Terça-feira, 11 de Julho de 2017

No jornal  EXPRESSO de 27/2/2016 li este título de que tomei nota. Reencontrei-o e, analisando-o face ao que desde então foi acontecendo, achei que ele tinha sido muito premonitório. Pensando bem, não era difícil prever que assim viesse a acontecer porque o próprio Cavaco se aniquilou, afastando-se, colocando-se a tal distância e produzindo tais afirmações que se foi transformando em motivo continuado de indiferença, de contestações e de anedotas, algumas delas bem degradantes da instituição presidencial.

O meu espanto na altura, era que esta pergunta tivesse sido escrita num jornal em que, nesse tempo, jornalistas adoptavam inconsistentes e militantes posições, sem cuidarem de que tal estratégia os diminuia como profissionais, cuja função deveria ser a de informarem e eclarecerem com seriedade, de forma isenta e com objectividade os seus leitores.

Henrique Monteiro era o paradigma desse género de jornalismo. Foi ele que escreveu com intencional ironia: “Marcelo, Presidente Paizinho?”. Este título apontava para aí. A prosa começava mansamente e com algum acerto. Mas, a certa altura, resvalava para o seu empenhado desejo de que o novo presidente se aproximasse da sua concepção institucional-autoritária do que devia ser a acção do novo Presidente da República, aconselhando Marcelo a contornar dois obstáculos: o primeiro é tentar não ser uma espécie de paizinho de todos, alguém a quem se recorre nas aflições e que está sempre disposto a tudo conciliar, perdoar e esquecer; o segundo é, afirmando as suas convicções, não permitir (como Cavaco permitiu...) que o seu cargo e a sua pessoa sejam desrespeitados ou mesmo enxovalhados. E termina afirmando que para isto:  “Vai precisar de coragem”.

É este não permitindo que revela a base ideológica que está subjacente a esta prosa. Porque o que, noutra prespectiva, devia estar seria: “Não agindo de forma a que o seu cargo e a sua pessoa sejam desrespeitados ou mesmo enxovalhados.”

Agora que está bem demonstrada a forma e os efeitos da maneira como Marcelo Rebelo de Sousa entende e exerce a sua acção como presidente, verificamos que seria mais adequado que Henrique Monteiro tivesse escrito: “Vai precisar de manter a isenção e a dignidade, para preservar o elevado prestígio que é próprio do exercício da função presidencial”. Claro que, assim, estaríamos no domínio de uma  concepção do exercício da função presidencial baseada  na democraticidade, na ética republicana e no civismo que devem coexistir no mútuo relacionamento de confiança, de consideração e de respeito, entre o PR  e os cidadãos que o elegeram. Porque, de uma maneira mais simples e mais directa, como dizia um antigo dito popular: Quem não sabe dar-se ao respeito, não merece ser respeitado.



publicado por Francisco Galego às 08:55
Sábado, 08 de Julho de 2017

O meu sentimento vai-se inclinado cada vez mais para a percepção de que estamos a viver tempos difíceis, tão difíceis e complexos, quanto parece certo que não estão a ser usadas as soluções mais adequadas para os resolver.

Contudo, recuso qualquer afirmação, tão niveladora quanto injusta, de considerar que os políticos são todos iguais. A política é, em si mesma, uma acção de grande importância para a resolução dos problemas sociais. E, não apenas hoje, mas em todos os tempos, houve os que a entenderam como um caminho para melhor se servirem e os que a ela se dedicaram como forma de prestarem um serviço público orientado para o bem das comunidades em que se sentem integrados.

Em democracia, a entrega dessa missão a uns ou a outros, depende apenas da nossa vontade. Depende de tomarmos uma atitude de indiferença ou de assumirmos a nossa obrigação como cidadãos.

A impreparação de alguns dos actuais improvisados políticos e as suas fragilidades culturais, geram um modo de fazer política que podemos apropriadamente designar por populismo anti-elitista. Para melhor chegarem ao apoio das camadas menos preparadas da população, arvoram-se em paladinos defensores dos pobres e declarados inimigos das elites, enquanto tudo fazem para garantirem para si e para os seus, todos os benefícios dessas elites a que tanto aspiram pertencer e que tanto apregoam repudiar.

Que fazer perante a trágica situação de termos uma população tão impreparada, tão facilmente manipulável por estes inescrupulosos oportunistas?

Persistir na denúncia constante destas situações, lutar pelo aprofundamento de uma cultura democrática e de uma maior participação cívica dos cidadãos, prosseguir no esforço de dar um novo alento à sociedade fazendo emergir novos líderes capazes de elaborar e pôr em execução projectos que garantam novas soluções políticas que melhorem as condições de vida das populações.

Temos de voltar aos valores éticos que tornem de novo a política uma arte e uma ciência ao serviço da sociedade e não a habilidade astuta dos que só pensam em beneficiar-se, mediante negociatas escusas, tráficos de influências e práticas de corrupção. Os homens de verdade e de boa vontade, devem juntar esforços para pôr fim a estas situações abusivas que estão a tornar cada vez mais insuportável esta nossa forma de viver.

Necessitamos de políticas direccionadas para o desenvolvimento económico, para  garantia da segurança e da estabilidade social, através de maiores e melhores oportunidades para as novas gerações, pois nelas assenta a possibilidade de sustentação das gerações mais idosas que deixam de estar em condições de participarem na produção, para que possam viver de reformas que lhes propiciem uma aceitável qualidade de vida na sua velhice. Só com políticos sérios, honestos e competentes, homens e mulheres de sólido carácter, poderemos ter soluções adequadas para os problemas que hoje se deparam às comunidades locais.



publicado por Francisco Galego às 00:05
Quarta-feira, 05 de Julho de 2017

 As acentuadas deficiências estruturais que as comunidades mais problemáticas e mais carentes de recursos apresentam, tornam particularmente difícil promover o seu desenvolvimento. Para criar os projectos e desenvolver os processos que levem à sua transformação, são necessários os recursos humanos que concebam e programem as soluções mais adequadas, mais eficazes e que melhor garantam processos rápidos e seguros para acudir às carências mais prementes.

Ora, um dos aspectos mais determinantes do seu desenvolvimento é, sem dúvida, o nível cultural das populações. Por isso, a disponibilidade, a vontade, a apetência e o interesse pelas questões culturais, é inversamente proporcional ao nível cultural que essas comunidades possuem.

Poderiamos, muito a propósito, lembrar aqui a frase de Almeida Garrett (1789-1854), referindo-se a uma manifestação que era um instrumento cultural muito importante no seu tempo:

O teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde a não há. Não têm procura os seus produtos enquanto o gosto não forma os seus hábitos e com eles o sentimento de necessidade.

Dito de outro modo: quase nunca aquilo de que as pessoas mais necessitam, é aquilo que elas mais gostariam que lhes seja  propiciado.

Este é o dilema com que se confrontam todos os que se dedicam à educação, à politica, e a outras missões de carácter eminentemente social.

Por isso, alguns dos que se dedicam a essas missões, não com o objectivo de bem servirem, mas no fito de obterem vantagens, com grande proveito e com pouco esforço, optam por propiciar o que é mais desejado.

Contudo, a solução mais justa e mais honesta, talvez seja a de, remando contra a maré, criar e promover o gosto por aquilo que é efectivamente mais necessário.

Há os que contrapõem que esta atitude é completamente utópica, ou mesmo destituida de qualquer sentido da realidade das coisas. Que é inútil gastar tempo, recursos e esforços a tentar propiciar maiores oportunidades aos que não têm qualquer apetência para questões culturais. Porque, quem nem sequer sabe pensar, não tem paciência para aturar pensamentos e paleios que nem consegue entender. Ou seja, como dizem o que assim pensam, não merece a pena porque eles são demasiado estúpidos para aproveitarem aquilo que por eles se tente fazer.

Os que assim pensam, fazem uma inversão dos valores em causa. Porque, pensando que “nem vale a pena tentar, porque eles nem sabem o que isso é”, ou que, “não são suficientemente inteligentes para entender o benefício que isso lhes poderia trazer”, são de facto eles que dão prova da sua fraca clarividência intelectual e cultural, ao manifestarem a impossibilidade de perceberem que, quando o nível cultural médio sobe, tendem também a subir os índices de produtividade e de segurança, garantindo-se assim melhores condições de vida e de mais conforto para todos os elementos  que integram uma comunidade.

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Domingo, 02 de Julho de 2017

Não há muito tempo, fui consultado sobre a interpretação a dar ao que está escrito numa placa colocada numa parede do “Arco da Praça”.

Não era a primeira vez que isto acontecia. Ainda eu estava no activo e a viver fora de Campo Maior, fui contactado por um funcionário da Câmara que me convidava a participar no descerramento de uma réplica dessa placa que ia ser afixada no interior do edifício, porque ela assinalava o ano da construção dos actuais Paços do Concelho.  

Não pude evitar disser-lhe o que, provavelmente, muitos a quem ele tinha mostrado a mesma peça, por boa educação, tinham calado. Mas, eu como campomaiorense, sentia-me obrigado a esclarecê-lo, de que, aquela placa, não podia indicar a data de construção daquele edifício. Bastava comparar a traça do mesmo e a data inscrita. E que, insistir naquela afirmação, era não respeitar a verdade que, lendo o que nela estava escrito, se tornava evidente.

Não sabendo que eu, sendo muito complacente, não aceitava ser cúmplice, disse-me que contava comigo para manter a versão, pois que, além de dar mais prestígio, era a que justificava a reprodução e colocação da placa que já estava programada. E, assim foi feito, embora essa versão não fosse verdadeira.

NOTA: Segundo a referida placa, o edifício da câmara estaria concluído em 1618, reinava então em Portugal, Filipe III de Espanha, rei de Portugal entre 1598 e 1621.  Ora, a construção do actual edifício foi concretizada no tempo em que governava Campo Maior, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo (meados do Séc. XVIII), como atesta a data gravada no pelourinho (1740) que está no centro da “Praça Nova”, hoje chamada Praça da República. Portanto, com grande probabilidade, aquela placa pertencia ao edifício que fora reconstruido em meados do séc. XVII (reinado de D. João IV), na chamada “Praça Velha” e que serviu de “Paços do Concelho”, até à sua destruição pela explosão da Torre de Menagem, em 1732. A reconstrução da vila foi feita quando reinava em Portugal D. João V (1706-1750). Só então foi construida a "Praça Nova" em que se insere o actual edifício da Câmara, que aliás ficou incompleto, como se verifica olhando para a sua fachada principal. Faltou construir uma segunda escadaria do lado direito de quem  a observa.

 



publicado por Francisco Galego às 09:03
Sexta-feira, 30 de Junho de 2017

No ano de 1935 tomou posse, no dia 6 de Abril, uma nova Comissão Administrativa da Câmara Municipal. Esta era constituída por: Manuel Joaquim Correia, comerciante com loja na rua da Misericórdia - que assumia o lugar de presidente; João Vitorino Muñoz, farmacêutico; dr. Justo Garcia d’Agrela,  Mauro das Dores Alves, João Aguiar Mexia Serra e João Martins Leitão, elementos ligados ao comércio e à agricultura.

Esta nova administração chegou a ter o projecto de realizar as Festas do Povo. Mas, na verdade, elas não se chegaram a efectivar. Temos a sorte de João Ruivo, que em 1929 saíra de Campo Maior, estar nesta altura em funções de tesoureiro da Fazenda Pública, na cidade de Estremoz. Aí começara a colaborar no jornal local, Brados do Alentejo, onde ia publicando as notícias que lhe chegavam da sua terra natal. Por isso, este jornal constitui uma fonte importante sobre o que, nessa época, se ia passando em Campo Maior.

Como se pode constatar pela série de notícias que a seguir se transcrevem, parecia haver vontade da parte das autoridades municipais e boas condições para que as festas se tivessem realizado. Contudo, elas não se fizeram e não possuímos dados para compreender porque isso aconteceu. Será que, nessa época, as Festas só se faziam se o povo se dispusesse a realizá-las?

 

Brados do Alentejo, Estremoz, 16 de Junho de 1935

                                      Festas do Povo

 

   Diz-se que as sumptuosas festas em honra de S. João Baptista, Padroeiro desta vila, vão ser realizadas pela Câmara Municipal que, para maior brilhantismo, serão contratadas três bandas de música havendo também números novos de festas que devem causar sensação.

 

                                   Festas de S. João

   Para os festejos de S. João nos próximos dias 23 e 24 do corrente vão ser contratadas as bandas de Caçadores 8 e a União Campomaiorense. Os números do programa constam de festa de igreja, procissão, arraiais, bailes e descantes populares e bem assim venda de bolos e fogaças como nos anos anteriores.

 

Brados do Alentejo, Estremoz, 30 de Junho de 1935

                               Festas de S. João Baptista

 

   Durante os dias 23 e 24 do corrente realizou-se na Avenida Dr. Agrela a costumada “feira dos burros” que esteve muito concorrida de burros e compradores beirões (os Ratinhos). Havia também algumas barracas que fizeram bom negócio. Os arraiais de S. Joãozinho (extra-muros), estiveram animadíssimos, agradando muito a banda de Caçadores 8.

 

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 09:09
Quarta-feira, 28 de Junho de 2017

“A um kilómetro ao Sul desta vila está situada a ermida de S. João Baptista,( lugar designado como o São Joãozinho), onde os campomaiorenses costumam fazer anualmente um arraial em homenagem ao santo protector da vila e dos seus habitantes.

É tradição que S. João aparecera nas figueiras que estavam junto à fonte e à ermida que ali foi edificada, em recordação desse milagre.

Como a ermida fosse muito mesquinha e o local destinado para o arraial não tivesse a capacidade necessária para a numerosa concorrência que afluia, determinaram fazer outra ermida e arranjar o terreno de maneira a que os pares dançantes pudessem executar as variadas mudanças do predilecto fandango e o redemoinhar da frenética valsa, sem incomodarem, nem serem incomodados pelos espectadores.

Ainda que não esteja concluída, a nova ermida foi consagrada no dia 22 de Junho e, em seguida a esta solenidade, cantou-se uma missa de instrumental a que assistiu parte da Filarmónica Recreativa.

