Sábado, 04 de Fevereiro de 2017

Campo Maior, ao longo dos éculos XIX e XX, foi um dos principais centros de produção de potes ou talhas de barro para a conservação de produtos como o vinho, a azeitona e a aguardente. Algumas famílias dedicavam-se a esse fabrico, passando o seu saber artesanal de geração em geração. Estão neste caso as famílias Pereira, Monho, Mourato e Centeno. Tratava-se duma tradição artesanal que está hoje por completo perdida, tornando-se, por isso, importante conservar a memória que dela ainda subsiste. 

Este texto foi elaborado com base no depoimento de um elemento de uma destas famílias, o senhor Manuel Centeno, que ainda chegou a colaborar com o seu pai nessa actividade.    

O texto que agora aqui se apresenta, elaborado por Júlia Galego e Francisco Galego, foi publicado no nº 12 da revista "Alentejo  - Terra Mãe", publicado em Évora, no 3º trimestre do ano de 2008.

 

Normalmente, o processo iniciava-se no principio ou em meados de Novembro e terminava por volta de Maio a Junho.

O oleiro começava pela escolha do barro mais adequado ao tipo de potes a fabricar. Este barro, recolhido na região de Campo Maio, era amassado em tanques e deixado em repouso para que, por processo de decantação, se constituíssem as várias massas a utilizar no fabrico. Nesta fase inicial, o trabalho decorria em parte ao ar livre.

A construção dos grandes potes começava no final de Dezembro, princípio do ano seguinte.

Moldava-se primeiro uma espécie de vaso, a base do pote, feita á mão e sem recurso ao torno de oleiro. Seguidamente, separava-se um pedaço de barro a que era dada a forma de um melão. Depois, adelgaçava-se o barro entre as mãos, para formar os cordões que se íam sobrepondo para formar as três camadas que constituíam a estrutura do pote. O processo de construção tinha de ser lento e pacientemente executado, daí que o oleiro fabricasse em simultâneo um número considerável de potes.

Quando entendia que o peso do barro colocado tinha atingido o ponto adequado de sustentação, parava a sobreposição dos cordões de barro. O bordo era coberto com panos húmidos para grantir a colagem de novas camadas. Depois, deixava-se que o processo de secagem desse a devida consistência ao barro para que pudesse, algum tempo depois, retomar o processo de fabrico.

Dava-se a esta sucessão de fases o nome de lances. Entre um lance e outro decorria o prazo de uma a duas semanas.

Até ao meio do pote, o diâmetro ia aumentando; depois começava a reduzir para dar o estreitamento até à boca. Nesta fase, o oleiro utilizava uma espécie de raquete com a qual apoiava a parte interior do pote, enquanto ia juntando as sucessivas camadas. Tratava-se de uma fase muito delicada do processo, para evitar o demoronamento desta espécie de abóboda que ia sendo pacientemente construída. Por isso, tinha de decorrer um razoável tempo de secagem, para se obter a consistência necessária para suportar o peso da boca.

Esta era construída à parte para ser sobreposta à abóboda que formava a  parte superior do pote. Como a boca tinha um peso razoável, devido a ter uma maior espessura, convinha que o processo de secagem garantisse a consistência para não desmoronar. Por isso, nesta fase, a secagem era mais demorada, podendo ir até aos quinze dias.

Colocada a boca, dava-se o acabamento final que consistia em alisar a superfície exterior, utilizando uma cama de fino barro que era aplicada com um pedaço de pele, ou seja, uma especie de camurça.

Com o barro ainda húmido, as peças eram assinadas com o nome do oleiro, o local do fabrico e, nalguns casos, a data.

Nas sucessivas fases de secagem, convinha que o tempo decorresse nem muito seco, nem chuvoso. Os ventos secos e frios provocariam o rachar dos potes. A humidade excessiva afectaria a consistência do barro. Para atenuar as oscilações do tempo, o processo de fabrico decorria em grandes casões.

Na entrada da Primavera os potes já estavam feitos, começando o processo final  de secagem, o qual podia demorar de 20 dias a um mês.

Finalmente, entre Julho e Agosto, decorria a fase de cozedura em forno apropriado. Devido ao grande peso de algumas peças, estas tinham de ser deitadas e roladas até ao forno, no qual eram colocadas de boca para baixo, apoiadas em três peças de barro, sobre a grelha do forno. O processo de cozedura demorava um dia e exigia uma atenção constante para regular a temperatura, o que era feito pela maior ou menor abertura dada aos respiradores do forno.

Seguia-se o arrefecimento, que demorava uma semana, para os potes poderem ser manipulados, prontos para a última fase do seu fabrico: o cabamento do interior.

Os potes destinados ao vinho ou à conserva da azeitona eram pezgados, operação que consistia em betumar com pez derretido ao lume e vazado no interior do pote para ser espalhado com a ajuda da “boneca”, ou seja, um pano enrolado na extremidade de um pau.

Nos potes destinados à aguardente, a betumagem era feita com cera pura.

Os potes de Campo Maior tinham fama e eram vendidos por todo o Alto Alentejo e Beira. Hoje, os que ainda existem, são muito apreciados e usados como elementos decorativos.

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sexta-feira, 03 de Fevereiro de 2017

(Este Post foi reposto, devido a algumas solicitações)

 

Há anos foi achado numa escavação nas propriedades do Monte de S. Vitória, por detrás da quinta denominada da Rainha, ou de S, João, arredores de Campo Maior, um dollium (1) do período lusitano-romano, que oferecemos ao Museu Municipal de Elvas. Exemplar muito bem conservado, só conhecemos outro semelhante que existe no Museu Etnológico de Belém.

Estas vasilhas foram, talvez, as ascendentes genealógicas dos potes ou talhas mouriscas que se vêem em todas as adegas do sul do país e cujo fabrico constitui uma indústria típica e secular da vila de Campo Maior e da Aldeia do Mato (2), do concelho de Reguengos. Curiosas e características as talhas alentejanas de barro grosseiro, a que o tempo dá um tom escuro, chegam a ser de altura superior à de um homem normal. O seu bojo avantajado e monumental chega a conter mais de cem almudes, ou sejam dois mil litros de precioso vinho. (...)

Velhas, pois de séculos, diferenciam-se as de Campo Maior das de Aldeia do Mato, pela   silhueta mais esbelta, pela regularidade das suas formas elegantes que as assemelham às formas clássicas do exemplares romanos. Diferenciam-se também porque, enquanto as de Aldeia do Mato, ostentam na gola a data de fabrico e as siglas curiosas dos artífices que, com suas mãos hábeis as moldaram, as de Campo Maior exibem os nomes completos dos vários oleiros em que, por tradição de família, se tem transmitido, através dos séculos, o uso desta profissão e que são: os Centenos, os Pereiras, os Mouratos, bem como outros que desconhecemos. Dá-se também o facto de, na vila de Campo Maior, se fabricarem potes de maior capacidade do que as fabricadas na Aldeia do Mato, devido à melhor qualidade dos seus barros, reconhecida pelos mestres aldeamatenses.

Realmente, é pena que os de Campo Maior não tenham sido também datados, para melhor apoio a investigações futuras e melhor documentação dos estudos etnográficos. Daqui lembramos aos actuais mestres de olaria de Campo Maior, nossos conterrâneos, que é conveniente gravarem nas talhas, além dos seus nomes, a data do fabrico (basta só o ano) e o nome da nossa histórica e progressiva vila, que foi agora alvo de uma grande honra: Por iniciativa louvável do Secretariado da Propaganda de Portugal, – a par da  graciosidade dos moringues (3) e bonecos de Estremoz, dos caprichosos empedrados das cantarinhas de Niza e da elegância das bilhas de Viana, Campo Maior mostrará aos muitos milhares de vistantes da Exposição Internacional de Paris, duas formidáveis talhas saídas das suas oficinas, que deverão assombrar pela novidade e pelas suas descomunais dimensões.

 

In, A Cerâmica Alentejana na Exposição de Paris

Ensaio Etnográfico, por João Ruivo, publicado em ARQUIVO TRANSTAGANO, ano V, Elvas,1938.

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(1) Vasilha grande de cerâmica de forma muito bojuda, quase esférica, usada pelos romanos para armazenarem vinho, azeite e outros tipos de produtos alimentares.

(2) Actualmente, S. Pedro do Corval.

(3) Pequena bilha, ou barril em barro, para refrescar a água, com duas bocas: Uma para entrada da água, outra para a saída em esguicho.



publicado por Francisco Galego às 14:42
Quinta-feira, 02 de Fevereiro de 2017

Se esta notícia, em si, já era bastante chocante, -  devido aos laços de amizade que, desde a nossa adoslescência, me uniam ao Raquelino, tecida de longas convivências e enquadrada por inúmeras confidências, assentando, principalmente, numa sólida e mútua confiança, -  a mensagem que de imediato enviei e que a seguir transcrevo, ajudará a melhor compreender porque ainda maior foi o espanto que em mim provocou. 

 

Amigo Daniel ( Daniel Anastácio, primo-irmão do Dr. Raquilino, há muito a viver fora de Campo Maior) :

Acabo de vir da rua, onde me deram a notícia da morte do Raquelino. Fiquei pasmado e muito penalizado. Não sei se ainda te lembras de que, aqui, em Campo Maior, sempre algumas pessoas cultivaram o péssimo hábito de divulgar e inventar falsas notícias. Pois calcula que, já há algum tempo, alguém me tinha dito que o Raquelino morrera em Março passado. Fiquei até um pouco magoado por, a esposa dele, nada me ter comunicado. Mas, enfim... São coisas que acontecem.

Mas, por isto podes calcular o choque que agora tive. O Raquelino, apesar do seu difícil comportamento, sempre manteve comigo uma amizade muito sincera apesar da distância em que ele mantinha tudo e todos, sobretudo nos últimos anos em que decidira deixar de se preocupar com as coisas duma vida que o desgostava.

Pois amigo Daniel: Resolvi enviar-te esta mensagem, na esperança de tenhas alguma notícia sobre este assunto que tanto me penaliza.

Um abraço.

 



publicado por Francisco Galego às 10:27
Sábado, 28 de Janeiro de 2017

Em 12 de Setembro de 1297, pelo Tratado de Alcanises, a povoação de Ouguela, passou a integrar o domínio português. Reinava de Dinis que procedeu à construção – ou reedificação – do seu castelo. Por carta datada em Lisboa em 5 de Janeiro de 1298, recebeu foral, dando-lhe a condição de município e concedendo-lhe muitos privilégios.

