Domingo, 17 de Setembro de 2017

" CAMPO MAIOR NA OBRA DE JOÃO DUBRAZ, EM 16 DE SETEMBRO DE CAMPO MAIOR NA OBRA DE JOÃO DUBRAZ, NO AUDITÓRIO DO CENTRO DA CIÊNCIA DO CAFÉ, EM 16 DE SETEMBRO DE 2017, PELAS 17 HORAS. EM 2 VOLUMES:

1. MEMÓRIAS HISTÓRICAS DE CAMPO MAIOR;

2. MEMÓRIAS CONTEMPORÂNEAS (1828-1868)

 

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Começo por colocar duas questões:

 

PORQUE ESTAMOS HOJE, AQUI, NESTE LOCAL?

TRATA-SE AFINAL DE FAZERMOS O QUÊ?

 

Este tique de começar a tratar de um assunto fazendo perguntas para depois me ocupar em lhes responder ficou-me como hábito, do meu ofício de professor. Afinal, aprender é procurar respostas para as dúvidas que temos sobre aquilo que devemos saber. Por isso, pareceu-me bem que, antes de começar esta conversa convosco, devesse tentar responder a estas questões, para ver se concordamos na razão que aqui nos trouxe.

Comecemos, portanto, a tentar responder.

O que melhor define uma comunidade, como esta em que vivemos, é a sua cultura, marca essencial da sua identidade. Ou seja, cultura entendida como património que preserva o nosso passado e a nossa memória e cultura como criação que, devido ao nosso esforço colectivo, prepara o futuro das novas gerações.

E é isso que aqui nos trouxe hoje. Viemos aqui para tentarmos recuperar a memória da nossa terra, conservada com tanto esforço e com imenso sucesso pela obra de um homem que eu assumo considerar como um dos expoentes máximos da cultura campomaiorense.

 

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Chamou-se João Dubraz.  Aqui nasceu, aqui viveu e aqui morreu, tendo-se ausentado muito poucas vezes, e por períodos muito breves, desta nossa mátria, Campo Maior. Sim, eu digo mátria quando me refiro à nossa terra, porque, se a pátria designa o território, a comunidade, o povo, a história e a língua, em que nos integramos como portugueses, eu digo mátria, para designar a terra-mãe onde nascemos, onde nos criámos e onde adquirimos alguns dos sentimentos que nos definem como campomaiorenses.

Vamos tratar de um assunto que, sobretudo, tem a ver com o passado. Logo, trata-se de algo que tem a ver com a História. Para melhor se entender o que vos pretendo comunicar, permitam-me que, primeiramente, vos diga algo sobre a minha maneira de entender esta disciplina social a que chamamos a História. Há os que tendem a entendê-la como um relato ou narrativa do que se passou em tempos idos. Eu, como professor de História, procurei seguir outra linha de pensamento que começou a ser teorizada por Cícero, filósofo romano do século I A.C., ao considerar a História como “a mestra da vida” e que, nesta linha de pensamento, foi muito bem definida por Theodor Mommsen, historiador alemão do séc. XIX, como a “mãe e a mestra da economia e da política”.

Eu, perdou-se-me a imodéstia, procurei que, a disciplina que me cabia orientar na formação das novas gerações, fosse a trave mestra da sua educação e da sua aprendizagem para obterem conhecimentos sobre a evolução das comunidades humanas.

Se pode ser verdade que o hábito não faz o monge, não deixa de ser verdade que, o ter-se sido monge, poderá modelar bastante o nosso carácter. Quero com isto prevenir-vos de que, sempre que se trata de História, as minhas concepções são moldadas pela maneira como entendo esta área do conhecimento e isso tem a ver com a minha profissão: ser professor. 

