Terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Os habitantes desta parte de Portugal que, por conveniências administrativas, constitui hoje a «Província do Alto Alentejo», foram, desde tempos remotos, muito dados às artes plásticas e industriais. Região onde a matéria-prima não escasseava – mármores e barros em especial - não admira que a abundância lhes despertasse inclinações e vontade de traduzirem objectivamente as suas idealizações e concepções estéticas, em ordem não só à recreação do espírito, mas também à utilização das suas criações na vida prática e doméstica.

    Foram, sobretudo, os trabalhos de cerâmica que, entre o povo, mais se generalizaram, visto as argilas aluminosas[1] [figulinas[2] e margas[3]] estarem ao alcance de todos, serem de mais fácil exploração e servirem à feitura de objectos decorativos, que nos encantam pela beleza e harmonia das formas [estatuetas, imagens, jarras, azulejos, baixos relevos, etc.], assim como à confecção de artefactos de reconhecida utilidade prática em usos domésticos e industriais, tais como: bilhas, pichéis[4], azadas, potes, louça variada, telhas e tijolos.

    Tudo leva a crer que o aperfeiçoamento da arte da olaria só começou nos primórdios do século XVII, assinalando-se depois esse aperfeiçoamento nas faianças e nos azulejos de Estremoz, nas cantarinhas de Nisa, nas bilhas de Viana, etc.

    Há conhecimento de ter existido uma fábrica de cerâmica em Estremoz, a da Viúva Antunes, de que parece haver peças datadas de 1770, segundo nos diz Joaquim de Vasconcellos, em “A Cerâmica Portuguesa e a sua Aplicação Decorativa”. No Museu Municipal desta cidade podem ver-se algumas peças de perfeito vidrado e de interessante colorido que se atribuem àquela fábrica: pratos, travessas, terrinas, um gomil[5] e uma cantarinha, esta com a marca Viúva Antunes, não oferecendo, por isso dúvidas da sua proveniência.

    Desta Fábrica podem ter saído os azulejos que se vêem nos lambriz[6] de alguns edifícios locais. Mas há quem pretenda ter existido outra fábrica pelo facto de se guardar no referido Museu um painel, provindo de uma fonte na horta junto à Ermida dos Mártires, no qual se representa «Nossa Senhora do Carmo a entregar o escapulário[7] a São Simão Stock, que foi o primeiro geral da Ordem dos Carmelitas», tendo inferiormente a legenda “Ecce Salutis”, a marca “Fabrica de Frei Luiz Pernarcho”, e datado 1779.

    Ignoramos se existe algum documento que confirme esta suposição. Em nossa humilde opinião, o termo Fabrica, que se lê no painel, pode querer significar que o desenho, a traça, a pintura, se deve ao aludido padre, por quanto nos parece que a função de fabricante ou industrial era incompatível com o voto de humildade, de pobreza e de renúncia dos bens terrenos, que se exigia aos religiosos professos.

    Também temos noticia de que já nas primeiras décadas do século XIV, se faziam pucarinhos e moringues de Estremoz[8], que iam à mesa da Rainha Santa Isabel, ganhando celebridade em terras de Espanha, Itália e França, onde as classes ricas pagavam por alto preço essas graciosas peças de cerâmica alentejana.

    Nas primeiras centúrias da nossa nacionalidade a olaria circunscrevia-se ainda ao fabrico de louça grosseira, vasilhame, telhas e tijolos para a construção de habitações, fabrico que deve ter sido ensinado aos aborígenes pelos romanos e mais tarde pelos árabes, quando vieram estabelecer-se na Península Ibérica, como se deduz pelo grande número de objectos que tem sido encontrados nas escavações de diversas estações arqueológicas disseminadas pelos termos de Évora, Montemor, Estremoz, Vila Viçosa, Elvas, Marvão e outras terras de Alentejo, de que podem ver-se alguns exemplares nos museus regionais e da capital [temos visto: púcaros, candeias, e fragmentos de tijolos, etc.].

    Há anos foi achado numa escavação nas proximidades do Monte de Santa Vitória, por detrás da quinta denominada da Rainha ou de São João, arredores de Campo Maior, um dollium[9] do período lusitano - romano, que oferecemos ao museu municipal de Elvas, exemplar muito bem conservado. Só conhecemos outro semelhante que existe no Museu Etnológico de Belém.

