Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

A INTEGRAÇÃO DE CAMPO MAIOR NA SOBERANIA DO REINO DE PORTUGAL

 

Depois de uma sucessão de confrontos que começara pela reivindicação do direito à posse do Algarve e que persistira na disputa de várias terras na fronteira terrestre, a norte e a leste do reino de Portugal, D. Fernando IV, rei de Leão e Castela e D. Dinis, rei de Portugal, concordaram em assinar um tratado de paz, no dia 12 de Setembro de 1297.

Para consolidação e garantia do acordo realizado, combinaram os consórcios de D. Afonso, príncipe herdeiro da coroa de Portugal, com a infanta D. Beatriz, irmã do rei de Leão e Castela, o qual casaria com D. Constança, filha de D. Dinis, rei de Portugal.

Por este tratado o rei de Portugal via reconhecida a legitima soberania sobre os lugares e castelos de Ribacoa - Sabugal, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Melhor, Monforte, San Félices de los Gallegos e outros lugares desta comarca de Beira – bem como de terras mais a Sul, na fronteira do Guadiana – Arronches, Campo Maior, Ouguela e Olivença.  

Analizando bem as suas consequências, este tratado tem uma importância acentuada, tanto do ponto de vista da História de Portugal, como da história da vila de Campo Maior:

            - Do ponto de vista da História de Portugal, ele marca a transição do período da conquista definitiva do território, depois de cerca de século e meio de lutas pela posse das terras e de consolidação da sua independência como Estado; repare-se que o resto da Península Ibérica foi um moisaco de reinos cristãos, com a presença de um reino muçulmano, até à conquista de Granada em 1492;

            - Com a assinatura deste tratado, Portugal é o país europeu que tem, desde há mais tempo, definidas as fronteiras do seu território original, pois que elas se mantêm desde 1297, apenas com a excepção de San Félices de los Gallegos e de Olivença.;

            - À luz deste tratado, do ponto de vista da história de Campo Maior, esta vila é uma das terras que mais tarde se integrou plenamente no Estado Português, se atendermos a que ficou ainda dependente do senhorio e da autoridade eclesiástica do bispo de Badajoz, até ao fim da crise de 1383-1385. D. João I teve de tomar Campo Maior pela força das armas em 1388, pois seguira o partido do rei de Castela. Só em 1392, foi completamente integrada na soberania dos reis de Portugal, com o corte dos laços de dependência eclesiástica do bispo de Badajoz.

Com a sua integragação plena no reino de Portugal, Campo Maior, Ouguela e Olivença, foram, quanto ao domínio eclesiástico, integradas na diocese de Ceuta, criada em 1414, até que a diocese de Elvas foi criada por bula do Papa Pio V, de 9 de Junho de 1570. Esta integrava as vilas de Campo Maior, Ouguela e Olivença que tinham pertencido à diocese de Ceuta e mais as vilas de Juromenha, Vila Fernando, Vila Boim, Alandroal, Fronteira, Monforte, Alter do Chão, Alter Pedroso, Cabeço de Vide, Veiros, Seda, e Barbacena, desanexadas do arcebispado de Évora.

A diocese de Elvas foi suprimida em 30 de Setembro de 1881, em simultâneo com a diocese de Castelo Branco. O seu território foi maioritariamente reintegrado na arquidiocese de Évora (com excepção das freguesias de Degolados e Cabeço de Vide  e do concelho de Alter do Chão, que passaram para a, também então criada, diocese de Portalegre).

Presentemente, o título de bispo titular de Elvas continua a ser usado por bispos auxiliares, à semelhança do que sucede com outras dioceses históricas de Portugal já extintas.

Nuno Brás da Silva Martins, bispo auxiliar do Patriarca de Lisboa é, desde 2011, o bispo titular de Elvas.

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

... Tive eu, ao assistir, ontem à noite, ao espectáculo de dança que a Associação Cultural “AXPRESS-ARTE” apresentou no Centro Cultural de Campo Maior.

Tanto maior foi essa surpresa quanto, tenho de o confessar, a sua titulação como “A cópia”, era pouco significante para me ter criado qualquer espectativa. Ia sem ideia preconcebida, movido apenas pelo interesse de conhecer mais um trabalho no qual participavam pessoas que estimo e que considero empenhadas em projectos concebidos segundo objectivos e soluções que sempre me suscitaram contentamento e proveito cultural.

E, de repente, aquilo que define uma proposta como cultura e como arte, começou a acontecer naquele palco tão despedido de grandes e espectaculares artifícios cénicos, mas prenchido com sugestões tão simples quanto significativas, gerando um espaço que dava de imediato, o sentido da acção que nele se ia desenvolver: a quase ausente utilização da cor, o jogo simples e cru da luz, das sombras e dos espaços não iluminados, delineando um clima de espectável dramatismo.

Depois, nova surpresa: uma banda sonora que, ora ritmando, ora alternando as vozes com os trechos musicais, foi ganhando um crescente lugar sublinhando a narrativa sujacente à representação que a dança ia construindo. Por mim, gostaria que o “folheto-programa” tivesse indicado os autores e/ou os trechos musicais que foram tão bem inseridos, nesta tão inteligente e tão bem integrada banda sonora.

Depois, o espanto de terem optado pelo despojamento com que vestiram os que no palco foram construindo a representação. As marcações encheram o espaço cénico de modo a que os movimentos pudessem ir “narrando” o que, com intenção, havia  sido escolhido para ali poder ser analisado, entendido e interpretado, porque esse é o propósito de qualquer proposta com verdadeira intenção cultural.

E, o sentido foi-se explicitando: no essencial, trata-se de apresentar o conflito existencial que se desenvolve no confronto agónico entre duas tendêndias estruturantes da nossa individualidade, ou seja, do nosso modo de estar e de ser: por um lado, a tendência que vai defenindo o nosso Ego, modelando-o segundo as circunstâncias que nos são propostas pelo ambiente social em que estamos inseridos e que, nesta representação, é configurada pela inserção da personagem individual nos comportamentos do grupo; por outro lado, a emergência do Alter Ego que, aspira a mais altos designios que estruturem e personalizem uma verdadeira individualidade, incitando à não conformação com o que está estabelecido.

Claro que esta é a minha leitura. Mas é essa a função dos verdadeiros actos culturais: levar-nos à reflexão e ao conhecimento. Por isso, a minha surpresa, deu lugar ao meu grande contentamento, Não é coisa de somenos, ter podido assistir a um tão digno como inteligente acto de cultura, numa terra em que, com grande desgosto, constato constantemente, que a cultura foi desaparecendo para dar lugar a pobres acções de mero entretenimento que apenas acentuam o progressivo empobrecimento do nosso viver colectivo. Parabéns a todos os que nele participaram.



publicado por Francisco Galego às 10:36
Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

Há ainda muitos professores que arrastam, ao longo dos anos, como se de um fardo se tratasse, aquilo que devia ser tomado como a sua missão e sua forma de realização pessoal. Comportam-se como se o seu dever profissional se reduzisse aos de meros emissores de conhecimentos que os alunos, reduzidos à condição de meros recipientes, têm que ir acumulando.  

Ora, isto é inviabiliar qualquer projecto minimamente aceitável e capaz de produzir os efeitos necessários e expectáveis. Os alunos são pessoas envolvidas numa formação que deve ser propiciada através de projectos educativos com objectivos claramente definidos e com espectáveis garantias de eficácia.

É hoje consensual entre os que, no universo escolar se dedicam mais seriamente à análise das práticas educativas, que a apreocupação de ensinar os alunos a aprender de forma adequada os conhecimentos que têm de adquirir é, além de facilitadora por gerar interesse e acelerar a aquisição desses conhecimentos, aquela que, uma vez adquirida, tem maior eficácia por tender a permanecer ao longo das suas vidas.

Naturalmente que uma estratégia centrada nas tarefas desenvolvidas na sala de aula exige um prévio e apurado trabalho para que as aulas decorram em boa ordem e com eficácia. Como contrapartida, nestas condições, os comportamentos desregrados, ou de conflito, tenderão a desaparecer, a acção do professor terá maior possibilidade de observação dos casos isolados, dotando-se assim da capacidade de intervenções mais individualizadas no acompanhamento dos alunos.

A aula tornar-se-á o local privilegiado das aprendizagens. Poderá também assim desempenhar a sua função de contribuir para atenuar as desigualdades sociais determinadas pelas diferentes condições sócio-económicas e culturais que os alunos levam dos seus ambientes familiares para as escolas e que constituem um factor tantas vezes fatalmemte determinante do seu sucesso escolar e que irá condicionar o seu projecto de vida. Colateralmente, a escola dará também lugar a que os alunos, como é próprio das fases do seu crescimento, possam dispor de tempos livres para realizarem a sua socialização através dos seus grupos de convívio e de crescimento.

Nesta perspectiva, os professores deixam de recorrer aos “trabalhos de casa”, deixando apenas ao critério dos alunos e das suas famílias a decisão sobre a maneira de ocuparem o seu tempo noutras actividades que poderão contribuir de forma positiva para sua formação como pessoas. É indismentível a afirmação de que, muitos dos professores que são considerados pelos bons resultados obtidos, não recorrem a esses tempos de trabalho fora da escola, que servem apenas para compensar as aprendizagens que deviam ter sido feitas no universo escolar.  

