Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Noutros tempos este grande acontecimento anual, dava lugar a um intenso convívio pois, os que vinham de fora, deslocavam-se em carroças ditas de canudo por serem cobertas por uma protecção de forma cilíndrica, formada por uma estrutura de cana, coberta de uma tela de pano encerado, que protegia os passageiros da chuva e do sol. Com essas carroças, autênticos antepassados das actuais tendas e roulottes, formava-se um vasto acampamento no qual permaneciam, em alegre convívio, pessoas das mais variadas proveniências, algumas por cerca de uma semana. Aí se cozinhava e comia, aí se dormia e aí se cantava e dançava, sobretudo nas madrugadas, pois os bailes só podiam funcionar bem depois quando se acalmava a barafunda da feira e se calava a algazarra dos tendeiros e das potentes aparelhagens sonoras dos circos e carrosséis.

O São Mateus de Elvas era até meados do século passado, uma das maiores festividades que os campomaiorenses celebravam. Poupava-se durante meses para se pode ir até à Fêra d’Elvas por volta de 20 de Setembro.

Só os mais pobres, por falta de recursos, e os que cumpriam resguardo por luto ou por doença, ficavam. As carroças partiam uns dias antes ajoujadas de gente, de galinhas, de cabazes de comidas e de doçarias confeccionadas para a ocasião. Quem mais depressa chegasse, melhor lugar podia escolher para acampar nos olivais em volta do parque em que estaria montada a feira.

 Havia anos, principalmente os mais favoráveis para a agricultura e em que o clima em Setembro era ainda favorável, que Campo Maior quase se despovoava nos dias do São Mateus. Quem não podia ir de carroça, em caravana, ia a pé. Uma manta chegava para aconchego. Quanto ao resto, desde que houvesse dinheiro para a pinga e para o petisco, já se passava a contento.

Procuravam, os de cada terra, ficar juntos para melhor conviverem. Aliás, a feira era o pretexto para o que mais importava: o convívio que se ia gozar durante os dias que a feira durava. O São Mateus servia de pretexto para as parcas férias de que os menos ricos e os remediados podiam desfrutar.

Armados os acampamentos, gozava-se do descanso, da boa comida, da alegre convivência que a ocasião propiciava. De dia dormia-se muito e até tarde, por força de alguns excessos de bebida e porque as noites se prolongavam até de madrugada.

            As noites eram para a maioria destes romeiros o melhor que a festa propiciava. Formavam-se grandes bailes de roda animados pelo cantar e dançar das “saias”. Havia disputas assanhadas, muitas vezes entre grupos de terras diferentes. Surgiam a “modas novas”. Quadras engenhosamente elaboradas ao longo do ano encontravam ali o terreiro adequado para a sua pública exibição.

Arranjavam-se e desfaziam-se namoros. De vez em quando, uma ou outra rixa ensombrava a convivência por razões de exacerbado bairrismo, por melindres, ou por imponderadas ofensas à honra ou à dignidade dos presentes.

 

 



publicado por Francisco Galego às 18:15
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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