No dia 23 realizou-se o arraial, que esteve esplêndido, tanto pela numerosa concorrência como pela boa ordem que reinou durante o mesmo. A Filarmónica Barcelinhos (1) assistiu a esta festividade.

(In, A Voz do Alemtejo, nº 521 de 8 de Julho de 1866, texto de José António Félix dos Santos.)

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(1) A filarmónica designava-se de "Barcelinhos" porque fora criada e era sustentada pelo Barão de Barcelinhos, que era o maior proprietário do concelho e que depois foi distinguido com o título de Visconde de Ouguela.

OUTRAS NOTAS:

ESTA NOTÍCIA INFORMA-NOS QUE, A "NOVA ERMIDA" DE SÃO JOÃOZINHO, FOI CONSAGRADA NO DIA 22 DE JUNHO DE 1866. PORTANTO, HÁ  151 ANOS. ANTES APENAS EXISTIRIA A "PEQUENA ERMIDA", JUNTO À FONTE.

 

O AUTOR DO TEXTO, DR. JOSÉ ANTÓNIO FÉLIX DOS SANTOS, ERA NATURAL DE CAMPO MAIOR. FIXOU-SE EM ELVAS ONDE EXERCEU A ADVOCACIA E ONDE ERA MUITO CONSIDERADO. SEU PAI, QUE SEGUIRA A CARREIRA MILITAR DESTACANDO-SE NO SERVIÇO PRESTADO EM MOÇAMBIQUE,  MORRERA NUM ACIDENTE COM ARMA DE FOGO, POUCO DEPOIS DELE TER NASCIDO. SUA MÃE VOLTOU A CASAR, COM JOÃO DUBRAZ, GRANDE AMIGO DO FALECIDO E QUE SEMPRE CUIDOU DO SEU ENTEADO COMO DE UM VERDADEIRO FILHO.

 

 



publicado por Francisco Galego às 11:59

“A um kilómetro ao Sul desta vila está situada a ermida de S. João Baptista,( lugar designado como o São Joãozinho), onde os campomaiorenses costumam fazer anualmente um arraial em homenagem ao santo protector da vila e dos seus habitantes.

É tradição que S. João aparecera nas figueiras que estavam junto à fonte e à ermida que ali foi edificada, em recordação desse milagre.

Como a ermida fosse muito mesquinha e o local destinado para o arraial não tivesse a capacidade necessária para a numerosa concorrência que afluia, determinaram fazer outra ermida e arranjar o terreno de maneira a que os pares dançantes pudessem executar as variadas mudanças do predilecto fandango e o redemoinhar da frenética valsa, sem incomodarem, nem serem incomodados pelos espectadores.

Ainda que não esteja concluída, a nova ermida foi consagrada no dia 22 de Junho e, em seguida a esta solenidade, cantou-se uma missa de instrumental a que assistiu parte da Filarmónica Recreativa.

No dia 23 realizou-se o arraial, que esteve esplêndido, tanto pela numerosa concorrência como pela boa ordem que reinou durante o mesmo. A Filarmónica Barcelinhos (1) assistiu a esta festividade.

(In, A Voz do Alemtejo, nº 521 de 8 de Julho de 1866, texto de José António Félix dos Santos.)

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(1) A filarmónica designava-se de "Barcelinhos" porque fora criada e era sustentada pelo Barão de Barcelinhos, que era o maior proprietário do concelho e que depois foi distinguido com o título de Visconde de Ouguela.

OUTRAS NOTAS:

ESTA NOTÍCIA INFORMA-NOS QUE, A "NOVA ERMIDA" DE SÃO JOÃOZINHO, FOI CONSAGRADA NO DIA 22 DE JUNHO DE 1866. PORTANTO, HÁ  151 ANOS. ANTES APENAS EXISTIRIA A "PEQUENA ERMIDA", JUNTO À FONTE.

 

O AUTOR DO TEXTO, DR. JOSÉ ANTÓNIO FÉLIX DOS SANTOS, ERA NATURAL DE CAMPO MAIOR. FIXOU-SE EM ELVAS ONDE EXERCEU A ADVOCACIA E ONDE ERA MUITO CONSIDERADO. SEU PAI, QUE SEGUIRA A CARREIRA MILITAR DESTACANDO-SE NO SERVIÇO PRESTADO EM MOÇAMBIQUE,  MORRERA NUM ACIDENTE COM ARMA DE FOGO, POUCO DEPOIS DELE TER NASCIDO. SUA MÃE VOLTOU A CASAR, COM JOÃO DUBRAZ, GRANDE AMIGO DO FALECIDO E QUE SEMPRE CUIDOU DO SEU ENTEADO COMO DE UM VERDADEIRO FILHO.

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Domingo, 25 de Junho de 2017

Na língua portuguesa, torna-se por vezes difícil entender qual a razão porque são designados pela mesma palavra, coisas e conceitos tão diferentes. É o que acontece com a palavra cultura. Além dos casos extremos em que se aplica a actividades de carácter agrícola, acontece noutros, tão próximos, que se torna inevitável que se estabeleça certa confusão.

A palavra cultura tanto se aplica à criatividade humana que se expressa através de manifestações como a dança, a música, a escrita e outras englobadas no conceito geral de “artes”, destinadas a expressar mensagens, sentimentos, emoções e pensamentos, como a manifestações deste tipo que têm apenas como objectivo o entretenimento do público a que se destinam e que dificilmente poderão ser incluidas no verdadeiro conceito de cultura.  O perigo desta confusão é muito frequente, havendo mesmo quem considere que não existe diferença nenhuma.    

Esse perigo nunca o pressenti nos espectáculos a que tenho podido assistir neste centro cultural em que gente envolvida em projectos culturais consegue, não apenas entreter-me, mas propor-me mensagens que me emocionam, situações que apelam ao meu dever de solidariedade, pensamentos que enriquecem o meu entendimento, opções que despertam a minha consciência, emoções que avivam a minha sensibilidade.

Foi tudo isso que, mais uma vez, me foi propiciado pelo Curso de Dança Contemporânea do Projecto de Formação do Município de Campo Maior. Os meus parabéns a toda a equipa que realizou este “milagre”, em território tão pouco habituado a certos “manjares”. Permitam que realce o papel de Maria Lama por mais esta etapa da sua própria “Viagem” que não sendo de perigos, é de esforço persistente e bem direccionado segundo objectivos traçados com clara intenção  e finalidade. Mais uma etapa vencida com emérita qualidade. 



publicado por Francisco Galego às 08:21
Terça-feira, 20 de Junho de 2017

 

 

Reinava então em Portugal o rei D. Manuel I e remonta a esse tempo a seguinte narrativa:

 

            Campo Maior era então uma povoação bastante pequena, com nove ruas dentro do castelo e mais algumas do lado de fora das muralhas.  

            Como acontecia com alguma frequência, declarou-se na vila, como noutras terras do reino, incluindo Lisboa, uma grande epidemia de peste que provocava elevado número de mortes.(1)

            Nas terras pequenas, onde havia poucos recursos para acudir, a situação era ainda mais aflitiva. As poucas condições de higiene e a deficiente alimentação, bem como os poucos cuidados de higiene,  faziam que, qualquer doença contagiosa se propagasse rapidamente, atacando sobretudo as crianças e os velhos que eram os menos resistentes.

            Em geral, pensava-se que as pestes eram um castigo divino. Por isso, faziam-se missas, rezava-se e implorava-se, tentando, por todos os meios, alcançar a graça divina que parasse o flagelo que tantas mortes causava.

            Vendo que o ar estava empestado pela epidemia e que as suas preces não eram atendidas, os moradores procederam do modo que era usado em tais circunstâncias: resolveram sair da vila, escolheram um lugar no meio dos campos e aí construíram casas muito singelas, a que davam o nome de choças. Ainda hoje esse lugar é chamado pelos campomaiorenses como sendo o lugar das Choças.

            Aí permaneciam, havia já algum tempo, com medo de serem apanhados pela peste se voltassem às suas casas na vila.

           Porém, um certo dia, no ano de 1520, um homem chamado Gonçalo Rodrigues que andava a trabalhar na sua horta, sentindo-se cansado, sentou-se à sombra duma figueira a descansar. De repente, ter-lhe-á aparecido uma figura rodeada de uma grande luz. Assustado, o bom homem terá exclamado: “Quem sois vós senhor? Que luz é esta que não parece ser coisa deste mundo?” Ao que, numa voz forte e calma, a figura terá respondido: “Não temas Gonçalo! Eu sou João Baptista. Não vês como está o teu povo? Vai dizer à tua gente que podem voltar às suas casas. Os vossos sacrifícios e sofrimentos despertaram a compaixão de Deus, Nosso Senhor. Não haverá mais peste. Mas, em memória da graça que por Deus vos foi concedida, quero que façam na vossa terra uma igreja em meu nome e devoção”.

            O bom do Gonçalo nem queria acreditar no que lhe tinha acontecido. Foi logo ter com a sua gente e contou-lhes a extraordinária aparição que tivera. Desde logo, todos decidiram fazer uma igreja em honra de São João Baptista e uma pequena ermida para assinalar o local em que tal milagre tinha acontecido. Ficou como tradição do povo de Campo Maior que se manteve ao longo do tempo, a realização anual de uma romaria a esse local, no dia consagrado a S. João. 

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(1)" (...) De vez em quando terríveis, epidemias de peste assolavam o território, determinando a mudança da côrte para lugares não contagiados. No reinado de D. Manuel foram quatro as arremetidas: em 1502, 1506, 1513 e 1521." (História de Portugal; Volume III; Edição Monumental da Portucalense Editora; Porto)



publicado por Francisco Galego às 00:03
Sábado, 17 de Junho de 2017

DESDE REMOTOS TEMPOS QUE ALGUNS HOMENS PROCURAM A FORMA DE MELHOR PENSAR PARA MELHOR VIVER E A ISSO CHAMARAM FILOSOFAR

EIS ALGUNS EXEMPLOS SIMPLES:

            ... não é fácil conseguir uma vida feliz, pois que nos distanciamos tanto mais dela quanto mais empenhadamente a buscamos

            Todos as pessoas concebem, ao longo da sua vida, um ideal de felicidade. O destino dos seres humanos é, não apenas viver, mas procurar viver bem.

            É vã toda a palavra do filósofo que não remedeia nenhum dos sofrimentos dos humanos, pois que assim como é inútil toda a medicina que não suprime as enfermidades do corpo, também é inutil a filosofia que não suprime oa sofrimentos da alma.

            Desenvolve ao máximo as tuas faculdades naturais.

            Os maus agem de má-fé apenas por ignorância, porque desconhecem quão efémeras são as vantagens que resultam da sua acção dolosa.

            Não agir bem para obter vantagem, mas para poder viver de tranquila consciência, é prova de sabedoria e de bom senso.

            Cada um faz, no mais íntimo de si mesmo, a opção fundamental que vai arquitectar o seu destino.

É preciso encontrar dentro de nós o fundamento regulador do nosso modo de agir.



publicado por Francisco Galego às 20:06
Terça-feira, 13 de Junho de 2017

A experiência que fui adquirindo convenceu-me de que, só com ponderação e bom senso, conseguimos encontrar as melhores respostas para os problemas e as situações que se nos vão deparando no decorrer da nossa vida. Sem isso, damos lugar aos conflitos que, em vez de resolverem, mais agravam a discórdia e mais nos tiram a capacidade de encontramos as soluções mais adequadas. A moderação  é sempre o caminho mais certo, porque nos  torna mais comedidos, mas sensatos e mais sábios.

Isto vem a propósito da tendência, que nós, os humanos, tanto individualmente, como associados em grupos ou em instituições, temos para nos envolvermos em situações e tomarmos decisões, sem avaliarmos bem as consequências que daí podem advir.

Chega às vezes a ser dolorosa a constatação de como, com tanto esforço, tanto empenho e tanta determinação, nos pomos a caminhar no sentido que menos nos conviria termos seguido. Mais doloroso ainda é pormos-nos a celebrar vitórias que, como se pode desde logo perceber, trazem mais incómodos que vantagens. Ou que as vitórias são apenas aparentes porque, na realidade, os que se julgam vencedores ficam tão fragilizados que mais valia não se terem desgastado em tão inúteis combates.

De que serve envolvermo-nos em lutas que, se tivéssemos avaliado com justo critério as circunstâncias, a capacidade e as probabilidades de sucesso, teríamos compreendido que não preparavam realmente o êxito que pretendíamos alcançar?

Que sentido faz lutar por causas que, bem analisadas, não trazem efectivamente vantagens reais para ninguém?

De que serve agir com pouca ponderação, muito barulho e muita agitação, só porque não cuidámos de análisar cuidadosamente as situações?

Porque a verdade é, evidentemente, esta: Quem parte para a luta sem uma análise clara das consequências, ou age com inconsciência, ou está a ser instrumentalizado por quem quer atingir objectivos que podem realmente não coincidir com o que mais nos convém.

Uma coisa é certa: Por vezes, os êxitos que parecem vitórias produzem efeitos mais desastrosos que algumas derrotas. Pelo menos, as derrotas, se bem analisadas, sempre servem de lição para não voltarmos a repetir os erros que cometemos. E isso constitui uma importante vantagem.

 



publicado por Francisco Galego às 08:35
Sábado, 10 de Junho de 2017

 

“As estradas do concelho de Elvas chegaram a um ponto de ruína excessiva…

se não estão absolutamente intransitáveis, é sobremaneira perigoso caminhar por elas...

Anunciaram-se por editais certas obras relativas à estrada de Campo Maior…”

 

“Na sessão da câmara dos senhores deputados, de 21 do corrente, apresentou o Sr. João Carlos Mello e Minas uma representação da câmara municipal de Campo Maior, para que esta vila seja elevada à categoria de comarca com sólidas e judiciosas considerações:

- É uma das principais vilas da província do Alentejo

- Rica em vinhos e azeites de grande qualidade, exportados para muitas povoações

- Detentora de uma história de gloriosos feitos

- Atreita a problemas levantados por uma fronteira facilmente transponível

- Tendo sido, em virtude da carta de lei de 28 de Fevereiro de 1835 sido criada cabeça de julgado  esta  vila anexando-se-lhe os concelhos de Arronches, Barbacena e Ouguela, sucede que posteriormente foi o mesmo julgado suprimido.