 

Foi a leitura do texto publicado na revista VISÃO nº 1250 de 16/2/2017 pág.s 10 a 12, que ditou este impulso de escrever, não resistindo ao que em mim ainda resta, com alguma saudade, da minha vida de professor.



publicado por Francisco Galego às 00:08
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

A atitude dos autarcas e de certos responsáveis, tanto a nível regional, como no âmbito da política nacional, é tal que só se pode justificar por enorme insensibilidade e uma quase total falta de conhecimentos sobre as questões ambientais. O problema atinge proporções tão graves que, me parece pertinente colocar, com carácter de urgência, a seguinte questão:

Porque se demora tanto a apresentar e fazer aprovar no Parlamento uma lei que assegure a preservação e conservação do Património Natural?

Esta questão faz-me ter algumas dúvidas sobre outra que sempre defendi como opção natural: a do alargamento do poder local. Porque, neste caso, é pertinente colocar, como dúvida, se esta seria a solução mais adequada, dada a fúria arboricída de que constantemente nos chegam notícias.

 

“TÚNEL DAS ÁRVORES FECHADAS”  EM MARVÃO PROTEGIDO

Consegui impedir que o atentado que estava a ser  levado a cabo durante a manhã de hoje fosse suspenso e os danos minimizados. O abate de dez freixos centenários que forma o famoso e ímpar “túnel das árvores fechadas”, composto por quase três centenas de árvores com estatuto de interesse público, foi suspenso.

O âmbito de uma intervenção programada e promovida pelas Infraestruturas de Portugal, deu-se início ao abate de dez árvores constituintes deste património natural. Durante os trabalhos de preparação, vários organismos, entre os quais a autarquia de Marvão, foram informados mas não foram tomadas medidas para impedir que os trabalhos começassem. Já durante a manhã, um conjunto de munícipes, entre os quais o vereador com o pelouro do Ambiente, José Manuel Pires, tentaram que o processo fosse suspenso. A minha intervenção junto da tutela contribuiu para que fosse dada ordem para interromper os trabalhos.

Estamos perante um património natural de grande importância para a região. O complexo de freixos centenários que transforma uma simples recta de uma estrada num ícone do concelho de Marvão e do distrito de Portalegre constitui um factor de riqueza evidente e que é valorizado não só pelas populações como pelos visitantes. Este património não pode sofrer intervenções indiscriminadas. É necessário fazer um trabalho que assegure a sustentabilidade destes símbolos tão importantes para a região.

Este eixo na Estrada Nacional 246-1, que liga Marvão a Castelo de Vide, é ladeado por quase três centenas de freixos centenários (com quase 30 metros de altura) de nome científico Fraxinus angustifolia Vahl, que formam uma magnífica alameda.

O valor natural levou a que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas tivesse atribuído, inclusivamente, o estatuto de Árvore de Interesse Público.

(In https://www.facebook.com/ Luis Moreira Testa



publicado por Francisco Galego às 14:07
Domingo, 12 de Fevereiro de 2017

Há no depertar dos dias, um particular encanto que se sente com serena tranquilidade. A claridade que emerge lentamente. Os ruídos que parecem suspensos. O estar só, sem ainda haver o compromisso de ter de interagir.

 

Mesmo, ou principalmente, num dia de chuva miudinha como este. A humidade fria suscita o cuidado do agasalho que conforta. Basta ficar na contemplação, suspenso, sem o fluir do pensamento. Quase tudo em mim se reduz apenas ao sentir.

 

São estes os momentos que tenho como os mais felizes. Não há sobressaltos, nem desejos. Há apenas estar. Esta a sensasão que mais próximo me coloca de algo que se aproxime do que posso entender como a ataraxia que Demócrito, filósofo grego ( 460-370 a.C.), descreveu como tranquilidade da alma¸ ausência de inqiuetude ou de perturbação e que seria muito incompleto traduzir pelo nosso conceito de felicidade.

 



publicado por Francisco Galego às 12:55
Sábado, 11 de Fevereiro de 2017

(António Gil, in Facebook, 10/02/2017)

 

Brilhantes e iluminativas ideias colhidas no texto atrás indicado:

 

            - Uma das maiores idiotices dos críticos desta administração norte americana é resumirem tudo à caricatura de seu putativo líder. Não ocorre aos que gostam de diabolizar uma pessoa, que essa criatura seja apenas uma «cabeça de cartaz» de um circo muito mais vasto, lançado para o barulho precisamente para atordoar, enquanto tudo se prepara nos bastidores.

 

            - Tudo indica que os senhores do mundo financeiro mudaram de estratégia e que um boneco de trunfa alaranjada foi oferecido publicamente em «sacrifício», enquanto se opera a um nível mais profundo, para introduzir essas alterações que no caso partem da constatação do falhanço do modelo anterior.

 

            - Os EUA, confrontados com políticas desastrosas de intervencionismo militar influenciadas pelos fascistas neo-cons, com déficits galopantes graças aos seus contínuos esforços de guerra, querem que o mundo pague agora, pelas suas iniciativas.

 

            - Na Europa isso é evidente: The Donald, o boneco de que se servem os ventíloquos do «estado profundo ou oculto» dos EUA já o disse: A Europa tem de pagar pela protecção americana. Este impulso de cobrar tudo e mais alguma coisa que resultou de opções domésticas dos EUA (o muro do México incluído, mas também as mais de mil bases militares que o Império mantém pelo mundo) devia ser fácil de interpretar: os EUA deram passos maiores que suas pernas e por isso estão à beira da falência. Por isso a palavra de ordem hoje é: «contra a crise, cobrar, cobrar».

 

            - Como uma «U.E.» que, mesmo disfuncional, constitui uma força de peso (mais população, mais produto interno bruto, mais exportações que os EUA) sempre foi renitente ao aumento das despesas militares e a oferecer suas mulheres e homens para uma guerra contra a Rússia (até por traumas de guerras de um passado dificilmente olvidável deste lado) está na altura de dissolver essa entidade e negociar país a país, a «protecção americana», na certeza que cada país isolado terá menos poder negocial que uma «U.E» E (ainda que nada coesa)-



publicado por Francisco Galego às 16:56
Quinta-feira, 09 de Fevereiro de 2017

Os “posts” que antes aqui publiquei sobre a questão do fabrico de “potes ou talhas” em Campo Maior tinham como intenção contribuir para propiciar um maior conhecimento de um aspecto importante da vida local, que se prolongou desde tempos antigos até meados do séc. XX.

É assunto que considero importante porque, sendo de facto uma comunidade que tinha como principal ocupação, fonte de rendimento e de sobrevivência,  as actividades agrícolas, levou ao desenvolvimneto de outros ramos de actividade que lhe eram complementares e que se traduzia  na existência  de variadas actividade artesanais. Ora, a olaria, foi sem dúvida uma das que maior nível de desenvolvimento e qualidade adquiriu, pois que a fama da sua qualidade provocou a sua difusão para outras localidades, algumas bastante afastadas do concelho de Campo Maior .

O interesse despertado por estes textos ficou bem demonstrado pelo número de leitores que tiveram e até pelos comentários que lhe vieram acrescentar conhecimentos. Entre eles, um merece especial destaque. Foi publicado no “post” datado de 1/2, para dar a conhecer um texto do Prof. Orlando Ribeiro, geógrafo, eminente cientista de renome internacional. O comentário foi aposto por Júlia Galego, que foi sua discipula e colaboradora. Este texto já tinha sido publicado no seu “blog” em:

http://gambozinoalentejano.blogspot.pt/2008/12/talhas.html

Porque entendo que é muito importante o seu contributo para o conhecimento deste assunto merece o destaque de republicar o texto que se segue, até porque a sua leitura ajuda a comparar o processo de fabrico nele descrito, com o processo de fabrico em Campo Maior, descrito no “post” anterior :

“Em relação aos utensílios de cerâmica, largamente difundidos em todo o país, a originalidade do Alentejo consiste em ter conservado, de uma herança mediterrânea, o vasilhame para líquidos, principalmente para vinho, preparado e guardado, no resto de Portugal, em pipas e tonéis de madeira. Neste sentido, é mais uma das expressões da civilização do barro própria desta região.

As vasilhas chamam-se talhas ou potes e podem ter dois metros e meio de altura, capacidade para mais de 2000 litros e pesar 700 ou 800 quilos. Aí se lança o mosto com o bagaço, para fermentação, mudado depois para talhas semelhantes. Em baixo têm um buraco onde se mete o pipo, por cima são cobertas com papel ou uma pele de cabra, como a dos odres. Pela forma fazem lembrar grandes dolia romanos, que são provavelmente os seus paradigmas. Talhas mais pequenas e sem orifício usam-se para o azeite e as azeitonas curtidas (de tão importante papel na alimentação alentejana).

(...) Trabalhando o barro diversamente dos oleiros, (o fabricante de talhas de São Pedro do Curval) não sabe manejar a roda e considera a sua arte diferente. As talhas são feitas em arcos; o barro, amassado em forma de pães, é batido com uma palmatória e espalmado de encontro à mão; quando um pedaço da talha adquire certa consistência, corta-se o bordo delgado a toda a volta e continua-se aumentando a obra para cima. Sem roda, é necessária grande perícia para que o bojo se desenvolva simétrico. O fabricante desenhou nas paredes caiadas da oficina o contorno de talhas para diversas capacidades; tem feito até 2000 ou 2200 litros; começa várias ao mesmo tempo e vai-as levantando aos poucos; podem levar uns quatro meses a acabar e um a enxugar. Depois são colocadas cuidadosamente num carrinho, em cima de palha, e vão a cozer a um grande forno, cuja fornalha é escavada no chão. Quando a talha está cozida é besuntada, por dentro, com pês derretido, que torna o barro impermeável.”

