Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012

As minhas desculpas pelo interregno. Mas certas tarefas deixam marcas. Por outro lado, às vezes o melhor é parar para retomar folgo.

Enfim... cá estamos de novo para continuar. e vamos retomar com AS SAIAS, a maior e mais antiga expressão cultural dos campomaiorenses que luta hoje com muita dificuldade para não cair em total esquecimento e que tão mal tratadas são, de facto, hoje.

Tratemos pois de as divulgar tal como elas foram no seu tempo de apogeu.

 

Devido à mecanização da agricultura e ao surto industrial nas grandes cidades do litoral, a partir de inícios dos anos cinquenta do século passado, verificou-se um êxodo massivo das populações rurais para os grandes centros urbanos.

O desemprego frequente dos que se ocupavam nos trabalhos agrícolas que sempre fora uma das causas da constante situação de miséria dos assalariados agrícolas – sempre dependentes das condições do clima e do carácter sazonal do trabalho nos campos – tornou-se uma realidade dramaticamente presente, a partir da mecanização da agricultura, afectando não apenas os assalariados mas também os pequenos e médios agricultores. Estes, não tendo capacidade para adquirirem equipamentos de custos elevados, viram-se coagidos a vender as suas terras aos grandes proprietários.

Para toda esta gente, excluída da actividade agrícola, restava a debandada para as cidades.

Este êxodo foi logo seguido, nos anos sessenta, pela sangria demográfica que levou boa parte da população de Campo Maior a emigrar para os países da Europa central. Basta pensarmos no impacto destes fenómenos sobre o modo de vida de uma pequena comunidade, como era nesse tempo Campo Maior, para entendermos as modificações que, naturalmente, teriam de ocorrer.

A nível do “cantar as saias” verificou-se o rareamento das quadras que se cantavam enquanto se cultivavam os campos. Em contrapartida, verificou-se um significativo aumento de quadras de temática bairrista, muito ao gosto e ao encontro dos sentimentos saudosistas dos que estavam afastados da terra que os vira nascer.

Assim, lá longe, onde se vivia, a terra que, por força das voltas que a vida dá, se tivera que deixar, passava a ser imaginada com os encantos que lhe eram acrescentados por uma sofrida saudade.

Cantavam-se assim, de longe, os encantos da vila: 

 

Campo Maior terra linda,

Com’outra não há igual;

Esta terra é a rainha,

Na raia de Portugal.

 

Campo Maior tão velhinho,

Às portas tens um brasão;

Tu recebes com carinho,

A todos sem distinção.

 

Ó belo Campo Maior,

Com muralhas à francesa,

Cada vez canto melhor,

Cantigas à camponesa.[1]

 

Ó belo Campo Maior,

Meu cantinho alentejano;

És no nosso Portugal,

A terra que eu mais amo.

 

Ó belo Campo Maior,

Numa colina pousada;

Com terras de Espanha à vista

Pelos ‘spanhóis cobiçada.

 

Ó belo Campo Maior,

Terra de contrabandistas;

De gente boa e leal,

E das “festas dos artistas”.

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, pág. 56, com algumas diferenças.



publicado por Francisco Galego às 18:27
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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