Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

 

 
As más notícias não param de chegar: mais despedimentos; maior dificuldade de obter créditos; reduções drásticas nos consumos; as economias em recessão; os governos sem soluções e incapazes de desenvolver estratégias porque as situações agravam-se tão rapidamente que nem é possível fazer previsões a médio e a longo prazo.
Os estudiosos destas conjunturas de crise costumam considerar que os grandes conflitos sociais ocorrem quando se cruzam duas situações que se desenvolvem em convergência: Os grupos dominantes perdem o controlo político das sociedades e deixam de poder governar; As populações que já perderam a confiança nos que governam, deixam de suportar as condições de vida que lhes impuseram e recusam-se a aceitar a continuação do sistema tal como ele estava constituído, explodindo em movimentos de contestação que exigem a criação de novas condições.
Quando as coisas chegam a este ponto pode-se chegar a uma conjuntura de tal desencanto e desespero que, ao menor pretexto, pode desencadear-se um processo de revolta descontrolada. Assim sendo, os governos têm de encontrar rapidamente soluções e, no vórtice de uma crise, elas não são fáceis de encontrar.
Na verdade, não devemos cair no exagero alarmista de que estamos à beira do colapso total. Mas o momento que estamos a viver dá motivo para sérias preocupações e urge encontrar soluções para o progressivo agravamento da situação. Assistimos ao empobrecimento de grande parte das famílias. A voz pública reclama que os que provocaram a situação continuam instalados no conforto das suas enormes fortunas, por vezes acumuladas por processos fraudulentos. Estes são claros indícios de quebra de confiança do contrato que mantém a estrutura da sociedade.
Quando as pessoas se sentem encurraladas, quando pressentem que já nada têm a perder e se desvanece a esperança de solução adequada, aí podem dar-se as rupturas que fazem colapsar os esteios das sociedades organizadas.
 
Para além destes grandes vectores de estruturação económica da sociedade, há também uma progressiva degradação que vai minando a coesão social.
Os banqueiros que dantes eram tidos como garantes da honestidade, sigilo e segurança que deve regular as actividades financeiras e a gestão dos bens e dinheiros alheios, passaram a ser vistos como manipuladores desonestos, apropriando-se indevidamente dum poder de decisão que não lhes foi concedido, para obterem ilicitamente lucros pessoais. Por ganância, correm riscos que colocam em perigo a estabilidade financeira dos que neles depositaram confiança. Especulam e desenvolvem esquemas enganosos para se locupletarem com lucros conseguidos com o máximo de rapidez e o mínimo de lisura.
Nos tribunais, destinados a aplicar as leis com justiça e equidade, a coisas descambam tantas vezes para processos de duvidosa isenção, que suscitam uma enorme e por vezes fundada desconfiança.
Ao nível das mais variadas acções profissionais, sobretudo das de maior incidência social, têm vindo a crescer os sinais de descontentamento, insatisfação e degradação dos serviços produzidos.
Multiplicaram-se os serviços de saúde, mas as relações entre os profissionais que neles actuam e os utentes não parecem ter melhorado na mesma progressão. Muitas vezes parece ter acontecido uma lamentável desumanização em que apenas a doença é considerada, esquecendo o que devia merecer a sua maior preocupação. Os médicos têm vindo a refugiar-se cada vez mais no tecnicismo das especializações, esquecendo tantas vezes o doente para cuidar apenas da parte da doença que fica no âmbito da sua especialização.
Os professores aferram-se de tal modo na defesa corporativa dos seus direitos que acabam por cair numa concepção tão funcionária do seu estatuto, que fica quase desvanecido o carácter eminentemente social da sua profissão.
Os jornalistas, em tempos idos arautos da verdade, campeões das liberdades, defensores de direitos e denunciantes de injustiças e duvidosas situações, enfronham-se de tal modo num escarafunchar de escândalos a que chamam investigação, que muitas vezes esquecem a sua função de noticiar e explicar os factos para se tornarem apenas emissores de simples opiniões pessoais.
Para além da situação financeira e da conjuntura económica e talvez como pano de fundo e provável causa, há uma crise mais profunda que consiste na galopante degradação moral em todos os sectores da nossa sociedade. Talvez esteja a chegar o tempo de voltarmos a fazer como, noutro tempo de crise profunda, fez Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América: Um New Deal. Ou seja, perdido este jogo, é tempo de baralhar as cartas, distribuí-las de novo para que um novo jogo possa começar.
  


publicado por Francisco Galego às 12:51
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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