 

Constituição da Câmara Municipal de Campo Maior em 1860:

Presidente – João Bernardo do Rego

Vice-presidente – Gaspar da Encarnação

Fiscal – Francisco Henriques de Aguiar

Vogais – Manuel Jerónimo Mocinha e Manuel Pinto de Matos

Secretário – António Vellez Teixeira

 

(In, jornal “O Transtagano”(PERIÓDICO DE INTERESSES MORAIS E ECONÓMICOS DA PROVÍNCIA), Elvas, nº 8, de 27 de Maio de 1860)

 



publicado por Francisco Galego às 00:03
Segunda-feira, 05 de Junho de 2017

Óbito ilustre em Campo Maior

Faleceu nesta vila e foi enterrado hoje, o bispo resignatário de Macau, D. Jerónimo José da Matta. Tinha vindo a Campo Maior para aqui visitar alguns parentes (os Sr.s Matta) e foi vítima de um ataque apopléctico fulminante. Fizeram-se todas as honras compatíveis com os meios da povoação e foi depositado provisoriamente no jazigo da família de seu primo Sr. Joaquim José da Matta.

(A Voz do Alemtejo, Nº 439, Elvas, Dom. 7 de Maio 1865)

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Do corresponente em Campo Maior (Rosado Júnior)

O mês de Abril correu ventoso e com muito pouca água, excepto na última semana em que tem chovido muito, melhorando o aspecto das searas em geral, prometendo, por consequência, um ano abundante.

De filarmónicas, também o ano é abundante para Campo Maior, que já possui três; o que não é bom nas povoações, porque dão origem a rivalidades, passando daqui a inimizades e desordens.

Brevemente deve haver uma reunião geral no Grémio Campomaiorense, onde se goza de uma afinadíssima filarmónica dirigida pelo Exmº Sr. D. Gonçalo de Carvajal que a acompanha ao piano.

Quanto tem este jovem e simpático Sr. mostrado que possui um grande talento e vocação social!

O gozo no grémio torna-se invejável pela ordem, delicadeza e deferência que ali reina devido tudo aos cavalheiros de que ele se compõe; honra aos instituidores que transformaram uma casa de vício numa sociedade, que tem por fim um passatempo útil e honesto. Seja-me permitido estampar aqui os nomes dos cavalheiros a quem se deve a iniciativa deste progresso social e que são: João Carlos Gambôa Mello e Minas; Dr. António Teixeira Félix da Costa; João Francisco Dubraz; Cristóvão Cardoso d’Albuquerque Barata; Diogo Maria Cayolla; Manuel Caldeira Cayolla e João do Carmo Ferraz.

(A Voz do Alemtejo, Nº 440, Elvas, 5ª-feira,.11 de Maio 1865)

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Terça-feira, 30 de Maio de 2017

Deve haver uns 20 anos que protesto por esta razão, pois a câmara municipal pretende e é justíssimo que o governo mande construir uma ponte sobre o Caia; tem feito várias representações ao governo e, até agora nada foi feito, sendo que todos os anos o Caia vai tragando algumas vítimas.

(A Voz do Alemtejo, Nº 411, Elvas, 26 de Janeiro de 1865).

 “Se o Sr. ministro das obras públicas ... mais praticasse, já a imprensa e os povos deste distrito não levantariam justos clamores contra o péssimo e ridículo estado em que se encontra um grande lanço da estrada de Elvas a Campo Maior, a respeito do qual temos repetidas vezes requerido providências. (…)”

 “A política de hoje repugna-me.

Partidário sincero do velho Setembrismo, não me entendo com as coteries da época: são anónimas e não têm objecto claro.

Eram mais nobres os antigos partidos, porque definiam claramente o seu fim e caminhavam para ele com a fé e resignação dos mártires.

Porém, vamos tratar do problema da estrada.

Não me consta que o Sr. Ministro das obras públicas (era João Crisóstomo de Abreu e Sousa, o qual já não será ministro em Abril) resolvesse já alguma coisa sobre o assunto.

…Aproveite-se a Primavera para reconstruir a estrada e torná-la viável.

De se não fazer isto, resultará não só grande mal para os transeuntes e para os cultivadores dos terrenos próximos à estrada, mas para o governo que tolera há tanto tempo um pântano em lugar de estrada, ruínas em lugar de obras de arte, caboclos e quebradas perigosíssimas, em lugar de uma conservação esmerada.”

(A Voz do Alemtejo, Nº 428, Elvas, 26 de Março de 1865).

 

            Consta-nos que a repetidas instâncias do deputado deste círculo, foi rescindido o contrato feito pelo Sr. Kukenbuk de Figueiredo com a fazenda para a construção do lanço da estrada a macdam, do alto das Espadas à ponte do Caia, no caminho de Campo Maior e que o mesmo lanço vai ser concertado e devidamente acabado por conta do governo.

Damos os nossos parabéns aos viandantes que têm de utilizar-se desse melhoramento e Deus queira que não tenhamos de esperar por ele ainda outros dois anos.

Consta-nos que na ponte construída sobre o ribeiro do Judeu, já as rodas dos carros entram com a rosca de tijolo da abóbada da mesma. Se assim é, e se o concerto não se faz com brevidade, o mal a remediar há-de ainda ser maior e custar mais dinheiro.”

(A Voz do Alemtejo, Nº 431, Elvas, 6 de Abril de 1865)

Dizem que o ex-ministro das obras públicas (João Crisóstomo) rescindiu finalmente o contrato do Sr. Kukenbuck de Figueiredo. Ora graças a Deus ...

A estrada de Elvas ia parecendo as obras de Santa Engrácia.

Mas é preciso que a reconstrução comece quanto antes… a ponte do Judeu… se não lhe acudirem, aquela obra de arte arruinar-se-á. Parece-me que a estrada deve ser alargada na proximidade da ponte, porque está tão estreita e tem uma curva tão precipitada, que se não pode ali passar com cavalgaduras fogosas sem algum perigo.”

(A Voz do Alemtejo, Nº 435, Elvas, 20 de Abril de 1865)

 

 Textos da autoria de João Dubraz



publicado por Francisco Galego às 00:03
Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

I- NOTA PRÉVIA

 O texto que a seguir se transcreve, intitula-se "Breves notas sobre a arte e coisas de interesse turístico em Campo Maior",  que João Ruivo escreveu em meados do séc. XX e fez publicar em alguns jornais. É um texto  muito importante porque começa por explicar a razão de não encontarmos, em Campo Maior, elementos e documentos com valor patrimonial significativo, anteriores ao século XVIII, devido à terrível destruição provocada pela explosão de 1732.

Foi tão grande e vasta essa destruição que, em grande parte, a vila teve de ser reconstruída, com particular empenhamento para reparação dos danos provocados nas estruturas defensivas da praça de guerra. Foram rapidamente restaurados os danos que sofreram essas estruturas, porque a instabilidade político-militar assim aconselhava.Por outro lado, havia que criar condições para que os sobreviventes não abandonassem a vila, porque isso era sempre muito importante para a sustentação de uma praça de guerra, em caso de conflito.

Em 1725 as relações diplomáticas entre Portugal e a França tinham sido cortadas, situação que se manteve durante os catorze anos seguintes, em que não houve embaixadas, nem missões diplomáticas entre os dois reinos. Daí resultou uma situação que colocou os dois países à beira de uma guerra eminente, tendo mesmo entrado no Tejo uma armada inglesa para apoiar Portugal no conflito com a Espanha.

Depois da terrível destruição provocada pelo rebentameto do paiol da pólvora, instalado na torre de menagem do castelo, a reconstrução foi desde logo ordenada por D. João V.  Foi bastante facilitada pelas circunstâncias de serem então vultuosos os rendimentos com a exploração do ouro e dos diamantes no Brasil e de estarem em plena laboração estaleiros destinados à construção de muitas obras, entre as quais se podem referir a construção da Torre dos Clérigos no Porto, a  da Torre da Universidade de Coimbra e, principalmente, a construção do monumental Convento de Mafra, onde trabalhavam cerca de 15.500 operários, sob orientação de alguns dos melhores mestres desse tempo.

 

II - O TERRÍVEL DESASTRE

Devido a uma terrível explosão do armazém da pólvora e das munições, existentes na altaneira torre de menagem do castelo medieval, grande parte da vila de Campo Maior ficou destruída e foram mortos ou feridos muitos dos seus habitantes.  Um raio provocado por uma violenta trovoada seca, na madrugada do dia 16 do mês de Setembro, do ano de 1732, entrou por uma fresta da torre de menagem que servia de paiol e causou a lamentável destruição de quase tudo quanto, a vila fronteiriça de Campo Maior possuía de mais notável, em matéria de arte e de arqueologia, constituindo um valioso património de que os campomaiorenses muito se orgulhavam. Essa foi a mais importante causa de esta vila não ter conservado vestígios patrimoniais dos tempos mais recuados da sua existência,

Nos séculos anteriores à explosão de 1732, a vila fora-se alargando para fora do recinto fortificado, descendo pelas encostas viradas a norte e ao poente. Quando esta trágica situação ocorreu, existiam já, na chamada “vila nova”, bastantes ruas e largos fora da antiga fortaleza (onde ficava a "vila velha"). A vila era, já então, bastante populosa, tendo morrido muitos dos seus habitantes sob os escombros das casas que ruíram. 

Não havia muito tempo que, para garantir a defesa do país após a Restauração de 1640, prevenindo a guerra com a Espanha que se iria estender entre 1640 e 1668, fora construida uma nova cintura defensiva segundo o sistema abaluartado “à Vauban” (que numa quadra popular é designado como de “muralhas à francesa”).

Além do próprio castelo que ficou quase completamente destruído, desapareceu todo o casario da primitiva vila medieval e, como era na parte nova da vila que se encontravam os solares das famílias nobres, com os seus portais brasonados, as suas fenestras em ogiva e os seus grandes balcões ornados de artisticas grades de ferro, à semelhança das que podemos ainda hoje admirar noutras antigas vilas fronteiriças, como Marvão, Castelo de Vide, Estremoz, Monsaraz, Albuquerque e Olivença.

Desapareceu também, a primitiva igreja matriz, designada primeiramente como Igreja de Santa Maria e, posteriormente, como de Santa Clara, que ficava no castelo podendo-se presumir que fosse de traça romano-gótica.  Perdeu-se também todo o recheio que existia no seu interior.

O antigo Domus Municipalis sofreu tão forte ruína que foi depois transformado em açougue. Foi também muito afectado o palácio do governador e os antigos solares dos Teles da Silva, dos Teles de Menezes, dos Vaz, dos Barreiros, dos Galvões e dos Mexia, com as peças de mobiliário, tapeçarias, obras de arte e outras coisas de grande valor. Algumas dessas casas nobres sofreram obras de restauração. Mas alteraram-lhes tanto a traça primitiva, que quase nada terá restado do seu estilo em épocas anteriores.

A parte mais antiga da vila, dentro do castelo, jamais foi reedificada. Todo o perímetro do antigo recinto acastelado foi atulhado, com os materiais acumulados dos escombros, até à altura do anterior caminho de ronda ou adarve. Desta terraplanagem resultou a esplanada, que actualmente ocupa o interior do castelo e da qual se pode admirar o magnífico panorama da vila e da pitoresca paisagem que a rodeia, avistando-se para nascente e sul as terras distantes da Extremadura espanhola até às serranias de Zagala, de Montanchez, de Hornachos, de S. Benito, de Barcarrota, de Matacebada, de Alor e todas as alturas que enquadram a extensa veiga do Guadiana, bem como os plainos da província de Badajoz, de onde emergem, bem visíveis, em dias de boa visibilidade, as povoações de Albuquerque, Montijo, Lobon, Pueblo de la Calzada, Almendralejo, Valverde de Leganes, Olivença e outros “pueblos” de menor importância.

 

III - A RESTAURÇÃO DA VILA

O castelo foi reconstruido com novas formas e em novas dimensões. Como elemento essencial foi construído um castelejo rodeado de muralhas e de torres, ostentando a torre voltada a norte uma artística janela, talvez salva da destruição, que alguns têm atribuido ao artista normando Nicolas Chanterene que desenvolveu grande parte da sua obra em Portugal, entre os anos de 1517 e 1551, ou seja, no reinado de D. João III.

A actual Igreja Matriz, de invocação de Nossa Senhora da Conceição, de planta cruciforme, cuja construção terá sido iniciada no último quartel do século XVI, é obra robusta e magestosa que alguns atribuem a Manuel Pires, famoso mestre de pedraria do cardeal-rei D. Henrique, cuja acção continuou sob o domínio filipino, sendo autor dos planos de outras igrejas em terras do Alentejo, como Estremoz e Évora. Mas, só ficou concluída após a Restauração de 1640. As cúpulas em forma de pirâmides quadrangulares que cobriam as torres sineiras foram detruídas pelas pedras lançadas pela explosão que as atingiram, bem como às abóbadas das naves e do côro que ficaram parcialmente destruídas. Aquando da restauração da igreja foram substituídas pelas que agora apresentam, em forma de calote esférica.

O adro que fica no lado oriental desta igreja, é rodeado pelas três capelas: a Capela do Calvário, que tem um monumental altar, a Capela das Almas do Purgatório e a Capela dos Ossos, toda revestida de ossos humanos, como a do Convento de S. Francisco, em Évora, mas menos espaçosa e ostentando uma legenda algo macabra, lembrando: Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.

A curiosa e original igreja barroca de S. João Baptista, em planta do tipo de “igreja salão”, (allen Kirchen) de uma só nave, é muito rica em mármores que revestem toda a fachada exterior e as paredes no interior e tem os seus altares decorados por talha dourada e por panéis pintados, com algum valor artístico. Esta igreja teve de ser construída de novo depois da explosão, pois que, estando a ser restaurada dos danos sofridos pelos bombardeamentos durante o cerco de 1712, ficou de novo muito destruída por efeito das pedras lançadas pela explosão, que a atingiram em 1732. Por isso, D. João V ordenou a sua reconstrução.

