Quinta-feira, 09 de Novembro de 2017

 

Passada a euforia da implantação da República, seguiu-se a 1ª Grande Guerra (1914-1918). Portugal vivia um período agitado e de grande instabilidade social e política.

Os governos mudavam devido a uma alucinante sucessão de golpes-de-Estado, de revoltas, de desencontradas votações no parlamento.

Muito desencantados e cansados de tanta perturbação, os cidadãos, principalmente os mais jovens, procuravam formas alternativas de intervenção social desviando-se da turbulência dos acontecimentos políticos.

Um grupo de jovens campomaiorenses constituiu uma associação que significativamente adoptou o nome de Pró Terra Nostra, (“Pela Nossa Terra”) e resolveu criar o primeiro jornal de Campo Maior.

 No ano de 1921, para que servisse de base à realização de acções que promovessem o desenvolvimento de Campo Maior, apareceu "O Campomaiorense". Os seus fundadores eram jovens  que podemos considerar como pertencendo  à classe média. Dispunham de algumas bases culturais e distribuiam-se por diversas profissões e ocupações: funcionários públicos, comerciantes, empregados no comércio, agricultores, alguns estudantes e outros dedicados aos ofícios artesanais que então existiam em número significativo na vila.

Este jornal constitui uma “fonte de informação” importante para o conhecimento da sociedade campomaiorense nesse tempo. O seu Nº 1, datado de 1 de Agosto de 1921, no editorial intitulado “Caminhando...”, assinado pelo comerciante Eduardo Ramos, é assumido o compromisso de servir de elo entre os campomaiorenses residentes e que os que  vivem fora de Campo Maior. Declara tomar como lema a trilogia “Justiça; Fraternidade; Solidariedade”, portanto, com uma base ideológia de cariz acentuadamente republicano.

Depois seguem-se notícias de diversos aspectos da sociedade local e algumas colaborações  enviadas á redacção do jornal para publicação.  

Neste primeiro Jornal, no seu nº 2, publicado em 10 de Agosto de 1921, na sua 1ª página, publicou João Ruivo o seguinte texto:

(...) Foi Campo Maior uma das melhores praças de armas do Alentejo, toda murada de cortinas e de baluartes, com bons fossos, pontes levadiças e famosos lagos defensáveis, tendo prestado assinalados serviços nas guerras da independência e durante as invasões francesas.

Imposições do progresso e da estética e necessidades de desenvolvimento urbano, obrigaram o município a mandar destruir parte das suas muralhas, alindando e embelezando a vila, que hoje se acha muito transformada, possuindo largos arborizados e um pequeno jardim para recreio dos seus habitantes. (1) 

Além do Castelo, tem a vila outros edifícios notáveis, como as igrejas Matriz, de São João e do Convento dos Franciscanos, o antigo Assento Militar e os Paços do Concelho. Entre as construções particulares antigas, destacam-se o Palácio dos Carvajais e o solar da família Albuquerque Barata (2). Na parte mais moderna da vila estão a construir-se alguns palacetes e vivendas, cujo estilo denota bom gosto e espirito progressista.

As ruas da vila são amplas, bem calçadas e canalizadas, e as casas particulares, embora modestas e pouco confortáveis, são irrepreensívelmente asseadas.

Terra essencialmente agrícola, é abundante em cereais., legumes, azeite, vinho e criação de gados de todas as espécies. Começa a inclinar-se para a indústria, estando já lançados os alicerces das indústrias moageira, oleícola, cerâmica e de conservas.

Os seus habitantes são laboriosos, embora pouco ilustrados, devido à inércia dos seus governantes. Gostam de trajar bem, são um pouco altaneiros e imprevidentes, mas bondosos e de bom trato, desmentindo a fama de desordeiros que corre país fora. (...)

---------------------------------------------------------------------------------

(1) Referência ao processo que começou em 1908:

- Com o derrube da Porta de S. Pedro e da cortina de muralha que a ligava ao Baluarte do Príncipe, fazendo a "Abertura" da Avenida";

- Com derrube da cortina que ligava o Baluarte do Príncipe ao Baluarte da Fonte do Concelho, fazendo a "Abertura da Estrada Militar" para a Avenida e para a actual Rua dos Combatentes da Grande Guerra;

- Com o  derrube da cortina que ligava o Baluarte de S. Francisco ao Baluarte de Santa Rosa, fazendo a  "Abertura do Chafariz ou da Poças"; 

- Com o derrube de uma parte da cortina junto ao Baluarte de Santa Cruz.fazendo a "Abertura da Alagoa" .

(2) Albuquerque Barata era o pai do Visconde de Olivã, último habitante particular do actual Palácio de Olivã, popularmente designado como o Palácio do Visconde.

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
mais sobre mim
Novembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

13
14
16
17

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


arquivos
pesquisar neste blog
 
Visitas
blogs SAPO