Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

No concelho de Campo Maior locaizam-se  três das vinte barragens romanas estudadas a sul do Tejo:

- Barragem do Muro (Ribeira dos Cães);

- Barragem de Olivã (Ribeira de Olivã);

- Barragem da Mourinha. (Ribeira dos Saberes)

“ Os Romanos aprenderam muito da sua engenharia com os Gregos, não tendo propriamente contribuído neste domínio com ideias originais. (…). Com efeito, a engenharia romana era extremamente prática e a grande maioria das obras era levada a cabo por pessoal militar ou sob sua orientação.” (p. 38, 39 e 44)

 “As barragens inventariadas a sul do Tejo destinavam-se essencialmente a rega ou a abastecimento populacional ou, simultaneamente, aos dois usos. (…)

Os cursos de água têm um regime extremamente irregular, estando secos grande parte do ano. O aproveitamento das águas superficiais só era, pois, possível mediante o armazenamento em albufeiras a criar por barragens. (…)

Muitas das barragens inventariadas estavam associadas a villae, mediante as quais se realizava a ocupação do “agros transtagano.”             

 Uma villae era constituída por um conjunto de edificações destinadas a habitação (villa urbana) e a explorações agrícola e artesanal (villa rústica). A maioria das villae urbanae da Península Ibérica dispunha de um ou mais pátios fechados nos quais frequentemente se encontravam tanques ou fontanários, que tinham não apenas uma função lúdica, mas também prática, pois constituíam reservatórios de água que facilitavam a rega dos jardins interiores. As edificações situavam-se na zona central de uma propriedade agrícola, o fundus.

O tipo de vida nas villae era profundamente marcado por Roma; estas dispunham em geral de instalações balneares (termas) que, na região em estudo, tinham frequentemente como origem de água as pequenas albufeiras criadas pelas barragens.” (P. 51)

 “A Barragem do Muro sobressai entre as barragens inventariadas pelas suas características arquitectónicas e pelas soluções técnicas adoptadas. Esta barragem apresenta altura e desenvolvimento notáveis, sendo o único caso em que são visíveis nos paramentos fiadas horizontais de tijoleira, dispostas regularmente, e apresenta arcos entre os contrafortes sujeitos a maior tensão. A função de tais arcos seria presumivelmente a de concentrar as cargas de peso próprio sobre os contrafortes.

Trata-se também da única barragem que apresenta, adossada ao paramento de montante, uma superfície argamassada, a qual pode corresponder ao revestimento de uma sapata de fundação da estrutura. Na ligação do muro a tal superfície observa-se um rebordo convexo usualmente encontrado noutras estruturas hidráulicas para minimizar os riscos de fendilhamento e facilitar a limpeza.” (P. 57)

Com a capacidade de 178.000 m3 é, das referenciadas, uma das de maior dimensão; situa-se na ribeira dos Cães; a área da bacia hidrográfica é de 1,7 km2. (P. 61)

 “Para a cota de 234 m (cota aproximada do topo), o comprimento da albufeira seria de 460 m, a área inundada de 82.700 m2 (…)

Trata-se de uma estrutura inédita que constitui o exemplo mais monumental da arquitectura hidráulica romana a sul do Tejo. Efectivamente, a estrutura revela uma complexidade inexistente na maioria dos casos. Consiste num muro de secção transversal rectangular de 4,2 m de espessura no trecho central, suportado a jusante por 16 contrafortes, separados entre si 3 a 4m: Tal muro apresenta a altura máxima visível de 4,6 m e o desenvolvimento de 174m, com traçado poligonal. O trecho mais alto da barragem corresponde à zona onde corre a linha de água, observando-se do lado jusante restos de três arcos de volta inteira, apoiados em contrafortes. A sua função seria a de reforçar a estabilidade do sector sujeito a maiores pressões.

A secção transversal da barragem é suficiente para assegurar a estabilidade, sem a contribuição dos contrafortes. (…)

Esta barragem possuía provavelmente uma descarga de fundo na zona de passagem da actual linha de água.” (…) (P. 65 do livro de António de Carvalho Quintela; João Luís Cardoso; José Manuel Mascarenhas, Aproveitamentos hidráulicos romanos a sul do TejoContribuição para a sua inventariação e caracterização, Ministério do Plano e da Administração do Território - Secretaria de Estado do Ambiente - Direcção-Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos - Agosto de 1987)

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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