 

Convém também referir, a denominada “Casa da Mitra”, onde os bispos de Elvas costumavam permancer. Fica na Rua 13 de Dezembro, popularmente chamada Rua da Canada e que ostenta uma artística grade de ferro, um dos especímenes mais artísticos e aprimorados que se podem admirar no Alentejo, a par de outros que se podem admirar em Portalegre, em Marvão e em Borba e que têm alguma semelhança com os que se vêem, em Espanha - na Extremadura e na Andaluzia -, terras que possuem um notável recheio de  artísticos trabalhos em ferro forjado.                                                      

Não muito longe da vila, há certos recantos que merecem ser apreciados, merecendo destaque a pitoresca e bucólica “Quinta da Raínha”, com o seu amplo pátio, os seus jardins, a fonte em cascata, com a sua escultura em mármore representando Neptuno, os caminhos ensombrados de buxo e engrinaldados de trepadeiras e roseiras, o vetusto solar que, com o seu torreão, coroado por ameias e merlões, que permitem atribuir a sua fundação ao séc. XVI, embora tendo depois sofridos grandes alterações.

Por estas e por mais algumas razões, Campo Maior pode e deve ser considerado um ponto de passagem quase obrigatório para os turístas, nacionais ou estrangeiros que pretendam conhecer melhor o nosso país.

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Sábado, 20 de Maio de 2017

CAMPO MAIOR – A CATÁSTROFE DE 1732

Por Frei Manuel de Figueiredo:

 Eremita Augustiniano, cronista da sua província (Ordem), e muito acreditado pregador no seu tempo, de seu nome António Dias da Silva e Figueiredo, foi natural de Campo Maior e morreu no Convento da Graça de Lisboa a 19 de Novembro de 1774.

Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, na sua obra "DESTRUIÇÃO DA VILA DE CAMPO MAIOR", pág. 140, "entre os feridos de mais nome (..) o Padre Frey Manoel de Figueyredo, religioso de Santo Agostinho e Prior que foi no seu Convento da Graça, em Lisboa.

Estava de visita à sua família, em Campo Maior, quando se deu a explosão do paiol na torre de menagem, provocando uma terrível destruição em Campo Maior. Testemunhou, portanto, por vivência directa,  o trágico acontecimento que descreveu neste documento por si publicado em Lisboa, com o seguinte título:

“Notícia do lastimoso estrago, que na madrugada do dia 16 de Settembro, deste presente anno de 1732, padeceu a Villa de Campo-Maior, causado pelo incêndio, com que hum raio, cahindo no armazém da pólvora, arruinou as torres do castello, e com ellas as casas da Villa. Escrita por António Dias da Sylva, e Figueiredo, natural da mesma Villa”, Lisboa Oriental, na Officina Augustiniana, 1732

Encontrei este documento, por mero acaso, na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, numa das minhas pesquizas de documentos que contivessem informações sobre personagens e factos da história  de Campo Maior. Nunca tinha visto qualquer referência que lhe tivesse sido feita. Mas, no meu entender, por ser um testemunho presenciado directamento por quem a ele assistiu ao vivo, constitui, com o de Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, outro testemunho directo, uma descrição muito realista e absolutamente credível desta terrível tragédia.

Creio que este texto foi pela primeira vez, por mim publicado in, "Alem Caia", em 18 de Outubro de 2016.

Vejamos como o nosso conterrâneo Frei Manuel de Figueiredo descreveu os factos a que assistiu, actualizando a escrita e introduzindo algumas notas para facilitar a sua compreensão.

Como orador afamado e escritor experimentado que era, a sua descrição é impressiva, muito viva e muito pormenorizada. O texto, ainda que algo extenso, é um documento de tal valor que não deve ser ignorado por quem se interessar por estes acontecimentos.

 

"Desde o dia 14 de Setembro começou o céu a dispor-se para este estrago, encapotando-se na primeira noite os ares e fuzilando com alguns relâmpagos os quais, acompanhados de trovões, causaram muitos sustos, mas que não passaram de ameaços.

 Chegou enfim a tristíssima noite de dia 15 que havia de reduzir a cinzas aquela máquina (refere-se ao castelo) que, por quase cinco séculos, resistiu às injúrias do tempo e aos combates da guerra. Principiou com a carranca dos ares a atemorizar os corações, anunciando-lhes com alguns trovões a ruína em que, daí a poucas horas, se haviam de encontrar sepultados.

Seriam as 3 horas da madrugada quando, cruzando-se duas trovoadas, uma da parte do Poente, outra da parte do Meio-Dia, fizeram despertar com horríveis trovões os moradores. Quase uma hora durou o horror da tormenta em que as duas trovoadas pareciam travar um combate disputando qual delas devia assolar a vila. Até que, unindo as suas forças num horrível estampido, saiu de uma nuvem o fogo que tinha sido concebido por tamanha ira. Caiu o raio na torre maior, ignorando-se de que parte a feriu. Uniu-se o fogo vindo do céu ao da terra quando rebentaram as bombas, granadas e pólvora que se guardava no interior da torre. Havia nela 5.732 arrobas e 6 arráteis de pólvora, 4.816 granadas ordinárias, 830 granadas reais, 711 bombas, 2.575 granadas desatacadas. Tudo isto com o seu impulso deu ruína ao castelo e sepultura à vila.

Ateando-se o fogo do raio, em tanta, tão arrumada e tão activa matéria, arrancou dos alicerces a torre de menagem e com ela mais quatro das seis torres pequenas. A este estrago seguiu-se o da vila: primeiro pelo impulso violento da explosão; depois pelo chuveiro de pedras, algumas de notável grandeza, despedidas do castelo arruinado.

Com o repentino abalo e ruína de suas casas, os assustados moradores que ficaram vivos pensaram, cada um deles, que era apenas o seu estrago particular, ou seja, o que um raio tinha feito na sua própria casa. Até que clamando uns por misericórdia, outros por confissão e outros por socorro, entenderam que se não podiam valer uns aos outros porque a ruína era de todos. Mas, no princípio, no meio da confusão e do horror, ignoravam qual tivesse sido verdadeiramente a causa.

O impulso foi tão violento que as casas caíram ao mesmo tempo parecendo que disputavam umas às outras o terreno para se derrubarem. Ficaram arruinadas 840 casas e mesmo as poucas que resistiram ao estrago, tiveram seu dano em telhados e portas. Foi tal o impulso que, mesmo as portas que não estavam voltadas para o castelo, foram violentamente arrancadas das suas ombreiras. Serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficaram de pé o grande edifício da Igreja Matriz que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abóbada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abóbadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto.

O mais sensível estrago foi o que padeceu a Igreja, Convento e Hospital de S. João de Deus, onde não ficou casa alguma que não padecesse ruína. Mas o mais lamentável foi o que ofendeu o mais sagrado. Porque, caindo o tecto da Igreja e quebrando o Sacrário onde estava o Santíssimo, se achou a Ambula 1] fora do seu lugar e as formas consagradas caídas em terra e despedaçadas, ainda que juntas debaixo da hóstia grande que ficou inteira.

A Misericórdia e Hospital desta vila também tiveram o seu dano. (Referência ás antigas instalações que ficavam na rua e largo do mesmo nome).

Maior dano experimentou o Convento de São Francisco, onde não ficou porta inteira, nem mesmo a mais interior, abrindo grandes roturas nas suas abobadas as muitas e grandes pedras que sobre elas caíram. Arruinou-se também o frontispício da sua Igreja, obra recém acabada, caindo em terra a imagem de Santo António que estava nesse frontispício, tendo caído os pedaços na cabeça de um pobre homem que procurava refúgio no espaço sagrado da Igreja, provocando-lhe a morte.

Como a veneranda imagem do grande Baptista estava depositada na pública capela, que tem nas suas casas o governador desta praça, por estar demolida a Igreja do Santo, devido ao projecto de se edificar uma nova, maior e de melhor arquitectura, foi aquela capela a única que foi respeitada pela ira do céu, pois que, caindo grandes pedras nas casas do governador, com grande dano, nem de leve elas ofenderam o lugar onde estava o Santo, ficando ilesa toda aquela numerosa família do governador. Benefício que também experimentaram todos os irmãos que, no presente ano, servem na mesa do Santo.

Confessamos que também a Ermida do invicto Mártir S. Sebastião, que está num baluarte da muralha, não sofreu ruína, mas não é tão notável o prodígio, por ficar numa parte para onde não se encaminhou o ímpeto da explosão.

Dentro do próprio castelo, sofreram ruína os “armazéns de outras provisões de guerra” e ainda duas torres que ficaram em pé, sofreram seu dano ficando descoberta uma que conservava em si alguns barris de pólvora, os quais não rebentaram. Também ficou isenta de estrago uma pequena capela que a devoção dos moradores desta vila tinha erigido a uma pintura do Padre Eterno, que se achou quando se demoliu a antiga Igreja que fora matriz desta vila e que depois foi, por alguns anos, ocupada pelos religiosos de S. Francisco. Esta imagem é muito venerada pelos frequentes prodígios que obra.

Ficaram também demolidas as casa da Câmara e a cadeia desta vila.

A fortificação sofreu seu dano, principalmente nas portas da Praça que, sendo fortíssimas, foram arrancadas como impulso da explosão. Tão activa foi ela que, estando três canhões desmontados e quase subterrados junto do reduto,2] arrancou dois do chão e arrojou-os para fora das muralhas. O mesmo sucedeu a dois morteiros que estavam junto da porta do castelo.

Mesmo à distância de quatro léguas se fez sentir o efeito da explosão, pois os moradores de Arronches e Albuquerque deram notícia de terem sentido, nessa hora, um extraordinário abalo nas suas casas.

Observou-se que, todas as boticas que há nesta vila, ficaram isentas de estrago, havendo mesmo algumas que não sofreram dano apesar de ter caído o tecto das casas em que estavam. Parece que o Céu, depois de dar o golpe para nossa emenda, teve providência em conservar ilesos os remédios para a cura. Assim se conjectura que, apesar de ter desembainhado a espada, não descarregou o seu golpe com toda a violência. Porque, sem tantos prodígios, não podiam tantos ter escapado com vida no meio da total ruína das suas casas. Apesar de ter havido famílias inteiras em que todos ficaram mortos, foi muito maior o número dos que saíram das mesmas ruínas sem qualquer lesão, causando admiração o modo como, sem advertência, evitaram o perigo.

Não se pode averiguar o número certo das pessoas que morreram nestas ruínas. Alguns estimam que tenham sido mais de duzentas. As de que temos certa notícia pelo distribuidor da Igreja, são as seguintes:

- Na Igreja Matriz enterraram-se 76 pessoas de comunhão e 28 crianças pequenas;

- No Convento de S. Francisco, 17 crianças pequenas;

- No Hospital de S. João de Deus, 6 soldados e uma criança pequena;

- Na Misericórdia, enterrou-se apenas o seu provedor Francisco Pires Cotão que foi a pessoa principal diante do Regimento de Cavalaria; e um sargento de Infantaria;

- Morreu também um religioso de S. João de Deus, chamado Frei José de Santa Catarina, sacerdote, confessor, a quem, partindo-lhe uma pedra a cabeça e lançando-lhe fora os miolos, não rompeu a túnica em que estavam metidos, de sorte que, pondo-lhos outro religioso no seu lugar e unindo-lhe a cabeça, ficou tão composto como se não tivesse lesão alguma; era religioso de vida exemplar;

- No Convento de S. Francisco morreram 3 dos monges que estavam orando no coro: o padre Frei Pedro de S. Boaventura, pregador, que logo ficou morto; o padre pregador Frei António das Chagas, que ainda pôde receber a extrema-unção; o padre confessor Frei António de S. Faustino, a quem uma pedra quebrou ambas as pernas e molestou de sorte que durou poucas horas. Ficaram gravemente feridos mais três religiosos da mesma comunidade;

- Morreu também o padre Domingos Gonçalves Pires, mestre de latim nesta vila, de idade de quase 70 anos, mas em todos de tão justificado procedimento que, desde menino, se não soube dele nem a mais leve verdura.

- E, fazendo-se reflexão sobre todas as pessoas que morreram, acha-se serem quase todas elas timoratas e de boa consciência. E, observou-se em especial que se achava coberto de cilício o corpo de uma bem morigerada donzela que morreu nesta desgraça.

Estes são os mortos de que se fez especial memória, mas, fora deles, se enterraram muitos outros, alguns pela piedade de seus parentes e amigos, de que se não pode saber o número certo, porque a mesma piedade que o fazia o ocultaria.

Sabe-se, contudo, (e pode este número acrescentar-se ao dos mortos) que, constando ao Doutor Juiz de Fora que passavam de 20 os mortos que, no segundo dia, estavam no hospital da vila e que os seus cadáveres tinham corrupção, os mandou conduzir e sepultar à sua custa, a cujo enterro assistiram clérigos castelhanos.

Além disso, teme-se que estejam alguns sepultados nas ruínas das suas casas, como sucedeu a uma menina de tenra idade, a qual, depois de 4 dias foi desenterrada, mas ainda viva e que ainda hoje existe.

Os mais gravemente feridos, que ainda hoje se estão curando, são 302, sendo incomparavelmente maior o número dos feridos leves que não chegaram às mãos do cirurgião e outros que procuraram remédio nas terras circunvizinhas, buscando amparo de parentes e amigos, cujo número, prudentemente, se conjectura chegar aos 2.000 3]  

       ------------------------------------------

[1] Ambula – recipiente para guardar os santos óleos.

[2] Reduto – recinto fechado dentro de uma fortaleza que servia como último ponto de resistência. Por vezes é designado como o castelejo.

[3] Estêvão da Gama de Moura e Azevedo refere 256 mortos, entre pessoas grandes e pequenas e mais de dois mil feridos.Segundo o seu testemunho, a explosão provocou o desmoronamento de 836 das 1.076 moradas de casa que então existiam na vila.

 

 



publicado por Francisco Galego às 08:04
Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

ESTEVÃO DA GAMA DE MOURA E AZEVEDO, sendo nesse tempo o governador militar desta praça  de guerra, narrou  a tremenda catástrofe que testemunhou directamente. De forma muito significativa, este autor deu ao texto em que  relata o efeito que nele provocou este terrivel acontecimento, o titulo de Destruição da vila de Campo Maior, no incêndio que teve. Este texto foi incluido na obra NOTÍCIAS DA ANTIBUIDADE E ESTADO DA VILA DE CAMPO MAIOR (...), com organização, introdução, biografia, transcrição e notas de Rui Rosado Vieira, publicada em 1993, em edição promovida pela Câmara Municipal de Campo Maior. (Pág.s 135 a 141).
 Neste texto, o autor começa por nos informar da estrutura da torre, cujo rebentamento deu origem a este trágico acontecimento de que relata depois os efeitos mais dranáticos que provocou.

