Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

AS FESTAS EM TEMPOS DE GUERRA II

 

A Guerra Civil de Espanha aproximava-se do fim. Com o apoio declarado e algumas vezes directo da Alemanha nazi de Hitler e da estado fascista de Mussulino na Itália, era cada vez mais nítida a vantagem das forças comandados por Francisco Franco. A Espanha serviu de campo de ensaio para a "guerra total" que iria eclodir.

Em Portugal registava-se uma certa agitação social e política que Salazar utilizou para consolidar o seu  musculado Estado Novo corporativista.

O ano de 1938 começou com todas as polícias, forças militares e militarizadas em estado de alerta pela suspeição de que estivesse a ser organizado um golpe militar contra o Estado Novo. O regime ao mesmo tempo que toma medidas de prevenção, desencadeia um vasto plano de propaganda. Vão seguir-se várias comemorações de exaltação nacionalista que culminaram com a dupla celebração dos Centenários: o  da fundação de Portugal, em 1140 e da restauração da independência em 1940.

Neste contexto, as Festas do Povo procuraram ganhar um certo élan no ano de 1938, como se pode constatar pelo programa que foi anunciado. Mas os tempos não eram favoráveis a grandes festejos e, pelas notícias publicadas, podemos também constatar que o que foi efectivamente realizado ficou muito aquém do fora programado.

 

Brados do Alentejo, Estremoz, 28 de Agosto de 1938

Festas de Setembro


   As afamadas Festas de Setembro únicas neste género em todo o Alentejo e talvez mesmo em Portugal, realizam-se este ano em 4,5,6, 7e 8 do próximo mês. Este ano são promovidas pela Santa Casa da Misericórdia que prima em organizar um programa atraente. Há mais um dia de festa do que era costume, soberbas festas de igreja e procissões, fogos-de-artifício dos melhores pirotécnicos do país, touradas com gado bravíssimo e com várias surpresas, concertos musicais por excelentes bandas de música, feira franca, ornamentação geral de ruas, travessas, praças, Avenida e Bairro Operário, três valiosos prémios em dinheiro às ruas mais bem ornamentadas, grandes iluminações eléctricas e à veneziana, festival aeronáutico no campo do Rossio de S. Pedro, corridas de bicicletas e de automóveis, tiro aos pombos, etc., etc. As bandas de música que abrilhantam as festas são as de Palmela, Castelo de Vide, Alegrete e Academia dos Amadores de Música Campomaiorenses. As quermesses e tômbolas na Avenida Dr. Agrela, já há cerca de dois meses que funcionam dirigidas por gentis meninas que têm colhido boa receita.

   De ano para ano, estas festas vão melhorando graças ao amor pela terra que nos foi berço, principalmente pelas classes ricas que são as que mais auxiliam porque são as que mais podem. Há três meses que as comissões das ruas trabalham afanosamente nos preparativos para as ornamentações. Boa oportunidade para visitar Campo Maior, onde em geral todos os forasteiros ficam encantados com as lindas ornamentações de cunho regionalista, apresentando as ruas um completo jardim de mistura com as mais variegadas cores, não faltando os repuxos e cascatas onde as águas cantam, de dia e de noite, sobre renques de verdura.

Estas festas são também conhecidas pelo povo por festas do padroeiro, visto serem feitas em honra e louvor de S. João Baptista, padroeiro de Campo Maior. Junto à feira e ao jardim, há grandes campos para os forasteiros porem os carros e os gados, para comerem e pernoitarem, havendo no recinto abundância de água potável. As pensões e hotéis estão-se preparando o melhor que podem para receber os forasteiros.

 

O Correio Elvense, Nº 407, 4 de Setembro de 1938

   Nesta formosa e progressiva vila começam hoje e prolongam-se até ao próximo dia 7 as tradicionais Festas do Povo. Que há anos ali se realizam com grande êxito e muita concorrência, espacialmente desta cidade. O programa de tão atraentes festas é o seguinte:

Dia 4 – Às 6 horas, início das festas. Repique dos sinos em todas as freguesias e uma salva de 21 morteiros; às 12 horas, solene festividade religiosa na igreja de S. João Baptista, na qual tomará parte uma especial orquestra sob regência do maestro Lino Fernandes; às 15 horas, abertura da exposição de quadros e outros trabalhos do pintor Francisco Xara; às 18 horas procissão coma imagem do padroeiro S. João Baptista, a qual percorrerá as principais ruas da vila; às 21 horas, arraial na Praça da República, abrilhantado pela Banda da Academia dos Amadores de Música Campomaiorense, fazendo a sua apresentação de cantadeiras Rancho do Sor.

Dia 5 – Às 8 horas alvorada pela Banda da Academia dos Amadores de Música Campomaiorense; às 15 horas início da venda da flor por um grupo de gentis senhoras desta localidade; às 17 horas, grandiosa corrida de touros à vara larga, uma das mais características diversões do Alentejo, abrilhantada pela Banda da Academia; às 21 horas, apresentação na Avenida Dr. Agrela do rancho infantil, o qual apresentará várias danças e cânticos do seu vasto reportório; às 22 horas, continuação do festival nocturno, fogo preso e do ar, bailes e descantes populares.

Dia 6 – Às 16 horas gincana de burros e corrida de sacos, na Praça da República; às 18 horas, corrida de touros à vara larga abrilhantada pela Banda da Academia; às 22 horas, continuação do festival com fogo preso e do ar; às 0 horas, largada de um balão.

Dia 7 – Às 8 horas, alvorada pela banda, às 17 horas, última corrida de touros; às 22 horas, leilão de prendas não sorteadas na tômbola, concerto pela banda, bailes e descantes populares, fogo-de-artifício, preso e do ar.



publicado por Francisco Galego às 14:37
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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