Quarta-feira, 27 de Junho de 2012

 

As quadras que a seguir se transcrevem, referem a situação dos trabalhadores no tempo do Estado Novo. Algumas, de forma divertida, outras clamando contra as duras condições de vida dos trabalhadores, referem a situação dramática dos que, nesse tempo de grande miséria, viviam sujeitos à apertada vigilância dos maiorais e manajeiros e sob a permanente ameaça de despedimento pelos patrões, o que significaria a perda do magro e raro salário que ganhavam, a mourejar de sol a sol, no trabalho do campo. Algumas são também clara manifestação de revolta contra as injustiças e as profundas desigualdades sociais:  

 

 

Adeus ó Zé Abanão,

Moiral do Chico Corado,

És chefe da inquisição,[1]

Está o povo desgraçado.

 

Ó meu amor diz-me lá,

Para quê trabalho eu?

Trabalho, mato o meu corpo,

Não tenho nada de meu.[2]

 

É triste nesta labuta,

Não haver contemplação;

O trabalho é do operário,

Os lucros são do patrão.

 

Para o rico andar gozando,

É o pobre quem trabalha;

O suor do pobre é doce,

A paga do rico amarga.

 

No campo da divina luz,

Onde tudo se consome;

Há quem come e não produz,

Há quem produz e não come.

 

Pedi a Deus que me desse,

 Uma vida d’alegria;

Deus então me respondeu,

Trabalha, semeia e cria.

 

O meu vizinho barbeiro,

Passa a vida alegre à porta;

Eu trabalho noite e dia,

Não passo da cepa torta.[3]

 

Homem rico é mandrião,

Faz figura de espantalho;

O pobre sempre a sofrer,

E às vezes nem tem trabalho.

 

Nasci pobre, pobre sou,

Fortuna não me conhece;

Mas enfim, é sorte minha,

Quem mais faz menos merece.[4]

 

Ó rico tira o chapéu,

Vai um enterro a passar;

É o corpo d’um operário,

Que morreu a trabalhar.

 

Ó que triste o meu penar,

Ó que triste o meu viver;

Trabalho de sol a sol,

E nem tenho o que comer.

 

Anda o pobre escravizado,

Toda a vida a trabalhar;

Sem ter direito à reforma,

Quando não puder ganhar.

 

Se o rico comprara a vida,

Ai do pobre, o que seria;

O rico seria eterno,

Só o pobre é que morria.

                                                       

Na cidade de Lisboa,

Quem é rico passa bem,

Assim é na minha terra,

E noutra terra também.[5]

 

Já o sol se vai escondendo,

Vai baixando a escuridão;

É alegria p’ra nós,

Tristeza para o patrão.

 

Sendo tu rico e eu pobre,

Sem mim não podes passar;

Enquanto eu tiver valor,

P’ra ti hei-de trabalhar.

                                                       

Quem vive do seu trabalho,

Nada vale com certeza;

O rico nada valendo,

Já pode mostrar grandeza.

 

Desprezas-me por eu ser pobre,

A pobreza Deus amou;

Não me trocava contigo,

Assim pobre como sou.[6]

 

Ainda hoje não comi,

Coisa que o Senhor criasse;

Mas já vi o meu amor,

Fiquei como se jantasse.[7]



 



[1] Repare-se na conotação da palavra inquisição (repressão, opressão, perseguição), numa terra em que, como Campo Maior, devido à política de D. João II de acolher os judeus expulsos de Espanha nas terras de fronteira em Portugal, conheceu a tenebrosa acção do Tribunal do Santo Ofício, nos séculos XVII e XVIII.

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 135, Elvas, 16 de Julho de 1882, com diferença do 1º verso: Ó minha mãe dos trabalhos,.

[3] Idem, nº 145,  Elvas, 20 de Agosto de 1882.

[4] Idem, nº 137, Elvas, 23 de Julho de 1882.

[5]Idem, nº 427, Elvas, 4 de Maio de 1886.

[6] Idem, nº 139, Elvas, 30 de Julho de 1882, com algumas diferenças.

[7] Idem, nº 433, Elvas, 14 de Junho de 1882.



publicado por Francisco Galego às 09:08
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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