Sábado, 09 de Maio de 2015

Ao arrumar uns velhos papéis, dei com uma velha certidão de casamento dos meus pais. Não sei por que razão, nunca tinha lido aquele documento. Ao lê-lo agora, resolvi começar a analizá-lo como se costuma fazer em qualquer documento escrito, numa perspectiva de investigação em História: Recolha organizada de datas, nomes, factos, locais, situações, laços de parentesco... Dessa relação foram ressaltando pistas que me permitiram fazer algumas interpretações e extrair conclusões, com base nas quais, resolvi elaborar um texto.

O resultado pareceu-me bastante interessante e resolvi enviá-lo ao meu filho mais velho que, por sua vez, pode, através dele, alargar aos seus filhos o conhecimento da nossa “história familiar”. Assim foi e, de facto, resultou.

Isto fez-me lembrar um dos primeiros textos que, quando reformado regressei a Campo Maior, publiquei. Escrevi nele que vinha com a intenção de “aprender a ser velho”. Acho que dos poucos que me terão lido, foram ainda menos os que me entenderam. Eu queria então dizer que tinha perfeita consciência de que, na minha missão de professor, vivendo entre os mais novos, não me tinha sido possível envelhecer do mesmo modo que os da minha idade, com outros tipos de vivências. Afinal, hoje posso afirmar que fui aprendendo a ser velho: Ser velho é deixar de viver para elaborar e realizar projectos e ir passando a revisitar os projectos que se viveram.

Esta recordação veio porque percebi que voltara agora a usar um processo que usava como estratégia de aprendizagem para os meus alunos, no meu tempo de professor e que passo a descrever.

 

Eu mudei poucas vezes de escola. Mas, enquanto professor não efectivo, por força dos concursos anuais, tive de mudar algumas vezes. Ora, como sempre pensei que, para bem ensinar, é necessário ter o melhor conhecimento possivel daqueles que nos cabe orientar de modo a contribuirmos, tanto quanto possível, para a sua formação e educação, arranjei uma maneira de recolher rapidamente essa informação. Por isso, sempre que estava perante novas turmas que não conhecia, usava um “truque” que se revelou de grande utilidade.

Como professor de História, cabia-me explicar o que era a História. Pareceu-me que não haveria melhor maneira de o fazer do que levar os alunos a terem uma ideia de saberem como a História se faz, para mais rapidamente compreenderem para que ela poderia servir. Ao mesmo tempo, eu podia aprender algo sobre aqueles que devia ensinar.

Logo nas primeiras aulas pedia que cada um deles tentasse obter cópia de uma certidão que houvesse nas suas casas. Depois, na aula, explicava como ordenar, relacionar e interpretar as informações contidas nos documentos, base para elaborarem um texto que contasse uma parte da sua “história de vida”. Muitos, expontaneamente, iam para além do documento, passando a inquerir mais informações junto dos familiares.

Tinhamos assim um ganho significativo: Eles ficavam a saber algo sobre as suas origens, sobre como se fazia, o que era e para que servia a História; Eu ficava com uma ideia geral do espaço sociológico em que me inseria e mesmo sobre as suas dificuldades de aprendizagem.

No fundo, a missão de ensinar, ou procura ser um treino para a utilidade e capacidade de aprender, ou acaba por ter fraca capacidade para cumprir o que devem ser os verdadeiros objectivos da missão de um professor: contribuir para formação e para educação das novas gerações.

Mas, infelizmente, isto não é entendido por muitos. E é isso que pode tornar tão pobre e tão pouco interessante a profissão de professor.

 

            Um velho sábio chinês que muita gente cita e que parece que poucos entendem, disse:

 

            Se vires alguém com fome, não lhe dês um peixe. Ensina-o a pescar.

 

No fundo eu tentei adaptá-lo à minha acção como professor:

           

            Não digas a um ignorante o que devia saber. Ensina-o a aprender.

           

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 08:00
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
mais sobre mim
Maio 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
13
15
16

17
19
20
21
23

24
25
27
28
29
30

31


arquivos
pesquisar neste blog
 
Visitas
blogs SAPO