Mas, tal como Campo Maior, continuou ligada por laços de dependência eclesiástica e de senhorio ao bispo de Badajoz, até finais do século XIV.

No reinado de D. Fernando foi reedificada e ampliada a cerca de muralhas, edificada a primitiva igreja que estaria situada no centro da praça de armas do castelo (1).

Na crise de 1383-1385, a Praça de Ouguela, como as de Campo Maior e de Olivença, tomaram o partido do rei de Castela.

Teve de ser submetida manu militari por D. João I que, em 1392, cortou os laços de dependência eclesiástica que ligavam esta vila ao Bispado de Badajoz.

Durante os séculos seguintes, desempenhou a função de praça de guerra com a incumbência de servir de guarda avançada na vigilância da fronteira.

Uma das notícias que dela temos remonta ao reinado de D. Dinis. Este rei procurou combater o excessívo poder alcançado nos dois reinados anteriores pelos altos representantes do estrato nobiliárquico-eclesiástico. Porém, a certa altura, viu-se envolvido em conflito aberto com o seu próprio filho primogénito, que lhe sucederia no trono, como D. Afonso IV. De feitio exaltado e turbulento, o príncipe constituiu como alvo principal da sua fúria o seu meio-irmão D. Afonso Sanches. Movido por um ciúme rancoroso, acusava-o de o ter tentado envenenar e de intrigar contra ele junto do Papa para que o destronasse a fim de o poder substituir no governo do reino.

Logo que subiu ao trono, condenou-o ao desterro e à perda de todos os bens e cargos que tinha recebido de D. Dinis. D. Afonso Sanches, veio fixar-se na vila de  Albuquerque, senhorio de seu sogro, onde se rodeou de muitos nobres portugueses que se lhe foram juntar.

D. Afonso IV logo tratou de fortalecer Ouguela colocando ali como fronteiro o Mestre da Ordem Militar de Aviz. O próprio rei veio até á fronteira para invadir as terras de Albuquerque, tendo conseguido pôr cerco e tomar o castelo de Codeceira em 1326.

D. Afonso Sanches que sempre procurara evitar o conflito e por estar doente, retirou-se da luta. O rei voltou a Lisboa, onde, devido à intervenção da rainha-mãe (Santa-Isabel) e de muitos elementos tanto da corte portuguesa como castelhanos, conseguiram que se fizesse a paz e que o rei restituisse ao irmão todos os bens de que tinha sido despojado.

Com a guerra da Restauração (1640 - 1628), a pequena vila foi refortificada com nova cintura defensiva, pois que, devido á sua localização, ficava num ponto muito sensível, servindo de fortaleza de aviso e de retardamento, em caso de invasão.

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(1)  Esta antiga igreja ficou muito danificada por efeito do abalo aí sentido, quando se deu o Terramoto de Lisboa de 1755. No seu relatório, o pároco local respondendo na “Memória Paroquial” referiu que “os muros padecesseram grande ruina no terremoto de mil setecentos e cincoenta e cinco, e principalmente a torre da Igreja que veio a maior parte dela abaixo (...) e algumas casas da dita Vila e tudo está ainda por reparar...”. A partir de então, a "vila Velha" entrou em decadência, cresceu o "burgo" ou "vila nova" no exterior do castelo. Quando uma nova igreja foi construida, a sua fachada principal ficou virada para as ruas novas, conservando apenas uma porta secundária com acesso pelo interior das muralhas.

 



publicado por Francisco Galego às 16:34
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

Degolados é uma povoação provavelmente nascida no século XVI, tendo como núcleo inicial uma herdade com os trabalhadores imigrantes que nela laboravam, oriundos maioritariamente das terras a norte do Rio Tejo.

Herdade do termo de Arronches no ano de 1538, Degolados era em 1567 um pequeno povoado, provavelmente ainda sem edifício religioso.

A pequena aldeia de meados do século XVI, localizada sobre o caminho entre Campo Maior e Arronches, beneficiou do dinâmico fluxo migratório ocorrido a partir daquela época em direcção a esta região e terá ascendido a freguesia, provavelmente ainda antes de findar a centúria de Quinhentos. No ano de 1612 surge já designada por freguesia de N.ª S.ª da Graça dos Degolados e integrada no concelho de Arronches.

Em meados do século XVIII, teria 42 fogos, o que corresponderia a cerca de centena e meia de habitantes.

Em finais do século XIX, por volta de 1870, teria 100 fogos, ou seja, cerca de 400 habitantes.

Foi anexada ao Concelho de Campo Maior, tirada ao de Arronches, por decreto de 26 de Setembro de 1895.

Porém, por reclamação do concelho de Arronches, voltou a integrar-se nesse concelho, três anos depois, por decreto de 13 de Janeiro de 1898.

Por pressão continuada dos seus habitantes, foi reintegrada no concelho de Campo Maior em 19 de Dezembro de 1926.

 



publicado por Francisco Galego às 16:30
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017

Chegou hoje a notícia do falecimento de um dos mais eminentes campomaiorenses de todos os tempos que completaria, em Março, os 90 anos de idade. Esta notícia  não foi de total surpresa, porque o seu declínio físico se tinha vindo a acentuar. Porém, em contrapartida, a sua brilhante capacidade mental manteve-se quase até aos últimos dias. Ainda há duas semanas me tinha telefonado para que eu transmitisse, à gestão do municipio, a sua vontade de legar as vestes dos doutoramentos que recebera, ao município da nossa terra natal.  

O Professor Doutor Mário Ruivo nasceu em Campo Maior no dia 3 de Março de 1927, num edifício localizado a meio do topo leste da Praça da Républica. Filho primogénito de João Pedro Ruivo e neto de Pedro Daniel da Encarnação Ruivo. Seu pai, que começara por ser funcionário da Câmara Municipal, passara a funcionário das Finanças Públicas e, em 1929, fora deslocado para Borba, mais tarde para Évora, cidade em que desenvolveu a maior parte da sua carreira de funcionário da administração pública.

O Município de Campo Maior, no ano de 2010, prestou-lhe justa homenagem na qual, além de realçar o seu elevado mérito, alcançado por uma notabilissima carreira, procurou também dar a conhecer a importância que seu pai, João Ruivo, tivera para o desenvolvimento da comunidade campomaiorense, como grande animador cultural.

Neste momento triste de despedida, procuremos, numa síntese muito breve, responder a esta questão, de forma muito directa: Quem foi este nosso tão notável conterrâneo?

- Mário João de Oliveira Ruivo mais conhecido por Mário Ruivo, um cientista e político português, foi pioneiro na defesa dos ocenos e no lançamento das temáticas ambientais em Portugal.

- Formou-se em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa no ano de 1950.

- Especializou-se em oceanografia biológica e gestão de recursos vivos, tendo desenvolvido empenhada investigação em Portugal e em diversos países europeus.

- Foi diretor da Divisão de Recursos Aquáticos e do Ambiente do Departamento de Pescas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), sedeado em Roma,

- Foi coordenador da Comissão Mundial Independente para os Oceanos e membro da Comissão Estratégica dos Oceanos.

- Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros no V Governo Provisório (1975).

- Foi presidente da Comissão Oceanográfica Intersectorial do Ministério da Educação e Ciência.

- Era, desde o dia 28 de Novembro de 1997, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar, tendo o Conselho de Ministros de 30 de novembro de 2016, procedido à renovação da sua comissão de serviço como presidente do referido Conselho.

Além de distinguido com  doutoramentos “honoris causa” recebeu algumas importantes condecorações:

 

            - Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal (21 de Agosto de1990);

            - Grande-Oficial da Ordem do Mérito de Malta (3 de Março de 1995);

            - Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal (9 de Junho de 1998);

            - Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Portugal (9 de Julho de 1999);

           

           

(NOTA: Para mais desenvolvido conhecimento, consultar Uma Homenagem Maior em Campo Maior – Homenagem ao Professor Mario Ruivo, publicada pela Câmara Municipal de Campo Maior, em 2010).

 

 



publicado por Francisco Galego às 15:54
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

DEGOLADOS

 

- Aldeia de planície, à beira de uma estrada, um local

   de passagem;

- Um crescimento lento, mas continuado, ao longo

   do séc. XX, intensificando-se  sobretudo na fase

   actual;

- Povoação recente, de recente desenvolvimento,

  com acentuado aumento demográfico e grande

  rejuvenescimento da população;

- Uma história breve, pouco significativa e de

  escasso património arquitectónico;

- A sua ligação a Campo Maior é recente, data de há

  90 anos apenas;

- Foi, pela 1ª vez, anexada a Campo Maior em 26

  de Setembro de 1895;

- Em 13 de Janeiro de 1898, voltou a ser anexada a

  Arronches;

- Em 19 de Dezembro de 1926, foi definitivamente

  anexada a Campo Maior, cumprindo-se assim a

  vontade expressa pelos seus habitantes;

- Continua a ser uma freguesia do concelho de Campo

  Maior;

- Do ponto de vista eclesiático, continua ligada ao

  bispado de Portalegre, estando toda a outra parte do

  concelho, ligada ao arcebispado de Évora.

 

 

OUGUELA

 

- Aldeia alcandorada, de difícil acesso, um local de

   chegada;

- Foi integrada no território do reino de Portugal, ao

   mesmo tempo que Campo Maior, pelo Tratado de

   Alcanizes, no reinado de D. Dinis, em 1297;

- Um ponto avançado de vigia da fronteira, foi

   fortificada para desempenhar essa função;

- Nunca foi grande como povoado e foi regredindo

   lentamente, sobretudo na fase actual;

- Povoação muito antiga, em acelerada decadência,

   com acentuada redução demográfica e

   envelhecimento da população;

- Uma história longa, com factos histórico-militares

   notáveis e com rico património arquitectónico

   ainda que muito degradado e em risco, por

   abandono; está actualmente em curso um projecto de

   recuperação e de restauração.

- Ligação à praça de guerra de Campo Maior

   que remonta às origens, foi sua guarda-avançada

   junto à fronteira durante mais de 7 séculos.

- Perdeu por completo a autonomia administrativa ao ser

  extinta como concelho em 1836 e anexada como

  freguesia na Junta Paroquial de S. João Baptista em

  1879.  

 

 

Perspectivas futuras:

 

DEGOLADOS:

 

Não tem grande História mas o seu  presente  anuncia um próspero futuro.

 

Necessita, portanto, de estratégias adequadas de desenvolvimento em termos de urbanização e melhoria das condições de vida da sua população.

 

OUGUELA:

 

Um presente de grande decadência ameaçando que possa para ela não existir futuro. A menos que se saiba utilizar o seu património como memória do seu extenso e notável passado.

