Sábado, 20 de Agosto de 2016

Quando chegavam as grandes calmarias de Verão, o Alentejo tornava-se mais profundo. Mais isolado do resto do mundo.

A terra ressequida, nas horas de calor mais intenso, parecia tornar-se um imenso brasido. Olhando para longe, sobre os restolhos, víamos aquele tremeluzir que fazia desvanecer o contorno das coisas.

É a memória desta terra esbraseada que mais me traz as recordações da minha infância.

Por esta altura, livres da escola e das tarefas a que ela obrigava, batíamos os campos, insensíveis ao calor que tanto incomodava os mais velhos.

Numa busca vadia procurávamos grilos, pássaros que, estonteados pelo calor, se punham ao alcance das nossas gailoas de cana e da nossas fisgas, a que chamávamos afundas. Deitávamos a mão a alguns figos que, na ausência dos donos, ficavam ao nosso alcance Quando regressávamos esbraseados e sedentos, trazíamos os bolsos cheios de tudo a que pudéssemos ter deitado mão. Éramos livres e felizes, embora muito inconscientes dos perigos a que frequentemente nos expunhamos e, sobretudo, das maldades e excessos que quase sempre praticávamos.

Por circunstâncias da minha vida, cedo abandonei esta vida, vivida com grande sentido de camaradagem. As “maltas”, formadas pelos que viviam em proximidade de ruas, eram autênticas escolas que nos ensinavam coisas, que não se aprendiam nos bancos da escola, mas que nos moldaram para o resto da vida:

- a solidariedade entre os membros do grupo;

- o sentido de pertença àquelas pequenas comunidades;

- o sentido de entreajuda;

- a lealdade e o dever de cuidar dos mais novos, dos mais desprotegidos;

- a coragem para lutar em defesa do interesse de todos.

 A vila mudou muito. O mundo da minha infância morreu. Como morreu a comunidade rural em que cresci para a vida, aqui, em Campo Maior.



publicado por Francisco Galego às 00:30
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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