Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Outras vezes, quando razões de zanga assistiam ou por simples brincadeira, podia sair provocação agreste e rude como uma chicotada, sem cuidar de regras de boa educação. Nestes casos, vinha logo resposta a contento e começava o despique que ia da ofensa à desconsideração, até que algum dos contendores parasse ou que, se os ânimos se azedassem, tudo acabasse em grande confusão. Vejamos este exemplo constituído por quadras muito antigas:

 

Cala-te aí boca aberta,

Rodilha da chaminé;

Como não sabes cantar,

Vai-te embora do meu pé.

 

Cala-te aí boca aberta,

Gargalo dum garrafão;

Meu pai comprou umas cabras,

E tu vais ser o meu cão.

 

 

Cala-te aí boca aberta;

Rodilha da chaminé;

Se tu tiveras vergonha,

Não arrumarias pé.

 

Cala-te aí boca aberta,

Novelo de linhas finas;

Devias era servir,

De poleiro às galinhas.

 

Cala-te aí boca aberta,

Rodilha do meu palheiro;

Já vi andar o teu pai,

Às marradas c’um carneiro.

 

Cantas bem não cantas mal,

Meu cara de Belzebu;

Mascarrava a minha cara,

Se cantasse como tu.

 

As cantigas que tu cantas,

Mete-as num forno frio;

Tu só és bom a cantar,

Com um burro ao desafio.   

 

Eu subi ao cabecinho,

Para ver o sol raiar;

Não devia vir tão cedo,

P’ra t’ouvir assim zurrar.

 

Tenho dúzias de cabrestos,

Comprados na nossa feira;

P’ra encabrestar as bestas,

Que cantam dessa maneira.

 

Quem tem raiva que enraiveça,

Quem tem catarro que tussa;

Quem lhe servir na cabeça,

Que enfie esta carapuça.

 

 

Esta noite choveu neve,

Arrasaram-se os açudes;

Cala-te chibo não berres,

Cala-te burro não zurres.

 

Vai-te daqui toleirão,

Boca de almotolia;

Guardanapo d’estalagem,

Vassoura d’estrebaria

 

Cantas bem não cantas mal,

Como o sapo num alqueve;

Vai roendo esses caroços,

Té que o diabo te leve.

 

Cantas bem não cantas mal,

Como o sapo n’alagoa;

Vai roendo esses caroços,

Té que venha a palha boa.

 

Cantas bem não te desfaças,

Desse teu cantar aflito;

Pois s’os animais cantassem,

Melhor cantava o cabrito.

 

Disse o galo p’ra galinha,

Lá p’rós lados do mercado;

P’ra cantar dessa maneira,

Mais valia estares calado.

 

Os temas eram muito variados sendo certo que, tratando-se dum descante entre homem e mulher, o tema mais provável das quadras improvisadas, versaria sobre questões de amor: umas vezes de pedido de namoro, outras de declaração de paixão, havendo mesmo algumas que consistiam em ajustes de contas de desentendimentos.





publicado por Francisco Galego às 18:06
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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