Venho aqui apresentar-vos uma obra em duas partes. Na primeira juntei as memórias históricas que João Dubraz foi recolhendo, com o objectivo de dar a conhecer os principais acontecimentos que, ao longo dos séculos, tinham marcado a história de Campo Maior. Mas, porque João Dubraz não foi apenas um homem da cultura, mas, também um homem da acção e que, pelo seu conceito de cidadania, se sentia obrigado a assumir certos compromissos, no segundo volume juntei, para nossa memória e para memória futura, a descrição dos acontecimentos em que ele teve participação relevante, porque, vivendo numa época de grandes conflitos e de grandes mudanças teve, por vezes, de enfrentar perigos que colocaram em grande risco a sua própria vida e o conforto dos seus famíliares e amigos.

Ao relato dos factos por ele presenciados, alguns dos quais com a sua participação e responsabilidade directa, dei o nome de memórias contemporâneas.

 

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João Dubraz foi ao longo de quase toda a sua existência de setenta e sete anos, um exemplo de integridade, de coerência e de coragem, em defesa das causas concordantes com os seus principios, com as suas ideias e com as suas opções de vida. 

Esta obra que aqui se apresenta, contém os escritos que este autor publicou, numa obra a que deu o título de Recordações dos Últimos Quarenta Annos, publicada em 1868 e que, com grande supresa do seu autor, esgotou rapidamente, pelo que teve uma 2ª edição, em 1869, que logo também esgotou.

A Câmara Municipal de Campo Maior, fez dela uma edição em cópia fac similada¸em 1997 que, segundo julgo, está também esgotada.

 

Foi por ter considerado ser muito grande o seu valor, que eu achei que se tornava urgente e necessário fazer a sua reedição. Este projecto teve logo o apoio, tanto da Câmara Municipal de Campo Maior, na pessoa do seu presidente, Ricardo Pinheiro, que desde logo disponibilizou os recursos técnicos e humanos, como da Delta Cafés, na pessoa do seu administrador, senhor João Manuel Nabeiro que, como já antes tinha feito com outras obras por mim apresentadas, mais uma vez, assumiu patrocinar esta edição.

Creio que, no âmbito de uma política cultural, poucas medidas seriam mais merecedoras de acolhimento. Em primeiro lugar, porque João Dubraz tem sido injustamente esquecido. Mas, principalmente, porque o conhecimento da sua obra revela o que de mais importante existe sobre a história de Campo Maior. Por isso, achei que se tornava urgente e necessário, fazer a sua reedição.  Mas também, em meu entender, porque a obra de João Dubraz não se limita ao livro, antes referido. Na verdade outros livros por ele publicados são hoje quase desconhecidos. E, também, porque grande parte dos seus escritos, alguns de grande importância, foram apenas publicados nos jornais da época, daí serem do conhecimento de um número muito restrito de pessoas. Por estas razões, procurei fazer uma nova edição, tão completa e significativa quanto possível e tão crítica e explicativa quanto estivesse ao alcance dos meus conhecimentos e das minhas capacidades.

Tratando-se de uma obra produzida há quase dois séculos, optei por usar uma linguagem e uma escrita actualizadas, portanto, bastante diferentes das que, então, João Dubraz utilizava. E também, porque nela são referidos personagens e factos que só adquirem significado, mediante uma empenhada e bem orientada investigação, julguei que seria útil juntar ao texto as notas explicativas que facilitassem a sua compreensão.

Dado o inegável facto de esta obra ser tão importante para preservação da nossa memória e de estar tão esquecida e ser tão ignorada como é ignorado o próprio autor que a criou, acabei por me impôr, o dever de elaborar um 3º volume com o título de: Vida e Obra de João Dubraz.

 

Também este livro já está concluido.  Mas, será apresentado no contexto da celebração do Bicentenário do Nascimento de João Dubraz, programada para o próximo dia 21 de Janeiro, o dia do seu nascimento, em 1818.