 

Esta torre tinha uma cisterna no primeiro pavimento; no segundo, uma casa e, nas quatro paredes dela, quatro capelas, e no terceiro pavimento outra casa. A cisterna não recebia água havia muitos anos e na segunda casa estava a pólvora em barris. Para maior segurança, a porta de entrada estava tapada com pedra e cal.

O ano de 1712, em que foi sitiada esta Praça pelo exército castelhano e nós a governávamos, mostrou a experiência que era à prova de bomba, porque, caindo nela nove bombas de 16 arrobas cada uma (cerca de 80 kg), as expulsou fora sem lhe fazerem o menor dano. Por esta causa se fazia a maior confiança deste lugar para a segurança de tão preciosa coisa para a defesa das praças,

Achava-se nela a porção de 5.743 arrobas e 6 arrates (cerca de 86 toneladas de pólvora) e, na última casa, 4.800 granadas muitas delas reais (ou seja, para  serem lançadas por peças de artilharia) , e outras de mão, que tudo rebentou ao mesmo tempo e estas foram as que fizeram maior dano no telhados, no Bairro de S. João e no Largo das Estalagens (actual Largo do Barata, popularmente chmado Largo do Assento).

Era a torre toda de pedraria grossa, assim por fora como por dentro e as abóbadas, das nove ruas que tinha, eram também de pedra de enchilaria (ou seja, de silharia = pedra aparelhada) sem que entrasse ali outro material.

Foi tal o impulso da pólvora, que arrancou a torre dos seus alicerces e a desfez em miúdos pedaços e juntamente todo o muro do Castelo que, sendo obra muito antiga, lhe não valeu a sua fortaleza, antes a muita fortaleza que tinha a torre foi a causa de maior estrago que padeceu este infeliz povo (…)

 Com a trovoada, que algumas horas antes principiara medonha, estavam os moradores já despertos e implorando a clemência divina. Ao estrondo da pólvora e da torre, caíram 836 moradas de casas das 1.076 de que se compunha a povoação e as outras ficaram sem telhados e nenhuma sem ruína.

 “Entre grandes e pequenas, morreram 256 pessoas e ficaram feridas mais de duas mil”.

Arruinou-se o coro e o frontispício da Igreja Matriz, algumas das suas abóbadas e colunas, quebraram-se todas as portas e algumas imagens.

Arruinou-se o Convento de S. Francisco. Não caiu a sua Igreja, mas o frontispício dela, algumas celas e a cerca, padeceram grande estrago.

Arruinou-se, em parte, o Convento de S. João de Deus e o Hospital, inteiramente, de sorte que os religiosos foram para a Rua da Canada… e os enfermos para a guarda de S. Francisco, donde ficaram se curando.

Arruinou-se o Hospital da Misericórdia (o antigo, situado na rua do mesmo nome), mas não a sua Igreja, só as portas e janelas se fizeram em pedaços

Arruinou-se a Igrejinha do castelo, mas a capelinha em que está o Senhor ficou sem lesão.

A milagrosa imagem de S. João Baptista que estava depositada numa Ermida do Governador Estêvão da Gama, não teve ruína nenhuma e, padecendo-a as próprias casas (do palácio) nada aconteceu às que estavam contíguas à Ermida. (…)

Deu-se conta a El-rei D. João V, Nosso Senhor, o qual mandou logo pela posta o seu cirurgião José Ricolth, com medicamentos e ordem para que se curassem todos os feridos. Mas, antes que este chegasse, tinha o Conde de Alva mandado quatro cargas de botica, para que se assistisse com ela a todos os feridos desta fatalidade.

O Cabido de Elvas mandou logo dois cónegos com 100 moedas de 4.800 (réis) cada uma, para socorrerem os necessitados… os quais erigiram um hospital nas casas da Mitra(casas do bispo de Elvas, na rua da Canada) para que nele se recolhessem todos os pobres necessitados, a quem assistem 6 religiosos capuchos do Convento de Elvas …

Mandou sua majestade 200 moedas de ouro para se repartirem pelos pobres… Os padres de S. Domingos de Elvas mandaram repartir pela pobreza 740 pães, 12 carneiros e uma carga de vinho. Os padres da Companhia da mesma cidade mandaram duas cargas de azeite e algum dinheiro…

Mandaram-se vir 75 soldados de Elvas e 75 de Olivença, para trabalharem no desentulho do Castelo.

Sua Majestade mandou 20 mil cruzados para limpeza das ruínas que embaraçavam as ruas e para se irem reedificando algumas casas dos pobres que, por falta delas, se tinham ausentado (algumas famílias foram para Albuquerque e para outras povoações vizinhas). Mandou-se fazer a avaliação de todas as casas arruinadas, por Diogo Pereira, empreiteiro que tinha sido das obras da fortificação… achou este que, pelo que tocava às casas dos moradores, importava em cento e vinte e oito mil cruzados; mas, entrando neste negócio más inteligências, foram-se as coisas pondo de tal modo, que não mandou Sua Majestade mais nenhuma ajuda de custo. E ficaram muitos moradores sem ela… os que se chamavam ricos ficaram sem ajuda nenhuma.

Mas El-Rei aliviou o Povo, por 10 anos, do tributo de 4 e meio por 100 e do cabeção. E mandou aplicar a terça do concelho para reedificação da Igreja Matriz e dar o acréscimo do depósito comum e 400 moios de trigo para se fazer uma Praça Nova, Casas da Câmara, Açougues e Cadeia, nos quintais que há entre a Rua da Canada e a do Manantio, com entradas para estas duas ruas e para a de S. Pedro, cuja obra se deve principiar.

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sexta-feira, 12 de Maio de 2017

 

Os documentos que podemos utilizar para recolha de informações úteis e necessárias para a elaboração do conhecimento histórico, são dos mais variados tipos e, consoante a perspectiva e a estratégia utilizadas para a sua leitura e análise, são susceptívies de múltiplas interpretações.

Aqui se apresenta a leitura estruturada que procurámos fazer da Planta da Praça de Campo Maior, elaborada para fins militares, pelo Real Corpo de Engenheiros, publicada em 1817, em folha de 94 x 62 cm.

Para melhor organização da sua leitura, optou-se por constituir duas zonas representadas na Planta, para que, cada uma delas, correspondesse às fases de crescimento da vila, desde o início do séc. XIV até ao início do Séc. XIX.

As informações contidas no documento em análise foram organizadas por categorias que facilitassem, a sua leitura, o seu registo e a sua descrição.

 

SECTOR 1:

Esta é primeira área de crescimento da vila, nos séculos XIV, XV e XVI. Extravasando as muralhas do castelo medieval que abrigavam a “Vila Velha”, uma nova parte da vila vai alastrar descendo pela encosta, desde uma primeira radial formada pelas ruas da Barreira e da  Soalheira (ou, segundo a "Planta", rua da Cadeia) até uma nova radial formada por:  Rua das Poças, Rua da Misericórdia,  Rua do Paço e  Largo da Alagoa. Esta nova radial terá começado a ser ultrassada no século XVI, devido ao  crescimento de novas ruas para a zona oriental da malha urbana representada na "Planta".

 Vejamos o que a "Planta" nos apresenta este Sector 1, lendo e anotando de Norte  para Sul : 

Ruas e Largos:

  1. Largo da Alagoa; 2. Calçada da Costanilha; 3. Rua da Galega; 4. Ruinha; 5. Calçada da Aldeia de Pastor; 6. Praça Velha; 7. Rua do Castelo; 8. Rua da Cadeia (ou Barreira); 9. Rua da Soalheira; 10. Calçada Nova; 11. Calçada Vasco Romão; 12. Rua dos Forneiros; 13. Calçada da Misericórdia; 14. Calçada da Praça; 15. Rua Direita; 16. Rua da Estalagem Velha; 17. Largo da Porta Falsa.

Elementos destacados:

  1. Castelo; 2. Igreja da Misericórdia; 3. Igreja e Convento de S. Francisco; 4.. Assento (noutros documentos, designado como Assento das Provisões de Boca); 5. Meio-baluarte de Lisboa; 6. Meio-baluarte do Curral dos Coelhos; 7. Baluarte de Santa Cruz; 8. Meio-baluarte de S. Sebastião; 9. Ermida de S. Sebastião; 10.  Baluarte da Boa-Vista; 11. Meio-baluarte de Santa Rosa. Porta da Vila (ou Porta de Santa Maria); Porta Falsa (ou Poterna).

Extramuros:

  1. Luneta de Parquer (também designada noutros documentos como Forte de Schomberg ou Forte do Cachimbo); 2. Quinta do Prior; 3. Revelim da Porta da Vila; 4. Revelim da Boa-Vista; 5. Revelim de Santa Rosa;  6. Estradas para Elvas. 7. Estradas para Espanha (Badajoz).

 

SECTOR 2.

Numa nova fase  que terá começado no século XVI, deu-se o crescimento para a zona oriental a partir da linha demarcada pela sequência de ruas que separam os dois sectores  da malha urbana da vila: Rua das Poças; Rua da Misericórdia; Rua do Paço; Largo da Alagoa.

 Torna-se importante tomar em consideração que a época anterior à data em que foi desenhada esta “Planta”, foi marcada por grandes acontecimentos dos quais se destacam:

- A Restauração da Independência de Portugal, apos a qual a vila transformou  numa forte Praça de Guerra, para defesa da fronteira, na expectativa das tentativas de invasão durante a guerra com a Espanha - A Guerra da Restauração -  que iria durar 28 anos, desde o 1º de Dezembro de 1640  até à assinatura do Tratado de Paz, em Madrid, em 5 de Janeiro de 1668. É a configuração da vila que resultou desta conjuntura que está representada na "Planta".

- As sucessivas guerras nos séculos XVII e XVIII que só irão terminar com a queda de Napoleão confirmada  no Congresso de Viena em 1815.

- No caso específico de Campo Maior há que referir, principalmente, os efeitos provocados pelo Cerco de 1712 que durou cerca de um mês, causando grandes destruições, a que se seguiu a terrível catástrofe que foi a explosão do paiol instalado na torre de menagem do antigo Castelo, em 1732. 

Foi, portanto, um período  de assinaláveis mudanças em que a vila foi afectada por graves problemas  e  grandes obras de restauração. 

Vejamos então o que falta ler e analisar neste precioso documento que é a "Planta Militar de 1817". Na leitura e análise deste “Sector 2”, procedeu-se  a uma observação da "Planta" feita  de Sul para Norte.

A leitura e análise desta parte oriental foi feita usando as mesma categorias utilizadas para o “Sector1”, antes analisado.

Ruas e Largos: Rua das Poças; Largo das Poças; Rua da Guarda de S. Francisco; Ruinha de Santo António; Rua da Fonte de Baixo; Rua da Fonte de Cima; Rua da Canadinha; Rua das Pereiras; Rua do Menantio; Praça Nova; Rua da Canada; Rua de S.Pedro; Rua da Mouraria; Rua da Carreira; Rua da Misericórdia; Terreio da Misericórdia; Rua Estreita; Largo da Matriz; Rua do Tenente-General; Largo da Carreira; Rua do Poderozo; Rua de S. João de Deus; Rua de S. João Baptista; Rua da Alagoa.

Elementos destacados: Igreja da Matriz; Porta da Carreira (também designada como Porta de S. Pedro, ou como Porta Nova); Igreja e Hospital de São João de Deus, Igreja de São João Baptista; Meio-baluarte de S. Francisco; Tanque, bebedouro e fonte do Largo das Poças; Baluarte da Fonte do Concelho; Meio-baluarte do Príncipe; Baluarte do Cavaleiro.  

Extramuros: Estradas para Badajoz; Forte de São João Baptista; Fonte das Negras; Estrada de S. Pedro; Estrada dos Tilheiros; Revelim do Lago; Fonte Nova; Revelim da Carreira.

 

 NOTA: Para complemento de leitura, ver também:

CAMPO MAIOR – NOMES DE RUAS ANTIGAS ( I ) http://alemcaia.blogs.sapo.pt/campo-maior-nomes-de-ruas-antigas-i-177503

CAMPO MAIOR – NOMES DE RUAS ( II ) http://alemcaia.blogs.sapo.pt/campo-maior-nomes-de-ruas-ii-177674

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 11:36
Quarta-feira, 10 de Maio de 2017

Para além da ameaça das invasões que deviam tentar evitar, autênticas tragédias ocorriam com lamentável frequência nas praças de guerra, entre os séculos XVI a XIX, numa altura em que eram muito frequentes as guerras entre as nações, em terra pela disputa da supremacia na Europa e, nos mares, pela posse dos domínios coloniais. Daí que as praças de guerra estivessem sempre muito providas dos meios necessários para enfrentarem qualquer tentiva de domínio por forças inimigas. Contudo, bastava qualquer manobra menos prudente, a propagação de qualquer incêndio, ou o efeito de inesperadas e violentas tempestades, para que as torres que albergavam os explosivos se tornassem tremendas bombas destruindo tudo em seu redor.

Para confirmação basta referir apenas algumas das que deixaram testemunho pela dimensão dos danos prrovocados:

          

JUROMENHA: - 1659 - Grande explosão do paiol de pólvora que destruiu a maior parte da fortaleza incluindo o antigo paço.

 MIRANDA DO DOURO -  A Alcáçova do castelo da cidade foi arrasada pela violenta explosão do paiol da pólvora em 8 de Maio de 1762 que destruiu uma grande parte do núcleo urbano.

TORRES VEDRAS: Em 1810, o Castelo passou a forte das Linhas de Torres e, em Dezembro de 1846, serviu de quartel as tropas do Conde de Bonfim, de que resultou o agravamento do seu estado de ruína provocado pela explosão do paiol da pólvora.

