Terça-feira, 01 de Novembro de 2016

 

A ERMIDA DE S. PEDRO

(Segundo Estêvão da Gama de Moura e Azevedo)

Dista, esta Ermida, da Povoação de hoje, dois mil passos em terreno plano, com um vale muito fresco, capaz de hortas e pomares com muita água nativa e conserva um chafariz (nome que nos deixaram os mouros) que é do concelho desta vila…

É também ponderável que neste sítio de S. Pedro se apartam vários caminhos e estradas para Mérida, Badajoz, Ouguela, Albuquerque e Arronches.

Numa coluna que estava no alpendre da ermida só se puderam ler as letras de Emeritensis (1), porque as outras foram apagadas pela agressão dos ignorantes do valor destas antiguidades. Há ainda uma outra coluna com parte de uma inscrição.

(…) a Igreja de S. Pedro é uma Ermida feita de paredes de terra e de muito pobre arquitectura sem que tenha demonstração pudesse nunca ter mais avultados princípios. A qual se reedificou nos nossos tempos, porque no da Guerra da Aclamação (2) padeceu grande ruína. As colunas, (grandes pedras que se encontram neste lugar) que ainda se descobrem, mostram que o lugar tinha extensão porque há três anos que, andando um lavrador lavrando uma pequena parcela de terra que está defronte do chafariz, descobriu uma sepultura de que tirou tijolos, para se aproveitar deles, de notável grandeza e qualidade de barro e fica este sítio em bastante distância da Igreja de S. Pedro.

(…) A Ermida de São Pedro …”a qual é de grande romagem dos moradores às quintas-feiras da Quaresma, com indulgência plenária. A Imagem (de S. Pedro) é pintada a fresco na parede em hábito pontifical e se conserva no mesmo estado, como refere o Dr. Novaiz, acrescendo à sua ponderação a circunstância de durante a Guerra da Aclamação, que durou 28 anos, esteve exposta á inclemência dos tempos por se arruinar a Igreja e não teve nenhuma diminuição aquela Imagem, não tendo sido retocada, nem necessitar de nenhum benefício da arte.

Neste sítio estão as colunas de que já se fez menção e outros sinais de edifícios. Há pouco tempo que, a ermitoa que hoje existe, achou uma moeda de ouro de tamanho de uma de seis vinténs, mas muito delgada e com um bocado menos na circunferência. Porém, de uma parte estão as letras bem formadas e se lê nelas Toleto Pios, cuja moeda se acha em poder de Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, Governador desta Praça...”

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 (1) - Referente a Emerita Augusta (Mérida), capital de uma província romana.

(2) - Guerra entre Portugal e Espanha que começou com a Restauração da Independência de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640 e terminou com o Tratado de Madrid, firmado em 5 de Janeiro de 1668.

Comentário complementar: Neste local em que se encontra a Ermida de S.Pedro, no cruzamento de estradas criadas no período romano, para ligarem Mérida a outras urbes localizadas no actual território portuguguês, há razões que apontam para a possibilidade de que seria o local de Ad Septem Aras (a), ou seja, o local que servia de apoio aos viajantes, com um templo - lugar sagrado para as oferendas e súplicas de protecção dos deuses -, lugar de repouso -  com água abundante para banhos -, tendo adjacente um cemitério, chão sagrado para sepultar os mortos. A forma, a volumetria do edifício, a sua localização e os vestígios arqueológicos encontrados, justificam que alguns estudiosos tenham feito essa interpretação. Só estudos ponderados poderiam trazer dados que permitiriam confirmar tal suposição. 

(a) À letra, significa "das sete aras", (ou seja,dos sete altares).



publicado por Francisco Galego às 00:09
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