Sábado, 15 de Novembro de 2014

Enviou-me o Sr. Luís Lopes Magueijo, em complemento ao texto publicado neste blogue no passado 1 de Novembro, mais algumas considerações sobre o “viver” dos ratinhos que, há mais de meio século, vinham da Beira até Campo Maior, para trabalharem nas ceifa,

É muito importante e interessante este seu testemunho e isso justifica plenamente a sua divulgação.

Aproveitei para, entretanto, recorrer aos textos de José da Silva Picão, sobre o mesmo tema porque, anteriores a estes, cerca de 50 anos, permitem ter um conhecimento mais alargado da realidade da vida, nas terras do Alentejo, no século passado. Além disso, enquanto de um lado temos o testemunho dos que vinham para alugar a sua força de trabalho, do outro temos o testemunho de quem, sendo lavrador, contratava os “ratinhos” e, observando-os, tentava descrever os seus comportamentos e condições de vida, bem como as actividades que tinham de desenvolver.

Vejamos os novos quadros da vida dos “ratinhos” traçados pelo Sr. Luís Magueijo.

  1. Quando um dia me deslocava do Monte com o jantar para o pessoal que, nesse dia, ceifava próximo de Ouguela, junto à Ribeira de Caia, soltou-se uma chavelha da roda do lado direito da minha carroça e esta inclinou-se nesse sentido. E eu, ali fiquei sem saber o que fazer. A hora do jantar, meio-dia,aproximava-se a passos largos e eu, franzino, não conseguia repor a roda. Até que, finalmente, apareceu um pastor do Monte que veio em meu auxílio. Repôs a roda e eu segui para o meu destino. Claro que, naquele tempo, sem comunicações, o pessoal estava desesperado por não ver chegar o granito. Até que, finalmente, eu cheguei!...
  1. Naquele tempo, especialmente na ceifa, não havia pratos. Estes eram substituídos por baldes em zinco, em redor dos quais nos agrupávamos em número de cinco. O mais velho desse grupo, representava o chefe. Quando a comida já estava dentro dos baldes, ele, o chefe, dava uma batida com a colher no balde e, a partir daí, todos, em sincronização, se alimentavam, num vaivém ordeiro e digno de registo.
  1. Os ratinhos, como se depreende, não traziam colchões. À noite, cada um fazia um rapeiro ou buraco e, com grande quantidade de restolho, improvisava o seu “colchão”. Dormíamos vestidos, mas não calçados. Para nos protegermos da orvalhada que era abundante, protegíamo-nos com os guarda-chuvas abertos. O grande incómodo durante as noites, eram as melgas a que nós chamávamos “ a Aviação Espanhola”.
  1. Eu tinha no lastro da carroça uma grade em madeira que estava preparada, artesanalmente, para receber as barricas da água, o pote para o granito e a água quente.E, onde é que eu ia recolher a água para o pessoal beber e para o uso da cozinha campal? Estrategicamente, o monte tinha vários poços, todos equipados com balde, corda e roldana. Eu escolhia o mais próximo do corte onde o pessoal ceifava. Ora, aconteceu muitas vezes eu chegar ao poço e ver andorinhas pequeninas mortas e a boiar. Tinha de as retirar com o balde e recolher a água que era precisa para os fins que referi. Claro que nunca disse ao pessoal o que tinha visto na água!...Mas, porque é que as pequenas aves estavam ali mortas? - Porque as andorinhas tinham grande propensão para fazer os ninhos no rebordo dos poços.
  1. O horário de trabalho na ceifa. Após uma noite – por vezes mal dormida – logo que rompia a aurora – o manajeiro que era o primeiro a levantar-se. Dizia três vezes, repetidamente e em voz bem audível: Arribó! ... Família!   Após tal alarido, os ratinhos iniciavam – ainda que a custo – o levantamento. Calçavam-se, muniam-se das foices e dos dedilhos (protecções em cana para os dedos) e estavam em prontidão, como na tropa, para iniciarem mais um dia de ceifa. O manajeiro era o primeiro a iniciar a tarefa. Quando já todos ceifavam, ele dava um passo atrás, colocava a foice no antebraço, acendia um cigarro e, a partir daí, assumia o seu lugar de chefe. Só na manhã seguinte repetia o acto. Por volta das nove horas, chegava eu do Monte com o pote e a água a ferver, temperada de sal e alhos e com um corno enorme cheio de azeite. Levava também um tarro com azeitonas galegas, grande quantidade de queijos secos e dois ou três sacos de pão, ainda quentinho (o marrocato) que tinha vindo de Campo Maior e que parecia ter sido feito, haveria cerca de uma hora. Por volta do meio-dia, chegava eu com o dito pote que trazia dentro o bem confeccionado granito, com beldroegas e a ferver e um ou mais tarros cheios de toucinho, morcelas, farinheiras, chouriças. Tudo caseiro e em abundância. Nesta altura do repasto havia um descanso de três horas. À tarde era a refeição fria mas com todos os complementos – pão, azeitonas e enchidos – que já tinham feito parte da logística anterior. Neste repasto, o descanso era de uma hora. Depois … Bem!... Depois, era ceifar até as estrelas no céu nos dizerem: Basta! Basta! Já chega! Era, realmente duro e severo. Mas, estava escrito: Cumprirás e não protestarás!
  1. Na véspera de terminar a contrata, ou seja, quando se dava por terminada a ceifa, era de tradição, deixar para o dia final, uma franja de cereal – no caso era cevada – para que nesse dia, logo que se iniciava, se terminar, simbolizando os quarenta dias de missão cumprida.
  1. Quando cheguei ao Monte, e já como manteeiro, foi-me entregue a carroça e uma égua velha que eu baptizei de Coitada! … Estava muito magra!... Logo no primeiro dia de trabalho nasceu entre mim e ela uma grande amizade. Por instinto, logo percebemos que nos íamos dar muito bem. E, assim foi! ... Logo que descobri que andava mal alimentada, sem que o manajeiro e o feitor se apercebessem, eu colocava um molho de cevada à frente dela e, curiosamente, só trincava a espiga. Eu voltava depois a recolocar o molho no rolheiro (o monte de cereal), pronto para seguir para a eira do Monte. E assim, a Menina passou de magra a gorda!

Luís Lopes Magueijo, Seixal, Foros de Catrapona, 30 de Outubro de 2014

 



publicado por Francisco Galego às 08:47
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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