Domingo, 20 de Julho de 2014

 

Festa de cor e de movimento - As estradas espanholas –[1]

 

                Abril pleno. Manhã linda de luar. Começou a alvorar por altura da Cabeça Gorda. Os longes tingiam-se ainda de uma nevoazinha azulada e transparente, mas a cotovia madrugadora ensaiava já seu pipilar em modulações caprichosas. Gotas de orvalho como que tornavam os campos num lindo mar de pérolas pequeninas e brilhantes. À esquerda, a casa do Monte do Bicho, caiada de vermelhão, e rodeada de eucaliptos, punha uma nota garrida na paisagem; e, lá em baixo, à direita, erguia-se imponente e majestosa a torre do «Monte de Castro», evocando épocas remotas: legiões romanas, alcáceres mouriscos.

                Vamos passar o rio Xévora no porto do Salvador, onde uma patrulha de Guarda Fiscal visa a documentação. A corrente é pequena; as chuvas têm faltado; a primavera vai seca. As águas lá vão cantando suaves melopeias a caminho da foz. Passado o vau, demoramos uns minutos numa “raia”, para solicitarmos licença de entrar em território espanhol a uma “pareja” de “carabineros” que, amavelmente, no-la concede. Surge no horizonte o disco alaranjado do sol. Ondulam ao vento as messes promotoras. O azinhal é aqui mais denso. A passarada – melros, pardais, cotovias, calhandras, pintassilgos – aos centos, aos milhares, talvez aos milhões, esvoaçando de ramo em ramo, chilreiam, pipilam, gorjeiam, numa orquestração sublime de harmonias que nos encanta e nos enche de inefável gozo. Lufadas de ar puro, lavam-nos os pulmões. E tudo em redor é alegria, é encanto, é beleza, enlevo dos sentidos, embriaguez do espírito! Prosseguindo a marcha, entramos na estrada de Albuquerque a Badajoz, primor de arranjo e de compostura. Deve ser assim o caminho do paraíso…

                O carro desliza suavemente, maciamente, como numa sala de baile. Nem um pequenino buraco, nem uma pedrinha, nada a prejudicar o atrito do rodado! Automóveis cheios de “manolas” passam por nós, velozmente, a caminho de Bótoa. E vamos meditando tristemente na suprema vergonha das estradas do nosso país!

                O lamaceiro de inverno, os montes de poeira de verão, os barrancos, a brita desagregada, os troços intransitáveis, todo esse horrível sudário das nossas estradas! Lá ficamos então conhecendo a razão da prosperidade da Espanha, do seu desenvolvimento, da sua riqueza, da sua vida movimentada e estuante de actividade e de produção. É a estrada, são estas esplêndidas estradas por onde viajamos, a causa de tudo isso que é o orgulho dos espanhóis, que é a fortuna e o orgulho da poderosa nação espanhola.

                Transposta a ponte do rio Zapaton, importante obra de engenharia, lugar aprazível e cheio de pitoresco, avistamos em repouso, uma equipa de reparação da estrada e lá vimos a máquina de britar a pedra, o cilindro locomotor e alguns carros – depósitos de agua.

                No nosso país é necessário percorrer-se algumas léguas para se lobrigar um pobre cantoneiro, macilento e melancólico, com a clássica marreta, a pazinha e a enxada, a fingir que está reparando … até que os poderes públicos também se resolvam reparar nesta verdadeira miséria, que é a tragédia dos que viajam em Portugal.

                Estamos chegando a Bótoa. Vai já grande burburinho no arraial. Chegam veículos a abarrotar de gente. Automóveis, camionetas, camiões enormes, galeras descomunais puxadas a duas parelhas de muares, tudo engalanado, ornamentado com bandeirolas multicolores, festões de verduras e ramos de arbustos, dão um aspecto vistoso e pitoresco ao acampamento. Aqui e ali, grupos de romeiros vão dispondo os farnéis para o almoço. Senhoritas com seus trajes regionais, “mantones” das mais variadas cores e enormes “peinetas” na cabeça, são a nota mais característica do arraial. Soberbas “manolas”, verdadeiros tipos de beleza castiça, de cujos corpos morenos irradiam labaredas de entontecer, atraem-nos como as borboletas seduzidas pela luz forte do seu olhar lânguido e sensual. Muitos cabelos à “la garçonne” que tornam mais elegantes e graciosas suas donas. Pouquíssimos chapéus femininos. A elite de Badajoz largamente representada, gente de Albuquerque, Villa del Rey, Talavera de la Reyna …

                Caras conhecidas de Elvas; algumas dezenas de Campomaiorenses. Não exageramos avaliando, em cerca de mil os veículos espalhados pelo campo, e em mais de dez mil os romeiros. “Parejas” da Guarda Civil a cavalo e a pé, e polícia de “seguridad” e os “municipales”, fazem um policiamento rigoroso. E tudo corre com ordem, com método, com regularidade que ao repórter muito apraz registar.