(Orlando Ribeiro, Geografia e Civilização. Livros Horizonte. P. 46-49.)



publicado por Francisco Galego às 00:06
Sábado, 04 de Fevereiro de 2017

Campo Maior, ao longo dos éculos XIX e XX, foi um dos principais centros de produção de potes ou talhas de barro para a conservação de produtos como o vinho, a azeitona e a aguardente. Algumas famílias dedicavam-se a esse fabrico, passando o seu saber artesanal de geração em geração. Estão neste caso as famílias Pereira, Monho, Mourato e Centeno. Tratava-se duma tradição artesanal que está hoje por completo perdida, tornando-se, por isso, importante conservar a memória que dela ainda subsiste. 

Este texto foi elaborado com base no depoimento de um elemento de uma destas famílias, o senhor Manuel Centeno, que ainda chegou a colaborar com o seu pai nessa actividade.    

O texto que agora aqui se apresenta, elaborado por Júlia Galego e Francisco Galego, foi publicado no nº 12 da revista "Alentejo  - Terra Mãe", publicado em Évora, no 3º trimestre do ano de 2008.

 

Normalmente, o processo iniciava-se no principio ou em meados de Novembro e terminava por volta de Maio a Junho.

O oleiro começava pela escolha do barro mais adequado ao tipo de potes a fabricar. Este barro, recolhido na região de Campo Maio, era amassado em tanques e deixado em repouso para que, por processo de decantação, se constituíssem as várias massas a utilizar no fabrico. Nesta fase inicial, o trabalho decorria em parte ao ar livre.

A construção dos grandes potes começava no final de Dezembro, princípio do ano seguinte.

Moldava-se primeiro uma espécie de vaso, a base do pote, feita á mão e sem recurso ao torno de oleiro. Seguidamente, separava-se um pedaço de barro a que era dada a forma de um melão. Depois, adelgaçava-se o barro entre as mãos, para formar os cordões que se íam sobrepondo para formar as três camadas que constituíam a estrutura do pote. O processo de construção tinha de ser lento e pacientemente executado, daí que o oleiro fabricasse em simultâneo um número considerável de potes.

Quando entendia que o peso do barro colocado tinha atingido o ponto adequado de sustentação, parava a sobreposição dos cordões de barro. O bordo era coberto com panos húmidos para grantir a colagem de novas camadas. Depois, deixava-se que o processo de secagem desse a devida consistência ao barro para que pudesse, algum tempo depois, retomar o processo de fabrico.

Dava-se a esta sucessão de fases o nome de lances. Entre um lance e outro decorria o prazo de uma a duas semanas.

Até ao meio do pote, o diâmetro ia aumentando; depois começava a reduzir para dar o estreitamento até à boca. Nesta fase, o oleiro utilizava uma espécie de raquete com a qual apoiava a parte interior do pote, enquanto ia juntando as sucessivas camadas. Tratava-se de uma fase muito delicada do processo, para evitar o demoronamento desta espécie de abóboda que ia sendo pacientemente construída. Por isso, tinha de decorrer um razoável tempo de secagem, para se obter a consistência necessária para suportar o peso da boca.

Esta era construída à parte para ser sobreposta à abóboda que formava a  parte superior do pote. Como a boca tinha um peso razoável, devido a ter uma maior espessura, convinha que o processo de secagem garantisse a consistência para não desmoronar. Por isso, nesta fase, a secagem era mais demorada, podendo ir até aos quinze dias.

Colocada a boca, dava-se o acabamento final que consistia em alisar a superfície exterior, utilizando uma cama de fino barro que era aplicada com um pedaço de pele, ou seja, uma especie de camurça.

Com o barro ainda húmido, as peças eram assinadas com o nome do oleiro, o local do fabrico e, nalguns casos, a data.

Nas sucessivas fases de secagem, convinha que o tempo decorresse nem muito seco, nem chuvoso. Os ventos secos e frios provocariam o rachar dos potes. A humidade excessiva afectaria a consistência do barro. Para atenuar as oscilações do tempo, o processo de fabrico decorria em grandes casões.

Na entrada da Primavera os potes já estavam feitos, começando o processo final  de secagem, o qual podia demorar de 20 dias a um mês.

Finalmente, entre Julho e Agosto, decorria a fase de cozedura em forno apropriado. Devido ao grande peso de algumas peças, estas tinham de ser deitadas e roladas até ao forno, no qual eram colocadas de boca para baixo, apoiadas em três peças de barro, sobre a grelha do forno. O processo de cozedura demorava um dia e exigia uma atenção constante para regular a temperatura, o que era feito pela maior ou menor abertura dada aos respiradores do forno.

Seguia-se o arrefecimento, que demorava uma semana, para os potes poderem ser manipulados, prontos para a última fase do seu fabrico: o cabamento do interior.

Os potes destinados ao vinho ou à conserva da azeitona eram pezgados, operação que consistia em betumar com pez derretido ao lume e vazado no interior do pote para ser espalhado com a ajuda da “boneca”, ou seja, um pano enrolado na extremidade de um pau.

Nos potes destinados à aguardente, a betumagem era feita com cera pura.

Os potes de Campo Maior tinham fama e eram vendidos por todo o Alto Alentejo e Beira. Hoje, os que ainda existem, são muito apreciados e usados como elementos decorativos.

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sexta-feira, 03 de Fevereiro de 2017

(Este Post foi reposto, devido a algumas solicitações)

 

Há anos foi achado numa escavação nas propriedades do Monte de S. Vitória, por detrás da quinta denominada da Rainha, ou de S, João, arredores de Campo Maior, um dollium (1) do período lusitano-romano, que oferecemos ao Museu Municipal de Elvas. Exemplar muito bem conservado, só conhecemos outro semelhante que existe no Museu Etnológico de Belém.

Estas vasilhas foram, talvez, as ascendentes genealógicas dos potes ou talhas mouriscas que se vêem em todas as adegas do sul do país e cujo fabrico constitui uma indústria típica e secular da vila de Campo Maior e da Aldeia do Mato (2), do concelho de Reguengos. Curiosas e características as talhas alentejanas de barro grosseiro, a que o tempo dá um tom escuro, chegam a ser de altura superior à de um homem normal. O seu bojo avantajado e monumental chega a conter mais de cem almudes, ou sejam dois mil litros de precioso vinho. (...)

Velhas, pois de séculos, diferenciam-se as de Campo Maior das de Aldeia do Mato, pela   silhueta mais esbelta, pela regularidade das suas formas elegantes que as assemelham às formas clássicas do exemplares romanos. Diferenciam-se também porque, enquanto as de Aldeia do Mato, ostentam na gola a data de fabrico e as siglas curiosas dos artífices que, com suas mãos hábeis as moldaram, as de Campo Maior exibem os nomes completos dos vários oleiros em que, por tradição de família, se tem transmitido, através dos séculos, o uso desta profissão e que são: os Centenos, os Pereiras, os Mouratos, bem como outros que desconhecemos. Dá-se também o facto de, na vila de Campo Maior, se fabricarem potes de maior capacidade do que as fabricadas na Aldeia do Mato, devido à melhor qualidade dos seus barros, reconhecida pelos mestres aldeamatenses.

Realmente, é pena que os de Campo Maior não tenham sido também datados, para melhor apoio a investigações futuras e melhor documentação dos estudos etnográficos. Daqui lembramos aos actuais mestres de olaria de Campo Maior, nossos conterrâneos, que é conveniente gravarem nas talhas, além dos seus nomes, a data do fabrico (basta só o ano) e o nome da nossa histórica e progressiva vila, que foi agora alvo de uma grande honra: Por iniciativa louvável do Secretariado da Propaganda de Portugal, – a par da  graciosidade dos moringues (3) e bonecos de Estremoz, dos caprichosos empedrados das cantarinhas de Niza e da elegância das bilhas de Viana, Campo Maior mostrará aos muitos milhares de vistantes da Exposição Internacional de Paris, duas formidáveis talhas saídas das suas oficinas, que deverão assombrar pela novidade e pelas suas descomunais dimensões.

 

In, A Cerâmica Alentejana na Exposição de Paris

Ensaio Etnográfico, por João Ruivo, publicado em ARQUIVO TRANSTAGANO, ano V, Elvas,1938.

-------------------------------------------------

(1) Vasilha grande de cerâmica de forma muito bojuda, quase esférica, usada pelos romanos para armazenarem vinho, azeite e outros tipos de produtos alimentares.

(2) Actualmente, S. Pedro do Corval.

(3) Pequena bilha, ou barril em barro, para refrescar a água, com duas bocas: Uma para entrada da água, outra para a saída em esguicho.



publicado por Francisco Galego às 14:42
Quinta-feira, 02 de Fevereiro de 2017

Se esta notícia, em si, já era bastante chocante, -  devido aos laços de amizade que, desde a nossa adoslescência, me uniam ao Raquelino, tecida de longas convivências e enquadrada por inúmeras confidências, assentando, principalmente, numa sólida e mútua confiança, -  a mensagem que de imediato enviei e que a seguir transcrevo, ajudará a melhor compreender porque ainda maior foi o espanto que em mim provocou. 

 

Amigo Daniel ( Daniel Anastácio, primo-irmão do Dr. Raquilino, há muito a viver fora de Campo Maior) :

Acabo de vir da rua, onde me deram a notícia da morte do Raquelino. Fiquei pasmado e muito penalizado. Não sei se ainda te lembras de que, aqui, em Campo Maior, sempre algumas pessoas cultivaram o péssimo hábito de divulgar e inventar falsas notícias. Pois calcula que, já há algum tempo, alguém me tinha dito que o Raquelino morrera em Março passado. Fiquei até um pouco magoado por, a esposa dele, nada me ter comunicado. Mas, enfim... São coisas que acontecem.