 

Necessita, portanto, de cuidados urgentes de preservação da sua memória e de conservação do seu património histórico e natural. O seu futuro só pode ser garantido com base na utilização inteligente do que resta do seu passado rico de factos e de documentos.



publicado por Francisco Galego às 23:58
Domingo, 15 de Janeiro de 2017

A FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA EXPECTAÇÃO

           

Nos reinados de D. Fernando e de D. João I, foi edificada uma igreja no castelo de Campo Maior que serviu como sede de freguesia, primeiramente sob orago de Santa Clara e depois, em 1530, foi mudado para o  de Nª Sr.ª da Assumpção.

Em 1574, por ser muito pequena, velha e não caber nela o povo e estar muito arruinada, foi decidido substituir a antiga Matriz por outra mais ampla e edificada em lugar mais central.

Em 1574 foi feita petição ao rei para se fazer a nova matriz.

Em 1584, o rei Filipe II de Espanha e então, também rei de Portugal, passou provisão para que se fizesse a nova matriz.

Em 1610 foi feira a arrematação da obra.

Em 1622 o corpo da igreja estava concluído, faltando apenas algum acabamento nas torres da fachada. 

Embora a “Igreja Nova” não estivesse ainda acabada no ano de 1645, os clérigos deixaram a velha igreja do castelo e vieram para a Igreja Nova, para que se acomodassem os religiosos franciscanos que foram desalojados por ter sido demolido o convento de S. António, à Fonte das Negras, a fim de se construírem as novas muralhas, que defendessem a vila durante as Guerras da Restauração. Este convento de Santo António fora fundado em 1493, aumentado em 1514 e foi  demolido em 1645.

Aí, no castelo, se conservaram os frades franciscanos até ao ano de 1709 em que estava construído o novo convento. A igreja do convento só estaria concluía doze anos depois, em 1731.

 

A “Igreja Nova” passou a servir de sede da paróquia sob o Orago de Nossa Senhora da Expectação.

Em 1725 foi demolida a antiga igreja do castelo mas, por insistência do povo começou, em 1726, a ser de novo erguida.

Em 1732, fortemente atingida pela explosão do paiol da torre de menagem, a Igreja Nova e a Igreja do Castelo ficaram muito danificadas.

Em 1732, D. João V mandou que um terço da renda do concelho fosse aplicado para a reedificação da Igreja Matriz e que, em substituição da Igreja do Castelo fosse aí construída a Ermida do Senhor do Castelo.

 

A FREGUESIA DE SÃO JOÃO BAPTISTA

 

São João Baptista é uma freguesia portuguesa do concelho de Campo Maior, com 106,37 km² de área e 4 063 habitantes (2001). Densidade: 38,2 hab./km².

A paróquia de São João Baptista, foi criada em 1776 por provisão de D. Lourenço de Lencastre, bispo de Elvas.

Até aí tinha existido no concelho de Campo Maior uma única paróquia que, desde a Idade Média, tinha como sede uma igreja chamada de Santa Maria.

Por Decreto de 17 de Janeiro de 1879, a paróquia de Ouguela foi anexada à Junta Paroquial de S. João Baptista de Campo Maior.

Em 1941 Ouguela foi extinta como freguesia, tendo, a sua população e o seu território, sido integrados na freguesia de S. João Baptista de Campo Maior.

 



publicado por Francisco Galego às 23:57
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017

EXPLICAÇÃO PRÉVIA

 

Até à Revolução Liberalista de 1820, os termos “paróquia” e “freguesia” eram sinónimos e designavam a unidade territorial que estava sob a responsabilidade religiosa de um pároco.

Um decreto-lei de 11 de Julho de 1822 criou em Portugal 785 municípios e 4086 juntas de paróquia que, mais tarde, vieram a ser chamadas “juntas de freguesia”. Porém, as novas estruturas só se impuseram após as reformas de Mouzinho da Silveira em 1832.

Com a reforma administrativa de 18 de Julho de 1835, surgiu a estrutura civil chamada “Junta de Paróquia”, autonomizada da estrutura eclesiástica, ou paróquia propriamente dita. Os seus limites territoriais, no entanto, eram geralmente coincidentes com a das paróquias eclesiásticas que vinham desde a Idade Média.

A redução do enorme número de municípios que vinha desde a Idade Média foi feita por um decreto de Passos Manuel, em 1836, que liquidou quase metade dos municípios portugueses e os fixou em 351, tendo muitos dos antigos concelhos passado à condição de freguesias. Foi o que aconteceu com Ouguela que, pelo Decreto de 6 de Novembro de 1836, foi extinto como concelho, sendo a freguesia de Nª Sr.ª da Graça de Ouguela anexada ao concelho de Campo Maior.

Com a Lei n.º 621, de 23 de Junho de 1916, as paróquias civis passaram a assumir o nome de freguesias - e as estruturas eclesiásticas a serem designadas como paróquias.

 



publicado por Francisco Galego às 09:24
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Aparecem referências a “Jogos com bola” desde a mais alta Antiguidade. Mas eram disputas entre grupos, sem regras estabelecidas e, por isso, degeneravam frequentemente em furiosas zaragatas, razão porque, em certas épocas, principalmente no século XVIII, chegaram a ser proibidos. Não se tratava, portanto, de antecedentes do futebol tal como agora o conhecemos. Na verdade o futebol enquanto desporto organizado, só nasceu na Inglaterra em meados do século XIX. Porém, a sua divulgação foi muito rápida.

Tenho o hábito que não sei muito bem justificar, de me dedicar a arrumar as minhas coisas no início de cada ano. Nessa tarefa, dei com o texto que agora reproduzo. Atrevo-me a dedicá-lo ao meu colega, de profissão e de reforma, Jacinto César, como prova do interesse e consideração com que sigo os interessantes textos que vai publicando. Ele, melhor do que eu, poderá apreciar a descrição que é feita da antiga cidade que tanto preza e que tão empenhadamente divulga. Pareceu-me ser esta a melhor maneira de lhe desejar o melhor ano possível.

O JOGO DA BOLA NA QUINTA DA MITRA

Corria o ano de 1737. Na quinta da Mitra, costumavam, naquele tempo, muitos moços da cidade exercitar-se no jogo da bola, principalmente, quando o sol do Inverno nos dias de santificados alegrava as tardes, fazendo-as mais saudosas.

Em tais dias, em que o povo feriava, muitas famílias procuravam recrear o espírito do enfadamento dos trabalhos da vida, desciam ao formoso rossio de S.Sebastião, por onde formigavam até às horas em que a noite começa a tirar a cor às coisas. Deste lado, o colossal aqueduto e a rotunda capela do Calvário; daquele o alto Gravim e o humilde lugarejo de S. Sebastião; adiante o vetusto alpendre e ermida do Santo Mártir; aqui a secular alameda; além a Horta do Poço (chamada hoje de S. Paulo) e os longos casais que a orlavam; acolá a inexaurível fonte de Cancan, deleitavam-lhe a vista e o ânimo.

Interposta e mais ou menos limitada por estas estâncias, era a virente quinta que o piedoso bispo D. Manuel da Cunha legou à Mitra de Elvas. E, porque as paredes que então a muravam eram pouco altas e o brio dos prelados franqueava a entrada, não poucos dos que passeavam por este largo campo, iam ver os jogadores da bola e paravam em coroa para festejá-los.

Eram quase sempre muitos os parceiros, uns por brinco, outros por aposta que obrigava, as mais das vezes, vencedores e vencidos a fazerem libações ante as próximas aras de Baco.

( Texto publicado no "Arquivo Trantagano" nº 3 (III ano), de 15 de Fevereiro de 1935, com a indicação de o texto ser datado de 20 de Fevereiro de 1737)

 



publicado por Francisco Galego às 17:13
Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2017

Aqui ao lado, os vizinhos espanhóis comemoram “Los Reyes”. É o grande dia de troca de presentes. De certo modo, aquilo que nós fazemos no Natal e que  outros celebram no Ano Novo.

Natal, Ano Novo, Dia dos Reis. Dias de renovação e de esperança.

Dias de sonhar “Utopias”! ...

 “Utopia” significa, literalmente, “um não local”. Na verdade, usa-se para significar que se trata de algo que, não estando em nenhum lado, é algo que não existe. Mas, é também muito verdade que o sentido mais frequente que lhe é dado, é o de algo que não existe, mas que se deseja alcançar. Ou seja, a utopia é sonho e é aspiração. É desejo e é projecto para melhorar o estado das coisas ou a situação que se vive.

A “Utopia” aparece no pensamento de filósofos e poetas, como futuro imaginado, esperança de algo que resolva os problemas do presente.

Mas, haverá, no tempo que vivemos, lugar para a “Utopia”?

Esta evocação levou-me a pensar que um dos problemas deste tempo presente, é que tenha deixado de existir o consolo dos projectos utópicos que nos alimentem a esperança. Pensando bem, o grande problema é que vivemos sem modelo orientador. Vivemos ao sabor dos impulsos. Uns vivem movidos pela ambição. Outros conformados, tentando garantir a melhor maneira de sobreviverem. O pensamento vai dando lugar ao entretenimento. A acomodação conformada vai ocupando o lugar que devia ser o da persistência para cumprir um projecto de vida.

Tenho consciência de que há nisto um pessimismo que pode parecer demasiado radical. Mas, na verdade,  trata-se apenas de um desabafo, fruto de um crescente desencanto.

Por isso, tento reagir e, parafraseando Fernando Pessoa, afirmar: Sem a Utopia (1) o que é o homem mais do que a besta sadia, cadáver adiado que procria?

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(1) Fernando Pessoa escreveu que O homem é do tamanho do seu sonho.

Realçando a importância do sonho e da utopia,  no seu poema D. Sebastião, Rei de Portugal, escreveu:

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

 

 



publicado por Francisco Galego às 23:28
Domingo, 01 de Janeiro de 2017

Podemos afirmar sem receio de contestação que, no decurso da sua história, a vila de Campo Maior conheceu duas épocas completamente distintas, tanto no que respeita à sua configuração como à sua extensão enquanto agregado urbano. Podemos também concluir que quase nada se conservou do seu património anterior à destruição que sofreu em 1732. Podemos também ajuizar como grande parte do seu espólio documental se perdeu nos escombros e nos incêndios que resultaram nessa destruição.

Os textos que se têm vindo a publicar, sobre este trágico acontecimento, são bastantes e bastante extensos. Mas, por um lado, são muito pouco conhecidos e, por outro lado, são fundamentais para termos uma ideia do facto que, ao longo da sua existência, mais marcou a história de Campo Maior. Por isso, pareceu apropriado terminar, com esta breve síntese.

