Segunda-feira, 19 de Março de 2012

Nas cantigas de escarnecer caía-se por vezes na desmedida, quando se passava para o lado da ofensa e da ordinarice. Embora bastante raras, algumas das quadras deste tipo geravam grandes ressentimentos e confrontações que acabavam em violentos conflitos chegando a vias de facto, com agressões físicas, quase sempre envolvendo grupos pois, como em todos os tempos, os jovens tendiam a associar-se em bandos ou maltas de camaradagem. Como seria de esperar, neste tipo de cantigas, a linguagem tornava-se, por vezes, desbragada. Mas, se quisermos usar de alguma complacência, teremos que reconhecer que, afinal, a linguagem que utilizavam não era nem menos nem mais escabrosa do que a que foi utilizada por grandes vultos da literatura portuguesa como, por exemplo, Gil Vicente ou Bocage, para citar apenas dois dos mais conhecidos.

 

 Muitas destas cantigas tomavam a forma de cantar ao desafio. Embora o desafio fosse, quase sempre, uma forma de namorados dialogarem ou de dois homens esgrimirem a sua habilidade de cantadores, nem sempre o desafio era bem comportado e decorria de forma tão idílica. Por vezes transformava-se numa disputa com cantigas de escarnecer. Alguns reptos e respostas tinham apenas como intenção provocar o riso. Mas, noutras vezes, as coisas iam mais adiante dando origem a situações intoleráveis. O vinho que escorria em demasia pelas gargantas, o ressentimento, o despeito e a rivalidade, motivavam intervenções que, atravessando a fronteira dos bons modos e do bom gosto, se tornavam actos de ofensas pessoais e se traduziam em atitudes de grande grosseria. Não terão sido poucos os desafios que resultaram em enormes confusões porque o descante descambava para violentas cantigas de escárnio e maldizer.

Vejamos este exemplo que remonta aos finais do século XIX e em que, na Feira de São Mateus, um homem se chega ao baile e canta para a roda:

 

Sete anos fui casado,

Sete mulheres conheci;

Graças a Deus para sempre,

Estou virgem como nasci.

 

A pronta resposta de uma rapariga embasbacou o ingénuo cantador, rematando desde logo o desafio:

 

Ao Senhor da Piedade,

Estou bradando por justiça;

Porque, ou você não é homem,

Ou então não tem nabiça.

 

Esta situação documenta como algumas destas situações davam azo a respostas repentistas que correriam de terra em terra como divertidas anedotas.

 

Nesta outra, que é muito conhecida, um grupo de jovens terá chegado a uma festa numa aldeia vizinha e tomado generosamente uns copos de bebida. Chegados ao baile, um deles alçou a voz e lançou:

 

Um copinho, dois copinhos,

Três copinhos d’aguardente;

As mocinhas desta aldeia,

Fazem um homem bem quente.

 

Respostas imediata de um da terra:

 

Um copinho, dois copinhos,

Três copinhos de licor;

Levas um murro nos cornos,

Passa-te logo o calor.

 

 



publicado por Francisco Galego às 18:11
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