Quinta-feira, 08 de Outubro de 2015

A agricultura, como todas as actividades humanas tem a sua história, pois vai mudando ao longo dos tempos.

Em tempos não muito distantes, Campo Maior foi, sobretudo, uma terra de pão. Extensas áreas de searas envolviam a vila. A produção era tão abundante que, na sua maior parte, a produção de cereais se destinava a ser enviada para fora do concelho. O olival, como a vinha, tinham, sobretudo importância para o consumo local.

Nas décadas finais do século passado, assistimos à preponderância da produção da azeitona e do azeite. Actualmente, estamos a assistir a um período de expansão das vinhas e da produção dos vinhos.

No concelho há uma extensa área de cultivo da vinha e uma grande adega que se dedica à produção de vinhos de qualidade elevada, apetrechada com os mais evoluídos recursos e equipamentos. Mas há também um número considerável de pequenas adegas (a que, de tão pequenas, poderíamos chamar “adegas de garagem”), onde, por métodos artesanais e segundo processos tradicionais, se fabricam vinhos que, em alguns casos, conseguem ter uma interessante qualidade.

Noutros tempos, quando em Campo Maior predominava uma economia basicamente agrícola, a produção vinícola tinha já certa importância.

Associada à produção do vinho, outra actividade dava fama aos artesãos de Campo Maior: o fabrico dos grandes potes ou talhas em que se produzia e guardava o vinho. Em certas famílias, a arte do fabrico dos potes passava de pais para filhos, por várias gerações.

Nas linhas que seguem vou tentar dar breves notícias sobre as culturas da vinha e do vinho no concelho de Campo Maior, em tempos passados.

Em meados de século XX (1948), o Alentejo produzia apenas uma pequena parte dos vinhos de Portugal: em 8.176.000 hectolitros, fornecia 61 mil; a Estremadura e o Ribatejo, forneciam 3. 234.000; as Beiras 2. 185.000; o norte produzia quase dois terços do total. Só a Vidigueira e Vila de Frades se destacavam pela qualidade e quantidade do vinho que produziam.

Nem sempre assim terá sido, pois que documentos antigos referem a viticultura e a produção dos vinhos como uma actividade económica muito importante no Alto Alentejo.

Tomando como referência uma “Notícia de 1758”, as produções do azeite e do vinho ocupavam lugar de destaque na economia da região em volta de Portalegre. Essas produções são referidas com grande destaque enquanto a produção de cereais era pouco referida. As vereações de Portalegre revelam que os viticultores constituíam um grupo activo, uma verdadeira corporação com tal influência que, em 1800 conseguiram mesmo que fosse interditada a importação de vinhos para proteger o consumo do vinho de produção local.

Ao que parece, em meados do século XVIII a situação começara a mudar. O cura de Santa Maria Madalena refere que Elvas, Olivença, Cabeço de Vide, Fronteira e Campo Maior, localidades que antes importavam, tinham começado a produzir.

Aliás, o pároco de Campo Maior, na mesma “notícia de 1758”, assinalava a importância da vinha na economia local: muito trigo, cevada, grão, muito vinho e de boa qualidade. Portanto, Campo Maior pode, a justo título, ser considerado como um dos concelhos vitícolas do distrito de Portalegre, nos séculos XVIII e XIX.

O desenvolvimento da vinha em Campo Maior está testemunhado num decreto de 12 de Agosto de 1819 que, em resposta a uma petição dos habitantes deste concelho, foi decidido que “os proprietários de vinhas e os vinhateiros da vila de Campo Maior tendo exposto que a viticultura ocupava um destaque considerável na vida da vila, e não apenas pela qualidade do vinho que produziam, a ponto de esta ter provocado a plantação de vinhas cada vez mais numerosas nas terras incultas e cobertas de matos, mas porque, esta tão interessante actividade comercial, estava actualmente ameaçada de ruína pela livre entrada de milhares de carregamentos de uvas que desde há anos têm vindo para esta vila doutras localidades fronteiriças, com origem em Espanha…”. Este texto mostra com clareza a importância da viticultura local, confirmada quarenta anos depois pelo redactor anónimo da memória da Academia que tão bem conhecia a região de Campo Maior, quando se queixava do progresso da vinha no Alentejo, dando como exemplo o caso de Santa Eulália, grande aldeia a Oeste de Campo Maior, onde a produção de aguardente tinha aumentado monstruosamente nos últimos vinte e cinco anos. Ora, o consumo desregrado desta bebida estava a provocar uma grande dissolução dos costumes. Houve insistentes pedidos de medidas que atacassem o progresso da embriaguês entre os camponeses que os afastava dos usos e costumes de antigamente e que os atraía para as tabernas afastando-os dos trabalhos nos campos.

 Há referências documentais a que na aldeia de Santa Eulália se vendia muito vinho para a cidade de Elvas.

Borba já era então um afamado centro vinhateiro, sendo mesmo considerado um dos mais importantes do Alentejo desde o século XIII.

Por volta de 1820, existia nesta região do Alentejo uma grande pressão das terras para que fosse estabelecida uma situação de relego sobre o vinho para evitar que a importação de vinhos de fora prejudicasse a venda dos vinhos da terra. O relego consistia numa disposição legal que vinha da Idade Média e se destinava a garantir que não fossem importados vinhos de fora enquanto não fossem vendidos os vinhos da terra.

Ao longo do século XIX foi aumentando a área de cultivo da vinha tanto mais que, nas pequenas propriedades, se estabeleceu o hábito de associar o olival e a vinha intervalando as fileiras do olival com as do bacelo.

 



publicado por Francisco Galego às 08:22
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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