Tive o atrevimento de pensar que, neste domínio, poderia trazer mais um contributo interessante para o fim que me propunha alcançar. Não me faltou nem o interesse, nem o empenho para realizar esta tarefa. De qualquer modo, tratava-se de realizar um projecto a que, na medida do possível, me fui dedicando, desde os tempos em que frequentei o curso de História, na Faculdade de Letras de Lisboa. Claro que a prioridade dos meus deveres como professor, não me deixou o tempo que seria necessário para concluir, mais cedo, este projecto. Mas agora, noutro tempo e com outra disponibilidade, aqui estou para dar conta do trabalho desenvolvido. Para começo, entendo que devo explicar claramente ao que venho, ou seja, os objectivos e intenções deste projecto que são:

- Em primeiro lugar, dar a conhecer a obra de João Dubraz, que considero o mais notável e empenhado escritor de Campo Maior, pois que, além de ter escrito uma obra de considerável extensão é, pela sua inteligência, pela grande cultura que adquiriu e pela integridade do seu carácter, uma fonte muitíssimo importante para o conhecimento da história desta “mátria”, ou seja, da “terra mãe” que serviu de berço e de palco aos que, como ele, aqui cresceram e aqui viveram, como é o caso de alguns dos que aqui estão presentes;

- Seguidamente para tentar justificar porque dou tanta importância a este autor e à obra que nos deixou como testemunho e que é uma peça importante do nosso património cultural como campomaiorenses;

- Em terceiro lugar, para sublinhar a importância que a sua obra tem para que, os que nos querem conhecer, encontrem nela tudo o que nela possa ser merecedor de atenção, pelas preciosas informações que ela contém.

 - Em quarto lugar, porque um escritor só pode ser conhecido através da leitura das obras que nos deixou. Por isso, convém que essas obras estejam disponíveis e nos sejam acessíveis. Essa foi a razão porque a minha preocupação fundamental foi, acima de tudo, tornar acessível e facilitada a leitura das obras deste nosso conterrâneo.

 

Porque considero que não há qualquer exagero no que digo, permitam-me que partilhe convosco que, esta obra em dois volumes, que aqui estou a apresentar e mais o terceiro que será apresentado em breve, pertencem ao conjunto dos três volumes que resultaram do projecto que comecei a desenvolver há mais de quarenta anos.

 

No início dos anos 60 do século passado, eu tinha começado a frequentar o curso de Filosofia, na Universidade de Lisboa.

Um dia, um amigo trouxe-me o recado de que, João Ruivo, nosso conterrâneo, estava muito interessado em falar comigo.

João Ruivo era alguém de quem eu já ouvira falar por ser também um nome notável da cultura campomaiorense.

Em relato muito abreviado, digo-vos que fui visitá-lo e que, na conversa que então tivemos, me disse que tinha algumas referências a meu respeito. João Ruivo que, nessa época, tinha já uma avançada idade, falou-me da mágua que sentia por já não poder manter o projecto de se dedicar a estudar e a divulgar a obra de João Dubraz. Por isso, ao saber que eu estava por perto, pensara em delegar em mim a continuação dessa tarefa.

Fiquei bastante admirado. Argumentei que, além da minha quase nula preparação para o efeito, os meus interesses e projectos de vida estavam então orientados para áreas muito diferentes.

Surpreendeu-me com a seguinte declaração:

Que sabia que assim era, mas só queria entregar-me um documento com as referências bibliográficas sobre a história de Campo Maior, bem como os dados que possuía sobre a obra de João Dubraz.

Que tinha a esperança de que, um dia, eu iria tomar em consideração a importância do que naquele momento me entregava.

Fiquei tão intrigado com aquela proposta que comecei logo a ir para a Biblioteca Nacional procurar informações sobre aquele João Dubraz de cuja obra acabara de tomar conhecimento e das obras sobre Campo Maior que estavam na lista dactilografada que ainda hoje guardo comigo.

Confesso que, apesar da fraca preparação que nessa época tinha, fiquei desde logo bastante impressionado.