Mas, por isto podes calcular o choque que agora tive. O Raquelino, apesar do seu difícil comportamento, sempre manteve comigo uma amizade muito sincera apesar da distância em que ele mantinha tudo e todos, sobretudo nos últimos anos em que decidira deixar de se preocupar com as coisas duma vida que o desgostava.

Pois amigo Daniel: Resolvi enviar-te esta mensagem, na esperança de tenhas alguma notícia sobre este assunto que tanto me penaliza.

Um abraço.

 



publicado por Francisco Galego às 10:27
Sábado, 28 de Janeiro de 2017

Em 12 de Setembro de 1297, pelo Tratado de Alcanises, a povoação de Ouguela, passou a integrar o domínio português. Reinava de Dinis que procedeu à construção – ou reedificação – do seu castelo. Por carta datada em Lisboa em 5 de Janeiro de 1298, recebeu foral, dando-lhe a condição de município e concedendo-lhe muitos privilégios.

Mas, tal como Campo Maior, continuou ligada por laços de dependência eclesiástica e de senhorio ao bispo de Badajoz, até finais do século XIV.

No reinado de D. Fernando foi reedificada e ampliada a cerca de muralhas, edificada a primitiva igreja que estaria situada no centro da praça de armas do castelo (1).

Na crise de 1383-1385, a Praça de Ouguela, como as de Campo Maior e de Olivença, tomaram o partido do rei de Castela.

Teve de ser submetida manu militari por D. João I que, em 1392, cortou os laços de dependência eclesiástica que ligavam esta vila ao Bispado de Badajoz.

Durante os séculos seguintes, desempenhou a função de praça de guerra com a incumbência de servir de guarda avançada na vigilância da fronteira.

Uma das notícias que dela temos remonta ao reinado de D. Dinis. Este rei procurou combater o excessívo poder alcançado nos dois reinados anteriores pelos altos representantes do estrato nobiliárquico-eclesiástico. Porém, a certa altura, viu-se envolvido em conflito aberto com o seu próprio filho primogénito, que lhe sucederia no trono, como D. Afonso IV. De feitio exaltado e turbulento, o príncipe constituiu como alvo principal da sua fúria o seu meio-irmão D. Afonso Sanches. Movido por um ciúme rancoroso, acusava-o de o ter tentado envenenar e de intrigar contra ele junto do Papa para que o destronasse a fim de o poder substituir no governo do reino.

Logo que subiu ao trono, condenou-o ao desterro e à perda de todos os bens e cargos que tinha recebido de D. Dinis. D. Afonso Sanches, veio fixar-se na vila de  Albuquerque, senhorio de seu sogro, onde se rodeou de muitos nobres portugueses que se lhe foram juntar.

D. Afonso IV logo tratou de fortalecer Ouguela colocando ali como fronteiro o Mestre da Ordem Militar de Aviz. O próprio rei veio até á fronteira para invadir as terras de Albuquerque, tendo conseguido pôr cerco e tomar o castelo de Codeceira em 1326.

D. Afonso Sanches que sempre procurara evitar o conflito e por estar doente, retirou-se da luta. O rei voltou a Lisboa, onde, devido à intervenção da rainha-mãe (Santa-Isabel) e de muitos elementos tanto da corte portuguesa como castelhanos, conseguiram que se fizesse a paz e que o rei restituisse ao irmão todos os bens de que tinha sido despojado.

Com a guerra da Restauração (1640 - 1628), a pequena vila foi refortificada com nova cintura defensiva, pois que, devido á sua localização, ficava num ponto muito sensível, servindo de fortaleza de aviso e de retardamento, em caso de invasão.

-------------------------------------

(1)  Esta antiga igreja ficou muito danificada por efeito do abalo aí sentido, quando se deu o Terramoto de Lisboa de 1755. No seu relatório, o pároco local respondendo na “Memória Paroquial” referiu que “os muros padecesseram grande ruina no terremoto de mil setecentos e cincoenta e cinco, e principalmente a torre da Igreja que veio a maior parte dela abaixo (...) e algumas casas da dita Vila e tudo está ainda por reparar...”. A partir de então, a "vila Velha" entrou em decadência, cresceu o "burgo" ou "vila nova" no exterior do castelo. Quando uma nova igreja foi construida, a sua fachada principal ficou virada para as ruas novas, conservando apenas uma porta secundária com acesso pelo interior das muralhas.

 



publicado por Francisco Galego às 16:34
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

Degolados é uma povoação provavelmente nascida no século XVI, tendo como núcleo inicial uma herdade com os trabalhadores imigrantes que nela laboravam, oriundos maioritariamente das terras a norte do Rio Tejo.

Herdade do termo de Arronches no ano de 1538, Degolados era em 1567 um pequeno povoado, provavelmente ainda sem edifício religioso.

A pequena aldeia de meados do século XVI, localizada sobre o caminho entre Campo Maior e Arronches, beneficiou do dinâmico fluxo migratório ocorrido a partir daquela época em direcção a esta região e terá ascendido a freguesia, provavelmente ainda antes de findar a centúria de Quinhentos. No ano de 1612 surge já designada por freguesia de N.ª S.ª da Graça dos Degolados e integrada no concelho de Arronches.

Em meados do século XVIII, teria 42 fogos, o que corresponderia a cerca de centena e meia de habitantes.

Em finais do século XIX, por volta de 1870, teria 100 fogos, ou seja, cerca de 400 habitantes.

Foi anexada ao Concelho de Campo Maior, tirada ao de Arronches, por decreto de 26 de Setembro de 1895.

Porém, por reclamação do concelho de Arronches, voltou a integrar-se nesse concelho, três anos depois, por decreto de 13 de Janeiro de 1898.

Por pressão continuada dos seus habitantes, foi reintegrada no concelho de Campo Maior em 19 de Dezembro de 1926.

 



publicado por Francisco Galego às 16:30
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017

Chegou hoje a notícia do falecimento de um dos mais eminentes campomaiorenses de todos os tempos que completaria, em Março, os 90 anos de idade. Esta notícia  não foi de total surpresa, porque o seu declínio físico se tinha vindo a acentuar. Porém, em contrapartida, a sua brilhante capacidade mental manteve-se quase até aos últimos dias. Ainda há duas semanas me tinha telefonado para que eu transmitisse, à gestão do municipio, a sua vontade de legar as vestes dos doutoramentos que recebera, ao município da nossa terra natal.  

O Professor Doutor Mário Ruivo nasceu em Campo Maior no dia 3 de Março de 1927, num edifício localizado a meio do topo leste da Praça da Républica. Filho primogénito de João Pedro Ruivo e neto de Pedro Daniel da Encarnação Ruivo. Seu pai, que começara por ser funcionário da Câmara Municipal, passara a funcionário das Finanças Públicas e, em 1929, fora deslocado para Borba, mais tarde para Évora, cidade em que desenvolveu a maior parte da sua carreira de funcionário da administração pública.

O Município de Campo Maior, no ano de 2010, prestou-lhe justa homenagem na qual, além de realçar o seu elevado mérito, alcançado por uma notabilissima carreira, procurou também dar a conhecer a importância que seu pai, João Ruivo, tivera para o desenvolvimento da comunidade campomaiorense, como grande animador cultural.

Neste momento triste de despedida, procuremos, numa síntese muito breve, responder a esta questão, de forma muito directa: Quem foi este nosso tão notável conterrâneo?

- Mário João de Oliveira Ruivo mais conhecido por Mário Ruivo, um cientista e político português, foi pioneiro na defesa dos ocenos e no lançamento das temáticas ambientais em Portugal.

- Formou-se em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa no ano de 1950.

- Especializou-se em oceanografia biológica e gestão de recursos vivos, tendo desenvolvido empenhada investigação em Portugal e em diversos países europeus.

- Foi diretor da Divisão de Recursos Aquáticos e do Ambiente do Departamento de Pescas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), sedeado em Roma,

- Foi coordenador da Comissão Mundial Independente para os Oceanos e membro da Comissão Estratégica dos Oceanos.

- Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros no V Governo Provisório (1975).

- Foi presidente da Comissão Oceanográfica Intersectorial do Ministério da Educação e Ciência.

- Era, desde o dia 28 de Novembro de 1997, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar, tendo o Conselho de Ministros de 30 de novembro de 2016, procedido à renovação da sua comissão de serviço como presidente do referido Conselho.

Além de distinguido com  doutoramentos “honoris causa” recebeu algumas importantes condecorações:

 

            - Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal (21 de Agosto de1990);

            - Grande-Oficial da Ordem do Mérito de Malta (3 de Março de 1995);

            - Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal (9 de Junho de 1998);

            - Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Portugal (9 de Julho de 1999);

           

           

(NOTA: Para mais desenvolvido conhecimento, consultar Uma Homenagem Maior em Campo Maior – Homenagem ao Professor Mario Ruivo, publicada pela Câmara Municipal de Campo Maior, em 2010).