 

I - EXPLOSÃO DO ARMAZÉM DA PÓLVORA

16 DE SETEMBRO DE 1732

4 HORAS DA MADRUGADA,

UMA TROVOADA ABATEU-SE SOBRE CAMPO MAIOR

UM RAIO CAIU SOBRE A TORRE DE MENAGEM QUE SERVIA DE PAIOL

DEU-SE UMA TREMENDA EXPLOSÃO

A TORRE DE MENAGEM DESFEZ-SE EM PEDAÇOS

UMA CHUVA DE PEDRAS CAIU SOBRE O POVOADO

A VILA FICOU QUASE COMPLETAMENTE DESTRUÍDA

  1. JOÃO V ORDENOU A SUA RÁPIDA RESTAURAÇÃO

 

II - O REBENTAMENTO DE 1732        

CAMPO MAIOR ANTES DA CATÁSTROFE:

- Achava-se a vila no maior auge que se podia considerar;

- Depois do cerco de 1712, o rei cuidara de mandar reparar os estragos;

- Com a vinda dos carregamentos de ouro e de pedras preciosas do Brasil, os recursos eram imensos;

- A guarnição militar fora reforçada;

- O Bispo de Elvas D. João de Sousa, que muito visitava Campo Maior, onde mantinha residência, cuidou muito do arranjo dos edifícios e obras da Igreja:

- Na Igreja Matriz mandou fazer a tribuna, pintar a Capela-mor e todas as outras capelas;

- Tirou a Igreja da Misericórdia do sitio antigo, abrindo-se o chamado “Terreiro” para realização dos mercados e reconstruindo-a no sítio actual;

- A Igreja de São João, ficara tão arruinada pelo cerco de 1712 que tinha sido demolida, estando a decorrer o processo para a sua reconstrução;

- Construíra-se uma nova Igreja no Castelo;

- O Convento de S. Francisco tinha-se acabado no ano anterior, 1731;

- As casas do governador Estêvão da Gama, junto à Porta de S. Pedro, as casas de D. João de Aguilar, no Terreiro das Estalagens ( Largo do Assento), bem como as casas de todos os principais da terra tinham sido reconstruídas e melhoradas;

- O castelo tinha sido reparado, sendo melhoradas as suas instalações;

- Mesmo as casas mais pobres, tinham sido reconstruídas e melhoradas.

 

CAMPO MAIOR DEPOIS DA CATÁSTROFE:

Uma destruição quase total:

- a torre de Menagem que em 1712 tinha sido atingida por nove bombas de grande potência sem lhe causarem qualquer mossa, foi arrancada dos alicerces, desfez-se em pedaços que arrasaram o resto do castelo e grande parte da povoação;

- das 1.076 casas que a vila tinha, todas ficaram danificadas, ficando 836 completamente destruídas; arruinaram-se as igrejas (sendo que a de São João começara a ser desmanchada em 1729); 256 mortos e mais de 2.000 feridos; a população era, segundo um censo feito três meses antes (Junho de 1732), de 5.218 pessoas.

- Devido à acção empenhada de D. João V, uma nova vila estaria resconstruida, cerca de 10 anos depois.

- Três anos não eram findos, e já as obras de reconstrução das casas da vila estava quase acabada.

- As obras de reconstrução das igrejas, bem como das defesas e edifícios militares demorou por mais alguns anos.

- O antigo castelo tinha desaparecido. O que se construiu nesta altura foi apenas uma espécie de cenário para dar alguma dignidade à vila e para acolher alguns edifícios da administração militar da praça de guerra.

- Quanto à fortaleza, só em 1797 começou a sua remodelação por causa da crescente ameaça do imperialismo francês.

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

            Passou a época mais significante da nossa civilização, dita ocidental e cristã. Contudo,  os rituais próprios do Natal e do Ano Novo, não nos devem deixar distraídos dos males que afligem este nosso conturbado mundo, pois que, implacavelmente, todos esses males  continuam a atormentar, principalmente, os mais desfavorecidos.

            Em certos aspectos, nós homens do século XXI, integrados numa cultura de base cristã, mostramos uma tremenda desumanidade, pois que, apesar dos enormes progressos científicos e tecnológicos, pouco ou quase nada temos evoluído ao nivel das relações humanas. Continuam por resolver flagelos terríveis e questões que, em nome da fraternidade, da solidariedade e da interculturalidade, já deviam ter sido resolvidos há muito tempo. Em muitos aspectos, somos confrontados com situações de extrema barbárie. Os povos em cujos territórios estão continuamente abertos os conflitos, dão disso dramáticos testemunhos:

            - No Próximo Oriente, mantém-se acesa a fogueira de ódios ancestrais, pois que,  de um e outro lado, o radicalismo extremado dos fundamentalistas, comanda os acontecimentos sem dar tréguas e sem atender à vontade moderadora dos que anseiam pelo entendimento que consolide uma verdadeira paz;

               - Na África, há chagas dolorosamente abertas na nossa consciência;

              - Um pouco por todo o lado, há gente a sofrer os efeitos dos loucos desvarios que se mascaram de crenças religiosas e invocam razões culturais, escondendo as verdadeiras causas  que motivam todas as desgraças.

          - Onde a guerra não campeia, lavra a instabilidade anunciada pelas várias crises que, num exponencial crescimento, se vão desenvolvendo: a crise financeira primeiro, depois a económica e as, há muito anunciadas, devido ao uso imoderado dos recursos energéticos e dos desequilíbrios ambientais que daí resultam...

            Entretanto, sobretudo entre os que, por atitude preferem considerar-se alheios a tudo isto, cresce desde há muito a pior de todas as crises porque é a que provoca efeitos mais duradoiros e mais difíceis de debelar: a crise de valores que determina a ausência da dimensão moral nos comportamentos políticos e das suas consequências sociais.

            Com tudo isto e apesar de tudo isto, insisto em manter um resto de esperança, enviando a todos  votos do melhor ano, com a paz, a tranquilidade e o bem-estar,  que nos for possível.



publicado por Francisco Galego às 23:59
Domingo, 25 de Dezembro de 2016

O meu agnosticismo, não me impede de ter uma simpatia inevitável -  porque expontânea -, de comunhão de valores e de identificação com os princípios, com as acções e com as tomadas de posição desse Homem, tão exemplar: o Papa Francisco. Mais uma vez teve a minha total adesão a  denúncia que fez da hipocrisia de muitas das acções que rodeiam a celebração do Natal.

É que o Natal, além do seu profundo significado religioso, constitui para nós um marco civilizacional. A civilização em que nos integramos designa-se como europeia pelas suas origens e cristã pelo modelo de humanismo que reveste, base essencial da nossa maneira de concebermos a vida em sociedade. O nascimento de Cristo é o ponto de referência a partir do qual fazemos a datação histórica do tempo .

Agora que me vejo confrontado com certas representações natalícias designadas como presépios, sou obrigado a, mais uma vez, estar em total acordo com o papa. Há representações do nascimento de Cristo que ignoram por completo o simbolismo e a grande mensagem de humildade, de chamamento da nossa atenção para os mais carenciados, os mais perseguidos, os mais injustiçados.

Retratando a precaridade e pobreza em que nasceu Cristo, o Natal tenta incitar-nos ao sentimento solidário que nos obrigue a considerar as desigualdades, as injustiças e as violências responsáveis pelo tormento em que, ainda hoje, como nesse tempo,  vivem os mais desfavorecidos. Aquela pequena famíla – um casal com o filho em eminência de nascer – eram migrantes procurando refúgio para salvarem as suas vidas, em fuga à louca perseguição de um tirano. A terra onde a sua vida decorre, ficava na já então mártir região  do Médio Oriente, onde, nos dias de hoje, o sofrimento está a atingir níveis dificeis de entender e impossíveis de aceitar.

Desamparados, José e Maria, abrigaram-se num modesto estábulo onde nasceu uma criança anunciada como o filho de Deus, incarnando para trazer uma mensagem de salvação aos homens. A escolha das circunstâncias e do cenário é toda intencionalmente simbólica: a perseguição, a fuga em busca de paz e de salvação, a solidão do estábulo, a pobreza dos recursos. (1)

E como celebramos nós este acto sacrificial e salvador?

Com presépios cenarizados como se Jesus tivesse nascido na paz, no conforto, no bem-estar e na abundância?

Que representam esses opulentos cenários que tenha a ver com o nascimento do Messias?

Na verdade, essas representações, negam todo o simbolismo da mensagem implícita nas condições do nascimento de Cristo, porque foram apenas concebidos para exibir o poder, a riqueza,  a vaidade e a ambição de quem os concebe, constroi, ou manda construir. Assim, o que devia ser evocação e fonte de inspiração, transforma-se apenas num exibicionismo e numa ostentação.

E este desvario verifica-se na grande maioria dos actos de celebração natalícia.

É por isso que, eu, agnóstico, nestes dramáticos tempos que estamos a viver, acolho como justa a acusão de hipocrisia lançada pelo representante máximo de uma das mais importantes crenças religiosas: o Catolicismo.

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  (1) Num cântico dos monges beneditinos, celebra-se esta "puer natus est nobis" (esta criança nascida para nós), ou seja, nascida para salvar os homens das trágicas tendências da sua condição humana.



publicado por Francisco Galego às 16:17
Sábado, 24 de Dezembro de 2016

FAÇAMOS AQUI UMA PAUSA,

 

DESEJANDO

ÀQUELES QUE VISITAM ESTES

 

"RETALHOS DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR"

 

QUE PASSEM ESTA SIGNIFICATIVA ÉPOCA

 

                - NATAL E  ANO NOVO -

 

NA INTIMIDADE,

NA PAZ,

NA CONCÓRDIA,

NA TRANQUILIDADE,

E NA COMUNIDADE DE AFECTOS

 

QUE DEVEM EXISTIR

 

EM TODAS AS FAMÍLIAS

 

                      

  FELIZ NATAL    

 

      

BOM ANO NOVO

 



publicado por Francisco Galego às 11:07
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2016

Bom!... Eu tenho que aceitar que, estando convencionado que o Inverno começa no solstício e que este, segundo o calendário, corresponde ao dia 21 de Dezembro, ou seja, ao dia de ontem, ontem, 21 de Dezembro,  foi o primeiro dia de Inverno. Porém, sendo que, orgânicamente, o Inverno aparece associado a dias e noites de muito frio, confesso que me sinto em condição de tempo invernal, desde há algumas semanas. De facto, entre as convenções que definem o calendário e as vivências que formam a nossa percepção do tempo, há por vezes acentuadas diferenças. Assim, o Inverno que agora oficilamente se declara, não coincide com o inverno tal como eu o estou sentindo. Logo, uma coisa é o tempo ditado pelo calendário; outra coisa é a percepção que eu tenho desse tempo.



publicado por Francisco Galego às 12:08
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

Na primitiva divisão das terras pertencentes ao municipio, havia restrições quanto á forma da sua utilização, uma vez que a Câmara reservava para si o direito de pastagens. Só mais tarde, após a implantação da Républica em 1910, foi concedido o uso pleno das fracções que tinham sido atribuidas aos chefes das famílias, moradores do concelho. Só então puderam ser plantadas de olival intercalado com vinhas, adquirindo a feição que algumas delas conservaram até aos nossos dias.