 

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Evitando entrar em pormenores, alguns anos depois, tendo já iniciado a minha vida como professor, resolvi voltar à faculdade para remediar o desencanto que para mim fora o curso de Filosofia, inscrevendo-me no curso de História.

Ora, após o 25 de Abril de 1974, a faculdade, abrira turmas para trabalhadores estudantes que antes não tinham podido frequentar os cursos por incompatibilidade de horários. Foi assim que eu e muitos outros, em iguais condições, pudemos regressar para continuarmos os nossos estudos. 

Entretanto, o quadro docente da faculdade renovara-se com a admissão ou readmissão de notáveis intelectuais, que a ditadura impedira de leccionar nas Universidades.

Foi assim que tive a sorte de, entre outros, ter como professor de História Contemporânea de Portugal, o Prof. Joel Serrão, um dos nossos mais notáveis historiadores, que eu conhecia e muito apreciava pela leitura das obras que ele tinha publicado.

Foi um privilégio conhecer um professor que adoptava nas suas aulas uma atitude aberta, proactiva, dialogante, por vezes desafiadora e, sobretudo, muito favorável à gente da turma que nós constituíamos, por termos já mais idade do que a dos outros alunos que, habitualmente, frequentavam os cursos da faculdade.

Um dia, Joel Serrão disse-nos na aula, mais ou menos isto: “Meus senhores! A verdadeira História de Portugal está, em grande parte, por fazer. A que geralmente conhecemos, é essencialmente baseada no que aconteceu nos grandes centros urbanos, mas quase nada sabemos sobre o que se passou no resto do país. Pertence à vossa geração, agora livre de constrangimentos políticos, deitar mãos à obra e fazer a história que falta ser feita”.

Para a avaliação na sua cadeira, o prof. Joel Serrão, sugeriu-nos que, sendo possível, fizessemos trabalhos sobre os pequenos ou médios centros urbanos a cuja documentação tivessemos acesso.  Eu, lembrando-me do testemunho que João Ruivo me passara ao dar-me a conhecer a obra de João Dubraz, pus-me desde logo ao trabalho.

Num dia em que o professor perguntou se já havia projectos em curso, eu anunciei que já tinha o meu algo adiantado e que tinha comigo cópia que lhe pedia que visse, pois gostaria que a analisasse, para eu saber se estava a seguir aquilo que seria mais adequado ser feito.

Na semana seguinte, antes de começar a aula, o professor Joel Serrão perguntou-me se não me importava de ler em voz alta o capitulo que lhe entregara. Depois dessa leitura, fez considerações muito elogiosas sobre a importância documental do autor referido naquele texto, sobre a qualidade da sua escrita e sobre o valor do que era testemunhado na sua obra sobre a transição do absolutismo para o liberalismo numa vila duma região situada tão no interior de Portugal. 

Estas considerações serviram-lhe para motivar a turma, pois ficara ali demonstrada a verdade do que antes nos tinha dito:

De facto, a verdadeira História de Portugal, estava ainda por ser feita.

Foi tal a motivação daquelas palavras que, naquela turma, se produziram textos tão interessantes e de tão elevada qualidade, que se resolveu criar uma revista onde esses trabalhos pudessem ser publicados. Foi aí que publiquei o meu primeiro trabalho sobre João Dubraz, intitulado A Implantação do Liberalismo na Vila de Campo Maior, publicado em Janeiro de 1979, na revista HISTÓRIA E SOCIEDADE.

Desde aí, não mais parou o meu interesse pelo projecto de dar a conhecer uma obra tão importante e que agora dou por concretizado com a apresentação destes livros.

Permitam-me que acrescente que, tendo recentemente, chamado a atenção do S.r Presidente da Câmara Municipal de Campo Maior para que, no próximo dia 21 de Janeiro de 2018, se completaria o bicentenário do nascimento de João Dubraz, logo se mostrou sensibilizado e interessado em que se procedesse à comemoração desse facto.

