do concelho que haviam sido convidadas.

No dia seguinte, último das festas, teve lugar numa das salas do Grémio, um jantar de despedida aos aviadores a que assistiram os membros da Comissão das Festas e da Comissão de Recepção e o nosso redactor, tendo-se trocado amistosos brindes, erguendo-se calorosos vivas à aviação militar. Os aviadores manifestaram o seu reconhecimento pela carinhosa recepção que lhes haviam feito as comissões referidas e o povo de Campo Maior, ao qual ergueram entusiásticos vivas.

Os aviadores partiram no dia 6, tendo descolado às 7 horas e 30 minutos. A manhã estava soberba e à partida assistiram muitos populares que tributaram aos intrépidos aeronautas uma quente e expressiva manifestação de despedida. Os aparelhos, depois de evolucionarem sobre a vila, onde se viam pelas varandas e mirantes muitas senhoras acenando com os lenços, tomaram rumo de Lisboa, passando sobre Estremoz e outras terras, tendo aterrado na Amadora, com a maior felicidade depois de 2 horas de excelente viagem, isto é, às 9 e 30. Logo que aterraram, os simpáticos aviadores dirigiram telegramas de saudação e de agradecimento ao Presidente da Câmara, Administrador do Concelho, Comandante Fiscal e ao nosso redactor, como intermediário entre a equipa aeronáutica e a Comissão das Festas.

Durante a estada dos aviões no campo do Rossio, foi ali uma constante romaria de populares, curiosos de os verem de perto, sendo a guarda dos aparelhos feita permanentemente por uma patrulha.

A Comissão das Festas trabalhou afanosamente para que elas tivessem o brilho que as distinguiu. A Comissão, se bem que teve alguma decididas boas vontades a auxiliá-la, teve também muitas más vontades a embaraçar-lhe o caminho mas, apesar de todas as contrariedades e dissabores, houve-se por forma a merecer a simpatia geral dos campomaiorenses. Só quem acompanhou de perto os trabalhos da Comissão pode avaliar quanta energia e tenacidade foi preciso desenvolver para chegar a tão brilhantes resultados. O Campomaiorense, agradecendo aos simpáticos rapazes da Comissão as gentilezas com que cumularam o seu redactor, louva-os pelo seu acentuado bairrismo e pela sua acção inteligente em prol de Campo Maior.

               

 



publicado por Francisco Galego às 10:07
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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