 

 



publicado por Francisco Galego às 15:54
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

DEGOLADOS

 

- Aldeia de planície, à beira de uma estrada, um local

   de passagem;

- Um crescimento lento, mas continuado, ao longo

   do séc. XX, intensificando-se  sobretudo na fase

   actual;

- Povoação recente, de recente desenvolvimento,

  com acentuado aumento demográfico e grande

  rejuvenescimento da população;

- Uma história breve, pouco significativa e de

  escasso património arquitectónico;

- A sua ligação a Campo Maior é recente, data de há

  90 anos apenas;

- Foi, pela 1ª vez, anexada a Campo Maior em 26

  de Setembro de 1895;

- Em 13 de Janeiro de 1898, voltou a ser anexada a

  Arronches;

- Em 19 de Dezembro de 1926, foi definitivamente

  anexada a Campo Maior, cumprindo-se assim a

  vontade expressa pelos seus habitantes;

- Continua a ser uma freguesia do concelho de Campo

  Maior;

- Do ponto de vista eclesiático, continua ligada ao

  bispado de Portalegre, estando toda a outra parte do

  concelho, ligada ao arcebispado de Évora.

 

 

OUGUELA

 

- Aldeia alcandorada, de difícil acesso, um local de

   chegada;

- Foi integrada no território do reino de Portugal, ao

   mesmo tempo que Campo Maior, pelo Tratado de

   Alcanizes, no reinado de D. Dinis, em 1297;

- Um ponto avançado de vigia da fronteira, foi

   fortificada para desempenhar essa função;

- Nunca foi grande como povoado e foi regredindo

   lentamente, sobretudo na fase actual;

- Povoação muito antiga, em acelerada decadência,

   com acentuada redução demográfica e

   envelhecimento da população;

- Uma história longa, com factos histórico-militares

   notáveis e com rico património arquitectónico

   ainda que muito degradado e em risco, por

   abandono; está actualmente em curso um projecto de

   recuperação e de restauração.

- Ligação à praça de guerra de Campo Maior

   que remonta às origens, foi sua guarda-avançada

   junto à fronteira durante mais de 7 séculos.

- Perdeu por completo a autonomia administrativa ao ser

  extinta como concelho em 1836 e anexada como

  freguesia na Junta Paroquial de S. João Baptista em

  1879.  

 

 

Perspectivas futuras:

 

DEGOLADOS:

 

Não tem grande História mas o seu  presente  anuncia um próspero futuro.

 

Necessita, portanto, de estratégias adequadas de desenvolvimento em termos de urbanização e melhoria das condições de vida da sua população.

 

OUGUELA:

 

Um presente de grande decadência ameaçando que possa para ela não existir futuro. A menos que se saiba utilizar o seu património como memória do seu extenso e notável passado.

 

Necessita, portanto, de cuidados urgentes de preservação da sua memória e de conservação do seu património histórico e natural. O seu futuro só pode ser garantido com base na utilização inteligente do que resta do seu passado rico de factos e de documentos.



publicado por Francisco Galego às 23:58
Domingo, 15 de Janeiro de 2017

A FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA EXPECTAÇÃO

           

Nos reinados de D. Fernando e de D. João I, foi edificada uma igreja no castelo de Campo Maior que serviu como sede de freguesia, primeiramente sob orago de Santa Clara e depois, em 1530, foi mudado para o  de Nª Sr.ª da Assumpção.

Em 1574, por ser muito pequena, velha e não caber nela o povo e estar muito arruinada, foi decidido substituir a antiga Matriz por outra mais ampla e edificada em lugar mais central.

Em 1574 foi feita petição ao rei para se fazer a nova matriz.

Em 1584, o rei Filipe II de Espanha e então, também rei de Portugal, passou provisão para que se fizesse a nova matriz.

Em 1610 foi feira a arrematação da obra.

Em 1622 o corpo da igreja estava concluído, faltando apenas algum acabamento nas torres da fachada. 

Embora a “Igreja Nova” não estivesse ainda acabada no ano de 1645, os clérigos deixaram a velha igreja do castelo e vieram para a Igreja Nova, para que se acomodassem os religiosos franciscanos que foram desalojados por ter sido demolido o convento de S. António, à Fonte das Negras, a fim de se construírem as novas muralhas, que defendessem a vila durante as Guerras da Restauração. Este convento de Santo António fora fundado em 1493, aumentado em 1514 e foi  demolido em 1645.

Aí, no castelo, se conservaram os frades franciscanos até ao ano de 1709 em que estava construído o novo convento. A igreja do convento só estaria concluía doze anos depois, em 1731.

 

A “Igreja Nova” passou a servir de sede da paróquia sob o Orago de Nossa Senhora da Expectação.

Em 1725 foi demolida a antiga igreja do castelo mas, por insistência do povo começou, em 1726, a ser de novo erguida.

Em 1732, fortemente atingida pela explosão do paiol da torre de menagem, a Igreja Nova e a Igreja do Castelo ficaram muito danificadas.

Em 1732, D. João V mandou que um terço da renda do concelho fosse aplicado para a reedificação da Igreja Matriz e que, em substituição da Igreja do Castelo fosse aí construída a Ermida do Senhor do Castelo.

 

A FREGUESIA DE SÃO JOÃO BAPTISTA

 

São João Baptista é uma freguesia portuguesa do concelho de Campo Maior, com 106,37 km² de área e 4 063 habitantes (2001). Densidade: 38,2 hab./km².

A paróquia de São João Baptista, foi criada em 1776 por provisão de D. Lourenço de Lencastre, bispo de Elvas.

Até aí tinha existido no concelho de Campo Maior uma única paróquia que, desde a Idade Média, tinha como sede uma igreja chamada de Santa Maria.

Por Decreto de 17 de Janeiro de 1879, a paróquia de Ouguela foi anexada à Junta Paroquial de S. João Baptista de Campo Maior.

Em 1941 Ouguela foi extinta como freguesia, tendo, a sua população e o seu território, sido integrados na freguesia de S. João Baptista de Campo Maior.

 



publicado por Francisco Galego às 23:57
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017

EXPLICAÇÃO PRÉVIA

 

Até à Revolução Liberalista de 1820, os termos “paróquia” e “freguesia” eram sinónimos e designavam a unidade territorial que estava sob a responsabilidade religiosa de um pároco.

Um decreto-lei de 11 de Julho de 1822 criou em Portugal 785 municípios e 4086 juntas de paróquia que, mais tarde, vieram a ser chamadas “juntas de freguesia”. Porém, as novas estruturas só se impuseram após as reformas de Mouzinho da Silveira em 1832.

Com a reforma administrativa de 18 de Julho de 1835, surgiu a estrutura civil chamada “Junta de Paróquia”, autonomizada da estrutura eclesiástica, ou paróquia propriamente dita. Os seus limites territoriais, no entanto, eram geralmente coincidentes com a das paróquias eclesiásticas que vinham desde a Idade Média.

A redução do enorme número de municípios que vinha desde a Idade Média foi feita por um decreto de Passos Manuel, em 1836, que liquidou quase metade dos municípios portugueses e os fixou em 351, tendo muitos dos antigos concelhos passado à condição de freguesias. Foi o que aconteceu com Ouguela que, pelo Decreto de 6 de Novembro de 1836, foi extinto como concelho, sendo a freguesia de Nª Sr.ª da Graça de Ouguela anexada ao concelho de Campo Maior.

Com a Lei n.º 621, de 23 de Junho de 1916, as paróquias civis passaram a assumir o nome de freguesias - e as estruturas eclesiásticas a serem designadas como paróquias.

 



publicado por Francisco Galego às 09:24
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Aparecem referências a “Jogos com bola” desde a mais alta Antiguidade. Mas eram disputas entre grupos, sem regras estabelecidas e, por isso, degeneravam frequentemente em furiosas zaragatas, razão porque, em certas épocas, principalmente no século XVIII, chegaram a ser proibidos. Não se tratava, portanto, de antecedentes do futebol tal como agora o conhecemos. Na verdade o futebol enquanto desporto organizado, só nasceu na Inglaterra em meados do século XIX. Porém, a sua divulgação foi muito rápida.

Tenho o hábito que não sei muito bem justificar, de me dedicar a arrumar as minhas coisas no início de cada ano. Nessa tarefa, dei com o texto que agora reproduzo. Atrevo-me a dedicá-lo ao meu colega, de profissão e de reforma, Jacinto César, como prova do interesse e consideração com que sigo os interessantes textos que vai publicando. Ele, melhor do que eu, poderá apreciar a descrição que é feita da antiga cidade que tanto preza e que tão empenhadamente divulga. Pareceu-me ser esta a melhor maneira de lhe desejar o melhor ano possível.

O JOGO DA BOLA NA QUINTA DA MITRA

Corria o ano de 1737. Na quinta da Mitra, costumavam, naquele tempo, muitos moços da cidade exercitar-se no jogo da bola, principalmente, quando o sol do Inverno nos dias de santificados alegrava as tardes, fazendo-as mais saudosas.

Em tais dias, em que o povo feriava, muitas famílias procuravam recrear o espírito do enfadamento dos trabalhos da vida, desciam ao formoso rossio de S.Sebastião, por onde formigavam até às horas em que a noite começa a tirar a cor às coisas. Deste lado, o colossal aqueduto e a rotunda capela do Calvário; daquele o alto Gravim e o humilde lugarejo de S. Sebastião; adiante o vetusto alpendre e ermida do Santo Mártir; aqui a secular alameda; além a Horta do Poço (chamada hoje de S. Paulo) e os longos casais que a orlavam; acolá a inexaurível fonte de Cancan, deleitavam-lhe a vista e o ânimo.

Interposta e mais ou menos limitada por estas estâncias, era a virente quinta que o piedoso bispo D. Manuel da Cunha legou à Mitra de Elvas. E, porque as paredes que então a muravam eram pouco altas e o brio dos prelados franqueava a entrada, não poucos dos que passeavam por este largo campo, iam ver os jogadores da bola e paravam em coroa para festejá-los.