Assim sendo, talvez possamos considerar este nosso encontro, um primeiro passo para que se realize essa celebração. Contudo, porque agora se cumpre a chegada ao fim de um percurso de muitos anos, permitam-me que acrescente, para finalisar, algumas considerações:

- Gostaria que ao lerem estas obras, ficassem com uma ideia da grandeza deste nosso conterrâneo, como cidadão, como escritor, como historiador, como professor, como político e como advogado, pois tudo isso ele foi, como o homem de cultura que, pelo seu próprio esforço, conseguiu ser.  Mas, por uma questão de honestidade, devo também acentuar que, tanto no tempo em que viveu, como ainda hoje, isso não significa que tenha sido reconhecido o seu extraordinário valor por aqueles que com ele conviveram. E isso ainda se reflecte no tempo presente, como se comprova pelo desconhecimento da obra que nos legou. 

Perante isto, não posso deixar de pensar que as coisas eram então, como infelizmente ainda são hoje. Embora as circunstâncias em que vivemos, mudem de forma rápida e constantemente e que, cada vez se acentue mais a velocidade dessas mudanças, há uma coisa que continua a mudar tão lentamente que chega a parecer que, de facto, não há mudança. Refiro-me aos comportamentos, às atitudes e ao pensamento de muitas pessoas.

João Dubraz, que tinha inteligência e merecimento para ser engrandecido e beneficiado, estava numa situação bastante dificil, quando morreu.

Perdera quase todos os seus bens. E, por nunca ter evitado censurar atitudes e decisões que não lhe pareciam correctas, foi-lhe negada a possibilidade de continuar a dar aulas, único recurso a que podia recorrer no final da sua vida, tendo que se deslocar para Amarante, no distante Minho, para continuar a exercer a sua acção como professor.

Infelizmente, é esse o destino de alguns homens de grande valor, os quais, prezando muito a sua dignidade e moldando o seu comportamento pela exemplaridade do seu carácter, tendo embora dedicado as suas vidas a ajudar, a apoiar e a favorer os outros, se vêem depois abandonados e mesmo hostilizados com ingratidão, por alguns dos que mais ajudaram.

Mas, é fácil entender a razão porque isso acontece com tanta frequência.

É que, esses homens, acabam por serem considerados os espelhos que reflectem a real mediocridade dos que, a tudo recorrem para vingarem na vida, a qualquer preço.

João Dubraz, que podia ter feito uma notável carreira como homem público ou como político, morreu empobrecido, esquecido e hostilizado, por alguns dos que dele se tinham servido para obterem a notabilidade de que depois se pavoneavam e que lhes permitira alcançarem os cargos que lhes conferiam prestígio social, poder político e desafogo económico. 

Mas, deixemos isso. De alguns desses, nem sequer já nos lembramos dos seus nomes. Mas, estamos aqui reunidos para falarmos de João Dubraz, do Homem e da sua Obra, em termos de verdadeira memória. E, numa perspectiva histórica, só isso tem uma real importância.

 

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Por me ouvirem dizer estas coisas, não julguem que tenho a ilusão de poder mudar esses comportamentos.

Sei-o bem! Porque, quem escreve sobre o passado, tem de saber que só podemos esperar a aceitação de alguns, muito poucos, dos que, no presente, nos irão ler com alguma atenção.

Contudo, podemos pelo menos manter a esperança de que, se a obra tiver algum mérito, ela, no futuro, irá ser visitada e lida com apreço, pois que, haverá sempre quem pense que, no passado está a explicação do que acontece no presente e que isso será importante para que se possa programar, de modo fundamentado, o que se pretende que venha a acontecer no futuro.

É, na sequência estruturada dos tempos que se vão sucedendo, que se garante a evolução progressiva das sociedades humanas e convém que tomemos sempre em consideração que, se o passado foi a semente do presente, o presente será a semente do futuro.

