Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

Em certos casos, podemos apontar, com relativo grau de certeza, uma explicação para os  nomes antigos e actuais das ruas do "núcleo histórico" da vila de Campo Maior.

A Rua da Canada e a sua adjacente Rua da Canadinha  deverão o seu nome a terem sido as vias destinadas à circulação dos gados quando entravam ou saíam das povoações, porque sabemos que, em tempos antigos, nomeadamente até ao século XVIII,  quando o pastoreio de gado ovino teve uma grande expansão, se chamavam canadas aos caminhos que desempenhavam essa função. Ora, no que respeita a Campo Maior, terá sido por esse tempo que esses dois caminhos se devem ter tornado ruas. Foi quando a vila, depois da tragédia do rebentamento da torre do paiol da pólvora, em 1732, teve de ser quase completamente reconstruída.

Na sequência da Canada estava a Rua da Fonte de Cima. As duas formam  hoje a Rua 13 de Dezembro. A da Rua da Canadinha, chama-se hoje Rua do Conde D'Ávila. Descendo-a e virando à esquerda chegamos à Rua da Fonte de Baixo, Talvez porque no fim das duas "ruas da fonte"  ficava a chamada  Fonte do Concelho que deu o nome ao forte que no seu lugar foi construido, quando a vila se tornou Praça de Guerra para defesa da fonteira, na Guerra da Restauração.

No seguimento da Rua da Canadinha fica a Rua de S. Francisco que, a meio, tem adjacente do lado esquerdo,  a Ruinha de S. António, cujos nomes testemunham a proximidade do antigo Convento de S. António, dos frades franciscanos, localizado no actual Campo da Feira, que teve de ser demolido para se poder construir, na nova fortaleza, a muralha e que liga os baluartes de S. Francisco e da Fonte do Concelho. No fim da Rua de Francisco, um pouco mais abaixo, ficava o Largo do Chafariz a seguir ao qual estava o Sítio da Poças. Este Largo do Chafaris, era assim chamado porque, quando foi construída a nova muralha que ligava o baluarte de S. Francisco ao Baluarte de Santa Rosa, foi aí construída  uma fonte para abastecimento da população; esta  alimentava um chafariz onde bebiam os animais e deste a água ia alimentar  um tanque para  lavagem de roupas que se localizava em frente, no sítio onde hoje está uma oficina. Seguia-se depois o chamado Sítio das Poças. A fonte foi posteriormente deslocada para o muro do Balurte de S. Francisco virado ao largo do Chafariz.

Do Largo dos Cantos de Baixo, partia a Rua das Pereiras, actual Rua João Minas que ligava ao Canto do Saquete e a Rua das Poças que terminava na  muralha, no chamado Sítio das Poças.

Voltando ao sector norte da vila...

A Rua da Carreira Detrás, depois chamada Rua do Norte, devia estes nomes à sua orientação geográfica e ao facto de, primeiramente, ser apenas uma rua com poucas ou nenhumas casas, geralmente cocheiras, oficinas e instalações de apoio à lavoura, nas traseiras do palácio do governador que tinha a sua fachada principal para o Largo da CarreiraRua da Carreira (correspondendo esta ao troço da actual Rua 1º de Maio, até ao cruzamento  com a Rua da Mouraria de Baixo e com a Rua Mouraria de Cima, (as quais podem dever o nome a terem sido, em tempos muito antigos, um arrabalde onde  vivim os não-cristãos, ou seja, judeus e mouros). O Largo  da Carreira e a Rua da Carreira eram assim chamados porque as diligências que entravam pela Porta de S. Pedro, (também chamada Porta Nova ou Porta da Carreira) iam aí descarregar e embarcar passageiros, correio e mercadorias.

A antiga Rua do Norte ou da Carreira Detrás, voltou a ser designada pelo povo, como a Rua da Carreira quando uma empresa de camionagem, a Vasco da Conceição Painho, no séc. XX, passou a ter aí a garagem donde partiam e onde chegavam os autocarros da carreira.

A Rua de S. Pedro, que ia da Carreira Detrás aos Cantos de Baixo e a Rua Direita que ia dos Cantos de Baixo até à Porta de Santa Maria, são nomes que em muitas terras designavam as vias principais das povoações que ligavam, segundo o eixo Norte-Sul, as portas principais, no caso a Porta de S. Pedro e a Porta de Santa Maria a que o povo sempre teimou chamar Porta da Vila

A Praça Nova, depois Praça de D. Luís I e depois Praça da República, foi construída após a  catástrofe de 1732 e originou  que à antiga praça, junto ao castelo, se passasse a chamar Praça Velha. Do nome desta resultava o nome da rua que lhe dava acesso pelo lado Norte, a Rua da Praça, que também se chamou Rua da Cadeia por ficar no cimo dela a prisão municipal. Esta terminava nos Cantos de Cima, em contraposição aos Cantos de Baixo,  a que se ligava pela  Rua da Misericórdia, a meio da qual ficava o Terreiro da Misericórdia devido a ser à antiga igreja desta instituição, ficar no meio do hoje chamado Largo Barão de Barcelinhos.

Ao troço da actual Rua 1º de Maio entre os Cantos de Cima e o cruzamento com a Mouraria de Baixo e a Mouraria de Cima, chamou o povo Rua do Tenente General. Seria por aí ter morado a figura grada do governador Estêvão da Gama Moura e Azevedo, que teve papel notável na defesa de Campo Maior, durante o Cerco de 1712. A meio desta rua fica o largo a que o povo chamou da Igreja Nova, ou da Matriz, por contraposição à velha Matriz que ficava dentro do castelo.

O nome de algumas ruas como  a Rua do Poderoso (o povo passou a dizer Rua de Pedroso), a Rua de Ramires, Rua de Cigano, Rua das Pereiras, invocam provavelmente o nome de personalidades ou de famílias notáveis da terra que nelas residiam. Já a Rua do Manantio, que o povo simplificou para Rua de Nantio, tem um significado curioso e que, devido à corrupção do nome original, se foi perdendo até se apagar por completo da memória colectiva. Manantio é uma palavra do mesmo radical da palavra manancial (originalmente manantial), que designava um local donde manava, brotava água, logo, uma fonte ou nascente. Talvez fosse o veio que alimentava as fontes do Concelho, das Negras  e a dos Cantos de Baixo.

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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