ALMEIDA: - No cerco de Almeida que ocorreu entre 15 e 28 de Agosto de 1810, no início da Terceira Invasão Francesa,  a praça forte de Almeida estava sob o comando do Coronel William Cox. As forças sitiantes estavam sob comando do Marechal Ney. Uma forte explosão no paiol deixou a praça sem meios de defesa.

É neste quadro que se insere a tragédia que desabou sobre CAMPO MAIOR em 1732.

 

CAMPO MAIOR - EXPLOSÃO DO ARMAZÉM DA PÓLVORA

 

16 DE SETEMBRO DE 1732

4 HORAS DA MADRUGADA

UMA TROVOADA ABATEU-SE SOBRE CAMPO MAIOR

UM RAIO CAIU SOBRE A TORRE QUE SERVIA DE PAIOL

DEU-SE UMA TREMENDA EXPLOSÃO

A TORRE DE MENAGEM DESFEZ-SE EM PEDAÇOS

UMA CHUVA DE PEDRAS CAIU SOBRE O POVOADO

A VILA FICOU QUASE COMPLETAMENTE DESTRUÍDA

JOÃO V ORDENOU A SUA RÁPIDA RESTAURAÇÃO

 

É do relato desta tragéia que tratam os textos que a seguir irão ser apresentados. Eles referem um dos momentos mais trágicos da história desta povoação.



publicado por Francisco Galego às 00:04
Sexta-feira, 05 de Maio de 2017

Na coluna de opinão “Qualidade de vida”, sob o título “O MAL PELA RAIZ”, publicado, no Semanário “Expresso” de 29 de Abril de 2017, na página 17 do “Primeiro Caderno”, Luísa Schmidt chama a atenção para o problema da necessidade urgente de protecção do património florestal, assunto sobre o qual também já aqui escrevi, manifestando as minhas preocupações sobre esta questão.

A autora deste artigo refere, como exemplos, casos recentemente denunciados:

            - O arranque de centenas de árvores autóctones centenárias, no Parque Natural da Ria Formosa, no Algarve, para se construirem umas estufas, caso denunciado e interrompido pelas autoridades;

            - O anunciado arranque de mais de um milhar de árvores – pinheiros e ciprestes – no Parque Natural da Serra de Sintra, ao longo da estrada entre Malveira da Serra e a Lagoa Azul, alegando estarem velhas e doentes, embora os especialistas afirmem o seu bom estado, o que aponta para a ganância dos bons lucros com a venda das madeiras;

            - O brutal arranque de árvores na serra da Freita, em plena Rede Natura, que já fora flagelada pelos incêndios.

Perante isto, a autora do artigo interroga:

O que se passa em Portugal para que se continue a vandalizar o património florestal que ainda resta? Já não bastavam o fogo e as doenças. É também, a ganância, o abuso arrogante e a lastimável incapacidade da Administração Pública para cuidar do bem comum.

Refere também que “o Instituto da Conservação da Natureza... se mantém mudo e quedo” apesar das numerosas petições para salvação das árvores, contrapondo a  exemplar acção da Câmara de Arouca ao promover a reflorestação com espécies autóctones e lamentando a desproporção entre o muito pouco que se replanta e a enormidade do muito que se destrói.

Termina com uma tímida expectativa: Resta a ténue esperança dos movimentos cívicos que se têm oposto a toda esta destruição e só se espera que eles ganhem raízes, ramos e folhas.   

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Eu, porque às vezes sou tentado a pensar que, em vez de progredirmos, estamos a regredir, acrescento da minha lavra que deveríamos tomar em consideração o que é recomendado neste texto publicado no jornal “O Transtagano”, (PERIÓDICO DE INTERESSES MORAIS E ECONÓMICOS DA PROVÍNCIA), Elvas, nº 5, de 17 de Maio de 1860, ou seja, há 157 anos:

Arvoredos

“Se as câmaras municipais estabelecessem prémios para os plantadores e criadores de arvoredos, se mandassem plantar em todas as margens de rios e ribeiras… veríamos em breve melhorarem as condições e salubridade da nossa árida província…

À ilustrada câmara de Campo Maior recomendamos a Margem esquerda da ribeira de Caia e, sobretudo, a área compreendida na extensão das duas herdades denominadas as Godinhas, porque, pertencendo tais herdades ao município e arrendando-as a câmara em hasta pública, pode adicionar ao seu contrato a condição de arborização daquela margem da ribeira.”

Pois é! Muitas vezes o "Passado", pode e deve ser tomado como sábio mestre pelo "Presente".

 



publicado por Francisco Galego às 00:03
Terça-feira, 02 de Maio de 2017

 

Quem leu o "Post" anterior, poderá fazer uma ideia do valor histórico e documental do texto que a seguir se transcreve.

Torna-se necessário chamar a atenção para o seguinte: A Casa do Povo de Campo Maior que aqui se refere, era uma cooperativa dos trabalhadores de Campo Maior, por eles fundada e gerida. Nasceu como sucursal da Casa do Povo de Lisboa, que tinha a sua sede na Rua da Mouraria daquela cidade. A iniciativa de criação destas cooperativas era de um partido então existente que se chamava "Partido Socialista Português", que era mal tolerado pelos salazaristas que não pararam de lhe mover encarniçada perseguição.

Também a cooperativa Casa do Povo de Campo Maior foi alvo de perseguições. Alguns dos seus dirigentes foram presos, tendo parte deles sido levados a tribunal. Foram desencadeadas campanhas caluniosas, contra os seus dirigentes, nos jornais que apoiavam o governo, acabando  por resultar dessa perseguição que, a cooperativa que fora criada em finais de 1932 e inaugurada em 11 de Janeiro de 1933, se visse compelida ao seu encerramento e dissolução, em 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1933. Os salazaristas vieriam a fundar um outro organismo, com o mesmo nome de Casa do Povo de Campo Maior, mas de diferentes objectivos, orientada por outros principios e com finalidades, não de comparticipação cooperativista, mas de centralismo corporativista, de acordo com a ideologia do Estado Novo. É nesta conjuntura e neste contexto que convém avaliar o significado do documento que se transcreve e que descreve o primeiro 1º de Maio celebrado em Campo Maior com manifestação de apoio popular:

A forma como decorreram as Festas do 1º de Maio levadas a efeito por esta comissão.

Eram vinte horas e meia quando a filarmónica local regida pelo hábil regente Senhor José Matias Branco, depois de percorrer algumas ruas desta localidade, se dirigiu à sede desta casa aonde cumprimentou a Comissão Organizadora desta casa, tocando o hino “Primeiro de Maio”, sendo saudada por esta comissão e cerca de mil sócios desta casa, que se achavam presentes, com uma entusiástica salva de palmas. Em seguida iniciou-se a marcha através das ruas desta vila aonde se encontravam cerca de quatro mil pessoas, na sua maior parte trabalhadores rurais, sócios desta casa. Dirigiu-se então aos Paços do Concelho aonde a comissão organizadora foi cumprimentar a autoridade administrativa e a Comissão “Pró Campo Maior”. Usou então da palavra o companheiro Sardinha, Presidente da Comissão Organizadora da Casa do Povo, que saudou a autoridade administrativa e Comissão “Pró Campo Maior”. A autoridade administrativa pediu, em nome dos trabalhadores de Campo Maior, o cumprimento integral das leis, do horário de trabalho, do descanso semanal e da protecção às mulheres e menores nos trabalhos agrícolas e que o acompanhassem em dois vivas: um à Comissão “Pró Campo Maior” e outro aos trabalhadores portugueses. Em seguida, usou da palavra o presidente da comissão já referida, Senhor José Augusto Corte Real Mascarenhas que, agradecendo o cumprimento, lamentou que, aquela comissão, pouco ou nada tivesse feito, mas que era seu desejo fazer muito, mas para isso contava com o concurso de todos os campomaiorenses. Deu por findo o seu discurso, sendo muito ovacionado com uma salva de palmas. Usou então da palavra o administrador do Concelho, Senhor Domingos Calado Branco, que disse congratular-se com a feição que o problema social ia tomando em Campo Maior. Depois de fazer várias considerações sobre o problema social, a Comissão “Pró Campo Maior”, terminou bradando um viva à dita comissão e outro aos trabalhadores de Campo Maior, sendo delirantemente ovacionado. Fez-se então o desfile pelas principais ruas desta vila aonde se incorporavam cerca de mil pessoas, vendo-se nas portas e janelas o elemento feminino que saudava o Primeiro de Maio com luminárias. Ao chegar-se novamente à sede desta casa tocou a filarmónica outra vez o hino “Primeiro de Maio", sendo entusiasticamente aplaudido com uma salva de palmas. Pelas vinte e três horas, realizou-se uma sessão solene. Depois de tocado o hino usou da palavra o companheiro Sardinha que, na qualidade de Presidente da Casa, convidou o companheiro Costal para presidir à “mesa”. Este companheiro, depois de saudar os sócios da Casa do Povo, lamentou que não tivesse competência para tão honroso cargo, mas que aceitava, certo de que todos os companheiros o desculpariam se os trabalhos não fossem orientados como era seu desejo. Convidou para o secretariar os companheiros Francisco Leonardo da Casa do Povo de Santa Eulália que veio expressamente a esta localidade assistir à manifestação e Manuel Augusto Rondão. Deu em seguida a palavra ao companheiro Chagas que depois de saudar os companheiros presentes e todos os trabalhadores internacionais, pediu um minuto de silêncio em memória dos mártires de Chicago e dissertou sobre as origens do Primeiro de Maio e o massacre dos operários de Chicago pela polícia daquela cidade. Ao terminar pediu à assistência que o acompanhasse num viva aos trabalhadores internacionais, sendo delirantemente aplaudido pela assistência e sinceramente felicitado pelos companheiros da Comissão Organizadora. Em seguida, o presidente da mesa deu a palavra ao companheiro Sardinha, que dissertou sobre o Primeiro de Maio na Europa e em Portugal, pedindo dois minutos de silêncio, um pela memória do falecido ministro do trabalho socialista Augusto Dias da Silva e outro pela memória do nosso chorado companheiro Manuel Lavadinho Mourato. Terminou saudando a Casa do Povo de Lisboa, os companheiros presentes e aqueles que pelos afazeres da sua vida profissional não podiam estar ali, assim como a filarmónica local e os trabalhadores de Portugal, sendo muito ovacionado. Foi então dada a palavra ao companheiro Pinto que lastimou que os poderes públicos não tenham nunca olhado pela classe dos trabalhadores rurais e terminou pedindo pão para os famintos, trabalho para os que mendigam e liberdade para todos, sendo entusiasticamente aplaudido. Usou da palavra ao presidente da mesa, que agradeceu a boa ordem e compostura de que a assistência deu provas, durante o decorrer da sessão, sendo esta encerrada em seguida, eram doze horas, tocando o hino a filarmónica local. Resolveu-se também exarar um voto de louvor aos trabalhadores de Campo Maior pela forma como se conduziram no decorrer da manifestação, assim como à filarmónica local e ao seu regente Senhor José Matias Branco.

(CASA DO POVO DE CAMPO MAIOR - Acta da sessão extraordinária – 1º de Maio de 1933)



publicado por Francisco Galego às 00:02
Domingo, 30 de Abril de 2017

O 1º de Maio é a festa universal do trabalho, determinada no CONGRESSO INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES, em Julho de 1889.

A partir de 1892, a festa operária do 1º de Maio já era celebrada em alguns países por todo o mundo, principalmente dos que estavam mais industrializados.

Em Portugal o 1º de Maio começou a celebrar-se logo em 1890. Até à Ditadura Militar e ao Estado Novo que se lhe seguiu, foi anualmente celebrado nas terras onde existiam núcleos de operariado, sendo considerado dia de descanso para os operários. Apesar da má vontade, dos obstáculos levantados pelo governo e da perseguição  violenta, com confrontos de rua com as polícias, havia  manifestações, principalmente em Lisboa. As celebrações mantiveram-se ao longo dos anos da ditadura em algumas cidades e vilas onde o núcleo operário tinha presença significativa. Mesmo em povoações do interior com forte industrilização, implantou-se a celebração desta data, como na cidade da Covilhã e na vila do Crato, sendo que nesta, o dia se tornou mesmo, feriado municipal. Mudou depois e, actualmente, o feriado municipal, é na 2ª-feira de Páscoa.

Em Campo Maior, terra onde perdominava o campesinato, foi criada uma cooperativa de trabalhadores designada como Casa do Povo de Campo Maior, como sucursal de uma homónima existente na Mouraria, em Lisboa e de outra na cidade do Porto. Este movimento cooperativista começara na Suécia, tendo-se rapidamente expandido a outros países.

 A Casa do Povo de Campo Maior, criada em finais de 1932 e inaugurada em 11 de Janeiro de 1933. Teve uma existência curta e atribulada e, devido às perseguições de que foi alvo, viu-se compelida ao encerramento e dissolução, em 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1933. Contudo, o seu sucesso fora tão rápido e tão grande que os salazaristas viriam a fundar outro organismo, com o mesmo nome de Casa do Povo de Campo Maior, mas com diferentes objectivos, orientada por outros principios e com finalidades, não cooperativistas, mas corporativistas, de acordo com a ideologia do Estado Novo, logo, sem automonia e  controlada pelo governo central. Este tipo de organização foi-se depois expandindo por todo o país.

Em Campo Maior, foi a referida cooperativa que, no curto tempo da sua existência, celebrou com uma grande manifestação, em desfile pelas ruas da vila, no 1º de Maio de 1933, com grande adesão e contentamento da população. Mas, a curta existência e a má vontade do poder instituido, não propiciaram dar continuidade a esta celebração, para que se tornasse uma tradição.

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Nota: Para maior conhecimento, consultar - 

http://alemcaia.blogs.sapo.pt/45350.html

http://alemcaia.blogs.sapo.pt/45128.html

 

 

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publicado por Francisco Galego às 07:57
Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

Comboio misto de todas as classes

Lisboa                                   7.30   partida

Crato                                     2.57

Portalegre                              3.36

Assumar                                3.59

Santa Eulália                         4.37

Elvas                                     5.14    chegada

TOTAL: 265 km, em 9 horas 44 m, parando em todas as 26 estações.

