Domingo, 03 de Julho de 2011

 

João Pedro Ruivo, então a residir na cidade de Évora onde atingira o topo da carreia de Tesoureiro (de 1ª classe) da Fazenda Pública, veio assitir às Festas do Povo que ele tanto adorava e que tanto divulgara com os seus escritos em vários jornais. Nesse ano no dia 11 de Janeiro, na mesma cidade, falecera seu pai, Pedro Daniel da Encarnação Ruivo, com 93 anos de idade, a quem Campo Maior tanto ficou devendo pelas obras que deixou e pela sua actividade em prol do prestígio e da cultura da sua terra.

É de notar a maneira como João Ruivo compreendeu que as Festas do Povo de Campo Maior se estavam a tornar um acontecimento que estravasava cada vez mais os limites do concelho e atraía um crescente número de forasteiros. Repare-se também como ele realça a originalidade desta Festas e o facto de elas resultarem do trabalho colectivo da sua população. Claro que outros eram os tempos, os recursos e as condições. Naturalmente que as Festas teriam de ir mudando, adaptando-se às mudanças que se iam verificando no modo de vida da população.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 155, 19 de Setembro de 1953


Campo Maior e as suas Festas do Povo


   Mais uma vez a branca e linda vila de Campo Maior realizou as suas Festas do Povo, outrora denominadas “dos Artistas” – que com verdade se podem considerar as mais típicas e características da região transtagana.

   Como num conto de fadas, nos primeiros dias deste Setembro das vindimas – e bem farto é o termo em vinhas de boa casta -, quase todas as ruas da vila surgem engalanadas em fantasmagórica apoteose, oferecendo o aspecto de um jardim das mil e uma noites que deslumbra os muitos forasteiros idos de várias terras do país para admirarem as tão afamadas festas que de ano para ano conquistam maior número de simpatizantes.

   É que estas festas possuem uma originalidade e um pitoresco que lhe marcam um lugar especial entre as que se fazem em outras localidades, nas quais apenas se ornamentam habitualmente os recintos restritos dos arraiais: adros, rossios, campos das feiras, parques, etc., o que não se dá naquele rico e progressivo burgo fronteiriço.

   Aí, a par da Comissão Central, constituem-se subcomissões em cada rua, em cada beco, em cada travessa, para angariarem fundos destinados às despesas a fazer com a ornamentação das mesmas. Depois, os pequenos e os grandes proprietários vizinhos, oferecem seus carros e criados para a condução da murta e materiais e emprestam madeiras para postes e mastros, escadas, cordas, ferramentas, etc. E com o produto das quotizações, compra-se fio, papel de cores, cola, balões, e alugam-se lâmpadas e tudo o mais necessário para que as decorações resultem brilhantes, pois os moradores vibram de fervorosa emulação bairrista e porfiam em apresentar o melhor e mais aprimorado trabalho numa exuberante e magnífica manifestação de vontade, numa admirável demonstração de arte popular que sai espontânea e viva da imaginação daquela gente simples e ingénua que “sente a cor tal qual a vê e lhe entra na alma”.

   Por isso, dois meses antes do grande dia para todos tão desejado, rapazes e raparigas, velhos e novos, reunindo-se aos serões nas casas térreas da rua, nas adegas, nas cocheiras e nos pátios, formam planos, elaboram projectos, esboçam desenhos, cada qual expondo sua ideia consoante lhe permite a sua intuição e sensibilidade estética. E discute-se, ornamenta-se, delibera-se, em longos serões que, por vezes, vão até alta madrugada, com sacrifício voluntário do repouso tão preciso aos que trabalham; recortam-se os papéis e dobram-se e desdobram-se nas formas mais engenhosas, para se transformarem em grinaldas e cadeados, em festões e bandeirinhas e em galhardetes e franjas; armam-se os lustres de arame, esparragueiras e pirliteiro; pintam-se os painéis alusivos e suas legendas, umas de sentido patriótico ou religioso, outras de sentido irónico ou amoroso; enramam-se os mastros e o cordame; levantam-se os arcos alegóricos e os pórticos; constroem-se os altares e os engenhos e as cascatas ou jogos de água que põem no conjunto uma nota de frescura e dispõem-se todas aquelas pequenas maravilhas que irão metamorfosear as ruas em caprichosos túneis de verdura, gritantes de colorido e de beleza emotiva.

   E todo o recheio das casas remediadas, como o das modestas casas de gente humilde, sai às vezes também para decorar as paredes alvinitentes das frontarias, em curiosa exibição de excepcional interesse folclórico: as faianças coloridas, os cobres, o estanho, o vermelho das frescas cantarinhas e moringues, os alforges mouriscos e as mantas alentejanas, as colchas e almofadas bordadas à lareira, no Inverno, para o bragal de noivado das moças casadoiras.

   E todo este mágico cenário mais ressalta quando, à noite, as abóbadas e tectos multicolores se iluminam profusamente de lâmpadas eléctricas e balões venezianos e a gente moça – quando não um ou outro par já entradote nos anos, que pretende relembrar seus bons tempos – exibe suas danças e cantares a que esbeltas e graciosas camponesas, estuantes de alegria e de entusiasmo, dão uma nota garrida e álacre no colorido dos seus trajes, no timbre de seus garganteados, no meneio de seus lindos corpos, no curioso sotaque de suas falas decididas, na melodia das típicas “saias”, acompanhadas pelo ritmo frenético de pandeiretas e adufes e no encanto de suas cantigas ao desafio e de despique, em que a veia poética da boa gente camponesa nos dá a garra dos seus sentimentos em quadras singelas de amor, de saudade, de ternura e de despeito ou de ciúme, traduzindo às vezes o seu ardoroso bairrismo e o seu orgulho, de mistura com zombeteira ironia, como esta:

                                     

                                       Já Elvas não vale nada;

                                      Badajoz vale um vintém;

                                      Campo Maior mil cruzados,

                                      P’las mocinhas que lá tem.


                                                                         João Ruivo



publicado por Francisco Galego às 18:30
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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