Eram quase sempre muitos os parceiros, uns por brinco, outros por aposta que obrigava, as mais das vezes, vencedores e vencidos a fazerem libações ante as próximas aras de Baco.

( Texto publicado no "Arquivo Trantagano" nº 3 (III ano), de 15 de Fevereiro de 1935, com a indicação de o texto ser datado de 20 de Fevereiro de 1737)

 



publicado por Francisco Galego às 17:13
Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2017

Aqui ao lado, os vizinhos espanhóis comemoram “Los Reyes”. É o grande dia de troca de presentes. De certo modo, aquilo que nós fazemos no Natal e que  outros celebram no Ano Novo.

Natal, Ano Novo, Dia dos Reis. Dias de renovação e de esperança.

Dias de sonhar “Utopias”! ...

 “Utopia” significa, literalmente, “um não local”. Na verdade, usa-se para significar que se trata de algo que, não estando em nenhum lado, é algo que não existe. Mas, é também muito verdade que o sentido mais frequente que lhe é dado, é o de algo que não existe, mas que se deseja alcançar. Ou seja, a utopia é sonho e é aspiração. É desejo e é projecto para melhorar o estado das coisas ou a situação que se vive.

A “Utopia” aparece no pensamento de filósofos e poetas, como futuro imaginado, esperança de algo que resolva os problemas do presente.

Mas, haverá, no tempo que vivemos, lugar para a “Utopia”?

Esta evocação levou-me a pensar que um dos problemas deste tempo presente, é que tenha deixado de existir o consolo dos projectos utópicos que nos alimentem a esperança. Pensando bem, o grande problema é que vivemos sem modelo orientador. Vivemos ao sabor dos impulsos. Uns vivem movidos pela ambição. Outros conformados, tentando garantir a melhor maneira de sobreviverem. O pensamento vai dando lugar ao entretenimento. A acomodação conformada vai ocupando o lugar que devia ser o da persistência para cumprir um projecto de vida.

Tenho consciência de que há nisto um pessimismo que pode parecer demasiado radical. Mas, na verdade,  trata-se apenas de um desabafo, fruto de um crescente desencanto.

Por isso, tento reagir e, parafraseando Fernando Pessoa, afirmar: Sem a Utopia (1) o que é o homem mais do que a besta sadia, cadáver adiado que procria?

-------------------------------------

(1) Fernando Pessoa escreveu que O homem é do tamanho do seu sonho.

Realçando a importância do sonho e da utopia,  no seu poema D. Sebastião, Rei de Portugal, escreveu:

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

 

 



publicado por Francisco Galego às 23:28
Domingo, 01 de Janeiro de 2017

Podemos afirmar sem receio de contestação que, no decurso da sua história, a vila de Campo Maior conheceu duas épocas completamente distintas, tanto no que respeita à sua configuração como à sua extensão enquanto agregado urbano. Podemos também concluir que quase nada se conservou do seu património anterior à destruição que sofreu em 1732. Podemos também ajuizar como grande parte do seu espólio documental se perdeu nos escombros e nos incêndios que resultaram nessa destruição.

Os textos que se têm vindo a publicar, sobre este trágico acontecimento, são bastantes e bastante extensos. Mas, por um lado, são muito pouco conhecidos e, por outro lado, são fundamentais para termos uma ideia do facto que, ao longo da sua existência, mais marcou a história de Campo Maior. Por isso, pareceu apropriado terminar, com esta breve síntese.

 

I - EXPLOSÃO DO ARMAZÉM DA PÓLVORA

16 DE SETEMBRO DE 1732

4 HORAS DA MADRUGADA,

UMA TROVOADA ABATEU-SE SOBRE CAMPO MAIOR

UM RAIO CAIU SOBRE A TORRE DE MENAGEM QUE SERVIA DE PAIOL

DEU-SE UMA TREMENDA EXPLOSÃO

A TORRE DE MENAGEM DESFEZ-SE EM PEDAÇOS

UMA CHUVA DE PEDRAS CAIU SOBRE O POVOADO

A VILA FICOU QUASE COMPLETAMENTE DESTRUÍDA

  1. JOÃO V ORDENOU A SUA RÁPIDA RESTAURAÇÃO

 

II - O REBENTAMENTO DE 1732        

CAMPO MAIOR ANTES DA CATÁSTROFE:

- Achava-se a vila no maior auge que se podia considerar;

- Depois do cerco de 1712, o rei cuidara de mandar reparar os estragos;

- Com a vinda dos carregamentos de ouro e de pedras preciosas do Brasil, os recursos eram imensos;

- A guarnição militar fora reforçada;

- O Bispo de Elvas D. João de Sousa, que muito visitava Campo Maior, onde mantinha residência, cuidou muito do arranjo dos edifícios e obras da Igreja:

- Na Igreja Matriz mandou fazer a tribuna, pintar a Capela-mor e todas as outras capelas;

- Tirou a Igreja da Misericórdia do sitio antigo, abrindo-se o chamado “Terreiro” para realização dos mercados e reconstruindo-a no sítio actual;

- A Igreja de São João, ficara tão arruinada pelo cerco de 1712 que tinha sido demolida, estando a decorrer o processo para a sua reconstrução;

- Construíra-se uma nova Igreja no Castelo;

- O Convento de S. Francisco tinha-se acabado no ano anterior, 1731;

- As casas do governador Estêvão da Gama, junto à Porta de S. Pedro, as casas de D. João de Aguilar, no Terreiro das Estalagens ( Largo do Assento), bem como as casas de todos os principais da terra tinham sido reconstruídas e melhoradas;

- O castelo tinha sido reparado, sendo melhoradas as suas instalações;

- Mesmo as casas mais pobres, tinham sido reconstruídas e melhoradas.

 

CAMPO MAIOR DEPOIS DA CATÁSTROFE:

Uma destruição quase total:

- a torre de Menagem que em 1712 tinha sido atingida por nove bombas de grande potência sem lhe causarem qualquer mossa, foi arrancada dos alicerces, desfez-se em pedaços que arrasaram o resto do castelo e grande parte da povoação;

- das 1.076 casas que a vila tinha, todas ficaram danificadas, ficando 836 completamente destruídas; arruinaram-se as igrejas (sendo que a de São João começara a ser desmanchada em 1729); 256 mortos e mais de 2.000 feridos; a população era, segundo um censo feito três meses antes (Junho de 1732), de 5.218 pessoas.

- Devido à acção empenhada de D. João V, uma nova vila estaria resconstruida, cerca de 10 anos depois.

- Três anos não eram findos, e já as obras de reconstrução das casas da vila estava quase acabada.

- As obras de reconstrução das igrejas, bem como das defesas e edifícios militares demorou por mais alguns anos.

- O antigo castelo tinha desaparecido. O que se construiu nesta altura foi apenas uma espécie de cenário para dar alguma dignidade à vila e para acolher alguns edifícios da administração militar da praça de guerra.

- Quanto à fortaleza, só em 1797 começou a sua remodelação por causa da crescente ameaça do imperialismo francês.

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

            Passou a época mais significante da nossa civilização, dita ocidental e cristã. Contudo,  os rituais próprios do Natal e do Ano Novo, não nos devem deixar distraídos dos males que afligem este nosso conturbado mundo, pois que, implacavelmente, todos esses males  continuam a atormentar, principalmente, os mais desfavorecidos.

            Em certos aspectos, nós homens do século XXI, integrados numa cultura de base cristã, mostramos uma tremenda desumanidade, pois que, apesar dos enormes progressos científicos e tecnológicos, pouco ou quase nada temos evoluído ao nivel das relações humanas. Continuam por resolver flagelos terríveis e questões que, em nome da fraternidade, da solidariedade e da interculturalidade, já deviam ter sido resolvidos há muito tempo. Em muitos aspectos, somos confrontados com situações de extrema barbárie. Os povos em cujos territórios estão continuamente abertos os conflitos, dão disso dramáticos testemunhos:

            - No Próximo Oriente, mantém-se acesa a fogueira de ódios ancestrais, pois que,  de um e outro lado, o radicalismo extremado dos fundamentalistas, comanda os acontecimentos sem dar tréguas e sem atender à vontade moderadora dos que anseiam pelo entendimento que consolide uma verdadeira paz;

               - Na África, há chagas dolorosamente abertas na nossa consciência;

              - Um pouco por todo o lado, há gente a sofrer os efeitos dos loucos desvarios que se mascaram de crenças religiosas e invocam razões culturais, escondendo as verdadeiras causas  que motivam todas as desgraças.

          - Onde a guerra não campeia, lavra a instabilidade anunciada pelas várias crises que, num exponencial crescimento, se vão desenvolvendo: a crise financeira primeiro, depois a económica e as, há muito anunciadas, devido ao uso imoderado dos recursos energéticos e dos desequilíbrios ambientais que daí resultam...

            Entretanto, sobretudo entre os que, por atitude preferem considerar-se alheios a tudo isto, cresce desde há muito a pior de todas as crises porque é a que provoca efeitos mais duradoiros e mais difíceis de debelar: a crise de valores que determina a ausência da dimensão moral nos comportamentos políticos e das suas consequências sociais.

            Com tudo isto e apesar de tudo isto, insisto em manter um resto de esperança, enviando a todos  votos do melhor ano, com a paz, a tranquilidade e o bem-estar,  que nos for possível.



publicado por Francisco Galego às 23:59
Domingo, 25 de Dezembro de 2016

O meu agnosticismo, não me impede de ter uma simpatia inevitável -  porque expontânea -, de comunhão de valores e de identificação com os princípios, com as acções e com as tomadas de posição desse Homem, tão exemplar: o Papa Francisco. Mais uma vez teve a minha total adesão a  denúncia que fez da hipocrisia de muitas das acções que rodeiam a celebração do Natal.