Elvas                                   9.12

Santa Eulália                       9.51

Assumar                            10.30                              

Portalegre                         11.02                             

Crato                                11.34      

Lisboa                                6.59    

TOTAL: 9 horas 47 m

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Comboio do correio

(só com carruagens de 1º e 2º classes)

Partida de Lisboa: 8.30 da noite

Chegada a Elvas:  4.54 da manhã

TOTAL: 8 h 24 m

Partida Elvas: 9.40 da noite

Chegada a Lisboa: 6.06

TOTAL: 8 h 26 m

 

NA IDA E NA VOLTA ERA PRECISO FAZER AINDA O TRAJECTO

DE ELVAS-CAMPO MAIOR

E DE  CAMPO MAIOR-ELVAS.

O TRANSPORTE PÚBLICO ERA A DILIGÊNCIA OU CARREIRA.

 

FONTE:

A VOZ  DO ALEMTEJO (ELVAS)

Começou como semanal: “Publica-se todas a quartas-feiras”

 Passou a bimensal: “Publica-se às quintas e domingos”

( “Ligado ao Partido Histórico, que sucedeu ao Partido Progressista”; líder o Duque de Loulé; era um partido liberal que estava no governo)

Responsável: Joaquim António dos Passos

Gerente: Manuel de Araújo e Silva

Número 1                              Quarta-Feira 15 de Fevereiro de 1860

Número 523 (Último)           Domingo, 15 de Julho de 1866       (Ano VII)



publicado por Francisco Galego às 18:04
Terça-feira, 25 de Abril de 2017

 

Completam-se hoje quarenta e três anos desde que tive, pela primeira vez, a consciência de poder assumir plenamente direitos que, ao longo dos 32 anos que já tinha vivido, me tinham, tantas vezes e tão dolorosamente, sido negados. E, contudo, tratava-se de principios desde há muito reconhecidos por uma parte significativa da humanidade. Princípios tão claros, quanto necessários e que encontramos expressos nas “Constituições”, as leis básicas e fundamentais de grande parte dos Estados e das Nações, como garantia dos direitos fundamentais dos homens e das mulheres.

São princípios de que vou transcrever apenas uma amostra, não extensa, mas muito significativa:

- Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade, e à segurança pessoal;

- Ninguém será sujeito a tortura, nem a penas ou  a tratamentos cruéis, desumanos   ou degradantes;

- Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado;

- Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equatitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que, contra ela, seja deduzida;

- Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação, pacíficas;

- Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funcções públicas do seu país.

Nesta pequena amostra, retirada dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estão contidos os atentados aos meus direitos de que eu, aos 32 anos de vida, já tinha sido vítima e sofrido as consequências que isso implicava.

Por isso, é fácil de entender porquê, eu, que até fui dos que menos sofreram abusos e prepotências, sem agitar estandartes e sem manifestações exuberantes, continuo a celebrar o dia 25 de Abril de 1974, como uma das datas muito importantes da minha existência.

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Quarta-feira, 19 de Abril de 2017

Esta conspiração decorreu no contexto da tentativa do “golpe de Estado” designado por “Abrilada”, desencadeado pelos absolutistas que tinham como líder o infante D. Miguel, contra o seu pai, o rei D. João VI, que ficou sequestrado no Palácio da Bemposta, então residência da família real, perto do Campo dos Mártires da Pátria, onde agora está  instada a Academia Militar. Porém, o golpe falhou porque, o corpo diplomático acreditado junto da corte, libertou o rei pondo-o a salvo num navio inglês fundeado no Tejo.

D. Miguel foi obrigado a exilar-se em Viena de Áustria e sua mãe e cúmplice, D. Carlota Joaquina que era filha do rei de Espanha, intimada a não mais se envolver em conspirações, sob pena de ser expulsa do Reino de Portugal.

O texto que seguidamente se transcreve, em escrita  actualizada,  foi recolhido no relatório da Polícia Secreta, dos últimos tempos do reinado do Senhor  D. João VI. Sua contínuação até Dezembro de 1826, Publicado em Lisboa, em 1835, pág.s 80, 81 e 82.

 

Há muito que existia em Campo Maior uma facção inimiga do Governo de Sua Majestade, da qual são chefes: o Padre João Marianno da Fonseca Moraes, ex-franciscano; Nuno António Negrito, empregado no Assento daquela Praça; o Padre Francisco de Nossa Senhora do Amparo Proença; Fernando de Sousa Migueis; o Padre Manoel da Fonseca Moraes; Joaquim Procópio Canhão, capitão de Cavalaria 8; o Coronel João Galvão Mexia.

Esta facção comunicava-se com o ajudante de ordens de S. A. o Infante, Francisco Henriques Teixeira, hoje preso, por via do Negrito e do sargento de Cavalaria 8, Felix Nogueira Torres, o qual há meses foi chamado para a secretaria do tenente-rei da Praça de Elvas, Maximiano de Brito Mosinho, constando que é insigne em escrever diferentes caracteres de letra.

Foi este sargento quem saíu de Elvas para Campo Maior coberto de ramos, na tarde de 3 de Maio com proclamações de S. A. o Infante, acompanhadas de um oficio do Corregedor de Elvas para o Juiz de Fóra de Campo Maior, no qual lhe ordenava que  fizesse logo a competente  comunicação a todos os comandantes militares. Tendo isto  sido imediatamente executado com repique de sinos, convocou o mesmo Juiz de Fóra o Clero, a Nobreza e o Povo, fazendo reunir ao mesmo tempo em parada todos os "corpos militares" da guarnição da Praça, com os seus mais asseados uniformes. Então,  o coronel João Galvão leu as proclamações à  frente da tropa e seguiu-se uma salva de artilharia a que responderam os "corpos" com três descargas.

Reuniu-se a Câmara e lavrou-se um auto-extraordinário que foi assinado por imenso povo, instigado pelos facciosos para essa assinatura. É preciso notar que o Padre Mariano, nos seus sermões, dava sempre uma  ideia muito aproximada dos sucessos de 30 de Abril e, tanto assim que, no acto da assinatura do auto, perguntou ao povo “se ele era ou não profeta na sua terra. Acrescentando que, ele sabia, havia muito tempo, que a sua profecia estava verificada e que o seu partido tinha triunfado”.

A este segundo acto revoltoso seguiu-se um "Te Deum": Subiu ao púlpito o Padre Mariano e aí, na presença do Rei do Reis, inflamado em ardente cólera, provou que, ainda até hoje nenhum orador sagrado, a não ser o Padre Braga, tinha mais do que ele  sacrílegamente profanado o santuário, pregando – “que devia correr o sangue dos portugueses nesta época, como em outra já correra o dos judeus[1]; que assim julgava ser preciso e ia acontecer, pela promessa que o Senhor Infante tinha feito de não embainhar a sua espada, enquanto não desse cabo dos pedreiros-livres[2]; que ele se sentia enfurecido e que desejava ensanguentar as suas mãos …”

Tanto neste sermão, como em todos os mais que anteriormente pregou, designava serem, os negociantes e outros homens abastados, os "pedreiros-livres" e, por esta a razão, a plebe[3] andava contente esperando que um dia se procedesse contra tais pessoas, para então começar o saque e o assassínio, pois que o dito padre lhes dizia – “que assim se tinha feito em Nápoles”.

Houve iluminação por três dias e repique de sinos até alta-noite, as janelas e as porta enramadas, a música tocando sempre. Nestes dias, os chefes da facção organizaram uma lista de quarenta e quatro cidadãos para serem presos e remetidos a Lisboa, chegando o Padre Mariano a requisitar a sua captura, o que não pôde conseguir.

No meio de tanto horror e susto, quis a Divina Providência acudir aos honrados habitantes de Campo Maior: No dia 12 de Maio chegou ali a proclamação de Sua Magestade, datada 12 de Maio, de bordo da Nau Windsor Castle, a qual aterrorizou os perversos e restituiu desde logo a tranquilidade aos referidos habitantes, fazendo desaparecer o grande perigo que os ameaçava. Viu-se então correr o Negrito a casa do Padre Mariano, dizendo pelas ruas, que tudo estava perdido” .

Os habitantes de Campo Maior iluminaram logo as suas casas o que, sendo sabido pelo Juiz de Fóra, mandou este então apregoar, já depois da nove horas da noite, que pusessem luminárias. Foi na parada do dia 13 que o coronel João Galvão leu a proclamação de Sua Majestade, dizendo – “que por falta de recebimento de ordens se não havia logo publicado.”  Tornou-se a convocar, o Clero, a Nobreza, e o Povo para formar um novo auto; porém foram muito poucas as pessoas que apareceram na Câmara porque o padre João Mariano andava com os seus sócios, fazendo as maiores censuras a El-Rei, e aos seus ministros, a quem chamava – ‘Maçons refinados’ – aparecendo o dito padre, neste dia, com o fato de saragoça[4] mais velho que tinha, quando nos anteriores se apresentara vestido de lila[5], e sempre com o melhor vestuário.

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[1] Referência à acção do Santo Ofício ou Inquisição.

[2] Referência aos partidários do Liberalismo.

[3] A massa popular.

[4] Tecido grosseiro de lã escura.

[5] Tecido lustroso de lã fina.



publicado por Francisco Galego às 22:10
Quarta-feira, 12 de Abril de 2017

Vencidos que são dois dos três períodos do ano escolar em curso, voltam a estar na preocupação das famílias as questões da educação, dos seus resultados, das previsíveis consequências e das soluções a encontrar para resolver os graves problemas que tanto preocupam os que estão mais atentos às suas consequências sociais.

Posto à conversa, com um dos meus amigos, o assunto acabou para derivar para um artigo, por mim publicado, sob o título A propósito de uma leitura...,haverá aproximadamente dois meses, sobre as questões das escolas e da educação. Começou o meu interlocutor por dizer que tinha grande dificuldade em aceitar algumas das convicções e dúvidas que eu  tinha então expressado.

Perguntando-lhe qual a razão, disse que lhe parecia que eu estava a não considerar as grandes diferenças que os professores hoje têm de enfrentar nas salas de aula, quando exercem a sua profissão. Mas, -  contrapus eu - , essa é precisamente a razão dos maus resultados e dos muitos conflitos que acontecem actualmente nas questões da educação.

Vou tentar explicitar alguns dos espectos que referi, no texto publicado e que suscitaram a sua desprovação:

  1. As mudanças sociais, principalmente a fraca competência que se verifica em muitas famílias, sobretudo as mais carenciadas de recursos e de menor nível educativo e a necessidade de as escolas assumirem essa função para atenuarem as desigualdes.Ora, não pode haver educação conveniente se não for acompanhada por educadores atentos e capacitados;
  2. A escola, sendo um elemento social de grande importância na preparação das novas gerações, deve estar atenta às mudanças sociais para cumprir, de forma adequada, a sua função. Ora, em muitos espectos, a escola apresenta ainda, formas de organização e comportamentos próprios de um modelo escolar que, tendo sido eficaz em tempos passados, são completamente desadequados para as necessidades dos tempos presentes.
  3. O ensino é hoje entendido, não como sendo apenas conveniente e de frequência mais ou menos voluntária, pois cada vez se alarga mais o número de anos em que é obrigatória a sua frequência, mas porque é cada vez mais evidente a sua necesidade como forma de garantir uma preparação que evite e previna indesejáveis comportamentos sociais, ou que levante dificuldades para entrada no actual mercado de trabalho.
  4. A escola que é hoje necessária, não é compatível com determinadas práticas. Daí que haja cada vez maior necessidade de, partindo de novos pressupostos, recorrer a novas práticas que, de forma abreviada, podemos assim enunciar: - um ensino não baseado na memorização que tem hoje muito pouca ou nenhuma utilidade, porque os conhecimentos estão em constante mudança; - uma avaliação dos resultados da educação baseada apenas nas classificações dos alunos, medindo principalmente o insucesso, em vez de avaliar as suas causas para se aplicarem as mais adequadas estratégias de remediação.
  5. Porque, analisada numa certa perspectiva, convém colocar a seguinte questão: - essa avaliação mede o insucesso dos alunos ou o insucesso da escola para dotar os alunos da capacidade e da vontade de adquirirem os conhecimetos, as competências e as capacidades que irão determinar as suas condições de vida?
  6. Por outro lado, será que a própria formação dos professores está a ser devidamente orientada para os dotar das competências necessárias para o real exercício da sua profissão?
  7.  A escola de elevado insucesso não será a que implica maiores custos, dadas as consequências sociais que esse insucesso irá causar?

Como se vê, trata-se de um assunto de tão grande importância que, manda a prudência,  deve ser abordado, não em termos de meras percepções ou opiniões, pois exige o levantamento de questões e a aquisição de conhecimentos e de informações que permitam formular soluções devidamente fundamentadas.

Felizmente, começaram a aparecer políticos que revelam sensibilidade e que estão atentos para procurarem soluções para as questões da educação. Em contrapartida, há ainda muitos para os quais estas questões são as que menos importam para satisfação dos seus interesses e para orientação das sua acção no desempenho dos cargos políticos para que conseguem ser eleitos.

Infelizmente, na maior parte das vezes, a realidade muda muito depressa, mas muda muito lentamente, ou nem chega a mudar, a mentalidade daqueles que deviam resolver os problemas levantados pelo fluir contínuo dessas mudanças.

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Domingo, 09 de Abril de 2017

Campo Maior é uma vila antiquíssima da província do Alentejo e, ao mesmo tempo, praça d’armas. Está situada a três léguas ao norte de Elvas, entre as ribeiras do Caia e do Xévora a outras três a oeste de Badajoz, ainda a três léguas a sul d’Albuquerque e a quatro léguas de Arronches.

O terreno onde assenta a povoação alteia ao sul, abaixa para leste e oeste e ergue-se um pouco ao norte. Sobranceiro a todos os lados da vila, na extremidade sul, eleva-se um castelo vistoso e imponente.

Respectivamente às cercanias, a praça é baixa e dominada por muitos cerros a leste e norte, à distância de dois mil metros, o que contribui para tornar a sua defesa difícil e perigosa[1].