No livro do tombo das propriedades municipais mandado lavrar pelo Juíz de Fora da Vila em cumprimento da Provisão Régia de 20 de Julho de 1731, encontra-se a descrição dos “Coutos de Campo Maior”, na qual se descrevem as demarcações e limites desses coutos, confirmados por sentença do mesmo Juíz de Fora, datada de 5 de Janeiro de 1732. Aí se refere que essas terras estavam na posse do município há mais de dois séculos.

Contudo, quando da divisão em pequenas parcelas ou “sortes” do baldio designado como “Defeza de S. Pedro”, no ano de 1835, estabeleceu-se que, passando o seu domínio útil para posse dos munícipes, a Câmara conservava o seu domínio directo, impondo que os pastos e agostadoros (1) dessas sortes ficassem pertencendo ao concelho que disporia deles como seus e que nenhum dos enfiteutas a quem tinham sido atribuidas por sorteio, pudesse nelas plantar vinhas, nem qualquer tipo de arvoredo, sob pena de terem de ser arrancadas à sua custa.

Os terrenos que eram denominados como os “Moios das Mercês”, os quais faziam parte do baldio municipal denominado como “Godinha de Cima” (2), estavam reservados para servirem de logradouro comum, onde os moradores do concelho podiam colocar os seus animais. Daí serem conhecidos como a “Vacada do Povo”. Estes terrenos foram distribuidos em “sortes” de cinco alqueires, em 1871. As pastagens passaram a serem vendidas pela Câmara, à semelhança do que acontecia com a “Defeza de S. Pedro”.

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  • Referência a que, geralmente no mês de Agosto, após as colheitas das searas, ficavam os restolhos disponíveis para pastagem dos animais.
  • A “Godinha de Baixo” foi vendida, constituindo uma herdade.


publicado por Francisco Galego às 11:57
Sábado, 17 de Dezembro de 2016

Nota: Estes termos designam terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; geralmente terras incultas que serviam para pastos comuns e de logrador ao dispor da população local.

Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais.

 

Os “Baldios” e “Refertas” de Ouguela

 

Ouguela, até 1836, no tempo era ainda um concelho gozando de plena autonomia administrativa, tinha também os seus terrenos comunais ou baldios.

Um deles – a Referta – era designada como contenda porque, ultrapassando o seu território para o lado de lá da fronteira com a Espanha, tinha o seu uso de ser partilhado pelas populações de Ouguela e de Albuquerque.

Além desta havia ainda o baldio da Travessa e o baldio de Nossa Senhora da Enxara. Estes foram, das terras comunais, as que mais cedo foram cedidas ao uso privado: Do baldio da Travessa foi concessionada uma parcela de um quarto légua, em 1821; quanto ao baldio de Nossa Senhora da Enxara, a Câmara propôs, em1825, a sua divisão em pequenos lotes a atribuir em carácter de enfiteuse aos moradores, desde que o rendimento da sua concessão não fosse inferior ao que a Câmara auferia com a venda das pastagens. Mais tarde, quando decidiu torna-se proprietário nesta região, o Barão de Barcelinhos, depois titulado como Visconde de Ouguela, adquiriu muitas destas pequenas propriedades constituindo com elas uma herdade.

 

Hoje nada mais resta das antigas defesas, baldios ou terras comunais que outrora existiram no território do concelho de Campo Maior.

 



publicado por Francisco Galego às 23:58
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016

Nota:

Segundo Albert Silbert, que numa notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais, estes termos designam terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; geralmente terras incultas que serviam para pastos comuns e de logrador ao dispor da população local.

 

AS SORTES DA GODINHA

 

A DEMOCRACIA, Nº 159, Elvas, 12 de Janeiro de 1871

“A Ex.ma câmara municipal está já procedendo à demarcação e numeração das sortes da Godinha; fez uma distribuição o mais lata possível, de modo que, não só todos os chefes de família serão contemplados com uma sorte de uns 5 alqueires de terra, senão também todos os órfãos de pai e mãe, estejam ou não estabelecidos e vivam ou não em comum ou separados. É imerecida a censura que alguns fazem à câmara por a forma ou o sistema de terra que mais viria a pertencer a cada chefe de família. Contraste-se isto com o honroso procedimento da câmara, cujos membros não quiseram ser contemplados na distribuição das sortes. Louvor à sua abnegação.”

Campo Maior, Janeiro 7. O correspondente: Manuel Rosado Pimpão Junior

 

Nota: Essas parcelas de terra foram atribuidas a quase todos os chefes de família residentes no concelho e com a sua situação de vizinhos regularizada. Na maior parte delas foi feito o plantio do olival e da vinha, Devido á maneira como foram sorteadas, designaram-se como "as sortes da Godinha".



publicado por Francisco Galego às 23:58
Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016

Nota: Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 que faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais, estes termos designam terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; ou eram  terras incultas que serviam para pastos comuns e de logrador ao dispor da população local.

 

 

DefesasGodinha de Baixo e Godinha de Cima

 

Estas duas defesas Godinha de Baixo e Godinha de Cima ficavam no sudeste do concelho, numa região descoberta. Apesar da semelhança da designação, nada tinham em comum com as referidas ao concelho de Elvas. E, apesar da semelhança dos nomes, eram usadas de forma muito diferente.

A defesa da Godinha de Baixo era alugada por três anos como qualquer herdade e o seu locatário conservava para si as suas pastagens. Esta herdade foi cedida, no século XIX, a título definitivo ao seu arrendatário que passou a ter sobre ela pleno direito  de propriedade.

A defesa da Godinha de Cima que, segundo o testemunho do corregedor de Elvas, em 1812, tinha cerca de mil hectares de superfície, deu origem a prolongados conflitos na segunda metade do século XVIII.

Até 1775 tinha estado reservada aos bovinos não utilizados no trabalho (geralmente os animais mais jovens e até ao limite de dez cabeças por pessoa). Nela se acolhiam também os cavalos. Só excepcionalmente era cultivada como, por exemplo, no ano de 1705, com o pretexto que de que o número de animais tinha sido muito reduzido por causa da guerra. Como foi dito na provisão de 20 de Junho que tomou essa decisão, “assim se tinha procedido nas guerras passadas e assim se fazia enquanto esta durasse”. Recomeçaria a ser utilizada para o gado em 1748-49, para combater uma praga de gafanhotos.

A partir de 1776 o estatuto da defesa da Godinha de Cima foi muito modificado. Era vendido o direito aos pastos, ou seja, o direito de nela colocar bovinos em pastagem. Quatro anos depois, o beneficiário solicitou que lhe fosse concedido o direito de semear doze moios de terra o que lhe foi concedido pela Câmara para um período de três anos, o qual foi alargado para mais seis anos em 1782. A população mantinha apenas o direito de aí poder alimentar os bois e os cavalos não utilizados no trabalho dos campos.

Quanto aos baldios da Godinha, a notícia que se transcreve refere claramente como e quando essas terras comunais foram transformadas em pequenas parcelas de apropriação privada:

 

A DEMOCRACIA, Nº 159, Elvas, 12 de Janeiro de 1871

“A Ex.ma câmara municipal está já procedendo à demarcação e numeração das sortes da Godinha; fez uma distribuição o mais lata possível, de modo que, não só todos os chefes de família serão contemplados com uma sorte de uns 5 alqueires de terra e também todos os órfãos de pai e mãe, estejam ou não estabelecidos e vivam ou não em comum ou separados. É imerecida a censura que alguns fazem à câmara por a forma ou o sistema de terra que mais viria a pertencer a cada chefe de família. Contraste-se isto com o honroso procedimento da câmara, cujos membros não quiseram ser contemplados na distribuição das sortes. Louvor à sua abnegação.”

Campo Maior, Janeiro 7. O correspondente: Manuel Rosado Pimpão Junior

 

 



publicado por Francisco Galego às 23:58
Domingo, 11 de Dezembro de 2016

 

Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais.que se designam como defesas, os terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho; geralmente terras incultas que serviam para cultivar cerais, para pastos comuns e de logradores postos ao dispor da população local.

 

A defesa de São de São Pedro

 

A defesa de São de São Pedro, a sudoeste da povoação, numa área arborizada e ligeiramente ondulada, era todos os anos dividida em sortes, ou seja, em partes de um moio de semente, cerca de uma dezena de hectares, as quais eram leiloadas e cedidas pela melhor oferta e nelas se praticava um afolhamento trienal, como nas restantes herdades da região. Este afolhamento não era rigorosamente respeitado, pois uma parte da terra em repouso era utilizada com outras culturas.

Como se vê, o cultivo destas sortes da defesa de São Pedro era feito em regime de exploração privada pelos que tinham conseguido, em leilão, arrematar o direito ao seu uso pelo período que decorria entre uma sementeira e a sua colheita. Era uma prática que nada tinha de trabalho colectivista..

Depois das ceifas a Câmara vendia os restolhos pela melhor oferta. Mas, mesmo no tempo dos restolhos, uma parte da defesa de São Pedro, estava à disposição dos animais dos habitantes da vila.

Era numa parte integrante da Defesa de São Pedro – o Rossio – que a população podia realizar anualmente as suas eiras onde, após as ceifas, se procedia à debulha dos cereais. A notícia que a seguir se transcreve mostra a importância que a Defesa de São Pedro tinha para a população de Campo Maior, a qual se vai manter até ao século XX:

 

A VOZ DO ALEMTEJO, Nº 258, Elvas, Sábado, 25 de Julho de 1863

Campo Maior (correspondência particular)

 

“No dia 21 do corrente pelas 3 horas da tarde manifestou-se o fogo nas eiras públicas do Rossio de S. Pedro desta vila … naquele local havia próximo de 3 mil a 4 mil moios de trigo … sendo o Sr. administrador do concelho o primeiro que se apresentou no sítio do fogo à testa do qual se conservou…para evitar que o fogo se comunicasse aos mais celeiros contíguos, que não seriam menos de 800.

