Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007
 Quando chegam as grandes calmarias de Verão, o Alentejo torna-se mais profundo. Mais isolado do resto do mundo. A terra ressequida, nas horas de calor mais intenso, parece tornar-se um imenso brasido. Olhando para longe, sobre os restolhos, vemos um tremeluzir que parece desvanecer o contorno das coisas. No entanto, é esta terra esbraseada que mais me traz as recordações da minha infância.
Por esta altura, livres da escola e das tarefas a que ela obrigava, batíamos os campos, insensíveis ao calor que tanto incomodava os mais velhos, sobretudo os que tinham de labutar penosamente na canseira das ceifas e no trabalho de debulha a que se entregavam nas eiras. Numa busca vadia procurávamos grilos, pássaros que estonteados pelo calor se punham ao alcance das nossas fisgas. Deitávamos a mão a alguns figos  que, na ausência dos donos, ficassem ao nosso alcance Quando regressávamos esbraseados e sedentos, trazíamos os bolsos cheios de tudo a que pudéssemos ter colhido, despertado a nossa gula e o nosso interesse. Éramos livres e felizes, embora muito inconscientes dos perigos que frequentemente corríamos e das maldades e excessos que quase sempre praticávamos.
Por circunstâncias da minha vida, cedo abandonei esta vida que não sendo muito boa era sobretudo vivida com grande sentido de camaradagem. As maltas em que nos integrávamos, os que vivendo em proximidade de ruas ou de bairros, eram autênticas escolas de aprendizagem de coisas que não se aprendiam nos bancos das escolas mas que nos moldaram para o resto da vida:
- a solidariedade entre os membros do grupo;
- o sentido de pertença aquela pequena comunidade;
- o sentido de entreajuda;
- a lealdade e o dever de cuidar dos mais novos, dos mais fracos e mais desprotegidos;
- a coragem para lutar em defesa do interesse de todos.
 A vila mudou muito. O mundo da minha infância morreu. Posso apenas recordá-lo, tentar dá-lo a conhecer aqueles que o não viveram. Se estivesse na minha mão, procuraria que as novas gerações conhecessem a comunidade rural em que cresci para a vida, aqui em Campo Maior.
 


publicado por Francisco Galego às 18:45
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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