Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

... Tive eu, ao assistir, ontem à noite, ao espectáculo de dança que a Associação Cultural “AXPRESS-ARTE” apresentou no Centro Cultural de Campo Maior.

Tanto maior foi essa surpresa quanto, tenho de o confessar, a sua titulação como “A cópia”, era pouco significante para me ter criado qualquer espectativa. Ia sem ideia preconcebida, movido apenas pelo interesse de conhecer mais um trabalho no qual participavam pessoas que estimo e que considero empenhadas em projectos concebidos segundo objectivos e soluções que sempre me suscitaram contentamento e proveito cultural.

E, de repente, aquilo que define uma proposta como cultura e como arte, começou a acontecer naquele palco tão despedido de grandes e espectaculares artifícios cénicos, mas prenchido com sugestões tão simples quanto significativas, gerando um espaço que dava de imediato, o sentido da acção que nele se ia desenvolver: a quase ausente utilização da cor, o jogo simples e cru da luz, das sombras e dos espaços não iluminados, delineando um clima de espectável dramatismo.

Depois, nova surpresa: uma banda sonora que, ora ritmando, ora alternando as vozes com os trechos musicais, foi ganhando um crescente lugar sublinhando a narrativa sujacente à representação que a dança ia construindo. Por mim, gostaria que o “folheto-programa” tivesse indicado os autores e/ou os trechos musicais que foram tão bem inseridos, nesta tão inteligente e tão bem integrada banda sonora.

Depois, o espanto de terem optado pelo despojamento com que vestiram os que no palco foram construindo a representação. As marcações encheram o espaço cénico de modo a que os movimentos pudessem ir “narrando” o que, com intenção, havia  sido escolhido para ali poder ser analisado, entendido e interpretado, porque esse é o propósito de qualquer proposta com verdadeira intenção cultural.

E, o sentido foi-se explicitando: no essencial, trata-se de apresentar o conflito existencial que se desenvolve no confronto agónico entre duas tendêndias estruturantes da nossa individualidade, ou seja, do nosso modo de estar e de ser: por um lado, a tendência que vai defenindo o nosso Ego, modelando-o segundo as circunstâncias que nos são propostas pelo ambiente social em que estamos inseridos e que, nesta representação, é configurada pela inserção da personagem individual nos comportamentos do grupo; por outro lado, a emergência do Alter Ego que, aspira a mais altos designios que estruturem e personalizem uma verdadeira individualidade, incitando à não conformação com o que está estabelecido.

Claro que esta é a minha leitura. Mas é essa a função dos verdadeiros actos culturais: levar-nos à reflexão e ao conhecimento. Por isso, a minha surpresa, deu lugar ao meu grande contentamento, Não é coisa de somenos, ter podido assistir a um tão digno como inteligente acto de cultura, numa terra em que, com grande desgosto, constato constantemente, que a cultura foi desaparecendo para dar lugar a pobres acções de mero entretenimento que apenas acentuam o progressivo empobrecimento do nosso viver colectivo. Parabéns a todos os que nele participaram.



publicado por Francisco Galego às 10:36
Tomei a liberdade de partilhar este seu comentário, Doutor. Não só porque me "atinge" diretamente, mas pirqje sim. Excelente trabalho... Obrigado.
João Aldeano a 19 de Fevereiro de 2017 às 18:54


Fico honrado pelo seu interesse pelo meu texto.

Francisco Galego a 20 de Fevereiro de 2017 às 14:45

Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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