É que o Natal, além do seu profundo significado religioso, constitui para nós um marco civilizacional. A civilização em que nos integramos designa-se como europeia pelas suas origens e cristã pelo modelo de humanismo que reveste, base essencial da nossa maneira de concebermos a vida em sociedade. O nascimento de Cristo é o ponto de referência a partir do qual fazemos a datação histórica do tempo .

Agora que me vejo confrontado com certas representações natalícias designadas como presépios, sou obrigado a, mais uma vez, estar em total acordo com o papa. Há representações do nascimento de Cristo que ignoram por completo o simbolismo e a grande mensagem de humildade, de chamamento da nossa atenção para os mais carenciados, os mais perseguidos, os mais injustiçados.

Retratando a precaridade e pobreza em que nasceu Cristo, o Natal tenta incitar-nos ao sentimento solidário que nos obrigue a considerar as desigualdades, as injustiças e as violências responsáveis pelo tormento em que, ainda hoje, como nesse tempo,  vivem os mais desfavorecidos. Aquela pequena famíla – um casal com o filho em eminência de nascer – eram migrantes procurando refúgio para salvarem as suas vidas, em fuga à louca perseguição de um tirano. A terra onde a sua vida decorre, ficava na já então mártir região  do Médio Oriente, onde, nos dias de hoje, o sofrimento está a atingir níveis dificeis de entender e impossíveis de aceitar.

Desamparados, José e Maria, abrigaram-se num modesto estábulo onde nasceu uma criança anunciada como o filho de Deus, incarnando para trazer uma mensagem de salvação aos homens. A escolha das circunstâncias e do cenário é toda intencionalmente simbólica: a perseguição, a fuga em busca de paz e de salvação, a solidão do estábulo, a pobreza dos recursos. (1)

E como celebramos nós este acto sacrificial e salvador?

Com presépios cenarizados como se Jesus tivesse nascido na paz, no conforto, no bem-estar e na abundância?

Que representam esses opulentos cenários que tenha a ver com o nascimento do Messias?

Na verdade, essas representações, negam todo o simbolismo da mensagem implícita nas condições do nascimento de Cristo, porque foram apenas concebidos para exibir o poder, a riqueza,  a vaidade e a ambição de quem os concebe, constroi, ou manda construir. Assim, o que devia ser evocação e fonte de inspiração, transforma-se apenas num exibicionismo e numa ostentação.

E este desvario verifica-se na grande maioria dos actos de celebração natalícia.

É por isso que, eu, agnóstico, nestes dramáticos tempos que estamos a viver, acolho como justa a acusão de hipocrisia lançada pelo representante máximo de uma das mais importantes crenças religiosas: o Catolicismo.

---------------------------------------------

  (1) Num cântico dos monges beneditinos, celebra-se esta "puer natus est nobis" (esta criança nascida para nós), ou seja, nascida para salvar os homens das trágicas tendências da sua condição humana.



publicado por Francisco Galego às 16:17
Sábado, 24 de Dezembro de 2016

FAÇAMOS AQUI UMA PAUSA,

 

DESEJANDO

ÀQUELES QUE VISITAM ESTES

 

"RETALHOS DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR"

 

QUE PASSEM ESTA SIGNIFICATIVA ÉPOCA

 

                - NATAL E  ANO NOVO -

 

NA INTIMIDADE,

NA PAZ,

NA CONCÓRDIA,

NA TRANQUILIDADE,

E NA COMUNIDADE DE AFECTOS

 

QUE DEVEM EXISTIR

 

EM TODAS AS FAMÍLIAS

 

                      

  FELIZ NATAL    

 

      

BOM ANO NOVO

 



publicado por Francisco Galego às 11:07
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2016

Bom!... Eu tenho que aceitar que, estando convencionado que o Inverno começa no solstício e que este, segundo o calendário, corresponde ao dia 21 de Dezembro, ou seja, ao dia de ontem, ontem, 21 de Dezembro,  foi o primeiro dia de Inverno. Porém, sendo que, orgânicamente, o Inverno aparece associado a dias e noites de muito frio, confesso que me sinto em condição de tempo invernal, desde há algumas semanas. De facto, entre as convenções que definem o calendário e as vivências que formam a nossa percepção do tempo, há por vezes acentuadas diferenças. Assim, o Inverno que agora oficilamente se declara, não coincide com o inverno tal como eu o estou sentindo. Logo, uma coisa é o tempo ditado pelo calendário; outra coisa é a percepção que eu tenho desse tempo.



publicado por Francisco Galego às 12:08
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

Na primitiva divisão das terras pertencentes ao municipio, havia restrições quanto á forma da sua utilização, uma vez que a Câmara reservava para si o direito de pastagens. Só mais tarde, após a implantação da Républica em 1910, foi concedido o uso pleno das fracções que tinham sido atribuidas aos chefes das famílias, moradores do concelho. Só então puderam ser plantadas de olival intercalado com vinhas, adquirindo a feição que algumas delas conservaram até aos nossos dias.

No livro do tombo das propriedades municipais mandado lavrar pelo Juíz de Fora da Vila em cumprimento da Provisão Régia de 20 de Julho de 1731, encontra-se a descrição dos “Coutos de Campo Maior”, na qual se descrevem as demarcações e limites desses coutos, confirmados por sentença do mesmo Juíz de Fora, datada de 5 de Janeiro de 1732. Aí se refere que essas terras estavam na posse do município há mais de dois séculos.

Contudo, quando da divisão em pequenas parcelas ou “sortes” do baldio designado como “Defeza de S. Pedro”, no ano de 1835, estabeleceu-se que, passando o seu domínio útil para posse dos munícipes, a Câmara conservava o seu domínio directo, impondo que os pastos e agostadoros (1) dessas sortes ficassem pertencendo ao concelho que disporia deles como seus e que nenhum dos enfiteutas a quem tinham sido atribuidas por sorteio, pudesse nelas plantar vinhas, nem qualquer tipo de arvoredo, sob pena de terem de ser arrancadas à sua custa.

Os terrenos que eram denominados como os “Moios das Mercês”, os quais faziam parte do baldio municipal denominado como “Godinha de Cima” (2), estavam reservados para servirem de logradouro comum, onde os moradores do concelho podiam colocar os seus animais. Daí serem conhecidos como a “Vacada do Povo”. Estes terrenos foram distribuidos em “sortes” de cinco alqueires, em 1871. As pastagens passaram a serem vendidas pela Câmara, à semelhança do que acontecia com a “Defeza de S. Pedro”.

--------------------------------------------------

  • Referência a que, geralmente no mês de Agosto, após as colheitas das searas, ficavam os restolhos disponíveis para pastagem dos animais.
  • A “Godinha de Baixo” foi vendida, constituindo uma herdade.


publicado por Francisco Galego às 11:57
Sábado, 17 de Dezembro de 2016

Nota: Estes termos designam terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; geralmente terras incultas que serviam para pastos comuns e de logrador ao dispor da população local.

Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais.

 

Os “Baldios” e “Refertas” de Ouguela

 

Ouguela, até 1836, no tempo era ainda um concelho gozando de plena autonomia administrativa, tinha também os seus terrenos comunais ou baldios.

Um deles – a Referta – era designada como contenda porque, ultrapassando o seu território para o lado de lá da fronteira com a Espanha, tinha o seu uso de ser partilhado pelas populações de Ouguela e de Albuquerque.

Além desta havia ainda o baldio da Travessa e o baldio de Nossa Senhora da Enxara. Estes foram, das terras comunais, as que mais cedo foram cedidas ao uso privado: Do baldio da Travessa foi concessionada uma parcela de um quarto légua, em 1821; quanto ao baldio de Nossa Senhora da Enxara, a Câmara propôs, em1825, a sua divisão em pequenos lotes a atribuir em carácter de enfiteuse aos moradores, desde que o rendimento da sua concessão não fosse inferior ao que a Câmara auferia com a venda das pastagens. Mais tarde, quando decidiu torna-se proprietário nesta região, o Barão de Barcelinhos, depois titulado como Visconde de Ouguela, adquiriu muitas destas pequenas propriedades constituindo com elas uma herdade.

 

Hoje nada mais resta das antigas defesas, baldios ou terras comunais que outrora existiram no território do concelho de Campo Maior.

 



publicado por Francisco Galego às 23:58
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016

Nota:

Segundo Albert Silbert, que numa notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais, estes termos designam terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; geralmente terras incultas que serviam para pastos comuns e de logrador ao dispor da população local.

 

AS SORTES DA GODINHA

 

A DEMOCRACIA, Nº 159, Elvas, 12 de Janeiro de 1871

“A Ex.ma câmara municipal está já procedendo à demarcação e numeração das sortes da Godinha; fez uma distribuição o mais lata possível, de modo que, não só todos os chefes de família serão contemplados com uma sorte de uns 5 alqueires de terra, senão também todos os órfãos de pai e mãe, estejam ou não estabelecidos e vivam ou não em comum ou separados. É imerecida a censura que alguns fazem à câmara por a forma ou o sistema de terra que mais viria a pertencer a cada chefe de família. Contraste-se isto com o honroso procedimento da câmara, cujos membros não quiseram ser contemplados na distribuição das sortes. Louvor à sua abnegação.”

