Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

 DOS ANOS 70 EM DIANTE...

 

            As Festas do Povo de 1972, foram as últimas que se realizaram antes da restauração da democracia em Portugal. Este foi o ano em que a chuva ia estragando a festa. No segundo dia, quando tudo estava já engalanado, uma inesperada e arreliante chuvada, destruiu parte das ornamentações. Uns anos mais tarde, em 1995, no Linhas de Elvas, Manuel Carvalho descrevia de forma admirável a situação que então se viveu em Campo Maior:

Entre os milhares de pessoas que estavam em Campo Maior naquela tarde do primeiro domingo de Setembro de há 23 anos, é seguro que ninguém pode ter ficado insensível ao que se passou e ao que viu.

A vila tinha ficado bonita como sempre. O trabalho estava fresco, tinha sido terminado na madrugada anterior.

O que se passou por volta das cinco da tarde explica-se numa frase: uma grande trovoada, acompanhada de chuva e vento forte, deitou por terra a maior parte das ornamentações feitas em meses de trabalho.

Campo Maior ficou em silêncio; as pessoas choraram, para dentro, para si. Por certo houve quem se revoltasse. Não faltou quem tivesse encontrado uma explicação acima do natural: que a trovoada desoladora tinha sido à hora a que costumava sair a Procissão. Nos anos anteriores sempre saiu. Em 1972 não. De então para cá nunca mais a Procissão deixou de se formar.

Houve quem ainda tentasse, com flores feitas à pressa ou indo buscar umas sobras, refazer as ruas. Mas as Festas não ficaram como antes.

Num documento enviado à Comissão das Festas, Joaquim Cavaco Malagueira, o director técnico da empresa S.O.S. – TELEVISÃO, que veio fazer a animação sonora das ruas durante as Festas, recordava o temporal que varreu completamente as festas de 1972 em que, depois de no primeiro dia a chuva ter danificado o “paraíso das flores”, os campomaiorenses ainda tiveram forças para erguer novamente as suas ornamentações para novamente as verem destruídas pela chuva inclemente.

Portanto, o povo não se conformou com o destino adverso e de novo veio para a rua para repor a situação. Recuperou o que podia ainda ser aproveitado, refez o que estava irremediavelmente destruído. E a Festa continuou. Dizer que de castigo do céu se tratava porque a procissão não tinha saído, era dar explicações pouco apropriadas, porque não se deve conceber o céu como vingativo e já em 1965 não se tinha feito a procissão - que fora substituída por um cortejo de oferendas a favor da Santa Casa da Misericórdia - e tudo correra a contento.

 Esta edição das Festas de 1972, que decorreu de 3 a 10 de Setembro, seguiu de muito perto o modelo das realizadas nos anos de 1964 e 1965. Desta vez, voltaram as touradas com grandes cartazes, com elencos formados por grandes nomes do toureio a pé e a cavalo. Nos espectáculos de variedades recorreu-se a artistas espanhóis de pouca nomeada e a amadores campomaiorenses para animarem um espectáculo luso-espanhol. Numa das noites, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), apresentou um Espectáculo para Trabalhadores.

 

E, aconteceu Abril...


Durante nove anos o povo não quis saber das suas Festas.  A grande embriaguez da liberdade, os conflitos e a aprendizagem de uma nova forma de conviver, suspenderam por algum tempo a possibilidade de qualquer projecto comunitário.

Durante algum tempo, o Povo não foi inteiro, nem indivisível. Foi plural nas suas crenças, nas suas aspirações, nos seus projectos de convivência social. Com o 25 de Abril, a grande euforia da liberdade finalmente conquistada, fez esquecer qualquer outro projecto dentro de uma sociedade que se lançava num grande e tumultuoso processo de mudança. Foi preciso esperar pelo restabelecimento de um novo equilíbrio social para que as Festas se tornassem de novo desejadas e possíveis.

A reconciliação tardou porque foi difícil conciliar as diferenças. Mas, quando foi possível, as Festas voltaram, elas próprias, a tentarem a necessária adaptação a um novo modelo de comunidade.

 

 

ANOS 80 – O “GIGANTISMO” DAS FESTAS

 

As primeiras Festas pós – 25 de Abril, foram as Festas do Povo de 1982 As Festas decorreram de 5 a 12 de Setembro, tendo sido 92 as ruas engalanadas.

Este ano de 1982, foi o ano da reconciliação na comunidade campomaiorense. Aceites mutuamente as diferenças e o direito de todos à opinião e à divergência, tornava-se de novo possível a colaboração em projectos em que todos participassem.

A partir daí as Festas não pararam de crescer, em qualidade e em fama. Atraindo multidões, e dando a ideia de que iria  finalmente manter alguma regularidade quantos aos anos de realização. Em 1985 e em 1989 houve Festas.

 

Mas, 1992 foi o ano do NÃO. Por mais esforços que se fizessem, não foi possível mobilizar as vontades:

Tentando manter a periodicidade de três em três anos, as Festas chegaram a estar projectadas para o ano de 1992. Manuel Carvalho, no Linhas de Elvas, chamou ao ano de 1992 o Ano do Não. Na sua crónica explica como as coisas se posicionaram:

No Outono de 1991, juntaram-se uns argumentos para chegar ao coração dos campomaiorenses: Que 1992 ia ser um ano muito importante para Espanha com os Jogos Olímpicos de Barcelona, a Capital Europeia da Cultura em Madrid e a Expo em Sevilha; que Campo Maior, ao lado da Espanha, poderia ganhar com esta movimentação ibérica; que as Festas do Povo eram o grande cartaz da vila; que devia haver Festas em 1992.

A tudo isto o Povo virou costas e, porque na altura andava revoltado com a desatenção do governo em relação a Campo Maior em matéria de saúde, deu um rotundo “ Não” às pretensões apresentadas.

Habituados a dizer “Sim” cada vez que um carro de som anunciava Festas, os campomaiorenses deixaram claro: Primeiro o Hospital, depois as Festas.


Em 1994, foi criada a Associação das Festas de Campo Maior, com a finalidade máxima e prioritária de realizar e promover as Festas do Povo. As Festas voltariam a realizar-se em 1995, 1998, 2002, 2004 e, neste ano de 2011 voltam a realizar-se.

           



publicado por Francisco Galego às 08:07
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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