Não sendo menos dignos de iguais encómios e felicitações os mui nobres proprietários que correram de pronto ao lugar do incêndio… e ainda mais se deve ao geral da povoação que, ouvindo tocar o sino da câmara, abandonaram as suas casas, correndo da melhor vontade, de moto próprio, a acudir a um tão inesperado incidente…tornando-se muito distintos por esta ocasião os serviços prestados pelos senhores: subdirector da alfândega José das Dores; os artistas José António de Bastos, José Mendes da Mota, e Dâmaso de Albuquerque; os trabalhadores Manuel dos Santos Valadim, José Duarte, Manuel das Chagas e outros muitos cujos nomes ignoramos…

Campo Maior 22 de Julho de 1863”    

           

            Nota: O mesmo jornal abriu subscrição pública para ajuda aos que tinham sofrido significativas perdas com o incêndio e foi publicando as listas desses contributos recebidos, que foram bastantes e, alguns, bastante avultados.

 



publicado por Francisco Galego às 23:06
Sábado, 10 de Dezembro de 2016

A nossa civilização caracteriza-se por ser pródiga em formidáveis declarações de princípios, mas muito avara e mesmo miserável, no cumprimento dos compromissos assumidos.

 

- Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.

 

- Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espirito de fraternidade.

 

[ Artº 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela ONU, na resolução de 10 de Dezembro de 1948 ]

 

 



publicado por Francisco Galego às 11:27
Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

 

Numerosos documentos aludem às terras comunais de Campo Maior – as defesas do concelho  que, segundo documentos antigos, teriam sido estabelecidas no século XIV, reinado de D. Pedro I, para uso comunal da população e para garantia dos recursos necessários à administração pública dos municípios.  Eram  particularmente importantes nas terras raianas que, por razões defensivas, tinham de ser atractivas para fixação da população.

Segundo Rui Vieira, no caso de Campo Maior, uma das mais antigas referências a defesas data do reinado de D. João III, segundo a qual este rei, no ano de 1550, terá autorizado que a Câmara Municipal campomaiorense arrendasse “a Defesa do Carrascal por dois anos, por mil cruzados, por o concelho "estar em grande necessidade para a despesa da água e fonte que fazeis e para acabardes as audiências e para se fazer um açougue (…) este último a construir, tal como as Casas da Câmara e a das Audiências, na referida Praça Velha”. O mesmo autor refere que “esta defesa do Carrascal, que possuía 20,5 moios de terra, foi comprada à Câmara Municipal de Campo Maior, em 1609, por António da Silva Meneses por 9.250 cruzados (3 contos e setecentos mil réis).”

 Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais.

 Todos os anos estas terras eram divididas em sortes,ou seja, partes de um moio de semente, de uma dezena de hectares, as quais eram leiloadas e cedidas pela melhor oferta e nelas se praticava o cultivo de cereais em afolhamento trienal, como nas restantes herdades da região. Este afolhamento não era rigorosamente respeitado pois uma parte da terra em repouso era por vezes utilizada com outras culturas, como o grão.

Como se vê, o cultivo destas sortes da defesa de São Pedro era feito em regime de exploração privada pelos que tinham conseguido, em leilão, arrematar o direito ao seu uso pelo período que decorria entre uma sementeira e a sua colheita.Era uma prática que nada tinha de trabalho colectivista popular e muito menos de uso comunal.

Depois das ceifas, a Câmara vendia os restolhos pela melhor oferta. Mas, mesmo no tempo dos restolhos, uma parte da defesa de São Pedro, estava à disposição dos animais dos habitantes da vila.

Era também numa parte integrante da Defesa de São Pedro – o Rossio – que a população podia realizar anualmente as suas eiras onde, após as ceifas, se procedia à debulha dos cereais, daí  a importância que a Defesa de São Pedro tinha para a população de Campo Maior, a qual se vai manter até ao século XX.

 



publicado por Francisco Galego às 00:07
Domingo, 04 de Dezembro de 2016

O estado actual do conhecimento sobre este sítio arqueológico:

O Monte de S. Salvador, zona de habitação e capela privada, situa-se numa pequena elevação na margem direita do Rio Xévora e a cerca de 2 km da fronteira com Espanha. A leitura do processo do IGESPAR permitiu perceber que três zonas de escavação foram abertas: na zona 1, junto à capela, as estruturas da "pars urbana"(1); a zona 2, mais a Sul, que corresponde à continuação da "pars urbana" com tanques em opus signinum (2); a zona 3, mais a Norte, do outro lado da casa do guarda do Monte, uma área funerária.

A villa romana situa-se sob a actual capela do monte, estendendo-se para sudeste, parte tendo já ruído para dentro do rio. A "pars urbana" é constituída por vários compartimentos pavimentados com mosaicos geométricos policromos, distribuídos à volta de um peristilo (3). Esta villa teve várias fases de ocupação, visíveis nos remendos dos mosaicos, nas remodelações das salas, revelando assim uma ocupação de longa duração.

As termas foram encontradas mais a norte, frente à casa do guarda do Monte, aquando de umas obras, mas nunca foram escavadas. A algumas dezenas de metros, a Norte das termas, atrás da casa do guarda do Monte, foram encontradas, adossadas a estruturais murais, quatro sepulturas com características tardias.

Este sítio chamou- nos a atenção por dois motivos: a sobreposição de “uma capela que assenta sobre a abside (4) duma outra construção que poderá corresponder a um possível templo romano ou paleocristão” (Dias, 1988) assim como a presença de sepulturas tardias. Apesar de o material nunca ter sido publicado, as descrições deste nos relatórios apontam para uma datação da villa entre os séculos III e IV d.C. Uma vez que se têm operado vários remendos nos mosaicos assim com reestruturações dos compartimentos, acreditamos que a ocupação se tenha prolongado durante várias décadas ou séculos. A localização da capela sobre uma estrutura em abside não significa que estejamos forçosamente perante uma igreja paleocristã, no entanto o facto de a igreja ter o portal descentrado relativamente à capela-mor pode revelar uma planta condicionada por uma construção anterior de certa importância.

Não longe das termas encontravam-se quatro sepulturas de características cristãs: orientadas E-W, que apresentam planta rectangular:

- A sepultura I era construída com grandes blocos de pedra e tijolos, a cobertura também era constituída por tijolos, o interior forneceu apenas uma pequena bilha de bocal trilobado. Não foi possível estudar esta peça mas a arqueóloga responsável propõe uma datação tardia;

- A sepultura II tinha planta rectangular, as suas paredes e cobertura eram em tijolo;

- Da sepultura III eram apenas visíveis alguns tijolos da cobertura;

- Da sepultura IV que estava já destruída, só foi identificado um alinhamento de tijolos, podendo ser uma sepultura de criança.

Estas sepulturas eram adossadas e tinham sido cortadas por um muro (identificado com muro N1) o que pressupõe que este seria posterior; talvez contemporâneo da igreja? Infelizmente pouco se pode dizer acerca desta villa, a não ser que tem características tardias, podendo ter sido ocupada durante o período visigótico. Os indivíduos lá sepultados já seguiam o ritual cristão da orientação dos túmulos e um deles tinha uma bilha trilobada, como encontramos nas sepulturas de Santo Amarinho da Boa Morte (Castelo de Vide) ou de Silveirona. Tal como em outros sítios do Alto Alentejo, as sepulturas tardias encontram-se perto ou sobre as termas em desuso (Alter do Chão, Herdade dos Pombais no Marvão).

Aqui as escavações não foram suficientes para perceber a que estrutura o muro N1 pertence. Provavelmente é já medieval, mas a área de dispersão das sepulturas é muito próxima de onde foram descobertos os arcos do hipocausto (5) das termas.

(1) Zona residencial; em contraposição, a "pars rustica" era a zona da exploração agrícola. Este tipo de organização das "Villae" romanas aponta para a origem romana do "Monte" alentejano. 

(2) "Opus signinum": era o material de construção usado pelos romanos que consistia em misturar argamassa com pedaços de telhas partidas.

(3) Alpendrada sustentada por colunas que rodeava o edifício.

(4) Estrutura abobadada.

(5) Estrutura subterrânea das termas romanas.

 

In, Mélanie Wolfram, A cristianização do mundo rural no sul da Lusitania.Tese de doutoramento defendida na Faculdade de Letras de Lisboa, em 2011. Anexo 1, pág. 144.



publicado por Francisco Galego às 00:05
Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2016

No quadrante SE do distrito de Portalegre encontramos “necropolizações” de espaços

habitados no vicus ou villa de S. Pedro dos Pastores, em Campo Maior.


Frase transcrita  do relatório de uma investigação arqueológica processada no sítio de S. Pedro que apresenta importantes informações sobre este local, como:

- Esta vasta área de São Pedro deverá entender-se como um só sítio de ocupação humana durante o período romano, tardo-romano e alto-medieval que compreende uma zona habitacional (possível villa ou mansio), dita “Defesa de São Pedro” e São Pedro dos Pastores” e uma zona religiosa e funerária na área da “Ermida de São Pedro”. Hoje não é possível observar qualquer vestígio, pois parte foi absorvida pela construção de um bairro de habitação e o resto foi tapado, restando somente um campo abandonado. Foi identificado um núcleo habitacional de época romana, assim como um complexo termal.

- A escavação evidenciou parte das construções integradas numa sequência estratigráfica entre os séculos I e V/VI, bem como numeroso espólio, em depósito na reserva arqueológica de Campo Maior. Os vestígios de construções estavam em óptimo estado de conservação, chegando alguns muros a conservarem ainda 3 metros de altura.

- Uns anos depois foi descoberto mais um conjunto de construções romanas, mas os níveis de utilização e abandono associados a estas estruturas parecem apontar para uma cronologia romana tardia, provavelmente do séc. V. No topónimo das Hortas de São Pedro, foi identificada uma inscrição funerária assim como um tanque revestido a mármore. Esta área pode corresponder a Ad Septem Aras.

No entanto, o que reteve a nossa atenção ao ler os relatórios de escavação de 1992 e 2001, foi a natureza das descobertas e a indicação da proximidade dos vestígios romanos e tardo-romanos (necrópole) junto da Ermida. O sítio de ocupação romana identificado na Defesa de São Pedro compreende um pátio porticado a Sul e a Este, três compartimentos a Norte (A, B e C); no centro do pátio foi descoberta uma espécie de fonte quadrada, todo o conjunto sendo pavimentado por tijoleira. Não se sabe se se trata de termas ou de uma zona agrícola. Este conjunto parece ter sido, porém, abandonado algures durante o século III ou IV, tendo logo a seguir sofrido um incêndio.