                A ermida é um edifício modesto e sem beleza arquitectónica. Interiormente, consta de uma nave tendo ao fundo o altar onde “Nuestra Señora de Bótoa”, uma linda imagem da Virgem, se mostra aos devotos, que lhe ofertam as velas que vão ardendo e, constantemente, se renovam. Em frente da ermida, um vasto terreiro cercado por um muro caiado de branco e pintalgado a cores, dezenas de pares dançam animadamente, durante toda a manhã, ao som do jazz executados pela banda militar de um regimento da capital “extremeña”. O sol, um sol rútilo de primavera, inunda-nos de luz e de calor. Os corpos estreitam-se mais… Os “Olés!” estrugem; erra no espaço um ar de sensualismo e de volúpia.

                E “lá Virgen” parece sorrir, - benévola e indulgente – perdoando as expansões e entusiasmos rubros de “sus perigrinos” … Todos os romeiros ostentam os distintivos da festa: medalhas de alumínio com a imagem da Virgem e fitas de seda de cores diversas, que os homens colocam nos braços e nos “sombreros”, e as mulheres penduram nas “peinetas”. Informam-nos que a venda dos distintivos deve render umas dez mil pesetas, ou seja, qualquer coisa como trinta contos da nossa moeda! Apesar disso, as festas religiosas não interessam, pois constam apenas da missa, sermão e, em seguida, uma procissão com a imagem da Virgem, que vai até junto da azinheira, onde a lenda diz ter-se dado a sua aparição, tal como em Lourdes e como em Fátima, facto em que os crentes piedosamente acreditam, sem se atreverem a discutir. A procissão faz-se quase sem compostura. Poucas cabeças se descobrem. Cantam-se “saetas”, grita-se: Olé! … Olé!... E lá volta o andor para a ermida, ao som de uma marcha grave executada pela banda.

                O calor aperta e, enquanto se não faz a debandada para a ribeira de Zapaton, vamos refrescar a goela ao bar de «El Señor Joaquin», um dos mais bem providos do sítio. É que, ainda não tínhamos dito ao leitor, que nada aqui falta: cafés, cervejarias, restaurantes, barracas de doces, tudo muito bem recheado, tudo muito bem-disposto, com asseio e comodidade, a satisfazer os mais exigentes e os mais gulosos.

                São duas horas da tarde. Está um dia formosíssimo, um dia soberbo. Os romeiros vão retirar para as margens da ribeira, a cerca de um quilómetro da ermida. É o momento mais interessante e mais típico da festa. Nuvens de poeira toldam o espaço. Vai uma algazarra ensurdecedora pelo arraial. Parece que tudo endoideceu! Gesticula-se, grita-se, canta-se, agitam-se pandeiretas e “castañuelas”, num alarido enorme e descomunal, ao som dos violões e das “bandurras”. A alegria comunica-se aos mais concentrados. A alma espanhola expandindo-se em franca alacridade, arrebata-nos e quebra a nossa sisudez de alentejanos.

                O mais novo do grupo, que é também o mais atiradiço, vai “echando” piropos: A uma donairosa “manola”, “ la mas guapa ”. A uns lábios de coral: “ Lábios de fuego que abrazan”. A uns olhos de perturbador sensualismo: “ojos de la virgen, que conducen al cielo…” E elas passam, bamboleando seus corpos divinais, “salerosas” e gentis, sorrindo sem se perturbarem, e sem se mostrarem melindradas. Espalham-se os grupos pelas margens, à sombra das azinheiras, dos aloendros e dos choupos, num à vontade sem cerimónia, sem falsos convencionalismos. Dispõem-se as provisões para a merenda. Brinca-se e dança-se com desenfado.

                De vez em quando, numa volta mais rápida da dança, ou ao saltar da corda, uma perna de mulher, elegante e bem torneada, exibe-se sem recato, o que entusiasma o grupo de portuguesinhos femeeiros … Come-se com apetite e bebe-se sem medida o “Val de Peñas”, o “Jerez” e o “Almendralejo”. E, destroçados os farnéis, começa então a retirada para “los pueblos”. Ouve-se o buzinar dos automóveis, o ruído dos motores, dos onibus e camiões, o rumor pesado das carroças e dos coches, numa confusão discordante de sons. Pouco a pouco, vão diminuindo as manchas coloridas dos grupos.

                A policromia dos “mantones” apaga-se. Atenua-se e amortece a alacridade de “señoritas” e “chiquillas”. E a paisagem regressa então à sua quietude normal. A passarada, admirada do silêncio, volta a saltitar de ramo em ramo e a gorjear hinos de amor. Entretanto, a água da ribeira, murmurando suspiros de saudade, numa incessante e plangente monotonia, lá vai correndo, correndo, a caminho do Odiana[2] até ao próximo ano, em que tudo voltará, por momentos, a animar-se, a movimentar-se, a embriagar-se de cor, de luz, de vida e de alegria ruidosa e saudável.

João Ruivo 



[1] Este texto foi publicado por João Ruivo no “Notícias de Campo Maior” de 1-6-1927.

 

[2] Nome antigo que designava o Guadiana.



publicado por Francisco Galego às 15:59
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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