Daí que:

- Importa conhecermos o que aconteceu antes, para melhor compreendermos o que agora está a acontecer;

- Importa compreendermos bem o que agora está a acontecer, para agirmos da melhor maneira possível e, assim, garantirmos que seja melhor o que poderá vir a acontecer.

Para dar o exemplo, vou terminar indo ao passado buscar a razão das coisas que tenho vindo a dizer:

 

No nº 110, de 18 de Março de 1869, no jornal elvense, Democracia Pacífica, alguém que não assinou, referindo-se à obra que acabara de ser publicada, comentou que, João Dubraz (passo a citar):

(...) escreveu de Campo Maior o que de outras terras igualmente importantes se deveria escrever, para que um dia possamos apresentar uma história política do Portugal moderno, sem inveja dos demais países.

Em conclusão: o livro do Sr. Dubraz é um grande serviço e, ao passo que merece registar-se na história contemporânea, deve, aquele livro, ocupar um lugar distinto nas estantes dos estudiosos.

Felicitamos o Sr. Dubraz pela importância do seu trabalho, pelos conhecimentos históricos de que dispõe e pelo modo como os expôs. (Fim de citação)

 

Este sim é, de facto, um grande elogio que jamais poderia ser feito aos que desprezaram João Dubraz enquanto vivia.

Estas palavras foram escritas há 148 anos, em Elvas, cidade em que, nesse tempo, viviam dois notáveis vultos culturais:

Vitorino de Almada (1845-1899) e António Thomaz Pires (1850-1913).

Já escrevi que considero escandaloso que o nome de um deles não tivesse sido dado à Biblioteca Pública de Elvas, tanto mais que Thomaz Pires foi um dos seus primeiros directores.

Mas isso, não são contas do meu rosário. Não sou elevense. Sou campomaiorense. Por isso, a minha opinião não conta, nesta questão.

A mim, basta-me que, com todo o direito, eu possa sentir um grande orgulho por termos em Campo Maior uma Biblioteca Municipal João Dubraz.

E subscrevi essa homenagem, com perfeita consciência da importância daquilo que afirmo: Muitas terras deste país, incluindo a maioria das cidades e das mais importantes vilas, muito apreciariam poderem dispor - para historiarem o seu passado - de obras com o valor histórico e cultural da obra deixada por João Dubraz.

Comecei com perguntas, acabo com outra pergunta:

ORA, ASSIM SENDO, PORQUE É QUE, ESTE AUTOR E A SUA OBRA, ESTÃO TÃO ESQUECIDOS?

Poderia responder dizendo que não respondo, por falta de tempo. Mas, não estaria a dizer a verdade. A verdade é que não sei responder a esta questão, embora admita que possam existir muitas respostas.

Mas, eu prefiro dizer que, aqui estou para deixar um recado e apelar ao vosso interesse e ao vosso amor à nossa “terra-mãe” – mesmo que esta “mátria”, às vezes mais nos pareça uma madrasta - para que leiam a obra que herdámos deste nosso conterrâneo que tanto estimou e tão bem serviu Campo Maior.

Garanto-vos que terão muitas surpresas e que sentirão muito orgulho por adquirirem algum saber sobre coisas tão notáveis que se passaram neste canto tão extremo de Portugal que mais parece querer entrar pela Espanha adentro, situado como está na fronteira leste da “pátria portuguesa”, ou seja, o país onde nascemos, a terra dos nossos antepassados, o povo e a cultura a que pertencemos.

Sei que, com esta prelecção, vos ocupei um tempo que, a alguns, terá parecido muito longo para, afinal, tão pouco ter dito que fosse ao encontro dos seus interesses. Mas eu, que nestas coisas da nossa história, facilmente me entusiasmo, tinha apenas como objectivo, despertar, em alguns dos presentes, o interesse e a vontade de lerem a obra de João Dubraz para melhor conhecerem Campo Maior.

Creiam que ficaria muito feliz se tivesse atingido esse objectivo.

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 12:12
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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