Campo Maior, Janeiro 7. O correspondente: Manuel Rosado Pimpão Junior

 

Nota: Essas parcelas de terra foram atribuidas a quase todos os chefes de família residentes no concelho e com a sua situação de vizinhos regularizada. Na maior parte delas foi feito o plantio do olival e da vinha, Devido á maneira como foram sorteadas, designaram-se como "as sortes da Godinha".



publicado por Francisco Galego às 23:58
Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016

Nota: Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 que faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais, estes termos designam terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; ou eram  terras incultas que serviam para pastos comuns e de logrador ao dispor da população local.

 

 

DefesasGodinha de Baixo e Godinha de Cima

 

Estas duas defesas Godinha de Baixo e Godinha de Cima ficavam no sudeste do concelho, numa região descoberta. Apesar da semelhança da designação, nada tinham em comum com as referidas ao concelho de Elvas. E, apesar da semelhança dos nomes, eram usadas de forma muito diferente.

A defesa da Godinha de Baixo era alugada por três anos como qualquer herdade e o seu locatário conservava para si as suas pastagens. Esta herdade foi cedida, no século XIX, a título definitivo ao seu arrendatário que passou a ter sobre ela pleno direito  de propriedade.

A defesa da Godinha de Cima que, segundo o testemunho do corregedor de Elvas, em 1812, tinha cerca de mil hectares de superfície, deu origem a prolongados conflitos na segunda metade do século XVIII.

Até 1775 tinha estado reservada aos bovinos não utilizados no trabalho (geralmente os animais mais jovens e até ao limite de dez cabeças por pessoa). Nela se acolhiam também os cavalos. Só excepcionalmente era cultivada como, por exemplo, no ano de 1705, com o pretexto que de que o número de animais tinha sido muito reduzido por causa da guerra. Como foi dito na provisão de 20 de Junho que tomou essa decisão, “assim se tinha procedido nas guerras passadas e assim se fazia enquanto esta durasse”. Recomeçaria a ser utilizada para o gado em 1748-49, para combater uma praga de gafanhotos.

A partir de 1776 o estatuto da defesa da Godinha de Cima foi muito modificado. Era vendido o direito aos pastos, ou seja, o direito de nela colocar bovinos em pastagem. Quatro anos depois, o beneficiário solicitou que lhe fosse concedido o direito de semear doze moios de terra o que lhe foi concedido pela Câmara para um período de três anos, o qual foi alargado para mais seis anos em 1782. A população mantinha apenas o direito de aí poder alimentar os bois e os cavalos não utilizados no trabalho dos campos.

Quanto aos baldios da Godinha, a notícia que se transcreve refere claramente como e quando essas terras comunais foram transformadas em pequenas parcelas de apropriação privada:

 

A DEMOCRACIA, Nº 159, Elvas, 12 de Janeiro de 1871

“A Ex.ma câmara municipal está já procedendo à demarcação e numeração das sortes da Godinha; fez uma distribuição o mais lata possível, de modo que, não só todos os chefes de família serão contemplados com uma sorte de uns 5 alqueires de terra e também todos os órfãos de pai e mãe, estejam ou não estabelecidos e vivam ou não em comum ou separados. É imerecida a censura que alguns fazem à câmara por a forma ou o sistema de terra que mais viria a pertencer a cada chefe de família. Contraste-se isto com o honroso procedimento da câmara, cujos membros não quiseram ser contemplados na distribuição das sortes. Louvor à sua abnegação.”

Campo Maior, Janeiro 7. O correspondente: Manuel Rosado Pimpão Junior

 

 



publicado por Francisco Galego às 23:58
Domingo, 11 de Dezembro de 2016

 

Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais.que se designam como defesas, os terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; geralmente terras incultas que serviam para cultivar cerais, para pastos comuns e de logradores postos ao dispor da população local.

 

A defesa de São de São Pedro

 

A defesa de São de São Pedro, a sudoeste da povoação, numa área arborizada e ligeiramente ondulada, era todos os anos dividida em sortes, ou seja, em partes de um moio de semente, cerca de uma dezena de hectares, as quais eram leiloadas e cedidas pela melhor oferta e nelas se praticava um afolhamento trienal, como nas restantes herdades da região. Este afolhamento não era rigorosamente respeitado, pois uma parte da terra em repouso era utilizada com outras culturas.

Como se vê, o cultivo destas sortes da defesa de São Pedro era feito em regime de exploração privada pelos que tinham conseguido, em leilão, arrematar o direito ao seu uso pelo período que decorria entre uma sementeira e a sua colheita. Era uma prática que nada tinha de trabalho colectivista..

Depois das ceifas a Câmara vendia os restolhos pela melhor oferta. Mas, mesmo no tempo dos restolhos, uma parte da defesa de São Pedro, estava à disposição dos animais dos habitantes da vila.

Era numa parte integrante da Defesa de São Pedro – o Rossio – que a população podia realizar anualmente as suas eiras onde, após as ceifas, se procedia à debulha dos cereais. A notícia que a seguir se transcreve mostra a importância que a Defesa de São Pedro tinha para a população de Campo Maior, a qual se vai manter até ao século XX:

 

A VOZ DO ALEMTEJO, Nº 258, Elvas, Sábado, 25 de Julho de 1863

Campo Maior (correspondência particular)

 

“No dia 21 do corrente pelas 3 horas da tarde manifestou-se o fogo nas eiras públicas do Rossio de S. Pedro desta vila … naquele local havia próximo de 3 mil a 4 mil moios de trigo … sendo o Sr. administrador do concelho o primeiro que se apresentou no sítio do fogo à testa do qual se conservou…para evitar que o fogo se comunicasse aos mais celeiros contíguos, que não seriam menos de 800.

Não sendo menos dignos de iguais encómios e felicitações os mui nobres proprietários que correram de pronto ao lugar do incêndio… e ainda mais se deve ao geral da povoação que, ouvindo tocar o sino da câmara, abandonaram as suas casas, correndo da melhor vontade, de moto próprio, a acudir a um tão inesperado incidente…tornando-se muito distintos por esta ocasião os serviços prestados pelos senhores: subdirector da alfândega José das Dores; os artistas José António de Bastos, José Mendes da Mota, e Dâmaso de Albuquerque; os trabalhadores Manuel dos Santos Valadim, José Duarte, Manuel das Chagas e outros muitos cujos nomes ignoramos…

Campo Maior 22 de Julho de 1863”    

           

            Nota: O mesmo jornal abriu subscrição pública para ajuda aos que tinham sofrido significativas perdas com o incêndio e foi publicando as listas desses contributos recebidos, que foram bastantes e, alguns, bastante avultados.

 



publicado por Francisco Galego às 23:06
Sábado, 10 de Dezembro de 2016

A nossa civilização caracteriza-se por ser pródiga em formidáveis declarações de princípios, mas muito avara e mesmo miserável, no cumprimento dos compromissos assumidos.

 

- Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.

 

- Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espirito de fraternidade.

 

[ Artº 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela ONU, na resolução de 10 de Dezembro de 1948 ]

 

 



publicado por Francisco Galego às 11:27
Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

 

Numerosos documentos aludem às terras comunais de Campo Maior – as defesas do concelho  que, segundo documentos antigos, teriam sido estabelecidas no século XIV, reinado de D. Pedro I, para uso comunal da população e para garantia dos recursos necessários à administração pública dos municípios.  Eram  particularmente importantes nas terras raianas que, por razões defensivas, tinham de ser atractivas para fixação da população.

Segundo Rui Vieira, no caso de Campo Maior, uma das mais antigas referências a defesas data do reinado de D. João III, segundo a qual este rei, no ano de 1550, terá autorizado que a Câmara Municipal campomaiorense arrendasse “a Defesa do Carrascal por dois anos, por mil cruzados, por o concelho "estar em grande necessidade para a despesa da água e fonte que fazeis e para acabardes as audiências e para se fazer um açougue (…) este último a construir, tal como as Casas da Câmara e a das Audiências, na referida Praça Velha”. O mesmo autor refere que “esta defesa do Carrascal, que possuía 20,5 moios de terra, foi comprada à Câmara Municipal de Campo Maior, em 1609, por António da Silva Meneses por 9.250 cruzados (3 contos e setecentos mil réis).”

 Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais.

 Todos os anos estas terras eram divididas em sortes,ou seja, partes de um moio de semente, de uma dezena de hectares, as quais eram leiloadas e cedidas pela melhor oferta e nelas se praticava o cultivo de cereais em afolhamento trienal, como nas restantes herdades da região. Este afolhamento não era rigorosamente respeitado pois uma parte da terra em repouso era por vezes utilizada com outras culturas, como o grão.

Como se vê, o cultivo destas sortes da defesa de São Pedro era feito em regime de exploração privada pelos que tinham conseguido, em leilão, arrematar o direito ao seu uso pelo período que decorria entre uma sementeira e a sua colheita.Era uma prática que nada tinha de trabalho colectivista popular e muito menos de uso comunal.

Depois das ceifas, a Câmara vendia os restolhos pela melhor oferta. Mas, mesmo no tempo dos restolhos, uma parte da defesa de São Pedro, estava à disposição dos animais dos habitantes da vila.

Era também numa parte integrante da Defesa de São Pedro – o Rossio – que a população podia realizar anualmente as suas eiras onde, após as ceifas, se procedia à debulha dos cereais, daí  a importância que a Defesa de São Pedro tinha para a população de Campo Maior, a qual se vai manter até ao século XX.

 



publicado por Francisco Galego às 00:07
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
mais sobre mim
Junho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

11
12
14
15
16

18
19
21
22
23
24

26
27
28
29
30


arquivos
pesquisar neste blog
 
Visitas
subscrever feeds
blogs SAPO