Domingo, 06 de Novembro de 2011

No Alentejo, os cantos destacaram-se sempre como notáveis manifestações da cultura popular: no Baixo Alentejo os cantos corais; na maior parte do Alto Alentejo, eram cantadas e bailadas as “saias”.

É um facto que, como escreveu Maria Arminda Zaluar Nunes, “ a cada passo, no desenrolar da nossa literatura, interpenetram-se o lirismo culto e o popular”. Com relativa frequência aparecem como quadras de “saias”, algumas que podemos identificar pelo autor. Ainda com mais frequência, se nos coloca a questão de entre as quadras de autores, mesmo de autores notáveis, e as quadras populares, não ser fácil decidir sobre quais apresentam maior perfeição formal e maior riqueza de conceitos.

É uma realidade incontestável que as quadras do “cantar as saias” se foram tornando mais letradas, aproximando-se, na forma e na linguagem, da literatura escrita. O facto de isto acontecer não deve ser tomado como uma prova de que se estão a tornar menos populares, mas porque o povo é uma realidade dinâmica que está em constante transformação. Daí resulta que a cultura que ele produz e que ele preserva, se vai mudando na medida em que mudam as condições e os protagonistas que integram o povo produtor dessa mesma cultura.

A cultura popular, enquanto viva, é sujeito activo duma história. Só quando morre se torna objecto estático duma análise meramente histórica. Nesta perspectiva, não deve ser motivo de reparo e de estranheza que, nas manifestações de cultura popular que mantêm alguma actualidade, se note uma evolução, quer formal, quer de conteúdo, nas composições que são feitas ou usadas no presente. Isso não significa degenerescência ou adulteração. Significa apenas que essas manifestações culturais estão vivas e a vida implica mudança.

A elevação do nível social, económico e cultural da população é uma consequência da democratização que implica acesso generalizado a níveis de escolarização cada vez mais elevados. Os grandes meios de comunicação contribuem também para quebrar o isolamento, disseminando a informação e o conhecimento. Só de uma perspectiva elitista poderemos desejar que o povo mantenha sem mudança as suas manifestações culturais. Porque isso não significaria uma maior “pureza” ou autenticidade. Significaria, pelo contrário, atraso e estagnação no seu desenvolvimento, com as consequências inevitáveis para as suas condições de vida. Os pobrezinhos simples e ignorantes só são felizes na lógica dos que não são sentem nas suas vidas os efeitos amargos que toda a pobreza implica.

           



publicado por Francisco Galego às 19:22
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