    Estas vasilhas foram, talvez, as ascendentes genealógicas dos potes ou talhas mouriscas, que se vêem em todas as adegas do sul do país e cujo fabrico constitui uma indústria típica e secular da rica e linda vila fronteiriça de Campo Maior e da Aldeia do Mato, no concelho de Reguengos. Curiosas e características, as talhas alentejanas, de barro grosseiro, a que o tempo dá um tom escuro, chegam a ser de altura superior a de um homem normal e o seu bojo avantajado e monumental chega a conter mais de cem almudes, ou seja dois mil litros de precioso vinho. [Na adega do Sr. João Garcia Augusto, em Estremoz, existe uma com a capacidade de cento e treze almudes!].

    Assim, impressionaram por tal forma o iminente escritor Júlio Dantas que, ao vê-las pela primeira vez numa sombria adega de Évora, lhe fizeram escrever numa das suas brilhantes crónicas para o «Comércio do Porto que “no jogo das sombras flutuantes da subterrânea adega, lhe deram a impressão de figuras mociças e ventrudas[10] de silenos[11] aguentando nos ombros uma pesada arquitrave».

    O fabrico destas interessantes vasilhas não é privilégio da Aldeia do Mato, como supõe o ilustre académico, talvez por desconhecer que também se fazem em Campo Maior, que as exporta desde tempos longínquos para grande parte do Alentejo, e não só para esta província, como para algumas terras da Beira Baixa, do Ribatejo e até para a Estremadura Espanhola.

    Velhas pois de séculos, diferenciam-se as de Campo Maior das de Aldeia do Mato pela euritmia[12] das primeiras que nos oferecem uma silhueta mais esbelta, sobretudo nos mais recentes modelos, a que o artífice, intuitivamente e sem conhecer a arte romana, vai imprimindo formas clássicas e elegantes que fazem lembrar as ânforas milenárias. Diferenciam - se também pelo facto das últimas ostentarem na garganta a data fabrico e as curiosas siglas dos desconhecidos artífices que as modelaram em suas mãos hábeis, enquanto que as que de Campo Maior exibem os nomes completos dos vários oleiros através dos quais, por tradição de família, se tem transmitido, através dos séculos, o uso desta profissão e que são: - os Centenos, os Pereiras, os Mouratos , e, quiçá, outros que desconhecemos. Dá-se também a circunstância das desta ultima localidade se fabricarem com maior capacidade do que as de Aldeia do Mato, devido à melhor qualidade dos seus barros, desconhecida pelos mestres aldeiamatenses.

    E pena, realmente, que as de Campo Maior não tenham sido também datadas; e, para subsídio de investigações futuras e melhor documentação campomaiorense, lembrar aos nossos conterrâneos que é conveniente gravar nas talhas, além dos nomes, a data do fabrico [basta só o ano] e o nome da nossa histórica e progressiva vila, que foi agora alvo de uma grande honra: É que, na Exposição Internacional de Paris, do corrente ano, por iniciativa louvável do Secretariado da Propaganda de Portugal, Campo Maior mostrará aos muitos milhares de visitantes da Exposição – a par da graciosidade dos moringues e bonecos de Estremoz, dos caprichosos empedrados das cantarinhas de Nisa, e da elegância das bilhas de Viana - as formidáveis talhas saídas das suas oficinas, que deverão assombrar pela novidade e pelas suas descomunais proporções.

  

    Foi este facto muito agradável ao nosso estranhado bairrismo, que nos sugeriu o singelo e despretensioso artiguelho que hoje damos à publicidade e que estamos prontos a rectificar se alguém aparecer a esclarecer-nos sobre as deficiências com que topamos na sua elaboração.

 

 

Texto publicado por João Ruivo em “Arquivo Transtagano”, Ano V, Nº 1 de 15 de Maio de 1938                                                                               

 



[1] Dizem-se aluminosas por conterem alúmen, ou partículas que brilham

[2] Diz-se figulino o barro macio e fácil de amassar.

[3] As margas são argilas calcárias.

[4] O pichel é uma pequena vasilha ou cântaro para vinho.

[5] O gomil é um jarro para água, bojudo e de boca estreita.

[6] O lambril é a parte inferior de uma parede.

[7] Tiras de pano que os sacerdotes e outros religiosos usam sobre os hábitos.

[8] Refere-se aos tradicional barril de Estremoz e que em Espanha é chamado porrón.

[9] Vasilha grande onde os romanos guardavam o vinho.

[10] Figuras maciças e bojudas.

[11] Monstros gigantescos, metade homem e metade bodes.

[12] Harmonia, equilíbrio de proporções da diversas partes.



publicado por Francisco Galego às 09:06
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