Pouco tempo depois, este sítio foi transformado em necrópole, uma vez que os compartimentos e o pórtico foram cortados por doze sepulturas de características tardo-romanas, uma das quais em sarcófago.

In, Mélanie Wolfram, A cristianização do mundo rural no sul da Lusitania.Tese de doutoramento defendida na Faculdade de Letras de Lisboa, em 2011. Anexo 1, pág. 144.

Ou,

In, http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/5678/2/ulsd062156_td_anexo_1.pdf

 



publicado por Francisco Galego às 00:12
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2016

A IGREJA, O CONVENTO E O HOSPITAL DE SÃO JOÃO DE DEUS

A estrutura fundamental desta igreja ainda existe. Mas, a igreja propriamente dita, há muito deixou de existir enquanto lugar de culto.

Falamos de um templo que se localizava no quarteirão delimitado pelas ruas de Santa Cruz – uma rua em ângulo recto, em que um dos lados liga o Largo dos Carvajais ao Largo de Santa Cruz e o outro está na continuação da Rua de São João.

Quando, indo pela Rua de Santa Cruz, se vira para ir para a Rua de São João, do lado esquerdo de quem está voltado para Sul, fica um prédio onde, em tempos idos, estavam as instalações do Convento de São João de Deus e o Hospital Militar que lhe ficava anexo. O local da Igreja ainda lá está e é localizável pelo largo portão que dava acesso ao templo. O convento de São João de Deus ou dos frades hospitalários, foi criado por D. João IV após a Restauração da Independência de Portugal em 1640. Este rei, mandando fortificar Campo Maior, tornando a vila uma forte praça de guerra para defesa da fronteira dos ataques de Espanha, durante uma guerra que durou de 1640 a 1668, mandou dotar a guarnição militar dos cuidados hospitalares dos frades da congregação de São João de Deus que se dedicavam a essa missão. Convento e Igreja ocupavam o espaço que ficava entre a Rua S. João de Deus – hoje chamada Rua Vasco Sardinha -, a Rua de Pedroso – hoje chamada Visconde de Seabra – e a Rua de Santa Cruz.

A Igreja e as duas espaçosas enfermarias anexas, ocupavam todo lado do edifício virado para a Rua de S. João. Quando, em 1732, se deu a explosão da Torre de Menagem do castelo onde se instalara o paiol da praça de guerra, a vila ficou em grande parte destruída, tendo a igreja, o convento e o hospital de São João de Deus, sofrido grande destruição. Na eminência de nova guerra, D. João V mandou reparar tudo com grande rapidez. Mas a traça do edifício sofreu grandes transformações.

Com a pacificação geral da Europa depois da derrota de Napoleão Bonaparte e do restabelecimento da paz no Congresso de Viena em 1815, as praças de guerra deixaram de ter tanta importância.

Após a Revolução Liberal de 1820, houve em Portugal um período de guerras civis. Em consequência da guerra civil de 1828-1832, tendo vencido os liberalistas, foram extintas as ordens religiosas masculinas. O cuidado hospitalar dos militares passou para o encargo das autoridades civis. A Congregação de São João de Deus deixou de existir em Campo Maior. A igreja, as antigas instalações do convento e do hospital foram deixadas ao abandono de que resultou a sua acentuada degradação.

Essas instalações acabaram por ser adquiridas pelo Dr. José Maria Fonseca Regala, médico-cirurgião e abastado proprietário que as restaurou e reformulou, tornando-as residência da sua família e instalações de apoio às tarefas das suas actividades como empresário agrícola.

A parte que antes ocupada pela igreja e pelo hospital, tem sido nas últimas décadas usada como instalações de uma empresa comercial. Mas, no interior, são visíveis ainda traços da sua antiga função. Sobretudo no que respeita à Igreja que não sofreu grandes alterações no que respeita à sua traça arquitectónica inicial.



publicado por Francisco Galego às 00:07
Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

A IGREJA DE S. JOÃO BAPTISTA

 

“No ano de 1732, caiu um raio na Torre grande de homenagem e derribou todo o castelo e a maior parte da Vila …” “A igreja do grande precursor S. João Baptista, protector desta Vila, é que se achava derribada, por se lhe fazer outra nova para com mais decência se venerar a sua imagem (1).”

(...)

“Em 18 de Outubro deste presente ano de 1734 se riscaram os alicerces para a nova Igreja deste Santo, com assistência do Engenheiro Mor do Reino, Manuel de Azevedo Fortes e mais engenheiros que havia juntos por ordem de S. Majestade El-Rei D. João o quinto, que os mandou para fortificarem esta Praça. E, com assistência do mestre que há-de fazer a obra e que se chama Sebastião Soares, o qual mandaram vir de Lisboa os mordomos, com o salário de setecentos e vinte réis por dia, enquanto durasse a obra, cuja planta foi aprovada por todos os engenheiros e pessoas que bem o entendem.

E, sendo véspera de S. Simão, 27 de Outubro, se deu princípio à bênção da primeira pedra, que se havia de lançar na dita Igreja, cometendo o cabido de Elvas, sede vacante, esta diligência ao guardião dos Frades de S. Francisco deste Convento, Frei João da Estrela, que levantou essa tarde uma cruz de pau, conforme o cerimonial romano, com assistência de todos os mordomos e do seu Juiz, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo. Com timbales (tambores de cavalaria, em metal e de forma semiesférica), trombetas, tambores e repiques de sinos de todas as Igrejas. De noute houve luminárias em toda a Vila.

No dia seguinte, 28 de Outubro, em que a Câmara leva o Santo em procissão pelas ruas, em acção de graças pelo bom sucesso que teve esta Praça o ano de 1712 - quando os castelhanos que a sitiaram e assaltaram sem a renderem,  levantaram o sítio, estava prevenida a pedra e benta, com assistência de toda a comunidade dos frades e mordomos. E, ao chegar o Santo na procissão a este lugar, se assentou a pedra …

(Estêvão da Gama, p. 132 e 133)

........................

“A Igreja acha-se hoje com capela-mor fechada com grades de ferro, duas colaterais, a da parte do Evangelho do Apóstolo S. Bartolomeu e a da Epístola, do Senhor dos Passos. Tem um coro alto e uma só porta principal. Na capela-mor tem uma tribuna com um retábulo de talha dourada, ao moderno.

O Santo está num nicho por baixo da tribuna, com grades de prata, uma vidraça e coberto com um volante (véu?). Expõe-se patente nas festas principais do ano aos romeiros e devotos que o querem ver. Há uma relíquia do mesmo Santo com sua autêntica que veio de Roma., a expensas do Padre Luís Pereira, no ano de 1717, em sua custódia de prata feita mesmo em Roma com seu cristal e são cinzas do mesmo Santo. Tem duas lâmpadas de prata, uma antiga e outra que lhe deu o Infante D. Francisco (irmão de D. João V), pelo bom sucesso das nossas Armas no sítio esta Praça e basta para ficar engrandecida saber-se que foi oferta de sua Real grandeza. O Bispo D. Frey Pedro de Alencastro deixou ao Santo, por seu falecimento, a cruz e o anel episcopal.

Há nesta capela dois jazigos cujos epitáfios dizem assim: “Sepultura do P.e Diogo Galvão Pereira para a sua pessoa somente”.

            O outro contém o seguinte:

            “Aqui jas D. Catherina Theresa da Silva, mulher de Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, mosso fidalgo da Caza de S. MageComendador de S. Miguel de V.ª Boa da ordem de N. Sr. Jezu Christo, Brigadrº de Infantaria e governador desta Praça q a defendeo no anno de 1712. Esta sipultura he própria para eles e seus descendentes. Faleceu em 28 de Abril de 1718.”

            No corpo da igreja há dois jazigos, um junto da porta principal que diz:

“Sipultura de Frey D. Pº Henriques, Señor e Comendador de Vª de Oliveira do Hospital da Ordem de S. João Baptista, para seu corpo somente.”

            O outro está junto da capela de S. Bartholomeu e diz:

“Sipultura de Ruy de Brito de Monrroyo e de sua mulher D. Joanna de Castº Brº e para seus descendentes era de 1679.” (Estêvão da Gama, p. 60)

-------------------------------------

(1) A igreja que anteriormente ficava no local da actual, ficara muito danificada pelo bombardeamento da vila durante o cerco de 1712. Estando em processo a sua restaurção, foi fortemente atingida pelos efeitos da explosão de 1732.



publicado por Francisco Galego às 00:03
Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

OS CONVENTOS FRANCISCANOS  DE SANTO ANTÓNIO  E DE S. FRANCISCO

“.... Frey Amador da Sylva, que fundou o convento de Santo António em Campo maior, por  Bula de Alexandre Sexto (Papa desde 1492 a 1503), em que lhe concede faculdade para fundar convento em qualquer parte de Portugal, passada no ano de 1493. E tinha por companheiro Frey Jorge de Payva, natural da mesma vila de Campo Maior e, por esta razão, findaram nela e não em outra parte. E o dito Frey Jorge de Payva foi guardião e no Breve se vê que eram sujeitos somente à Santa Sé Apostólica e que podiam tomar noviços e despedir frades e fazer tudo que bem lhes parecesse.”

 (Estêvão da Gama, p.106)

“… os religiosos de S. Francisco, no ano de 1645 … por se lhe ter demolido o seu convento, a respeito da nova fortificação que El-Rei D. João o 4º mandou fazer para defesa deste Povo, por ser a Praça de maior importância para protecção desta Província ... se acomodaram na Igreja do Castelo os religiosos, porque havia casas contíguas à Igreja de que fizeram celas e nela se mantiveram até ao ano de 1709, em que puderam ocupar o novo Convento que lhes mandou construir D. Pedro II).”

(Estêvão da Gama, p.51)

...“foi grande a violência das minas com que foi demolido o convento dos frades…(1645)”

(Estêvão da Gama, p. 107)

“ Há nesta vila um convento de frades de S. Francisco da Província dos Algarves. Do seu primeiro convento não há notícia certa do ano em que foi edificado. Porém, dizem, era dos melhores da Província, com uma grande cerca e fontes perenes, que ainda hoje se conserva uma com o nome de fonte dos frades[1]. Este convento se demoliu no ano de 1645, a respeito da nova fortificação desta Praça, que foi avaliado pelos engenheiros em sessenta e cinco mil cruzados. Os religiosos se acolheram à Igreja Matriz do Castelo, a qual se  alargou com mais algumas casas contíguas a ela, em que se enclausuraram e assistiram até ao ano de 1709 em que mudaram para o convento novo que, por ordem de D. Pedro o 2º, se edificou por conta da dívida e quantia em que o outro foi avaliado.

