Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Alguns dos temas do “cantar as saias”, estão hoje nitidamente em desuso, sobrevivendo apenas na memória dos mais idosos. Em contrapartida, novas temáticas se foram tornando dominantes. Isso tem a ver com a evolução por que tem passado globalmente a sociedade, ou com fenómenos de mudança que afectaram, em particular, a comunidade campomaiorense.

É natural que assim tenha acontecido pois, por exemplo, dificilmente as quadras que antigamente faziam referência a tarefas do trabalho nos campos poderiam sobreviver num tempo em que apenas uma escassa minoria da população local se dedica ao trabalho agrícola e em que muitas das antigas tarefas desapareceram, devido a novas tecnologias que mudaram completamente as práticas da agricultura. Duvido que termos como alqueivar, sachar ou escardar signifiquem hoje alguma coisa para a maioria dos jovens campomaiorenses.

Algumas das quadras compostas de improviso em cantares de desafio, notáveis pela sua beleza ou pela maneira como retratam determinados sentimentos ou situações, são as de mais antiga composição. Algumas dessas quadras são ainda hoje cantadas. Pela mesma razão, é também muito natural que as cantigas de enamoramento, que ainda estão muito presentes no actual “cantar de saias”, incluam um número considerável de quadras muito antigas pois elas falam dos amores e dos encantos que os amadores encontram nos seus amados, temas eternos de toda a poesia.

Contudo, essa temática tem vindo a perder importância, na medida em que essas formas de descante deixaram de ter a função social de servirem de meio de comunicação nos namoros proibidos, reprimidos ou forçados a grande distanciação que, noutros tempos, caracterizava as formas de namorar à porta ou à janela, sempre sob a apertada vigilância das mães e a fingida interdição dos pais.

Hoje, com a liberalização das relações entre os jovens de ambos os sexos, a quadra deixou de ter a função de recado, funcionando apenas como manifestação de bairrismo, ou como simples pretexto de diversão. Apesar disso, talvez porque a capacidade criativa dos autores aumente com o seu grau de instrução, aparecem hoje novas quadras de amor de grande perfeição formal e de grande inspiração poética.



publicado por Francisco Galego às 19:32
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