Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

 Vivemos hoje numa sociedade de informação. Tudo que aconteça em qualquer parte que seja do mundo, chega rapidamente ao nosso conhecimento. E o volume desses factos que diariamente até nós chegam é de tal ordem que nos assusta. Sabemos o que se está a passar numa cidade tão longínqua como São Paulo no Brasil. Se a  rádio, a televisão e os jornais nos dão a impressão de uma grande metrópole, com a dimensão de uma das maiores cidades do Brasil e do mundo, estar a ser desestabilizada por bandos organizados de marginais, naturalmente que isto nos assusta e somos naturalmente levados a pensar: O mundo está perdido! No meu tempo não era assim!

Provavelmente era ainda muito pior. Só que os nossos avós viviam num mundo em que a informação era muito escassa. Mal sabiam o que se passava nas vizinhas cidades de Portalegre ou de Elvas, quanto mais do que se passava no Brasil. Eles não ouviam rádio, coisa apenas acessível aos muito endinheirados. A televisão não existia. E, a maior parte deles, não poderiam ler os jornais porque … nem sequer sabiam ler.

Os jovens de hoje já nasceram num mundo diferente. A informação faz parte integrante do seu modo de viver. E se há jovens que se perdem nos descaminhos da vida, isso também acontecia nos tempos antigos, com a agravante de que os nossos  avós não tiveram tantas oportunidades como aquelas que estão a ser dadas aos nossos filhos e netos.

A grande maioria dos que nasceram em Campo Maior no tempo dos nossos avós tiveram apenas como oportunidade de vida, sem alternativa nem escolha, arrastarem-se numa vida de esforçado trabalho nos campos, com muito pouco conforto e com a presença constante de carências que hoje nem conseguimos imaginar.

Por mais que os problemas nos atormentem, mantenhamos a confiança num futuro melhor e na capacidade das novas gerações que irão construir esse futuro.

 

Post scriptum: Foi hoje a enterrar o Dr. Santos, um dos mais notáveis "João Semana" que me foi dado conhecer. Estava disponível 24 horas por dia, fosse para quem fosse, independentemente dos meios de fortuna ou da importância social e política dos que o solicitavam. Aos pobres nada levava. É sabido por muitos que, em muitos casos, até tirava do seu magro pecúlio para ajudar os que muito necessitavam.

Chegou a Campo Maior tinha eu nascido há pouco tempo e, até aos meus 30 anos, ele foi o médico que eu gostava de ouvir em todas as questões de saúde que se me deparavam. O meu filho mais velho ainda foi assistido por ele, nas suas breves permanências em Campo Maior.

Este algarvio de nascimento, tornou-se mais campomaiorense de coração que boa parte dos campomaiorenses. Não sei outra maneira mais directa de o homenagear que dizer dele esta frase simples: "Chegou a Campo Maior há mais de 60 anos, muito pobre, e partiu hoje a enterrar no cemitério da terra da sua adopção, tão pobre como chegou".

Não era apenas disponível, era também de um elevado nível de competência. Aos seus conhecimentos de clínico e à sua larga experiência, associava uma especial intuição para perceber as razões psicológicas que, em muitos casos, estavam por detrás dos males físicos de que os pacientes se queixavam.

Gostava muito de o ouvir dissertar sobre a sua vida de médico, o entranhado amor aos pais e a outra paixão da sua vida que eram os touros e as touradas, único vício que o levava a percorrer quilómetros em procura de uma boa faena.

Que repouse em paz, este grande (de corpo e de alma) homem e médico que, embora da idade de meu pai, eu sempre entendi como um grande amigo, capaz de mostrar ternura ralhando, quando entendia que eu não me portava a preceito, como ele desejava.

 

Requiescat in pace, grande amigo deste povo.

 



publicado por Francisco Galego às 20:09
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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