            ( O novo convento...) é todo de abóbadas, sem que tenha outra madeira mais que as das portas e janelas. Tem todas as oficinas acabadas e só lhe falta a Igreja para a qual S. Majestade, que Deus guarde, lhe fez mercê de lhe dar uma consignação anual de seiscentos mil réis até que se aperfeiçoasse de todo o dito Convento. Ele está situado na parte mais eminente da Vila, junto ao Baluarte de S. Sebastião, tem cómodo para vinte frades e tem bastante cerca.”

(Estêvão da Gama, p. 61 e 62)

 “No Convento de S. Francisco, que havia muitos anos se achava sem Igreja, esta se tinha feito pelo cuidado do guardião, o padre Frey Fellipe de Santiago que, com esmolas e a sua grande aplicação, a tinha acabado no ano passado (1731).

 (Com a explosão de1732) “Arruinou-se o Convento de S. Francisco, mas não caiu a sua Igreja. Apenas o frontispício dela, algumas celas e a cerca, padeceram grande estrago.”

A Igreja do Convento e a sua cerca constituíram, durante mais de cento e cinquenta anos, um dos lugares de enterramento dos moradores da terra, tornando-se, a partir do século XVII, no maior cemitério da vila.

(Estêvão da Gama, p.s 136 e 138)

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[1] Que depois deu origem à Fonte das Negras.

 



publicado por Francisco Galego às 00:06
Sábado, 19 de Novembro de 2016

IGREJA E HOSPITAL DA MISERICÓRDIA

 

Relação dos morgados, capelas e legados que administra a Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior, títulos por que possui a sua aquisição. (Documento existente no arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior)

            “Fundada neste Reino de Portugal pela Sereníssima Rainha D. Leonor, Mulher de Sereníssimo Rei Senhor D. João Segundo a Irmandade da Misericórdia, em Agosto do ano de mil quatrocentos noventa e oito, se erigiu e fundou a Irmandade e Casa da Misericórdia de Lisboa que os senhores Reis, Rainhas e Príncipes Regentes deste Reino, concederam muitos e grandes privilégios. Depois foi fundada a Irmandade e Casa da Misericórdia nesta vila de Campo Maior que participa agora de todos os privilégios da Misericórdia de Lisboa por Alvará do Sereníssimo Rei D. Filipe III de 22 de Fevereiro de 1618 registado no Livro dos Privilégios e se rege pelo compromisso da Misericórdia de Lisboa. Dela fundou e erigiu Casa e igreja no Terreiro que agora chamam da Misericórdia Velha onde se conservou até ao ano de 1717 em que se erigiu nova Igreja no lugar aonde hoje existe (…)

            Havia naquele tempo nesta vila um hospital que construíram Diogo Lopes e sua mulher Maria Rodrigues nos anos de 1485 a 1487 pelos testamentos registados no tombo (…) dos quais consta das fazendas de que se compunha que se declaram adiante. Sendo administrador do dito hospital e suas fazendas um Domingo Lopes, este em 25 de Outubro de 1598, dotou este mesmo ao Provedor e Irmãos da Misericórdia desta vila a administração do dito hospital, suas fazendas e rendas pela escritura registada no tombo (…) que Sua Majestade confirmou por alvará de 8 de Junho de 1600.”

"A primeira Igreja da Misericórdia foi construída na primeira metade do século XVI no largo do mesmo nome, hoje Largo Barão de Barcelinhos. Edifício que durante mais de um século e meio foi lugar escolhido para sepultura de algumas das famílias campomaiorenses mais influentes. A referida igreja tinha configuração rectangular, com a frontaria virada para os ‘Cantos de Cima’ e as traseiras para a já então denominada Rua João Rosado e possuía dimensões muito reduzidas. Por esta razão foi mandada demolir nos inícios do século XVIII, sendo erguida em sua substituição a actual, contígua ao hospital ao fundo da Rua do Poço.”

(Rui Vieira, 1999, p. 129 e 130)

"… Assentaram que por estar muito danificada a Igreja e necessitar de se fazer de novo, se demolisse aquela e se edificasse outra junto do hospital para que se pudesse comunicar e serem assistidos os enfermos com os Sacramentos pelo capelão da Casa, o que não se fazia até ao presente porque, como a Igreja era separada, não havia Sacramento nela e vinha o viático da freguesia para os enfermos. E com efeito se demoliu a Igreja velha e se edificou a nova com a porta principal para a Rua de Poço e a porta travessa para a Rua dos Gramáticos. E se acha em termos de se fazerem as abóbadas este mesmo ano. (1722, ano em que Estêvão da Gama envia as “Notícias..” à Academia Real de História) (Sobre a porta principal está inscrita a data de 1725, provavelmente a da conclusão da obra).”

(Estêvão da Gama,  p. 56)



publicado por Francisco Galego às 00:06
Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

 

A "IGREJA NOVA" (OU MATRIZ)

 

“ No ano de 1574, os vereadores: Thomé Affonço, António de Payva e Jorge do Rego, cavaleiros fidalgos, estes fizeram um acórdão em que se juntou todo o povo e propuseram que a Igreja da Matriz, era velha e muito pequena, em que não cabia o povo, porque quando se fizera não tinha mais de 300 vizinhos e agora passava de mil, se pedisse a El-Rei faculdade para se fazer outra e ao Bispo uma ajuda do custo”. (Estêvão da Gama, p. 121 e122)

“Ano de 1585… Neste ano veio a Provisão para se fazer a Igreja Nova (1), e se assentou ficasse também a Velha (2) e se partissem os fregueses pelo meio, para que houvesse duas freguesias.”

“Ano de 1610… Neste ano se arrematou a obra da Igreja Nova. No ano de 1645,  ainda não  estava aperfeiçoada, faltando-lhe as torres para os sinos e a guarnição por fora de toda ela. Só no ano de 1662 estava a igreja completada. (Estêvão da Gama, p. 123).

(A nova matriz) é um grande templo de três naves, com duas ordens de colunas de pedra a que chamam "gram". Tem três ao comprimento formando, de umas a outras, arcos sobre que se sustentam as abóbadas. Tem de comprimento sessenta e oito côvados e de largura trinta e quatro. A capela-mor é de bastante grandeza, tem tribuna… O retábulo é todo de alvenaria, com colunas retorcidas, cornijas e cimalhas, tudo estucado e pintado e excelente arquitectura. Tem duas capelas colaterais, uma da parte do Evangelho, de Nossa Senhora da Piedade…onde está sepultado o Bispo de Coimbra D. Martinho Afonso Mexia (3),  Para a parte da Epístola está a de Nossa Senhora do Rosário que é dos soldados do Regimento de Infantaria desta mesma guarnição, por cuja conta corre o ornato dela. Estas duas capelas têm mais vão que aquele que ocupam os altares. Tem outras duas nos lados que formam o grande vão do Cruzeiro: uma do Santíssimo Sacramento para a parte do Evangelho…Outra de Nossa Senhora do Rosário, defronte desta…a imagem da Senhora é de formosa escultura. Segue-se a esta capela, já no corpo da Igreja, a de Nª Senhora do Desterro. A esta segue-se uma porta colateral que fica a nascente. Segue-se-lhe outra capela, de Nª Senhora do Carmo e, no fim dela, corre a parede do frontispício em que está a porta principal que fica ao meio-dia. E em cima dela está o coro espaçoso e claro de que se não servem os clérigos por estar sem ornato nenhum e lhe ser mais cómodo rezarem na capela-mor. A esta porta segue-se a Pia Baptismal (4), que é uma casa de bastante grandeza. Segue-se esta parede a outra e logo a capela de S. Miguel e das Almas…e desta se segue outra porta colateral para o poente e a esta a capela de Nª Senhora da Encarnação e a ela a já referida capela do Santíssimo.

Todas estas capelas foram pintadas entre os anos de 1719 e 1720, de excelente pintura dos Mestres Manuel dos Reis e António Pimenta da cidade de Lisboa, ambos discípulos do grande pintor Bacareley.

Há nesta Igreja três sacristias: uma dos clérigos, outra dos Irmãos do Santíssimo e outra de Nª Senhora do Rosário.

A entrada da porta principal é feita por duas ordens de escadas de pedra. Tem um adro muito espaçoso.

A fábrica desta Igreja(5) são umas terras que no presente rendem setenta e cinco mil réis, cuja arrematação fazem os oficiais da câmara e que foram deixadas por uma mulher de que se não sabe o nome, mas que é coisa muito antiga. Desse dinheiro se paga ao organista e o mais se despende nas obras e reparos da Igreja.”

 (Estêvão da Gama, ( p. 47 a 51 e p.s 122 e 123) 

 

 Notas:

(1) No século passado, o povo designava esta igreja como a Igreja Nova, e o largo onde se encontra como Largo da Igreja Nova. Raramente era designada como a Matriz.

(2) A antiga matriz, dentro do castelo.

(3)Este bispo era natural de Campo Maior.

(4) Segundo documentos antigos, esta pia baptismal teria vindo da antiga igreja matriz, no castelo, que fora demolida e nela teria sido baptizada Santa Beatriz da Silva. De facto, esta peça parece esculpida de uma forma que aponta para uma data bastante anterior à da construção desta igreja.

(5) A "fábrica desta Igreja" significa o conjunto de bens que, com os rendimentos que geram, garantem a sustentação das despesas com os seus serviços e obras de conservação e restauração. Numa perspectiva mais jurídica, a Fábrica da Igreja é a entidade que representa oficialmente a mesma, em todos os assuntos de ordem administrativa. A Fábrica da Igreja é normalmente a proprietária dos bens paroquiais afectos ao exercício do culto. tendo a incumbência de  administrar os bens eclesiásticos da paróquia.

 

 Nota Final:  Com a grande explosão da torre de menagem, em 1732, “arruinou-se o coro e o frontispício da Igreja Matriz, algumas das suas abóbadas e colunas, quebraram-se todas as portas e algumas imagens.”(Estêvão da Gama, p. 138).

A Igreja, serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficavam perto do grande edifício que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo, que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abobada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abobadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto.

Para remediar a ruína (...) mandou D. João V “aplicar a terça do concelho para a reedificação da Igreja Matriz…” (Estêvão da Gama, p. 141)

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
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