O castelo, segundo Ayres Varela, é obra muito antiga e forte, tanto pela situação em que se acha, como pelas muralhas que o formam. (...) Está situado na parte mais alta da povoação, ao sul, com quatro torres pequenas e uma grande. Há nele duas portas: uma para norte e outra para o sul. El-rei D. Manuel mandou construir um muro desde o castelo até S. Sebastião, muro que, com as torres antes referidas, ficou incluído numa nova fortificação, servindo de cortina aos baluartes de Lisboa e de S. Sebastião e, entre estes, está a porta da vila ou de Santa Maria. Depois foi construída outra fortificação que guardava toda a vila velha, com duas portas.

Uma nova fortificação foi começada por D. João IV e continuada, sem ser acabada, por D. Afonso VI e D. João V, a qual tem os baluartes de S. João e de Santa Cruz, entre os quais o fosso era cheio de água e assim se conservava todo o ano, sendo alimentado pelos ribeiros da Fonte Nova e do Laguinho. Ao baluarte de Santa Cruz segue-se uma grande cortina, no remate da qual fica, a cavaleiro[2], um meio baluarte chamado do Curral dos Coelhos. A estes seguem-se os baluartes de Lisboa e  de S. Sebastião, depois o baluarte da Boa Vista, o meio-baluatrte da Rosa[3], o baluarte de S. Francisco, o da Fonte do Concelho e ainda outro[4] cuja cortina fecha a Praça, no baluarte de S. João e na qual está a porta principal, denominada de S. Pedro[5].

A praça tem excelentes fossos, bastantes esplanadas e, em algumas partes, contra-escapas. Tem seis revelins, e dois fortes, sendo o primeiro o de S. João[6], para o nascente, e o outro, o do Cachimbo[7], para o meio-dia. (...)

Por estarem as muralhas de Campo Maior bastante deterioradas, foram-lhe feitas algumas reparações em 1796.

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Texto copiado, com algumas actualizações e anotações, da obra de Pedro Manuel Tavares, (Major d’Artilharia), Estudos Histórico-Militares, Defensa de Campo Maior em 1801, Publicada em Elvas, em 1890.   

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[1] Foi sempre apontado à praça d’armas de Campo Maior, como principal defeito, o estar rodeada destes montes que os militares designavam como padrastos (Santa Vitória; Alto da Charrua, Carrascal, Cabeça Aguda...) que se podiam tornar perigosos quando acupados pela artilharia dos exércitos sitiantes.

[2] Ficar “a cavaleiro”, ou seja, “sotoposto” ou sobrelevado, acima de...

[3] Baluarte de Santa Rosa.

[4] Chamado Baluarte do Príncipe.

[5] A Porta de S. Pedro, demolida em 1908, ficava ao fundo do tramo de rua onde hoje se situa a CURPI, dando entrada para o Largo da Carreira, assim designado, por aí chegar a diligência do transporte público que vinha de Elvas.  Foi depois chamado largo dos Carvajais por aí se situar o palácio dessa que era a mais nobre e importante família de Campo Maior. Durante algum tempo, esta Porta de S. Pedro, foi chamada Porta Nova, dando assim a ideia que foi construída bastante depois da Porta de Santa Maria, construída na época da "Restauração", também designada com Porta da Vila. Ficava, portanto, muito próxima do baluarte de S. João que o povo designava como " do Cavaleiro" por ter no meio, uma estrutura  sobrelevada que permitia que a artilharia disparsse em tiro razo contra as forças sitiantes que cercassem a fortaleza que defendia Campo Maior.

[6] No local onde foi construido o Estádio Capitão César Correia. Era popularmente designado como "Forte das Pesetas".

[7] O que resta desse "Forte do Cachimbo", oficialmente "Forte de Schomberg", ainda é visível no lado esquerdo da estrada para Elvas, antes do desvio para a estrada da Barragem. Era um elemento importante para defesa da Porta de Santa Maria, em conjunto com o Baluarte de Lisboa e o Baluarte de S.Sebastião (Mártir Santo).



publicado por Francisco Galego às 00:03
Terça-feira, 04 de Abril de 2017

RESTABELECIMENTO DO HOSPITAL MILITAR (1808)

 

“O restabelecimento do hospital militar (1) foi um dos objectos que mais fixou a atenção da Junta do Governo. Não restava desse importante estabelecimento senão a casa, por não poder ser transportada (pelos franceses quando entraram em Campo Maior em 1808); tudo o mais a ele relativo, desde camas a utensílios, tinha sido conduzido para Elvas. O despojo foi igual ao total abandono da Praça.

Na sua restauração trratou-se apenas de atender só ao principal e indispensável, limitado às camas, curativos, subsistência dos enfermos e dos servos, ou seja, providênciar o seu arranjo.

Na sua viagem à cidade do Porto em 25 de Julho de 1808, Cesário obteve da Supremo Governo Provisional, duas caixas de instrumentos cirúrgicos para uso do mesmo hospital…

Para prover à necessidade de camas, achou-se na generosidade dos comerciantes um prestante subsídio. Manuel António Gonçalves Niza fez donativo de 360 varas de pano de linho (e muitos outros fizeram as suas ofertas). Foi feito um apelo de auxílio às misericórdias das vilas já declaradas em favor de Sua Alteza Real D. João VI: Arronches, Castelo de Vide e Crato

Comerciantes de Campo Maior que contribuíram com donativos:

Manuel António Gonçalves Niza

João Fernandes

António de Matos

João de Matos

Pedro de Matos

João Nunes Ferreira

Manuel Pereira Rosado

Firmino José Da Mata

José dos Santos

E outros

 

REORGANIZAÇÃO DO ASSENTO

 

No Assento das Provisões de Boca, mandaram-se aprontar as atafonas (2) para suprir a falta dos moinhos para o caso de o inimigo infestar os campos em volta da vila.

D. José Carvajal prestou-se a ajuadar esta importante obra, fornecendo as madeiras necessárias.

Repararam-se as cavalariças dos quartéis de Cavalaria e puseram-se em condições de serem utilizadas acomodações para tropas de infantaria que se acharam inabitáveis. (3)

 

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(1) Já por mim referido em "post" anterior como integrado no Convento de São João de Deus.

(2) Engenhos movidos por animais de tracção, para moagem dos cereais destinados ao fabrico do pão.

(3) (Segundo João Mariano de Nª Sr.ª do Carmo Fonseca. In, Memória histórica da Junta de Campo-Maior ou História da revolução desta leal e valorosa villa, (Ed. António José de Torres de Carvalho, Elvas, 1912.  



publicado por Francisco Galego às 11:06
Quarta-feira, 29 de Março de 2017

Partindo de Albuquerque e guiadas por Luís Xara as tropas espanholas designadas para virem ajudar Campo Maior, consistiam num batalhão de cerca de 700 voluntários de Valença, a que se juntou no dia seguinte um esquadrão do Regimento de Maria Luísa. Chegaram à Porta de São Pedro na madrugada de 2 de Julho de 1808, comandas por Nicolau Moreno de Monroy, tendo-lhe sido franqueado o acesso à vila. Foram presos os responsáveis militares da vila. Quando o povo se começou a aperceber do que se estava a passar, começaram a surgir manifestações, de apoio de uns e de desagrado de outros, conforme era a sua afeição.

O comandante das tropas espanholas fez uma proclamação ao povo de Campo Maior.

Foi constituída uma Junta do Governo Provisional de Campo Maior.

Cesário quis entregar as chaves da Praça ao Coronel Diogo Pereira da Gama, do extinto Regimento Nº 20, mas este não as quis aceitar e daí resultou que Moreno se apoderou do comando militar da Vila. Este instalou o seu quartel general nas casas de D. José Carvajal.

A 4 de Julho procedeu-se à aclamação solene de Sua Alteza Real, o principie D. João (1). Foi rezada missa, tendo-se procedido à bênção das bandeiras de Espanha e de Portugal. O padre João Mariano de Nª Sr.ªdo Carmo Fonseca foi encarregado de proferir a exortação antes da missa e do juramento de bandeiras, feito pelos militares portugueses e espanhóis, pelo senado da Câmara, pelo clero secular e regular e por todo o povo (velhos, novos e crianças). Depois foram as bandeiras levadas em procissão até ao castelo, onde, entre fogos de canhão e de mosquete, foram arvoradas em sinal de união, ficando ali expostas lado a lado.

O dia terminou com uma noite de iluminações que se renovou nas duas noites seguintes, com grande satisfação e geral aplauso.

A situação era perigosa pois a vila estava desarmada, a praça com duas brechas(2), os armazéns sem munições e o inimigo fortemente armado e estacionado em Elvas.

Para tratar dos assuntos de interesse público no imediato, realizou-se no dia 5 de Julho um congresso geral das três ordens (Clero, Nobreza e Povo) e da oficialidade espanhola, nas casas de D. José Carvajal do qual saiu a decisão de se constituir a uma Junta de Governo.

Mas, Nicolau Moreno, que ainda era o ídolo da gente do povo de Campo Maior, não parecia muito interessado em largar o governo.

Cesário tratou de congregar os notáveis da terra para que promovessem a criação da Junta que veio a tomar posse a 8 de Julho.

Com o auxílio enviado por Badajoz, pôde a Junta de Campo Maior organizar a defesa da Praça, começando por convocar antigos oficiais e militares para a reconstituição de uma guarnição militar.

D. José Carvajal foi encarregado de organizar um corpo de cavalaria e muito bem desempenhou este encargo.

(João Mariano de Nª Sr.ª do Carmo Fonseca. In, Memória Histórica da Junta de Campo-Maior ou História da Revolução desta Leal e Valorosa Villa, (Ed. António José de Torres de Carvalho, Elvas, 1912.  

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(1) Futuro rei D. João VI, então refugiado com a família real no Brasil, governando em nome de sua mãe, a rainha D. Maria I, afastada dos assuntos do Reino, por alienação mental.
(2) As brechas eram:no baluarte de São Sebastião, uma de 22 varas de comprimento e de tão fácil acesso que até bestas com carga por ela entravam;  a outra, na cortina de Santa Rosa, mais pequena e só a homens acessível. A reparação destas brechas começou a ser feita por Nicolau Moreno e foi acabada pela Junta Provisional.


publicado por Francisco Galego às 10:23
Sexta-feira, 24 de Março de 2017

Em 1807 entraram os franceses em Portugal…

No dia 1 de Dezembro de 1807, tinha entrado nesta Vila o regimento de Guardas Walonas e um batalhão do Regimento de Córdova, que saíram no dia seguinte.

No dia 11 do mesmo mês, entrou na vila o Regimento de Múrcia, que no dia 13, continuou a sua marcha.

No dia 8 de Janeiro de 1808, um batalhão dos Granadeiros Provinciais de Castela e, no dia seguinte, mais um batalhão do mesmo corpo, ficaram a fazer a guarnição da Praça, que só evacuaram em 16 de Março.

 O comando espanhol tinha determinado que esta guarnição fosse sustentada à custa do povo, mas o Juiz de Fora conseguiu livrá-lo desta obrigação, vindo a mesma a ser assegurada pela Administração de Badajoz.

Um sargento-mor da Praça procurou revoltar o povo contra a frouxidão do governo português que tinha abandonado o Reino deixando-o em tão penosa situação. Mas o povo preferiu cumprir as ordens deixadas pelo príncipe regente (1) e nada faltou ao fornecimento das tropas, sendo em parte providas pelo “Assento militar das provisões de boca” e, em parte, pelas pessoas particulares às quais eram passados escritos de dívida, que nunca vieram a ser pagos.

Campo Maior pode, contudo, considerar-se um dos Povos menos vexados pelos franceses.

O comando francês teve por mais acertado abandonar a Praça de Campo Maior. Em consequência deste abandono, os seus armazéns foram espoliados de toda a pólvora, munições e apetrechos de guerra, as armas dos particulares foram guardadas em depósito. O Regimento Nº 20 que constituía a sua guarnição, foi desorganizado e extinto e uma parte dele foi mandada para França. Esta extinção foi declarada no dia 14 de Maio de 1808.

Os arquivos, espingardas e mais utensílios militares foram mandados para Elvas.

Igual espoliação se verificou quanto ao Hospital Real Militar e ao Assento. Mas a povoação foi deixada em paz. À excepção de um Regimento de Suíços que entrou nesta Praça no dia 12 de Março e saiu no dia 13, não mais se viu tropa francesa, o que não foi pequena fortuna.

(João Mariano, p. 38 a 46)

Napoleão julgou os portugueses subjugados porque os viu sofridos. E contou achar na Espanha igual moderação…

Quase sem saberem um do outro, os dois povos entraram em efervescência e se inflamaram.

Campo Maior teve como incentivo os sucessos de Badajoz de 30 de Maio.

Francisco Cesário Rodrigues Moacho, boticário, Luís José Xara, sem outra ocupação para além de um pequeno tráfico contingente (2), ambos de condição humilde e medíocre fortuna, resolveram aproveitar a oportunidade da ocasião para restituir à sua Pátria a liberdade perdida.

 Francisco Pedro Xavier da Costa, que antes da desactivação da Praça era secretário do extinto Regimento Nº 20, da guarnição de Campo Maior, sabendo que antigos militares estavam dispostos a passar a Espanha para assegurarem a sua subsistência combatendo ao lado dos espanhóis contra os franceses, resolveu ir com Cesário de jornada até Badajoz, em 8 de Junho. O primeiro procurava serviço como militar. O segundo procurou o comissário do Governo Supremo de Sevilha para lhe expôr um plano que foi atendido com interesse sendo-lhe prometido que uma decisão seria tomada no prazo de oito dias.

À conspiração associou-se em Campo Maior, o mercador Manuel António Gonçalves Niza que pôs a sua casa á disposição para nela se reunirem.

Assim se deu começo ao processo que se veio a desenvolver em Campo Maior que, desde o início, teve a concordância e o apoio do General Galluzo que assegurava as ligações à Junta de Badajoz.

 

(In, João Mariano de Nª Sr.ª do Carmo Fonseca. In, Memória histórica da Junta de Campo-Maior ou História da revolução desta leal e valorosa villa, (Ed. António José de Torres de Carvalho, Elvas, 1912.    

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(1) Depois coroado como D. João VI, que tinha embarcado para o Brasil, a fim de evitar ser aprisionado pelos franceses que o forçariam a abdicar da coroa, perdendo-se assim, a independência de Portugal.

(2) Era então assim designado o contrabando.



publicado por Francisco Galego às 00:04
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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